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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

ENTRAR NO ANO NOVO



por Frei Betto

         Inicia-se mais um ano. Hora de relembrar, examinar, avaliar. E fazer propósitos para os próximos doze meses: comer menos, fazer exercícios, ser mais generoso, esbanjar elogios, votar nas eleições municipais em quem realmente se dedique a assegurar qualidade de vida à população... Dentro do coração latejam anseios de vida e mundo melhores. Como alcançá-los?
         Quem sou eu para dar conselhos! Conheço o tamanho de minhas falhas, a dimensão de meus erros. Nem por isso deixo de partilhar com os leitores meia dúzia de opiniões que, se carecem de fundamento, ao menos aquecem o debate.
         Saudade. Vocábulo português sem similar em muitos idiomas. De que temos saudades? Do amor perdido? Da infância feliz? Do parente falecido? Sim, mas sobretudo de nós mesmos.
         Talvez o fim e o início do ano sejam os momentos em que mais aflora a disposição de fazer exame de consciência. Saudade de estar exilado do que realmente sou. Tem saudade de si quem anda exilado do que realmente é. Corre-se o risco de ter como epitáfio o verso de Fernando Pessoa: “Fui o que não sou”. Não quero ser o que não sou. Mas admito a pertinência das palavras do apóstolo Paulo: “Faço o que não aprovo; pois o que aprovo não faço” (Carta aos Romanos 7,15)
         É hora de pagar o nosso resgate. Livrar-nos da condição de refém insatisfeito de nossos próprios vícios e incoerências. Resgatar-se é empreender árdua jornada rumo à própria interioridade. Não apenas como fez De Maistre dentro do próprio quarto. Mas ir aonde reside a verdadeira identidade – ao mais profundo de si.
         Como fazê-lo? O processo psicanalítico é, nesse caso, de grande valia. Entretanto, implica recursos nem sempre ao alcance de todos. Faço, pois, singela proposta: meditar. Eis um caminho viável a todos. Bastam disposição e tempo. Vontade e método.
         Lido há anos com grupos de oração. Com eles aprendo lições importantes concernentes à meditação. Não existe um único método. São tantos quantos os meditantes. Cada pessoa deve descobrir e desenvolver o método que lhe convém: sentado ou andando, de olhos fechados ou entreabertos, ao acordar ou no fim da tarde, em silêncio ou ao som de uma suave melodia, concentrado no mantra ou na respiração etc.
Um detalhe é importante: reservar tempo à meditação, assim como se faz à refeição, ao sono e ao banho. Sem criar na agenda espaço específico para isso, fica difícil.
         É preciso ter disposição. Saber “perder tempo”. Livrar-se da ideia utilitarista de que “tempo é dinheiro”. Mergulhar, por um momento, no saudável espaço da ociosidade espiritual. Disposição significa disciplina. Não se medita sem se dar tempo.
         Aos iniciantes recomenda-se marcar no relógio um tempo mínimo de meditação. Sugiro 20 minutos. Enquanto o despertador não soar, não mude a postura escolhida para meditar. Aos poucos, aumenta-se o tempo, na mesma proporção que se consegue esvaziar a mente e centrar a atenção no plexo solar, embebendo-o da presença inefável de Deus. Ou do Vazio.
         O que fazer para melhorar o mundo? Há pequenos gestos, como observar normas de lixo seletivo, economizar água e energia, plantar árvores e defender a preservação do meio ambiente. Há gestos mais amplos, como associar-se a um esforço comunitário, seja em igreja, sindicato, clube, ONG ou iniciativa voltada à responsabilidade social. Vínculos de solidariedade se estreitam através de trabalhos voluntários, lutas partidárias, pressões sobre o poder público ou denúncias de abusos de empresas, como anúncios lesivos às crianças ou produtos com altas doses de substâncias prejudiciais à saúde, como embutidos, transgênicos e placas de amianto.
O mundo é o que dele fazemos. E nele interferimos por participação ou omissão. Não existe neutralidade. Isso vale para a nossa saúde pessoal e coletiva. A indiferença não faz a diferença.


Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros.

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