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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O PAPA FRANCISCO E A LUTA PELA PALAVRA 02




Por Eduardo Hoornaert.

A luta do Papa Francisco por uma palavra evangélica merece ser situada diante de um amplo horizonte histórico. Assim se percebe melhor sua importância. Neste segundo texto acerca da ‘luta pela palavra’, regrido ao século II dC, uma época bem próxima à vida de Jesus, para mostrar que ali já se trava um embate em torno da palavra, algo que tem a ver com a atual luta do Papa Francisco. Embora se possa dizer que toda a história do cristianismo, de certo modo, é uma luta pela palavra evangélica e que a tradição de Jesus, nesse particular, atravessa uma história de sucessos e fracassos, fidelidades e traições, equívocos e acertos, temos de reconhecer que alguns episódios são particularmente significativos. São encruzilhadas. Posições assumidas por muito tempo podem ser abandonadas, novos caminhos trilhados. O Papa Francisco está numa dessas encruzilhadas. Enfim, o que acontece nestes dias na cúpula da igreja católica pode mudar o curso da igreja católica em pontos importantes.

A luta pela Palavra nos inícios do movimento de Jesus.

Os atuais debates em torno do Papa Francisco ganham mais nitidez quando consideramos determinados textos das origens do cristianismo. Quando, por exemplo, voltamos a atenção a textos como o Evangelho de João, que já conserva traços de uma luta pela palavra no seio dos grupos de discípulos na Ásia Menor, apenas 70 anos após a morte de Jesus. Escrito por volta do ano 100, esse evangelho trata de um tema que voltará frequentemente na história do cristianismo, um tema que diferencia o cristianismo dos demais movimentos religiosos da época: o Espírito Santo.

Os evangelhos sinóticos (Marcos dos anos 70, Lucas e Mateus dos anos 80) mencionam também o papel do Espírito Santo na vida de Jesus e se seus discípulos, mas com um realce menor que o de João, que é categórico: o movimento de Jesus é um movimento impulsionado pelo Espírito Santo. O texto fundamental, aqui, narra uma conversa entre Jesus e fariseu Nicodemos, que lemos no capítulo 3 do Evangelho de João. Após desnortear seu interlocutor com considerações aparentemente contraditórias (nascer de novo, etc.), Jesus diz ao fariseu perplexo: o Espírito sopra onde quer. Igual ao vento. Aqui há um eco do Evangelho de Marcos, onde se narra, na nos primeiros versículos do primeiro capítulo, que Jesus, ao subir das águas do Jordão, é imediatamente impulsionado pelo Espírito Santo ao deserto, para um embate de quarenta dias com o Adversário. O Espírito sopra onde quer e leva Jesus para onde quer. No Evangelho de João, quando se aproxima o fim de Jesus, o Espírito Santo aparece como o sustento da comunidade em situações angustiantes. Jesus diz: ele será o ‘Defensor’ (o texto usa o termo ‘Paráclito’) dos discípulos, nas investidas do Adversário que se aproximam: Rogarei ao Pai e ele lhes dará um Defensor a permanecer para sempre com vocês (14, 16); Mas o Defensor lhes ensinará tudo e recordará tudo que eu lhes disse (14, 26); O Espírito da verdade dará testemunho de mim. E vocês também darão testemunho (15, 26); É do interesse de vocês que eu vá embora: pois se não for o Defensor virá a vocês (Jo 16, 7);Quando vier o Espírito da Verdade, ele os conduzirá à plena verdade (16, 13). Jesus confia o futuro do movimento ao Espírito Santo, que ensinará tudo, recordará tudo que eu lhes disse. Podemos dizer que o cristianismo é o Espírito Santo em ação.

É a partir de afirmações tão fortes que teólogos do século II, como Ireneu (ca. 130-202) e Tertuliano (160-220), entendem que o Espírito Santo é ‘unius substantiae’ (da mesma substância) do Filho Jesus, ‘igual ao Filho’ (palavras de Tertuliano em seu escrito ‘Contra Práxeas’). Não há nada, na história do cristianismo, que se compare a esse reconhecimento: o Espírito Santo faz parte da divindade. Isso significa que Deus age que nem um vento ‘que sopra onde quer’. Não há como captar o cristianismo em regulamentos doutrinários e morais. Ele escapa sempre, como o vento, e abre um campo de liberdade, criatividade, inovação, ação revolucionária, profetismo. O Defensor quebra paradigmas universalmente em vigor, derruba cânones e regulamentos, abre horizontes de liberdade. Com ele, o profetismo cristão entra na lista dos movimentos revolucionários, a sacudir a inércia, causar perturbação e insegurança nos que procuram canalizar o movimento de Jesus. Tertuliano, no final do século II, expressa essa ideia com palavras lapidares: ‘quem expulsa a profecia, afugenta o Paráclito’ (prophetiam expullit, Paracletum fugavit).

Com essas considerações abrimos o rol de inúmeras tensões e frequentes conflitos que marcam a história do cristianismo. Aqui, no intuito de reforçar a importância da atual luta do Papa Francisco, comento dois episódios marcantes do século II dC: o caso de Marcião e o caso de Montano, ambos considerados em torno do tema da luta pela Palavra do Espírito Santo.

A palavra do Espírito Santo: Marcião.

O caso de Marcião, ocorrido entre 120 e 144 dC, ilustra bem o que acabo de escrever. Conto brevemente a história, mas antes advirto: toda a documentação disponível em torno de Marcião está imbuída de um forte teor de repulsa diante daquele que será, por longos séculos, considerado o ‘pai dos hereges’, o primeiro grande herege. Temos, pois, que ler essa documentação com espírito crítico e nos deixar guiar, por exemplo, por historiadores do quilate de Adolfo von Harnack, que, em sua ‘História dos Dogmas’, em que descreve a formação do dogma cristão nos três primeiros séculos, assume a postura crítica que se espera de um bom historiador.

Por volta de 120 dC, apenas noventa anos após a morte de Jesus, aparece em Roma um cristão vindo do Oriente do Império, chamado Marcião de Sínope, um importante porto marítimo situado no Mar Negro (chamado, na época, de Pontus Euxinos. no norte da atual Turquia). Filho de um rico armador de navios, ele pede licença para ser aceito numa das comunidades cristãs existentes na metrópole e paga, inclusive, uma fiança.
Marcião é uma personalidade marcante. Não gosta do que vê em Roma e manifesta logo sua discordância. Para ele, o Jesus que se venera entre os cristãos romanos não corresponde ao Jesus de Nazaré. Como se pode praticar ritos que são próprios dos sacerdotes romanos, se Jesus não gosta de sacerdotes? Como se pode seguir regulamentos, se Jesus não liga para regulamentos, não se importa com questões de pureza e impureza, não lembra a obrigação de ‘subir’ ao Templo para as festas, não insiste no pagamento de impostos estipulados pelas autoridades, enfim, não segue as prescrições legais? Jesus fala em pão, casa, filhos, sustento da família, idosos, produção agrícola, trabalho de cada dia. Eis o que importa para ele. Alerta diante do perigo do enriquecimento (‘não se pode servir a dois senhores’) e ensina que é preciso estar sempre disposto a servir. Marcião não vê nada disso em Roma.

Os fiéis de Roma se assustam, Não encontrando argumentos a contradizer o imigrante do Ponto. Então, para manter a paz entre seus fiéis, os presbíteros resolvem, em 144 dC, devolver a Marcião o dinheiro que ele doou ao se apresentar e pedir que ele se retire de Roma. Decepcionado, o ‘mestre’ vencido regressa para o Ponto onde, longe dos grandes centros, organiza uma igreja, a igreja marcionita, que subsiste até o século VI. Depois desaparece nas brumas da história.

Essa história deixa um gosto amargo na boca. Os cristãos de Roma não conseguem enxergar a ação do Espírito Santo nas palavras e atitudes do imigrante Marcião. A mensagem de Jesus será tão difícil de ser compreendida?

Há de se considerar aqui que, no decorrer do século II, as comunidades cristãs - na medida em que se tornam mais numerosas, com maior número de participantes e maior visibilidade – acolhem pessoas que já não gostam de ver um Jesus tão radicalmente comprometido com os condenados da terra. A tendência é de se alinhar à política do poder do estado, como se pode verificar nos escritos de Justino (100-160 dC), por exemplo. Aparecem diversas tendências. Alguns dizem que o ensino desses mestres prejudica ‘as pessoas simples’ e semeia divisão. Marcião não é o único a ser afastado nesses anos decisivos, a mesma sorte sendo reservada a mestres como Valentino, Taciano e Montano (cuja história conto em seguida). Aparece o termo ‘herege’, que serve para discriminar os que não seguem a linha predominante. Aparecem pastoralistas que, querendo apagar o fogo, aconselham moderação, lutam pela unificação, mas, mesmo assim, concordam em traçar uma linha divisória entre ‘ortodoxos’ e ‘hereges’. Mestres que são exigentes em termos de pobreza e despojamento perdem audiência. O tema Espírito Santo é controverso. Estamos diante de um momento decisivo na história do cristianismo.

A palavra do Espírito Santo: Montano.

Apenas 14 anos após o afastamento de Marcião, em 158 dC, eclode mais um movimento a agitar as mentes dos líderes cristãos durante décadas.

O palco, agora, é a Frígia (centro-oeste da atual Turquia). Um certo Montano, um sacerdote de Cibele convertido ao cristianismo, cria, em Pepusa, uma localidade rural perto de Filadélfia, na Frígia, um movimento de escravos, libertos e trabalhadores rurais da região. Ela vai acompanhado de duas mulheres profetisas, Priscila e Maximila, que – no linguajar da época – falam em línguas, se extasiam e gritam: aparece o Defensor(Paráclito), que se manifesta com gemidos inefáveis (Rm 8, 26) e grita: Abba, Pai (Gl 4, 6). Cita-se o Dito 44 do Evangelho de Tomé: Quem quer que blasfeme contra o Espírito Santo não será perdoado, seja na terra, seja no céu, um Dito que aparece nos evangelhos sinóticos e em textos como o Diatesseron de Taciano, uma frase frequentemente repetida nos primeiros tempos do movimento de Jesus (Harnack, I, 427). Blasfemar contra o Espírito Santo é se desviar do caminho de Jesus. Se o Defensor se revela agora na Frígia, uma região tão desprezada e discriminada quanto a Galileia de Jesus, é prova que ali se pratica a legítima tradição de Jesus.

Antes de continuar, repito aqui o que escrevi acerca da tradição em torno de Marcião: as fontes literárias disponíveis sobre o montanismo estão igualmente recheadas de preconceitos, exageram nos aspectos negativos, tratam o montanismo como se fosse uma heresia.

Pesquisas sérias apuraram que se trata aqui de um movimento de gente pobre, escrava, liberta, gente do campo, iletrada, que retoma textos do Evangelho de João como os que citei acima (Jo 14, 16; 14, 26; 15, 26; 16, 7) e os aplica a Montano, Priscila, Maximila. O Espírito Santo lhes dita o que têm a dizer. Palavras que alimentem a esperança dos pobres, ditas de modo livre imaginoso. Assim, a profetisa Priscila, com ingênua ousadia, se diz Cristo aparecido em forma de mulher (Harnack, I, 429). Um mundo de cristofanias e teofanias, com um entusiasmo ainda não abafado, bem ao gosto do povo. O nascimento de Jesus num presépio, os anjos e os pastores, a fuga ao Egito, Jesus entre os doutores em Jerusalém. O menino Jesus brinca com São João Batista, ajuda seu pai São José na carpintaria. Histórias que o povo guarda com carinho e transmite de geração em geração. Os profetas passam pelas comunidades, ensinam as coisas de Jesus de um modo que as pessoas entendem facilmente, são bem acolhidos pela população. Os documentos aludem a uma ‘explosão de profetismo’ no final do século II, que vai muito além da Frígia e atinge largos espaços das partes orientais do Império Romano.

Os intelectuais cristãos, os chamados ‘Padres da Igreja’, não reagem todos do mesmo modo diante do montanismo. Se, de um lado, percebem que o caráter convulsivo das manifestações pró e contra Montano demonstra que algo está errado com o sistema que se pretende implantar no movimento cristão, de outro lado ficam intimidados com a força de uma reação por parte dos bispos. Como acontece frequentemente na história da humanidade, os mais organizados vencem a parada. No caso do montanismo, os bispos são a parte mais organizada. Sua vitória impõe conformidade e silêncio. Muitos intelectuais hesitam e, com o tempo, acabam se conformando. Enquanto Ireneu ainda demonstra simpatia pelo montanismo, Tertuliano é bem mais reticente. Em princípio, ele simpatiza com os montanistas e, com sua pena afiada, escreve a frase lapidar que talvez melhor descreve o valor perene de movimentos como o montanismo e o profetismo em geral: ‘Ubi tres, ibi ecclesia, licet laici: onde se reúnem três, há igreja, mesmo se são leigos’ (Exortação à Castidade). Mas, paradoxalmente, Tertuliano aceita determinados princípios diametralmente opostos à ideia leiga. Ele aceita a ‘regra apostólica’, a ‘sucessão apostólica’, a ‘reserva exclusiva’, além de concordar com a ideia que o tempo da revelação do Espirito Santo teria expirado com a morte do último apóstolo. Efim, ele acaba pendendo do lado do ‘apostólico’. Segundo von Harnack, essa contradição em Tertuliano se deve ‘a uma convicção não cristã, mas romana, segundo a qual toda religião postula leis firmes e ordenações estáveis’ (Harnack I, 434).

Por volta de 177, o montanismo alcança Roma, onde suscita controvérsias. Ali aparece um certo Praxeas, ‘confessor’ proveniente da Frígia, que vem predispor o bispo local (ainda não se fala em papa) contra o ‘Paráclito’. A repressão é rápida. Quatro bispos romanos sucessivos se pronunciam contra o ‘Paráclito’ (Harnack I, 742) e são logo acompanhados por bispos da Ásia, que cerram fileiras contra Montano. Por volta do ano 200 dC se percebe um recuo dos profetas e um avanço dos bispos. Os primeiros Sínodos episcopais da história do cristianismo são dirigidos contra o montanismo. O tom dos textos conservados é ríspido e severo, tende a desmoralizar os profetas, que só estariam dizendo bobagem, coisas sem sentido, confundindo os fiéis, espalhando ideias contraditórias, agitando as comunidades, desorientando e fanatizando. Significativa a omissão do termo ‘profeta’ e a insistência no termo ‘apóstolo’. Apóstolos contra profetas, eis a questão. Apóstolos apresentados como herdeiros de uma missão recebida de Jesus, que atravessa a história por meio da ‘sucessão apostólica’, de uma dinastia de bispos. O bispo é a atualidade, o profeta é o passado. Os profetas antigos, como Isaías, Jeremias e outros, terminam sua missão com a morte do último apóstolo. Não há mais profetas. Os apóstolos herdam a missão profética.

Em tudo isso, não se pode esquecer que os textos desses primeiros Sínodos são redigidos ‘no calor da hora’, ou seja, marcados pelas emoções do momento. Emoções claramente anti-montanistas, anti-Paráclito. O historiador não atribui a esse tipo de textos um valor além do que ressalta de uma análise contextualizada. Quando os Sínodos afirmam que só os apóstolos são mediadores da revelação, eles estão em guerra contra um movimento que pretende o contrário. Em outras palavras, o confronto com o montanismo postula uma interpretação a ser realizada dentro do princípio do contexto (Harnack, II, 387). Seja como for, a restrita atribuição da revelação ao universo ‘apostólico’ e a retirada de credenciais ao ‘profético’ acabam convencendo muita gente. A ‘auctoritas scripta’ (predominância da tradição escrita sobre a tradição oral) vence as falas de gente iletrada, as falas de Montano, Priscila, Maximila. Por trás, se desvaloriza a ação do Espírito Santo na história, e isso é muito sério.

Nesse sentido se pode dizer que o Credo de Niceia (do ano 325) segue uma conduta já traçada pelos Sínodos do início do século III. Nele, toda a atenção se concentra na figura de Jesus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ‘Theon ek Theou’ (Deus de Deus). Só no final parece, como se fosse um apêndice, a frase ‘kai eis to Agion Pneuma’ (e também no Espírito Santo). E ponto final (o Credo de Calcedônia, no final do século IV, acrescenta: ‘que falou pelos profetas’). Medo de uma igreja por demais profética? De uma igreja liderada por ‘mestres’ livres, diretamente inspirados pelo Espírito Santo? Da influência do ‘mestre’ Ario de Alexandria, contra quem se dirigem todas as baterias em Niceia? Os bispos vêm acompanhados por sacerdotes intérpretes de textos bíblicos. Não há registro da presença de ‘mestres’ (profetas) no Concílio de Niceia, que consagra a vitória dos sacerdotes ‘apostólicos’ sobre os mestres ‘espirituais’.

A Palavra do Espírito Santo: o Papa Francisco.

Eis o que vale rememorar hoje, no embate entre o papa e alguns cardeais. Vale rememorar que o movimento montanista provoca uma divisão de águas no organograma da igreja cristã. Há um antes e um depois da intervenção episcopal daqueles tempos remotos. Muda a política global da instituição cristã. Como escreve Adolfo von Harnack em sua ‘História dos Dogmas’, o que acontece no final do século II determina o curso ulterior do cristianismo. E, de modo ainda mais pungente: a primeira ortodoxia vira heresia. O corpo episcopal toma oficialmente conta dos destinos da tradição cristã, e os resultados dessa decisão perduram até nossos dias. Bispos contra profetas, palavras de ordem contra o Espírito Santo.

À primeira vista, a história do Papa Francisco tem nada a ver com histórias tão antigas como a de Marcião e Montano. Além disso, o atual Papa não costuma evocar o tema do Espírito Santo. Mas não se pode deixar de observar o seguinte: o atual papa não se projeta propriamente como líder de uma religião peculiar, mas como interlocutor em questões que atingem a sociedade humana em geral. Isso é muito importante. É um sinal do Espírito Santo que sopra onde quer.

Num texto que publiquei em meu blog dois meses atrás sob o mesmo título ‘O Papa Francisco e a Luta pela Palavra’, chamei a atenção ao fato que Francisco fala em ‘não julgar’, ‘dar preferência a processos’, ‘ser igreja em saída’, ‘não insistir sempre nas mesmas questões’, etc.  Embora essas expressões esporádicas não explicitem uma tese, penso que não se pode ignorar que Francisco não sai em defesa de ‘princípios católicos’, como fizeram seus antecessores desde o surgimento da Idade Moderna, não aborda temas como ‘tradição apostólica’, ‘sucessão apostólica’ (bispos sucessores dos apóstolos), ‘reserva apostólica’ (a revelação divina reservada aos apóstolos e seus sucessores), os temas de um embate entre bispos e montanistas no início do século III, largamente integrados na tradição da oficialidade cristã. Ele se move num outro patamar.

Se é para evocar aqui essa antiga contenda entre o ‘profético’ e o ‘apostólico’, como faço nestas páginas, há de se dizer que Francisco está do lado do ‘profético’, do ‘Paráclito’, do Espírito Santo. Suas palavras abandonam lugares comuns, desde muito integrados no discurso da oficialidade cristã e isso causa estranheza em muita gente, enquanto cria distância diante do que dizem cardeais como Müller, Brandmüller e Burke, que dizem as coisas de sempre, fáceis de serem entendidas pela maioria dos católicos. Pois a história ensina que, quando uma mesma narrativa se repete ao longo de séculos por meio dos mesmos gestos, das mesmas palavras, das mesmas imagens e dos mesmos ritos, a mente humana passa a considerá-la normal e até normativa. Assimila essa narrativa e dela se apropria. Estamos tão habituados a ver mitras e estolas, capas e casulas, báculos episcopais e invocações solenes, preces codificadas sempre repetidas, estamos tão acostumados a ver o papa falar do evangelho num dos mais suntuosos cenários da Europa Ocidental, que achamos isso normal. A luta pela palavra evangélica é ingrata e dura. Palavras ‘fáceis’, sempre repetidas, garantem sucesso político. Isso em contraste com o Papa Francisco, que opta por palavras ‘difíceis’. Como as do Espírito Santo.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

A DIFÍCIL ARTICULAÇÃO ENTRE O JESUS DA FÉ E O JESUS DA HISTÓRIA.




Por Eduardo Hoornaert.

O Jesus da fé.

Sem dúvida, a pergunta fundamental acerca de Jesus continua sendo: Quem é Jesus para mim hoje? Onde encontro Jesus? Como? Eis a pergunta deveras mais importante. O primeiro escritor cristão, Paulo de Tarso, que começa a redigir suas cartas apenas vinte anos após a morte de Jesus, não demonstra interesse em conhecer a biografia de Jesus de Nazaré, mas vai direto ao âmago: quem é esse Jesus, que aprendi a conhecer entre militantes de seu movimento? O que ele traz para minha vida? A resposta de Paulo, que repercute por séculos: Jesus é liberdade, amor, universalismo. Eis o primeiro Jesus da fé.

O Evangelho de Marcos, escrito por volta do ano 70, procura igualmente fazer com que as pessoas descubram o Jesus da fé. Apresenta um Jesus que não quer atrair a atenção sobre si mesmo, mas que orienta as pessoas a viverem sua vida numa perspectiva de amor, perdão, liberdade, fraternidade, cuja alegria consiste em ver que as pessoas entendem sua proposta e a traduzem em ações concretas.

E assim, ao longo desses dois mil anos de cristianismo, inúmeras pessoas se fizeram a mesma pergunta: quem é Jesus para mim? O que ele significa na minha vida? O que ele tem a me dizer hoje, nas circunstâncias em que vivo? Onde o encontro? Na igreja, na missa, na prece, nos doentes acamados em corredores de hospital, na interminável fila de pessoas que procuram emprego, nos presídios, entre pobres, negros, indígenas, sem terra, sem teto, sem amparo, sem voz?

O Jesus da história.

O Jesus da fé tem de se articular com o Jesus da história, pois este constitui a condição indispensável para que se chegue a uma fé consistente. Há de se evitar, a todo custo, de firmar sua fé num Jesus imaginativo, produto da imaginação. Infelizmente, esse Jesus imaginativo funcionou ao longo de séculos por meio de imagens nem sempre justificadas. Assim se entende que, no século XIX, pessoas, como o francês Ernest Renan, começam a falar em ‘Jesus histórico’ e acabam criando um movimento consistente de pesquisa histórica, linguística, arqueológica. Hoje existem diversos centros em que se estuda o Jesus da história sem interferências por parte de confissões religiosas ou interesses políticos. Assim, por exemplo, o ‘Jesus Seminar’, fundado nos Estados Unidos em 1985 por Robert Funk e John Dominic Crossan, que hoje se constitui num espaço livre em que se discute o Jesus da história. Esse ‘Jesus Seminar’ já produziu excelentes resultados nos trabalhos de John Gager, John Kloppenborgh, Jonathan Reed, Marcus Borg, John Spong (bispo anglicano), Bart Ehrman, Karen Armstrong (ex-religiosa católica), Elaine Pagels, Luke Johnson, Reza Aslan (iraniano), etc. A Alemanha não deixa por menos e continua publicando textos fundamentais (por meio da Casa Editora Mohr Siebeck de Tübingen, por exemplo). A França perdeu espaço nesse terreno, enquanto a América Latina, até hoje, pouco contribui nesse campo.

A difícil articulação.

O que instigou pessoas como Ernest Renan a empreender estudos acerca de Jesus histórico? E por que esses estudos costumam encontrar oposição em ambientes eclesiásticos? A razão é simples: mais de dois mil anos nos separam do Jesus da história, do Jesus que atuou na Galileia.
Ao longo desse tempo todo, muita gente ‘mexeu’ com sua imagem. O escritor americano Jaroslav Pelikan publicou em 1985 um livro intitulado ‘Jesus through the Centuries’, publicado em São Paulo em 2000 (Cosac & Naify) sob o título: ‘A imagem de Jesus ao longo dos séculos’. Nele se mostra que a imagem Jesus passou pelas mãos de muita gente, foi muito ‘manipulada’. Há o Jesus do Império Romano, do Império Bizantino, das Cruzadas, da Inquisição, da colonização europeia, da reação contra essa colonização. Há o Jesus da libertação, da prosperidade, do sucesso nos negócios, da boa saúde, do bem-estar. Há o Jesus católico e o Jesus luterano, judeu e islamita, espírita, africano, indígena, feminista. Há mesmo um Jesus ateu. Na maioria dessas imagens não se percebe interesse em saber como Jesus viveu efetivamente, o que ele fez, o que disse, o que pensou. Pelo contrário, essas imagens, na maioria dos casos, revelam como instâncias interesseiras, sejam elas romanas, bizantinas, medievais, islamitas, católicas, protestantes, espíritas, ateias, apresentaram Jesus. Muitos teólogos se deixam levar por essas instâncias interesseiras, a tal ponto que se imaginaram e ainda hoje se imaginam um Jesus ‘conveniente’.

O fundamentalismo.

Você já percebeu onde quero chegar. Quero falar com você sobre o fundamentalismo.Quando um pregador, hoje, cita textos bíblicos para defender sua própria maneira de pensar, quando ele parte do pressuposto que a Bíblia e os Evangelhos estão de acordo com o que sua igreja prega e propaga, ele está sendo fundamentalista. Um professor meu, nos idos de 1954, certa feita, terminou a exposição de uma matéria do nosso curso teológico com as seguintes palavras: ‘Mais uma vez conseguimos provar que a Bíblia está de acordo conosco’. Não podia definir melhor o fundamentalismo. A Bíblia e os Evangelhos de acordo conosco.

Ora, atualmente, esse fundamentalismo virou uma onda crescente, que ameaça inundar os campos cristãos, em todas as denominações. Para dizer a coisa em toda franqueza: o que me motiva a escrever estas palavras é que nelas encontro uma oportunidade de refletir com você sobre o fundamentalismo reinante no Brasil e ponderar com você como erguer um dique contra esse tsunami. Pois, quando fundamentalistas estão no poder, toda a sociedade corre perigo.

Em muitos casos, o fundamentalismo não tem nome. Conto aqui um caso que ocorreu 17 séculos atrás. Você decerto já ouviu falar da ‘reviravolta constantiniana’. Diz-se que o próprio Imperador Romano, de nome Constantino, teria se convertido ao cristianismo. Acontece que, no ano 325, esse Imperador convoca bispos cristãos, provenientes de diversas regiões do Império Romano, a se reunir em sua Residência de Verão, situada num subúrbio de Bizâncio chamado Niceia. Uma surpresa total, pois seu antecessor Diocleciano havia deflagrado a mais cruel perseguição contra as comunidades cristãs. O novo Imperador, pelo contrário, se dispõe a ajudar os bispos a resolver determinados problemas de desunião existentes entre comunidades locais. Ele se apresenta com quem quer ajudar os bispos a unificar o movimento cristão. Será que essa é sua real intenção? Não será que ele pretende se valer das energias atuantes no movimento cristão para enfrentar problemas burocráticos de desunião a serem resolvidos na administração do Império, no sentido de tentar conglomerar imensos territórios, onde vivem as mais diversas etnias, sob sua única autoridade? Não será que a imagem do Cristo Único, apresentada nos mais distantes rincões do Império, lhe aparece apropriada a realizar seus intentos políticos unificadores?

Segundo as informações que possuímos acerca dessa assembleia episcopal (o concílio de Niceia), os bispos parecem mal perceber, por detrás das palavras e dos gestos de gentileza, as intenções reais do Imperador. Não é por menos. Eles, que chegam do interior, do mundo rural analfabeta, agora são recebidos com honrarias que nunca dantes receberam. Muito lhes impressiona a recepção por parte do Imperador e de dignitários de sua Corte. São homens do povo, agora tratados como se fossem Senadores do Império, com direito a honras militares e protocolares. Podemos presumir que entre eles haja analfabetos, pois a população em geral, naqueles tempos, é iletrada. É claro que eles se fazem acompanhar de secretários capazes de lidar com letras, ler as Escrituras Sagradas, falar a linguagem da Corte e redigir textos no devido estilo imperial. Mas os bispos mesmos ficam impressionados. Um deles, ao ver o Imperador conversando com seus colegas, exclama: ‘é o Cristo! O próprio Cristo está entre nós!’.

Há muitos outros exemplos de fundamentalismo ao longo da história do cristianismo, modos mais ou menos claros, mais ou menos patente, frequentemente ocultados, de se manipular a imagem de Jesus.

Em busca de Jesus de Nazaré.

É nesse sentido que, de uns anos para cá, costumo convidar pessoas a partir comigo para uma viagem no tempo, ‘em busca de Jesus de Nazaré’. Recentemente, publiquei um livro com esse título (Paulus, São Paulo, 2016). Gosto de convidar as pessoas a uma viagem em que se contemplam paisagens diferentes daquelas que estamos habituados a ver. Penetramos num mundo novo. Teremos de colocar, por enquanto, ensinamentos recebidos sobre Jesus entre parênteses, para dedicar toda a nossa atenção ao que observamos ao longo do caminho, talvez pela primeira vez. Certamente, não é por meio de uma reflexão de alguns instantes, pela leitura de um texto como este, que nossos questionamentos serão desnuviados. O que escrevo aqui não pode ser mais que um aceno para ir cavando, um convite para estudar em profundidade a articulação entre o Jesus da fé e o Jesus da história.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O ELEFANTE DE WITTGENSTEIN. A QUESTÃO DO CONHECIMENTO NOS DIAS DE HOJE




Por Eduardo Hoornaert

Certa vez, ao discutir questões filosóficas com um colega num gabinete da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Ludwig Wittgenstein, com sua conhecida impetuosidade, gritou: ‘Há um elefante na sala’. Com isso, ele quis indicar que seu interlocutor, ao que lhe parecia, não enxergava o óbvio.

A imagem desse elefante me parece apropriada para passar um olhar crítico pelos vastos campos da cognição na civilização ocidental. Desde os primeiros esboços na Mesopotâmia, a impressão que se tem é que o próprio processo civilizador impede de enxergar elefantes de Wittgenstein, principalmente o elefante da escravidão. Na Grécia clássica, que nos lega a filosofia, a escravidão é onipresente, mas invisível. Dizem os historiadores que, na cidade de Atenas em tempo de Péricles (séc. V aC), cinco mil cidadãos vivem sustentados por cem mil escravos, um número aproximativo, pois acerca de escravos não existe registro escrito. No Liceu de Atenas (fundado por Aristóteles no século IV aC) não é difícil se imaginar um vai-e-vem incessante de ‘pedagogos’, escravos que trazem e levam crianças e jovens de famílias boas para participar de exercícios educativos. Pelo pátio do referido Liceu, homens e mulheres se cruzam, a preparar as mesas, servir comidas e bebidas, limpar o chão e as latrinas. Os estudantes não lhes dão atenção.

 Nem o próprio Mestre Aristóteles, que lhes dedica apenas umas linhas de sua ‘Política’ (não cito textualmente): ‘esses nossos servidores fazem o que lhes compete fazer para o bom andamento do Liceu e isso lhes dá satisfação. A natureza cria uns para mandar e outros para obedecer. Os ‘servi ex natura’ (servos por natureza) nos são úteis, e mais não digo, já que temos que nos conformar com as leis da natureza, que dispensam reflexões filosóficas’. Em outras palavras: Aristóteles deixa o colossal elefante de Wittgenstein perambular tranquilamente por seu território.

Séculos depois, o teólogo cristão Agostinho (séc. V dC) não pensa diferente. Ele se mostra triste com os destinos da humanidade pecadora, essa ‘massa damnada’ herdeira do ‘pecado original’ de Adão e Eva. Mas não parece afetado pelo fato que, na guarnição militar costeira romana, sediada em Hipona, onde ele é bispo, se despacham rotineiramente grupos de africanos algemados, com destino aos mercados de escravos existentes na Itália. O teólogo lamenta o ‘inferno’ dos pecadores, mas não parece ouvir os lamentos e sussurros de africanos a serem embarcados para o inferno da escravidão romana. O mestre cristão repete basicamente a argumentação de Aristóteles, só que atribui a escravidão ao pecado, o pecado de Cam. Comentando os versículos 21 a 25 do livro 9 de Gênesis, Agostinho explica que Cam, o filho ‘etíope’ (leia: negro) de Noé, não trata seu pai, desnudo e embriagado em baixo da lona, com o devido respeito. Este, ao acordar e ouvir o relato, condena peremptoriamente Cam e todos os seus descendentes:

Maldito seja Canaã (filho de Cam)
Seja ele escravo de seus irmãos.

Assim a carruagem dos tempos vai invariavelmente acompanhada pelo lento e pesado passo do elefante invisível de Wittgenstein, como nos lembra o escritor português José Saramago em seu ‘Ensaio de Cegueira’ (1995): as pessoas veem, mas não enxergam.

 De modo ainda mais premente, no conto ‘A roupa nova do Rei’, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1837) narra que o alfaiate do rei, ao confeccionar uma nova roupa, ‘nunca vista’, para o rei, adverte: ‘só os inteligentes conseguirão enxergar a nova roupa do Rei’. Assim, este pode passear pelado pelas ruas sem que ninguém diga nada. Só uma criança grita: ‘o rei está nu’.

A permanência do elefante de Wittgenstein na cultura ocidental levanta uma questão filosófica. Como se chega a não enxergar uma evidência? Uma pergunta que toca num dos pontos fundamentais da filosofia, a epistemologia. Enfim, de que modo chegamos a conhecer algo? Como se estrutura nosso conhecimento (nossa cognição)? A resposta secular, dada pela filosofia: conhecemos por meio da informação, seja direta, por meio dos cinco sentidos, seja indireta, por falas, escritas ou imagens. As informações diretas, físicas, geram diretamente a evidência. Ou seja, o melhor meio de adquirir conhecimento consiste na observação atenta das coisas, por meio dos cinco sentidos.

E as informações indiretas, por meio de falas, escritas ou imagens? Em que condições elas geram evidências? Aristóteles, em sua ‘Ética’, ao afirmar que a verdade consiste em considerar ‘aquilo que é’ (id quod est), não deixa de observar que essa consideração implica num imperativo ético: nem sempre ‘aquilo que é’ me agrada, está em conformidade com meus interesses. Daí a complicação.

Aqui estamos diante de uma questão em cima da qual os filósofos se debruçam desde séculos: nas informações costumam entrar imperativos não éticos, embora comumente revestidos de moralidade, como são, por exemplo: interesses pessoais, vantagens financeiras, luta pelo poder e exercício do poder, obediência a ordens dadas, compromissos de vida já assumidos, opção por modelos autoritários, ou simplesmente acomodação com situações injustas existentes. A dificuldade consiste no fato que, na maioria dos casos, esses discursos se apresentam como sendo designativos, ou seja, pretendem expressar as coisas como elas são efetivamente. Eis o engodo que poucos parecem perceber. Discursos aparentemente designativos podem ocultar o que se pretende efetivamente: emitir uma ordem, expressar um desejo, uma exortação, um sentimento, uma intuição, uma imaginação, um sonho, um projeto, um cálculo, etc. São discursos que não revelam, mas escondem, contêm intencionalidades não confessas, procuram exercer um domínio sobre as mentes humanas, com a finalidade de fazer passar determinados posicionamentos, formar consensos, enfim, enganar as pessoas.

Não é difícil constatar que a maioria dos discursos, hoje emitidos por poderes políticos e econômicos, serve para justificar imperativos não éticos. Isso cria uma situação dramática, que todos e todas podemos observar diariamente em contatos com nossos vizinhos. As pessoas acabam se metendo num labirinto de palavras tão intricado, que elas não encontram mais a saída. Elas se parecem com aquelas moscas que voam para cá e para lá dentro de uma garrafa aberta. A boca da garrafa está aberta, ou seja, há saída. Mas as pessoas não a encontram, de tão confusas e desorientadas, tão desacostumadas a refletir. Elas costumam, desde muito, entregar sua inteligência ao ‘Jornal Nacional’ da TV Globo ou às manchetes da revista Veja. Desse modo mal escapam ao bombardeio diário de Fake News, que hoje toma conta dos noticiários. Eis uma situação que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman qualifica de ‘líquida’. Não há mais verdade, só há notícias.

Fico pensando: como é que esse tema da complexidade cognitiva ficou por tanto tempo fora das cogitações de eminentes filósofos clássicos da tradição ocidental, como Aristóteles e Agostinho, que – como escrevi acima – nem conseguem enxergar o elefante de Wittgenstein a passear por seus territórios? Como é e que eles não alertam com o devido vigor diante dos perigos de uma cognição pervertida? Mesmo muitos filósofos modernos parecem omissos nesse ponto, ao dar a impressão de confiar demais em ‘informações’. Quem contempla o atual cenário do universo cognitivo, verifica com espanto quão facilmente as pessoas se deixam prender nas redes de discursos enganosos. Como já dizia Maquiavelli, as pessoas costumam ficar indefesas (ele fala até em ‘disponíveis’) diante de enunciados emanados de fontes que lhes parecem confiáveis. Voltaire ainda acrescentou: ‘mentez, mentez toujours: il en restera toujours quelque chose’ (mintam, mintam sempre: algo há de ficar). E Goebbels, ministro da informação do governo nazista, completou: ‘uma mentira repetida mil vezes se torna verdade’.

Afinal, tivemos de esperar a revolução linguística do século XX para ver aparecer uma geração de filósofos disposta a encarar de frente a questão cognitiva e se propor a premunir as pessoas contra palavras enganosas, esclarecer a perversidade de determinados usos da linguagem e precaver diante de palavras pretensamente designativas. Não é por acaso que um dos analistas políticos mais argutos de nossos dias seja Noam Chomsky, um linguista. Nem falo em Slavoj Zizek, Bakhtin, Ricoeur, Bourdieu e outros.
Esses filósofos linguistas nos propõem um exercício diário, o de limpar nossa cabeça. Ninguém se engane, a ‘Fake News’ veio para ficar e se desenvolver sempre mais, pois repousa sobre uma tecnologia em pleno desenvolvimento, que ainda não revelou todas as suas potencialidades. Vivemos em sociedades cada vez mais ‘informáticas’, onde não só enormes conglomerados informativos derramam sobre nós diariamente um fluxo ininterrupto de informações, mas onde o twitter permite que cada um(a) de nós emita, por sua vez, informações e afirmações, a seu bel prazer. Nossa única defesa reside em nosso cérebro, como nos lembra Mao Tse Tung:

Que os pássaros façam ninhos nas árvores
Você não pode impedir.
Mas que eles façam ninhos em seu cabelo
Isso você pode impedir.

Em outras palavras: somos convidados a praticar um exercício contínuo e diário de domínio inteligente sobre nosso próprio pensamento. E no Brasil 2019 não faltam oportunidades para tanto: elas são diárias!

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

POTENCIALIDADES HISTÓRICAS DO "ENCONTRO DE IRMÃOS (1969-1985)




por Eduardo Hoornaert

Em homenagem a Leonardo Boff,
por ocasião de seus oitenta anos
de vida bem vivida (14/12/2018).

Tal qual foi inspirado e animado pelo bispo de Recife, Helder Câmara, o ‘Encontro de Irmãos’, concretização local do movimento de ‘Comunidades de Base’, que na época se espalhava pelo Brasil afora, apresenta um método educacional de rara autenticidade. Embora só vigorando apenas ao longo de aproximadamente quinze anos (entre 1969 e 1985), o ‘Encontro de Irmãos’ transcende a história e nos conserva hoje lições importantes para um trabalho educacional de alta qualidade, seja em meio popular, seja em outros meios.

Primeiros esboços de um novo método educacional.

Na Semana Santa de 1969, no exato quinto aniversário do golpe militar de 1 de abril de 1964, o bispo de Recife, Helder Câmara, lança o ‘Movimento de Evangelização Encontro de Irmãos’ que, sendo oficialmente extinto por seu sucessor em 1985 ou 1986, atua por aproximadamente quinze anos. Baseado na mística de Pentecostes, a oficialização do Encontro de Irmãos e seu ‘batismo’ se dão nas festas de Pentecostes em maio de 1969. Nos anos seguintes, o movimento comemora seu aniversário na festa de Pentecostes, 50 dias após a Páscoa. Em determinados anos, uma média de dez mil pessoas caminha uma noite toda em direção à igreja dos Guararapes (perto do aeroporto) para ali celebrar a missa de Pentecostes.
E como o bispo Helder Câmara dá um tom místico a tudo que diz e faz, pode-se dizer que o Encontro de Irmãos nasce místico. A fé no poder do Espírito Santo anima as pessoas que dele participam. Não por acaso, é na Festa de Pentecostes que surge o nome ‘Encontro de Irmãos’.

Pouco importa a precariedade dessa experiência em termos de duração, o que nela não passa é o valor de um método que escapa às vicissitudes do tempo. A tal ponto que não hesito em afirmar aqui que o ‘Encontro de Irmãos’ é a iniciativa mais importante da vida de Helder Câmara.
Nele há como detectar influências provenientes de iniciativas que remontam à década de 1950. Comentaristas apontam, já naquela década, sinais esporádicos da emergência do que ulteriormente passa a se chamar ‘Comunidade de Base’. Assim a iniciativa de ‘catequese popular’ na Diocese de Barra do Piraí (Volta Redonda, Estado do Rio de Janeiro, 1956), em que se resolve reunir as catequistas em grupos para estudar e discutir as lições programadas, ou ainda o projeto de catequese por meio radiofônico, estimulada pelo então bispo auxiliar de Natal, Eugênio Sales. Por sinal, esse projeto postula a ação de ‘monitores’ a acompanhar a compreensão das emissões radiofônicas por grupos locais. Mais adiante, Sales vai promover a criação de ‘Centros de Formação de Líderes’, primeiramente em Natal (1958-1960) e depois em Salvador (1964-1971), sempre com a finalidade de formar monitores a acompanhar grupos de estudo.
Emerge aos poucos a expressão ‘Comunidade de Base’. Aqui e acolá emergem comunidades, geralmente reunidas em função da proximidade territorial e de carências e misérias em comum, compostas principalmente por membros de classes populares despossuídas, vinculadas a uma igreja ou a uma comunidade, cujo objetivo é a leitura bíblica em articulação com a vida, com a realidade politica e social em que vivem e com as misérias cotidianas com que se deparam na matriz ordinária de suas vidas. Aqui já emerge o ‘método Cardijn’, (ver, julgar, agir). Enfim, esses grupos passam a olhar de modo diferente a realidade em que vivem (ver), a julgá-la com os olhos da fé (julgar) e a tentar transformá-la (agir).
No mesmo contexto nasce o ‘Movimento de Educação de Base’ (MEB), que trabalha igualmente por meio de emissões radiofônicas. Como a iniciativa, de início, recebe forte crítica por parte de Paulo Freire no sentido que não conseguiria ultrapassar a tradicional passividade do povo e não promoveria um diálogo entre programadores e ouvintes, o MEB, na época coordenado pelo bispo auxiliar do Rio de Janeiro, José Távora, lança a cartilha ‘Viver é Lutar’, um texto redigido para ser discutida em ‘círculos’ animados por ‘monitores’. Imediatamente, o Governador do Rio, Carlos Lacerda cai em cima da iniciativa e a sufoca.

A teóloga Maria Clara Bingemer detecta quatro traços distintivos na Comunidade de Base: (1) a territorialidade: as pessoas se reúnem por proximidade geográfica e isso faz com que suas reivindicações sejam confluentes; (2) o fator bíblico: muitos grupos se reúnem para leitura e reflexão da Palavra de Deus e confrontá-la com a vida cotidiana. Muitas comunidades emergem desses círculos bíblicos e passam a organizar a celebração dominical com ou sem sacerdote. Em alguns lugares se ouve a palavra de um bispo ou de um líder comunitário (como acontece em Recife com a palavra diária de Helder Câmara no programa radiofônico ‘Um olhar sobre a ciade’); (3) o fator discussão: problemas comunitários são discutidos em conselhos ou assembleias, com ampla participação dos membros; (4) o fator ministerial: a partir das necessidades de uma determinada comunidade surge um tipo de ministério leigo, como, por exemplo, o ‘ministro da Eucaristia’, o ‘ministro do Batismo’, um agente de pastoral específica ou de algum grupo de alfabetização de adultos, de creches, bibliotecas, hortas comunitárias, clubes de mães.
Bingemer abre um vasto leque de possibilidades para a atuaçao de uma Comunidade de Base. A partir da reflexão sobre os problemas da família, do trabalho e do bairro, a Comunidade de Base ajuda a criar movimentos sociais: associações de moradores, organizações sindicais, luta pela terra, fortalecimento do movimento operário. Por suas características ecumênicas, o movimento extrapola os limites da Igreja Católica e as comunidades passam contar com representantes de igrejas como a Metodista, aLuterana, a Presbiteriana, a Batista.

Durante a tradicional ‘Semana de Evangelização’ de março 1969, a Diocese de Recife faz um chamado a todas as paróquias no sentido de aderir a um novo projeto, chamado ‘Encontro de Irmãos’. Na formulação do convite aparecem termos como ‘libertação’ e ‘conscientização’, além da expressão emblemática ‘pobres evangelizando pobres’. Das 72 paróquias, 42 aderem ao projeto. As paróquias mais ricas não respondem. Isso se entende, pois em dezembro de 1968, por meio do Ato Institucional Número 5 (o famoso AI-5), o governo militar fecha o pouco de abertura política que ainda resta no país. Os tempos são perigosos. Em aparente represália à ousadia do bispo no sentido de falar em ‘conscientização do pobre’, a Ditadura Militar, utilizando seus grupos clandestinos, sequestra, no dia 28 de maio de 1969, o Padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da Pastoral da Juventude. O jovem sacerdote é torturado até a morte, seu corpo é jogado num matagal na Cidade Universitária. Mas nem Helder nem o povo recuam. Milhares de pessoas, em procissão, acompanham o enterro do Padre Henrique cantando: Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão! A perseguição continua. Em dezembro de 1972, no encerramento do Conselho Anual do Encontro de Irmãos, o seu coordenador, João Francisco, é sequestrado pela Polícia Federal. Durante quinze dias, ninguém tem notícia de seu paradeiro. Então, o Encontro de Irmãos faz o que nunca se tinha feito antes para um preso político: lota a Igreja da Madre de Deus e faz vigília de adoração. Vem gente de tudo que é lugar, Helder Câmara à frente. Após 15 dias, João Francisco aparece são e salvo. Com sua saída (ele viaja com a família ao Sul do país), quem fica como coordenador geral é Abdalaziz Moura. Em pouco tempo, o Encontro de Irmãos conta com 248 núcleos organizados nas periferias da Região Metropolitana do Recife. O Conselho anual é o órgão máximo do Movimento. Com o Boletim se faz a preparação e a devolução do Conselho Anual nos núcleos. No Conselho, participam os representes dos núcleos, escolhidos por eles mesmos. Os núcleos são agrupados em setores, formados por um bairro ou mais, até por um município. Há doze setores, nos quais se realiza treinamento para a formação, por meio de um domingo de estudo a cada três meses. Na Assembleia Anual do Conselho é que se escolhe a equipe executiva com dois representantes de cada setor. A equipe executiva se reúne uma vez por mês. Sua tarefa consiste em encaminhar as decisões do Conselho Anual à base do movimento. Dentro da equipe executiva há coordenadores que são liberados para dar expediente na sede do Movimento, fazer relatório, roteiro, boletim, atender ao público, preparar e fazer o programa na rádio Olinda e acompanhar os setores. Esses coordenadores são indicados pelo Conselho Anual. O bispo se limita a confirmar as decisões desse Conselho. Enfim, trata-se de um movimento que se auto sustenta.

O verdadeiramente importante, na trajetória de quinze anos do ‘Encontro de Irmãos’ (1969-1985), consiste no fato que ele inicia um processo educacional que supera as vicissitudes do momento. Ao formar monitores e animadores para pequenos grupos de evangelização atuantes nos bairros pobres da cidade de Recife, abre perspectivas pedagógicas além do tempo e do espaço. A fórmula é simples: as pessoas se reúnem para ouvir pela Rádio Olinda comentários diários sobre a Bíblia e a atualidade, feitos pelo bispo. Depois discutem entre si o que entenderam ou, simplesmente, falam o que desejam dizer em torno do programa radiofônico. Aproveitam para se encontrar e fazer a reunião. O programa diário de rádio é a voz do Encontro de Irmãos. Os grupos vão crescendo e chegam a quatrocentos núcleos. Espalham-se para outras dioceses em Pernambuco e para outros Estados do Nordeste.

Saber.

Os agentes de pastoral, quando alguém lhes pergunta o que é o Encontro de Irmãos, costumam dizer: ‘são pobres evangelizando pobres’. Falam também em ‘jeito diferente de evangelizar’, ‘trabalhar com o povo e não para o povo’, ‘ensinar a pescar e não só dar o peixe’, ‘não ir atrás e nem na frente, mas no meio do povo’, ou ainda: ‘antes de ensinar ao povo, devemos aprender com ele’, ‘devemos devolver a palavra ao povo’, ‘o povo toma seu destino em mãos’. O Encontro de Irmãos se apresenta, pois, como um método educacional. Os animadores costumam se referir ao ‘método Paulo Freire’ e aludir ao livro ‘Pedagogia do Oprimido’, da autoria do pedagogo, que está convencido que a educação está umbilicalmente ligada à situação em que um determinado povo vive e que, por conseguinte, não existe pedagogia neutra. Ela implica sempre numa análise da sociedade em que se vive. Perceber esse dado não é tão fácil, pois os relatos que recebemos acerca de sociedades do passado e suas peripécias, normalmente mantêm silêncio acerca das situações econômicas, sociais e políticas em que as populações do passado realmente viviam. Só para dar um exemplo: quando estudamos o antigo Império Romano, ouvimos falar em imperadores, legiões conquistadoras, guerras, administrações públicas, ‘paz romana’, mas quase nunca os livros nos informam que toda essa historiografia só narra as peripécias de apenas 1 % da população do Império, uma elite capaz de ler e escrever. Dos aproximadamente 60 milhões de habitantes do Império Romano, a vida e os anseios de aproximadamente 50 mil pessoas nos são conhecidos por meio de uma historiografia de ‘fatos e eventos’, a historiografia normal. A história dos 99 % cai no ocultamento e, mais tarde, no silenciamento. É, largamente, a história silenciada da escravidão. O valor do método Paulo Freire, quando aplicado ao Brasil, consiste no fato que ele, mesmo sem explicitar a coisa, remete à escravidão, ou seja, à vida concreta de pessoas secularmente submetidas a um dos mais recorrentes e vergonhosos procedimentos da história da humanidade desde os tempos neolíticos, a partir do momento em que pessoas se apoderaram de outras pessoas para fazer guerra, cultivar terrenos, produzir lucro, reservar para si as riquezas da terra. A escravidão é uma estruturação societária tenaz, que atravessa milênios e continua em vigor nos dias de hoje, de modo camuflado.

Ver as coisas sob esse ângulo nos leva à pedagogia do velho filósofo educador grego Sócrates, do século V aC. Pode-se perguntar: por que invocar Sócrates aqui? Isso não complica as coisas? Já não temos Paulo Freire para nos indicar os rumos da ‘pedagogia do oprimido’? Respondo dizendo que Sócrates explicita com maior precisão e maior insistência que Paulo Freire o segundo passo do que ele elabora como sendo o ‘método da educação’. O passo de como agir depois de adquirir uma nova consciência. Penso que essa maior precisão provém do fato que Sócrates vive em uma cidade, Atenas, explicitamente escravocrata. Os aproximadamente cinco mil ‘cidadãos’ são servidos por não menos de cem mil escravos (alguns historiadores falam em números ainda mais altos). Nos documentos que nos restam desse tempo, praticamente não se fala em escravidão. Só alguns dramaturgos, como Aristófanes, colocam escravos em cena, sempre de modo burlesco. É que a escravidão é considerada um dado ‘natural’, fazendo parte da vida natural. ‘Alguns nascem escravos’, dirá mais tarde Aristóteles. Tenho por mim que o trabalho educativo de Sócrates tem muito a ver com a escravidão reinante e que, inclusive, é provavelmente por causa dessa ‘intromissão’ em assunto tabu que ele finalmente é condenado à morte pelas autoridades de Atenas. De qualquer modo, estudar o ‘método socrático’ diante do pano de fundo da escravidão reinante confere um relevo ao pensamento do educador e realça seu valor universal. Diante do panorama da escravidão, os três passos conhecidos da educação socrática: ‘pensar’, ‘agir’ e ‘dialogar’, ganham um significado universal, além do tempo e do espaço.

Quando aborda o tema da educação, Sócrates recorre ao termo grego ‘maiêutica’, que significa ‘arte da parteira’. A mãe do filósofo era parteira, ela ajudava a trazer à luz a criança oculta do ventre da mãe. Exatamente o que faz o educador, diz Sócrates. A educação ‘tira de dentro’, faz emergir o que existe, mas parece não existir. Ela faz com que a pessoa tome consciência daquilo que na realidade já sabe, mas ‘não sabe que sabe’ (a formulação é de Marilena Chaui), não toma consciência de seu saber. No ventre da mãe, a criança vive, mas não se manifesta (não estende a mão). Do mesmo modo, o discípulo (escravo?) sabe, mas seu saber não aflora à consciência e, portanto, não se traduz em atos manifestos. A pessoa, oprimida é acometida por abatimento, depressão, tristeza, resignação, revolta, até pensamento de suicídio, ou então se resigna na conformidade, obediência servil e hipocrisia, identificação com o modo de pensar de seu amo. Ela não pensa mais, o amo pensa nela (veja o filme: ‘crepúsculo do dia’). No caso concreto da vida em Atenas, o escravo segue fielmente a religião, oferece sacrifícios aos deuses protetores da cidade, obedece às leis, parece integrado na vida social (veja a ‘Apologia de Sócrates’, compilada por seu discípulo Platão).


Há algo trágico nessa recusa, por parte do escravo, em pensar de modo independente, pois é exatamente seu ‘não saber que sabe’ que o mantém escravo. Diante dessa situação, um educador como Sócrates resolve fazer-lhe perguntas e mais perguntas, até chegar a um ponto em que a contradição fica patente. O mestre ateniense resume esse método de questionamento numa só curta frase: ‘gnôti seauton’ (conheça-se a si mesmo). Ele mexe num caldo de sentimentos mal confessados e muitas vezes subconscientes, mas insiste pacientemente, como a parteira. Até extrair do discípulo o que sabe, mas até então não quis saber que sabe.

Agir.

No momento em que ‘sabe que sabe’, o discípulo escuta de seu mestre: perigo a vista! Sinal amarelo! Seja prudente e, sobretudo, astuto! Pois o saber socrático é um saber subversivo, não combina com os modos em que a sociedade estabelecida está organizada.
Aqui entra uma segunda fase do processo educacional, que consiste em praticar a ‘eirôneia’ (ironia). Cuidado, esse termo, dentro da filosofia de Sócrates, não significa exatamente o mesmo do que hoje costumamos entender por ‘ironia’. A ironia socrática é fingimento, dúvida fingida. Quando se atribui a Sócrates frases como: ‘só sei que não sei nada’, ou ‘duvido de tudo’, não se pode esquecer que essas frases só têm sentido dentro de uma estratégia de ocultamento do que se pensa realmente. Se Sócrates disser em todas as letras o que pensa, ele entra imediatamente em confronto com as leis de Atenas, a devoção aos deuses protetores da cidade, a opinião comum.

El dia que diga lo que pienso
Me borran del mapa.

Na segunda fase da aprendizagem socrática, os discípulos aprendem a fingir que continuam a ‘não saber que sabem’. Em se fazer de bobo ou idiota, esquisito ou desajustado, estranho (‘eirônikos’ em grego) ou desajeitado, ignorante (‘eirôn’ em grego) ou mal-acostumado, o discípulo evita um choque frontal com a mentalidade estabelecida. É que ele aguarda o momento em que o movimento do qual participa (veja adiante neste texto) conquiste real poder político. Aí pode tirar a máscara.
Pois Sócrates parte da ideia que o ser humano é frágil e vulnerável, mas que, mesmo assim, é capaz de cultivar a esperança, o que só é possível sob o disfarce da ignorância. Se a meta consiste em formar um movimento de pessoas livres, então é preferível que os discípulos não se exibam nem façam declarações peremptórias, que finjam ignorância, se preciso for, para poder progredir, passo a passo, até que o movimento alcance um grau de organização capaz de enfrentar o poder constituído. O mestre sugere jogos de ditos e não ditos, gestos aparentemente improvisados, atitudes das quais não se sabe se são para valer ou não, sempre dentro dos parâmetros da ‘ignorância fingida’. Desse modo, o discípulo pode escapar a seus oponentes. Mas não se confunda a eirôneia socrática com a ironia cínica, que é de outro quilate. Embora os cínicos tenham desfrutado, durante séculos, de grande popularidade, em quase toda a área pan-mediterrânea (como demonstra o exemplo de Diógenes, o mais famoso entre os cínicos), não se foge da impressão que eles sejam exibicionistas, gostem de causar escândalo, cultivem ares de superioridade e desafiem desnecessariamente seus opositores. Tudo isso longe da genuína ironia socrática.

Tenho por mim que Helder Câmara, do jeito que o conheci em Recife, pode ser considerado um irônico socrático acabado, um praticante excepcional da ‘arte irônica’. Em suas falas e intervenções, eu o reconheci sempre ‘driblando’. Como bom jogador de futebol, controlava a bola, passava por dois ou três adversários, fingia entrar pela direita e então passava pela esquerda, jogava a bola para trás, aparentemente a perdia, mas na realidade a reencontrava livre de pernas adversas, e chutava gol. O drible lhe estava inscrita no corpo, e seus ‘fingimentos’ do jogador encontravam ressonância no público que ouvia suas palavras e acompanhava seus gestos. A política lhe estava inscrita no corpo, ele agia a partir de uma comum herança ancestral de passes e dribles, e isso o vinculava com seu público. Sabemos que mesmo animais irracionais, quando acuados, sabem fingir, enganar, fazer de conta, desviar a atenção, o que lhes pode ser fundamental na preservação da vida, quando, por exemplo, são ameaçados de morte e se fingem mortos ou dormindo, tentando, desse modo, desviar a atenção do agressor. Em situação de inferioridade, a ‘ironia’ pode ser uma saída, um salvamento da vida, tanto para animais irracionais como para humanos. Eles confirmam, por meio de artimanhas ancestrais, a profunda intuição de Sócrates: a ironia, bem entendida, é um recurso que a vida nos oferece, seja ela pre-racional ou racional.

Os exemplos de ironia socrática se espalham pela vida pública de Helder Câmara. Em 1964, ao chegar em Recife como arcebispo nomeado apenas alguns dias após o golpemilitar, ele mantém um relacionamento respeitoso, mesmo aparentemente amistoso, com os novos donos do poder. Ao mesmo tempo, se entende com os setores progressistas da Diocese. Em sua primeira fala, chegando em Recife, ele não menciona nenhuma autoridade, nem eclesiástica, nem militar. Declara que vem se encontrar em Recife com Cristo na pessoa de Zé, Antônio e Severino. Suas intervenções inesperadas fazem com que o Presidente do Brasil se veja na obrigação de escolher a dedo o General do Quarto Exército, sediado em Recife, entre os mais ‘diplomáticos’ do corpo militar, que saiba lidar com esse ‘bispinho’, que se mete em tudo e é capaz de meter seu adversário em saia justa sem dar a mínima impressão de querer travar um duelo. É que, do bispo, emana um poder ético que faz falta aos militares. Os militares sabem que o Brasil está com Helder Câmara, mas não confessam esse saber nem a si mesmos. Eles vivem acuados, enquanto Helder irradia segurança. Eles estão presos, enquanto Helder demonstra inconfundível liberdade. Eles sabem que o bispo não prega a revolução, que ele não é comunista, não é subversivo. Enquanto eles mesmos, em muitos casos, não acreditam no que dizem, Helder acredita no que diz. Ao longo dos ‘anos de chumbo’, o bispo sabe que suas iniciativas só podem alcançar alguma eficiência se ele souber driblar, se equilibrar na ‘corda bamba’.
O que escrevo aqui não se aplica só ao relacionamento de Helder com o regime militar, mas também às suas avenças e desavenças com a instituição católica (desse último ponto tratarei num próximo blog), e mesmo com a religiosidade, frequentemente ambígua e perpassada por tendências fundamentalistas, por parte do rebanho católico. Helder sabe: ou consegue se equilibrar em cima da corda bamba jogando entre palavras de acomodação e outras de repentina ousadia, ou perde a corda e cai na rede, como um saltimbanco no circo. Sua dança é tão sutil que abre espaço para que seus inimigos o apresentem, com grosseria, como ‘bispo vermelho’, ‘comunista vestido de padre’, etc.

Esse jogo sutil faz com a o cronista Nelson Rodrigues, por exemplo, divulgue incansavelmente a imagem de um Dom Helder demagogo, vaidoso, vazio por dentro, sem fé nem religião, em textos amplamente divulgados pelo jornal O Globo do Rio de Janeiro e mais tarde pela Companhia das Letras de São Paulo (veja bibliografia: Nelson Rodrigues). Cria-se uma imagem simplista do bispo, ainda hoje divulgada nos grandes meios de comunicação do Brasil, como o jornal O Globo, a TV Globo, o Jornal do Brasil, O Cruzeiro, O Estado de São Paulo, a Cadeia Associada de TV, etc. Durante longos anos, jornalistas rivalizam entre si na procura de mentiras acerca do bispo de Recife. Na biografia redigida por Piletti & Praxedes, na página 385, se encontra uma lista de nomes feios a seu respeito, criados por intelectuais de renome como Gustavo Corção, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Davi Nasser e Salomão Jorge.

Zildo Rocha, que trabalha intensamente com Helder entre 1964 e 1970, ao descrever uma longa conversa que tem com o bispo, já na véspera de sua aposentadoria, tem uma observação interessante acerca da ironia do bispo. Assistindo, meio atônito, ao longo monólogo teatral de seu amigo, ele – de repente – nele enxerga a figura de ‘Pedro Malazarte’, o ‘Pedro das Malas Artes’ (ou da ‘malandragem’) da tradição luso-brasileira-moçambicana-angolana, que desde o século XIII habita numerosos contos, ditos e alusões, Pedro Malazarte sempre leva a melhor. Ele despista prepotentes por meio de suas artimanhas e engenhosidades. Imagem do homem comum que restitui a justiça num mundo injusto, o amor num mundo sem amor, a alegria e a festa. Engenhoso, sábio e sedutor, invencível em astúcias, inesgotável em expedientes criativos, essa figura ultrapassa a cultura lusitana para encontrar seu par no Til Eulenspiegel da Alemanha (século XIV), no Peer Gynt da Noruega, em Lazarillo de Tormes da Espanha (que inspira o ‘Dom Quixote’ de Cervantes), nos heróis do Contos dos Irmãos Grimm, no ‘Idiota’ de Dostoievski. Na figura de João Grilo, renasce no ‘Auto da Compadecida’ de Ariano Suassuna. A ‘santa malandragem’ é um procedimento que ultrapassa tempos, lugares, culturas e línguas. Helder, como Pedro Malazarte, não acredita que a linha reta seja o caminho mais curto entre dois pontos, pois sabe que o trajeto está cheio de obstáculos e que precisa driblar, contornar, escolher um caminho que o adversário desconhece. Nisso, ele se mostra legítimo herdeiro da cultura cearense, que costuma praticar ‘jeitos’ que não se encontram nas análises de Karl Marx. Helder malandro desenha um novo perfil de bispo católico, inventa um modo original de fazer apostolado, sai do caminho batido à procura de novos caminhos. Leia, se esse tema lhe interessar, o livro ‘A Invenção do Cotidiano’, de Michel de Certeau (Vozes, Petrópolis, vol 1, 1994, 37-45).

Não me parece fora de propósito evocar aqui, além de Sócrates, Paulo Freire e Michel de Certeau, o filósofo linguista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), que faz uma análise original da ‘santa malandragem’, que ele chama de carnavalização. Apresento aqui o pensamento de Bakhtin em poucas palavras. Ele começa dizendo que, desde tempos imemoráveis, o ser humano procura sair do labirinto de emoções, sentimentos, impressões, imagens e afetos. Ele procura enveredar nos caminhos da razão. Mas as confusões, causadas ao longo da história por preconceitos, falsas imagens e impulsos não controlados, são tantas que o homem, desde suas primeiras origens, embora tente diminuí-las na medida do possível, não consegue eliminá-las por completo. Por isso, ele apela para uma figura emblemática que, na pluralidade das culturas, ora é chamado filósofo, profeta, dervixe (no mundo iraniano), ora monge, peregrino, ‘louco (sábio)’, ou ainda xamã, pajé, guru. Enfim, um ‘mestre de vida’. A onipresença dessa figura mostra como é difícil sair do labirinto de emoções e sentimentos e viver uma vida orientada pela razão. Mesmo nas nossas culturas, o filósofo permanece uma figura estranha, o que demonstra que a sabedoria é algo raro e difícil de ser alcançada. Por isso constitui uma chance excepcional poder dialogar com um sábio de verdade, um homem ou uma mulher que coloque a procura da sabedoria acima de tudo, mesmo de sua própria vida, como Jesus e Sócrates (veja Bakhtin, M.M., The Dialogic Imagination, Univ. of Texas Press, Austin, 1980).
Aqui entra Pedro Malazarte. Não é um herói. Não tem seguidores, mas companheiros, ‘conspiradores’. Situa-se em paridade com quem admira seus feitos e está inserido num círculo dialogal. Mesmo quando está em cena, ele acena para os assistentes (ouvintes, leitores) na plateia. Suscita a participação. Há os que, no mundo, só enxergam heróis, patriotas e nacionalistas, que glorificam a guerra, a espada, o medo, a morte e a religião como sustentáculo da vida social. Heróis que são épicos por natureza. De outro lado, há os que dialogam e negociam, conversam e mantêm um relacionamento entre iguais. Vivem na precariedade, convidam o interlocutor a entrar na discussão e possivelmente colaborar na construção de uma convivência humana mais sensata. Enfim, personalidades como Helder só se tornam inteligíveis quando se toma consciência de que elas apelam para a participação e a responsabilidade.

Nem todos os participantes do Encontro de Irmãos captam e valorizam as artimanhas do bispo Helder Câmara. Muitos não aprendem a lição da ironia, permanecem frágeis e até indefesos diante do poder avassalador da sociedade estabelecida, que incansavelmente propaga mentiras. Pois se espalha tanta mentira acerca de Helder, que ele finalmente arrisca ser mal entendido dentro da própria igreja católica. Seja como for, a partir de 190, ele se encontra sempre mais, dentro de seu país natal, numa posição isolada, perde o apoio público, a consideração pública, mesmo a segurança da vida.
Muitos não conseguem se desvincular do clássico projeto civilizador, que, desde não sei quantos milênios, favorece as qualidades humanas que facilitem a convivência pacífica em sociedade e rejeita procedimentos que subvertam sentidos programados e façam com que a autoridade civilizadora perca sua segurança. A autoridade estabelecida rejeita a ironia, cujo questionamento incomoda o universo da solenidade, da polidez, da cortesia, da sisudez, que é o universo da civilização. A ironia não é bem-vinda nas cortes, nos palácios, nas igrejas, nos órgãos corporativos, no Estado, pois suas arestas arranham o prestígio e o poder, desestabilizam os que detêm privilégios, não colaboram com ‘ordem e progresso’. Para os que defendem a civilização, a ironia não tem sentido. Ela lhes parece fortuita e bandoleira. Na verdade, ela é corrosiva, pois elimina a subserviência e cria pessoas inteligentes e livres. Por isso, o ‘status quo’ tende a ignorar ou pelo menos ocultar a ironia.
Mas aqueles que, embora vivam submetidos ao poder do Estado, aprenderam com a pedagogia libertadora de pessoas como Helder Câmara, compreendem que a ironia é necessária. Basta uma brecha que permita a eclosão do livre pensar e eles explodem em riso, brincadeira, festa, alegria e carnaval (eis o tema de Bakhtin). O riso irônico acorda na pessoa aquela criança que, no conto de Andersen, grita: ‘o rei está nu’. Só ela, em toda a multidão, vê que o rei está nu. Os demais não enxergam nada, pois não são livres. Só a criança é suficientemente livre para rir quando lhe apraz. Regimes políticos de cara tensa e punho fechado, braço levantado e bandeira erguida não são livres. São perigosos, mas não são livres. Escondem o ‘rei que está nu’. Depois de visitar Adolfo Hitler em 1938, o escritor americano Henry Miller anota em seu diário: ‘Aqui as coisas andam mal. O homem não ri’. Hoje, em nossas culturas, a ironia é uma das qualidades humanas menos definidas e menos valorizadas, o que não é um bom sinal. Vigora uma censura largamente inconsciente, que repousa sobre mensagens mentirosas ou ambíguas que recebemos desde a infância e que vão na direção de desvalorizar a ironia e nos integrar na sociedade oficial.
É com astúcia que Helder Câmara planeja o Encontro de Irmãos. Aparentemente em perfeita sintonia com o plano formulado pelo Cardeal Leme em sua famosa Pastoral de 1917, ou seja, com um projeto que intenciona fortalecer o instituto católico, ele planeja um ‘Encontro de Irmãos’ que não tem nada a ver com o fortalecimento da instituição católica ou de qualquer outra instituição. Seu foco é a conquista de dignidade, igualdade e liberdade por parte de populações tradicionalmente marginalizadas. O bispo pratica magistralmente um jogo de esconderijo ‘irônico’ ao deixar de explicitar suas diferenças com o plano do Cardeal Sebastião Leme e com outros bispos que seguem na mesma linha. Enquanto dá a impressão de estar em perfeita sintonia com a tradição eclesiástica, ele entrega a Bíblia ao povo das comunidades.

Dialogar.

Numa fala em 23 de setembro de 1976, Helder Câmara explica a seu modo o método Encontro de Irmãos: enquanto, no mundo inteiro, os governos não acreditarem na capacidade do povo e tudo planejarem nos gabinetes, tudo decidirem com técnicos e supertécnicos, o povo ficará marginalizado. Mas os governos serão os mais prejudicados. Tudo que é resolvido para o povo sem o povo é artificial, não funciona.
Palavras de peso: Tudo que é resolvido para o povo sem o povo é artificial, não funciona.Que não só se aplicam ao governo do estado, mas igualmente ao governo da igreja. Quando Helder afirma que uma igreja que funciona para o povo sem o povo, ele, por estranho que isso possa parecer, acena para o sentido original do termo ‘ekklèsia’, tal qual a encontramos na Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses (49 dC).
A história é conhecida: naquele ano, Paulo está em Corinto, impossibilitado de viajar a Tessalônica onde ele, com a equipe antioquena (ele, Silvano e Timóteo), acaba de fazer um bom trabalho. Ele fica preocupado, pois teve de fugir da cidade e não sabe ao certo se os novos adeptos tessalonicenses aguentarão as perseguições. Mas logo chega Timóteo com boas notícias: o grupo de Tessalônica está firme na fé. Satisfeito, Paulo escreve uma carta de encorajamento, sem grandes pretensões literárias. Sua alegria provém do fato que os pequenos núcleos da Macedônia começam a imitar ‘os núcleos de Deus na Judéia, provenientes de Jesus, o Ungido’ (3, 14). Estamos diante de igrejas que não funcionam ‘para o povo’, mas são formadas pelo povo. Como se imaginar a vida concreta desses ‘núcleos’? O biblista americano Richard Ascough (veja no Google), que estudou a fundo essa questão, conta que provavelmente aconteceu o seguinte: nos poucos dias em que a equipe dos missionários, vindos de Antioquia na Síria, permaneceu em Tessalônica, uma associação profissional acolheu em bloco as propostas de Paulo, que encontramos detalhadamente na referida Carta (veja Ascough, R.S., The Thessalonian Christian Community as a Voluntary Association, em: Journal of Biblical Literature, 119/2, 2000, 311-328). Estamos aqui diante de uma ekklèsia que, na realidade, é uma associação voluntária. Nela, os temas se discutem em grupo. Assim nas seguintes palavras da Primeira Carta aos Tessalonicenses:

Examinem todas as coisas
E só retenham o que é belo (5, 16-22).

‘Examinem todas as coisas’, ou seja, ‘discutam, dialoguem’. A igreja não é monóloga, ela é diáloga. As pessoas se reúnem em ‘ekklèsia’ para dialogar, trocar opiniões, aprofundar determinadas lições, tirar dúvidas, ‘examinar as coisas’. A igreja consiste emcomunidades dialogantes. Assim como Sócrates forma em seu redor, como consequência lógica do processo educacional por ele protagonizado, uma ‘comunidade de base’, do mesmo modo Helder Câmara forma sua comunidade de base chamada ‘Encontro de Irmãos’. A lógica é a mesma. E assim como Sócrates dialoga com seus discípulos (como se verifica em seus famosos diálogos, alguns deles recolhidos por seu discípulo Platão [veja Platão, Diálogos, São Paulo, Hemus Editora,1981], para neles fortalecer e eventualmente concretizar as intuições adquiridas durante os dois passos anteriores do processo educacional, o ‘saber’ e o ‘agir’), do mesmo modo Helder dialoga com seus ‘irmãos’ (e irmãs) no programa radiofônico ‘Um olhar sobre a Cidade’. Nele, ele não ‘prega’ o evangelho, mas descobre o evangelho no saber e no agir de seu povo, como canta o poeta popular Jorge de Lima num texto que Helder, certa feita, chega a recitar diante do Papa Paulo VI:

Eu acredito que o mundo será melhor
Quando o menor que padece
Acreditar no menor.

Aqui reencontramos Paulo Freire, que não cansa em repetir que viver significa entrar em campo interativo, em diálogo, não cansa em dizer que a Comunidade de Base não é uma escola tradicional, em que o professor fala e os alunos escutam. A Comunidade de Base parte da experiência da vida de cada um(a) dos(das) participantes. Todos e todas têm uma experiência de vida e é a partir dessa experiência que se dialoga. Nisso vai um trabalho lento e por vezes penoso, no sentido de reconsideração e reavaliação de informações registradas na mente desde o início da vida, já que algumas delas costumam resistir tenazmente à mudança.
Nesse contexto, a leitura bíblica é de teor ‘performativo’, não ‘informativo’. A Bíblia não foi escrita para informar, mas para incentivar pessoas a agir. Eis a intuição do sacerdote Esdras, já no século VI aC. Ele manda seus ‘letrados’ às aldeias para recolher histórias que possam dar um novo saber e um novo agir ao povo. Assim nasce, por exemplo, a história da fuga do Egito, por parte de hebreus escravizados, sob o comando de Moisés (Livro Êxodo). Uma história pensada para suscitar nas pessoas ações em prol da libertação. Jesus entende perfeitamente o processo. Ele diz: ‘quem ouve minhas palavras sem colocá-las em prática é como o bobo que constrói sua casa sobre a areia’ (Mt 7, 26). A Bíblia serve para libertar, pois nela se revela um Deus que foge ao esquema tradicional, não fica sentado no Trono Celeste, mas mostra interesse pela sorte de pessoas que vivem na miséria:

Eu vi a miséria de meu povo,
ouvi o clamor dele,
conheço suas angústias.
Por isso desci a fim de libertá-lo
da mão dos egípcios (Ex 3, 7-8).

Vale evocar aqui o chamado ‘método Cardijn’, também chamado ‘método ver, julgar, agir’, que o padre Joseph Cardijn, fundador da JOC (Juventude Operária Católica), propaga intensivamente nos anos 1930-50 e que entra posteriormente na programação das Comunidades de Base. O método, que consiste em, primeiramente, ‘ver a realidade’, em seguida ‘refletir sobre ela à luz da Bíblia’ e finalmente ‘agir na sociedade’, se divulga amplamente e durante muitos anos em ambientes de Ação Católica, antes de desaguar na metodologia das Comunidades de Base. É um método revolucionário, no sentido que substitui a tradicional fundamentação de uma ação cristã a partir de um discurso religioso por uma motivação que se origina na percepção da realidade cultural, econômica, social e política em que se vive. O método da Comunidade de Base é, sem dúvida, é secularizante, no sentido que a dinamização do agir não provém mais da transmissão de mitos teológico-religiosos, mas da observação ‘secular’ de fatos concretos, à luz da Bíblia. Ele postula uma reconsideração da religião.

Minha exposição pode dar a impressão de ser teórica demais e se distanciar de uma descrição da realidade concreta do Encontro de Irmãos. Claro: nem o bispo de Recife, nem os monitores do Encontro de Irmãos falam em ‘método socrático’, ‘maiêutica’, ironia, coisa do gênero. Eles falam em ‘pobres evangelizando pobres’. Mesmo assim, penso que não estou forçando a nota quando aponto paralelismo entre o ‘método socrático’ e o método posto em prática no Encontro de Irmãos. Assim como Sócrates parte da ideia que o saber já está presente na mente das pessoas, mas não se revela, do mesmo modo o monitor do Encontro de Irmãos se sabe que o evangelho, afinal, já vive na mente humana, embora de modo latente. Sem usar expressões de Padres da Igreja do século III (os alexandrinos), ele sabe que ‘alma humana é naturalmente cristã’ (‘Anima naturaliter christiana’), e que, mesmo em pessoas que não conhecem os evangelhos, existe uma ‘preparação evangélica’ (‘preparatio evangelica’), ou seja, uma disposição natural no sentido de acolher o evangelho. Como o bebê escondido no ventre da mãe, o evangelho vive escondido na mente humana, antes e mesmo independentemente da audição de textos evangélicos. E enquanto Sócrates recorre à imagem da parteira para exemplificar o processo educacional, Jesus recorre à imagem do Reino de Deus:

Vocês têm sorte, vocês pobres!
O Reino de Deus é de vocês.
Vocês têm sorte, vocês que têm fome!
Vocês serão saciados.
Vocês têm sorte, vocês que choram!
Pois vocês vão rir
Que a alegria os faça dançar! (Lc 6, 20-23).

Os pobres já vivem no Reino de Deus, caso não se conformem com sua pobreza, sua fome e seu abatimento, caso estejam dispostos a superar a situação em que se encontram. Esses pobres das bem-aventuranças têm uma ‘consciência socrática’. Eles desejam se libertar e nisso podem contar com o apoio de Deus (‘o reino de Deus é de vocês’). São pessoas que ‘sabem que sabem’ e, por conseguinte, constroem sua casa sobre a rocha, com o texto de Mateus indica. E, assim como Sócrates orienta seus discípulos a praticar a ‘santa malandragem’ (a ironia), do mesmo modo Jesus aconselha que seus discípulos ajam com astúcia:

Vocês são ovelhas que envio em meio a lobos.
Sejam, pois, astuciosos como a serpente
E cândidos como a pomba (Mt 10, 16).

Concluindo.

Escrevi acima que Helder Câmara, por meandros irônicos, consegue entregar a Bíblia ao povo das comunidades em meio a situações muito difíceis. Ora, isso eleva a ação do bispo acima das vicissitudes do momento e lhe confere uma dimensão universal. Pois, assim como o método socrático inverte o sinal da escravidão em Atenas, o método do Encontro de Irmãos inverte o sentido da escravidão num país como o Brasil. É por meio da leitura bíblica que a Comunidade de Base inverte o sinal da escravidão no Brasil. Num país secularmente construído pelo trabalho de milhões de escravos, os participantes do Encontro de Irmãos chegam a compreender que os escravos fazem o Brasil e que nisso está a dignidade dos pobres. Eles são os construtores do Brasil. A leitura bíblica inverte a narrativas de Gilberto Freyre e Oliveira Viana acerca da ‘democracia racial’, pois por meio dela se aprende a não enxergar o país a partir da Casa Grande, mas a partir da Senzala. Logo se percebe que a escravidão, em vez de ser o problema, é a solução. É o caminho histórico, é por ela que se forma o país. Repetindo as palavras de Helder Câmara em 1976: enquanto, no mundo inteiro, os governos não acreditarem na capacidade do povo e tudo planejarem nos gabinetes, tudo decidirem com técnicos e supertécnicos, o povo ficará marginalizado. Tudo que é resolvido para o povo sem o povo é artificial, não funciona. Não é a Casa Grande que faz o país, é a Senzala. Eis, talvez, a lição suprema de iniciativas como o Encontro de Irmãos.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.