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segunda-feira, 31 de julho de 2023

MARIELLE FRANCO: O PODER DE UMA VIDA

 

 


     
Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

Quem tem medo de Marielle Franco? Essa parece ser a pergunta que voltou a ressoar aos ouvidos do Brasil de hoje após um tempo longo demais de silêncio grávido e pesado. O estampido dos quatro tiros que interrompeu a vida da jovem vereadora do Rio de Janeiro e os três que atingiram seu motorista Anderson Gomes se faz ouvir novamente, perfurando desta vez os ouvidos moucos que insistiam em não escutar  afirmações que se iam impondo sempre mais fortemente sobre o caso cuja solução fora apenas parcial e incompleta.  

Agora surge nova narrativa que vem abrir outra parte de um cenário que se adivinhava, mas ao qual faltavam elementos para afirmar. E o depoimento promete, porque anuncia direções e pistas com as quais talvez não se contasse na difícil elucidação do caso, em suas raízes mais antigas, ou seja: as cabeças que decidiram o assassinato, arquitetado e minuciosamente planejado. 

Um ano depois do crime – portanto em 2019 -  a Polícia chegou a prender dois acusados de executar o crime.  São eles: o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-policial militar Élcio de Queiroz.  Ambos teriam envolvimento com grupos de milícia. Mas os mandantes não foram identificados até o presente momento.

No entender da Ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, cinco anos é um tempo mais do que longo para elucidar um caso como este. Isso só demonstra como foi cuidadosamente arquitetado, planejado em todos os detalhes. A localização do crime, em uma rua escura e deserta; o horário, noturno e tardio; a não proteção das vítimas, que transitavam sem segurança e foram pegas de surpresa, segundo depoimento da assessora da vereadora Marielle, Fernanda Chaves. 

Depois do choque da notícia,  que provocou manifestações de indignação e protesto no Brasil e  no mundo inteiro,  as investigações correram sob sigilo.  Não se conseguia acompanhar o ritmo delas.  Os responsáveis pela condução do processo foram mudados uma e outra vez o que, junto com a experiência dos suspeitos presos – dois ex-policiais que sabem como se desenrola uma investigação – tornavam a apuração dos fatos ainda mais difícil. 

Recentemente, Elcio de Queiroz resolveu falar.  E seu depoimento espalhou suspeitas sobre vários personagens do mundo policial e político brasileiros que  indicam que ainda há muita investigação a fazer neste caso.  Mas é alentador ver que se está prosseguindo na tentativa de identificar todos os mandantes e o motivo do assassinato. A reparação de uma injustiça é sempre uma lufada de ar puro e purificador no horizonte da vida. 

Até aqui seria mais um caso de crime não solucionado como há tantos outros.  O que traz de diferente o fato de a investigação do assassinato de Marielle Franco estar novamente sob os holofotes e revelação de movimentos antes ignorados? 

Creio que a resposta está na própria pessoa de Marielle e de seu entorno: sua família, sua vida, seu testemunho, sua história.  A jovem vereadora de sorriso ensolarado e radiante é uma figura símbolo de inúmeras vítimas de injustiça em nosso país: mulher, negra, sexualidade na categoria de “diversidade sexual”.  Ao mesmo tempo é alguém que mesmo morta continua viva.  Viva pelo que é, pelo que fez e ainda faz.  Viva porque a morte não anulou seu poder de fazer vibrar corações e mobilizar consciências. 

Viva na história e brutalmente assassinada e empurrada prematuramente para fora da história.  Marielle continua viva em Deus.  Não significa que está viva “em outro plano” , não sendo mais por nada atingida e não alcançando nada mais  neste mundo.  Os vivos em Deus estão mais vivos que muitos que se consideram vivos e são nossos companheiros de existência.  E o poder de seu testemunho e legado é como um vento que movimenta a história e a faz tornar-se eloquente como nunca.  

Desde que novos fatos foram despejados pela boca de um dos suspeitos de seu assassinato, a história do Brasil espera, atenta e vigilante.  E aguarda que seja escrito um novo e fundamental capítulo de seu transcurso. 

 

            

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Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de

 “Viver como crentes no mundo em mudança” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

domingo, 30 de abril de 2023

Martin Luther King: 60 anos de um sonho e um discurso

 



 Maria Clara Lucchetti Bingemer 

 

            Em agosto serão completados sessenta anos que um homem, em Washington, capital dos Estados Unidos, país mais poderoso do mundo, fez um discurso. O homem era negro. E tinha um sonho. Liderava um grupo de homens e mulheres que aumentava a cada dia e se convertia em multidão. Organizava eventos e marchava silenciosa e pacificamente em protesto contra a violência racial e o desrespeito aos direitos humanos em seu país. Chamava-se Martin Luther King Jr.

 Quando esse pastor batista e doutor em Teologia começou sua caminhada em prol da igualdade racial e da paz, o racismo em seu país era lei e não crime. Uma lei que cavava uma fenda profunda na sociedade estadunidense, mantendo os negros separados dos brancos nos transportes públicos, nas instituições de ensino, nos restaurantes, nos banheiros. O sonho do pastor negro era que essa discriminação tivesse um fim de forma pacífica e não violenta.

 Na origem desse sonho de paz e liberdade está o gesto de uma mulher: Rosa Parks, aquela que um dia, ao voltar do trabalho em um ônibus, sentada na parte do veículo proibida aos negros, recusou-se a ceder seu lugar a um homem branco. Foi presa e penalizada, mas seu gesto de desobediência fez com que cinquenta líderes da comunidade afro-americana, chefiados pelo então quase desconhecido pastor Martin Luther King Jr., reagissem à violência contra ela cometida.

 O movimento organizou e deflagrou um boicote de 381 dias ao sistema segregacionista de ônibus do Alabama. A partir daí seguiu-se a luta dos negros norte-americanos contra a segregação e pelo respeito aos direitos, do qual a estrela foi o Pastor King., que se tornou um ícone da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e ganhou o Prêmio Nobel da Paz anos depois. Sempre reconhecido àquela que havia sido a agente detonadora de seu movimento, Martin Luther King Jr. dizia: "Na verdade, ninguém pode compreender a ação da Sra. Parks, a menos que realize que, eventualmente, a taça da capacidade de suportar transborda e a personalidade humana grita: "Eu não posso mais aguentar".

Em 1963, o pastor negro continuava seu movimento, reivindicando a igualdade de direitos de todos, o fim da discriminação racial e a paz. Suas marchas eram cada vez maiores em volume e em consistência. Naquele ano a marcha sobre Washington, a capital do país, convocava 250 mil pessoas.

 Ali Luther King falou de seu sonho. O sonho da igualdade e da liberdade. Disse sonhar que um dia os filhos dos descendentes de escravos e dos descendentes de donos de escravos pudessem sentar-se juntos à mesa da fraternidade.

O pastor vivia um momento difícil, com ameaças, frustrações. Sentia o conflito que se armava ao redor dele. Mas sonhava para as gerações futuras. Sonhava com a possibilidade de que seus quatro filhos pudessem viver em uma nação onde seriam julgados pelo caráter e não pela cor da pele. O sonho de Luther King era recheado de liberdade e comunhão. Sonhava em fazer chegar mais rápido “o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar...” Sonhava o sonho que sonhou também Jesus de Nazaré e tantos profetas antes dele e tantas testemunhas depois dele. 

King entrou para a história não apenas pelo que fez, mas também e talvez principalmente pelo que sonhou: um mundo onde ninguém seja discriminado por sua raça ou pela cor da pele; onde todos tenham direito de voto e acesso a empregos e serviços públicos; onde todos possam dizer livremente aquilo em que crêem e praticar o que acreditam. Um mundo onde a paz não seja apenas a ausência de guerras, mas situação vital e dinâmica construída no diálogo e na interação franca e transparente. O sonho do Dr. King continua, mais vivo que nunca. Continua nos grupos afro-americanos que seguem lutando por igualdade e enfrentando as discriminações de que são objeto. Faz-se visível nos jovens migrantes, chamados sintomaticamente de “dreamers”, que reivindicam seu direito de sonhar com a cidadania no país que escolheram para viver uma vida melhor. Vive em todo homem e mulher que em qualquer continente ou latitude deseja a justiça, a igualdade e a liberdade, e luta para que aconteçam. 

Como dizia, no Brasil,  o poeta Zé Vicente: “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só.  Sonho que se sonha junto é realidade.“ Sonhemos, pois, para que se faça realidade o sonho belo ainda que tão difícil da igualdade. 

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Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas), entre outras obras.

  

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

sábado, 1 de abril de 2023

A FOME DO OUTRO: PROBLEMA ESPIRITUAL


      Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Como em todos os anos, a Igreja Católica no Brasil lança a Campanha da Fraternidade por ocasião da Quaresma. Nesse tempo em que os cristãos são convocados a converter-se e preparar-se para celebrar o mistério pascal de Jesus, centro da sua fé, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lança um alerta, um apelo.  Escolhe um tema candente e desafiante para  os quarenta dias que precedem a Páscoa. 

            Este ano o tema é a fome.  A fome que rói as entranhas.  Aquela que impede de pensar e de viver. A fome que atormenta famílias inteiras, cujas crianças sofrem o flagelo da desnutrição.  E por que a fome?  Porque o Brasil voltou a seu macabro mapa. Mais de 30 milhões de brasileiros não têm o que comer.  Ainda que surpreenda, ainda que estarreça em um país com tantos recursos naturais, com uma agricultura pujante, essa é a realidade. Muitos brasileiros passam fome.  E entre esses, não poucos são vitimados e morrem de desnutrição e insegurança alimentar. 

            Perguntarão alguns: mas por que a Igreja tem que se ocupar com este problema, que é econômico, social? Não é uma questão religiosa.   Isso deveria ser pauta dos governos em todos os níveis, inclusive das universidades.  Por que a Igreja situa em seu centro de atenções no tempo litúrgico mais importante do ano esse problema tão material? Não deveria propor algo que toque mais de perto o espírito, a vida de oração, o crescimento devocional de seus fiéis?

            Acontece que a fome é, sim, um problema espiritual.  E dos mais importantes.  Porque está diretamente conectado à vida.  Sem comer, não se vive.  E o Deus que Jesus de Nazaré veio anunciar e chamou de Pai é o Deus da vida.  Tudo que deseja é que seus filhos amados tenham vida em abundância.  A fome portanto é uma agressão das mais  violentas ao projeto de Deus, o Reino da justiça, da paz e do amor. Por isso, a CNBB convoca  todos os cristãos a se responsabilizarem diante deste flagelo que voltou a crescer no país.  

            Os bispos do Brasil, portanto, com a Campanha da Fraternidade 2023 são claros em sua proposta: a fome não é um problema alheio a Deus, à fé e à religião.  Pelo contrário, está no centro da vida e do projeto de Jesus e de todos aqueles e aquelas que nele creem.  Como diz o grande pensador ortodoxo Nikolai Berdiaev: “Se eu tenho fome é um problema biológico.  Se o meu irmão tem fome, é um problema espiritual” .

            A Igreja deseja despertar os sentidos, a cabeça e o coração de todos para uma situação que não pode ser tratada com indiferença e considerada normal.  O fato de uma pessoa, criatura de Deus, passar fome e não ter o que comer; ter que ir para os fundos dos açougues esperando encontrar algum osso para dar a sua família; ter que revirar latas de lixo como os ratos para encontrar sobras das mesas fartas, não pode ser tratado com um dar de ombros indiferente, como se não fosse problema meu.  

            O grande escritor brasileiro Fernando Sabino escreveu uma memorável crônica  - Notícia de jornal - sobre um homem que passava fome na rua e ali acabou morrendo sem receber o socorro de ninguém. 

“ Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.  Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? O que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.“

A Igreja do Brasil não quer que isso aconteça.  E mais: deseja dizer aos cristãos que isso não pode acontecer.  Nunca.  A fome do outro é problema meu, nosso.  Por isso, como lema da Campanha da Fraternidade temos a bela frase do Evangelho de Marcos que narra a multiplicação dos pães: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.  

Jesus viu a multidão faminta e compadeceu-se dela.  Os discípulos argumentavam que era melhor mandar todos embora, que não tinham dinheiro para comprar comida.  O Mestre disse, então, que o que tinham pusessem em comum.  E afirma o evangelho que todos comeram e ficaram saciados.  

Não há que delegar, terceirizar, responsabilizar os outros.  Dizer que isso é problema da prefeitura, do governo do estado, da presidência da República.  “Dai-lhes vós mesmos de comer”. A fome do outro é um problema espiritual e ao mesmo tempo um mandato.  Quem tem fome não pode esperar.  Precisa ser alimentado. E se eu me deparei com alguém com fome, sou eu que devo dar-lhe de comer, repartindo o que é meu para que todos sejam saciados. 

 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

PARTIDAS E CHEGADAS

 



 Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

            O ano vai acabando com tristezas e alegrias.  Partiu a fantástica escritora e acadêmica Nélida Piñon.  Além de mulher de letras inspirada e fecunda, foi a primeira a presidir a Academia Brasileira de Letras e até hoje mantinha intensa atividade no mundo da cultura brasileira e também ibérica.  A conexão entre sua Espanha Natal e o Brasil era um ponto constante e importante de sua agenda.  

            Além disso, Nélida constituía uma quase unanimidade.  Jamais encontrei alguém que não a admirasse e estimasse.  Doce, próxima, alegre, presença agradabilíssima e enriquecedora em qualquer ambiente, tinha uma incontável legião de amigos e admiradores.  Partiu inesperadamente, em Lisboa, onde se encontrava.  E deixa um vazio grande em termos humanos e literários.  

            Fica conosco o legado de sua alegria e esperança.  Nélida já havia tido um encontro próximo com a morte há alguns anos.  Felizmente o diagnóstico que lhe foi dado não se concretizou e pudemos contar com ela novamente entre nós por mais tempo.  Desde aí, segundo seu próprio testemunho, passou a ver a vida de outra maneira e por outro ângulo.  E isso a fez ainda mais profunda e adorável. 

            Mas esse fim de ano também celebra chegadas.  Uma delas aconteceu ontem.  A tão esperada Copa do Mundo voltou para as mãos da América Latina após vinte anos.  A orquestra do time albiceleste foi dirigida com genialidade pelo maestro Leonel Messi, que também traz consigo a marca da unanimidade.  Não há quem não admire seu talento, sua força em campo.  Sobretudo admirável é sua capacidade de unir o time e fazê-lo trabalhar como realmente uma equipe. 

            Messi não faz questão de “assinar” seus gols.  Com tranquilidade e alegria leva a bola aos pés dos companheiros para que eles finalizem a jogada.  Consola um, anima outro, insiste no esforço.  Traz em si, além do talento do jogador e da disciplina do atleta, a marca do verdadeiro líder.  A equipe por ele capitaneada teve um belo desempenho e mereceu a taça que levantou após longo jejum.  Parabéns, Argentina! 

Tomara que a chegada dessa vitória entre tantas derrotas do país da albiceleste, assim como de todo o continente, nos deixe algumas lições.  A primeira seria o desprendimento que exige trabalhar em equipe.  Não importa quem marca o gol, importa que o gol seja marcado ainda que não por mim e a equipe triunfe.  Importa a união que faz realmente a força, como diz o ditado popular.  A combalida e fragmentada Argentina, dividida em polarizações várias, com a inflação pelas alturas, que luta por maior justiça e paz, hoje canta feliz com a vitória da sua seleção.  Que a beleza desse triunfo possa se refletir na sociedade do país vizinho. 

Quanto a nós, vizinhos mais ao norte, temos também lições a levar para casa após esta Copa do Qatar.  Esqueçamos por um momento a tradicional rivalidade em campo entre os dois países.  Após a sofrida derrota nas quartas de final, o Brasil poderia aprender bastante com a seleção do país ao sul. Espera-se para o futuro uma seleção mais focada em disciplina e desempenho, sem tanta frivolidade.  Queremos atletas e não celebridades.  Não se pretende aqui generalizar injustamente, apenas apontar algo que apareceu desta vez e que seria bom que mudasse para o futuro próximo. 

O mesmo acontece em nível do país.  Neste momento de transição de governos, onde as disputas por cargos se veem ferozes e devoradoras. A impressão é de que o que menos importa é o bem do país e a integração de forças para conseguir reconstruí-lo.  Interesses individuais e partidários se atravessam no caminho daquilo que poderia ser uma bela e rica reconstrução nacional.  Não importa quem faz que gol.  Importa que o placar seja cheio de gols diversos e convergentes para um futuro promissor. 

A grande chegada deste período ocorrerá, porém, daqui a alguns dias.  Temos vivido sua espera, sua preparação, e sobretudo seu ardente desejo.  Vamos celebrar o Natal que nos diz que quando nem nós acreditamos mais em nós mesmos, Deus continua apostando nessa humanidade torta, mas ao mesmo tempo tão bela que somos e que sai constantemente de Suas mãos. 

O Menino vai chegar.  Belo . Como diz João Cabral de Melo Neto: “...tão belo como um sim/numa sala negativa.../... Belo como a última onda que o fim do mar sempre adia/ é tão belo como as ondas em sua adição infinita./ Ou como o caderno novo/ quando a gente o principia./...E belo porque o novo/ todo o velho contagia...Belo porque corrompe/com sangue novo a anemia./...Infecciona a miséria/com vida nova e sadia.”

 

Maria Clara Bingemer, é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e  autora de “Santidade:chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria

mhgpal@gmail.com 

 

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

RELIGIÃO: TOLERÂNCIA OU RESPEITO REVERENCIAL?

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

A religião possui uma força política poderosa. No mundo contemporâneo, é uma força central, talvez a força central que mobiliza as pessoas… Em certas situações vitais, o que em última análise conta não é tanto a ideologia política nem os interesses econômicos, mas as convicções religiosas de fé, a família, o sangue e a doutrina. É por elas que as pessoas combatem e estão dispostas a dar suas vidas.

Muitas vezes, no entanto, a religião é geradora de conflitos.  Intolerância, fechamento à diferença do outro, preconceito acontecem e provocam debates acalorados, atitudes extremas ou até mesmo tragédias. 

Vamos muito longe com as palavras?  Somos radicais em nossa avaliação?  Pois não é de tragédia que se trata o atentado do qual foi vítima o escritor Salman Rushdie há poucos dias, nos Estados Unidos? O ensaísta de ficção britânico, de origem muçulmana indiana, criou-se em Mumbai e estudou na Inglaterra. Escreve livros de grande beleza e é muito bem-sucedido como escritor.  Seu estilo mistura mito e fantasia com a vida real, e tem sido ligado por alguns críticos de sua obra ao realismo mágico, cujo protagonista latino-americano era Gabriel Garcia Márquez. 

O que catapultou Rushdie para as páginas de todos os jornais e um lugar central na mídia foi a publicação, em 1989, do romance “Versos Satânicos”.  Trata-se de um texto complexo, inspirado em acontecimentos reais, como o ataque contra um avião da companhia aérea Air India, em 1985, e a Revolução Iraniana, de 1979.  Ao lado destes, figuram referências biográficas sobre o próprio autor, bem como acontecimentos históricos inspirados na vida do profeta Maomé, ora lendários, ora imaginários. 

O tema central pode ser encontrado em outras obras do autor: o desenraizamento do imigrante dividido entre sua cultura de origem, a partir da qual se afasta, e a cultura de seu país anfitrião, que ele ansiosamente deseja adquirir, e a dificuldade desta metamorfose. Aparecem como cenários a India e a Grã-bretanha, o passado e o presente, o imaginário e a realidade.  E aborda temas como fé, tentação, fanatismo. 

O governo iraniano de então considerou a escrita de Rushdie ofensiva ao profeta, uma blasfêmia contra o Islam, e o autor um apóstata por se declarar no livro desiludido com o Islam. Pronunciou então uma fatwa – sentença – ordenando sua execução.  O aiatolá Khomeini, suprema autoridade religiosa do Irã, determinou que todos os "muçulmanos zelosos" tentassem assassinar o escritor, os editores do livro que soubessem dos conceitos ali descritos e quem tomasse conhecimento de seu conteúdo, conforme a fatwa.

Rushdie foi forçado a viver no anonimato por muitos anos. A fatwa contra ele foi renovada em 2005 por Ali Khamenei, sucessor de Khomeini. 

Em 12 de agosto, na pequena cidade de Chautauqua, Estado de Nova York, EUA, Rushdie foi alvo de um ataque a faca, sendo atingido no rosto, no pescoço e em várias outras partes do corpo.  O agressor, Hadi Matar, de 24 anos foi preso em flagrante e declarou-se inocente.  O escritor sobreviveu, mas permanece em estado grave: fala com dificuldade, embora haja esperança que se recupere das feridas sofridas. 

A sentença da qual Salman Rushdie vinha se escondendo há tantas décadas, acabou atingindo-o. Homem pacífico, o escritor é vítima do desrespeito à liberdade de expressão e de intolerância quanto à prática religiosa.  

Agora o golpe foi desfechado por um islâmico contra outro islâmico.  Mas no passado quantas vezes representantes de religiões diferentes se atacaram entre si.  Nós, cristãos, temos que bater no peito e pedir perdão pelas muitas vezes em que  fizemos o mesmo.  Os outros monoteísmos igualmente. 

Nada se constrói com intolerância e fechamento à diferença do outro, que pode estar em sua etnia, em seu gênero, em sua raça ou em sua religião.  Em um mundo tão violento e conturbado como este em que vivemos, há que cultivar não apenas a tolerância, mas um reverencial respeito pelo outro e tudo que a ele diz respeito.  De maneira muito especial, pela religião que ele professa, que dá sentido a sua vida e é motivadora de suas posições éticas, de seus compromissos concretos e transformadores da realidade.  

Que Salman Rushdie possa recuperar-se e seguir escrevendo em paz.  E que todos e cada um de nós possamos aprender a respeitar, reverenciar e aprender a religião do outro. 

 

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Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Teologia latino-americana:raízes e ramos” (Editora Vozes), entre outros livros.

 

 

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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

SOBRE FRAGILIDADE, LUMINOSIDADE E IRMANDADE

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

Eu a chamava de Anete e ela a mim, de Claire.  Conhecemo-nos na PUC-Rio, no curso de Jornalismo, em 1968.  Ano de chumbo, mas também de valores vividos, utopias ardentes, buscas febris e verdadeiras. Ela vinha do Colégio Santa Úrsula e eu, do Sion. Órfãs de pai ambas, tínhamos mães fortes e “rochosas” em virtude, firmeza e dedicação. A amizade nasceu entre nós e nunca mais nos deixou. 

Nesse tempo ela ainda não era Ramalho, mas Abreu Monteiro.  E à medida que a conhecia mais descobria sua ascendência ilustre de Capistrano de Abreu, da Madre Honorina, aliás Teresa de Jesus, primeira santa brasileira, e a inteligência e cultura como marcas da família. Anna Maria era doce e forte ao mesmo tempo.  Muito feminina, vaidosa e elegante, era ao mesmo tempo capaz de enfrentar as mais fortes tempestades com coragem e determinação.  Conjugava sensibilidade e racionalidade, sabia combinar inteligência privilegiada com humor invejável, que se refletia em sua escrita jornalística apurada, de estilo irônico inigualável.

Ela se formou antes de mim, pois me casei no meio do curso.  Presente ao meu casamento, foi também uma das primeiras a nos receber de volta do ano passado na França, já com a primeira filha nos braços. Anna Maria também casou-se e deu à luz o filho Christiano, nascido um mês antes de minha filha caçula. 

Ela acompanhou minha entrada na teologia e a trajetória acadêmica pela pós-graduação em Roma.  Eu segui de perto sua carreira de jornalista brilhante: trazia saborosas notas sobre a vida social carioca, fazia análises interessantes e sempre atualizadas sobre política, cultura e acontecimentos recentes na vida do país. 

Sua maior característica sempre foi a alegria com a qual seduzia as pessoas que a conheciam.  Sua presença era garantia de festa, bem-estar e boas gargalhadas.  Mas também de papo sério, inevitavelmente marcado por um otimismo indestrutível.  Crítica mordaz, sempre sabia salvar o lado bom das coisas e iluminar os ambientes com seu refinamento e brilho.  

Vibrei com ela quando Christiano, seu filho, tornou-se um chef renomado e talentoso.  E quando Antônia e Olívia, suas netas, inauguraram um novo e precioso capítulo em sua história luminosa de vida. A beleza das meninas refletia-se no rosto da avó, que a devolvia multiplicada e cheia de brilho. 

Eu a vi fragilizada em algumas ocasiões.  Notadamente quando morreu sua mãe, dona Honorina, por quem tinha verdadeira adoração.  Ou durante a enfermidade de Fernando, seu companheiro querido, falecido ainda muito jovem.   No entanto, essa fragilidade vinha sempre banhada da luminosidade do amor à vida e da alegria que a tudo vencia.  Nossa irmandade se construía na interlocução desses seus traços luminosos com minha, às vezes, excessiva seriedade.  Com seu jeito de ser ungia e flexibilizava minhas articulações um tanto rígidas e seu humor insuperável acabava vencendo qualquer dureza. 

Anna Maria tinha uma irmã mais nova a quem era muito unida.  Eu era filha única e ela se tornou de certa maneira minha irmã, a amiga que meu coração escolheu e que comigo partilhou praticamente uma vida inteira. Minha mãe a amava como filha, meu marido como irmã e meus filhos a tinham em conta de tia muito amada, aberta e de escuta pronta, captando bem seus desejos vindos de outra geração. 

Quando ela me contou que tinha um problema sério de saúde, acompanhei seu otimismo e acreditei com fé firme em sua recuperação.  Claro.  Anna Ramalho só combina com vida, e mais vida, e força e vitória.  Segui de perto o tratamento, animada com sua atitude positiva e certa de sua cura. 

É por isso que me encontro hoje desarvorada e sem entender nada.  A piora em poucos dias, as últimas mensagens trocadas, a visita marcada em sua casa adiada e que não acontecida.  Depois o silêncio.  As mensagens não respondidas e as notícias cada vez piores chegando até a notícia de sua morte.

Ainda não realizei plenamente o que vai significar não poder mais ouvir sua voz alegre, suas piadas inteligentes, suas observações finas e perfeitamente coerentes.   Não acredito que não vou ouvir mais meu nome na versão que ela criou – Claire – em seus áudios e chamadas telefônicas. O vazio que sinto corresponde ao tamanho da irmandade que nos unia e me fez experimentar a graça de ter uma irmã em minha unicidade filial. 

Querida Anna, recuso-me a dizer adeus.  Digo até já, até breve, porque sei que em cada momento, em cada esquina do que ainda me resta viver vou encontrar seu rosto alegre, seu sorriso inspirador.  Vou ouvir sua voz dizendo coisas sábias e ao mesmo tempo me fazendo rir às gargalhadas. Você habita em mim e é parte intrínseca desta vida que vivemos, tão rica e fecunda.  E que continuaremos a viver, pois ambas temos fé e esperança. Nosso Deus é o Deus da vida e sua última e definitiva Palavra só pode ser de vida.  Vida essa que já se pode sentir nas milhares de mensagens de carinho das pessoas que foram afetadas por sua passagem e expressam o que você é: fonte de vida para tantos e tantas. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Teologia latino-americana:raízes e ramos” (Editora Vozes), entre outros livros.

 

   

Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

A FAMÍLIA E A ALEGRIA DO AMOR

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            Volto de Roma, onde participei de um seminário na Universidade Gregoriana, pensado a propósito dos cinco anos da Exortação “Amoris Laetitia” e que aconteceu apenas este ano devido à pandemia. Organização impecável, alto nível de conferencistas e debatedores, frutíferas discussões. E o consenso de que bons tempos vão sendo vividos pelas famílias cristãs com a abertura que esse grande documento pontifício traz. 

            A perspectiva não é a casuística estreita e legalista que fez muitos casais e famílias sofrerem, dilacerados entre a fidelidade à sua fé e sua pertença eclesial e os apelos novos e surpreendentes que a vida lhes trazia. É, ao contrário, a porta aberta e luminosa da alegria.  A alegria do amor, única verdadeira. Assim quer o Papa Francisco que seja vista e concebida a família: lugar de vivência da alegria do amor. 

            A família é inicialmente lugar de formação a uma consciência crítica.  Trata-se do primeiro fórum onde as pessoas aprendem a ler e avaliar o mundo que é sua casa.  Esse fórum pedagógico é formado de pessoas que se ajudam umas às outras a tomar consciência dos desafios do mundo em que habitam para discerni-los e enfrentá-los com alegria.  Isso é verdade no que diz respeito aos esposos, mas também de maneira especial quando se trata da formação das crianças.  No número 261 da Amoris Laetitia, o Papa Francisco afirma que para formar moralmente uma criança é preciso ajudar a criar em seu interior, com amor, processos de maturação da liberdade de formação na cultura de uma autêntica autonomia. 

            Essa liberdade e autonomia levam forçosamente a que a criança possa ser e situar-se não apenas protegido e ao abrigo de todo percalço no seio da família, mas exposto aos problemas de seu meio, alguns muito duros, conflitivos e dolorosos.  Porém, aí em meio a esses desafios estará sempre acompanhada, sem ser dominada ou que lhe seja imposta a leitura feita por outros.  Ao revés, será instada e acompanhada para avaliar e discernir o que se lhe apresenta da realidade, a fim de poder tomar atitudes e decisões. 

            A tomada de consciência sobre todas as questões que a realidade lhe traz ao encontro proporciona aos jovens e adultos que formam a comunidade familiar a perplexidade diante da velocidade com a qual as coisas mudam, caracterizando uma mudança de época.  E essa constatação, que aflora à consciência, leva ao espírito que atravessa do começo ao fim o documento papal: não se pode, no que diz respeito às questões de moral, simplesmente repetir fórmulas antigas que não repercutem mais nas pessoas e não fazem nem mesmo sentido para as mesmas. 

            A exortação Amoris Laetitia concebe – em profunda sintonia com o que diz constantemente o Papa Francisco – a vida moral baseada essencialmente nos exemplos e  testemunhos.  Assim, a teologia moral seria como uma pedagogia, tecida de numerosos exemplos, nos quais os casais e as famílias possam reler sua própria experiência e dela aprender.  E assim crescer como comunidade.  Se damos crédito ao que diz Paulo VI no documento Evangelii Nuntiandi – que as pessoas hoje em dia escutam mais as testemunhas que os mestres – estes exemplos são cruciais para a credibilidade da família enquanto instituição. 

            Na beleza desse desafio, a sexualidade deve ser vivida enquanto dinamismo constitutivo e essencial da vida e ser assumida na dinâmica familiar e na vida de fé em um sentido mais largo.  Um verdadeiro crescimento integrado das e nas famílias não pode perder de vista que a sexualidade hoje apresenta aspectos muito diversos aos do passado, com consequências vitais igualmente diversas.  Os distintos modelos de família revelam essa comunidade humana como multicêntrica e configurada em modelos muito diversos, que não podem ser ignorados.  

            Segundo a lógica do Evangelho, a família não existe para si mesma nem pode existir autocentrada e voltada para a consecução de sua própria virtude e excelência. Isso estabeleceria uma dicotomia malsã entre a vida privada do lar e a dimensão pública do mundo e da sociedade. A família existe no mundo e para o mundo.  E é pela escuta das necessidades e prioridades deste mundo e desta sociedade que deve desenvolver sua identidade e prioridades pedagógicas e ativas.  A proposta e o apelo do Evangelho dirigem-se aos que formam uma família no sentido de que ela não se autocompreenda como fim em si mesma, mas sim como uma comunidade que existe para que o mundo seja mais justo e mais humano. 

            A mensagem cristã não é feita para seres perfeitos, mas para seres humanos com imperfeições, ambiguidades e pecados.  A Amoris Laetitia relembra à Igreja que ela deve ser capaz de dialogar com todas as pessoas, mesmo as que estariam em situação irregular perante a Igreja que amam e à qual querem continuar a pertencer. É enquanto seres criados com um corpo sexuado que a salvação nos é proposta.  A Igreja não quer ser juíza implacável do modo pelo qual as pessoas administram e vivem sua sexualidade, mas apresentar-lhes a alegria do amor.  Assim, a sexualidade será fonte de alegria e não de repressão, tristeza, violência, opressão. A humanização da sexualidade seria um objetivo a perseguir com a ajuda da graça. 

            Ao término do seminário, em encontro com o Papa Francisco, pudemos ouvir de sua boca a confirmação do vivido e refletido naqueles dias: é preciso saber buscar as fontes e a primeira raiz sem andar para trás.  Anda-se para a frente, não para trás.  Andar para trás não é cristão.  Conciliar a fidelidade às fontes mais profundas e originárias do amor e vivê-lo caminhando para a frente é o desafio posto às famílias que hoje desejam viver a alegria desse amor. 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Teologia Latino-Americana: raízes e ramos” (Editora Vozes).