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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

A mais revolucionária proposta de Jesus

 Marcelo Barros


 

Nestes dias, de 11 a 15 de novembro, em Olinda e Recife, a Igreja Católica realizou o XVIII Congresso Eucarístico Nacional, reunindo milhares de pessoas em grandes celebrações, um simpósio teológico e outras atividades para aprofundar o sentido da Eucaristia. Os Congressos eucarísticos surgiram a partir do século XIX, em outro contexto histórico. Nasceram ligados à devoção eucarística e à preocupação de manifestar publicamente ao mundo a fé na presença de Jesus no pão consagrado. 

A partir do Concílio Vaticano II (1962- 1965), a Igreja Católica mudou a visão sobre a sua missão no mundo e o sentido da eucaristia. O Concílio nos fez aprofundar os evangelhos. Estes nos mostram que Jesus retoma a Páscoa judaica e a atualiza. Na Páscoa, como todo o povo de Deus, Jesus celebra a memória da libertação da escravidão do Egito, mas a radicaliza o mais que pode. Propõe a partilha do pão e do vinho, como expressão do mandamento novo que dá aos discípulos/as: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 13, 34).

Os apóstolos e muita gente do povo esperavam que ele cumprisse a função política de libertar Israel do domínio romano. Jesus frustrou essa expectativa. Centrou a sua atividade profética contra a religião ritual do templo e propôs uma libertação que não parte de armas e sim de uma transformação interior no modo de ser das pessoas e das culturas que suscita relações comunitárias de igualdade, comunhão de bens e cuidado recíproco.  

De acordo com os evangelhos, na noite em que seria preso e condenado, Jesus ceia com os discípulos e discípulas. Ali, revela o sentido profundo da entrega da sua vida e pede que ao partilhar o pão e o vinho na refeição, a comunidade faça a memória da Páscoa e aceite doar a sua vida.

Assim sendo, a veracidade da eucaristia não consiste apenas na fidelidade material ao rito. O gesto litúrgico deve corresponder à verdade da vida. Provavelmente, por isso, o quarto evangelho, no lugar de contar a instituição da eucaristia, descreve que, na ceia, Jesus lava os pés dos discípulos e manda que isso seja feito por todos, uns com os/as outros/as.

O Concílio Vaticano II recuperou a dimensão comunitária da eucaristia. Como dizia Santo Agostinho: o pão é o sinal da comunidade que é o corpo de Cristo. Hoje, cada vez mais a Igreja se dá conta de que a relação entre celebração e  vida é desafio permanente. Se a comunhão da eucaristia não leva às pessoas a um novo modo de organizar a vida, baseado na partilha,  a celebração perde muito da sua veracidade.

Este XVIII Congresso Eucarístico aconteceu em um momento do Brasil, no qual uma onda de mentiras e notícias falsas amedrontou comunidades católicas e protestantes com a ameaça do Comunismo. Pelo medo irreal de que templos sejam fechados e leis morais da Igreja desobedecidas, não poucos pastores e fieis deram ao mundo o triste testemunho de uma Igreja não amorosa e nada solidária com os mais empobrecidos. Provavelmente, muitos dos padres e católicos que se posicionam a favor do autoritarismo e da violência não percebem que essa cruzada contra o fantasma do comunismo contém uma postura extremamente anti-eucarística, já que é discrimanatória e pouco amorosa.

A eucaristia exige de nós o cuidado de não desligar o rito da proposta eucarística de Jesus que é a de um mundo renovado a partir do amor solidário, em uma sociedade sem armas e sem discriminações sociais, inclusiva e aberta a todos e todas. Ao escolher como tema deste Congresso “Pão em todas as mesas”, como canta uma de nossas mais belas canções, a Igreja Católica no Brasil assume a proposta feita pelo papa Francisco no 52º Congresso Eucarístico em Budapeste: “A celebração da Eucaristia deve gerar uma cultura eucarística, porque impele a transformar em gestos e comportamentos de vida a graça de Cristo que se doou totalmente. (…) A Eucaristia deve se traduzir em cultura eucarística, capaz de inspirar os homens e as mulheres de boa vontade nos âmbitos da caridade, da solidariedade, da paz, da família e do cuidado com a criação” (Cf. https://pontosj.pt/especial/por-uma-cultura-eucaristica/).

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b


 

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