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domingo, 25 de junho de 2023

MUNDÚTERO

 

Kinno Cerqueira [1] 


 

Tenho a sensação de que vivemos tempos mortos. Não é um tempo de paixões. É um tempo de marasmos. É um tempo de contínuos. É um tempo de distrações. Há algo que ainda faz nosso coração arder? Onde estão os temas que habitam a nossa carne e fazem nossa língua tremer? O tempo dos autores preferidos passou. Procuro, e quase nunca encontro, pessoas que tenham sido abaladas por um texto, por uma música, por uma peça teatral ou por uma história que tenham ouvido em alguma esquina. Parece que vivemos tempos sem acontecimentos. É um tempo em que quase nada vai além da esfera do estritamente banal e costumeiro. É um tempo em que rareiam olhos capazes de brilhar.

Sou um teólogo: é assim que me sinto e é esta a única designação que não me causa desconforto. Sou teólogo porque me vejo ininterruptamente às voltas com as questões em relação às quais as teologias foram sendo fabricadas. Fernando Pessoa, no Livro do desassossego, escreveu que “existam ou não existam os deuses, deles somos servos”. Não sou teólogo porque professo fé na existência ontológica de um ser divino. Sou teólogo porque minhas angústias e meus prazeres são inelutavelmente atravessados por Deus, quer ele exista ou não. Pensei em grafar seu nome com inicial minúscula. Mas eu seria hipócrita se o fizesse. Afinal, como dar uma minúscula a quem, exista ou não, teve e tem um papel tão maiúsculo na composição de minha biografia?

Eu paro e sento e miro o horizonte pela janela e pergunto-me se não seria hora de escrever alguns de meus pensamentos e deixar que o jorrar de seu fluxo interrompa a sequência de tempos mortos em que nos metemos todos. Mas os pensamentos meus são simples e calmos e decerto, uma vez fora de mim, não sobreviveriam às condições inóspitas desses tempos mortos que são incapazes de se alegrar com o nascimento do que quer que seja. Estes tempos mortos matam tudo o que não seja sua réplica e sua duplicação pura e simples.  

Sofri terrivelmente ao descobrir que amo mais os mortos que os vivos. A minha vida tornou-se doce como o mel de flor quando aceitei minha orientação passional. A minha descoberta foi a maior de toda a minha vida: entre os mortos não há tempos mortos. Eu não trocaria essa minha descoberta por nada. Ela é meu único tesouro. Descobri um mundo abandonado ao qual me posso abandonar numa conversa sem fim. Falo de um “mundútero”: um mundo que não mata nem se entristece com nascimentos, um mundo que abraça e fecunda. Um mundo que existe para produzir os frutos da sedução e do prazer. O único mundo que me interessa. O mundútero é um mundo de tempos vivos.

 

[1] Teólogo e Pastor Batista. Assessor de coletivos ecumênicos na área dos estudos bíblico-teológicos.

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

AS PALAVRAS

 


Kinno Cerqueira [1]

 

 

As palavras. Procuro-as como um corpo tremulante de frio busca uma coberta.

 As palavras. Desejo-as com a intensidade com que os meus lábios se apertam quando fitam meus olhos as tesas cumeeiras de seios em dias frios.

 As palavras. Como-as como quem frui o último café no último minuto da última primavera da vida.

 As palavras. Dão-se-me. Na seca, me dessedentam o paladar. Quando de muitas águas, fazem dos meus lábios deserto e do meu existir, divagação.  

 As palavras. Dançam-me. O ritmo imprevisto inaugura à meia-luz o entrelaçar de dedos sem fim, ponteiros que galopam imóveis qual lua pintada nos chaveados diários dos amantes.

 As palavras. Metamorfoseiam-se. Naquele ontem, amargura, amargor. Hoje, esquivas de amargar, apenas amar o mar.

 As palavras. Deslizam-me os sentidos. As travessias eram, na verdade, travessuras. O meu pudor, ah, parece que mo levaram sem dizer para onde.

As palavras. Custa crer que se podem fazer carne, a carne é que se faz palavra.  No princípio era o corpo, e o corpo se fez palavra.

 As palavras. Balanços coloridos sob floridas laranjeiras. A fixidez não lhes é possível – nem as seduz. É seu ir-e-vir que faz irromper chuvas de flores.

 As palavras. Vejo flores a cair, a chover. Eis que brinco sob laranjeiras...

 

[1] Pastor batista, biblista e assessor do CEBI na área de estudos bíblicos.

 

 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

SOBRE A LEITURA DA BÍBLIA: UMA MEDITAÇÃO

  


Kinno Cerqueira [1]

 

Tenho a impressão de que a Bíblia é o livro menos lido no mundo. Alguém que esteja em posse de certos dados estatísticos dirá, com toda razão, que incorro num contrassenso. Afinal, a afirmação de que a Bíblia é o livro mais vendido, distribuído e lido no mundo tornou-se proverbial em nosso tempo. E os colportores incumbidos de salvar o mundo orgulham-se do sucesso de seu trabalho...

Que significado os estatísticos e colportores dão ao verbo ler? O mais simplório (im)possível, é claro. Absolutamente seguros de sua insuperável precisão conceitual, nomeiam de leitura a reprodução mecânica da combinação dos sons silábicos que compõem as palavras do texto bíblico. Vamos rir ou chorar? Vocês decidem.

Há duas circunstâncias que frequentemente levam uma pessoa a entrar em contanto com a Bíblia. A primeira é quando um evangelista/catequista lhe oferta uma Bíblia durante um processo de investidas proselitistas. A segunda se dá quando alguém, rompendo com o cristianismo de tradição católica, adere a uma igreja protestante, onde recebe uma Bíblia ou é aconselhado a comprar uma.

Nos dois casos, a Bíblia já aparece lida e interpretada. No primeiro, a pessoa recebe a Bíblia como signo da verdade absoluta à qual é interpelada a submeter-se. No segundo, como Palavra de Deus que lhe é dada como sinal de sua supremacia frente a quaisquer expressões religiosas que ocorram fora do limiar de sua nova igreja. 

Não raras vezes, apresenta-se um “plano de leitura” para que, no decurso de um ano, as pupilas crentes conheçam a verdade absoluta, nas filigranas, da primeira à última página, sílaba a sílaba. O critério para aferir a precisão da leitura é o grau de concordância entre esta e a nefasta obtusidade do pastor da igreja. E assim a leitura acontece, com aquela liberdade que é tão própria de marionetes sob mãos de marionetistas.  

A minha proposta é que, a partir de hoje, não se diga mais que a Bíblia é o livro mais lido no mundo. Não se exasperem comigo, senhores estatísticos, colportores, evangelistas e pastores, pois eis que lhes proponho uma alternativa mais honesta: a Bíblia é o livro mais silabado do mundo.

Ler é um ato hermenêutico, ou seja, um processo interpretativo, e a liberdade lhe é condição de genuína realização. Hipotecar a liberdade hermenêutica em função de uma leitura “correta” é o mesmo que vendar os olhos para não errar o caminho. Hipotecada a liberdade e vendados os olhos, resta fiar-se em decisões alheias.

A leitura ocorre quando o leitor se assume como sujeito, isto é, quando o leitor se emancipa em relação ao discurso do outro, libertando-se da condição de subalterno, abjeto, dejeto. A leitura crente, que não passa de uma insossa silabação, é um processo de afirmação da subalternidade, de adesão à obtusidade, de embrutecimento do espírito, de suspensão do pensamento próprio, de sacrifício das retinas no altar da obediência.

Até quando se levará adiante tamanha brutalidade psíquica? Até quando se torturarão as subjetividades sob o signo da Bíblia? Até quando quisermos. Até quando dissermos que basta. Até quando retirarmos nossas cabeças de debaixo das solas que nos esmagam. Até quando a rebeldia nos for mais doce que a obediência. Até quando nossos olhos amarem mais a policromia do mundo que o preto e branco da religião. Até quando ler for um salto de liberdade nos abismos do espanto poético, da beleza que redime, da vida que se reticencia... Até quando a ninguém for dada a última palavra.

 

[1] Pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) para a área de estudos bíblicos.

 

quarta-feira, 24 de março de 2021

O ASPECTO TEOLÓGICO E SOCIAL DA CFE 2021[1]

 Kinno Cerqueira [2]


 

A Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2021 é uma colcha entretecida por fios coloridos e diversos. Hoje, tocaremos brevemente em dois desses fios: o teológico e o social.

Quando observamos cuidadosamente esses dois fios, percebemos que eles se apresentam tão entrelaçados, que não é possível separá-los, embora teimemos em distingui-los para, assim, melhor compreendê-los – em condições reais, o teológico é social e o social, teológico.

À medida que eu deslizava minhas mãos sobre esses dois fios e tentava compreender suas amarrações e seus arremates, percebia que esses dois fios da CFE, o teológico e o social, dão muito o que pensar e o que fazer. Todavia, para não nos demorarmos demasiadamente em divagações, decidi apresentar-lhes o que me subiu à mente em duas despretensiosas teses, uma para cada fio, seguidas, respectivamente, de brevíssimas anotações: 1) tese sobre o fio social: a CFE 2021 é uma contracampanha; 2) tese sobre o fio teológico: a CFE 2021 é uma teologia da paz.

A CFE 2021 como contracampanha. Desde 1500, estas terras que chamamos de Brasil gemem sangrando sob a Campanha da Perversidade. As etapas dessa Campanha da Perversidade podem ser distinguidas de diversas formas. De maneira provisória, eu lhes sublinharia quatro fases dessa Campanha da Perversidade: 1ª) a colonização; 2ª) a escravidão; 3ª) a ditadura militar; e 4ª) o bolsonarismo.

Em todas essas fases, houve movimentos de resistência e, entre uma fase e outra, existiram curtos intervalos de abrandamento das perversidades. A CFE 2021 insere-se na tradição dos movimentos de oposição à Campanha da Perversidade que, diga-se de passagem, sempre contou com o apoio majoritário das igrejas cristãs.        

A CFE 2021 como uma teologia da paz. Nas entrelinhas do texto-base da CFE 2021, nota-se um esforço por recuperar e atualizar uma das tradições bíblicas mais fundamentais: o sonho da paz. Por um lado, a CFE 2021 desmascara e repudia a falsa paz, aquela que é a tranquilidade dos que se regalam à custa da exploração do povo e da terra e que sempre contam com a bênção das igrejas para a lubrificação de seus instrumentos de perversidade, quais sejam, o antropocentrismo, o patriarcado, a heteronormatividade, a misoginia, o racismo, a homotransfobia... Por outro lado, a CFE 2021 resgata e apresenta criativa e comprometidamente o shalom bíblico, isto é, a paz como construção da harmonia cósmica a partir da justiça (Is 32,17).  

A Bíblia, no lugar de conceituar o shalom, pinta-o com palavras: as nações e os povos convertendo “suas espadas em relhas de arado e suas lanças, em podadeiras” (Is 2,4), o lobo e o cordeiro habitando juntos, o leopardo e o cabrito dormindo lado a lado, o leãozinho e bezerro vadiando juntos, a vaca e a ursa dividindo a mesma campina e suas crias dormindo juntas, a criança de peito brincando à entrada da toca da cobra e a criança pequena guardando sua mão no interior da toca da serpente... e ninguém faz mal a ninguém (Is 11,6-9). 

E se a CFE proclama que “Cristo é nossa paz” (Ef 2,14), é porque reconhece Jesus de Nazaré como um ser humano que, por ter vivido radicalmente essa tradição do shalom, nos aparece como uma grande inspiração a que também nos convertamos em construtores e construtoras da paz.      

Como esses dois fios da CFE 2021, o social e o teológico, não se arrematam nem se amarram em um só ponto da colcha, contento-me em terminar dizendo que esses dois fios da CFE 2021 são fortemente fracos e fracamente fortes para alinhavar sonhos e entretecer um mundo novo, a começar por nós.     

 

 

[1] Texto apresentado como mote para uma roda de diálogo durante encontro do CEBI Metropolitano do Recife, em fevereiro de 2021.

[2] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

 

    

 

 

sábado, 20 de março de 2021

“FRATERNIDADE E DIÁLOGO: COMPROMISSO DE AMOR” – POR UMA MÍSTICA DAS INSIGNIFICÂNCIAS [1]

 

Kinno Cerqueira [2]


 

 

Introdução

O tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2021 faz jus às intuições mais profundas do Evangelho de Jesus de Nazaré. Durante nossa conversa, eu gostaria de abordá-lo sob a perspectiva de “uma mística das insignificâncias”. Para fazê-lo, preciso, porém, efetuar um recuo ou abrir um parêntese que nos permita refletir sobre algumas questões que subjazem sutilmente à CFE e seu tema.

 

Por um diálogo a partir das dessemelhanças

As teologias católicas e protestantes conservam semelhanças e dessemelhanças entre si. No transcurso de uma Campanha da Fraternidade Ecumênica, como esta que ora vivemos, testemunhamos um grande esforço para firmar um diálogo fraterno entre as tradições católica e protestante por meio da evidenciação e da valorização dos aspectos teológicos comuns a estas duas tradições, sendo as diferenças teológicas postas em segundo plano ou anexadas à lista de assuntos proibidos. Nesta perspectiva, as semelhanças são concebidas como condição fundamental para a realização do diálogo fraterno, enquanto as dessemelhanças lhe são uma ameaça a ser evitada.

Evidenciar e valorizar as semelhanças entre as tradições católica e protestante constitui um esforço necessário e louvável. Todavia, pergunto-me se a fuga das dessemelhanças não superficializa ou, pior ainda, falsifica o diálogo. Notadamente, o ecumenismo que conhecemos está mais voltado para a construção de uma narrativa midiática – que se adeque ao politicamente correto – do que para a instauração de um genuíno diálogo entre corações. Por conta disto, as CFEs, não obstante seu inestimável valor, revelam-se profundamente ambíguas: por um lado, evidenciam as semelhanças entre as tradições católicas e protestante e promovem um suposto diálogo; por outro, mascaram as dessemelhanças existentes entre essas tradições e, consequentemente, superficializam o diálogo, impedindo-nos de fazer uma experiência de alteridade que resulte em fecundas sínteses.

A minha intuição caminha num sentido um pouco distinto do que costuma impulsionar o diálogo entre as tradições católica e protestante: desejo que dialoguemos a partir das dessemelhanças entre essas tradições, precisamente sobre uma dessemelhança teológica que julgo ser de fundamental importância para o aprofundamento da fé – entenda-se fé como nossa resposta concreta ao evangelho de Jesus de Nazaré.

 

Um ponto de dessemelhança: as dimensões da fé

“A teologia não é Deus”: eis uma proposição ao mesmo tempo sabida e desconsiderada. Todas as teologias, inclusive aquelas que produziram nossos credos, catecismos e concílios, são compreensões e discursos humanos sobre (as revelações de) Deus. Visto que o ser humano sempre sente, compreende e discursa a partir de sua condição subjetiva e histórica, as teologias refletem, em grande medida, o espírito do tempo em que foram formuladas [3].

As teologias católica e protestante apresentam-se, cada uma por sua vez, como um conjunto de tendências que se encontram e se desencontram, de tal modo que, ao invés de falarmos em teologia católica e teologia protestante, seria mais honesto pluralizarmos estas palavras, dizendo assim: teologias católicas e teologias protestantes. Porém, a despeito da reconhecida pluralidade teológica das tradições católica e protestante, arrisco dizer-lhes que, em alguns aspectos, é perfeitamente possível distinguir as teologias católicas das teologias protestantes, e vice-versa. E tais aspectos diferenciadores tem que ver com as condições subjetivas e históricas em que tais teologias formularam suas linhas mestras.

Uma análise comparada das teologias católicas com as teologias protestantes deixa ver várias dessemelhanças entre estas duas grandes tradições cristãs. Dentre essas dessemelhanças, destaco uma: a compreensão sobre as dimensões da fé – e insisto:  entenda-se fé como nossa resposta concreta ao evangelho de Jesus de Nazaré.

As teologias católicas carregam em si a inapagável experiência política da igreja mater et magistra (mãe e mestra), enquanto as teologias protestantes nascem num contexto de transição da Idade Média para a Modernidade, um tempo marcado pela realocação da religião no âmbito privado e pela ênfase na consciência individual. Disso resulta que, por um lado, as teologias católicas acentuam a dimensão comunitário-política da fé, ao passo que as teologias protestantes, por outro lado, enfatizam a dimensão “pessoal” da fé [4]. Noutras palavras: se o horizonte da tradição católica é a igreja universal e o mundo como um todo, os olhos protestantes estão voltados para a pessoa isoladamente ou, quando muito, para a igreja local.

Agora que tomamos conhecimento dessa dessemelhança entre a tradição católica e a tradição protestante, perguntamo-nos: o que isso nos revela? Em primeiro lugar, que estamos diante de um dado de realidade que nos convida a assumir nossas diferenças. Em segundo, que esta diferença em particular nos convida a revisitar a vida de Jesus, conforme narrada nos evangelhos, a fim de revisarmos nossa compreensão sobre as dimensões da fé.

 

A fé de Jesus

Quando caminhamos pelas páginas dos quatro evangelhos canônicos, vemos Jesus igualmente entregue a experiências triviais e a feitos grandiosos. Jesus conversa com uma mulher samaritana à beira de um poço (Jo 4,1-42), anda de mãos dadas com um cego (Mc 8,22-26), abraça uma criança (Mc 9,33-37), contempla os lírios do campo e os passarinhos dos céus (Mt 6,25-34), caminha com dois peregrinos assustados (Lc 24,13-35), assa pão e peixe à beira-mar (Jo 21,1-9) e entrega como herança o convite ao amor profundo (Jo 13,34-35). Com igual vivacidade, Jesus denuncia a corrupção do templo (Jo 2,13-22), chama o rei Herodes de raposa (Lc 13,31-35), desmascara as práticas homicidas dos religiosos (Lc 11,45-52) e ensaia uma revolução social a partir dos empobrecidos (Lc 6,20-26; Mt 25,31-46).

Notadamente, Jesus assume cada instante como experiência de Deus, seja o passarinho que voa e a criança que corre, seja a denúncia da injustiça e a tomada de opção pelos empobrecidos. A fé de Jesus, isto é, seu compromisso com Deus, tem, pois, dimensão pessoal e comunitário-política. Para Jesus, extasiar-se ante uma meiga flor que dança ao vento é uma experiência de fé tão profunda quanto assumir o cruento caminho da cruz.

 

Por uma mística das insignificâncias

A vida de Jesus inspira-nos a viver uma mística das insignificâncias. Mística é experiência profunda de Deus. Martinho Lutero dizia que Deus é tão pequenino a ponto de habitar um grão de areia e tão grandioso a ponto de carregar o mundo na ponta dos dedos. A vida mística é um aperceber-se da presença de Deus nas acontecências mais profanas e corriqueiras e nas experiências mais complexamente articuladas. 

A ênfase exclusiva na dimensão pessoal da fé resulta num individualismo egóico que nos aprisiona em nós mesmos, de modo a não nos sentirmos responsáveis pela transformação do mundo. A acentuação da dimensão comunitário-política da fé, por sua vez, faz-nos esquecer das pequenas coisas, inclusive da necessidade de transformar nosso mundo interior. A mística das insignificâncias nos convida a abrir o coração para implicarmo-nos em tudo. A plenitude da força da fé depende da sensibilização de nosso olhar e da totalidade de nossa entrega.

A CFE 2021, para ser vivida em profundidade, precisa ser dinamizada por uma mística das insignificâncias. Como escreveu o poeta mato-grossense Manoel de Barros:

Poderoso pra mim não é aquele que descobre o ouro.

Pra mim poderoso é aquele que descobre

as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado e chorei.

 

Neste caminho místico, haveremos de perceber que as insignificâncias são, a bem da verdade, apenas aparentes insignificâncias: se é preciso salvar o planeta para preservar os jardins, é igualmente verdade que uma pétala pode salvar o mundo.

 

 

Notas:

[1] Texto apresentado numa roda de conversa da Escola Vivencial de Fé do Movimento de Cursilho da Cristandade, em 16 de março de 2021 (https://www.youtube.com/watch?v=PqJwyYbLjEQ).

[2] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

[3] As teologias podem conter em si uma mescla de oposição e negação em relação ao tempo em que foram gestadas e formuladas. O que não há, porém, é neutralidade. Afinal de contas, quem pensa e discursa sempre o faz em reação a outrem, ainda que inconscientemente.  

[4] O aspecto comunitário-político da fé pode ser visto, no âmbito comunitário, na importância conferida à igreja, aos sacramentos, às mediações da graça etc. e, no âmbito político, na existência da DSI (Doutrina Social da Igreja), de consideráveis encíclicas, de pastorais, de grupos de fé e política etc. Por outro lado, a ênfase das teologias protestantes na dimensão pessoal da fé revela-se, por exemplo, na maneira com a qual os protestantes se agarram com a ideia de salvação como resultado da adesão à “verdade” da fé doutrinal, o que se daria, inclusive, sem necessidade de obras de amor.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

REVELAÇÃO BÍBLICA

 


 

Kinno Cerqueira [1]

 

O título deste texto faz lembrar alguns tópicos presentes em declarações doutrinárias e manuais de teologia que versam sobre “a comunicação da Palavra de Deus” ou sua “Revelação”. As diversas abordagens desse tema, das mais fundamentalistas às mais dialógicas, insistem num ponto comum que, em linhas gerais, poderia ser sintetizado assim: a Bíblia é o testemunho privilegiado (e canônico) da revelação histórica que Deus fez de si e de sua vontade para a humanidade. E, a despeito de cada tradição teológica conferir um significado singular a essa proposição, permanece o consenso segundo o qual a leitura da Bíblia revela a salvífica vontade de Deus para humanidade e a missão que as igrejas devem assumir como resposta de fé a essa Revelação – como textos-prova, costuma-se citar 2 Tm 3,16-17 e 2 Pe 1,21.

Que um dos eixos de tal concepção sobre a Bíblia seja o supremacismo ideológico das igrejas cristãs, parece não haver dúvidas honestas. Todavia, a despeito da urgente exigência ética por uma apresentação de aportes teóricos que ajudem a desconstruir essa ideologia supremacista cristã, talvez convenha proceder a um recuo reflexivo que permita levantar uma pergunta de primeira ordem: ainda que se conceba a Bíblia como testemunho privilegiado (e canônico) da Revelação de Deus, sua leitura equivaleria a uma escuta dessa Revelação?

Estudos que se interrogam sobre o aparentemente simples ato de ler revelam as inconsistências de ideias conforme as quais o sujeito que lê poderia escutar limpidamente a intenção do autor do texto e/ou descobrir ad litteram (ao pé da letra) o sentido supostamente contido no texto bíblico. Paulatinamente, chega-se ao consenso de que toda leitura é uma interpretação e toda interpretação, um processo de significação operado num complexo universo de referências à semelhança de um jogo de significados que se interpenetram e intersignificam-se mutuamente. Nesse jogo de significados, a intenção de quem compôs o texto bíblico costuma ser inacessível – a rigor, a intenção do autor morre com ele – e a evocação de um sentido do qual o texto bíblico seria fiel portador soaria estranhamente ingênua. A quem ou a quais grupos competiria a prerrogativa de averiguar e atestar a intenção de um texto bíblico?

A Bíblia em si e as experiências de leitura bíblica comunitária dão fartos exemplos da impossibilidade de ler o texto bíblico sob o parâmetro da intenção do autor e da inexistência de um sentido textual fixo e imutável.

No livro do profeta Amós, mencionam-se duas interpretações divergentes sobre o tema da eleição/escolha de Israel por Deus e, no Evangelho segundo Marcos, duas interpretações igualmente divergentes sobre o significado do mandamento do descanso sabático aparecem lado a lado: no primeiro caso, enquanto a interpretação hegemônica compreendia a eleição como garantia das bênçãos de Deus sobre a vida nacional, Amós a interpretava como exigência divina a que Israel assumisse uma postura ética assentada na justiça (Am 3,1-2); no segundo caso, se os fariseus interpretavam o mandamento do sábado (Ex 20,8-11; Dt 5,12-15) como uma regra prescritiva de cunho ritualístico, Jesus o interpretava a partir da vida concreta do ser humano e com vistas a libertá-lo da tirania do tempo regido pela frenética lógica do acúmulo (Mc 2,23-28).

Nas experiências de leitura bíblica comunitária, pode ocorrer algo parecido: enquanto comunidades conservadoras veem a Bíblia como uma bola de cristal por meio da qual buscam conhecer como o mundo veio a existir e como chegará a seu fim e leem-na como um código de moral sexual, comunidades mais comprometidas com a fraternidade e a transformação social concebem a Bíblia como escola de liberdade e inspiração para recriar o mundo sobre as bases da justiça com vistas a evitar a catástrofe global prenunciada em diversos comunicados da comunidade científica.

Seriam necessários mais exemplos para notar-se que a intenção do autor e o suposto sentido presente no texto bíblico não determinam a interpretação enquanto significação ou construção de sentido? Ora, se o ato de ler não equivale a escutar a intenção do autor do texto nem a descobrir o sentido hipoteticamente contido no texto – ambos, a intenção do autor e o sentido contido no texto, comumente compreendidos como depositários-transmissores da Revelação –, o que se revela quando se lê o texto bíblico?

O ato de ler é um processo de “significação” ou de “construção de sentido”. Nesse processo, o leitor, longe de qualquer passividade receptiva perante o texto, está inelutavelmente implicado como sujeito-dirigente de significação e de construção de sentido. E, como sujeito-dirigente, o leitor opera sob o impulso de tudo quanto o constitui e o habita consciente e inconscientemente, ou seja, sua visão de mundo e suas intenções previamente elaboradas, sua estrutura psíquica e seus desejos mais sub-reptícios determinam o sentido que ele confere às palavras, narrativas e discursos que compõem o texto bíblico.      

Não se pense, com isso, que o leitor seria a fonte única de sentido e que o texto, de maneira inversa ao que se costuma propugnar, não determinaria em nada a construção de sentido. De igual modo, não se intente lograr uma postura conciliadora, como se se pudesse conceber texto e leitor pari passu (em igual passo) na construção de sentido – isso seria uma negação do que se observa em condições reais de leitura. O que se pode considerar é que o texto, apesar de suas provocativas singularidades, nunca está em condições de competir com o leitor, que preenche os silêncios do texto com a voz de seu desejo e interdita as vozes do texto que lhe são inaceitáveis.

Com isso, não se quer dizer que o ato de ler seja uma sabotagem ou manipulação inescrupulosa de sentidos nem se pretende emitir um juízo sobre essa questão nem apresentar uma saída daquilo de que não se precisa nem se pode sair. A leitura é isso e há razões para dizer que o quanto antes se tomar consciência da complexidade do ato de ler, melhor.

Uma das principais implicações dessa tomada de consciência é a possibilidade de repropor o que se denomina de “revelação bíblica”. Esta não pode mais ser considerada como uma Palavra de Deus decalcada das intenções dos autores bíblicos ou encontrada mediante uma meticulosa penetração nos textos bíblicos em busca de sentidos supostamente ali escondidos. Diferentemente disso, a revelação bíblica é revelação do leitor, quer dizer, no ato da construção de sentido, o leitor revela, a um só tempo, um fragmento de texto bíblico e uma porção descomunal do que o constitui e de sua própria postura existencial. Noutras palavras: revelação bíblica é revelação do leitor.  

 

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

QUANDO A VENTANIA SOPRAR

 



Kinno Cerqueira [1]

 

O que somos? O que nos habita? O que desejamos? O que nos move? São questões que, a um só tempo, nos põem a contemplar a escuridão que somos e desnudam a impossibilidade de dizermo-nos a nós próprios.

Somos crepúsculo, noite e nascer do sol, porém, jamais dia claro. Somos mistério, mistério, mistério...

Nosso existir é uma ciranda cuja primeira voz é uma presença sempre intuída e pressentida, embora nunca sabida nem vista.

A voz que move as cirandas é misteriosa: ouvimo-la qual ventania assobiante a seduzir-nos à embriagante dança da vida.

A voz assobiante assalta-nos por dentro: leva de nós o medo de atirarmo-nos na vida, instaurando em nosso interior um gélido vazio cujo contrário não seria outro que não um ardente caso de amor com a vida.  

Nossas noites de amor com a vida, a lembrança de seus cálidos lábios e de sua pele caliente sob o cobertor da loucura não encontram palavras que permitam romancear o mais profundo de tão sublime experiência orgástica.  

Palavras são casas nas quais habitamos. Para não sermos eternamente indigentes, criamos religiões, as quais são ensaios precários, embora belos, de romancear experiências de amor que tivemos com a vida sob a misteriosa presença da erótica ventania assobiante.

No romanceamento judaico-cristão, escutamos a confissão de um desses amantes da vida, Jesus de Nazaré: “A ventania sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que foi parido pela ventania” (Jo 3,8).

Sua experiência de enamoramento da vida não poderia ser poetizada de melhor forma, senão nestas palavras mesmas que deixam ver a imprevisibilidade do amor, os arroubos da paixão, os assaltos do tesão.

Amantes não sabem para onde vão. Seu destino comum lhes é desvelado paulatinamente e somente à medida que se lançam na imprevisível dança do amor, pois, como dissera um amante de língua portuguesa, “quem ama nunca sabe o que ama nem sabe por que ama, nem o que é amar” (Fernando Pessoa).

Nascer da ventania é, sem dúvida, o estado de quem se sente renascido das quentes águas do amor. Na vida do amante Jesus de Nazaré, essa experiência foi tão forte que ele chegou a dizer: “eu sou a vida” (Jo 14,6), confissão apaixonada de quem está tão enamorado da vida a ponto de se sentir um com ela.

No romanceamento dos povos originários desta terra, escutamos falar da Curviana, ventania suave a correr pelas matas e cidades noite adentro, deusa dos ventos e da neblina, brisa misteriosa que, com sua dança circular, encanta forasteiros para que estes se enamorem da terra e nunca mais queiram voltar para os lugares donde saíram. Ventania fria que solicita um abraço de amor entre a pessoa humana e a terra, a Curviana.    

Na paisagem da semântica do romanceamento da etnia iorubá ou nagô, como é mais conhecida no Brasil, Oyá-Iansã é o nome do orixá feminino cuja essência é a liberdade recriadora da vida. Oyá-Iansã, senhora das tempestades e da chuva, corporifica a transgressão feminina de recusa à mediocridade de espaços fechados e a entrega de si à apaixonante aventura de amar perdidamente a vida.

A ventania assobiante do romanceamento judaico-cristão, mais conhecida como Ruah, a Curviana dos povos originários e Oyá-Iansã da etnia iorubá são tentativas de exprimir com palavras a presença da misteriosa voz que nos seduz à ciranda, a inebriante dança da vida.

Misteriosa voz que nos chama a dar as mãos, melodia sedutora e canto irresistível, presença ausente e ausência mais que presente, alameda florida que se abre como caminho no qual nos aguardam os lábios da vida.

Quando a ventania vos soprar, dançai. O amor sopra onde quer...

 

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

sábado, 1 de agosto de 2020

SEU PERFUME ME HABITA


 

Kinno Cerqueira [1]

 

Dentre as imagens que entretecem minhas memórias, estão sempre presentes aquelas de minha infância. Às margens de um sereno rio, minha singela casa escondia um quintal repleto de laranjeiras sob cujas sombras eu me sentava silencioso a contemplar as flores paridas pelas boas mãos de mamãe. Inspirado pelas abelhas e borboletas que comigo brincavam, aprendi o caminho das flores e nelas entrevi o mistério da vida.

 

Quando das primeiras chuvas de outubro, seus galhos ressequidos enverdeciam-se magicamente e, num curto intervalo de tempo, seus botões nasciam sorridentes e cantantes, como se me saudassem com um beijo na face. Minha reação interior, quiçá um tanto atípica, externava-se em bochechas enrubescidas e efusiva alegria intercalada por saltos e silenciosas lágrimas.

 

A lembrança dos botões a sorrir-me faziam de meus sonhos noturnos momentos de antecipação do que os botões prenunciavam: o desabrochar das flores. Ao nascer do sol, meus pés, sempre mais lentos que meu coração, ajudavam-me a fugir rumo ao quintal na expectativa de testemunhar o deslumbramento de que vinha fruindo em meus sonhos. Ali, com os olhos marejados e os lábios tremulantes, tornava-me um com as flores agora descerradas.

 

Nosso abraço era quente e nosso amor, desesperadamente gratuito. Nunca disseram amar-me, como também nunca lhes pronunciei declarações de amor. Era a presença que falava e a fugacidade daquele encontro, longe de sediar lamentos ou queixumes, intensificava-o de tal modo a eternizar em mim o interminável perfume daquele encontro que logo seria sucedido por outros longos momentos de espera. 

Os anos se passaram e mudei-me para o Recife. As flores de minha casa não estão mais diante de mim. A espera é longa e a expectativa de reencontrá-las, diminuta. Hoje, contudo, descobri-as dentro de mim. E como é doce seu perfume...  

 

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

   


sábado, 30 de maio de 2020

TEUS ALTARES: CONFISSÃO A UMA AMIGA



 

por Kinno Cerqueira

 

 

Maria,

Nossa amizade não é tão antiga. Durante a minha infância, não nutri tanta simpatia por ti nem te olhei com ternura. Ocorria-me como repugnante que tu, sendo mãe dos pobres, habitasses os altares portentosos que se erguiam em teu louvor. E que, elevada à altura das frontes humanas, recebesses louvores e glórias, cantos e palmas, petições e promessas, mimos propícios para a satisfação de teu ego feudal.

 

Com o passar do tempo, comecei a perceber que os

mimos com os quais te acercavam eram, na verdade, expressão dos desejos egóicos dos que se queriam deuses. Dor inaudita rasgou-me o coração quando da descoberta de que aqueles altares não eram tua morada, mas teu tenebroso cativeiro.

 

Agora, Maria, descortinava-se diante de mim tu mesma, nua, suja,  indigente, camponesa. Descobria teus verdadeiros altares: os corpos mutilados pelas injustiças e as vozes que se erguem destemidas em prol de um mundo novo.

 

Maria,

Sem mimos nem panos nem altares, a nossa amizade nasceu qual clandestina açucena a romper a terra seca para embelezar o mundo.

 

Com ternura,

Teu amigo

 

 

Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos


sábado, 23 de maio de 2020

NO MEU DESERTO, UMA FLOR SE ABRIU


por Kinno Cerqueira

 

Tempos sombrios amantavam os olhos de quem se sentia atravessado por uma misteriosa fragrância de libertação. Falo de mim: jovem, seminarista, sonhador e desejoso de encontrar um caminho alternativo às lúgubres veredas do fundamentalismo eclesial e teológico.

A minha procura levou-me ao CEBI – Centro de Estudos Bíblicos –, cuja porta de entrada foi um curso de formação de assessores em leitura popular da Bíblia. Ali, encontrei-me com gente que, como eu, buscava a libertação, quiçá uma possibilidade de sobrevivência no “deserto eclesial”, presságio do golpe político de 2016 e da elevação do fascismo pelas urnas.

Minh’alma sedenta via-se à iminência de esfacelar-se ante tão longa e malograda procura por águas. Foi então que, naquele encontro promovido pelo CEBI, conheci Dom Sebastião Armando Gameleira Soares. Seus cabelos grisalhos, olhar profundo, porte esguio, voz mansa-firme e mãos borboleteantes formavam uma espécie de abóbada poética sob a qual a nudez espiritual, longe de ser um despudor, figurava como exigência fundamental do Evangelho.

Dom Sebastião refletia conosco sobre o livro do profeta Amós. A cada segundo, tornava-se mais claro para mim que as palavras daquele livro eram tão suas como de Amós, pois habitavam seu corpo, musicavam sua voz, conduziam o seu olhar, ritmavam seus passos, batiam no seu coração.

Ao fim daquele encontro, conversamos reservadamente. Contei-lhe de minhas buscas, de meus itinerários espirituais, da voz que me chamava desde dentro para ir além. De sua parte, ouvi poucas palavras, mas suficientemente fortes para levá-las comigo ad aeternum. Uma delas, intuição que me tem guiado desde então: “A Bíblia é uma escola de liberdade”. 

Desde então, aproximamo-nos cada vez mais. Hoje, alguns anos após nosso primeiro encontro, sinto-o como pai no sentido pleno da palavra. Minha liberdade carrega o sinal de sua mística, o calor de seu abraço, a profundidade de seu olhar, a ousadia de seu espírito.

Hoje, por ocasião de seu septuagésimo quinto aniversário, canto e danço de alegria pela vida de Dom Sebastião, Flor no meu deserto.    

 Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

SEXTA-FEIRA SANTA: UMA REFLEXÃO




por Kinno Cerqueira [1]

Hoje é Sexta-feira Santa, dia em que as igrejas fazem memória da Paixão de Jesus, quer dizer, de seu “sofrimento” cujo ponto alto é a crucifixão. Num dia como hoje, ganham relevo dois gestos religiosos: gratidão a Deus por Jesus haver morrido em nosso lugar e petição pelo perdão de nossos pecados. A meu ver, tais gestos revelam uma imagem/concepção de Deus que habita a mentalidade cristã.

O primeiro gesto é alimentado por uma liturgia na qual quase tudo gira em torno do assassinato de Jesus, comumente explicado como sendo o resultado de Deus haver enviado seu filho Jesus Cristo para morrer em nosso lugar, levando sobre si o martírio que se abateria sobre nós em virtude dos nossos pecados. O segundo gesto, intimamente vinculado ao primeiro, deita suas raízes na compreensão de que o assassinato de Jesus lhe outorgou o status de aliviador de consciências e garantidor de vida eterna para quem nele deposita a sua fé.

Ambos os gestos, porém, encaminham-nos para uma questão mais profunda, que é aquela que nos interroga pela imagem de Deus que subjaz a tudo isso. Em linhas gerais, podemos ver aí a imagem de um Deus sádico e perverso, cujos caprichos chegam ao ponto de exigir um assassinato bárbaro como condição para refazer as pazes com a humanidade. Tal imagem de Deus não poderia gerar outro cristianismo que não fosse o do tipo sacrificial, sádico e perverso, cujos reflexos lesam e alienam todas as dimensões da vida humana.

A vida de Jesus, quando lida atentamente, revela-nos uma perspectiva diametralmente oposta à assinalada acima. Jesus, no mundo, assumiu a missão de ensinar-nos a viver. Com suas opções de vida e suas palavras, anunciou não um outro mundo, mas um mundo outro, quer dizer, fez de sua vida um testemunho incontestável de que é possível vivermos irmanados num projeto de “amor cósmico” que ele chamou de Reino de Deus.

Como o projeto de Jesus traria como consequência a dissolução de todos os poderes opressores, quer religiosos quer políticos, chefes da religião de seu país uniram-se ao império para pôr um fim à sua vida. Jesus sabia que sua maneira de viver determinaria seu modo de morrer. A cruz era o destino comum de sonhadores! Sua morte não se explica a partir de Deus, mas a partir de sua opção pessoal de assumir o amor como princípio vida até as últimas consequências.

A vida de Jesus revela uma genuína imagem de Deus: o Deus crucificado com os crucificados, indignado com as injustiças e partidário inarredável do amor. Esse Deus não está nos altares, mas nos corpos abandonados e hostilizados, nas vozes fracas e cansadas de tanto sofrer, como também nos corações de todas as pessoas que, assim como Jesus, fazem de suas vidas testemunho do amor que abraça o cosmos. O Deus revelado na vida de Jesus pede de nós somente um sacrifício: fazer morrer o egoísmo para que o amor nasça como uma flor em tempo primaveril.

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

PÁGINAS DA BÍBLIA E DA VIDA





Kinno Cerqueira [1]

A Bíblia é uma colcha feita com retalhos de muitas vidas, muitos amores, muitos sonhos, muitas histórias. E porque nasceu da vida, a Bíblia, no lugar de apresentar conceitos e ideias, prefere aventurar-se na semântica das imagens, dos sentimentos, dos cheiros, dos lugares, das perguntas, dos silêncios... Por conta disso, a leitura da Bíblia solicita a reabilitação de todos os nossos sentidos, visto que sua semântica da vida quer penetrar nada menos que a totalidade do nosso corpo.

Uma vez habitados pelo colorido de tal semântica, somos reenviados por esta à vida concreta. Agora, não mais impermeáveis, porém, totalmente porosos para fruir os sabores da vida dantes recobertos pelo fino véu da insensibilidade imposta pela célere rotina.

Diante da reclusão domiciliar imposta pela pandemia por Covid-19, os últimos dias têm sido, para muitos, um momento de redescobrir que “tudo é Bíblias”, para usar uma expressão da poetisa Adélia Prado. Principiamos, nesse período que ainda não se findou, a redescoberta de que a vida, assim como a Bíblia, é um tecido de imagens e sussurros, de cheiros e sabores, de aventuras e amores, de perguntas e silêncios que nos convidam a uma dança apaixonada em louvor à irrepetível e misteriosa beleza de cada instante.

Paira sobre o mundo a iminência da morte. A vida descortina-se diante de nós qual flor que pressente a proximidade do fim da estação primaveril. Descobrimos que tempus fugit (o tempo foge!). Mas não só! Apercebemo-nos, antes de tudo, de que a vida, tal qual a Bíblia, convida-nos a fazer de nossas vidas poemas de amor nos lábios do tempo.

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.