Por LEONARDO BOFF

Este, na verdade, sempre
foi o propósito da teologia da libertação. Primeiramente vem a libertação
concreta da fome, damiséria, da degradação moral e da ruptura com Deus. Esta
realidade pertence aos bens do Reino de Deus e estava nos propôsitos de Jesus.
Depois, em segundo lugar, vem a reflexão sobre este dado real: em que medida aí
se realiza antecipatoriamente o Reino de Deus e de que forma o cristianismo,
com o potencial espiritual herdado de Jesus, pode colaborar, junto com outros
grupos humanitários, nesta libertação ncessária.
Esta reflexão posterior,
chamada de teologia, pode existir ou não pois pode não haver pessoas que tenham
condições de exrcer esta tarefa. O decisivo é que o fato da libertação
real ocorra. Mas sempre haverá espíritos atentos que ouvirão o grito do
oprimido e da Terra devastada e que se perguntarão: com aquilo que aprendemos
de Jesus, dos Apóstolos e da doutrina cristã de tantos séculos, como podemos
dar a nossa contribuição ao processo de libertação? Foi o que realizou toda uma
geração de cristãos, de cardeais a leigos e a leigas a partir dos anos 60 do
século passado. Continua até os dias de hoje, pois os pobres não cessam de
crescer e seu grito já se transformou num clamor.
Ora, o Papa Francisco fez
esta opção pelos pobres, viveu e vive pobremente em solidariedade a eles e o
disse claramente numa de suas primeiras intervenções:”Como gostaria uma Igreja
pobre para os pobres”. Neste sentido, o Papa Francisco, está realizando a
intuição primordial da Teologia da Libertação e secundando sua marca registrada:
a opção preferencial pelos pobres, contra a pobreza e a favor da vida e da
justiça.
Esta opção não é para ele apenas discurso mas opção de vida e de espiritualidade. Por causa dos pobres, tem se indisposto com a presidenta Cristina Kirchner pois cobrou de seu governo mais empenho político para a superação dos problemas sociais que, analiticamete se chamam desigualdades, eticamente, representam injustiças e teologicamente constituem um pecado social que afeta diretamente ao Deus vivo que biblicamente mostrou estar sempre do lado dos que menos vida tem e são injustiçados.
Esta opção não é para ele apenas discurso mas opção de vida e de espiritualidade. Por causa dos pobres, tem se indisposto com a presidenta Cristina Kirchner pois cobrou de seu governo mais empenho político para a superação dos problemas sociais que, analiticamete se chamam desigualdades, eticamente, representam injustiças e teologicamente constituem um pecado social que afeta diretamente ao Deus vivo que biblicamente mostrou estar sempre do lado dos que menos vida tem e são injustiçados.
Em 1990 havia na Argentina
4% de pobres.Hoje, dada a voracidade do capital nacional e internacional,
se elevam a 30%. Estes não são apenas números. Para uma pessoa sensível e espiritual
como o bispo de Roma Francisco, tal fato representa uma via-sacra de
sofrimentos, lágrimas de crianças famintas e desespero de paisdesempregados.
Isso faz-me lembrar uma frase de Dostoiewski: ”Todo o progresso do mundo não
vale o choro de uma criança faminta.”
Esta pobreza, tem
insistido com firmeza o Papa Francisco: não se supera pela filantropia mas por
políticas públicas para que devolvam dignidade aos oprimidos e os tornecidadãos
autônomos e participativos.
Não importa que o Papa
Francisco não use a expressão “teologia da libertação”. O importante mesmo é
que ele fala e age na forma de libertação.
É até bom que o Papa não
se filie a nenhum tipo de teologia, como a da libertação ou de qualquer
outra. Seus dois antecessores assumiram certo tipo de teologia que estava
em suas cabeças e se apresentava como expressões do magistério papal. Em nome
disso se fizeram condenações de não poucos teólogos e teólogas.
Está comprovado
historicamente que a categoria “magistério” atribuída aos Papas é uma criação
recente. Começou a ser empregada pelos Papas Gregório XVI (1765-1846) e por Pio
X (1835-1914) e se fez comum com Pio XII (1876-1958). Antes “magistério”
era constituído pelos doutores em teologia e não pelos bispos e pelo
Papa. Estes são mestres da fé. Os teólogos são mestres da inteligência da fé.
Portanto, aos bispos e Papas não cabia fazer teologia: mas testemunhar
oficialmente e garantir zelosamente a fé crista. Aos teólogos e teólogas cabia
e cabe aprofundar este testemunho com os instrumentos intelectuais oferecidos
pela cultura em presença. Quando Papas se põem a fazer teologia, como ocorreu
recentemente, não se sabe se falam como Papas ou como teólogos. Cria-se grande
confusão na Igreja; perde-se a liberdade de investigação e o diálogo com os vários
saberes.
Graças a Deus que o Papa
Francisco explicitamente se apresenta como Pastor e não como Doutor e Teólogo
mesmo que fosse da libertação. Assim é mais livre para falar a partir do
evangelho, de sua inteligência emocional e espiritual, com o coração aberto e
sensível, em sintonia com o mundo hoje planetizado. Que o Papa deixe aos
tólogos fazer teologia e ele presida a Igreja no amor e na esperança. Papa
Francisco: coloque a teologia em tom menor para que a libertação ressoe em tom
maior: consolação para os oprimidos e interpelação às consciências dos
poderosos. Portanto, menos teologia e mais libertação.
Leonardo Boff é autor de
Teologia do cativeiro e da libertação, Vozes 2013.