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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

POR BAIXO DA POEIRA: A IDENTIDADE DE JESUS




por Kinno Cerqueira [1]

Há dois mil anos, um camponês andou empoeirando os pés nas terras da Palestina. Na oficina de seu pai José, aprendeu um pouco de artesanato e na companhia de sua mãe Maria, aprendeu a cantarolar as cantigas de libertação que ela tanto cantava. Não conseguiu sucesso como artesão nem como cantor, mas soube integrar o ofício de artesão do pai ao gosto musical da mãe: tornou-se um artesão de sonhos, de utopias, de esperanças, fazendo de sua própria existência uma cantiga de revolução ao ritmo do amor. Que menino danado!

Como se não bastasse, descobriu-se com vocação para ser profeta. É que andou lendo demais o livro de um tal de profeta Isaías e, como reza um antigo provérbio: “Dizes-me o que andas lendo e direi o que tu serás”. Assim aconteceu com o menino-rapaz: quando se deu conta, já estava tomado pelas ideias revolucionárias do Isaías e não conseguia mais pensar noutro assunto que não fosse a instauração de um grande projeto de amor que revolucionasse o mundo a partir dos pobres e pequenos.

Após arregimentar mulheres e homens em torno de suas ideias, começou a peregrinar pelas cidades e aldeias de seu país, como também do exterior, anunciando que a vida poderia ser vivida de uma maneira nova. Queria um mundo sem pobreza e miséria. Queria transformar os terrenos pedregosos em jardins floridos. Algumas pessoas se mostraram simpáticas perante suas ideias; outras, porém, odiaram-nas. Nem todos gostam de jardins!

O menino-rapaz se reunia com os excluídos frequentemente. Suas reuniões soavam como uma espécie de conspiração contra a cúpula religiosa que figurava como o principal braço do governo opressor. Seus opositores tinham certa razão, pois as suas reuniões que aconteciam sob o pretexto de refeições comunitárias eram, na verdade, encontros de conscientização política. Ali, enquanto convivia com os excluídos, procurava deixar claro que o rosto de Deus desenhado pela cúpula religiosa era, na verdade, uma grande farsa com fins desonestos.

Contrariando os interesses dos poderosos, principiou uma política de saúde pública. O diagnóstico foi este: as histerias e enfermidades eram o reflexo da opressão religiosa e política perpetrada pelos donos do poder e que, por isso, o fundamentalismo religioso, aliado ao governo injusto, era o principal câncer social. A solução é radical: romper com a lógica de dominação que estratifica, estigmatiza e explora para viver segundo a lógica do amor que cura, restaura e vivifica.

O movimento popular liderado pelo profeta Jesus conquistou o ódio dos chefes da religião, os quais se reuniram sucessivas vezes para discutir as medidas a serem tomadas para acabar com a militância de Jesus. A maioria decidiu que a solução seria assassinar o líder do movimento.  Assim, em conluio com vários grupos reacionários e com o governo imperial, a elite religiosa tramou e executou o assassinato de Jesus mediante crucificação, estilo de condenação reservado para revolucionários e insurgentes.

O profeta foi posto no túmulo. Os poderosos saltavam de alegria, dizendo: “Vencemos! A força está conosco”.  Enquanto isso, os pobres choravam e pensavam: “Mais uma tentativa frustrada! Que será de nós agora?”. Não sabiam eles que a voz de um verdadeiro profeta não pode ser sepultada. Jesus ressuscita no coração dos discípulos e discípulas. Ele vive nas pessoas que se arriscam a viver como ele viveu e a tomar o lado que ele tomou. Ele habita os corações que pulsam pela transformação do mundo; é parceiro do povo que luta; é amigo e camarada do povo camponês, dos trabalhadores, dos sem teto, dos índios, dos negros, dos LBGTI’s e de todos os marginalizados.  

Por mais que tentem ocultar sua identidade sob a poeira dos religiosismos, o hálito de Deus sopra a poeira para que o mundo redescubra quem é Jesus. Jesus, o artesão do amor, é profeta que anuncia o Reino de Deus, quer dizer, uma nova maneira de ser-no-mundo na qual prevalece a liberdade guiada pelo amor enquanto serviço e compromisso com os pobres, contra a pobreza e pela justiça.

Redescobrir a identidade do profeta Jesus é reencontrar o caminho para um mundo novo, pois sua face interpela, inspira e encoraja a transformar pedreiras em jardins floridos e a fazer da vida um belíssimo poema de amor nos lábios do tempo.

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

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