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domingo, 30 de abril de 2023

Martin Luther King: 60 anos de um sonho e um discurso

 



 Maria Clara Lucchetti Bingemer 

 

            Em agosto serão completados sessenta anos que um homem, em Washington, capital dos Estados Unidos, país mais poderoso do mundo, fez um discurso. O homem era negro. E tinha um sonho. Liderava um grupo de homens e mulheres que aumentava a cada dia e se convertia em multidão. Organizava eventos e marchava silenciosa e pacificamente em protesto contra a violência racial e o desrespeito aos direitos humanos em seu país. Chamava-se Martin Luther King Jr.

 Quando esse pastor batista e doutor em Teologia começou sua caminhada em prol da igualdade racial e da paz, o racismo em seu país era lei e não crime. Uma lei que cavava uma fenda profunda na sociedade estadunidense, mantendo os negros separados dos brancos nos transportes públicos, nas instituições de ensino, nos restaurantes, nos banheiros. O sonho do pastor negro era que essa discriminação tivesse um fim de forma pacífica e não violenta.

 Na origem desse sonho de paz e liberdade está o gesto de uma mulher: Rosa Parks, aquela que um dia, ao voltar do trabalho em um ônibus, sentada na parte do veículo proibida aos negros, recusou-se a ceder seu lugar a um homem branco. Foi presa e penalizada, mas seu gesto de desobediência fez com que cinquenta líderes da comunidade afro-americana, chefiados pelo então quase desconhecido pastor Martin Luther King Jr., reagissem à violência contra ela cometida.

 O movimento organizou e deflagrou um boicote de 381 dias ao sistema segregacionista de ônibus do Alabama. A partir daí seguiu-se a luta dos negros norte-americanos contra a segregação e pelo respeito aos direitos, do qual a estrela foi o Pastor King., que se tornou um ícone da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e ganhou o Prêmio Nobel da Paz anos depois. Sempre reconhecido àquela que havia sido a agente detonadora de seu movimento, Martin Luther King Jr. dizia: "Na verdade, ninguém pode compreender a ação da Sra. Parks, a menos que realize que, eventualmente, a taça da capacidade de suportar transborda e a personalidade humana grita: "Eu não posso mais aguentar".

Em 1963, o pastor negro continuava seu movimento, reivindicando a igualdade de direitos de todos, o fim da discriminação racial e a paz. Suas marchas eram cada vez maiores em volume e em consistência. Naquele ano a marcha sobre Washington, a capital do país, convocava 250 mil pessoas.

 Ali Luther King falou de seu sonho. O sonho da igualdade e da liberdade. Disse sonhar que um dia os filhos dos descendentes de escravos e dos descendentes de donos de escravos pudessem sentar-se juntos à mesa da fraternidade.

O pastor vivia um momento difícil, com ameaças, frustrações. Sentia o conflito que se armava ao redor dele. Mas sonhava para as gerações futuras. Sonhava com a possibilidade de que seus quatro filhos pudessem viver em uma nação onde seriam julgados pelo caráter e não pela cor da pele. O sonho de Luther King era recheado de liberdade e comunhão. Sonhava em fazer chegar mais rápido “o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar...” Sonhava o sonho que sonhou também Jesus de Nazaré e tantos profetas antes dele e tantas testemunhas depois dele. 

King entrou para a história não apenas pelo que fez, mas também e talvez principalmente pelo que sonhou: um mundo onde ninguém seja discriminado por sua raça ou pela cor da pele; onde todos tenham direito de voto e acesso a empregos e serviços públicos; onde todos possam dizer livremente aquilo em que crêem e praticar o que acreditam. Um mundo onde a paz não seja apenas a ausência de guerras, mas situação vital e dinâmica construída no diálogo e na interação franca e transparente. O sonho do Dr. King continua, mais vivo que nunca. Continua nos grupos afro-americanos que seguem lutando por igualdade e enfrentando as discriminações de que são objeto. Faz-se visível nos jovens migrantes, chamados sintomaticamente de “dreamers”, que reivindicam seu direito de sonhar com a cidadania no país que escolheram para viver uma vida melhor. Vive em todo homem e mulher que em qualquer continente ou latitude deseja a justiça, a igualdade e a liberdade, e luta para que aconteçam. 

Como dizia, no Brasil,  o poeta Zé Vicente: “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só.  Sonho que se sonha junto é realidade.“ Sonhemos, pois, para que se faça realidade o sonho belo ainda que tão difícil da igualdade. 

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Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas), entre outras obras.

  

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Dez anos de Francisco: Feliz Aniversário

 

    Maria Clara Bingemer


 

Há dez anos o  Cardeal Jorge Mario  Bergoglio foi eleito Papa e escolheu para si o nome de Francisco.  Desde então, tem mostrado ao mundo, entre muitas coisas, a importância primordial do encontro com o outro.   Diz e repete que encontramos pessoas "não apenas vendo, mas olhando, não apenas ouvindo, não apenas cruzando caminhos com as pessoas, mas ficando com elas, não apenas dizendo "Que pena! Pobres pessoas", mas deixando-nos comover pela compaixão.  E isso implica aproximar-se, tocar e dizer  "não chores, e dar pelo menos uma gota de vida".  Este é, segundo Francisco, o caminho para criar uma “cultura do encontro”. 

A intenção básica da proposta desta cultura é combater a indiferença que prevalece em nossa sociedade de descarte, de velocidade, de superficialidade para chegar a um encontro verdadeiro e profundo com os outros. Mas para consegui-lo, devem ser estabelecidas certas condições. E é o próprio Papa quem as aponta: "Temos que ser pacientes se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: as pessoas não se expressam plenamente quando são simplesmente toleradas, mas quando percebem que são verdadeiramente bem-vindas. Se tivermos um desejo genuíno de ouvir os outros, aprenderemos a olhar para o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como ela se manifesta em diferentes culturas e tradições”

As ruas do mundo são o lugar desta cultura de encontro, o "locus" onde as pessoas vivem, onde elas são efetiva e afetivamente acessíveis. O testemunho cristão, portanto, não é oferecido através de um  bombardeio de pessoas com mensagens religiosas, mas por uma vontade de se entregar aos outros através de um desejo de responder paciente e respeitosamente às suas perguntas e dúvidas sobre o caminho da busca da verdade e do significado da existência humana.

De Bergoglio a Francisco encontramos o ponto central de uma mudança no próprio estilo de ser Papa. O mesmo Bergoglio que no documento de Aparecida influiu para que se valorizasse o encontro interpessoal com Deus e com o outro, revela-se na pessoa e na linguagem de Francisco como uma proposta audaciosa e avançada de criar uma "cultura do encontro". O Papa sabe que não basta converter alguns indivíduos isolados para que haja uma real transformação na sociedade e na Igreja.  Importa, sim, criar uma cultura, que significa tocar e converter atitudes, valores, costumes, tradições.

No balcão em frente às multidões à espera do anúncio do novo Papa, em 13 de Março de 2013, o Papa Francisco mostrou a sua disponibilidade para viver esse encontro,  com palavras e gestos. Apresentou-se a si próprio como bispo de Roma, enraizado no fim do mundo, onde repousam suas origens.  Pediu também a bênção do povo  antes de abençoá-lo, invertendo a ordem do costume e da tradição. 

Desde então, os dez anos do seu pontificado têm sido cheios de surpresas e novidades.  Trata-se de algo que tem agradado a muitos e desagradado talvez a muitos mais.  Francisco é, sem dúvida, um Papa diferente.  E o seu estilo de ser, comover-se, falar e agir surge certamente como uma surpresa para muitos. Mas encanta e conquista a outros. E isso talvez o faça mais amado fora da Igreja do que dentro dela. 

A mim – católica e teóloga – é como uma lufada de ar fresco numa Igreja que parecia deixar para trás a primavera do Concílio.  De repente, nas palavras do Papa, encontrei novamente a linguagem conciliar, ancorada na antropologia e na história.  A linguagem de uma Igreja que queria ser perita em humanidade, como diz a Constituição Pastoral  Gaudium et Spes. 

Ao longo desses 10 anos pude também redescobrir nos discursos pontifícios muito do que a Igreja latino-americana havia tentado construir no período pós-conciliar e que parecia haver estado tristemente sob suspeita em determinado momento: a prioridade dos pobres; a atenção à cultura popular e a valorização das suas festas, histórias e criações; a crítica não só aos indivíduos mas também aos sistemas que são injustos e oprimem pessoas e comunidades inteiras. 

A encíclica Laudato Si, de 2015, inaugura um novo capítulo na história da doutrina social da Igreja.  A transparência do texto, o discurso que tão harmoniosamente combina teologia com ciência e com poesia e mística, capta a preocupação do momento presente e das novas gerações por um planeta sob constante ameaça e sob ataque diário. Igualmente ensina que somos seres criados em meio a uma comunidade de outros seres vivos, não apenas humanos.  Toda vida merece respeito, reverência e cuidado.  O Papa Francisco, em nível pastoral, convocou a uma mudança de paradigma em toda a Igreja e a sociedade, onde o cuidado deve ser o centro e o norte da vida.  Os seres humanos são chamados a abandonar sua postura arrogante e predatória e a integrar-se na comunidade de todos os seres vivos, a fim de a protegerem, uma vez que as primeiras vítimas da desordem ambiental em que vivemos são os pobres.  A ecologia e a justiça andam, portanto, juntas. 

Em 2020 veio à luz outra encíclica, sintonizada com a Laudato Si. O título fala por si só:  Fratelli Tutti. Reflete sobre a amizade social, refletindo em torno da parábola do Bom Samaritano, situada no capítulo 10 do Evangelho de Lucas. O texto pontifício mostra que se a humanidade progrediu na construção da liberdade e da igualdade, o mesmo não aconteceu em relação à fraternidade.  Passar da lógica do sócio para a do irmão/irmã é o convite que ressoa neste documento, que reflete muito da experiência e do trabalho deste argentino, acostumado à companhia dos mais pobres e entusiasta dos movimentos populares. 

Finalmente, como teóloga, acredito que o Papa abriu novos e esperançosos caminhos para aqueles de nós que trabalham com a inteligência da fé. E por isso sinto-me muito em sintonia com a concepção de teologia que ele mostra ser a sua própria.  Em carta ao cardeal Poli, arcebispo de Buenos Aires, por ocasião da celebração do bicentenário da faculdade de teologia da Universidad Católica Argentina (UCA), escreve  com clareza que "o teólogo deve ser uma pessoa capaz de construir a humanidade à sua volta, transmitir a verdade cristã divina numa dimensão verdadeiramente humana, e não um intelectual sem talento, um moralista sem bondade ou um burocrata do sagrado". 

Mais recentemente, em  sua mensagem à Pontifícia Comissão Teológica Internacional, além de destacar os dois pilares da teologia - vida espiritual e eclesialidade - afirma que "o teólogo deve ir à frente, deve estudar o que vai além; deve também confrontar coisas que não são claras e assumir riscos na discussão". Acrescenta ainda que não se deve trazer questões controversas para o povo, mas sim uma doutrina sólida. O papel do catequista, portanto, não seria o mesmo do teólogo. Francisco entende a vocação da teologia  ancorada na fé, tendo uma identidade intelectual, sem medo de fronteiras e da pesquisa sobre os desafios do mundo e da sociedade. 

Ao comemorar esses 10 anos, olho com gratidão para o pontificado de Francisco.  Ao longo do mesmo, pode-se sentir o esforço incessante de promover este encontro entre as pessoas, que não deve ser algo episódico, mas uma verdadeira cultura.  Ele vê e comunica esta proposta com uma base firme em uma antropologia que concebe o ser humano feito para a alteridade e a diferença, e capaz de construir a comunhão. O encontro só pode ter lugar, como ele próprio sublinha, de baixo para cima, para que ninguém fique de fora desta comunhão difícil de construir, mas tão bela em termos de ideal e de objetivo.

Feliz aniversário, Santidade! Que venham  outros aniversários e celebrações!

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas), entre outras obras. 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

terça-feira, 30 de agosto de 2022

O Grito dos 200 anos e gritos de cinco séculos

Marcelo Barros


 

Por todo o Brasil ecoam os preparativos para as comemorações do 7 de setembro, quando se completam 200 anos do lendário grito da independência do Brasil, em relação ao reino de Portugal. A história mostra que o Brasil apenas mudou de donos. A imensa maioria da população continuou na servidão e na dependência de uma minoria que se adapta às conveniências do momento, mas mantém o controle social e merece bem o nome dado por Jessé de Souza: “a elite do atraso”.

Desde que os europeus invadiram essas terras, escravizaram os povos originários deste continente e sequestraram milhões de africanos/as como escravos/as, o povo oprimido nunca deixou de se organizar, lutar por seus direitos e sempre gritar por vida e dignidade.

Agora, no contexto das comemorações oficiais dos 200 anos da (in)dependência e da instrumentalização político-partidária que o atual desgoverno federal ameaça fazer no dia 7 de setembro, é importante nos juntarmos todos e todas no Grito dos Excluídos e Excluídas.

Será o 28º grito organizado, a partir da iniciativa, que, desde 1995, reúne movimentos populares e pastorais sociais da Igreja Católica e grupos ecumênicos de outras confissões de fé para gritar “A vida em primeiro lugar”. De modo especial, o grito deste ano ecoará o grito que, por cinco séculos, denuncia o genocídio praticado contra os povos originários, revela a crueldade imensa contra os povos negros e o racismo estrutural que faz do Brasil um dos países mais desiguais e violentos do mundo. 

Esse 28º Gritos dos excluídos e excluídas toma como tema: “Vida em primeiro lugar. Terra, Teto e Democracia. Brasil, 200 anos de (In)dependência. Para quem?”. De fato, como falar em independência, quando trinta milhões de brasileiros/as passam fome e um número bem maior vive em insegurança alimentar? Como fazer festa quando nossas cidades e capitais têm seus centros convertidos em ruínas, como depois de uma guerra?

Nossas praças abrigam uma multidão de pessoas sem teto e sem trabalho, que com suas famílias, tentam sobreviver nos escombros do que antes era um país que, há mais de uma década, tinha saído do mapa da fome.   

O  Grito  dos  Excluídos  e  Excluídas não se restringe apenas a uma manifestação de rua que ocorre no dia 7 de setembro. Significa um conjunto de iniciativas que se dão em um processo de construção coletiva de cuidado popular, de debates e mobilizações nas áreas da educação, saúde e  defesa da natureza agredida. Tudo para que a vida das pessoas  e da Mãe- Terra esteja em primeiro lugar.

Esta mobilização dos Mutirões pela Vida coincide com a campanha eleitoral mais importante e mais difícil das últimas décadas. Para que, de fato, possamos caminhar para uma verdadeira independência do nosso povo, precisamos garantir que a mentira não seja vencedora. O  restabelecimento da democracia, mesmo formal, depende do nosso voto.

Nesse momento, é importante que as pessoas que professam qualquer religião ou simplesmente buscam uma espiritualidade humana testemunhem que, se Deus existe, só pode ser Amor e Justiça. Deus não é de direita e está do lado do povo que busca por Terra, Teto e Democracia. 

 

 

 

 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

PUC-RIO OU COMO SER JOVEM AOS OITENTA ANOS DE IDADE

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

            Há oitenta anos, exatamente no dia 30 de outubro de 1940, eram fundadas no Rio de Janeiro as Faculdades Católicas. Por decreto do então presidente da República, Getúlio Vargas, e seu ministro da Educação, Gustavo Capanema, recebiam autorização para estabelecer-se sob sua égide os cursos de Direito e a Faculdade de Filosofia, com os cursos de Pedagogia, Filosofia, Geografia e História, Ciências Sociais, Letras Clássicas, Neolatinas e Anglo-Germânicas. 

            Confessional, essa que seria uma Universidade Católica para o Brasil no dizer do cardeal Dom Sebastião Leme, do Rio de Janeiro, teve sua administração confiada à Companhia de Jesus.  Os superiores jesuítas deram como missão ao padre Leonel Franca SJ a condução do processo de fundação e estabelecimento da que seria a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 

            Em seu “pedigree” fundacional estavam, além do pe. Franca, sacerdote, filósofo e educador, conhecidos intelectuais da época, tais como Alceu Amoroso Lima, Heráclito Sobral Pinto, Américo Jacobina Lacombe, entre outros.  Com notável capacidade de organização e liderança, padre Leonel Franca era um pensador.  Fundador e seu primeiro reitor, a nova universidade foi por ele pensada com grande visão e muito entusiasmo.

            Após a morte prematura do jesuíta, em 1948, Alceu de Amoroso Lima escreveu que pe. Franca “foi o centro de gravidade de nossa geração, a encruzilhada de nossos caminhos nesses últimos vinte anos”.

Sobretudo o que o pe. Leonel Franca carregava em sua identidade e forma de ser e de atuar era uma visão profundamente global e integrada do saber em todos os seus aspectos. Por isso, tinha plena clareza sobre a missão de qualquer universidade, inclusive a católica. 

         No discurso inaugural do ano acadêmico de 1941, ele declarou: “A Universidade Católica não é centro de estudos em que se cortam as legítimas liberdades de investigação e se substituem pela aceitação dos dogmas  e os processos da ciência...  Se a cultura é a realização integral da verdade na vida, uma Universidade Católica por sua própria natureza acha-se singularmente aparelhada para concretizar este ideal.” 

            Oitenta anos se passaram e as proféticas palavras do fundador vão se fazendo verdade a cada dia, atravessando contextos conflitivos, tempos nebulosos e atribulados.  Mas também, e mais ainda, aceitando grandes desafios e acreditando em sonhos que vão se fazendo realidade com muito trabalho, esforço e criatividade. 

            A PUC-Rio hoje abriga mais de 15 mil alunos, sendo mais de 12 mil em seus 42 cursos de graduação, mais de 3 mil em sua reconhecida e prestigiada internacionalmente pós-graduação, com mestrado e doutorado distribuídos em 29 cursos. Em sua tradição de 80 anos, registra a passagem de alunos ilustres que fizeram e fazem a história do Brasil como Paulo Sérgio Pinheiro, Marcelo Gleiser, Marielle Franco e tantos outros. 

            O charmoso e verde campus da Gávea é uma festa colorida nos tempos de aula, cheio de jovens que circulam, leem nos bancos em meio às árvores, cantam e fazem música, dançam e encenam peças teatrais, enquanto nas salas de aula os professores ensinam em diálogo aberto e rigor acadêmico. Mas também já foi palco de protestos e manifestações memoráveis nos anos de chumbo, quando a universidade marcou presença valente e livre lutando pela volta da democracia. 

            Hoje, essa beleza e liberdade continuam presentes mesmo quando o campus está vazio de presenças humanas, mas grávido de pensamento e conhecimento que circula agora pelas plataformas virtuais.  Quando foi decretada a quarentena devido à pandemia, em março de 2020, em uma semana a universidade passou do modo presencial ao virtual.  Professores e alunos adaptaram-se, os cursos continuaram a acontecer e os semestres fluíram e chegaram a termo: o primeiro já terminado e o segundo chegando agora a sua etapa final. 

            Aos 80 anos de idade, a PUC-Rio é uma senhora elegante e refinada. Seu perfil é compatível com o que há de qualitativamente melhor em termos de saber e pensar no país e no mundo.  Mas é igualmente uma jovem capaz de sonhar e resistir, reinventar-se a cada passo, pensar coisas novas e abrir novos caminhos. 

            Trata-se de minha alma mater.  Ali estudei Comunicação Social e Teologia.  Ali me formei.  Ali igualmente trabalho há 38 anos, em um ambiente cheio de seriedade e banhado de alegria e liberdade.  Nesse aniversário, não posso deixar de me emocionar ao desejar parabéns à PUC-Rio por ter sido ao mesmo tempo tão fiel ao sonho que a gerou e ao mesmo tempo tão criativa em seu estilo de manter e nutrir esse sonho ao longo de oito décadas, sempre na abertura a um futuro que transpira esperança e renovação. 

            O lema da Universidade diz bem o que ela é: “Nada é pesado para quem tem asas”. Trata-se de um espaço onde a razão e a fé dialogam em alegre convivência, onde o saber e a prática conjugam iniciativas e organizam estratégias.  Ali se vive, ali se aprende, ali se ensina, ali se constrói uma humanidade que não recua nem se encolhe diante de dificuldades, mas busca incessantemente a verdade da justiça e do amor.   

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Santidade: chamado à humanidade (Editora Paulinas), entre outros livros.

             Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

PARA MAIORES DE 60 ANOS EM TEMPOS DE PANDEMIA

 por Marcelo Barros

 


No Brasil, o presidente e os que o apoiam afirmam que a pandemia não é grave porque só mata velhinhos. Apesar disso, infelizmente, entre as 135 mil vítimas dos vírus do descuido e do desamor, há enorme proporção de jovens e de pessoas abaixo de 60 anos. A política do governo em relação a índios, negros e populações de periferias lembra a eugenia praticada pelos nazistas na Alemanha da década de 1940.

No entanto, a população brasileira continua a envelhecer. Por isso, é importante recordar que, nesta quinta-feira, 1º de outubro, a ONU celebra o Dia internacional das pessoas idosas. O objetivo é ajudar os mais velhos/as a se integrarem na sociedade e garantir que a sociedade possa assegurar os direitos das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos.

No Brasil, desde 2003, a lei nº 10.741, chamada o Estatuto do Idoso, dispõe os direitos assegurados às pessoas da chamada terceira idade. Nesse mesmo ano, a CNBB começou a Pastoral das Pessoas Idosas, com o objetivo de assegurar a dignidade e a valorização das pessoas idosas no seu ambiente social. 

Apesar do envelhecimento da população, a sociedade é pensada para a juventude. Como, em geral, os mais velhos não produzem, perdem sua importância social. Parece que só a juventude importa. Envelhecer se torna mais doloroso e difícil.

No Brasil, se calculam em mais de 25 milhões de pessoas que passam dos 65 anos. Isso exige aumento de assistência, médicos especializados, mas supõe principalmente uma sociedade menos desigual e mais humanizada.  Em muitas cidades, existem associações da terceira idade que promovem encontros, lazer, danças e passeios. As universidades mantêm programas de extensão universitária e atividades como cursos de computação, ginástica, natação, música, dança e outras artes.

Essas organizações propõem às pessoas idosas e a toda a sociedade que as coisas possam ser realizadas com calma no lugar da agitação. Sugerem a disponibilidade no lugar do estresse. Valorizam mais a qualidade e não só a quantidade. Trata-se, finalmente, de viver a graça do dia de hoje mais do que o afã da permanente projeção para o amanhã.

Para todo ser humano, em qualquer cultura que seja, envelhecer é sempre um processo difícil e exigente. Não é fácil manter o espírito jovial quando se vê o corpo decair progressivamente. No entanto, podemos fazer escolhas que nos permitam envelhecer de forma mais humanizada.

Até hoje, ninguém sabe exatamente a causa biológica do envelhecimento. Por isso, não se pode, até agora, deter ou evitar esse fenômeno. Clineu de Melo, médico especialista em Geriatria da USP, afirmou: “O envelhecimento é a perda gradativa das reservas que todos os organismos têm para usar em momentos de estresse”[1].

Todos os organismos foram pensados pela natureza para nascer, viver, reproduzir-se e depois morrer. Assim, durante milênios, a média da vida humana era de 30 anos. Cientistas descobriram que, a partir dos 30 anos, entramos em uma etapa da vida para a qual a seleção natural não nos preparou. Leonard Stayflick, professor na Universidade de Califórnia, afirma: “A velhice é um produto da civilização. Só ocorre propriamente nos seres humanos, nos animais domésticos e nos mantidos em zoológicos e em laboratórios”.

Comumente ligamos o envelhecimento à idade. De fato, há uma relação, mas não é direta e linear. Há pessoas de 90 anos que parecem ter 70 e há pessoas de 60 com jeito de 90. Não se pode generalizar, mas uma pesquisa mostra que a longevidade humana é maior em comunidades nas quais não existe aposentadoria. É mais frequente encontrar pessoas de mais de cem anos nos mosteiros budistas, em conventos cristãos, em comunidades afrodescendentes  e indígenas do que em sociedades nas quais as pessoas mais velhas são postas em asilos, esperando a morte.

O processo do envelhecimento depende da saúde, do clima e mesmo da raça a qual pertencemos. No entanto, o temperamento e o estilo de vida da pessoa em questão também influi muito. Do mesmo modo, também a espiritualidade, como energia do espírito em ação na pessoa, pode ser elemento fundamental de vitalidade.

A primeira coisa que as tradições espirituais propõem é manter sempre no coração e no concreto do dia a dia um projeto de vida e a disposição de fazer tudo em função disso, na relação com o mundo e com a comunidade a qual pertencemos.

Em meio a um momento de forte perseguição política e de marginalização na sua própria Igreja, Dom Helder Camara escrevia um livro de meditações com o título: Mil razões para viver.

Conforme a escritura, toda história do povo bíblico começou pelo chamado de Deus a Abraão, velho e casado com uma mulher estéril. Mesmo quando nos sentimos frágeis e como que incapazes de mudar a sociedade, Deus torna a nossa esterilidade fecunda e, então, um novo mundo é possível.

 



 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

COMPLETO 81 ANOS HOJE. ESTOU DESCENDO A MONTANHA DA VIDA.



Primeiramente agradeço a Deus por ter chegado até aqui e por ter sobrevivido. De pequeno, com alguns meses, estava destinado a morrer. Naqueles interiores profundos de Santa Catarina, Concórdia, não havia ainda médicos. Todos, desolados, diziam:”coitadinho, vai morrer”. Minha mãe, desesperada, depois de fazer o pão familiar num forno de pedra, deixou que ficasse morno e sobre uma pá de madeira me colocou por bons minutos lá dentro. A partir deste experimento derradeiro, melhorei e estou aqui como sobrevivente.

Achei que nunca passaria da idade de meu pai que morreu de um enfarte fulminante aos 54 anos. Sobrevivi. Escrevi um balance aos 50. Depois achava não passaria da idade de minha mãe que também morreu  de enfarte com 64 anos. Sobrevivi. Fiz mais um balanço aos 60. Então, estava seguro de que não chegaria aos 70. Sobrevivi. Tive que escrever outro balanço aos 70. Por fim, pensei, convicto, de todas as maneiras, não chegarei aos 80. Sobrevivi. E tenho que escrever outro balanço.  Como sai desmoralizado nas minhas previsões, não penso mais em nada. Quando chegar a hora que só Ele sabe, irei alegremente ao encontro do Senhor.

Relendo os vários balanços, surpreendemente e sem intenção prévia, vejo que há constantes que perpassam todas as memórias. Tentarei fazer uma leitura de cego que apenas capta o que é relevante. Sempre fui movido por alguma paixão mais forte que me levava a falar e a escrever.

A primeira paixão foi pela Igreja renovada pelo Concílio Vaticano II. Escrevi minha tese doutoral em Munique: A Igreja como sacramento; Igreja: carisma e poder (que me levou ao silêncio obsequioso) e Eclesiogênese: as CEBs reinventam a Igreja.

A segunda paixão foi pelo Jesus histórico, sua gesta que o levou à cruz. Escrevi Jesus Cristo Libertador; Nossa ressurreição na morte; O evangelho do Cristo cósmico; Via Sacra da justiça.

A terceira paixão foi por São Francisco de Assis, o primeiro depois do Último (Jesus).Escrevi Francisco de Assis: ternura e vigor; São Francisco: saudades do Paraiso; Comentário à sua oração pela paz.

A quarta  paixão foi pelos pobres e oprimidos. Nasceu a teologia da libertação e escrevi  Teologia do cativeiro e da libertação; O caminhar da Igreja com os oprimidos; junto com meu irmão Frei Clodovis escrevemos Como fazer teologia da libertação.

A quinta paixão foi pela Mãe Terra super-explorada. Ecrevi A opção Terra: a solução para a Terra não cái do céu; O Tao da libertação: uma ecologia da transformação junto com Mark Hathaway; Como cuidar da Casa Comum.

A sexta paixão foi pela condição humana sapiente e demente. Escrevi O destino do homem e do mundo; A  Águia e a galinha: metáfora da condição humana; Despertar da águia : o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade; Saber cuidar; O cuidado necessário; Feminino –Masculino junto co Rose-Marie Muraro; O Ser humano como projeto infinito.

A sétima paixão foi pela vida do Espírito: Traduzi o principal da obra do místico Mestre Eckhart; retraduzi de forma atualizadora a Imitação de Cristo de 1441 acrescentando-lhe uma parte nova; O seguimento de Cristo; Experimentar Deus hoje; A SS.Trindade é a melhor comunidade; O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres; Espiritualidade: um caminho de transformação.

Publiquei cerca de cem livros. É trabalhoso, com apenas 25 sílabas, compor as palavras e depois com as palavras formular as frases e por fim com frases conceber o conteúdo pensado de um livro. Quando me perguntam: “o que faz na vida”? Respondo: “sou trabalhador como qualquer outro como um marcineiro ou um eletricista. Apenas que meus instrumentos são muito sutis: apenas 25 sílabas”.

“E o que vc pretende com tantas letras”? Respondo: “apenas pensar, em sintonia, as preocupações maiores dos seres humanos à luz de Deus; suscitar neles a confiança nas potencialidades escondidas em si para encontrarem soluções; procurar chegar ao coração das pessoas para que tenham compaixão pelo injusto sofrimento do mundo e da natureza, para que nunca desistam de sempre melhorar a realidade, começando por melhorar a si próprios. Independente de sua condição moral, devam sentir-se sempre na palma da mão de Deus-PaI-e-Mãe de infinita bondade e misericórida”.

“Valeu a pena tantos sacrifícios para escrever”? Respondo com o poeta Fernando Pessoa:”Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Esforecei-me para que não fosse pequena. Deixo a  Deus a última palavra. Agora no tramontar da vida, revejo os dias passados e tenho a mente voltada para a eternidade.

Leonardo Boff - 14.12.2019

*Leonardo Boff é teólogo e escreveu Natal: sol da esperança, histórias, poesias e símbolos, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2007.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

MARIGHELLA, 50 ANOS



Por Frei Betto

       O líder revolucionário brasileiro Carlos Marighella (1911-1969) foi fuzilado pela ditadura militar há 50 anos, a 4 de novembro de 1969, em São Paulo. As circunstâncias de seu assassinato, cuja culpa o governo brasileiro admitiu, oficialmente, em 1996, estão devidamente esclarecidas em três livros: “Batismo de sangue” (Rocco), de minha autoria, filmado por Helvécio Ratton; a biografia escrita por Emiliano José, “Carlos Marighella: o inimigo número um  da ditadura militar” (Casa Amarela); e, em especial, a biografia assinada por Mário Magalhães, “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras). 
       Falta, agora, o público brasileiro superar as barreiras do clima de censura imposto pelo governo Bolsonaro para ter acesso ao filme de Wagner Moura sobre Marighella, baseado no livro de Magalhães.
       Para os que defendem a tortura (exceto neles) e torcem o nariz para os direitos humanos, Marighella foi um terrorista que pretendia fazer do Brasil uma nova Cuba. (Quem dera. Assim toda a nossa população, como em Cuba, teria assegurada os direitos humanos elementares - alimentação, saúde e educação -, sem ônus para o orçamento familiar, e a nação se destacaria por seu alto nível cultural e senso de soberania e independência). 
       Epítetos demeritórios semelhantes, em vocábulos próprios da época, foram aplicados a Zumbi dos Palmares (decepado), Tiradentes (enforcado), Frei Caneca (fuzilado), Angelim (exilado), Madre Joana Angélica (assassinada), e tantos outros que deram suas vidas para livrar o Brasil de seu complexo de vira-lata perante as nações metropolitanas.
       Conheci Marighella em 1967, no convento dominicano de São Paulo, quando se mostrou interessado no apoio dos frades à sua proposta revolucionária e nos presenteou com os seus poemas. Dotado de talento poético, fez em versos uma prova de física quando cursava o ensino médio, em Salvador. Ingressou na faculdade de engenharia, mas não terminou o curso. Dedicou-se a defender os direitos dos mais pobres como militante do Partido Comunista. Eleito deputado federal pela Bahia, em 1946, se viu obrigado a retornar à luta clandestina tão logo o governo Dutra cassou o PCB.
       Com o advento da ditadura militar, em 1964, Marighella rompeu com o PCB e fundou a ALN (Ação Libertadora Nacional), organização revolucionária destinada a redemocratizar o Brasil e implantar o socialismo. Não viveu o suficiente para ver o fim da ditadura, em 1985. Mas deu a sua vida para que outros tivessem vida. Seus ideais continuam atuais, embora hoje sejam outros os métodos de luta. Já não se justificam as ações armadas, que interessam apenas aos fabricantes de armas e à extrema-direita. Os espaços democráticos foram duramente reconquistados com a derrubada da ditadura, em 1985, e precisam ser preservados e ampliados à luz da Constituição Cidadã de 1988.
       Marighella, com quem tive diversos contatos, era um homem afável, culto, que tratava seus comandados como irmãos e irmãs mais novos. Sabia ouvir críticas e reconsiderar suas posições. Sensato, jamais sugeriu que os frades devessem participar de ações armadas. Nossas tarefas eram todas de apoio, como abrigar militantes feridos ou facilitar a saída clandestina do país daqueles que, identificados, eram arduamente perseguidos.
       Como militante da utopia, Marighella é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que se encontram, hoje, insatisfeitos com a atual conjuntura brasileira. E não ficam à espera de que as coisas aconteçam, mas assumem a proposta de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. 
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sexta-feira, 19 de julho de 2019

POR MILHÕES DE ANOS O AMAZONAS FLUÍA PARA O PACÍFICO



Por Leonardo Boff

Em função do Sínodo pan-amazônico continuemos a aprofundar a história do ecossistema amazônico. Euclides da Cunha (1866-1909), um clássico das letras brasileiras, foi também um apaixonado pesquisador da região amazônica, escreveu em 1905: ”A inteligência humana não suportaria o peso da realidade portentosa da Amazônia; terá de crescer com ela, adaptando-se-lhe para dominá-la”(Um paraíso perdido, reunião de ensaios amazônicos, Petrópolis 1976,15). Tal constatação mostra a luxuriante riqueza deste incomensurável ecossistema.

Paradoxalmente é também o lugar onde a Amazônia mais sofre violência. Se quisermos ver a face brutal do sistema capitalista predador, então visitemos a Amazônia. Aí emerge o gigantismo do espírito da modernidade, o racionalizado do irracional e a lógica implacável do sistema anti-natureza.

O Estado brasileiro, as empresas nacionais e as multinacionais formaram um poderoso tripé. Deram origem ao que se tem chamado “o modo de produção amazônico”(cf.Mires,F., El discurso de la naturaleza: ecología y política en America Latina, DEI, San José 1990, 119-123). É um modo que se define como uma forma de produção/destruição terrivelmente predatória, com aplicação intensiva de tecnologia contra a natureza, declarando guerra às árvores, exterminando populações originárias e adventícias, superexplorando a força de trabalho, até a modo de escravidão, em vista da produção para o suprimento do mercado mundial .

A Amazônia continental compreende 6,5 milhões de km quadrados, cobrindo dois quintos da área latino-americana: metade do Peru, um terço da Colômbia e grande parte da Bolívia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname e 3,5 milhões de km quadrados da área brasileira.

Geologicamente o proto-Amazonas durante todo o paleozoico (entre 550-230 milhões de anos atrás) formava um gigantesco golfo aberto para o Pacífico. A América do Sul estava ainda ligada à África. Na era cenozoica, no início do período terciário há 70 milhões de anos, os Andes começaram a soerguer-se e durante todo o plioceno e pleistoceno e por milhares e milhares de anos bloquearam a saída das águas para o Pacífico. Toda a depressão amazônica ficou paisagem aquosa até encontrar uma saída para o Atlântico como ocorre atualmente. (cf.Soli,H.,Amazônia, fundamentos da ecologia da maior região de florestas tropicais,Vozes,Petrópolis 1985, 15-17).

O rio Amazonas, segundo as mais recentes pesquisas, é o rio mais longo do mundo com 7.100 quilômetros, cujas nascentes se encontram no Peru, entre os montes Mismi (5.669 m) e Kcahuich (5.577 m) ao sul da cidade de Cuzco. De longe é também o mais volumoso, com uma vazão média de 200.000 metros cúbitos por segundo. Somente ele, perfaz entre 1/5 a 1/6 da massa de água que todos os rios da Terra lançam conjuntamente nos oceanos e mares. O leito principal do rio tem a largura média de 4-5 km com uma profundidade que varia de 100 m em Obidos a 4 m na foz do Xingu.

O maior patrimônio genético se oferece na Amazônia. Como dizia um de nossos melhores estudiosos Eneas Salati: “Em poucos hectares da floresta amazônica existe um número de espécies de plantas e de insetos maior que em toda a flora e fauna da Europa” (Salati, E., Amazônia: desenvolvimento, integração, ecologia, Brasiliense/CNPq, S.Paulo 1983; cf. Leroy, J.-P., Uma chama na Amazônia,Vozes/Fase, Petrópolis 1991,184-202; Ribeiro, B., Amazônia urgente, cinco séculos de história e ecologia, Itatiaia, B.Horizonte 1990, 53). Mas não nos devemos iludir: esta floresta luxuriante é extremamente frágil, pois, se ergue sobre um dos solos mais pobres e lixiviados da Terra como escrevemos no artigo anterior.

Na selva amazônica pré-colombiana viviam segundo o historiador Pierre Chaunu 2 milhões de habitantes e em toda a América do Sul cerca de 80-100 milhões sendo que 5 milhões no Brasil.

Desenvolveram um sutil manejo da floresta, respeitando sua singularidade, mas, ao mesmo tempo, modificando o habitat para estimular aqueles vegetais úteis para o uso humano. Como afirma o antropólogo Viveiros de Casto:”a Amazônia que vemos hoje é a que resultou de séculos de intervenção social, assim como as sociedades que ali vivem são o resultado de séculos de convivência com a Amazônia (Sociedades indígenas e natureza, em Tempo e Presença,n.261,1992,26). E. Miranda é ainda mais enfático:”Resta pouca natureza intocada e não alterada pelos humanos na Amazônia”(Quando o Amazonas corria para o Pacífico, Vozes, Petrópolis 2007, 83).

No Brasil pré-cabralino havia cerca de 1.400 tribos, 60% delas na parte amazônica. Falavam-se línguas pertencentes a 40 troncos subdivididos em 94 famílias diferentes, fenômeno fantástico o que levou a etnóloga Berta Ribeiro afirmar que “em nenhuma outra parte da Terra encontrou-se uma variedade linguística semelhante à observada na América do Sul tropical” (Amazônia urgente,op.cit. 75).

Releva notar que no interior da floresta amazônica, a partir de 1.100 antes da chegada dos europeus, formou-se um espaço imenso (diria quase um “império”) da tribo tupi-guarani. Ela ocupou territórios que iam desde os contrafortes andinos, formadores do rio, até a bacia do Paraguai e do Paraná, chegando depois ao Norte e Nordeste, descendo até o Pantanal e os pampas gaúchos.

Praticamente todo Brasil florestal, exceto algumas partes,foi conquistado pelos tupi-guarani (cf.Miranda, E., Quando o Amazonas corria para o Pacífico,op.cit.92-93). Foi criado um “proto-estado” com animado comércio com os Andes e o Caribe.
Desta forma se desfaz a crença do caráter selvagem da Amazônia e de seu vazio civilizacional.

Leonardo Boff é eco-teólogo e escreveu Ecologia:grito da Terra-grito dos pobres, Vozes 2015.


terça-feira, 9 de julho de 2019

30 ANOS DO MOVIMENTO FÉ E POLÍTICA





Por Marcelo Barros

Neste final de semana (de 12 a 14 de julho), no encontro nacional que se realiza em Natal, RN, o Movimento Fé e Política celebrará os seus 30 anos de vida e de atuação no caminho da transformação da sociedade e da proposta de espiritualidade libertadora.

Para quem viveu no Brasil nesses últimos 30 anos sabe o que significa de vitória o fato do Movimento estar vivo, forte e fiel às propostas iniciais. 1989 foi o ano da eleição vencida por F. Collor, derrotando a esquerda por meio de uma campanha midiática enganadora. Sofremos também a derrota política e de credibilidade da Frente Sandinista na Nicarágua. Por fim, foi o ano da queda do muro de Berlim , que marcou o desmoronamento do socialismo soviético no leste europeu.

O Movimento Fé e Política já nasceu com o desafio de distinguir o que não deu certo nas experiências ditas socialistas e a utopia de um novo Socialismo, que radicalize a democracia e una a luta pelos direitos humanos, individuais e coletivos ao Bem Viver de todos os seres vivos e cósmico.

Nesses 30 anos, cada encontro, seminário de estudo ou retiro que se faz, de âmbito nacional ou local, é sempre experiência marcante que sinaliza uma profecia encantadora. O mais impressionante é que o Movimento Fé e Política faz tudo isso com pouca estrutura e sem dinheiro. Assim, tem formado lideranças jovens e dado apoio a companheiros e companheiras que, a partir da fé, se engajam nos diversos campos da Política: parlamentar, executivo, sindical, de movimentos sociais, ONGs e outros. Parabéns a todos os companheiros e companheiras que iniciaram esse movimento e a todos/as os/as que mantêm seu espírito profético.

Trinta anos é a idade com a qual, conforme a tradição, Jesus iniciou sua missão pública de profeta e testemunha da realização revolucionária do reino de Deus no mundo. Sem dúvida, muitos de seus contemporâneos esperavam que ele liderasse uma revolta política contra o Império Romano. No entanto, mesmo assumindo muito da causa zelota, a atuação de Jesus foi em um plano mais profundo e mais amplo. Na sociedade da época, Jesus propôs uma transformação radical na forma de crer e de falar de Deus. Ele demoliu a figura de um Deus todo-poderoso que legitimava os poderosos. Apresentou Deus como Amor, portanto, como Anti-poder. Tirou Deus da gaiola na qual as religiões o colocam ao aprisioná-lo nos templos, como objeto de culto e sacrifício. Chamou-o de Paizinho. Ensinou os discípulos a orar na natureza e sem cerimônia, simplesmente entrando no mais íntimo de si mesmo e invocando-o carinhosamente como Pai Nosso.

Essa revolução na forma de crer e de falar de Deus dá o testemunho de que sagrada é a Vida, humana ou de outro tipo. Revela que Deus está em nós. Como no século IV, dizia Santo Agostinho: “mais íntimo a nós do que nós mesmos”. Essa presença amorosa do Espírito em cada pessoa e no universo possibilita a liberdade em relação às instituições ao mesmo tempo que une intimidade divina e cuidado com a natureza. Esse princípio divino do Amor em nós não deve ser um intimismo que resvala para o individualismo. Precisa expressar-se social e politicamente: a revolução interior produzida em cada um só se realiza quando nos colocamos no serviço uns dos outros e no esforço comunitário por transformar o mundo.

A dimensão social libertadora da fé e da espiritualidade é a espinha dorsal do Movimento Fé e Política. Ela não se desliga da busca de relação direta com Deus, mas, conforme o evangelho, a antecede. De acordo com a carta de João, quem não ama o seu irmão a quem vê não pode amar a Deus a quem não vê. O próprio Jesus falou claro: “O que, em meu nome, fizerdes a um desses pequeninos é a mim que fazeis”. Essa dimensão do amor solidário não consiste apenas na compaixão por quem sofre. Trata-se de uma liga essencial que faz de seres diferentes uma só unidade.

Mais ainda do que em 1989, a complexidade social e política do mundo pluralista em que hoje vivemos exige de nós ação conjunta e com a característica de diálogo intercultural e inter-religioso. Mesmo se nem todas as religiões e tradições espirituais usem o termo fé, o Movimento Fé e Política lembra que todas nasceram a partir da preocupação do amor social e da solidariedade, como caminhos de intimidade com o Divino.

Por isso, o caminho é buscar unir Igrejas, religiões e mesmo as pessoas que buscam o Amor fora das estruturas religiosas. Além de ser exigência da conjuntura social e política, a preocupação de ultrapassar as fronteiras de uma Igreja e mesmo de uma religião é o próprio coração da espiritualidade sócio-libertadora. É sua dimensão fontal: é intrínseca e essencial a essa espiritualidade ser saída ao encontro do outro, porque é a abertura e a experiência de alteridade que a alimenta.

O papa Francisco propõe uma Igreja em saída. Isso só se realizará em cada comunidade eclesial e no próprio Movimento Fé e Política quando esse “em saída” se tornar modo de viver a fé e de expressar a espiritualidade. A espiritualidade será em saída quando for plena e radicalmente ecumênica. Mesmo no dia a dia corriqueiro de cada pessoa e grupo eclesial (por exemplo, quando formado somente por católicos) busque-se sempre e cada vez mais que cada expressão da fé se enriqueça com elementos de outras Igrejas e outras expressões religiosas. A perspectiva não é apenas a unidade das Igrejas e sim o ecumenismo do reino de Deus, ou seja, a construção no mundo do projeto divino da paz, justiça e comunhão com o universo. É o que no século XVII, o filósofo judeu-evangélico Baruch Spinoza chamou de “comunismo do espírito” (Cf. Donati Caleri, Spinoza e Zen Budismo, Ed. 7 Letras, 2019, p. 125). 

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br