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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Marxistas, comunistas, anarquistas. (Reflexões após a vitória de Trump nas eleições americanas)

Por Eduardo Hoornaert



1. Agora que Trump ganhou as eleições para presidente dos Estados Unidos, o quadro das referências políticas fica mais baralhado que nunca. Isso ficou claro na semana passada, quando dois ícones do pensamento da esquerda mundial, o americano Noam Chomsky e o esloveno Slavoj Zizek, divergiram em sua avaliação do significado político dessa eleição. O primeiro declarou que, qualquer que seja o resultado das urnas, Trump é ‘um perigo’. O segundo, pelo contrário, perguntado por quem votaria se fosse americano, respondeu sem pestanejar: ‘por Trump’. Chomsky vê no presidente eleito um perigo, enquanto Zizek vislumbra nele a possibilidade de algo novo, ‘um desafio’.  Como clarear isso?

2. Em momentos como este é recomendável voltar à história, à experiência da história. A história é ‘mestre de vida’ (magistral vitae). Bem o sabemos: o único meio de dizer algo sensato acerca do futuro consiste em aprender com as lições do passado: ‘quem desconhece o passado está condenado a repeti-lo’. A história mostra como é o ser humano, de verdade, para além de filosofias e teorias. Pois esse ser se manifesta na história: ‘contra fatos não há argumentos’. É sinal de bom senso, na situação que atravessamos, recuar um pouco e voltar a um passado frequentemente esquecido, mas que contém lições para nós hoje.

3. Assim convido você a viajar comigo por uns instantes à Rússia czarista, meados do século XIX. Voltar ao tempo em que surgiram, naquele país, termos como ‘marxista’, ‘comunista’ e ‘anarquista’. Entramos num país que nos é largamente desconhecido, mas mesmo assim conseguimos identificar algumas figuras e delinear alguns movimentos. Na Rússia Czarista dos anos 1850 reina a miséria na população, tanto camponesa como operária. Há diversos grupos que se inquietam com essa miséria e procuram uma solução política. Há os seguidores de Karl Marx (1818-1883), de diversas tendências. Há, por exemplo, quem segue a figura de Mikhael Bakunin (1814-1876), que aceita basicamente a análise da sociedade feita por Marx, mas discorda dele na parte operacional.

4. Bakunin concorda com o mestre alemão para dizer que, na sociedade, há oposição sistêmica entre pobres e ricos, uma desigualdade social que gera injustiça, violência e inúmeros sofrimentos. Isso, é claro, tem de ser combatido. Como? Marx é resoluto: há de se conquistar o poder do estado (conquistar o governo). Pelo processo de uma (temporária) tomada de poder por parte dos pobres (dos ‘proletários’), ou seja, de uma ‘ditadura do proletariado’ surgirá a ‘sociedade sem classes’, justa, feliz e digna do ser humano. Bakunin discorda. Ele não acredita que algum tipo de estado (governo), mesmo sendo controlado pelo ‘proletariado’, possa ser instrumento desse ‘bem comum’ (bonum commune, como diz Tomás de Aquino). Bakunin afirma: ‘o estado sempre será o patrimônio de alguma classe privilegiada’. Ele é uma máquina e toda máquina serve para um determinado fim. Fabricado por privilegiados (mesmo sendo oriundos das classes operárias), ele só pode funcionar para privilegiados. O estado é uma máquina cuja finalidade consiste em produzir pessoas que obedecem, normalmente sem entender. Quanto mais perfeita a máquina do estado, mais estúpidas as pessoas que estão presas em suas engrenagens. 

Karl Marx conhece pessoalmente Bakunin, sabe das prisões e torturas que esse sofreu por parte do poder crzarista e manifesta o maior respeito por seu colega. Mas, ao mesmo tempo em que se assusta com a radicalidade de seu pensamento, ele afirma categoricamente que esse tipo de colocação ‘não leva a nada’, é ‘niilismo’, ‘anarquismo’. Não arreda pé e continua dizendo que o ‘proletariado’, explorado pelo poder do dinheiro, tem de se unir e tomar o poder: ‘proletários do mundo inteiro: uni-vos’ (Manifesto Comunista de 1848). A revolução, para Marx, consiste na tomada do poder do estado pela classe operária, representada pelo partido operário, ou seja, um partido formado por operários ou por ‘revolucionários companheiros dos operários’, o partido comunista. A formação desse partido é uma etapa necessária para o alcance da paz social e da prosperidade para todos e todas. Eis a tese básica do marxismo, o dogma marxista.

5. Bakunin, pelo contrário, afirma que o poder efetivamente capaz de beneficiar o povo reside em forças emergentes da sociedade civil, nunca no estado (governo).  Ele tem frases impactantes a esse respeito: ‘Se você pega o mais ardente revolucionário e o investe de poder absoluto, dentro de um ano ele será pior que o próprio Czar’. Por que? A resposta é clara: ‘o ser humano é assim’. Bakunin não parte de considerações teóricas, mas da observação da realidade: ‘o ser humano é assim’. Eis uma constatação que os historiadores gostam de ouvir, pois o estudo da história mostra efetivamente que, ao longo da história, os que conquistaram o poder do estado, por bem-intencionados que tenham sido, se tornaram afinal dominadores. Basta contemplar a história do século XX, onde se alinham as figuras do nazista Adolfo Hitler, do comunista Joseph Stalin, do fascista Mussolini e dos catolicíssimos Salazar (Portugal) e Franco (Espanha). Nazista, comunista, católico, crente ou descrente, tanto faz. Da esquerda ou da direita, tanto faz: todo poder do estado corrompe. E quando esse poder se torna absoluto, a corrupção é absoluta. Escreve o historiador inglês Lord Acton: ‘Todo poder corrompe e o poder absoluto corrompe de forma absoluta’. Bakunin: ‘O estado é a maior e mais ousada de todas as conspirações’; ‘é indesejável, desnecessário e nocivo’; ‘qualquer posição privilegiada mata o intelecto e o coração do homem: o homem privilegiado é um homem depravado no intelecto e no coração’. Eis um tipo de reflexão que nem na Rússia do século XIX nem hoje é do agrado de quem ocupa alguma posição dentro das engrenagens do estado. Não agrada aos grandes meios de comunicação. Por isso não é divulgado. Pois a atuação perniciosa do estado tem de permanecer no escuro para funcionar a contento. Exposta à luz do sol, evapora. No momento em que as pessoas começam a perceber o que se passa realmente, elas reagem contra o estado. Por isso, o estado faz de tudo para se apropriar dos meios de comunicação: a partir do momento em que o público só aceita noticiários partidários (dirigidos à tomada de poder do estado ou emanados desse poder), a repressão de cima se torna supérflua e a estupidez corre solta.

6. Não há como negar: a história está do lado da tese de Bakunin, contra a tese comunista. O maior desmentido histórico da tese comunista veio com as duas Guerras Mundiais do século XX, que a seu modo (por fatos, não por palavras) demonstraram a fraqueza epistemológica da filosofia comunista. Nelas se viram operários combatendo operários, camponeses matando camponeses em massa, com convicção e extrema crueldade, sob o mando de oficiais que pertenciam à classe que segundo o Manifesto Comunista de 1848 é inimiga jurado do operário e do camponês. Os combatentes de ambos os lados, em sua maioria provenientes de classes que Marx define como proletárias, se comportaram 100 % como soldados à serviço da pátria e se mostraram orgulhosos em matar os que o referido Manifesto chamou ‘companheiros’. Eis o que nos ensina a observação dos fatos. Contra fatos não há argumentos: o sentimento nacionalista (patriótico) funciona, a ‘consciência de classe’ não. Bakunin diria: o ser humano é assim, não há jeito. 

6. Os comunistas se encarregaram de qualificar os seguidores de Bakunin (e de outros que pensavam como ele) de ‘anarquistas’. O termo não é bom, pois faz pensar em depor as armas, não querer mais saber de nada, em boemia, individualismo, derrotismo e ‘niilismo’. Mas a realidade expressa pelo termo ‘anarquismo’ não é nada disso. Pelo contrário, é uma atitude ativa e participativa. O anarquismo está ativando movimentos na sociedade civil que clamam por mais saúde, mais educação, mais segurança, mas bem-estar. Nesse ponto, muita gente fica confusa e pensa que, em determinadas circunstâncias, o estado é como um pai bondoso e generoso. Se esse estado se mostra dessa forma, é por ceder diante de forças oriundas da sociedade civil.  Assim por exemplo o famoso ‘Welfare State’ europeu no período pós-guerra mundial. Esse estado ‘do bem-estar’ não agia por força própria, mas era impulsionado por poderosos movimentos socialistas que atuavam na sociedade civil. Após a queda do muro de Berlim, quando o ‘perigo socialista’ parecia não existir mais, o ‘Welfare State’ entrou num processo de gradativo desmantelamento (neo-liberalismo). Nos limites deste artigo não há espaço para desenvolver mais esse tema. Basta dizer que há numerosos casos que mostram que o anarquismo ‘funciona’.

7. Esse tipo de análise, estimulado pelas reflexões de ‘anarquistas’ como Bakunin, ajuda a ver claro num ponto que a tradicional filosofia ocidental não clareia suficientemente. Tomás de Aquino, o mestre medieval, se limitou a dizer que o ‘status’ (estado) tem de servir ao ‘bem comum’. Isso é impreciso demais para ajudar na ação. Precisamos de maior clareza. Precisamos ter em mente que o importante consiste em ativar movimentos de ‘democracia participativa’, ‘movimentos populares’, ‘comunidades de base’, ‘mística popular’, ‘experiências de baixo para cima’, por modestas que sejam, não em tentar conquistar o poder do estado (ganhar as eleições).  Um anarquista relativiza a importância das eleições. A história recente do PT é eloquente nesse ponto. Quando o partido chegou ao poder, aconteceu exatamente o contrário do que muitos militantes esperavam: em vez de ativar os movimentos populares, a conquista do estado fez com que os movimentos populares depusessem as armas, pensando que tinham ‘alguém lá em cima’ que os representava. A conquista do poder do estado paralisou (ou pelo menos enfraqueceu) os movimentos na sociedade civil.

8. Hoje, em dias de incertezas e dúvidas, percebemos melhor o valor do pensamento de gente como Bakunin. Não é por nada que, nas mais variadas formas, seu pensamento combina com movimentos que atuam desde tempos imemoráveis na história da humanidade. Estudos históricos mais aprofundados mostram que, sob as mais diversas formas, o ‘anarquismo’ já foi praticado por sábios chineses do século VI aC (corrente ligada ao taoísmo), por filósofos cínicos na Grécia (Diógenes) e talvez por uma figura que nos é muito próxima: o camponês Jesus de Nazaré. Um dos melhores livros recentes sobre Jesus o apresenta como ‘um camponês cínico’ (Crossan, J.D., O Jesus histórico: A Vida de um Camponês judeu do Mediterrâneo, Imago, Rio de Janeiro, 1994). Jesus não lutou para alcançar o poder do estado (nesse sentido não era ‘revolucionário’), mas atuou na sociedade civil, entre camponeses. Aliás, como explicar 1968 em Paris, 2014 em São Paulo, Occupy nos EEUU, Podemos na Espanha, Syriza na Grécia, as atuais ocupações de colégios e universidades no Brasil, sem recorrer ao anarquismo (no sentido descrito neste artigo)? Esses movimentos não são ‘da esquerda’ nem ‘da direita’, são expressão da vontade do ‘povo’, de ‘pessoas comuns’, da ‘sociedade civil’. Essa vontade encontra de vez em quando expressão nos escritos e nos posicionamentos de gente famosa como no passado Jean-Jacques Rousseau ou Pierre-Joseph Proudhon (1840) ou, nos nossos dias, o astrofísico Hawking ou o linguista Noam Chomsky. E se o Papa Francisco fosse um ‘anarquista’?


9. Isso nos leva de volta à vitória de Trump nos EEUU. Concordo com Zizek: Trump é um desafio para os movimentos da sociedade civil, ‘movimentos populares’, como os que o Papa Francisco procura animar neste momento (veja meu blog ‘A Teologia do Povo do Papa Francisco’). 

 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/



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