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quinta-feira, 13 de abril de 2023

GOVERNO LULA – 100 DIAS, PRIMEIROS PASSOS


 Frei Betto

 

 

Hoje completam-se 100 dias do novo governo. O Lula 3 difere do que se viu nos dois primeiros mandatos. Agora, é menos sensível às diatribes do Mercado e mais aos direitos dos excluídos. Mais preocupado com o chão da sobrevivência digna que o teto de gastos. Mais com políticas sociais que fiscais. O Bolsa família, além do pagamento mínimo de R$ 600 por família, incluiu o adicional de R$ 150 por criança até 6 anos.

Nesses 100 dias, Lula, com respaldo do STF, salvou a nossa frágil democracia ao intervir no governo do Distrito Federal, prender e indiciar a horda terrorista que invadiu a Praça dos Três Poderes a 8/1. E as Forças Armadas voltaram a ter ciência de que estão “sob a autoridade suprema do Presidente da República”, conforme reza a Constituição. Lula tirou a Abin do controle dos militares e entregou-a à Casa Civil; deu 9% de aumento ao funcionalismo federal e isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 2.640; e aumento real do salário mínimo que, em maio, será de R$1.320,00. Há 60,3 milhões de pessoas com rendimentos referenciados no salário mínimo.

Na política externa, reforça a integração latino-americana e caribenha ao valorizar a Celac, em Buenos Aires e, diante do reaquecimento da guerra fria e do conflito geopolítico entre EUA e China , do qual a guerra na Ucrânia é resultado, posiciona o Brasil como promotor da paz em sintonia com a mais expressiva liderança pacifista da atualidade, o papa Francisco. Recebido por Biden na Casa Branca e, em breve, por Xi Xinping em Pequim, recoloca o Brasil como protagonista no xadrez da globalização.

O governo promoveu a retirada de garimpeiros do território Yanomami, assumiu o cuidado da saúde dessa nação indígena, mas ainda precisa reduzir o desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Lula atuou com presteza no socorro às vítimas da catástrofe climática no litoral Norte paulista; quebrou o sigilo de 100 anos de documentos oficiais que visavam a ocultar desmandos do governo anterior; reabriu a Farmácia Popular; criou o Conselho de Participação Social e o Conselho Político de Coalizão, que reúne 14 siglas partidárias; recriou o Conama, o Consea e o Conselho LGBTQIA+; aprimorou o Minha Casa, Minha Vida com a Medida Provisória para financiamento de imóveis usados em áreas urbanas e rurais. Com a correção feita pelo governo, o orçamento para compra de merenda escolar passa de R$ 4 bilhões para R$ 5,5 bilhões.

Na economia, o governo age com transparência malgrado a “tornozeleira eletrônica” da Lei Complementar no. 179/2021, que garante autonomia do Banco Central e mantém seu atual presidente, bolsonarista assumido, até o fim de 2024. Este insiste em manter elevada a taxa básica de juros (Selic), apesar do recuo da inflação. Isso trava o crescimento econômico. Lula convocou o apoio da opinião pública ao denunciar a exorbitância da taxa de juros e considerar “uma bobagem” a autonomia do BC.

Segundo o DataFolha (3/4), 80% acham que Lula acerta ao forçar a queda da Selic, e apenas 16% discordam. Por enquanto, Lula tenta transformar água em vinho ao misturar, no arcabouço, ingredientes que devem resultar em austeridade fiscal com margem para investimentos em políticas sociais.

Agora é desbolsonarizar o governo; desmilitarizar a administração pública; rever a reforma trabalhista de Temer, fortalecendo a negociação coletiva e os sindicatos; exorcizar o Ministério da Educação da ameaça da gestão empresarial da educação pública e revogar o “novo” ensino médio. E descobrir e punir quem matou Marielle e Anderson. Apesar da coalizão partidária que mistura alhos com bugalhos, foi positiva a recriação de grupos de trabalho interministeriais com participação da sociedade civil organizada. Sem educação política do povo e mobilização popular Lula não vencerá os imensos desafios que o Brasil tem pela frente.

E viva a criação do Ministério dos Povos Indígenas!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. (Livraria virtual: freibetto.org)

 



 

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 


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terça-feira, 26 de novembro de 2019

“TEOLOGIAS DA LIBERTAÇÃO PARA OS NOSSOS DIAS”




Por Marcelo Barros

Esse é o título de meu novo livro que, nessa semana saiu pela editora Vozes e terá o seu lançamento nacional nessa quarta-feira, 27, na Igreja das Fronteiras, onde Dom Helder Camara viveu por 40 anos e ali faleceu. Mais do que título de livro, se trata de um programa que consiste em juntar as diversas teologias contextuais que, na América Latina têm sido desenvolvidas. Assim, a eco-teologia, as teologias índias, negras, feministas, gays e outras são chamadas a dialogar e a se unirem. Devem dar uma resposta de fé e de ação solidária nesse mundo que, cada vez mais, aumenta a criminosa desigualdade social e ameaça a continuidade da vida no planeta Terra. No prefácio desse novo livro, afirma Leonardo Boff: “Podemos resumir tudo nesta preocupação fundamental que se faz um denominador comum em todas as formas de Teologias da Libertação: ‘Como testemunhar o amor e a justiça de Deus presente nas bem-aventuranças de Jesus, em um mundo sem amor e sem justiça? Como fortalecer a esperança dos oprimidos e excluídos do mundo em meio a uma sociedade que, cada vez mais, se afunda em um caminho de desamor e de crueldade?’. Só o podemos e com isso tornamos a fé cristã crível e aceitável, se nos empenharmos no apoio aos próprios oprimidos em suas organizações, movimentos e redes sociais, reforçando seu protagonismo e sua força histórica de transformação”.

A realidade atual da América Latina é cada vez mais difícil. O império norte-americano tem encontrado novas formas de colonialismo. As expressões que, vindo da Europa ou da América do Norte, através dos colonizadores, o Colonialismo tomou ainda precisam ser descontruídas para dar lugar a uma teologia e espiritualidade não ocidental e decolonial.

Na Igreja Católica, o papa Francisco propõe uma Igreja em saída,  a partir da comunhão e da solidariedade com os empobrecidos e excluídos da sociedade dominante. Até hoje, esse modo de interpretar a fé não é plenamente aceito por muitos bispos, padres e fieis que insistem em uma religião cultual e ligada ao poder. O recente sínodo dos bispos católicos sobre a Amazônia defendeu a Ecologia Integral como meta da missão eclesial. Pediu aos missionários e missionárias que valorizem as tradições culturais e religiosas dos povos originários. Mesmo para quem se coloca a favor dessas novas propostas, esse caminho não se fará espontaneamente, ou de forma experimental. É preciso o aprofundamento de novas teologias da libertação para os nossos dias. Desde o começo desse século, tem havido um diálogo fecundo entre as Teologias da Libertação e as teologias do Pluralismo cultural e religioso. As novas teologias da libertação são pluralistas e decoloniais.

Algumas intuições da primeira Teologia da Libertação nos anos 70 são sempre atuais e necessárias. No entanto, há muitos desafios novos e a própria compreensão do pobre, hoje, se desdobra não somente no oprimido social, mas em categorias de raça (negro, indígena, etc) e em relações de gênero. A partir de uma intuição de Leonardo Boff, o próprio Sínodo da Amazônia, que colocou a Igreja à escuta do grito do pobre, pediu que se unisse esse grito ao clamor da Terra que está invadida, saqueada e ferida pelo mesmo sistema capitalista que oprime os pobres e mata a vida.

Desde os seus inícios, a Teologia da Libertação sempre insistiu na prioridade da espiritualidade. A inserção junto aos oprimidos do mundo é caminho de intimidade com o Deus de Jesus. Por isso, essas novas teologias da libertação para os nossos dias conferem realce especial à espiritualidade e à mística, presentes no meio do povo. Não qualquer espiritualidade e mística, mas aquela espiritualidade dos olhos abertos sobre as feridas da realidade dos sofredores e das mãos operosas para saná-las. As novas teologias pluralistas da libertação  desenvolvem uma mística profunda como intimidade do amor a Deus, que se expressa por motivações e convicções-força que dão sentido e rumo à vida.

Nesse contexto atual, temos de ter coragem de enfrentar questões novas, como o desafio das redes sociais, a radicalização do neoliberalismo, o fenômeno da ascensão da direita em nível mundial e nacional. As novas teologias da libertação não podem se eximir de tratar as formas diversas de convivência afetiva, além da matrimonial, as importantes contribuições do Oriente para a humanidade e mesmo o significado espiritual do Tantra. Não se trata de aceitar tudo isso como uma miscelânea de crenças e propostas e sim de verificar cada uma à luz do evangelho de Jesus que veio não para nos entregar doutrinas, mas para nos ensinar a viver os valores do Reino: o amor incondicional, a compaixão, a solidariedade e a ternura.

As novas teologias da libertação para os nossos dias podem nos entusiasmar e convocar à com-paixão pelos condenados e ofendidos. Elas nos animarão para, junto com outros, assumirmos um compromisso de libertação do ser humano todo e de todos os seres humanos, seja à luz da fé cristã, seja motivados/as pelo chamado do Espírito de Amor em todas as tradições espirituais da humanidade.


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   



terça-feira, 18 de junho de 2019

FESTAS JUNINAS NO BRASIL DOS NOSSOS DIAS



Por Marcelo Barros

No calendário turístico de várias cidades brasileiras, o mês de junho é marcado pelas festas juninas. Desde o começo do mês, de norte  a sul, o país é tomado por festejos tradicionais, próprios dessa época. Conforme a região, mudam de estilo e de forma e envolvem, desde crianças nas escolas até clubes de futebol e grupos de vizinhos nas ruas das cidades. No interior do Nordeste, as festas juninas chegam a ser mais importantes e envolventes do que o Natal e mesmo o Carnaval.

Há quem considere as festas juninas como resíduos anacrônicos de uma sociedade rural, sem mais espaço na cultura urbana do século XXI. No entanto, é nas cidades que as duplas sertanejas mais fazem sucesso. São as cidades de médio porte que mais investem no turismo que cresce nesses dias de festa. É claro que a cultura contemporânea, marcada pela urbanização e pelo cuidado ecológico exige algumas mudanças. Não se veem mais fogueiras nas portas de muitas casas, como ocorria antigamente. E as brincadeiras ganham sentido mais simbólico e conteúdo social mais explícito. Muitas vezes, jovens em situação de risco, que não entram em outras atividades pedagógicas, quando se fala em quadrilha ou casamento caipira, se organizam quase espontaneamente e com grande disciplina comunitária e louvável capacidade de mobilização social.

Desde que a humanidade existe, gosta de celebrar festas religiosas por ocasião do solstício do verão que, no sul, corresponde ao inverno. Na noite de 21 de junho, em toda a cordilheira dos Andes e em alguns outros pontos da América do Sul, as comunidades autóctones celebram o ano novo andino. A passagem de ano é marcada pelo solstício do inverno. No hemisfério norte ocorre no 1º de janeiro e no sul neste momento de junho. O próprio mês de junho herda o nome de Juno, antiga deusa-mãe dos romanos, responsável pela fertilidade da terra e pela fecundidade feminina. Quando o cristianismo se impôs, os ritos pagãos da fertilidade assumiram vestes cristãs e passaram a venerar santos, aos quais o povo atribuiu poderes semelhantes às divindades antigas. Santo Antônio herdou o título de “santo casamenteiro”, São João Batista ficou ligado à fogueira, enquanto São Pedro vê sua festa tomada pelos festejos do boi-bumbá. O povo continuou a comemorar divindades ancestrais, mas convenceu os padres de que as fogueiras que acendiam nessa noite eram em honra de São João. Os nobres conseguiam reproduzir nos palácios danças simbólicas que, disfarçadamente, reviviam ritos antigos. Nas senzalas e terreiros, criados e pessoas da plebe ridicularizavam seus patrões e patroas, parodiando seus costumes e imitando suas danças juninas. No começo, as quadrilhas feitas pelos pobres eram estritamente secretas e só se faziam em ambientes de muita confiança. Depois, os nobres perderam seus títulos e os pobres assumiram, em tom de farsa, a subversão de sua imitação da corte. Até hoje, nessas festas, se veem pessoas marginalizadas chamando-se de cavalheiros e damas; mulheres e homens do campo fantasiados de ricos e brasileiros analfabetos dirigindo a quadrilha com expressões francesas, por eles reinventadas. A ordem “Anarriê” substitui o francês “en arrière” (para trás); “anavã” entra no lugar de “en avant” (para frente); “changedidame” faz o pessoal mudar de par e “otrefuá” serve para dizer “outra vez”.  Nos casamentos matutos ou caipiras, as figuras do padre e do juiz da roça são sempre ridicularizadas e a moral tradicional se revela falsa e vazia.

Para as culturas indígenas e populares, mais do que para a sociedade secularizada do Ocidente, a passagem de um ano a outro é símbolo e deve significar a entrada de um tempo novo não só na natureza, mas na vida da comunidade e de cada pessoa. Diante de governantes que se pronunciam contra a educação, revelam preconceitos sociais contra minorias e tomam posições contra o interesse dos mais pobres, é significativo ver que o povo não se intimida. Nos últimos meses, o país tem visto aumentar o número de pessoas que vão às ruas para expressar o seu desacordo com o desmonte da educação e o seu protesto contra projetos como a Reforma da Previdência. Nas festas juninas desse ano, certamente esses temas aparecerão em forma de sátira e deboche. Em todo o Brasil, as festas juninas mostram um povo que, apesar de pobre, sofrido e castigado, não perde a alegria e a capacidade de brincar.
  
Assim, pode vencer a tentação da violência e contribuir para uma cultura de paz.  

Nesses dias, o Brasil é governado por pessoas que manifestam claramente posições antissociais e preconceituosas contra pobres e contra as comunidades originárias.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O ELEFANTE DE WITTGENSTEIN. A QUESTÃO DO CONHECIMENTO NOS DIAS DE HOJE




Por Eduardo Hoornaert

Certa vez, ao discutir questões filosóficas com um colega num gabinete da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Ludwig Wittgenstein, com sua conhecida impetuosidade, gritou: ‘Há um elefante na sala’. Com isso, ele quis indicar que seu interlocutor, ao que lhe parecia, não enxergava o óbvio.

A imagem desse elefante me parece apropriada para passar um olhar crítico pelos vastos campos da cognição na civilização ocidental. Desde os primeiros esboços na Mesopotâmia, a impressão que se tem é que o próprio processo civilizador impede de enxergar elefantes de Wittgenstein, principalmente o elefante da escravidão. Na Grécia clássica, que nos lega a filosofia, a escravidão é onipresente, mas invisível. Dizem os historiadores que, na cidade de Atenas em tempo de Péricles (séc. V aC), cinco mil cidadãos vivem sustentados por cem mil escravos, um número aproximativo, pois acerca de escravos não existe registro escrito. No Liceu de Atenas (fundado por Aristóteles no século IV aC) não é difícil se imaginar um vai-e-vem incessante de ‘pedagogos’, escravos que trazem e levam crianças e jovens de famílias boas para participar de exercícios educativos. Pelo pátio do referido Liceu, homens e mulheres se cruzam, a preparar as mesas, servir comidas e bebidas, limpar o chão e as latrinas. Os estudantes não lhes dão atenção.

 Nem o próprio Mestre Aristóteles, que lhes dedica apenas umas linhas de sua ‘Política’ (não cito textualmente): ‘esses nossos servidores fazem o que lhes compete fazer para o bom andamento do Liceu e isso lhes dá satisfação. A natureza cria uns para mandar e outros para obedecer. Os ‘servi ex natura’ (servos por natureza) nos são úteis, e mais não digo, já que temos que nos conformar com as leis da natureza, que dispensam reflexões filosóficas’. Em outras palavras: Aristóteles deixa o colossal elefante de Wittgenstein perambular tranquilamente por seu território.

Séculos depois, o teólogo cristão Agostinho (séc. V dC) não pensa diferente. Ele se mostra triste com os destinos da humanidade pecadora, essa ‘massa damnada’ herdeira do ‘pecado original’ de Adão e Eva. Mas não parece afetado pelo fato que, na guarnição militar costeira romana, sediada em Hipona, onde ele é bispo, se despacham rotineiramente grupos de africanos algemados, com destino aos mercados de escravos existentes na Itália. O teólogo lamenta o ‘inferno’ dos pecadores, mas não parece ouvir os lamentos e sussurros de africanos a serem embarcados para o inferno da escravidão romana. O mestre cristão repete basicamente a argumentação de Aristóteles, só que atribui a escravidão ao pecado, o pecado de Cam. Comentando os versículos 21 a 25 do livro 9 de Gênesis, Agostinho explica que Cam, o filho ‘etíope’ (leia: negro) de Noé, não trata seu pai, desnudo e embriagado em baixo da lona, com o devido respeito. Este, ao acordar e ouvir o relato, condena peremptoriamente Cam e todos os seus descendentes:

Maldito seja Canaã (filho de Cam)
Seja ele escravo de seus irmãos.

Assim a carruagem dos tempos vai invariavelmente acompanhada pelo lento e pesado passo do elefante invisível de Wittgenstein, como nos lembra o escritor português José Saramago em seu ‘Ensaio de Cegueira’ (1995): as pessoas veem, mas não enxergam.

 De modo ainda mais premente, no conto ‘A roupa nova do Rei’, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1837) narra que o alfaiate do rei, ao confeccionar uma nova roupa, ‘nunca vista’, para o rei, adverte: ‘só os inteligentes conseguirão enxergar a nova roupa do Rei’. Assim, este pode passear pelado pelas ruas sem que ninguém diga nada. Só uma criança grita: ‘o rei está nu’.

A permanência do elefante de Wittgenstein na cultura ocidental levanta uma questão filosófica. Como se chega a não enxergar uma evidência? Uma pergunta que toca num dos pontos fundamentais da filosofia, a epistemologia. Enfim, de que modo chegamos a conhecer algo? Como se estrutura nosso conhecimento (nossa cognição)? A resposta secular, dada pela filosofia: conhecemos por meio da informação, seja direta, por meio dos cinco sentidos, seja indireta, por falas, escritas ou imagens. As informações diretas, físicas, geram diretamente a evidência. Ou seja, o melhor meio de adquirir conhecimento consiste na observação atenta das coisas, por meio dos cinco sentidos.

E as informações indiretas, por meio de falas, escritas ou imagens? Em que condições elas geram evidências? Aristóteles, em sua ‘Ética’, ao afirmar que a verdade consiste em considerar ‘aquilo que é’ (id quod est), não deixa de observar que essa consideração implica num imperativo ético: nem sempre ‘aquilo que é’ me agrada, está em conformidade com meus interesses. Daí a complicação.

Aqui estamos diante de uma questão em cima da qual os filósofos se debruçam desde séculos: nas informações costumam entrar imperativos não éticos, embora comumente revestidos de moralidade, como são, por exemplo: interesses pessoais, vantagens financeiras, luta pelo poder e exercício do poder, obediência a ordens dadas, compromissos de vida já assumidos, opção por modelos autoritários, ou simplesmente acomodação com situações injustas existentes. A dificuldade consiste no fato que, na maioria dos casos, esses discursos se apresentam como sendo designativos, ou seja, pretendem expressar as coisas como elas são efetivamente. Eis o engodo que poucos parecem perceber. Discursos aparentemente designativos podem ocultar o que se pretende efetivamente: emitir uma ordem, expressar um desejo, uma exortação, um sentimento, uma intuição, uma imaginação, um sonho, um projeto, um cálculo, etc. São discursos que não revelam, mas escondem, contêm intencionalidades não confessas, procuram exercer um domínio sobre as mentes humanas, com a finalidade de fazer passar determinados posicionamentos, formar consensos, enfim, enganar as pessoas.

Não é difícil constatar que a maioria dos discursos, hoje emitidos por poderes políticos e econômicos, serve para justificar imperativos não éticos. Isso cria uma situação dramática, que todos e todas podemos observar diariamente em contatos com nossos vizinhos. As pessoas acabam se metendo num labirinto de palavras tão intricado, que elas não encontram mais a saída. Elas se parecem com aquelas moscas que voam para cá e para lá dentro de uma garrafa aberta. A boca da garrafa está aberta, ou seja, há saída. Mas as pessoas não a encontram, de tão confusas e desorientadas, tão desacostumadas a refletir. Elas costumam, desde muito, entregar sua inteligência ao ‘Jornal Nacional’ da TV Globo ou às manchetes da revista Veja. Desse modo mal escapam ao bombardeio diário de Fake News, que hoje toma conta dos noticiários. Eis uma situação que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman qualifica de ‘líquida’. Não há mais verdade, só há notícias.

Fico pensando: como é que esse tema da complexidade cognitiva ficou por tanto tempo fora das cogitações de eminentes filósofos clássicos da tradição ocidental, como Aristóteles e Agostinho, que – como escrevi acima – nem conseguem enxergar o elefante de Wittgenstein a passear por seus territórios? Como é e que eles não alertam com o devido vigor diante dos perigos de uma cognição pervertida? Mesmo muitos filósofos modernos parecem omissos nesse ponto, ao dar a impressão de confiar demais em ‘informações’. Quem contempla o atual cenário do universo cognitivo, verifica com espanto quão facilmente as pessoas se deixam prender nas redes de discursos enganosos. Como já dizia Maquiavelli, as pessoas costumam ficar indefesas (ele fala até em ‘disponíveis’) diante de enunciados emanados de fontes que lhes parecem confiáveis. Voltaire ainda acrescentou: ‘mentez, mentez toujours: il en restera toujours quelque chose’ (mintam, mintam sempre: algo há de ficar). E Goebbels, ministro da informação do governo nazista, completou: ‘uma mentira repetida mil vezes se torna verdade’.

Afinal, tivemos de esperar a revolução linguística do século XX para ver aparecer uma geração de filósofos disposta a encarar de frente a questão cognitiva e se propor a premunir as pessoas contra palavras enganosas, esclarecer a perversidade de determinados usos da linguagem e precaver diante de palavras pretensamente designativas. Não é por acaso que um dos analistas políticos mais argutos de nossos dias seja Noam Chomsky, um linguista. Nem falo em Slavoj Zizek, Bakhtin, Ricoeur, Bourdieu e outros.
Esses filósofos linguistas nos propõem um exercício diário, o de limpar nossa cabeça. Ninguém se engane, a ‘Fake News’ veio para ficar e se desenvolver sempre mais, pois repousa sobre uma tecnologia em pleno desenvolvimento, que ainda não revelou todas as suas potencialidades. Vivemos em sociedades cada vez mais ‘informáticas’, onde não só enormes conglomerados informativos derramam sobre nós diariamente um fluxo ininterrupto de informações, mas onde o twitter permite que cada um(a) de nós emita, por sua vez, informações e afirmações, a seu bel prazer. Nossa única defesa reside em nosso cérebro, como nos lembra Mao Tse Tung:

Que os pássaros façam ninhos nas árvores
Você não pode impedir.
Mas que eles façam ninhos em seu cabelo
Isso você pode impedir.

Em outras palavras: somos convidados a praticar um exercício contínuo e diário de domínio inteligente sobre nosso próprio pensamento. E no Brasil 2019 não faltam oportunidades para tanto: elas são diárias!

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

REVENDO OS DIAS PASSADOS, TENHO A MENTE VOLTADA PARA A ETERNIDADE: 80 ANOS DE VIDA



Por Leonardo Boff

Hoje, dia 14 de dezembro, completo 80 anos  de vida. Estou descendo a montanha da vida.

Primeiramente agradeço a Deus por ter chegado até aqui e por ter sobrevivido. De pequeno, com alguns meses, estava destinado a morrer. Naqueles interiores profundos de Santa Catarina, Concórdia, não havia ainda médicos. Todos, desolados, diziam: ”coitadinho, vai morrer”. Minha mãe, desesperada, depois de fazer o pão familiar num forno de pedra, deixou que ficasse morno e sobre uma pá de madeira me colocou por bons minutos lá dentro. A partir deste experimento derradeiro, melhorei e estou aqui como sobrevivente.

Achei que nunca passaria da idade de meu pai que morreu de um enfarte fulminante aos 54 anos. Sobrevivi. Escrevi um balanço aos 50. Depois achava não passaria da idade de minha mãe que também morreu  de enfarte com 64 anos. Sobrevivi. Fiz mais um balanço aos 60. Então, estava seguro de que não chegaria aos 70. Sobrevivi. Tive que escrever outro balanço aos 70. Por fim, pensei, convicto, de todas as maneiras, não chegarei aos 80. Sobrevivi. E tenho que escrever outro balanço.  Como sai desmoralizado nas minhas previsões, não penso mais em nada. Quando chegar a hora que só Ele sabe, irei alegremente ao encontro do Senhor.

Relendo os vários balanços, surpreendentemente e sem intenção prévia, vejo que há constantes que perpassam todas as memórias. Tentarei fazer uma leitura de cego que apenas capta o que é relevante. Sempre fui movido por alguma paixão mais forte que me levava a falar e a escrever.

A primeira paixão foi pela Igreja renovada pelo Concílio Vaticano II. Escrevi minha tese doutoral em Munique: A Igreja como sacramento; Igreja: carisma e poder (que me levou ao silêncio obsequioso) e Eclesiogênese: as CEBs reinventam a Igreja.

A segunda paixão foi pelo Jesus histórico, sua gesta que o levou à cruz. Escrevi Jesus Cristo Libertador; Nossa ressurreição na morte; O evangelho do Cristo cósmico; Via Sacra da justiça.

A terceira paixão foi por São Francisco de Assis, o primeiro depois do Último (Jesus).Escrevi Francisco de Assis: ternura e vigor; São Francisco: saudades do Paraíso; Comentário à sua oração pela paz.
A quarta  paixão foi pelos pobres e oprimidos. Nasceu a teologia da libertação e escrevi  Teologia do cativeiro e da libertação; O caminhar da Igreja com os oprimidos; junto com meu irmão Frei Clodovis escrevemos Como fazer teologia da libertação.

A quinta paixão foi pela Mãe Terra super-explorada. Escrevi A opção Terra: a solução para a Terra não cai do céu; O Tao da libertação: uma ecologia da transformação junto com Mark Hathaway; Como cuidar da Casa Comum.

A sexta paixão foi pela condição humana sapiente e demente. Escrevi O destino do homem e do mundo; A  Águia e a galinha: metáfora da condição humana; Despertar da águia : o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade; Saber cuidar; O cuidado necessário; Feminino –Masculino junto co Rose-Marie Muraro; O Ser humano como projeto infinito.

A sétima paixão foi pela vida do Espírito: Traduzi o principal da obra do místico Mestre Eckhart; retraduzi de forma atualizadora a Imitação de Cristo de 1441 acrescentando-lhe uma parte nova; O seguimento de Cristo; Experimentar Deus hoje; A SS.Trindade é a melhor comunidade; O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres; Espiritualidade: um caminho de transformação.

Publiquei cerca de cem livros. É trabalhoso, com apenas 25 sílabas, compor as palavras e depois com as palavras formular as frases e por fim com frases conceber o conteúdo pensado de um livro. Quando me perguntam: “o que faz na vida”? Respondo: “sou trabalhador como qualquer outro como um marceneiro ou um eletricista. Apenas que meus instrumentos são muito sutis: apenas 25 sílabas”.

“E o que vc pretende com tantas letras”? Respondo: “apenas pensar, em sintonia, as preocupações maiores dos seres humanos à luz de Deus; suscitar neles a confiança nas potencialidades escondidas em si para encontrarem soluções; procurar chegar ao coração das pessoas para que tenham compaixão pelo injusto sofrimento do mundo e da natureza, para que nunca desistam de sempre melhorar a realidade, começando por melhorar a si próprios. Independente de sua condição moral, devam sentir-se sempre na palma da mão de Deus-PaI-e-Mãe de infinita bondade e misericórdia”.

“Valeu a pena tantos sacrifícios para escrever”? Respondo com o poeta Fernando Pessoa:”Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Esforcei-me para que não fosse pequena. Deixo a  Deus a última palavra. Agora no tramontar da vida, revejo os dias passados e tenho a mente voltada para a eternidade.

Leonardo Boff escreveu “Destino e Desatino da Globalização” em: Do iceberg à Arca de Noé, Mar de Ideias,Rio 2010 pp. 41-63.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

EU TIVE UM SONHO QUE DUROU DEZ DIAS...


Por Reginaldo Veloso
Qualquer semelhança com o frevinho clássico e gostoso de cantar, não é mera coincidência. De fato, “eu tive um sonho que durou”, de certa maneira, dez dias, e que, também, “foi um sonho lindo, sonho encantador”... Sonhei que chegava ao Morro da Conceição, numa noite de 29 de novembro, para assistir a chegada da “Bandeira”, isto é, para a abertura do Novenário anual em honra da Imaculada Conceição da Mãe do Senhor Jesus.
E o Morro era um brilho só. Não apenas pela iluminação esplendorosa de toda a praça, mas, sobretudo, pelo que mais me enchia a vista, e tinha a ver com a minha devoção à Mãe de Jesus. Eram balões que pontilhavam todo o perímetro da praça, cada um contendo uma lembrança significativa da figura de Maria, colhida nas páginas das Sagradas Escrituras.
Eram precisamente, 24 balões, doze de um lado e doze do outro, os quais de para em par, traziam doze referências bíblicas que ilustravam bem, quem foi e quem continua sendo esta Mulher. Não tanto alguém de uma grandiosidade imensa, quase uma deusa, ao lado da Santíssima Trindade. Nem tanto uma protetora onipotente frente a qualquer problema da vida, dispensando mesmo a proteção de Deus. Mas, simplesmente, MARIA, semente, modelo, referência, ícone e inspiração da Igreja. Olhando para Maria, tal como no-la apresentam as páginas do Evangelho, nós, como se estivéssemos diante de um espelho, saberemos exatamente como a comunidade cristã tem que ser. Como cada cristão, cada cristã tem que ser. Pelo menos, para ser Igreja do jeito que Deus quer, que Jesus, filho de Deus e de Maria, quer que a gente seja.
Acertadamente, já os dois primeiros balões, um do lado e outro do outro da praça, diziam: <<EIS AÍ TUA MÃE! (João 19,26)>>. E era um convite a todo mundo olhar para ela, com certeza, não apenas para admirá-la, mas, sobretudo, para imitá-la...
Os dois seguintes, de um lado e do outro, rezavam: <<AVE, CHEIA DE GRAÇA! O SENHOR ESTÁ CONTIGO! (Lucas 1,28)>>. E era, para cada devoto, cada devota, que ia chegando ao Morro, sentir-se saudado pelo mesmo Anjo que saudou a Maria. E sentir, como ela, a presença mais confortante: Deus está com a gente, como esteve com ela! Eu olhava pros balões e olhava paras pessoas que iam caminhando pela praça comigo, e me perguntava se sentiam o mesmo que eu sentia...
Mais adiante, dois outros balões traziam essa frase lapidar de Maria: <EIS A SERVIDORA DO SENHOR! FAÇA-SE EM MIM SEGUNDO A TUA PALAVRA! (Lucas 1,35)>>. E era para a gente se questionar: “Será que estamos à disposição de Deus, da sua vontade, tanto quanto ela, pro que der e vier?”... O que será que entendiam as pessoas que iam lendo essas palavras?...
Logo depois, vinham outros dois balões, com uma inscrição mais longa. Por isso, as letras eram mais pequenas, mas dava para ler bem: <<BENDITA ÉS TU ENTRE AS MULHERES! BENDITO É O FRUTO DO TEU VENTRE! (Lc 1,42)>>. Era a saudação de Isabel. E eu pensava comigo mesmo: como seria bom que, cada mãe cristã, chegando ao Morro, se sentisse elogiada, se sentisse igualmente, “bendita”, ao tomar consciência de que os filhos e as filhas que dela nasceram, foram por ela criadas e educadas pra serem outras tantas presenças de Jesus Cristo neste mundo... Eu olhava para o semblante das mães que caminhavam comigo, e bem gostaria de ter a certeza de tudo isso. Aliás, era para toda a Igreja, cada Comunidade Cristã, se questionar: “Do jeito que estamos sendo Igreja hoje, aqui em nosso país, a gente mereceria o mesmo o elogio de Isabel?... Estamos, realmente, merecendo o elogio que Maria recebeu de Isabel?... Estamos, verdadeiramente, comunicando JESUS ao mundo, o Jesus dos Evangelhos?...
Em seguida, em dois outros balões, apenas essas palavras: <<BEM-AVENTURADA AQUELA QUE ACREDITOU! (Lc 1,45)>>. Isabel estava felicitando a prima, futura Mãe do Messias. Quem de nós que estávamos lendo, naquele momento, aquela frase, além de admirar a fé de Maria, se sentia de alguma modo incluído naquela felicitação?... A ousadia da fé de Maria, que deveria estar sendo a ousadia da fé da gente, estava nos engajando na caminhada de todo o povo que luta por dias melhores, por um país justo, igual, fraterno, feliz, tanto quanto Maria, nos caminhos do seu Filho, pelas estradas da Palestina, anunciando a Boa Nova do Reino?...
<<A MINH’ALMA PROCLAMA A GRANDEZA DO SENHOR! (Lc 1,46)>>, era o que se lia no sexto par de balões. Era a primeira frase do Cântico de Maria. E eu, enquanto caminhava com toda aquela gente, vibrava com Maria. Como ela, eu pensava no que havia aprendido da vida até aqui, e não poderia ter outro sentimento, dizer outra coisa. Imagino que muita gente que ia naquela procissão, lendo estas palavras, vibrava do mesmo jeito: DEUS É MAIS!
<<ELE OLHOU PARA A HUMILHAÇÃO DE SUAS SERVIDORA... E REALIZOU GRANDES COISAS EM MEU FAVOR! (Lc 1,49)>>, eram os dizeres dos sétimo par de balões. Quanta gente caminhando Morro acima! A maioria, trabalhadores, trabalhadoras, gente do meio popular, gente pobre, sacrificada... Quantos, quantas de nós se sentiriam igualmente olhados, olhadas, por Deus?... Quantos, quantas, diante de tantas humilhações e necessidades que passamos, acreditavam que Deus poderia realizar grandes coisa em favor da gente?... E bastaria que a gente tivesse a fé, a ousadia, a capacidade de entrega da Mãe de Jesus, no seguimento do seu Filho...
<<ELE DERRUBA OS PODEROSOS DE SEUS TRONOS E LEVANTA OS HUMILHADOS! (Lc 1,52)>>, será que toda esta gente devota que sobe o Morro é tão subversiva quanto parece ter sido a Mulher que cantou este Cântico?... Era o que eu me perguntava, ao ler, dum lado e no outro, no oitavo par de balões, esse verdadeiro grito de guerra.
<<ELE ENCHE OS FAMINTOS DE BENS E MANDA EMBORA OS RICOS DE MÃOS VAZIAS! (Lc 1,53)>>. Acredito que muita gente, ao ler as palavras do nono par de balões, deve ter se perguntado: depois de tanto tempo que Maria cantou estas palavras, porque será que ainda existe tanta fome, tanta desigualdade?... E as pessoas mais informadas sabem que essa injustiça acontece sobretudo nos países de “cultura cristã”... E eu me questionava: será que dessa festa toda a gente vai sair mais consciente do Projeto de Deus, mais comprometida com a luta pela justiça?...
O décimo par de balões registravam o que ocorreu na festa do casamento em Caná da Galileia: Maria dizendo pro Filho: <<ELE NÃO TÊM VINHO! (Jo 2,3)>>. No lugar de Maria, a Igreja hoje, cada Comunidade Cristã, todo esse povo que sobe o Morro em devoção, tem esse olhar atento, essa sensibilidade, essa capacidade de se doer e se solidarizar com as necessidades e humilhações porque passa tanta gente?...
<<FAÇAM O QUE ELE MANDAR! (Jo 2,5), essas palavras do décimo primeiro par de balões, não são um simples conselho da “Mãe do Bom Conselho”. São uma ordem, um mandado de mãe. Até que ponto, estas palavras estariam repercutindo no coração de cada um, de cada pessoa que passava e lia?... E Maria, mais que ninguém andou escutando o que dizia seu Filho e levando a sério sua Palavra. E foi fiel a Ele até a cruz. Por isso, mais que ninguém, mereceu o elogio que, finalmente lemos, no décimo segundo par de balões, quando já rodeávamos o monumento da Santa:
<<MAIS FELIZES SÃO AQUELES QUE OUVEM A PALAVRA DE DEUS E A PÕEM EM PRÁTICA! (Lc 11,28)>>. E foi uma pena que os dizeres sendo mais longos, só dava para escrevê-los com letras bem pequenas, embora de mais perto desse para ler bem. Claro que fechavam com chave de ouro. Ah! se o resultado dessa festa toda, que apenas estava começando, fosse todo mundo que dela participa, se tornar gente mais consciente e comprometida com a causa das causas, o REINO DE DEUS! Maria se sentirá realmente honrada e feliz com a gente.
O fato é que eu achei aquilo tudo tão bonito, no meu sonho, que me animei a voltar nas outras oito noites da Novena e, sobretudo, no próprio dia 8, dia da Festa! Mas, quando pipocavam os fogos com a chegada da procissão e do belo andor da Santa, no dia 8, encerramento dos dez dias de festa, eu me acordei.
O fato é que, força desse sonho, eu subi hoje, ancho de esperança e curiosidade, para ver como estava o Morro. E qual não foi a minha surpresa! Sabem o que encontrei?... Tudo, menos o que no sonho eu vi. Em vez de 24 belas e fortes mensagens sobre a Mãe de Jesus, o que avistei foram mais de 20 balões com propaganda comercial. E Morro da Conceição, parecia mais o pátio do Shopping Recife ou do Shopping Tacaruna do que o Morro da Imaculada. Vejam só o que se lia nos balões, de par em par, de um lado e do outro:
<<QUALIFICAÇÃO NEESON CENTRAL CURSOS>> - <<JÚNIOR MAGAZINE – CLAÇADOS E CONFECÇÕES>> - <<FACULDADE IMACULADA CONCEIÇÃO DO RECIFE>> - <<PERNAMBUCO DO SABOR>> - <<FRICÇÕES>> - <<K KALDO – O SABOR DA FAMÍLIA>> - <<LOJA DO CONDOMÍNIO>> - <<AUTO ESCOLA PILOTO>> - <<FREITAS BETONEIRAS>> - <<SANTA CLARA (café!)>> - HONDA TENDA CONSÓRCIO>>.
Apenas duas bolas de interesse público: <<BOMBEIRO CIVIL>>, pois, me parece, que, até os dois com os dizeres da Prefeitura do Recife me pareciam mais, propaganda.
Pelo visto, tinha pra todo gosto. Do fundo da minha frustração, porém, emergem algumas perguntas:
- Dessa enxurrada de mensagens comerciais, o que sobra de evangelização, de revelação do Mistério de Maria, no seio do Mistério de Cristo e da Igreja?... Pelo menos, a partir do que enchia os olhos de quem chegava à Praça de N. S. da Conceição, no Morro, nestes dez dias da maior festa religiosa da região?...
- Será desse jeito que a Mãe de Jesus se tornará uma inspiração forte para a mudança de vida das pessoas e da sociedade?...
- Avessos à “Teologia da Libertação”, estarão promovendo a “Teologia da Prosperidade”, a mercantilização da religião, o aproveitamento comercial da religiosidade popular?...
- E essa enxurrada de missas, ao longo da novena, e, sobretudo, no dia da festa, estará servindo mesmo aos objetivos de uma Igreja Discípula-Missionária, à valorização da Eucaristia, à revelação da riqueza evangélica e evangelizadora da pessoa e do testemunho da Mãe do Senhor?... Ou estará sendo outra aberrante utilização mercantil do que há de mais sagrado na religião cristã, execrável banalização do que deveria ser o ponto culminante da vivência comunitária eclesial?...
Não sem razão, quase 30 anos depois de ter sido alijado da nascente Paróquia do Morro, ao sair pelas ruas do bairro, subindo ou descendo o Morro, continuamente, as pessoas que conheceram o estilo de Igreja e de Pastoral que aqui se tentou implementar, há quase 40 anos atrás, me abordam, emocionadas, para dizer-me, enfaticamente, de sua saudade daqueles tempos... Quando, inclusive, a paróquia não precisava vender nada, nem muito menos, se vender aos interesses do Mercado, mas os pequenos comerciantes informais podiam, esses sim, vender suas coisinhas e ganhar uma espécie de suado “décimo-terceiro”, para terminar o ano oferecendo algum mimo ou algum alívio a suas sofridas famílias.
Deus está vendo!
Reginaldo Veloso, presbítero leigo das CEBs
reginaldovelos937@gmail.com


segunda-feira, 4 de julho de 2016

A PAZ DOS CEM DIAS


 por Maria Clara Lucchetti Bingemer



            A expressão Guerra dos Cem Anos  identifica uma série de conflitos armados, registrados de forma intermitente, durante os séculos XIV e XV , envolvendo a França e a Inglaterra.  A longa duração desse conflito explica-se pelo grande poderio dos ingleses de um lado e a obstinada resistência francesa, do outro. Esta foi a primeira grande guerra europeia que provocou profundas transformações na vida econômica, social e política da Europa Ocidental. A França foi apoiada pela Escócia, Boêmia, Castela e Papado de Avinhão. A Inglaterra teve por aliados os flamengos, alemães e portugueses. A questão dinástica que desencadeou a chamada Guerra dos Cem Anosultrapassou o caráter feudal das rivalidades político-militares da Idade Média e marcou o teor dos futuros confrontos entre as grandes monarquias europeias.

            Além dos cem anos, temos os cem dias. Trata-se de um interregno governamental de Napoleão Bonaparte, mas que também esteve ligado a um conflito armado. O período conhecido como os Cem Dias (também chamado de Governo dos Cem Dias) marca o retorno do imperador francês Napoleão I ao poder, após sua fuga do exílio na ilha de Elba. Ele chegou a Paris em 20 de março de 1815. Determinados a removê-lo do trono de uma vez por todas, diversas potências europeias, como a Inglaterra, Rússia, Prússia e Áustria, formaram uma nova coalizão contra a França. A volta de Napoleão aconteceu ao mesmo tempo em que o Congresso de Viena estava em andamento. Em 13 de março, sete dias antes de o imperador francês marchar sobre a capital, os dignitários europeus em Viena declararam Bonaparte oficialmente fora da lei. A partir daquele momento, o horizonte do poderoso imperador foi o exílio, a Ilha de Santa Helena e a morte.

            Parece que há uma perigosa proximidade entre o número cem que conta o tempo e a guerra, nome institucional da violência que pode tomar diversas formas e em nosso país acontece de maneira especialmente cruel nas grandes cidades.  É aí que entra o outro olhar sobre os 100 dias, não mais de guerra, mas de paz. O cardeal do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, que criou o projeto "100 dias de paz", referindo-se aos 50 dias que antecedem as olimpíadas e aos outros 50 que a elas se seguem.

A Trégua Olímpica foi criada no século VIIII a.C., com o objetivo de estabelecer a paz na Grécia Antiga. Segundo a lenda, o rei grego foi avisado por um oráculo que para quebrar o ciclo de conflitos deveria ser feita uma competição atlética amistosa a cada quatro anos. Então, o rei propôs aos reinos próximos uma trégua, chamada de Ekecheiria, que em grego significa “dar as mãos”. Durante a trégua, atletas, artistas e suas famílias, bem como peregrinos comuns, poderiam viajar em total segurança para participar ou assistir aos Jogos Olímpicos e voltar mais tarde para seus respectivos países. Assim foram criados os primeiros Jogos Olímpicos, em 776 a.C. Originalmente a trégua começava sete dias antes dos Jogos e durava mais sete dias após, mas depois foi estendido para 50 dias antes e depois.

A tradição da trégua Olímpica foi mantida simbolicamente nos Jogos da era moderna, ressurgidos e idealizados pelo Barão de Coubertin, há pouco mais de cem anos. Sua relevância hoje é patente, sobretudo levando em conta o contexto global em que o esporte e os Jogos Olímpicos estão inseridos – de violência, insegurança, desconfiança e suspeitas constantes.  Por isso, o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu reviver o antigo conceito da Trégua Olímpica, com o objetivo de proteger, tanto quanto possível, os interesses dos atletas e do esporte em geral, e para incentivar a procura de paz e soluções diplomáticas para os conflitos ao redor do mundo.

A tradição da trégua olímpica já foi quebrada diversas vezes, ao longo desses anos, devido a duas guerras mundiais, diversos boicotes e dois ataques terroristas. No entanto, a Organização das Nações Unidas (ONU), desde 1993, passou a instituir a Trégua Olímpica ou os 100 dias de Paz para todas as edições dos Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno.

A Igreja Católica, que deseja ser, conforme diz o documento Gaudium et Spes, perita em humanidade, deseja somar-se a esses esforços pela construção de um mundo de paz, reforçando a contribuição do esporte nesse sentido. Por isso, tal como na Bíblia era proclamado pelo povo de Israel o Ano Jubilar, quando dívidas eram perdoadas e a terra descansada, somos agora convidados a cuidar com carinho da construção da paz no Rio, que se prepara para sediar os Jogos Olímpicos. 

É possível que ocorram críticas  sobre o processo e o desenrolar do certame.  Mas nunca se deve perder a esperança de que tal evento seja capaz de trazer alguma paz para nossa tão ferida e combalida cidade.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)

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