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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

NOVO OLHAR SOBRE O UNIVERSO


 Frei Betto

 

       Carlos Mesters, o mais popular biblista do Brasil, sublinha que há no Antigo Testamento dois decálogos, o da Aliança e o da Criação. O da Aliança surgiu primeiro, embora o outro já existisse. Ocorre que o povo hebreu, por não levar a sério o Decálogo da Aliança, não tinha olhos para perceber o Decálogo da Criação.

       Ao longo dos 400 anos de monarquia em Israel (de 1000 a 600 a.C.), Javé, o Deus libertador do Êxodo, foi reduzido a um ídolo manipulado pelos poderes civil e religioso para legitimar a corrupção e a ganância dos reis. E ninguém dava ouvidos às denúncias dos profetas. Até que Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu a Palestina em 587 a.C. e destruiu Jerusalém.

       O choque da dominação e do exílio abriu os olhos do povo hebreu para o Decálogo da Criação: “O ritmo da natureza, do sol, da lua, das estações, das chuvas, das estrelas, das plantas, revela o poder criador de Deus” – afirma Mesters. “É a expressão do bem-querer do Deus Criador, da pura gratuidade! É uma certeza que não falha. É a prova de que Deus não rejeitou seu povo. Nossa fraqueza pode levar-nos a romper com Deus (como de fato aconteceu), mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da sequência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração”.

       A visão que temos do mundo interfere em nossa visão de Deus, assim como o modo de concebermos Deus influi em nossa visão da vida e do mundo. Ao longo de um milênio predominou no Ocidente a cosmovisão de Ptolomeu, que considerava a Terra centro do Universo. Isso favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja, encarada pela fé como imagem da Jerusalém celeste. 

       Com o advento da Idade Moderna, graças à nova cosmovisão de Copérnico, logo completada por Galileu e Newton, constatou-se que a Terra é apenas um pequeno planeta que, qual mulata de escola de samba, dança em torno da própria cintura (24 horas, dia e noite) e do mestre-sala, o sol (365 dias, um ano). O paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência, Deus ao ser humano. Passou-se da visão geocêntrica à heliocêntrica, da teocêntrica à antropocêntrica.

       Agora, a modernidade cede lugar à pós-modernidade. Mais uma vez, a nossa visão do Universo sofre radicais mudanças. Newton cede lugar a Einstein, e o advento da astrofísica e da física quântica nos obriga a encarar o Universo de modo diferente e, portanto, também a ideia de Deus.

       Se na Idade Média Deus habitava “lá em cima” e, na Idade Moderna, “aqui embaixo”, dentro do coração humano, agora conhecemos melhor o que o apóstolo Paulo quis dizer ao afirmar: "Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram: 'Somos da raça do próprio Deus'" (Atos dos Apóstolos 17, 27-28).

       A física quântica, que penetra a intimidade do átomo e descreve a dança das partículas subatômicas, nos ensina que toda matéria, em todo o Universo, não passa de energia condensada. No interior do átomo, a nossa lógica cartesiana não funciona, pois ali predomina o princípio da indeterminação, ou seja, não se pode prever com exatidão o movimento das partículas subatômicas. Essa imprevisibilidade só predomina em duas instâncias do Universo: no interior do átomo e na liberdade humana.

       Em que a física quântica modifica nossa visão do Universo? Ela nos livra dos conceitos de Newton, de que o Universo é um grande relógio montado pelo divino Relojoeiro e cujo funcionamento pode ser bem conhecido ao estudar cada uma de suas peças. A física quântica ensina que não há o sujeito observador (o ser humano) frente ao objeto observado (o Universo). Tudo está intimamente interligado. O bater de asas de uma borboleta no Japão desencadeia uma tempestade na América do Sul... Nosso modo de examinar as partículas que se movem no interior do átomo interfere no percurso delas... Tudo que existe coexiste, subsiste e preexiste. 

       Há uma inseparável interação entre o ser humano e a natureza. O que fazemos à Terra provoca uma reação da parte dela. Não estamos acima dela, somos parte e resultado dela; ela é Pacha Mama ou, como diziam os antigos gregos, Gaia, um ser vivo. Deveríamos manter com ela uma relação inteligente de sustentabilidade.

       Esse novo paradigma científico nos permite contemplar o Universo com novos olhos. Nem tudo é Deus, mas Deus se revela em tudo. Nossa visão religiosa é agora pananteísta. Não confundir com panteísta. O panteísmo diz que todas as coisas são Deus. O pananteísmo, que Deus está em todas as coisas. “Nele vivemos, nos movemos e existimos”, como disse Paulo. E Jesus nos ensina que Deus é amor, essa energia que atrai todas as coisas, desde as moléculas que estruturam uma pedra às pessoas que comungam um projeto de vida. 

       Como dizia Teilhard de Chardin, no amor tudo converge, de átomos, moléculas e células que formam os tecidos e órgãos do nosso corpo às galáxias que se aglomeram múltiplas nesta nossa Casa Comum que chamamos, não de Pluriverso, mas de Universo. 

 Frei Betto es escritor, autor de “A Obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio/Record), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 77 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 


Copyright 2023 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

SOBRE FRAGILIDADE, LUMINOSIDADE E IRMANDADE

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

Eu a chamava de Anete e ela a mim, de Claire.  Conhecemo-nos na PUC-Rio, no curso de Jornalismo, em 1968.  Ano de chumbo, mas também de valores vividos, utopias ardentes, buscas febris e verdadeiras. Ela vinha do Colégio Santa Úrsula e eu, do Sion. Órfãs de pai ambas, tínhamos mães fortes e “rochosas” em virtude, firmeza e dedicação. A amizade nasceu entre nós e nunca mais nos deixou. 

Nesse tempo ela ainda não era Ramalho, mas Abreu Monteiro.  E à medida que a conhecia mais descobria sua ascendência ilustre de Capistrano de Abreu, da Madre Honorina, aliás Teresa de Jesus, primeira santa brasileira, e a inteligência e cultura como marcas da família. Anna Maria era doce e forte ao mesmo tempo.  Muito feminina, vaidosa e elegante, era ao mesmo tempo capaz de enfrentar as mais fortes tempestades com coragem e determinação.  Conjugava sensibilidade e racionalidade, sabia combinar inteligência privilegiada com humor invejável, que se refletia em sua escrita jornalística apurada, de estilo irônico inigualável.

Ela se formou antes de mim, pois me casei no meio do curso.  Presente ao meu casamento, foi também uma das primeiras a nos receber de volta do ano passado na França, já com a primeira filha nos braços. Anna Maria também casou-se e deu à luz o filho Christiano, nascido um mês antes de minha filha caçula. 

Ela acompanhou minha entrada na teologia e a trajetória acadêmica pela pós-graduação em Roma.  Eu segui de perto sua carreira de jornalista brilhante: trazia saborosas notas sobre a vida social carioca, fazia análises interessantes e sempre atualizadas sobre política, cultura e acontecimentos recentes na vida do país. 

Sua maior característica sempre foi a alegria com a qual seduzia as pessoas que a conheciam.  Sua presença era garantia de festa, bem-estar e boas gargalhadas.  Mas também de papo sério, inevitavelmente marcado por um otimismo indestrutível.  Crítica mordaz, sempre sabia salvar o lado bom das coisas e iluminar os ambientes com seu refinamento e brilho.  

Vibrei com ela quando Christiano, seu filho, tornou-se um chef renomado e talentoso.  E quando Antônia e Olívia, suas netas, inauguraram um novo e precioso capítulo em sua história luminosa de vida. A beleza das meninas refletia-se no rosto da avó, que a devolvia multiplicada e cheia de brilho. 

Eu a vi fragilizada em algumas ocasiões.  Notadamente quando morreu sua mãe, dona Honorina, por quem tinha verdadeira adoração.  Ou durante a enfermidade de Fernando, seu companheiro querido, falecido ainda muito jovem.   No entanto, essa fragilidade vinha sempre banhada da luminosidade do amor à vida e da alegria que a tudo vencia.  Nossa irmandade se construía na interlocução desses seus traços luminosos com minha, às vezes, excessiva seriedade.  Com seu jeito de ser ungia e flexibilizava minhas articulações um tanto rígidas e seu humor insuperável acabava vencendo qualquer dureza. 

Anna Maria tinha uma irmã mais nova a quem era muito unida.  Eu era filha única e ela se tornou de certa maneira minha irmã, a amiga que meu coração escolheu e que comigo partilhou praticamente uma vida inteira. Minha mãe a amava como filha, meu marido como irmã e meus filhos a tinham em conta de tia muito amada, aberta e de escuta pronta, captando bem seus desejos vindos de outra geração. 

Quando ela me contou que tinha um problema sério de saúde, acompanhei seu otimismo e acreditei com fé firme em sua recuperação.  Claro.  Anna Ramalho só combina com vida, e mais vida, e força e vitória.  Segui de perto o tratamento, animada com sua atitude positiva e certa de sua cura. 

É por isso que me encontro hoje desarvorada e sem entender nada.  A piora em poucos dias, as últimas mensagens trocadas, a visita marcada em sua casa adiada e que não acontecida.  Depois o silêncio.  As mensagens não respondidas e as notícias cada vez piores chegando até a notícia de sua morte.

Ainda não realizei plenamente o que vai significar não poder mais ouvir sua voz alegre, suas piadas inteligentes, suas observações finas e perfeitamente coerentes.   Não acredito que não vou ouvir mais meu nome na versão que ela criou – Claire – em seus áudios e chamadas telefônicas. O vazio que sinto corresponde ao tamanho da irmandade que nos unia e me fez experimentar a graça de ter uma irmã em minha unicidade filial. 

Querida Anna, recuso-me a dizer adeus.  Digo até já, até breve, porque sei que em cada momento, em cada esquina do que ainda me resta viver vou encontrar seu rosto alegre, seu sorriso inspirador.  Vou ouvir sua voz dizendo coisas sábias e ao mesmo tempo me fazendo rir às gargalhadas. Você habita em mim e é parte intrínseca desta vida que vivemos, tão rica e fecunda.  E que continuaremos a viver, pois ambas temos fé e esperança. Nosso Deus é o Deus da vida e sua última e definitiva Palavra só pode ser de vida.  Vida essa que já se pode sentir nas milhares de mensagens de carinho das pessoas que foram afetadas por sua passagem e expressam o que você é: fonte de vida para tantos e tantas. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Teologia latino-americana:raízes e ramos” (Editora Vozes), entre outros livros.

 

   

Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

SOBRE “FEMINEJO” E SUPERAÇÃO

                      Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            A morte de Marilia Mendonça, a rainha da sofrência loura e vibrante, aos 26 anos, chocou o país. Por um lado, seus vários milhões de seguidores e fãs, boa parte deles mulheres, sentiram-se privados da presença de sua artista, que cantava sobre temas que lhes chegavam ao coração.  Por outro lado, para os que não eram assíduos ouvintes da cantora, o choque veio da compaixão e da emoção de ver uma vida ceifada no momento do desabrochar, a orfandade do filho de apenas 2 anos, a dor da mãe que teve de ser atendida pela emergência médica ao receber a notícia.

Porém, em meio ao tumulto das notícias que tomaram a quase totalidade do tempo do noticiário nacional, outra dimensão da morte da artista começou a emergir: as letras de suas músicas que se dirigem às mulheres em um tom convocatório e libertador.  O canto de Marilia e suas composições têm como destinatárias as mulheres vítimas do machismo, dos homens infiéis que abusam de seu amor traindo-as e maltratando-as. Pertencem ao subgênero do sertanejo, tão característico do interior brasileiro, e já têm nomenclatura própria: feminejo. 

         Longe de tratar a opressão feminina como destino – à semelhança das muitas canções de outros tempos – reduzindo a mulher a uma vítima dependente e subjugada ao homem, a mulher presente no canto de Marilia levanta a cabeça e responde à altura as traições do parceiro.  As mulheres deliram diante do convite da artista, vibrando e cantando com ela. Os depoimentos de fãs dados após sua morte confirmam isso, ao dizer que a goiana de voz potente lhes mostrou seu valor e lhes deu coragem para tomar atitudes diante das quais antes sentiam medo. 

            A “rainha da sofrência”, na verdade, falava a partir de suas experiências, na tentativa de com isso ajudar suas irmãs de gênero.  É assim que na canção “Infiel” exorta as mulheres traídas a mandar seu parceiro “morar num motel” e “assumir as consequências dessa traição”.  Porque, já que “quem eu quero não me quer e quem me quer não vou querer”, ela não vai ficar chorando e sofrendo sozinha e abandonada, “todo mundo vai sofrer”. 

            O feminejo sacode a mulher e lhe diz para superar a rejeição do macho.  A mulher que compõe e canta fala ao ouvido e ao coração de suas companheiras. Diz que para aquele homem ela não passa de um plano B, que se nenhuma outra da lista quisesse sair com ele, então ele ligaria para elas.  E grita com força: “De mulher pra mulher: supera” 

            Na canção “Alô porteiro”, Marilia vai mais longe.  Canta em primeira pessoa. Diz ao namorado que a traiu, que pretende voltar instalar-se de novo em seu apartamento, cansou da brincadeira e agora ele vai embora.  Mais ainda, liga para a portaria do prédio e fala ao porteiro: “Chame o táxi que ele vai pagar/ Esse homem que está aí/ Ele não pode mais subir/ Está proibido de entrar”. 

            O universo feminino ao qual Marilia se dirige, no entanto, representa um Brasil que não abrange a totalidade das mulheres do país.  Trata-se de um público que ganha dinheiro, a tal ponto que pode se permitir pagar a entrada de seus shows.  As jovens que aparecem delirando nos vídeos onde a cantora lhes lança suas exortações em forma de música vestem roupas de acordo com as personagens presentes nas novelas da Globo e fazem chapinha e “brushing” nos cabelos. No ambiente interiorano onde circulam há prosperidade e elas mordem uma fatia da mesma. Os homens com quem se relacionam têm, além do machismo visceral da cultura a que pertencem, a arrogância de seu poder econômico, que é mais um elemento para esmagá-las. 

            Existe um outro Brasil onde o canto de Marilia chegou, mas encontrou diferente eco.  Trata-se do universo das mulheres muito pobres, que vivem onde não há comida suficiente, nem energia própria para ligar a TV e onde o celular não tem pacote de dados para ver a “ídala” na telinha.  Ali as mulheres carregam a família nas costas, suportando muitas vezes a indesejável convivência com o companheiro, que é ao mesmo tempo agressor e dominador. Ali os jovens procuram o tráfico como via de ascensão e queda em tempo breve. E as mulheres muitas vezes não podem chamar o porteiro e mandar o homem infiel embora porque dependem totalmente dele. 

            Em ambos os grupos, porém, a violência de gênero impera.  As canções da jovem mulher que foi vítima de um acidente fatal na última sexta feira dão testemunho disso no universo imenso de suas fãs do interior brasileiro.  E chegam como sonho inalcançável a essas outras fãs presas pelas correntes da pobreza extrema que não têm condições de mandar embora o homem que as sustenta e que está afundado na pobreza como elas.  Frustrado e alcoolizado ele ainda bate nela e nos filhos.  O sonho desta mulher é sobreviver e enquanto cozinha o osso que conseguiu nos fundos do supermercado talvez ouça a rainha da sofrência a lhe dizer: supera. 

            Marilia se foi acompanhada da dor da família e das homenagens dos fãs. Suas canções ficaram e serão cantadas e lembradas pelas mulheres que começam a despertar e fazer ouvir seu lamento coletivo, clamando por igualdade de direitos, respeito, amor e justiça.  Ficou também seu legado de mulher comprometida, que se posicionou politicamente contra uma proposta que desrespeitava as mulheres e vários outros segmentos da sociedade. Tomara que Leo, seu filho, possa ajudar a construir um mundo novo, onde as canções de sua mãe, semeadas com sua morte prematura, floresçam e frutifiquem em verdade e justiça. 

                        

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de “Teologia latino-americana:raízes e ramos” (Editora Vozes), entre outros livros.

 

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

As ameaças sobre a Terra presentes na COP26 em Glasgow?


Leonardo Boff


 

Em Glasgow, nesse final de 2021, com a COP26 se discute como reduzir os níveis de  gases de efeito estufa para não chegarmos em 2030 a 1,5 graus Celsius e então a um caminho sem retorno. A maioria está cética, pois os grandes emissores não cumpriram o Acordo de Paris. Reduzirem apenas até 7% e o Brasil, ao contrário, cresceu em 9% sua emissão. Dada a engrenagem do processo produtivo mundial de viés capitalista que tende a não assumir nenhum limite em seus ganhos, provavelmente não alcançaremos esta meta.Nossos filhos e netos herdarão uma Terra devastada e poderão nos amaldiçoar por não termos feito a lição de casa. A situação dramática da Terra está ausente nos debates.Não se fala da relação destrutiva para com a natureza. Vejamos rapidamente, no curso da história, como chegamos ao drama atual.

A interação com a natureza

Nossos ancestrais que se perdem na penumbra dos tempos imemoriais, entretinham uma interação não destrutiva: tomavam o que a natureza fartamente lhes oferecia..  Esse tempo durou milênios, começando na África, onde surgiu o ser humano, pela primeira vez há alguns milhõe de anos. Por isso, somos todos, de alguma forma,  africanos.

A intervenção na natureza

Há mais de dois milhões de anos, irrompeu, no processo da antrogênese (a gênese do ser humano na evolução) o homem hábil  (homo habilis). Aqui ocorreu uma primeira virada. Inicia-se aquilo que culminou de forma extrema nos nossos dias.  O homem hábil inventou instrumentos com os quais operava uma intervenção na natureza: um pau pontiagudo, uma pedra afiada e outros recursos semelhantes. Com eles podia ferir e  matar um animal ou podia cortar plantas. Essa intervenção se desenvolveu muito mais intensamente com a introdução da agricultura e da irrigação, ocorrida  volta de 10-12 mil atrás na era chamada do  neolítico. Desviavam-se águas dos rios, melhoravam colheitas, criavam animais e aves para serem abatidos.

É o tempo em que os humanos deixaram de ser nômades e se fizeram sedentários, com  vilas e cidades, geralmente, junto aos rios como ao Nilo no Egito, ao Tigre e ao Eufrates no Oriente Médio, ao Indo a o Tanges na Índia e ao redor do imenso lago interno, o  Amazonas que há milhares de anos, desaguava no Pacífico.

A agressão à natureza

Da intervenção passamos à agressão da natureza, na era industrial a partir do século XVIII. Surgiram as fábricas com a produção em massa. Forjou-se todo tipo de instrumentos técnicos que permitiam extrair enormes riquezas da natureza. Partia-se da premissa de que o ser humano é “senhor e dono” da natureza, não se sentindo mais como hóspede e parte dela. A ideia-força era a vontade de poder, entendidida como capacidade de dominar tudo: outras pessoas, classes sociais, povos, continentes, a natureza, a matéria, a vida e a própria Terra como um todo. Foram produzidas armas de destruição em massa, químicas, biológicas e nucleares.

O inglês Francis Bacon, tido como o fundador do método científico moderno, chegou a escrever:”Deve-se torturar a natureza como o torturador tortura a  sua vítima, até ela entregar todos os seus segredos”. Os conhecimentos científicos foram logo transformados em técnicas de  extração de bens naturais,  cada vez mais aperfeiçoadas, para realizar o propósito de acumulação ilimitada. Aqui a agressão  ganho estatuto oficial. Foi e continua sendo aplicada até os dias atuais

A destruição da natureza

Nos últimos tempos de modo especial, depois da segunda guerra mundial (1939-1945) a sistemática agressão ganhou dimensões de verdadeira destruição de ecossistemas, da biodiversidade, dos bens e serviços escassos da natureza,  até da Mãe Terra  agredida em todas as suas frentes.

Segundo notáveis cientistas, inauguramos uma nova era geológica, chamada de antropoceno, na qual o ser humano emerge como a maior ameaça à natureza e ao equilíbrio da Terra, particularmente de seus climas. Chegou-se ao ponto de nosso processo industrialista e o estilo consumista de vida dizimar anualmente cerca de 100 mil organismos vivos. Mais de um milhão deles estão sob grave ameaça de desaparecimento.

A partir desta verdadeira tragédia biológica começou-se a falar de necroceno, quer dizer, a morte (necro) em massa de vidas da natureza e de vidas humanas por miséria, fome de milhões e milhões e agora pelo Covid-19 planetário.

A erosão da Matriz Relacional

Perdeu-se a perspectiva do Todo. Ocorreu uma verdadeira fragmentação e atomização da realidade e dos respectivos sabares. Sabe-se cada vez mais sobre cada vez menos.Tal fato possui suas vantagens mas também seus limites. A realidade não é fragmentada. Por isso os saberes também não podem ser fragmentados. Falamos da aliança entre todos  os saberes, também dos populares (Prigogine).

Deixou-se de considerar as relações de interdependência que todas coisas guardam entre si. Numa palavra: erodiu-se a matriz relacional de todos com todos, que envolvem o próprio universo. Nada existe fora da relação. Numa poética formulação do Papa Francisco em sua encíclica Laudato si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) se afirma:

 O Sol e a Lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal, o espetáculo de sua diversidades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma; elas são interdependentes uma das outras para se completarem mutuamente no serviço uma das outras!(n.86)

Se realmente todos estamos entrelaçados, então devemos concluir que o modo de produção capitalista, individualista, depredador da natureza, visando o maior lucro possível sem se dar conta das relações existentes entre todas as coisas, emitindo gases de efeito estufa, está na contramão da lógica da natureza e do próprio universo.

A Terra nos criou um lugar amigável para viver mas nós não estamos nos mostrando amigáveis para com ela. Ao contrário, movemos-lhe uma guerra, sem chance de ganhá-la, a ponto de ela não aguentar mais e começar a reagir numa espécie de contra-ataque. Este é o significado maior da intrusão de toda uma gama de vírus, especialmente do Covid-19. De cuidadores da natureza nos fizemos em seu Satã ameaçador.

Ou mudamos ou podemos correr o risco de desaparecer

Até o advento da modernidade  o ser humano percebia-se ligado ao Todo. Agora a Mãe Terra foi transformada “num banheiro” e “estamos cavando nossa sepultura” disse o Secretário Geral da ONU António Guterres ao abrir os trabalhos na COP26 no dia 31/10/2021, ou num baú cheio de recursos a serem explorados. Nessa compreensão que acabou por se impôr, as coisas e os seres humanos estão desconectados entre si, cada qual seguindo um curso próprio.

A ausência do sentimento de pertença a um Todo maior, o descaso pelas teias de relações que ligam todos os seres, tornou-nos desenraizados e mergulhados numa profunda solidão,  coisa que o impedia uma visão integradora do mundo, que existia anteriormente.

Por que fizemos esta inversão de rumo? Não será uma única causa, mas um complexo delas. A mais importante e danosa foi termos  abandonado a referida Matriz Relacional, vale dizer, a percepção da teia de relações que entrelaçam todos os seres. Ela nos conferia a sensação de sermos parte de um Todo maior, de que estávamos inseridos na natureza como parte dela, como irmãos e irmãs, como afirma a Fratelli tutti do Papa Francisco e não simplesmente seus usuários e com interesses meramente utilitaristas. Perdemos a capacidade de admração pela grandeur da criação, de reverência face ao céu estrelado, de respeito por todo tipo de vida e da capacidade de chorar pelo sofrimento da maioria da humanidade.

Se não fizermos esta virada de “senhores e donos” (dominus) da natureza para “irmãos e irmãs (frater)  entre todos, da humanidade e da natureza, não serão eventuais acordos  alcançados na COP26 de diminuição de gases de efeito estufa que irão nos salvar.A questão é a mudança de paradigma.Ou mudamos ou corremos o risco de desaparecer da face da Terra.

Leonardo Boff é eco-teólogo e escreveu: Ecologia:grito da Terra-grito do pobre, Vozes 2015; Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2017.

  

quarta-feira, 21 de julho de 2021

33º CONGRESSO DA SOTER DEBATE SOBRE A RESPONSABILIDADE DAS RELIGIÕES NA DEFESA DA LAICIDADE, DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS

 


*Matéria postada REVISTA IHU ON-LINE

A Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER) celebrou de 12 a 16 de julho seu 33º Congresso Internacional, que teve como tema “Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas”. Com cerca de 800 pessoas inscritas, conferencistas nacionais e internacionais e mais de 440 apresentações acadêmicas, o congresso tem sido um momento importante na reflexão sobre uma questão que cada vez cobra maior destaque na realidade brasileira e mundial.

Segundo Cesar Kuzma, presidente da SOTER, “tentamos trabalhar as urgências do nosso tempo no âmbito social, no âmbito político-democrático, na responsabilidade que toca às Igrejas cristãs e às religiões em geral da defesa da laicidade, na defesa da democracia, na defesa dos direitos humanos, apontando caminhos, apontando horizontes, apontando novas perspectivas”.

 

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

 

O congresso partiu dos diferentes cenários em que a sociedade brasileira se encontra, agora marcados também “pela pandemia, pela destruição do estado democrático de direito, pela fragilidade nas nossas democracias, pela perda de direitos sociais e também humanos, pelo desmonte das políticas públicas e pelo grande desastre que vem ocorrendo também em nível ambiental”, segundo o presidente da SOTER.

Dentro dessa pluralidade de cenários, o 33º Congresso da SOTER foi um momento para refletir, que partiu da abordagem de Pedro Ribeiro de Oliveira, que buscou “apresentar-nos uma visão panorâmica no qual nós estamos inseridos”, segundo Kuzma. A palestra de Boaventura de Sousa Santos, que trabalhou a questão da laicidade e da democracia, mostrou a diferença entre os diferentes espaços, valorizando “a importância da Teologia da Libertação na América Latina, na luta histórica que ela teve na defesa da própria democracia”, afirma Kuzma.

Na leitura sobre os diferentes momentos, o teólogo fala sobre os aportes de Frei Betto e Jucimeri Isolda Silveira, destacando os direitos humanos, “que se tornam cada vez mais frágeis na atual conjuntura social que nós vivemos”. Ele destaca a celebração que aconteceu pelos 50 anos da Teologia da Libertação, que considera um momento brilhante, afirmando que a SOTER segue essa linha, e “tem na opção pelos pobres o grande enfoque da sua proposta e de seus objetivos”, insistindo em que “a linha libertadora faz parte da natureza da própria SOTER”, algo que foi feito de forma coletiva. Com a presença de diferentes instituições foi, segundo o presidente da SOTER, “um momento marcante, brilhante, que emocionou a todos”.  

A professora italiana Serena Noceti abordou a questão da responsabilidade das Igrejas cristãs na defesa do estado democrático, desde elementos da Fratelli tutti e o Conselho Mundial de Igrejas. Desde os aportes do Papa Francisco, foi refletido sobre a economia, com a presença de Ladislau Dowbor, e a ecologia, com a reflexão de Afonso Murad, perspectivas que segundo Kuzma, “se somam à questão da democracia, da laicidade, do direito, do bem comum, ou da Casa Comum, que é uma expressão que acabou fazendo parte dos nossos discursos”.


O Congresso da SOTER foi momento para reconhecer com o prêmio João Batista Libânio, a trajetória da teóloga Ivone Gebara, valorizando, segundo o presidente da SOTER “uma caminhada de luta que não se faz sozinha, se faz de modo coletivo, se faz com outras pessoas”. Seguindo o tema do congresso, Cesar Kuzma insiste em que “dar o prêmio a Ivone, com a história que ela tem, com a dinâmica de espiritualidade com a qual ela vive, e na ternura de sua voz e pelo fato de ser mulher, isso foi algo muito emocionante e muito bonito”.




O congresso foi encerrado na sexta-feira com a palestra de Ivone Guevara, onde abordou a questão da responsabilidade das religiões no estado, para a defesa da laicidade a da democracia. A teóloga colocou a importância de as religiões caminhar em conjunto com a sociedade. Finalmente, Maria Isabel Varanda e Rudolf von Sinner, apontaram pistas, horizontes, fazendo uma releitura do evento e apontando possíveis caminhos, “sem a intenção de nos oferecer, mas convidando a um caminhar continuo, coletivo, em busca de novos horizontes, de novas perguntas, de novos espaços”, segundo o professor Kuzma.

Segundo o presidente da SOTER, “o congresso superou todas as expectativas”, inclusive em número de participantes. Ele destaca que o fato de ser virtual permitiu o acesso de pessoas de varias partes do Brasil, da América Latina e de outros países. Mesmo virtualmente, “conseguimos espaços onde a afetividade, a ternura, a humanidade, se fizesse presente”, afirmou Cesar Kuzma. Teve momentos para homenagear as vítimas da Covid-19 e a diretoria da SOTER emitiu uma nota por ocasião do Encerramento do 33º Congresso.

A nota manifesta “a nossa preocupação e o nosso repúdio em relação à deterioração da democracia no Brasil, que se traduz não só no ataque contínuo às Instituições Democráticas e ao Estado de Direito, mas também no aumento da repressão e da violência policial, no aprofundamento da desigualdade social e da fome, na destruição ambiental, na agressão aos povos indígenas, seus direitos e vidas, nos atos sistemáticos de racismo que revelam a condição do racismo estrutural presente em nossa sociedade, na afirmação do sexismo e no crescimento do feminicídio”.

Desde a SOTER é denunciado que “o negacionismo foi e é responsável por grande parte do número de mortos pela atual pandemia da COVID-19, que já ceifou mais de 530 mil vidas no Brasil”. Ao mesmo tempo, a nota insiste em que “este mesmo negacionismo agravou a crise econômica, levando a um enorme contingente de pessoas desempregadas e ao aumento da fome e da miséria”.

O texto condena que “neste contexto, as Religiões, sobretudo certas expressões do Cristianismo, nem sempre têm tido um papel profético, crítico e libertador”, denunciando que “ao contrário, alguns grupos têm instrumentalizado a Religião, negado o caráter laico do Estado e promovido, ou reforçado, a deterioração de nossa democracia em nome de Deus, inclusive afirmando e praticando a intolerância religiosa”.

Por isso, consideram urgente “reafirmar que as Religiões devem estar a serviço da vida e não da morte”. Nesse sentido, a diretoria da SOTER destaca que “o Cristianismo possui uma longa trajetória e, em nosso país, foi fundamental, juntamente com outras Tradições Religiosas, na luta pelos direitos humanos e pela redemocratização do Estado e da Sociedade”. Finalmente, conclamam “todas as lideranças religiosas a se colocarem na defesa incondicional da plena democracia, dos direitos humanos e da justiça social”.

 

*FONTE:http://www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias/78-noticias/611188-33-congresso-da-soter-debate-sobre-a-responsabilidade-das-religioes-na-defesa-da-laicidade-democracia-e-direitos-humanos 

 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

SOBRE ACREDITAR NA VITÓRIA DAS FLORES

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


            

            Quando em 1968 Geraldo Vandré obteve o segundo lugar no Festival Record da canção, aclamado pelo auditório, cantou sobre flores e canhões.  O título de sua composição era justamente “Para não dizer que não falei de flores”. A audiência, a maioria composta por jovens, cantava a plenos pulmões as estrofes da canção, entre as quais se destacava essa: Pelos campos há fome em grandes plantações/ Pelas ruas marchando indecisos cordões/ Ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ E acreditam nas flores vencendo o canhão.

            Muitos talvez não atinassem para o fato de que o título e a canção de Vandré escondiam uma estratégia não isenta de ironia e engenhosidade.  O Brasil vivia seus anos de chumbo.  A ditadura militar ceifava vidas e esperança.  Os efeitos da censura que pesava sobre convicções e manifestações políticas atingiam também a cultura e suas expressões.  Infelizmente a música popular não escapava a essa tenebrosa vigilância. Os organizadores do festival foram instruídos a não dar a vitória a Vandré, restando-lhe o segundo lugar.  Alguns dos jurados sentiram-se profundamente frustrados, chegaram mesmo a retirar-se do evento. 

            Na verdade, a canção de Vandré, aguerrida e bela, era um hino e uma convocação.  Não se intimidava em criticar todos os que optavam pela imobilidade e pretensa neutralidade, incluídos os movimentos que pregavam “paz e amor”.  O poder das flores não era tido em alta conta pelo compositor diante da espessura violenta do ataque das armas que ameaçavam toda uma geração. 

            Parece que aqueles anos voltam em certa maneira hoje.  Sentimos outra vez a linguagem da violência habitando os discursos oficiais.  As armas são enaltecidas em seu poder destruidor e até da tortura se faz apologia. Segmentos vulneráveis da população são ameaçados.  Além da pandemia, outras nuvens encobrem o horizonte. 

            Entre estes segmentos fragilizados, destacam-se os povos indígenas.  Não bastasse a vulnerabilidade que apresentaram frente à pandemia da Covid 19, esses povos que vivem no Brasil e constituem nações com culturas riquíssimas agora se defrontam com a ameaça de um projeto de lei que ameaça alterar a legislação sobre a demarcação de suas terras. O projeto tramita na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Seu texto é ambíguo e polêmico por passar a exigir comprovação de posse até 1988 para que as terras sejam demarcadas.  Além disso, no conteúdo do texto, aparece a flexibilização do contato com povos isolados, a proibição da ampliação de terras já demarcadas e abertura da possibilidade de permissão para exploração de terras indígenas por garimpeiros. 

            Sentindo-se ameaçados, vários indígenas acompanharam a sessão de exame e votação do projeto de lei.  Além disso, no último dia 15 de junho, um expressivo grupo realizou protesto em Brasília na esplanada dos ministérios.  No dia 23, houve outro protesto.  E a polícia se fez presente, com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral para dispersar o movimento.  Alguns manifestantes reagiram com flechas e chegaram a atingir policiais, que foram atendidos e não tiveram maiores consequências em decorrência do revide. 

            O que queremos aqui é não tanto comentar esses elementos que são tão comuns em toda manifestação pública: violência maior ou menor, armas, enfrentamento.  O que ilumina e faz única essa manifestação última foi a presença das flores. Sim, as flores que Vandré lamentava que provocassem a alienação do contexto político onde vivíamos.  As flores, que muitas vezes serviram de arma indolor para que o patriarcalismo exercesse seu silencioso e perverso domínio sobre as mulheres e suas potencialidades.  As flores, que com sua suave beleza perfumam e enfeitam ambientes e são consideradas inofensivas e supérfluas. 

            Em vez de armas, bombas e flechas, as mulheres indígenas ofereceram flores aos perplexos policiais. Rosas. E os que vimos e participamos desse momento de inaudita beleza nos perguntamos, envergonhados: Mas são esses os povos ditos “primitivos”?  São esses os que figuravam na Constituição Brasileira até 1988 como incapazes e menores de idade? 

            Ali estavam, respondendo com beleza e paz à violência, aqueles e aquelas que foram insistente e permanentemente espoliados de suas terras, transferidos à revelia para outros espaços, tutelados por um Estado que jamais os protegeu, ao contrário explorou sua vulnerabilidade, não reconhecendo a eles capacidade civil. 

            O ato dos indígenas de oferecer flores aos que os reprimiam e os atacavam é surpreendente e pedagógico.  Retoma e ultrapassa todas as pedagogias de pacificação e justiça acontecidas na história, entre elas o evangelho de Jesus. O biblista Carlos Mesters, em seu livro Flor sem defesa, fala na força do que é pequeno, vulnerável e indefeso no mundo, que consegue questionar e interpelar a força e o poder. Os indígenas reinterpretam e dão novo sentido, hoje, à canção de Vandré no longínquo Festival da Canção de 1968.  As flores têm palavras e falam.  E podem, sim, vencer o canhão.  Quando muito, falam eloquentemente sobre a vaidade e a inexatidão das avaliações humanas, que consideram primitivo e atrasado aquilo que é proteção e cuidado da vida e da beleza.  Ao mesmo tempo que considera bela e poderosa a força bruta que vem com as armas da destruição, deixando um rastro de morte atrás de si. 

                 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de Crônicas de cá e de lá, entre outros livros.

          

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