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segunda-feira, 10 de abril de 2023

Dez anos de Francisco: Feliz Aniversário

 

    Maria Clara Bingemer


 

Há dez anos o  Cardeal Jorge Mario  Bergoglio foi eleito Papa e escolheu para si o nome de Francisco.  Desde então, tem mostrado ao mundo, entre muitas coisas, a importância primordial do encontro com o outro.   Diz e repete que encontramos pessoas "não apenas vendo, mas olhando, não apenas ouvindo, não apenas cruzando caminhos com as pessoas, mas ficando com elas, não apenas dizendo "Que pena! Pobres pessoas", mas deixando-nos comover pela compaixão.  E isso implica aproximar-se, tocar e dizer  "não chores, e dar pelo menos uma gota de vida".  Este é, segundo Francisco, o caminho para criar uma “cultura do encontro”. 

A intenção básica da proposta desta cultura é combater a indiferença que prevalece em nossa sociedade de descarte, de velocidade, de superficialidade para chegar a um encontro verdadeiro e profundo com os outros. Mas para consegui-lo, devem ser estabelecidas certas condições. E é o próprio Papa quem as aponta: "Temos que ser pacientes se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: as pessoas não se expressam plenamente quando são simplesmente toleradas, mas quando percebem que são verdadeiramente bem-vindas. Se tivermos um desejo genuíno de ouvir os outros, aprenderemos a olhar para o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como ela se manifesta em diferentes culturas e tradições”

As ruas do mundo são o lugar desta cultura de encontro, o "locus" onde as pessoas vivem, onde elas são efetiva e afetivamente acessíveis. O testemunho cristão, portanto, não é oferecido através de um  bombardeio de pessoas com mensagens religiosas, mas por uma vontade de se entregar aos outros através de um desejo de responder paciente e respeitosamente às suas perguntas e dúvidas sobre o caminho da busca da verdade e do significado da existência humana.

De Bergoglio a Francisco encontramos o ponto central de uma mudança no próprio estilo de ser Papa. O mesmo Bergoglio que no documento de Aparecida influiu para que se valorizasse o encontro interpessoal com Deus e com o outro, revela-se na pessoa e na linguagem de Francisco como uma proposta audaciosa e avançada de criar uma "cultura do encontro". O Papa sabe que não basta converter alguns indivíduos isolados para que haja uma real transformação na sociedade e na Igreja.  Importa, sim, criar uma cultura, que significa tocar e converter atitudes, valores, costumes, tradições.

No balcão em frente às multidões à espera do anúncio do novo Papa, em 13 de Março de 2013, o Papa Francisco mostrou a sua disponibilidade para viver esse encontro,  com palavras e gestos. Apresentou-se a si próprio como bispo de Roma, enraizado no fim do mundo, onde repousam suas origens.  Pediu também a bênção do povo  antes de abençoá-lo, invertendo a ordem do costume e da tradição. 

Desde então, os dez anos do seu pontificado têm sido cheios de surpresas e novidades.  Trata-se de algo que tem agradado a muitos e desagradado talvez a muitos mais.  Francisco é, sem dúvida, um Papa diferente.  E o seu estilo de ser, comover-se, falar e agir surge certamente como uma surpresa para muitos. Mas encanta e conquista a outros. E isso talvez o faça mais amado fora da Igreja do que dentro dela. 

A mim – católica e teóloga – é como uma lufada de ar fresco numa Igreja que parecia deixar para trás a primavera do Concílio.  De repente, nas palavras do Papa, encontrei novamente a linguagem conciliar, ancorada na antropologia e na história.  A linguagem de uma Igreja que queria ser perita em humanidade, como diz a Constituição Pastoral  Gaudium et Spes. 

Ao longo desses 10 anos pude também redescobrir nos discursos pontifícios muito do que a Igreja latino-americana havia tentado construir no período pós-conciliar e que parecia haver estado tristemente sob suspeita em determinado momento: a prioridade dos pobres; a atenção à cultura popular e a valorização das suas festas, histórias e criações; a crítica não só aos indivíduos mas também aos sistemas que são injustos e oprimem pessoas e comunidades inteiras. 

A encíclica Laudato Si, de 2015, inaugura um novo capítulo na história da doutrina social da Igreja.  A transparência do texto, o discurso que tão harmoniosamente combina teologia com ciência e com poesia e mística, capta a preocupação do momento presente e das novas gerações por um planeta sob constante ameaça e sob ataque diário. Igualmente ensina que somos seres criados em meio a uma comunidade de outros seres vivos, não apenas humanos.  Toda vida merece respeito, reverência e cuidado.  O Papa Francisco, em nível pastoral, convocou a uma mudança de paradigma em toda a Igreja e a sociedade, onde o cuidado deve ser o centro e o norte da vida.  Os seres humanos são chamados a abandonar sua postura arrogante e predatória e a integrar-se na comunidade de todos os seres vivos, a fim de a protegerem, uma vez que as primeiras vítimas da desordem ambiental em que vivemos são os pobres.  A ecologia e a justiça andam, portanto, juntas. 

Em 2020 veio à luz outra encíclica, sintonizada com a Laudato Si. O título fala por si só:  Fratelli Tutti. Reflete sobre a amizade social, refletindo em torno da parábola do Bom Samaritano, situada no capítulo 10 do Evangelho de Lucas. O texto pontifício mostra que se a humanidade progrediu na construção da liberdade e da igualdade, o mesmo não aconteceu em relação à fraternidade.  Passar da lógica do sócio para a do irmão/irmã é o convite que ressoa neste documento, que reflete muito da experiência e do trabalho deste argentino, acostumado à companhia dos mais pobres e entusiasta dos movimentos populares. 

Finalmente, como teóloga, acredito que o Papa abriu novos e esperançosos caminhos para aqueles de nós que trabalham com a inteligência da fé. E por isso sinto-me muito em sintonia com a concepção de teologia que ele mostra ser a sua própria.  Em carta ao cardeal Poli, arcebispo de Buenos Aires, por ocasião da celebração do bicentenário da faculdade de teologia da Universidad Católica Argentina (UCA), escreve  com clareza que "o teólogo deve ser uma pessoa capaz de construir a humanidade à sua volta, transmitir a verdade cristã divina numa dimensão verdadeiramente humana, e não um intelectual sem talento, um moralista sem bondade ou um burocrata do sagrado". 

Mais recentemente, em  sua mensagem à Pontifícia Comissão Teológica Internacional, além de destacar os dois pilares da teologia - vida espiritual e eclesialidade - afirma que "o teólogo deve ir à frente, deve estudar o que vai além; deve também confrontar coisas que não são claras e assumir riscos na discussão". Acrescenta ainda que não se deve trazer questões controversas para o povo, mas sim uma doutrina sólida. O papel do catequista, portanto, não seria o mesmo do teólogo. Francisco entende a vocação da teologia  ancorada na fé, tendo uma identidade intelectual, sem medo de fronteiras e da pesquisa sobre os desafios do mundo e da sociedade. 

Ao comemorar esses 10 anos, olho com gratidão para o pontificado de Francisco.  Ao longo do mesmo, pode-se sentir o esforço incessante de promover este encontro entre as pessoas, que não deve ser algo episódico, mas uma verdadeira cultura.  Ele vê e comunica esta proposta com uma base firme em uma antropologia que concebe o ser humano feito para a alteridade e a diferença, e capaz de construir a comunhão. O encontro só pode ter lugar, como ele próprio sublinha, de baixo para cima, para que ninguém fique de fora desta comunhão difícil de construir, mas tão bela em termos de ideal e de objetivo.

Feliz aniversário, Santidade! Que venham  outros aniversários e celebrações!

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas), entre outras obras. 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

domingo, 18 de julho de 2021

OITO EM CADA DEZ PESSOAS QUE SE CURAM DA COVID-19 TÊM SEQUELAS. NOSSO DESAFIO: TRATAR

 

Drª Margareth Dalcomo


Fonte: O Globo/Blog A hora da Ciência

Semana prolífica de dados e efemérides, lembrados nos mais diversos ambientes e meios de comunicação.

Passamos, por exemplo, os 500 dias do primeiro caso diagnosticado da Covid-19 no Brasil, que aqui chegou sem dar trégua para perplexidades. A curva de aprendizado por ela gerada, para que a entendêssemos como uma doença sistêmica, trombogênica, capaz de comprometer a microcirculação em todos os órgãos, foi e é ainda permanente. Hoje, nosso maior desafio é lidar com as sequelas da chamada “Covid longa”, presente em cerca de 80% dos que se curam, e comprometendo diferentes sistemas do corpo, com diversos graus de gravidade. A reabilitação pós-Covid-19 exige serviços multidisciplinares, a serem implementados na estrutura do SUS.

Sem razão para celebrar a redução de mortes porquanto mantemos mais de mil óbitos diários no país e contamos esse luto imenso de quase 550 mil brasileiros levados pela pandemia, assistimos a uma cobertura vacinal de 15%. Ainda longe do desejável, já resulta em impacto importante nas hospitalizações.

Em 10 de julho comemoraram-se 150 anos do nascimento do francês Marcel Proust (1871-1922), certamente um dos autores mais influentes do século XX, com a monumental obra “Em busca do tempo perdido”. Não apenas pelo tempo que levou para ser escrito, em seus sete volumes, mas pela densidade da narrativa exasperante de um cotidiano sacralizado, torna-se atemporal e desafiador até os nossos dias. Curioso que, neste tempo pandêmico, de dias de rotinas novas, vários grupos se dedicaram a essa bela e esmagadora aventura de busca da memória proustiana.

Impressionante a muitos — e para mim, emocionante, pela amizade que nos une — assistir de longe o centenário de Edgar Morin, o grande humanista francês. Criador do pensamento complexo e dos sete saberes na educação, lúcido, pensa e intervém com argúcia sobre o impacto da pandemia em nossas vidas, à luz de tantos inesperados pelos quais passou em sua longa vida. Olha com perspectiva e esperança o futuro.

Sua prodigiosa memória se revela uma vez mais em “Lições de um século de vida”. Recém-lançado na França, o livro traduz o melhor do humanismo do nosso tempo, ao narrar sua trajetória, sua identidade e seu múltiplo. A obra apresenta o inesperado de tantas vivências com a preocupação de nada ensinar, mas “contar lições de uma experiência secular e de um século de vida, para serem úteis a alguém, não apenas para se interrogar sobre sua própria vida, mas também para encontrar seu próprio caminho”.

Esse é o Edgar, que aos 98 anos recebemos em memorável sessão do grupo Humanidades da Saúde no Rio de Janeiro, nos falando sobre ciência e humanismo, e que em reunião social nos surpreendeu e encantou ao declamar “Le lac” (“O lago”), do poeta Alphonse de Lamartine (1790-1869). No melhor romantismo fala o tempo: “Nem ainda guardaremos suas pegadas?/ Para onde vão as delícias que devoras, / Que fazeis Eternidade, sombras abismadas, / das deglutidas horas?”. 

 

* Pneumologista, professora e pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz <margarethdalcolmo@gmail.com> (Fiocruz)

 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

OS DEZ NOTÁVEIS

  


Prof. Martinho Condini

 

Pelé estaria expulso escrete canarinho brasileiro de todos os tempos?

Pixinguinha não estaria na banda dos dez notáveis músicos brasileiros?

Milton Santos não comporia o grupo dos dez notáveis cientistas brasileiros?

Milton Nascimento não apareceria entre os dez notáveis cantores brasileiros?

Grande Otelo não comporia a trupe dos dez notáveis atores brasileiros?

Aleijadinho não constaria do panteon dos dez notáveis escultores brasileiros?

Carlos Drumond de Andrade seria defenestrado  dos dez notáveis do poetismo brasileiro?

Chacrinha não comporia o rol dos dez notáveis animadores de TV brasileira?

Chico Buarque de Holanda estaria excluído do palco dos dez notáveis letristas brasileiros? 

Fernanda Montenegro não integraria o elenco das dez notáveis atrizes brasileiras?

Elis Regina não ingressaria no estrelato das dez notáveis cantoras brasileiras?

Stanislau Ponte Preta estaria fora da redação dos dez notáveis jornalistas brasileiros?

E Paulo Freire ficaria de fora da sala de aula com os dez notáveis educadores brasileiros?

Penso, que dificilmente alguns desses brasileiros não estariam entre os dez notáveis.

         Pois é, no site do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para incentivo a pesquisa ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, na página inicial do site nos apresentam uma relação dos principais cientistas brasileiros da nossa história, denominados por eles de notáveis. É uma relação de mais de sessenta cientistas e pesquisadores.

         E qual é a surpresa para quem abrir essa página onde estão historiadores, geógrafos, sociólogos e educadores ilustres, como Anísio Teixeira e Florestan Fernandes? A ausência do patrono da educação brasileira, o pesquisador, educador e pensador Paulo Freire.

          Por que Paulo Freire não está nesta lista de notáveis? Coincidência ou não está ausência se dá no período desse desgoverno, que desde seu início, adotou uma política de desmonte da educação brasileira e um processo de desconstrução da obra e da imagem de Paulo Freire. Sem contar com os desqualificados ministros da educação que já passaram pelo ministério e os que estão por vim.

         O educador Paulo Freire é o único brasileiro que consta na lista dos 100 autores mais importantes nas universidades de língua inglesa. O livro “Pedagogia do Oprimido” está entre os três livros mais citados na área de ciências humanas no mundo. Freire é o brasileiro que mais recebeu títulos de “doutor honoris causa’ na nossa história.

         A grandeza do legado da práxis freiriana é demonstrada por meio das 8 cátedras Paulo Freire, 1 Instituto Paulo Freire e 46 grupos de pesquisa existentes no Brasil, como também em outros países da América Latina e Central, Estados Unidos, Canadá e Europa.

         Por isso, a indignação de Paulo Freire não constar na relação dos notáveis de uma instituição de fomento a pesquisa em nosso país.

         Penso que apesar desse desrespeito com o educador Paulo Freire, sabemos que há uma considerável rede de Educadoras e Educadores no Brasil e no mundo que têm na práxis freiriana uma bandeira de luta e resistência para se construir por meio da educação uma sociedade libertária e igualitária.

   O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com         

quinta-feira, 26 de março de 2020

DEZ DICAS PARA ENFRENTAR A RECLUSÃO




por Frei Betto

       Estive recluso sob a ditadura militar. Nos quatro anos de prisão trancaram-me em celas solitárias nos DOPS de Porto Alegre e da capital paulista, e também, no estado de São Paulo, no quartel-general da PM, no Batalhão da ROTA, na Penitenciária do Estado, no Carandiru e na Penitenciária de Presidente Venceslau.
       Partilho, portanto, 10 dicas para suportar melhor esse período de reclusão forcada pela pandemia:
       1. Mantenha corpo e cabeça juntos. Estar com o corpo confinado em casa e a mente focada lá fora pode causar depressão.
       2. Crie rotina. Não fique de pijama o dia todo, como se estivesse doente. Imponha-se uma agenda de atividades: exercícios físicos, em especial aeróbicos (para estimular o aparelho respiratório), leitura, arrumação de armários, limpeza de cômodos, cozinhar, pesquisar na internet etc.
       3. Não fique o dia todo diante da TV ou do computador. Diversifique suas ocupações. Não banque o passageiro que permanece o dia todo na estação sem a menor ideia do horário do trem.
       4. Use o telefone para falar com parentes e amigos, em especial com os mais velhos, os vulneráveis e os que vivem só. Entretê-los fará bem a eles e a você.
       5. Dedique-se a um trabalho manual: consertar equipamentos, montar quebra-cabeças, costurar, cozinhar etc.
       6. Ocupe-se com jogos. Se está em companhia de outras pessoas, estabeleçam um período do dia para jogar xadrez, damas, baralho etc.
       7. Escreva um diário da quarentena. Ainda que sem nenhuma intenção de que outros leiam, faça-o para si mesmo. Colocar no papel ou no computador ideias e sentimentos é profundamente terapêutico. 
       8. Se há crianças ou outros adultos em casa, divida com eles as tarefas domésticas. Estabeleça um programa de atividades, e momentos de convívio e momentos de cada um ficar na sua. 
       9. Medite. Ainda que você não seja religioso, aprenda a meditar, pois isso esvazia a mente, retém a imaginação, evita ansiedade e alivia tensões. Dedique ao menos 30 minutos do dia à meditação.
       10. Não se convença de que a pandemia cessará logo ou durará tantos meses. Aja como se o período de reclusão fosse durar muito tempo. Na prisão, nada pior do que advogado que garante ao cliente que ele recuperará a liberdade dentro de dois ou três meses. Isso desencadeia uma expectativa desgastante. Assim, prepare-se para uma longa viagem dentro da própria casa.

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), entre outros livros.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

EU TIVE UM SONHO QUE DUROU DEZ DIAS...


Por Reginaldo Veloso
Qualquer semelhança com o frevinho clássico e gostoso de cantar, não é mera coincidência. De fato, “eu tive um sonho que durou”, de certa maneira, dez dias, e que, também, “foi um sonho lindo, sonho encantador”... Sonhei que chegava ao Morro da Conceição, numa noite de 29 de novembro, para assistir a chegada da “Bandeira”, isto é, para a abertura do Novenário anual em honra da Imaculada Conceição da Mãe do Senhor Jesus.
E o Morro era um brilho só. Não apenas pela iluminação esplendorosa de toda a praça, mas, sobretudo, pelo que mais me enchia a vista, e tinha a ver com a minha devoção à Mãe de Jesus. Eram balões que pontilhavam todo o perímetro da praça, cada um contendo uma lembrança significativa da figura de Maria, colhida nas páginas das Sagradas Escrituras.
Eram precisamente, 24 balões, doze de um lado e doze do outro, os quais de para em par, traziam doze referências bíblicas que ilustravam bem, quem foi e quem continua sendo esta Mulher. Não tanto alguém de uma grandiosidade imensa, quase uma deusa, ao lado da Santíssima Trindade. Nem tanto uma protetora onipotente frente a qualquer problema da vida, dispensando mesmo a proteção de Deus. Mas, simplesmente, MARIA, semente, modelo, referência, ícone e inspiração da Igreja. Olhando para Maria, tal como no-la apresentam as páginas do Evangelho, nós, como se estivéssemos diante de um espelho, saberemos exatamente como a comunidade cristã tem que ser. Como cada cristão, cada cristã tem que ser. Pelo menos, para ser Igreja do jeito que Deus quer, que Jesus, filho de Deus e de Maria, quer que a gente seja.
Acertadamente, já os dois primeiros balões, um do lado e outro do outro da praça, diziam: <<EIS AÍ TUA MÃE! (João 19,26)>>. E era um convite a todo mundo olhar para ela, com certeza, não apenas para admirá-la, mas, sobretudo, para imitá-la...
Os dois seguintes, de um lado e do outro, rezavam: <<AVE, CHEIA DE GRAÇA! O SENHOR ESTÁ CONTIGO! (Lucas 1,28)>>. E era, para cada devoto, cada devota, que ia chegando ao Morro, sentir-se saudado pelo mesmo Anjo que saudou a Maria. E sentir, como ela, a presença mais confortante: Deus está com a gente, como esteve com ela! Eu olhava pros balões e olhava paras pessoas que iam caminhando pela praça comigo, e me perguntava se sentiam o mesmo que eu sentia...
Mais adiante, dois outros balões traziam essa frase lapidar de Maria: <EIS A SERVIDORA DO SENHOR! FAÇA-SE EM MIM SEGUNDO A TUA PALAVRA! (Lucas 1,35)>>. E era para a gente se questionar: “Será que estamos à disposição de Deus, da sua vontade, tanto quanto ela, pro que der e vier?”... O que será que entendiam as pessoas que iam lendo essas palavras?...
Logo depois, vinham outros dois balões, com uma inscrição mais longa. Por isso, as letras eram mais pequenas, mas dava para ler bem: <<BENDITA ÉS TU ENTRE AS MULHERES! BENDITO É O FRUTO DO TEU VENTRE! (Lc 1,42)>>. Era a saudação de Isabel. E eu pensava comigo mesmo: como seria bom que, cada mãe cristã, chegando ao Morro, se sentisse elogiada, se sentisse igualmente, “bendita”, ao tomar consciência de que os filhos e as filhas que dela nasceram, foram por ela criadas e educadas pra serem outras tantas presenças de Jesus Cristo neste mundo... Eu olhava para o semblante das mães que caminhavam comigo, e bem gostaria de ter a certeza de tudo isso. Aliás, era para toda a Igreja, cada Comunidade Cristã, se questionar: “Do jeito que estamos sendo Igreja hoje, aqui em nosso país, a gente mereceria o mesmo o elogio de Isabel?... Estamos, realmente, merecendo o elogio que Maria recebeu de Isabel?... Estamos, verdadeiramente, comunicando JESUS ao mundo, o Jesus dos Evangelhos?...
Em seguida, em dois outros balões, apenas essas palavras: <<BEM-AVENTURADA AQUELA QUE ACREDITOU! (Lc 1,45)>>. Isabel estava felicitando a prima, futura Mãe do Messias. Quem de nós que estávamos lendo, naquele momento, aquela frase, além de admirar a fé de Maria, se sentia de alguma modo incluído naquela felicitação?... A ousadia da fé de Maria, que deveria estar sendo a ousadia da fé da gente, estava nos engajando na caminhada de todo o povo que luta por dias melhores, por um país justo, igual, fraterno, feliz, tanto quanto Maria, nos caminhos do seu Filho, pelas estradas da Palestina, anunciando a Boa Nova do Reino?...
<<A MINH’ALMA PROCLAMA A GRANDEZA DO SENHOR! (Lc 1,46)>>, era o que se lia no sexto par de balões. Era a primeira frase do Cântico de Maria. E eu, enquanto caminhava com toda aquela gente, vibrava com Maria. Como ela, eu pensava no que havia aprendido da vida até aqui, e não poderia ter outro sentimento, dizer outra coisa. Imagino que muita gente que ia naquela procissão, lendo estas palavras, vibrava do mesmo jeito: DEUS É MAIS!
<<ELE OLHOU PARA A HUMILHAÇÃO DE SUAS SERVIDORA... E REALIZOU GRANDES COISAS EM MEU FAVOR! (Lc 1,49)>>, eram os dizeres dos sétimo par de balões. Quanta gente caminhando Morro acima! A maioria, trabalhadores, trabalhadoras, gente do meio popular, gente pobre, sacrificada... Quantos, quantas de nós se sentiriam igualmente olhados, olhadas, por Deus?... Quantos, quantas, diante de tantas humilhações e necessidades que passamos, acreditavam que Deus poderia realizar grandes coisa em favor da gente?... E bastaria que a gente tivesse a fé, a ousadia, a capacidade de entrega da Mãe de Jesus, no seguimento do seu Filho...
<<ELE DERRUBA OS PODEROSOS DE SEUS TRONOS E LEVANTA OS HUMILHADOS! (Lc 1,52)>>, será que toda esta gente devota que sobe o Morro é tão subversiva quanto parece ter sido a Mulher que cantou este Cântico?... Era o que eu me perguntava, ao ler, dum lado e no outro, no oitavo par de balões, esse verdadeiro grito de guerra.
<<ELE ENCHE OS FAMINTOS DE BENS E MANDA EMBORA OS RICOS DE MÃOS VAZIAS! (Lc 1,53)>>. Acredito que muita gente, ao ler as palavras do nono par de balões, deve ter se perguntado: depois de tanto tempo que Maria cantou estas palavras, porque será que ainda existe tanta fome, tanta desigualdade?... E as pessoas mais informadas sabem que essa injustiça acontece sobretudo nos países de “cultura cristã”... E eu me questionava: será que dessa festa toda a gente vai sair mais consciente do Projeto de Deus, mais comprometida com a luta pela justiça?...
O décimo par de balões registravam o que ocorreu na festa do casamento em Caná da Galileia: Maria dizendo pro Filho: <<ELE NÃO TÊM VINHO! (Jo 2,3)>>. No lugar de Maria, a Igreja hoje, cada Comunidade Cristã, todo esse povo que sobe o Morro em devoção, tem esse olhar atento, essa sensibilidade, essa capacidade de se doer e se solidarizar com as necessidades e humilhações porque passa tanta gente?...
<<FAÇAM O QUE ELE MANDAR! (Jo 2,5), essas palavras do décimo primeiro par de balões, não são um simples conselho da “Mãe do Bom Conselho”. São uma ordem, um mandado de mãe. Até que ponto, estas palavras estariam repercutindo no coração de cada um, de cada pessoa que passava e lia?... E Maria, mais que ninguém andou escutando o que dizia seu Filho e levando a sério sua Palavra. E foi fiel a Ele até a cruz. Por isso, mais que ninguém, mereceu o elogio que, finalmente lemos, no décimo segundo par de balões, quando já rodeávamos o monumento da Santa:
<<MAIS FELIZES SÃO AQUELES QUE OUVEM A PALAVRA DE DEUS E A PÕEM EM PRÁTICA! (Lc 11,28)>>. E foi uma pena que os dizeres sendo mais longos, só dava para escrevê-los com letras bem pequenas, embora de mais perto desse para ler bem. Claro que fechavam com chave de ouro. Ah! se o resultado dessa festa toda, que apenas estava começando, fosse todo mundo que dela participa, se tornar gente mais consciente e comprometida com a causa das causas, o REINO DE DEUS! Maria se sentirá realmente honrada e feliz com a gente.
O fato é que eu achei aquilo tudo tão bonito, no meu sonho, que me animei a voltar nas outras oito noites da Novena e, sobretudo, no próprio dia 8, dia da Festa! Mas, quando pipocavam os fogos com a chegada da procissão e do belo andor da Santa, no dia 8, encerramento dos dez dias de festa, eu me acordei.
O fato é que, força desse sonho, eu subi hoje, ancho de esperança e curiosidade, para ver como estava o Morro. E qual não foi a minha surpresa! Sabem o que encontrei?... Tudo, menos o que no sonho eu vi. Em vez de 24 belas e fortes mensagens sobre a Mãe de Jesus, o que avistei foram mais de 20 balões com propaganda comercial. E Morro da Conceição, parecia mais o pátio do Shopping Recife ou do Shopping Tacaruna do que o Morro da Imaculada. Vejam só o que se lia nos balões, de par em par, de um lado e do outro:
<<QUALIFICAÇÃO NEESON CENTRAL CURSOS>> - <<JÚNIOR MAGAZINE – CLAÇADOS E CONFECÇÕES>> - <<FACULDADE IMACULADA CONCEIÇÃO DO RECIFE>> - <<PERNAMBUCO DO SABOR>> - <<FRICÇÕES>> - <<K KALDO – O SABOR DA FAMÍLIA>> - <<LOJA DO CONDOMÍNIO>> - <<AUTO ESCOLA PILOTO>> - <<FREITAS BETONEIRAS>> - <<SANTA CLARA (café!)>> - HONDA TENDA CONSÓRCIO>>.
Apenas duas bolas de interesse público: <<BOMBEIRO CIVIL>>, pois, me parece, que, até os dois com os dizeres da Prefeitura do Recife me pareciam mais, propaganda.
Pelo visto, tinha pra todo gosto. Do fundo da minha frustração, porém, emergem algumas perguntas:
- Dessa enxurrada de mensagens comerciais, o que sobra de evangelização, de revelação do Mistério de Maria, no seio do Mistério de Cristo e da Igreja?... Pelo menos, a partir do que enchia os olhos de quem chegava à Praça de N. S. da Conceição, no Morro, nestes dez dias da maior festa religiosa da região?...
- Será desse jeito que a Mãe de Jesus se tornará uma inspiração forte para a mudança de vida das pessoas e da sociedade?...
- Avessos à “Teologia da Libertação”, estarão promovendo a “Teologia da Prosperidade”, a mercantilização da religião, o aproveitamento comercial da religiosidade popular?...
- E essa enxurrada de missas, ao longo da novena, e, sobretudo, no dia da festa, estará servindo mesmo aos objetivos de uma Igreja Discípula-Missionária, à valorização da Eucaristia, à revelação da riqueza evangélica e evangelizadora da pessoa e do testemunho da Mãe do Senhor?... Ou estará sendo outra aberrante utilização mercantil do que há de mais sagrado na religião cristã, execrável banalização do que deveria ser o ponto culminante da vivência comunitária eclesial?...
Não sem razão, quase 30 anos depois de ter sido alijado da nascente Paróquia do Morro, ao sair pelas ruas do bairro, subindo ou descendo o Morro, continuamente, as pessoas que conheceram o estilo de Igreja e de Pastoral que aqui se tentou implementar, há quase 40 anos atrás, me abordam, emocionadas, para dizer-me, enfaticamente, de sua saudade daqueles tempos... Quando, inclusive, a paróquia não precisava vender nada, nem muito menos, se vender aos interesses do Mercado, mas os pequenos comerciantes informais podiam, esses sim, vender suas coisinhas e ganhar uma espécie de suado “décimo-terceiro”, para terminar o ano oferecendo algum mimo ou algum alívio a suas sofridas famílias.
Deus está vendo!
Reginaldo Veloso, presbítero leigo das CEBs
reginaldovelos937@gmail.com


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

DEZ POSSÍVEIS LIÇÕES APÓS O IMPEACHMENT


por Leonardo Boff



          Seguramente é cedo ainda para tirar lições do questionável impeachment que inaugurou uma nova tipologia de golpe de classe via parlamento. Estas primeiras lições poderão servir aos que amam a democracia e respeitam a soberania popular, expressa por eleições livres e não em ultimo lugar ao PT e aliados. Os que detêm o ter, o poder e o saber que se ocultam atrás dos golpistas se caracterizam por não mostrar apreço à democracia e por  se lixar pela situação de gritante desigualdade do povo.

Primeira lição é alimentar resiliência, vale dizer, resistir, aprender dos erros e derrotas e dar a volta por cima. Isso implica severa autocrítica, nunca feita com rigor pelo PT. Precisa-se ter claro sobre qual  projeto de país se quer implementar.
Segunda lição: reafirmar a democracia, aquela que  ganha as ruas e praças, contrariamente da democracia de baixa intensidade, cujos representantes, com exceções, são comprados pelos poderosos para defender seus interesses corporativos..
Terceira lição: convencer-se de que um presidencialismo de coalizão é um logro, pois desfigura o projeto e induz à corrupção. A alternativa é uma coalização dos governantes com os movimentos sociais e setores dos partidos populares e a partir deles pressionar os parlamentares.
Quarta lição: convencer-se de que o capitalismo neoliberal, na atual fase de altíssima concentração de riqueza, está dilacerando as sociedades centrais e destruindo as nossas. O neoliberalismo atenuado, praticado nos últimos 13 anos pelo PT e aliados permitiu fazer a maior transformação social na história do Brasil com a melhoria de vida de quase 40 milhões de pessoas, com o aumento dos salários, com facilidade de crédito, com  desonerações fiscais, mas mostrou-se, no fundo,  insuficiente. Grande erro do PT foi: nunca ter explicado que aquelas ações sociais eram fruto de uma política de Estado. Por isso criou antes consumidores que cidadãos conscientes. Permitiu adquirirem bens pessoais (a linha branca) mas melhorou pouco o capital social: educação, saúde, transporte e segurança. Bem disse frei Betto: gerou-se “um paternalismo populista que teve início quando se trocou o Fome Zero, um programa emancipatório, pelo Bolsa Família compensatório; passou-se a dar o peixe sem ensinar a pescar”. No atual governo pós golpe, a radicalizada política econômica neoliberal de ajustes severos, recessiva e lesiva aos direitos sociais seguramente vai devolver à fome e à miséria os que dela foram tirados.
Quinta lição: é urgente dar centralidade à educação e à saúde. O governo Lula-Dilma avançou na criação de universidades e escolas técnicas. Mas cuidou pouco da qualidade seja da educação seja da saúde. Um povo doente e ignorante nunca dará um salto rumo a uma properidade sustentável. Tanto o filho/a de rico quanto de pobre tem direito de frequenter a mesma escola de qualidade.
Sexta lição: colocar-se corajosamente ao lado das vítimas da voracidade neoliberal, denunciando sua perversidade, desmontando sua lógica excludente, indo para as ruas, apoiando demonstrações e greves dos movimentos sociais e de outros segmentos.
Sétima lição: colocar sob suspeita tudo o que vem de cima, geralmente fruto de políticas de conciliação de classes, feitas de costas e à custa do povo. Estas políticas vem sob o signo do mais do mesmo. Preferem manter o povo na ignorância para facilitar a dominação  e combatem qualquer espírito critico.
Oitava lição: é urgente a projeção de uma utopia de um outro Brasil, sobre outras bases, a principal delas, a originalidade e a força de nossa cultura, dando centralidade à vida da natureza, à vida humana e à vida da Mãe Terra, base de uma biocivilização. O desenvolvimento/crescimento é necessário para atender, não os desejos, mas as necessidades humanas; deve estar a serviço, não do mercado, mas da vida e da salvaguarda de nossa riqueza ecológica. Concomitante a isso urge reformas básicas, da política, da tributação, da burocracia, da reforma do campo e da cidade etc.
Nona lição: para implementar essa utopia faz-se indispensável uma coligação de forças políticas e sociais (movimentos populares, segmentos de partidos, empresários nacionalistas, intelectuais, artistas e igrejas) interessadas em  inaugurar o novo viável, que dê corpo à utopia de outro tipo de Brasil.
Décima lição: esse novo viável tem um nome: a radicalização da democracia que é o socialismo de cunho ecológico, portanto, ecosocialismo. Não aquele totalitário da Rússia e o desfigurado da China que, na verdade, negam a natureza do projeto socialista. Mas o ecosocialismo que visa realizar potencialmente o nobre sonho de cada um dar o que pode e de receber o que precisa, inserindo a todos,  a natureza incluída.
Esse projeto deve ser implementado já agora. Como expressou a ancestral sabedoria chinesa, repetida por Mao: “se quiser dar mil passos, comece já agora pelo primeiro”. Sem o que jamais se fará uma caminhada rumo ao destino desejado. A atual crise nos oferece esta especial oportunidade que não deverá ser desperdiçada. Ela é dada poucas vezes na história e agora é uma delas.

*Teólogo, filósofo, escritor e articulista do JB on line. Escreveu: Que Brasil queremos? Vozes 2000.