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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019



Por Marcelo Barros

O que adianta a ONU consagrar a cada ano o 20 de fevereiro como dia mundial da justiça social se aceita que a desigualdade social e econômica seja cada vez mais escandalosa e brutal? Não é possível se esperar justiça social em um mundo no qual 60 famílias possuem o equivalente à renda de mais de três bilhões de pessoas, isso é, a metade de toda a população mundial. Na América Latina, na primeira década desse século, alguns governos progressistas e mais ligados aos pobres conseguiram diminuir a pobreza e reduzir a desigualdade social. Na segunda metade dessa década, por eleições mais ou menos democráticas, ou através de golpes de Estado, o Império e seus aliados conseguiram retomar o poder no continente. A partir de então, todos os índices sociais se agravaram com o aumento da pobreza e da desigualdade social.   
Há nove anos, em Caracas, o presidente Hugo Chávez fundava a  CELAC, Comunidade de Estados da América Latina e Caribe. Era uma comunidade de 33 países independentes. A CELAC representa quase 600 milhões de pessoas, habitantes da América Latina e Caribe. Ali se discutiam os problemas que afetam o mundo e especificamente a América Latina e Caribe. Integrava-se com outros organismos como a ALBA (Aliança Bolivariana Latino-americana) para a integração econômica dos países e a UNASUL, União das Nações da América do Sul. A primeira providência dos novos governantes de direita, assim que assumiram o poder no Paraguai, no Brasil, na Argentina, no Equador e em outros países, foi esvaziar e destruir os organismos de integração continental para retomar a relação de dependência e subserviência ao patrão imperial.

A eles pouco importa que a pobreza extrema atinja atualmente quase 10% da população latino-americana e chegue a quase 20% no Caribe. O Haiti continua o país mais pobre do continente e é um dos dois mais empobrecidos e explorados do mundo. Além disso, apesar de que o continente tem uma das maiores quantidades de terras cultiváveis e férteis do planeta, atualmente serve como palco de imensa destruição da natureza, provocada pelas empresas de mineração. Afinal, 65% das reservas de todo o lítio do mundo estão na Bolívia e Peru, assim como as maiores reservas de estanho. O Brasil guarda uma das mais ricas reservas de ferro, o Chile é um imenso depósito de cobre. O México tem 42% das minas de prata do mundo. Mas, embora não sejamos de nenhum modo favoráveis à destruição dos territórios para fins de mineração, o pior ainda é que tudo isso está servindo apenas para enriquecer empresas multinacionais e uma pequena elite que delas se beneficiam. Não resultam de modo algum em melhoria de vida para a população do país, menos ainda para os trabalhadores explorados nessas minas. Acima de tudo, é catastrófica a destruição das florestas, terras férteis e rios que abastecem de água regiões inteiras do país. No dia 25 de janeiro, o rompimento da barragem de dejetos da Vale do Rio Doce em Brumadinho, MG,  nada teve de acidente. Era uma tragédia prevista e anunciada. Apesar de saber dos riscos, a empresa preferiu ganhar dinheiro sobre a destruição de toda a natureza em uma imensa região afetada e a perda de centenas de vidas humanas. 

Há décadas, Eduardo Galeano escreveu “As veias abertas da América Latina” para denunciar a situação de exploração da terra e dos povos do continente, assim como a dependência que mantínhamos em relação aos impérios do mundo. Atualmente, com a atual investida do Império, a dominação das empresas multinacionais que ditam as leis do mercado e governos que não representam as maiorias da população, as veias da América Latina continuam abertas e sangrando. Mais do que isso: estão sendo objeto de verdadeiro processo de vampirização, bem simbolizado nos antigos filmes de terror.

Nossa única esperança é que a própria sociedade civil e as suas organizações sociais se unam e articulem em uma ação cidadã para velar por estruturas mais justas. É urgente a consolidação de processos que fortaleçam a articulação das diversas categorias de trabalhadores/as, em vista de uma forma nova e alternativa de organização social e de democracia participativa.

Nas Igrejas cristãs, apesar dos setores que, em nome de Deus, se aliam à direita e aos que oprimem os pobres, a palavra de Jesus no evangelho continua ecoando e provocando mudanças: “O sopro divino veio sobre mim e me envia a anunciar a libertação de todas as pessoas oprimidas” (Lc 4, 14ss). A luta pela justiça social só se dará de verdade a partir da libertação que, como afirmaram os bispos católicos em Medellín (1968) é “libertação de cada pessoa humana em todas as suas dimensões pessoais e libertação de toda a humanidade (Med. 5, 15).


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

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