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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

VIVENDO COM O INIMIGO. VOLTAMOS AO PAPADO-IMPÉRIO?

por Juracy Andrade



O papa alemão Ratzinger, aquele que foi eleito tão rápido pelo conclave cardinalício que “não deu tempo nem de o Espírito Santo chegar” (como dizem algumas línguas ferinas), mantém um secretário que o acompanha desde que imperava no Vaticano, o bispo alemão Georg Gänswein. Tudo bem, eles se entendem e nem precisam se comunicar em italiano. A questão que se põe, sobretudo após o bispo abrir a boca para criticar Francisco, em entrevista a um jornal de sua terra, é que ele acumula as funções de prefeito da Casa Pontifícia, aquele que organiza a agenda papal, no pastorado do papa Bergoglio. Acredito que Francisco tentou manter uma ponte com o outrora grande inquisidor Bento 16.

O bispo Gänswein é modernoso, joga tênis, pratica esqui e é comparado, pelas socialites romanas, ao bonitão George Clooney de Hollywood. Subitamente, ele resolve criticar Francisco, junto ao qual exerce um cargo de confiança. Referindo-se à exortação apostólica de Francisco que tem o título de Amoris laetitia, muito criticada por católicos conservadores, ele afirma: “Quando um papa quer mudar alguma coisa na doutrina, então deve dizê-lo claramente, para que seja vinculativa”. Tece ainda considerações sobre a personalidade de Bergoglio ao dizer que aquilo em que o papa acredita leva até o fim, “sem escrúpulos”, e que ele é um pouco desrespeitoso em relação a seus antecessores.

Antes da entrevista ao jornal alemão (Schwäbische Zeitung), Gänswein já tentara emplacar um “ministério expandido” do papa emérito e do papa de fato. Ao que Francisco, até agora calado sobre a entrevista bombástica, respondeu reafirmando a clara distinção entre o demissionário e o efetivo. As atitudes contundentes de Gänswein talvez se liguem a alianças até agora obscuras. O fato é que muitos fiéis desabituados a pensar com autonomia, que Claudio Bernabucci descreve, em Carta Capital, como “órfãos de certezas dogmáticas e assustados com a imprevisibilidade deste papa”, se sentem representados pelo monsignore alemão. Na verdade, Francisco está diminuindo o “atraso de dois séculos” da Igreja, como falava o falecido cardeal Martini.

Como escreve o teólogo jesuíta Victor Codina, no site Religión Digital (26.05.16), “Francisco inaugurou um novo estilo de exercer o primado romano. Ele não é teólogo profissional e não impõe sua própria teologia, mas é sobretudo pastor, abriu as portas da Igreja para que saia às ruas e cheire a ovelha, que não exclua mas que acolha e seja sacramento de misericórdia [...]”.

PS – No último domingo (28), na igrejinha das Fronteiras, houve celebração eucarística em lembrança dos 17 anos do falecimento de Dom Helder. Estiveram presentes os peregrinos cearenses (ele era cearense) que vêm anualmente celebrar essa data.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

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