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segunda-feira, 26 de junho de 2023

RITA LEE : UM TALENTO EM FORMA DE MULHER


  Maria Clara Bingemer

            A luz dos cabelos ruivos e um par de olhos verdes foi subtraída de nossas retinas e sua voz de nossos ouvidos. Rita Lee partiu e faz o Brasil chorar de saudade.  Sobretudo as mulheres.  E por que o público em geral e muito especialmente o público feminino  tem esse carinho e essa paixão pela cantora que hoje nos deixou? 

            A primeira razão seguramente é seu talento. No momento em que o rock se firmava no Brasil, ela começou a brilhar como cantora e compositora. Foi a primeira mulher a liderar uma banda de rock.   Originalidade, humor, crítica de bom gosto eram a tônica de suas músicas e performances.  E além disso, graça, beleza, simpatia. Talento para dar e vender foi fazendo Rita Lee subir no gosto do público e ser líder de vendas de discos no tempo em que ainda se ouviam discos nas vitrolas. 

            A segunda razão é sua paixão libertária, de perfil rebelde e ruidoso.  Rita Lee não teve medo de nada e não deixou de defender nenhuma liberdade.  Pode-se não aderir a algumas bandeiras que a ruiva desfraldou ao longo da vida.  Mas não se pode deixar de respeitar a coerência com que viveu.  Por trás desse compromisso com tudo que fosse humano havia uma consistência ética inegável.  A roqueira enfrentou várias ditaduras: a dos costumes, a do pensamento, a do patriarcalismo e não menos, a militar.  

            Foi presa em casa, na Vila Madalena, por porte de maconha. Rita estava grávida e negou que a droga  fosse sua, pois como alegou à polícia, havia  parado de fumar devido à gravidez. 

      O período em que isso aconteceu, com o país em ditadura militar e mergulhado em um obscuro conservadorismo, colaborou para sua prisão.  Ela simbolizava tudo que era rejeitado pelo regime que vigorava então no país.  Hippies e roqueiros eram tratados como bandidos.  Além disso, Rita Lee simbolizava a liberdade de gênero  e a emancipação feminina.  Sua prisão era emblemática e  representou uma espécie de troféu.  Foi um momento difícil, agravado pela gravidez. Depois de passar  duas semanas na cadeia, a artista foi condenada a um ano de prisão domiciliar e multa de 50 salários-mínimos. Isso não impediu que continuasse com seu estilo crítico e irreverente, enfrentando todas as censuras e violências.  

            A terceira razão – e para o público feminino talvez a mais importante – é a genialidade com a qual introduziu pautas feministas em suas criações musicais.  Ao cantar a mulher, Rita Lee imortalizou afirmações que traziam um feminismo bem-humorado e verdadeiro para dentro dos lares e das vidas daquelas que viviam sob o tacão do machismo da sociedade. 

            Foi ela quem nos ensinou que “nem toda feiticeira é corcunda” em clara alusão à suspeita milenar que paira sobre as mulheres de serem bruxas, e que já levou muitas à fogueira. E que há mulheres – entre as quais a mesma Rita – que “é mais macho que muito homem”.  Anunciou em alto e bom som “ que um dia resolveu mudar e fazer tudo que queria fazer”. 

            Mas é na canção Cor de rosa choque que se encontram as mais belas verdades do pensamento desta mulher livre e talentosa sobre seu próprio gênero.  Ali ela diz que a mulher é um bicho esquisito,  que todo mês sangra e “tem um sexto sentido maior que a razão”. Desmitologizando a categorização do sexo feminino como sexo frágil, Rita afirmou que essa fragilidade toda não foge à luta homenageando assim todas as mulheres do Brasil e do mundo que cada dia se levantam ao mesmo tempo que o sol e saem em busca da vida para si e  os seus. Com ela, os dias de luta das Gatas Borralheiras teve fim, porque são Princesas, e Dondoca é uma espécie em extinção. 

            Em suma, nas composições da roqueira, o rosa bebê foi banido da paleta de cores femininas como a cor por excelência para significar a mulher, pálido e desbotado.  Se for rosa, é rosa choque.  Cor viva, pujante, provocante, que não aceita provocações machistas e conservadoras, assim como a própria Rita com seu rosto brejeiro de sorriso alegre, olhos verdes encimado por uma cabeleira ruiva que brilha como o sol. 

            O feminismo de Rita não é da primeira onda e não trava lutas antiéticas com os homens.  Pelo contrário, eles foram sempre muito benvindos em suas criações e em sua companhia.  Sua vida foi povoada intimamente por essa espécie chamada homem que, ao lado de uma mulher forte, pode dar toda a sua medida.  Testemunho disso é seu casamento de quase 50 anos com Roberto, companheiro na alegria e na tristeza, na saúde e quão dedicadamente na doença até o fim.  Assim como os três filhos Antônio, Beto e João. Alegre e encantadoramente, ela proclamou a liberdade da mulher e deixou uma marca original e particular na história do feminismo.  

            Mulher que não se enquadra nos padrões sociais mais conservadores, Rita foi sobretudo livre e alegre.  Seu legado é testemunho dessa liberdade e dessa alegria.  Seja de que credo for, de que proveniência, de que pertença, a liberdade é um dos pontos identitários mais constitutivos e dignos do ser humano.  A vida de Rita foi toda ela um canto à liberdade.  A alegria que vivia e espalhava ao seu redor era um dom cuja fonte mais originária é o Espírito que sopra sobre a argila e cria a vida. 

      Agora Rita vive a plenitude dessa liberdade e a alegria sem limites.  Sua vida foi plena e bonita.  Sua morte é sentida com saudades.  Seu legado permanece.  Em todo lugar onde se cantar a justiça e a liberdade, sua presença ali estará,  fazendo “um monte de gente feliz”. 

 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Crônicas de cá e de lá (Edições Subiaco), entre outros livros.

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

segunda-feira, 12 de junho de 2023

ECOTEOLOGIA: A TEOLOGIA PENSA O PLANETA

  Maria Clara Bingemer


 

A ecoteologia  pretende ser uma reflexão que se faz a partir da revelação e da fé e da metalinguagem por ambas gerada, que é a teologia. A crítica moderna e secular às religiões monoteístas denunciou a crise ecológica. Tal crítica atingiu todas as ciências e muito especialmente a teologia. 

O cristianismo e seu discurso teológico foram acusados de haver promovido uma série de atitudes prejudiciais à natureza. Assim também foi a teologia cristã, denunciada como sendo antropocêntrica, vendo e valorizando apenas o ser humano, desconsiderando os outros seres vivos que povoam o planeta e a terra que é casa comum  de todos. 

A ecoteologia surge como tentativa de resposta a esta crítica, resultando em tarefa construtiva que faz uma leitura ao mesmo tempo crítica e positiva das escrituras judaicas e cristãs quanto às questões ambientais. 

Ao longo da história predominou na tradição judaica e cristã uma visão marcada pelo dualismo entre o céu e a terra, que gerou por sua vez uma visão de mundo e também uma visão de Deus. Baseia-se na separação estanque entre o que está acima - invisível, transcendente, sobrenatural - e o que está abaixo - palpável, imanente, natural. O que está acima é superior e deve reger o que está abaixo. 

Esse dualismo tem várias consequências.  Uma delas é o antropocentrismo. O mandato de “dominar a terra” que o livro do Gênesis (Gênesis 1.28) relata em palavras do Deus Criador dirigido à criatura recentemente moldada em barro e animada com o sopro da vida divina sofreu muitas interpretações em toda a tradição cristã. Mas uma delas prevaleceu, tendendo a interpretar a orientação divina no sentido de uma atitude de domínio arrogante do ser humano sobre a natureza, em nome do Criador.

Esta interpretação, no entanto, pertence a uma tendência entre tantas outras, apresentando uma visão antropocêntrica com conotações predatórias em relação à natureza.  Ultimamente outras tendências contestaram esse antropocentrismo de conquista, sobretudo com o crescimento da consciência ecológica. Introduziu-se uma perspectiva contemplativa na identidade do mundo criado, considerando-o como casa a ser cuidada, amada e respeitada, além de sacramento de Deus e espaço de salvação. A Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco de 2015 é como um marco nesse processo. 

A interpretação do mandato genesíaco na direção de uma primazia absoluta e ilimitada do homem sobre a natureza teve, porém, outras consequências, como a suspeita de uma concepção erroneamente individualista do ser humano, aliada a um determinismo econômico e tecnológico onipotente e prepotente.  E acima de tudo conduziu a uma visão da natureza, da terra, do cosmos separados do ser humano, cindindo assim a Criação de Deus. O humano passou a ver a natureza como um inimigo a ser conquistado e destruído impunemente em nome de um progresso e enriquecimento vorazes e ilícitos. A luta do ser humano pela vida foi então transformada em ameaçador e agressivo instinto de morte que pesa sobre todas as outras formas de vida.

Na verdade, a revelação de Deus nas escrituras o apresenta como criador e ardente amante da vida. O relato da criação demonstra um carinho e cuidado desvelados do Criador para com a terra. Além de iluminá-la com os luzeiros do firmamento, Ele a povoa de vida, em imensa diversidade de formas e espécies. A imagem que sobressai da terra na história do Gênesis é, portanto,  a de sede e mãe da vida. Seu grande corpo é hospedeiro e gerador da vida.  De seu útero brotam todos os seres vivos, incluindo os humanos, todos feitos de sua substância. Feitos da terra, animados pelo espírito de Deus, somos isso: corpos animados pelo sopro divino. 

A partir daí, alguns temas se destacam para um pensar  ecoteológico.  Por exemplo, a concepção de que viver é necessariamente conviver. O ser humano não reina no universo à parte dos outros seres vivos.  Mas é criado a partir da pluralidade e convidado à convivência. E essa convivência diz respeito não apenas a seus semelhantes em humanidade, mas a todos os seres vivos. Tudo está interligado, tudo e todos são interdependentes.  Não há vida possível no isolamento de si mesmo ou do outro.  A vida, para existir, necessita ser um com- viver, uma com-vivência. 

Com relação à ética que decorre desta ecoteologia, a atitude humana e cristã fundamental que emerge é a do cuidado. O ser humano não está na criação para dominar a terra e conquistá-la.  Nem para buscar seu próprio proveito em detrimento das outras formas de vida que nela existem.  Está aí como responsável pela vida.  E, portanto, sua atitude deve ser de cuidado, proteção, cultivo e desenvolvimento da vida sob todas as suas formas e configurações. Toda vida importa, toda vida deve ser cuidada, mesmo a mais frágil e insignificante. 

Aparece também com clareza  a conexão entre consciência ecológica e prática da justiça. O esforço para restaurar relações harmoniosas entre a humanidade e o cosmos requer a superação de certos conceitos deterministas, individualistas e econômicos. Chama igualmente a recuperar uma noção de vida tão presente nas culturas dos povos originários, que veem o cosmos como epifania cheia de significado e manifestação de mistério. A contemplação do mistério do cosmos não deve ser vista como preocupação ascética ou estética nascida apenas do ócio, mas como a expressão de uma preocupação ética primordial: o cosmos deve ser devolvido aos homens e mulheres que foram despojados do que era seu e do que ali lhes pertencia. Esta restituição acompanha a luta para dar pão aos famintos, abrigo aos sem-abrigo, água aos sedentos. Tudo isto é um gesto salvífico, pois implica devolver o mundo criado a todos aqueles que dele foram expropriados.

 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e escritora, autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: Entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros. 

 Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

sábado, 1 de abril de 2023

A FOME DO OUTRO: PROBLEMA ESPIRITUAL


      Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Como em todos os anos, a Igreja Católica no Brasil lança a Campanha da Fraternidade por ocasião da Quaresma. Nesse tempo em que os cristãos são convocados a converter-se e preparar-se para celebrar o mistério pascal de Jesus, centro da sua fé, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lança um alerta, um apelo.  Escolhe um tema candente e desafiante para  os quarenta dias que precedem a Páscoa. 

            Este ano o tema é a fome.  A fome que rói as entranhas.  Aquela que impede de pensar e de viver. A fome que atormenta famílias inteiras, cujas crianças sofrem o flagelo da desnutrição.  E por que a fome?  Porque o Brasil voltou a seu macabro mapa. Mais de 30 milhões de brasileiros não têm o que comer.  Ainda que surpreenda, ainda que estarreça em um país com tantos recursos naturais, com uma agricultura pujante, essa é a realidade. Muitos brasileiros passam fome.  E entre esses, não poucos são vitimados e morrem de desnutrição e insegurança alimentar. 

            Perguntarão alguns: mas por que a Igreja tem que se ocupar com este problema, que é econômico, social? Não é uma questão religiosa.   Isso deveria ser pauta dos governos em todos os níveis, inclusive das universidades.  Por que a Igreja situa em seu centro de atenções no tempo litúrgico mais importante do ano esse problema tão material? Não deveria propor algo que toque mais de perto o espírito, a vida de oração, o crescimento devocional de seus fiéis?

            Acontece que a fome é, sim, um problema espiritual.  E dos mais importantes.  Porque está diretamente conectado à vida.  Sem comer, não se vive.  E o Deus que Jesus de Nazaré veio anunciar e chamou de Pai é o Deus da vida.  Tudo que deseja é que seus filhos amados tenham vida em abundância.  A fome portanto é uma agressão das mais  violentas ao projeto de Deus, o Reino da justiça, da paz e do amor. Por isso, a CNBB convoca  todos os cristãos a se responsabilizarem diante deste flagelo que voltou a crescer no país.  

            Os bispos do Brasil, portanto, com a Campanha da Fraternidade 2023 são claros em sua proposta: a fome não é um problema alheio a Deus, à fé e à religião.  Pelo contrário, está no centro da vida e do projeto de Jesus e de todos aqueles e aquelas que nele creem.  Como diz o grande pensador ortodoxo Nikolai Berdiaev: “Se eu tenho fome é um problema biológico.  Se o meu irmão tem fome, é um problema espiritual” .

            A Igreja deseja despertar os sentidos, a cabeça e o coração de todos para uma situação que não pode ser tratada com indiferença e considerada normal.  O fato de uma pessoa, criatura de Deus, passar fome e não ter o que comer; ter que ir para os fundos dos açougues esperando encontrar algum osso para dar a sua família; ter que revirar latas de lixo como os ratos para encontrar sobras das mesas fartas, não pode ser tratado com um dar de ombros indiferente, como se não fosse problema meu.  

            O grande escritor brasileiro Fernando Sabino escreveu uma memorável crônica  - Notícia de jornal - sobre um homem que passava fome na rua e ali acabou morrendo sem receber o socorro de ninguém. 

“ Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.  Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? O que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.“

A Igreja do Brasil não quer que isso aconteça.  E mais: deseja dizer aos cristãos que isso não pode acontecer.  Nunca.  A fome do outro é problema meu, nosso.  Por isso, como lema da Campanha da Fraternidade temos a bela frase do Evangelho de Marcos que narra a multiplicação dos pães: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.  

Jesus viu a multidão faminta e compadeceu-se dela.  Os discípulos argumentavam que era melhor mandar todos embora, que não tinham dinheiro para comprar comida.  O Mestre disse, então, que o que tinham pusessem em comum.  E afirma o evangelho que todos comeram e ficaram saciados.  

Não há que delegar, terceirizar, responsabilizar os outros.  Dizer que isso é problema da prefeitura, do governo do estado, da presidência da República.  “Dai-lhes vós mesmos de comer”. A fome do outro é um problema espiritual e ao mesmo tempo um mandato.  Quem tem fome não pode esperar.  Precisa ser alimentado. E se eu me deparei com alguém com fome, sou eu que devo dar-lhe de comer, repartindo o que é meu para que todos sejam saciados. 

 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Pátria fraturada

                     

Maria Clara Bingemer


 

As eleições terminaram e o resultado foi reconhecido inclusive internacionalmente. Mas aqui na Pátria amada esse reconhecimento se viu ameaçado desde o dia seguinte pelas manifestações insólitas de grupos expressivos de pessoas que não aceitavam a derrota e abraçavam caminhões, se reuniam sob chuva intensa  diante dos quartéis, clamavam por seres extra terrestres.  Também rezavam.  Desde terço até cantos carismáticos.  De tudo havia para sublinhar o soturno inconformismo com o resultado democrático das urnas. 

Depois veio a festa da posse do candidato eleito.  E metade do Brasil respirou.  Não apenas pelo acontecimento em si, mas pela beleza da diversidade do país sendo exposta sem medo, acolhida, celebrada, cantada e dançada.  Foi bonito, digno e confortador para os que ali viam seu voto representado e respeitado.  Pensavam que, enfim, iam acabar os dias tensos e sombrios, com  ameaças pairando constantemente por todos os lados e a frágil democracia ainda em perigo. Agora era realidade.  Tínhamos novo governo e toda a riqueza da nossa diversidade estava representada nos muitos ministérios que prometiam erguer o Brasil do poço profundo onde fora mergulhado nos últimos anos. 

Mas veio o dia 8 de janeiro.  Eu almoçava com uma amiga muito querida e festejava seu aniversário.  À mesa havia vitoriosos e derrotados nas urnas.  Reinava, porém, respeito e harmonia.  Ao voltar para casa, recebi um telefonema da aniversariante: “Estão quebrando Brasília.  Liga a CBN.”  Incrédula, liguei. E ouvi o que parecia impossível. Começaram a chegar as notícias alarmantes e assustadoras.  O Brasil depredando a si mesmo em uma violência sem sentido nem propósito.  As instituições agredidas, os poderes enxovalhados, a pátria fraturada e dolorida.

Presidente presente e enérgico, medidas tomadas, prisões etc. O evento em si foi aparentemente superado. No entanto, a fratura foi grave, exposta e ainda não calcificou.  Os acontecimentos do dia 8 de janeiro mostram um Brasil dividido e que não conseguiu unificar-se em torno da democracia legitimamente constituída. O clima, que devia ser de entusiasmo e alegria pelo novo momento que o país começa a viver, mostra-se tímido como se temendo que uma nova calamidade venha a se abater sobre a recém reconstruída democracia. 

A pátria está dividida e – o que é pior – aparentemente sem desejo de reconciliação e busca pela unidade. Mais: sem esperança que tal unidade – que inclui e deseja a diversidade – algum dia possa vir a acontecer. 

Como agravante dessa fratura visibilizou-se diante de nossos olhos chocados a tragédia do povo yanomami.  As imagens dos corpos profanados pela incúria e a ganância recordavam outras tragédias e genocídios da história da humanidade, como Auschwitz, Biafra etc. Pátria fraturada, pátria desnutrida, pátria profanada. 

No entanto, ouvir os povos originários serem defendidos pela voz de uma ministra que pertence a uma de suas etnias acende uma esperança.  Igualmente sentir que se o cruel desmatamento cessar ou diminuir consideravelmente a floresta poderá ser salva e seus povos poderão dela retomar posse.

Não se pode deixar de esperar.  Apesar da fratura, apesar da divisão, apesar das iniquidades. Curar a pátria fraturada, soldar seus ossos quebrados, sanar suas feridas é responsabilidade de todos hoje.  E isso pode dar-se pela intransigente defesa da democracia, pela insistência em promover o diálogo, pelo acolhimento das diferenças e a atenção a todas as vítimas.  

Nunca talvez se fez tão necessária a cultura do encontro a que tanto convida o Papa Francisco.  Em seus dez anos de pontificado, o Brasil lhe daria um bom presente se buscasse o óleo da tolerância e da abertura para ungir fraturas e feridas, a fim de devolver ao povo sua identidade e seu rosto feito de alegria e confiança em dias melhores. 

 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: Entre o viver e o contar” (Editora Paulinas) , entre outros livros.

 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

BENTO XVI: AS SURPRESAS DE UM PAPA

 

Maria Clara Bingemer


 

     Talvez seja um pouco tardia esta reflexão sobre o Papa Bento XVI já mais de dez dias após sua morte.  Outras preocupações tomam o lugar do tempo do luto mais próximo do falecimento do pontífice que governou a Igreja Católica por oito anos e depois permaneceu em Roma como Papa Emérito até o último dia 31 de dezembro de 2022.  O cenário nacional fervilha com as últimas ameaças à democracia e parece não haver outro assunto.  No entanto, me parece que a figura do falecido é por demais importante para não trazer alguma reflexão sobre sua pessoa. 

   Por isso mesmo, porque tantas coisas importantes – positivas e críticas – foram ditas e escritas, atenho-me ao que foi essencial de meu contato com o teólogo Ratzinger, em cujos livros li e estudei durante minha graduação em Teologia, e com aquele que se tornou sucessor de João Paulo II em 2005.  

    Quando foi anunciada sua eleição pelo cardeal camerlengo em 2005, confesso que tinha sentimentos não muito claros por dentro. Por um lado, compreendia que o conclave o tivesse eleito, era o colaborador mais próximo do papa polonês, o teólogo e pensador refinado, o homem culto que presidia a Pontifícia Comissão para a Doutrina da Fé.  No entanto, pude conhecer de perto igualmente sua atuação à frente desta comissão e minha impressão era de uma certa perplexidade diante de algumas punições e restrições impostas a teólogos que eu conhecia bem de perto e cuja fé profunda e o rigor teológico admirava. Os dois lados se fizeram sentir naquele momento em que a Igreja, após 26 anos do governo de João Paulo II, esperava ventos novos. 

Dos oito anos em  que reinou Bento XVI lembro-me de vários momentos em que surpreendeu positivamente : a reconciliação com a Companhia de Jesus, que havia recebido intervenção do antecessor João Paulo II, coisa que tanto fizera sofrer o querido padre Arrupe; o belo texto da primeira encíclica, Deus caritas est, onde o intelectual refinado que era Bento XVI não temia dialogar inclusive com Nietzche, o filósofo tão crítico do cristianismo; a oração pungente em Auschwitz que se lançava de encontro ao silêncio de Deus.  Haveria outras, muitas mais a mencionar. 

Desejo destacar duas ocasiões que me parecem centrais para compreender por que vejo Bento XVI como alguém surpreendente.

A primeira foi sua vinda ao Brasil para abrir a Conferência de Aparecida, em 2007.  Havia um ambiente de desconforto e temor entre muitos que trabalhavam e participavam do evento.  A Conferência de Santo Domingo, em 1992, havia sido difícil e penosa.  O documento final quase não foi escrito e divulgado.  Graças a circunstâncias várias, entre elas o gênio e a santidade de Dom Luciano Mendes de Almeida, houve um documento com pontos positivos, mas que parecia não levar em conta o sopro profético das conferências de Medellín e Puebla, como a centralidade da opção pelos pobres. Temia-se o que poderia dizer Bento XVI. Se o Papa, no discurso de abertura, pronunciasse uma clara condenação da teologia da libertação, que tinha como centro a opção pelos pobres, seria realmente muito triste para a caminhada da Igreja latino-americana. 

O Papa falou.  Declarou que a fé nos liberta do isolamento e nos conduz à comunhão com Deus e com os irmãos, implicando responsabilidade para com o outro.  E continuou.  Cito literalmente pela importância que reside nesta frase que mudou completamente o panorama da V Conferência, em Aparecida: “Neste sentido, a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza (cf. 2 Co 8, 9).”

A partir daquele momento encerravam-se as discussões sobre se a opção pelos pobres seria realmente teológica ou, ao contrário, apenas um subproduto de um marxismo mal compreendido. 

A alguns não caiu bem a afirmação do Papa. Chegaram a retirar-se da conferência.   Para muitos de nós que ali estávamos foi uma lufada de ar fresco e uma injeção de ânimo. Aparecida retomou a questão dos pobres, dando-lhe a centralidade devida, e produziu um documento que voltava a trazer esperança para a Igreja do continente. 

Em 2012, encontrava-me em Chicago conversando com o grande amigo e teólogo maior David Tracy.  Meio abruptamente ele me perguntou: “Você acha que o Papa vai renunciar?”  Surpreendida, disse que jamais havia passado por minha cabeça esta ideia.  David me explicou o porquê de suas suspeitas e sua argumentação não me convenceu.   De Chicago viajei a Roma. Fora convidada a apresentar, ao lado do Cardeal Ravasi e de outros teólogos e editores, o livro de Bento XVI sobre a Infância de Jesus.  Após a apresentação, fomos todos  cumprimentar o autor.  Bento XVI nos recebeu sorridente e alegre com o lançamento do livro.  Ao cumprimentá-lo disse-lhe, referindo-me à Jornada Mundial da Juventude que teria lugar no Rio de Janeiro, em julho de 2013: “Nós o esperamos no próximo ano, no Rio.”  Ao que ele respondeu com um meio sorriso: “Se Deus me der saúde...”

No dia 8 de fevereiro de 2013, uma jornalista da Globo News me chamou ao telefone às 8 horas da manhã.  Era segunda feira de Carnaval.  Ouvi do outro lado a seguinte pergunta: “Professora, pode falar algo sobre a renúncia do Papa?” A notícia me deixou perplexa.  Pedi uma hora para inteirar-me e liguei a televisão.  Os olhos do mundo inteiro estavam voltados para Roma e o gesto histórico da renúncia do Pontífice.

O resto é história.  O papa Ratzinger explicou ao mundo as razões de sua renúncia.  À medida que o ouvia e lia, sentia crescendo em mim, juntamente com a surpresa,  admiração por ele.  É muito difícil retirar-se quando se vê que chegou o momento.  O papa bávaro o fez com elegância e firmeza. 

Seu corajoso gesto abriu o caminho para a primavera de Francisco, iniciada pouco mais de um mês depois, em 13 de março de 2013.   Este segue o caminho das surpresas, embora de forma bem diferente de seu antecessor.   Que o Papa Bento descanse em paz e Francisco continue nos surpreendendo ainda por bastante tempo. 

 

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Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Santidade: chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

OS SINAIS DE QUEM VEM



       
Maria Clara Bingemer

 

            Que ano duro e difícil para o povo brasileiro, esse 2022 que se aproxima do fim.  Quanta angústia, quanta dor, quanto medo vivido, quanta ansiedade reprimida. Após dois anos de uma pandemia que a todos confinou e tantas perdas dolorosas gerou, parecia que no início do ano anunciava-se uma trégua.  As vacinas existiam e estavam disponíveis, muitos as tomamos, sentíamo-nos protegidos. 

            Porém nesse momento a “outra” pandemia – ou seria a mais real de todas, a única que realmente existiu? – mostrou seu rosto sombrio.  E a política polarizada e enraivecida dividiu o país e o povo, rompendo relações e instaurando um clima ameaçador no cotidiano dos brasileiros.  A inflação, a subida dos preços, as dificuldades muitas de cada dia pareciam pequenas, menores, diante da terrível perspectiva de que poderíamos ser obrigados a viver mais alguns anos de opressão, impiedade e violência.  E talvez, com mais tempo pela frente, essa desolação maior se instalasse e permanecesse roubando-nos para sempre a alegria.  

            A eleição aconteceu e parecia que a vitória acontecida exorcizava os fantasmas.  No entanto, o que se vive agora, neste tempo posterior às urnas, continua a ser obscurecido e ameaçado por manifestações que bloqueiam estradas, impedem o direito de ir e vir, decretam que filhas não podem dar o último abraço à mãe que está morrendo em hospital distante; bloqueiam a ida de um jovem à rodoviária para tomar o ônibus que o levaria à cirurgia que lhe devolveria a visão.

            Grupos revestidos com a bandeira brasileira se aglomeram diante de quartéis ou em plena rua, pedindo a intervenção militar em nome da democracia.  O nome de Deus é invocado a cada momento, seja ao lado de outras palavras de ordem como pátria e família, seja simbolizado em celulares postos no alto de cabeças na absurda intenção de comunicar-se com seres extraterrestres para que concedam a graça do estado de exceção em nome da liberdade. 

            Tudo isso leva a desejar mais ardentemente que venha o que se espera: a paz, a vida em abundância, a alegria.  E a buscar ansiosamente sinais desse estado de coisas, por mínimos que sejam. Porém, em meio a essa sagrada busca notícias de partidas abruptas de seres admirados e amados por todos, que ajudaram a dar ao Brasil sua identidade, trazem outra vez a dor:  Gal Costa, a baiana linda de cabelos negros e cacheados, boca vermelha e voz afinada cai fulminada por um infarto em sua casa.  Erasmo Carlos, o gigante gentil, o tremendão amado que embalou juventudes e brasileiros de todas as idades, é derrubado por uma doença já instalada em seu corpo e diz adeus. 

            Como  viver o Advento nesse clima em que parece que nada vem e tudo se vai.  Vai-se o bem-estar, o sentir-se livre, as referências afetivas.  E o vazio parece instalar-se com ares sombrios de quem veio para ficar.  E, no entanto, uma vez mais, somos chamados a voltar-nos para a espera de quem vem.  De quem disse que vinha e fielmente vem a cada ano, porque na verdade já veio na história humana há mais de dois mil anos.  E vem a cada dia para todo homem e mulher que seja capaz de abertura ao mistério e esteja em busca do sentido maior da vida. 

            A poesia de mais um artista que graças a Deus se encontra vivo entre nós – Alceu Valença – nomeia a expectativa que insiste em habitar-nos, apesar de todos os percalços, as trevas e o medo. 

Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais

            Como podemos crer nisso?  Como, se tudo ao nosso redor parece desmentir a existência desses sinais e dessa vinda. Como se não enxergamos sinal algum?  E, no entanto, a voz do anjo sussurrou a uma jovem que ela seria mãe do Salvador.

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais

Na casa de uma jovem moça em Nazaré da Galileia, o mensageiro de Deus chegou dizendo notícias de começos e boas novas.  A voz do anjo sussurrou ao ouvido de Maria, noiva de José o carpinteiro.  E ela, embora perplexa, acreditou e se dispôs a ser a serva do Senhor e a tornar-se morada de Sua Palavra. Escutando os sinais que o anjo trouxe, seu corpo engravidou do mistério que anuncia que Deus não se esqueceu da humanidade e uma vez mais foi fiel a seu povo.  

Por isso, hoje nosso povo está convidado a escutar esses sinais prenhes de esperança.  O anjo sussurra e convoca a estar atentos aos sinais da chegada de quem traz uma vez mais a todos o amor, a união e a paz. Escutar esses sinais é acreditar. 

Que tu virias numa manhã de domingo. 

             Os sinais trazidos pelo mensageiro da alegria e pelo ventre grávido da jovem mãe nos convidam com firmeza e delicadeza a crer, acolher e anunciar sua vinda por cima dos telhados, no fundo dos poços, nos grotões da miséria, no aconchego das casas e nos sinos das catedrais. 


          Eu te anuncio nos sinos das catedrais.

 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Crônicas de cá e de lá ( Editora Subiaco), entre outros livros.

 

 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

VOTANDO COM SENTIDO

Maria Clara Bingemer


 

            Acordei na segunda feira, 31 de outubro de 2022, com  a sensação de espanto e a surpresa dos sobreviventes. As eleições haviam acontecido e o Brasil tinha novo Presidente.  O ar parecia mais puro e era possível respirar.  O medo se fazia longínquo e a vida retomava seu curso.  Lula era o presidente. 

            O tempo que precedeu esta segunda-feira foi de muita dor. O estresse era geral e agudo.  As pessoas viviam tensas  e  amedrontadas.  E de que tinham medo?  Que o pesadelo que já durava quatro anos continuasse.  E seguisse.  E se perpetuasse.  

            As mensagens de ódio e violência se sucediam na internet, amigos rompiam relações, familiares se afastavam.  A divisão – sinal claro e inequívoco segundo a Bíblia cristã do sufocamento do Espírito da paz, da alegria e do amor – reinava impune, separando, fragmentando e destruindo. 

            Na véspera do pleito, o fôlego e o alento eram artigos raros, luxo para poucos.  A ansiedade fazia o ar espesso e irrespirável.  Nada parecia fazer sentido na angústia de não dar certo o imenso esforço de tantos para superar o momento vivido que se arrastava. O horizonte em vez de aproximar-se, fazia-se mais distante e fugidio. O desânimo se agigantava e crescia a letargia que não permitia esboçar sequer um gesto, um suspiro, pronunciar uma palavra. 

À noite, decidida a tentar dormir, fui olhar pela última vez o computador. Ali tudo mudou.  Li as palavras: “Honre os mortos com seu voto”.  “Vote por eles e por elas”.  “680 mil pessoas não são um número.” E tudo começou a fazer sentido. Não, não era possível que tudo aquilo tivesse sido em vão.  Não era possível que o desprezo  e o pouco caso que foi cuspido em cima da dor de mães, de filhos e filhas, de irmãos e irmãs, pudessem vencer.  Não era possível que os mortos que não puderam ser chorados e homenageados permanecessem insepultos e que sua memória fosse uma e outra vez pisoteada e escarnecida pela insensibilidade cruel que tomou conta do país durante e após a pandemia, ceifando, além de vidas, a dignidade e a honradez dos sobreviventes. 

O que foi dito ao profeta Ezequiel diante dos ossos ressequidos em que se tinha transformado a casa de Israel enquanto atravessava o exílio foi repetido a meus ouvidos: “Filho do homem, poderiam esses ossos retornar à vida?”  Sentia-me tão desprovida de fé quanto o profeta, mas a pergunta era insistente. E o coração escutava mais que os ouvidos. 

Foi então que aconteceu uma profunda comunhão.  Eu não estava mais sozinha, debatendo-me com um voto em cuja eficácia não acreditava.  Comigo estavam eles e elas.  O padre jovem e dedicado, colega de docência, que morreu logo no começo da pandemia porque não abriu mão de distribuir alimento para os pobres de sua paróquia.  A mãe da amiga que disse à filha na porta do hospital “Fala para seu pai não se preocupar não.  Já já volto para casa”.  E nunca mais foi vista nem ouvida pelo esposo desolado e pela filha em prantos.  A menina de 15 anos que a televisão mostrou em foto, ao mesmo tempo em que revelava o desespero dos pais ao saber que não havia resistido ao vírus. 

Estavam igualmente os médicos cuja face já fazia uma unidade indissolúvel com a máscara cirúrgica e que, às vezes,  não suportavam e choravam.  Ou caíam doentes eles também. E eram levados junto a seus pacientes para o misterioso país das lágrimas, deixando atrás o grito de dor e o desespero impotente dos seres queridos. Estavam todos, uns e outros, eles e elas.

E os que queriam abrir os caixões, os que se debruçavam sobre eles, fechados sobre os rostos amados.  E os que sufocavam em Manaus enquanto o oxigênio não chegava.  E os que se deitavam no chão das enfermarias porque leitos não mais havia.

E a enfermeira Mônica, que qual nova Eva, deu à luz a esperança, filha menor do Bom Deus ao receber em seu braço a primeira picada salvadora da vacina graças à teimosia de um governador que enfrentou as forças do mal.  

Votar por eles e por elas.  Com eles e com elas.  Isso tinha sentido, fazia todo sentido. Realizar o gesto de pressionar a tecla que se uniria a tantas outras e que significaria o fim da barbárie e a nova estação da liberdade e do cuidado com a vida. Os mortos não eram destinados à cova escura  como pretendia o discurso abominável de quem os tratou com desdém e frieza.  Estavam vivos e eram multidão.  Eles ganharam essa eleição.  O Brasil nunca poderá pagar a dívida que com eles contraiu. 

O Deus da vida que permitiu aos ossos dos israelitas exilados readquirir força e vigor fez ouvir sua voz e sentir a força de seu braço no Brasil.  “ Ó meu povo, vou abrir os vossos túmulos;...Sabereis, então, que eu é que sou o Senhor, ó meu povo, quando eu abrir os vossos túmulos e vos fizer sair deles, quando eu colocar em vós o meu espírito para vos fazer voltar à vida...”

Com todos esses filhos do povo brasileiro, votamos com sentido.  Que o Senhor da vida nos permita, a partir de agora, viver com sentido, experimentando em nossa boca o agridoce sabor da liberdade e reconstruir a memória e a alma desta combalida nação. 

 

                                                           

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora

de O protagonismo dos leigos na evangelização atual (Ed. Paulinas), entre outros livros.


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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
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