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sexta-feira, 25 de março de 2022

Ataques impiedosos ao Papa Francisco,”um justo entre as nações”

                                              Leonardo Boff 


Desde o início de se pontificado há nove anos,o Papa Francisco está sob furiosos ataques de cristãos tradicionalistas e supremacistas brancos quase todos do Norte do mundo, dos Estados Unidos e da Europa.Fizeram até um complô, envolvendo milhões de dólares, para depô-lo como se a Igreja fosse uma empresa e o Papa  seu CEO.Tudo em vão. Ele segue seu caminho no espírito das bem-aventuranças evangélicas dos perseguidos.

Várias são as razões desta perseguição:razões geopolíticas,disputa de poder,outra visão de Igreja e o cuidado da Casa Comum.

Ergo minha voz em defesa do Papa Francisco a partir da periferia do mundo, do Grande Sul. Comparemos os números: na Europa vivem apenas 21,5% dos católicos, 82% vivem fora dela, sendo que 48% na América. Somos,portanto, vasta maioria. Até meados do  século passado a Igreja Católica era do primeiro mundo. Agora é uma Igreja do terceiro e quarto mundo, que, um dia, teve origem no primeiro mundo. Aqui surge uma questão geopolítica. Os conservadores europeus,com exceção de notáveis organizações católicas de cooperação solidária,nutrem um soberano desdém pelo Sul,notadamente pela América Latina.

 A Igreja-grande-instituição foi aliada da colonização, cúmplice do genocídio indígena e participante do escravagismo. Aqui foi implantada uma Igreja colonial,espelho da Igreja europeia.Ocorre que ao longo de mais de 500 anos, não obstante a persistência da Igreja espelho, ocorreu uma eclesiogênese,a gênese de um outro modo de ser igreja,uma igreja, não mais espelho mas fonte:incarnou-se na cultura local indígena-negra-mestiça e de imigrantes de povos vindos de 60 países diferentes. Desta amálgama,gestou seu estilo de adorar a Deus e de celebrar, de organizar sua pastoral social do lado dos oprimidos que lutam por sua libertação. Projetou sua teologia adequada à sua prática libertadora e popular. Tem seus profetas, confessores, teólogos e teólogas, santos e santas e muitos mártires,entre os quais o arcebispo de San Salvador Arnulfo Oscar Romero. Esse tipo de Igreja é fundamentalmente,composta por  comunidades eclesiais de base,onde se vive a dimensão de comunhão de iguais, todos irmãos e irmãs, com seus coordenadores leigos, homens e mulheres, com sacerdotes inseridos no meio do povo e bispos,nunca de costas para o povo como autoridades eclesiásticas, mas como pastores junto deles, com “cheiro de ovelhas  com a missão de serem os “deffensores et advovati pauperum”como se dizia na Igreja dos primórdios. Papas e autoridades doutrinárias do Vaticano tentaram cercear e até condenar tal modo de ser-Igreja, não raro, com o argumento de que não são Igreja pelo fato de não se ver nelas o caráter hierárquico e o estilo romano.Essa ameaça perdurou por muitos anos até que, em fim, irrompeu a figura do Papa Francisco. Ele veio do caldo desta nova cultura eclesial bem expressa pela opção preferencial,não excludente, pelos pobres e pelas várias vertentes da teologia da libertação que a acompanha. Ele conferiu legitimidade a este modo de viver a fé cristã,especialmente em situações de grande opressão.

Mas o que mais está escandalizando cristãos tradicionalistas foi seu estilo de exercer o ministério de unidade da Igreja. Não comparecia  mais como  o pontífice clássico, vestido com os símbolos pagãos, assumidos dos imperadores romanos,especialmente a famosa “mozzeta”aquela capazinha branca cheia de símbolos do poder absoluto do imperador e do papa. Francisco logo se livrou dela e vestiu uma “mozzeta” branca, despojada,como aquela do grande profeta do Brasil, dom Helder Câmara e com sua cruz de ferro sem qualquer joia.Negou-se a morar num palácio pontifício, o que faria São Francisco sair do túmulo e conduzi-lo para onde ele escolheu viver: numa simples casa de hóspedes, Santa Marta. Aí entra na fila para servir-se e come junto com todos. Com humor podemos dizer: assim é mais difícil de envenená-lo. Não calça Prada mas seus velhos e gastos sapatões. No anuário pontifício no qual se usa uma página inteira com os títulos honoríficos dos Papa, ele simplesmente renunciou a todos e apenas escreveu Franciscus,pontifex. Disse claramente num de seus primeiros pronunciamentos que não vai presidir a Igreja com o direito canônico  mas com o amor e a ternura. Um sem número de vezes repetiu que queria uma Igreja pobre e de pobres.

Todo o grande problema da Igreja-grande-instituição reside, desde dos imperadores Constantino e Teodósio, na assunção do poder político,   transformado no poder sagrado (sacra potestas).Esse processo chegou à sua culminância com o Papa Gregório VII (1075) com  sua bula Dictatus Papae que bem traduzida é a “Ditadura do Papa”. Como diz o grande eclesiólogo Jean-Yves Congar, com este Papa se consoIidou a mais decisiva virada da Igreja que tantos problemas criou e da qual nunca mais se libertou: o exercício centralizado, autoritário e até despótico do poder. Nas 27 proposições da bula, o Papa é considerado o senhor absoluto da Igreja, o senhor único e supremo do mundo, tornando-se a autoridade suprema na campo espiritual e temporal. Isso nunca foi desdito.

Basta ler o Canon 331 no qual se diz que “o Pastor da Igreja universal tem o poder ordinário, supremo, pleno,imediato e universal”.Coisa inaudita: se riscarmos o termo Pastor da Igreja universal e colocarmos Deus funciona perfeitamente. Quem dos humanos, senão Deus, pode atribuir-se tal concentração de poder? Não é sem significado que na história dos Papas houve um cresccendo no faraoismo do poder: de sucessor de Pedro,os Papas se entenderam representantes de Cristo.E com se não bastasse, representantes de Deus e até sendo chamados de deus minor in terra. Aqui se realiza a hybris grega e aquilo que Thomas Hobbes constata em seu Leviatã: “Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder. A razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando ainda mais poder”. Pois esta foi a trágica trajetória da Igreja Católica às voltas com o poder que persiste até os dias de hoje, fonte de polêmicas com as demais Igrejas cristãs e de extrema dificuldade de assumir os valores humanísticos da modernidade.Ela dista anos luz da visão de Jesus que queria um poder-serviço (hierodulia) e não um poder-hierárquico (hierarquia).

Disso tudo se afasta o Papa Francisco, o que causa indignação aos conservadores e até reacionários bem expresso no livro de  45 autores de outubro de 2021:”Da paz de Bento à guerra de Francisco”(From Benedict’s Peace to Francis’s War) organizado por Peter A. Kwasniesvski. Nós faríamoss a retórquio assim: “Da paz dos pedófilos de Bento (encobertos por ele) à guerra aos pedófilos de Francisco (condenados por ele).É sabido que o Papa retirado Bento XVI foi indiciado culposamente por um tribunal de Munique devido à sua leniência com padres pedófilos.

Há um problema de geopolítica eclesiástica:os tradicionalistas rejeitam um Papa que vem “do fim do mundo” que traz para o centro do poder do Vaticano um outro estilo mais próximo à gruta de Belém do que dos palácios dos imperadores. Se Jesus aparecesse ao Papa em  seu passeio pelos jardins do Vaticano,seguramente, diria: “Pedro, sobre estas pedras palacianas jamais construiria a minha Igreja”. Essa contradição é vivida pelo Papa Francisco pois renunciou ao estilo palaciano e imperial. 

Trava-se,com efeito, um embate de geopolítica religiosa, entre o Centro que perdeu a hegemonia em número e em irradiação mas que conserva  os hábitos de exercício autoritário do poder e a Periferia, numericamente majoritária de católicos, com igrejas novas, com novos estilos de vivência da fé e em permanente diálogo com o mundo especialmente com os condenados da Terra, tendo sempre uma palavra a dizer sobre as chagas que sangram no corpo do Crucificado,presente nos empobrecidos e oprimidos.

Talvez o que mais incomoda os cristãos engessados no passado é a visão de Igreja vivida pelo Papa. Não uma Igreja-castelo,fechada em si mesma, em seus valores e doutrinas, mas uma Igreja “hospital de campanha” sempre “em saída rumo às periferias existenciais”.Ela acolhe a todos sem perguntar por seu credo ou sua situação moral. Basta que sejam seres humanos em busca de sentido de vida e sofredores pelas adversidades deste mundo globalizado, injusto, cruel e sem piedade. Condena de forma direta o sistema que dá centralidade ao dinheiro à custa de vidas humanas e da natureza. Realizou vários encontros mundiais com movimentos populares. No último, o quarto, disse explicitamente:”Este sistema (capitalista),com sua lógica implacável, escapa ao domínio humano; é preciso trabalhar por mais justiça e cancelar este sistema de morte”. Na Fratelli tutti o condena de forma contundente.

Orienta-se por aquilo que é um das grandes contribuições da teologia latino-americana: a centralidade do Jesus histórico, pobre, cheio de ternura para com os sofredores, sempre do lados dos pobres e marginalizados. O Papa respeita os dogmas e as doutrinas, mas não é por elas que chega ao coração das pessoas.Para ele, Jesus veio  nos ensinar a viver: a confiança total ao Deus-Abbá, viver o amor incondicional, a solidariedade, a compaixão para com os caídos nas estradas, o cuidado para com o Criado,bens que constituem o conteúdo da mensagem central de Jesus: o Reino de Deus. Prega incansavelmente a misericórdia ilimitada pela qual Deus salva seus filhos e filhas, pois Ele não pode perder nenhum deles,frutos de seu  amor, “pois é o apaixonado amante da vida”(Sab 11,24). Por isso afirma que “por mais que alguém esteja ferido pelo mal, jamais está condenado sobre esta terra a ficar para sempre separado de Deus”. Em outras palavras: a condenação é só para esse tempo.

Convoca os pastores todos a exercerem a pastoral da ternura e do amor incondicional, resumidamente formulada por um líder popular de uma comunidade de base:”a alma não tem fronteira, nenhuma vida é estrangeira”. Como poucos no mundo, se empenhou pelos imigrantes vindos de África e do Oriente Médio e agora da Ucrânia. Lamenta o fato de os modernos terem perdido a capacidade de chorar, de sentir a dor do outro e, como bom samaritano,socorrê-lo em seu abandono. 

Sua mais importante obra foi a preocupação pelo futuro da vida da Mãe Terra. A Laudato Sì expressa seu verdadeiro sentido no sub-título: “sobre o cuidado da Casa Comum”.Elabora não uma ecologia verde, mas uma ecologia integral que abarca o ambiente, a sociedade, a política, a cultura, o cotidiano e o mundo do espírito. Assume as contribuições mais seguras das ciências da Terra e da vida,especialmente, da física quântica e da nova cosmologia o fato de que “tudo está relacionado com tudo e que nos une com afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”como diz poeticamente na Laudato Sì. A categoria cuidado e corresponsabilidade coletiva ganham tanta centralidade a ponto de na Fratelli tutti dizer que “estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. 

Nós latino-americanos somos-lhe profundamente gratos por haver convocado um Sínodo Querida Amazônia, para defender esse imenso bioma de interesse para toda a Terra e como a Igreja se incarna naquela vasta região que cobre nove países.

Grandes nomes da ecologia mundial testemunharam: com esta sua contribuição, o Papa Francisco se coloca na ponta da discussão ecológica contemporânea. 

Quase desesperado mas mesmo assim cheio de esperança, propõe um caminho de salvação: uma fraternidade universal e um amor social como os eixos estruturadores de uma biosociedade em função da qual estão a política, a economia e todos os esforços humanos. Não temos muito tempo nem sabedoria suficientemente  acumulada, mas este é o sonho, e a alternativa real para evitar um caminho sem retorno.

O Papa caminhando sozinho na praça de São Pedro sob um chuva fina, em tempos da pandemia, ficará como uma imagem imorredoura e um símbolo de sua missão de Pastor que se preocupa e reza pelo destino da humanidade.

Talvez uma das frases finais da Laudato Sì revela todo seu otimismo e a esperança contra toda esperança: “Caminhemos cantando que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”.

Precisam ser inimigos de sua própria humanidade, aqueles que condenam impiedosamente as atitudes tão humanitárias do Papa Francisco, em nome de um cristianismo estéril, feito um fóssil do passado e um recipiente de águas mortas. Os ataques ferozes que fazem a ele, podem ser tudo, menos cristãos e evangélicos. Os cardeais, bispos e outros que escreveram o citado livro são cismáticos e segundo o sentido antigo do termo, são hereges, porque dilaceram a unidade corpo eclesial.

O Papa Francisco a tudo suporta imbuído da humildade de São Francisco de Assis e dos valores do Jesus histórico. Por isso ele bem merece o título de “um justo entre as nações”.

Leonardo Boff é um teólogo brasileiro e escreveu Francisco de Assis e Francisco de Roma, Rio de Janeiro 2015.

 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

A ORAÇÃO PARTICULAR DO PAPA FRANCISCO A SÃO JOSÉ

                                              Leonardo Boff



Durante o ano 2019-2020 foi declarado pelo Papa Francisco o ano “josefino”, vale dizer, um ano dedicado à devoção e ao aprofundamento da figura de São José. Ela é oportuna nesse momento da pandemia do Coronavírus que é impiedosa para com os mais vulneráveis que são os pobres e destituídos dos necessários cuidados. São José mais que ser o Patrono da Igreja Universal é antes de tudo o patrono da igreja doméstica, dos trabalhadores, dos anônimos,dos que vivem submetidos ao silêncio social. Ora, São José vem deste mundo. Ele não nos deixou nenhuma palavra. Falou pelas mãos de trabalhador. Teve apenas sonhos. Foi esposo terno de Maria,pai provedor de Jesus, protegeu o filhinho recém nascido,ameaçado de morte por Herodes, se refugiou no estrangeiro, no Egito, introduziu Jesus nas tradições da piedade judaica. Cumpriu sua missão e  desapareceu sem deixar nenhum sinal.

Pertence à teologia atualizar as reflexões já existentes, mas mais que tudo aprofundar o significado de São José para os dias atuais, como tenho tentado fazer por um alentado livro sobre “São José, a personificação do Pai (Vozes 2005) e por vários artigos reproduzidos em diferentes meios.

Propus-me levar até as últimas consequências a reflexão sobre São José, pois essa ousadia (permitida pois sempre temos a ver com os mistério divinos) pertence ao ofício da teologia. Ele nos deve ajudar a entender melhor o Deus adorado pelos cristãos.

Não é sem significado que São José se tenha mantido sempre na dimensão do mistério que nenhuma palavra pode exprimir, nem que seu meio de comunicação tenham sido os sonhos e, por fim, que não foi um rabino que fala e ensina mas um trabalhador que silencia enquanto trabalha. Sabemos hoje pela psicologia do profundo à la C.G.Jung e discípulos que os sonhos são a linguagem da radicalidade humana e de seu mistério último. Parece que o próprio Deus ou o universo tivessem preparado a pessoa com as precondições adequadas para acolher o Pai, caso decidisse  sair de seu mistério e auto comunicar-se a alguém.

Para os cristão é uma verdade aceita de que o Espírito Santo foi a primeira pessoa divina a vir a este mundo e armar sua tenda (morar definitivamente) sobre Maria (Lc 1,35). Da mesma forma é uma convicção de fé que o Filho do Pai veio em seguida, gerado por Maria e que também armou sua tenda entre nós (se encarnou: Jo 1,14). Por que o Pai ficou de fora? Por que somente duas pessoas divinas se estabeleceram entre nós? A essas perguntas tento buscar razões bem fundadas.

Parto da tese oficial, confirmada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) na “Constituição Dogmática Dei Verbum” que a revelação é mais que comunicação de verdades. É a intercomunicação de Deus assim como é (n.2). Ora, se isso é verdade, significa que revelação é sempre autocomunicação  das três pessoas divinas, Pai, Filho e Espírito Santo. Não pode ser apenas do Espírito Santo e do Filho. O Pai deve entrar também, até por um efeito sinfônico e harmonioso de toda a revelação divina.

Ora, diz-se em teologia que o Pai é o mistério absoluto sem-nome, que continuamente está trabalhando  ao fazer surgir e ao sustentar a criação dizendo, a cada momento, o seu “fiat” (faça-se!), caso contrário ela voltaria ao nada. Note-se, São José apresenta características adequadas à a natureza do Pai celeste. Ele, São José não fala, quem fala é o Verbo, ele vive no silêncio abissal e sua principal atividade é trabalhar, como atesta Jesus:”Meu Pai trabalha até agora (Jo 5,17) como José também o faz. Se há alguém a quem o Pai poderia armar sua tenda e morar entre nós, José de Nazaré, seria essa pessoa. O Papa João Paulo II em sua Exortação Apostólica sobre São José, Redemptoris Custos (1989) acenou para o fato de que “a paternidade humana de José” foi assumida no ato da encarnação de Deus (n.21).

Diz um clássico ditado da teologia: “Deus potuit, decuit, ergo fecit”:” Deus podia,era conveniente e, portanto, fez”. Assim que o Pai celeste podia se personificar em José, era conveniente que o fizesse e, portanto, assim o fez. Efetivamente,nesta compreensão minha, o Pai se personificou no pai terrestre, tomou forma humana em José. Faltava essa peça arquitetônica para a plena radiocomunicação de Deus  assim como é, quer dizer, como Trindade, no caso incluindo o Pai.  Esta é a tese fundamental, logicamente, urdida com argumentos da própria teologia que não cabe aqui referir.

A grande lição que tiramos e nisso aprendemos algo a mais de Deus é essa: A Família divina, num momento preciso da história, assumiu a família humana. O Pai se personalizou em José, o Filho em Jesus e o Espírito Santo em Maria.

O Papa Francisco recebeu meu livro em tradução espanhola “São José, a personificação do Pai” e agradeceu transmitindo-me a oração que ele todos os dias faz. Literalmente escreveu e isso pode auxiliar a muitos devotos de São José:

“Quero partilhar com você a oração que, há quarenta nos, recito depois das Laudes:

 Glorioso Patriarca São José, cujo poder consegue tornar possíveis as coisas impossíveis, vinde em minha ajuda nestes momentos de angústia e de dificuldade. Tomais sob a vossa proteção as situações tão graves e difíceis que Vos confio,para que obtenham uma solução feliz. Meu amado Pai, toda a minha confiança está colocada em Vós. Que não se diga que eu Vos invoquei em vão, e dado que tudo podeis junto a Jesus e a Maria, mostrai-me que a vossa bondade é tão grande como o vosso poder. Amém.

Esta oração de já 40 anos, parece adequada para os dias sombrios vividos e sofridos por toda a humanidade. Junto com a ciência, a técnica e todos os demais  cuidados, a oração vale como um supplément d’ame  que nos pode valer muito, pelo menos, alimentar a esperança esperante.

 

Leonardo Boff é teólogo e escreveu: São José, a personificação do Pai” Editora Vozes, Petrópolis  2005.

 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

OS DOIS PAPAS E O PAPA FRANCISCO




                    por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Dirá o leitor que muito já se falou e escreveu sobre o filme de Fernando Meireles, “Os dois Papas”.  E tem razão.  Trata-se, porém, de assunto importante, não só pela relevância que ainda têm a Igreja Católica e o Cristianismo, especialmente no Ocidente.  Mas também pelo fato de que hoje Francisco de Roma é o único líder mundial capaz de chamar a atenção de pessoas de dentro e de fora da Igreja que governa; e de convocar mentes e corações urbi et orbi. 

            Não surpreende, portanto, que um filme sobre sua pessoa desperte interesse e suscite diversas leituras e opiniões. Destaco entre os muitos comentários feitos aqui e ali o magnífico texto de Leonardo Boff, recentemente publicado.  Destaco igualmente impressões de alguns ateus, jornalistas e intelectuais, maravilhados com o filme.  Não destacaria tanto os comentários de algumas figuras de dentro da Igreja que conseguem ver nesta obra cinematográfica de inegável valor apenas inexatidões e parcialidades. 

            Desde o início, o diretor adverte: este é um filme de ficção baseado em fatos reais.  Assim como a literatura, toda arte, inclusive a sétima, tem compromisso com a verossimilhança, e não com a verdade tal como é entendida filosoficamente. Sendo assim, a ficção construída a partir da história e seus fatos é perfeitamente legítima. Mesmo quando o assunto é a instituição do papado e a figura do pontífice e supremo pastor da Igreja Católica. 

            Conheci muito breve e superficialmente o cardeal Joseph Ratzinger.  Um cordial aperto de mãos por uma vez.  Posteriormente, em 2012, fui convidada a apresentar em Roma seu recém lançado livro sobre a infância de Jesus.  Aí cumprimentei o Papa Bento XVI, que três meses mais tarde deixaria o mundo perplexo com sua renuncia à sé de Pedro. Porém, anteriormente a tudo isso, conheci a teologia de Joseph Ratzinger.  Estudei por seus livros e tive contato com seu pensamento.  Trata-se, inegavelmente, de um teólogo profundo e refinado. 

            Sua atuação à frente da Congregação para a Doutrina da fé suscitou sentimentos controversos e conflitivos na Igreja pós-conciliar.  Entre os vários processos a que foram submetidos diversos teólogos de todas as latitudes durante sua presidência, o de Leonardo Boff foi por mim vivido mais de perto devido ao fato de ser um teólogo brasileiro e amigo pessoal. O mesmo Boff, porém, com extrema elegância, defende sua atitude correta e sua boa-fé no texto acima mencionado, mostrando que todo juízo sobre fatos e, sobretudo, sobre pessoas deve ser prudente e matizado. 

           Encontrei o cardeal Bergoglio duas vezes, em Buenos Aires.  E ouvi narrativas e comentários não muito airosos sobre sua conduta durante a ditadura argentina, coisa que o filme de Fernando Meireles retrata fielmente. Não deixa de sublinhar, no entanto, a dificuldade que implicava naquele momento a circunstância de ser superior provincial de uma ordem como a Companhia de Jesus.  Bergoglio tomou as decisões que lhe pareceram acertadas. Porém, sua biografia ficou marcada por esse fato.  E quando anunciaram sua eleição confesso que senti muito temor, ao recordar o que me haviam dito amigos da Argentina sobre sua pessoa e atuação.

            O tempo imediatamente posterior à sua eleição encarregou-se de dissipar meus temores. Diante de meus olhos via uma figura rica e perita em humanidade que pedagogicamente ia marcando o caminho de seu pontificado com gestos secundados por palavras que anunciavam novos tempos para a Igreja e para a instituição do Papado.

            Parece-me que o filme de Fernando Meirelles mostra isso com muita felicidade.  Com Francisco, o papado deixa de ser uma instituição difusamente divina e bem pouco humana para mostrar sua face encarnada, compassiva e aterrissada na realidade.  O mate, o futebol, a pizza, o tango são a configuração do papa argentino que veio do fim do mundo e procura desde sua eleição trazer a Igreja de volta ao Evangelho e ao Concílio Vaticano II. 

            O filme é justo com Bento XVI, parece-me.  Mostra o mais importante de seu legado: a lucidez da renúncia para abrir caminho a outro que pudesse lidar com os enormes problemas da Igreja.  E também é justo com Francisco.  Mostra seu perfil consciente dos próprios limites, mas ao mesmo tempo cheio de destemor ao se lançar na empreitada de fazer a reforma da instituição que governa.

            O pontificado de Francisco é um convite a todos nós, católicos, a jamais duvidar da assistência do Espírito Santo à Igreja.  O filme de Fernando Meireles ajuda esse permanente ato de fé. 
            
 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O PAPA FRANCISCO E A LUTA PELA PALAVRA 02




Por Eduardo Hoornaert.

A luta do Papa Francisco por uma palavra evangélica merece ser situada diante de um amplo horizonte histórico. Assim se percebe melhor sua importância. Neste segundo texto acerca da ‘luta pela palavra’, regrido ao século II dC, uma época bem próxima à vida de Jesus, para mostrar que ali já se trava um embate em torno da palavra, algo que tem a ver com a atual luta do Papa Francisco. Embora se possa dizer que toda a história do cristianismo, de certo modo, é uma luta pela palavra evangélica e que a tradição de Jesus, nesse particular, atravessa uma história de sucessos e fracassos, fidelidades e traições, equívocos e acertos, temos de reconhecer que alguns episódios são particularmente significativos. São encruzilhadas. Posições assumidas por muito tempo podem ser abandonadas, novos caminhos trilhados. O Papa Francisco está numa dessas encruzilhadas. Enfim, o que acontece nestes dias na cúpula da igreja católica pode mudar o curso da igreja católica em pontos importantes.

A luta pela Palavra nos inícios do movimento de Jesus.

Os atuais debates em torno do Papa Francisco ganham mais nitidez quando consideramos determinados textos das origens do cristianismo. Quando, por exemplo, voltamos a atenção a textos como o Evangelho de João, que já conserva traços de uma luta pela palavra no seio dos grupos de discípulos na Ásia Menor, apenas 70 anos após a morte de Jesus. Escrito por volta do ano 100, esse evangelho trata de um tema que voltará frequentemente na história do cristianismo, um tema que diferencia o cristianismo dos demais movimentos religiosos da época: o Espírito Santo.

Os evangelhos sinóticos (Marcos dos anos 70, Lucas e Mateus dos anos 80) mencionam também o papel do Espírito Santo na vida de Jesus e se seus discípulos, mas com um realce menor que o de João, que é categórico: o movimento de Jesus é um movimento impulsionado pelo Espírito Santo. O texto fundamental, aqui, narra uma conversa entre Jesus e fariseu Nicodemos, que lemos no capítulo 3 do Evangelho de João. Após desnortear seu interlocutor com considerações aparentemente contraditórias (nascer de novo, etc.), Jesus diz ao fariseu perplexo: o Espírito sopra onde quer. Igual ao vento. Aqui há um eco do Evangelho de Marcos, onde se narra, na nos primeiros versículos do primeiro capítulo, que Jesus, ao subir das águas do Jordão, é imediatamente impulsionado pelo Espírito Santo ao deserto, para um embate de quarenta dias com o Adversário. O Espírito sopra onde quer e leva Jesus para onde quer. No Evangelho de João, quando se aproxima o fim de Jesus, o Espírito Santo aparece como o sustento da comunidade em situações angustiantes. Jesus diz: ele será o ‘Defensor’ (o texto usa o termo ‘Paráclito’) dos discípulos, nas investidas do Adversário que se aproximam: Rogarei ao Pai e ele lhes dará um Defensor a permanecer para sempre com vocês (14, 16); Mas o Defensor lhes ensinará tudo e recordará tudo que eu lhes disse (14, 26); O Espírito da verdade dará testemunho de mim. E vocês também darão testemunho (15, 26); É do interesse de vocês que eu vá embora: pois se não for o Defensor virá a vocês (Jo 16, 7);Quando vier o Espírito da Verdade, ele os conduzirá à plena verdade (16, 13). Jesus confia o futuro do movimento ao Espírito Santo, que ensinará tudo, recordará tudo que eu lhes disse. Podemos dizer que o cristianismo é o Espírito Santo em ação.

É a partir de afirmações tão fortes que teólogos do século II, como Ireneu (ca. 130-202) e Tertuliano (160-220), entendem que o Espírito Santo é ‘unius substantiae’ (da mesma substância) do Filho Jesus, ‘igual ao Filho’ (palavras de Tertuliano em seu escrito ‘Contra Práxeas’). Não há nada, na história do cristianismo, que se compare a esse reconhecimento: o Espírito Santo faz parte da divindade. Isso significa que Deus age que nem um vento ‘que sopra onde quer’. Não há como captar o cristianismo em regulamentos doutrinários e morais. Ele escapa sempre, como o vento, e abre um campo de liberdade, criatividade, inovação, ação revolucionária, profetismo. O Defensor quebra paradigmas universalmente em vigor, derruba cânones e regulamentos, abre horizontes de liberdade. Com ele, o profetismo cristão entra na lista dos movimentos revolucionários, a sacudir a inércia, causar perturbação e insegurança nos que procuram canalizar o movimento de Jesus. Tertuliano, no final do século II, expressa essa ideia com palavras lapidares: ‘quem expulsa a profecia, afugenta o Paráclito’ (prophetiam expullit, Paracletum fugavit).

Com essas considerações abrimos o rol de inúmeras tensões e frequentes conflitos que marcam a história do cristianismo. Aqui, no intuito de reforçar a importância da atual luta do Papa Francisco, comento dois episódios marcantes do século II dC: o caso de Marcião e o caso de Montano, ambos considerados em torno do tema da luta pela Palavra do Espírito Santo.

A palavra do Espírito Santo: Marcião.

O caso de Marcião, ocorrido entre 120 e 144 dC, ilustra bem o que acabo de escrever. Conto brevemente a história, mas antes advirto: toda a documentação disponível em torno de Marcião está imbuída de um forte teor de repulsa diante daquele que será, por longos séculos, considerado o ‘pai dos hereges’, o primeiro grande herege. Temos, pois, que ler essa documentação com espírito crítico e nos deixar guiar, por exemplo, por historiadores do quilate de Adolfo von Harnack, que, em sua ‘História dos Dogmas’, em que descreve a formação do dogma cristão nos três primeiros séculos, assume a postura crítica que se espera de um bom historiador.

Por volta de 120 dC, apenas noventa anos após a morte de Jesus, aparece em Roma um cristão vindo do Oriente do Império, chamado Marcião de Sínope, um importante porto marítimo situado no Mar Negro (chamado, na época, de Pontus Euxinos. no norte da atual Turquia). Filho de um rico armador de navios, ele pede licença para ser aceito numa das comunidades cristãs existentes na metrópole e paga, inclusive, uma fiança.
Marcião é uma personalidade marcante. Não gosta do que vê em Roma e manifesta logo sua discordância. Para ele, o Jesus que se venera entre os cristãos romanos não corresponde ao Jesus de Nazaré. Como se pode praticar ritos que são próprios dos sacerdotes romanos, se Jesus não gosta de sacerdotes? Como se pode seguir regulamentos, se Jesus não liga para regulamentos, não se importa com questões de pureza e impureza, não lembra a obrigação de ‘subir’ ao Templo para as festas, não insiste no pagamento de impostos estipulados pelas autoridades, enfim, não segue as prescrições legais? Jesus fala em pão, casa, filhos, sustento da família, idosos, produção agrícola, trabalho de cada dia. Eis o que importa para ele. Alerta diante do perigo do enriquecimento (‘não se pode servir a dois senhores’) e ensina que é preciso estar sempre disposto a servir. Marcião não vê nada disso em Roma.

Os fiéis de Roma se assustam, Não encontrando argumentos a contradizer o imigrante do Ponto. Então, para manter a paz entre seus fiéis, os presbíteros resolvem, em 144 dC, devolver a Marcião o dinheiro que ele doou ao se apresentar e pedir que ele se retire de Roma. Decepcionado, o ‘mestre’ vencido regressa para o Ponto onde, longe dos grandes centros, organiza uma igreja, a igreja marcionita, que subsiste até o século VI. Depois desaparece nas brumas da história.

Essa história deixa um gosto amargo na boca. Os cristãos de Roma não conseguem enxergar a ação do Espírito Santo nas palavras e atitudes do imigrante Marcião. A mensagem de Jesus será tão difícil de ser compreendida?

Há de se considerar aqui que, no decorrer do século II, as comunidades cristãs - na medida em que se tornam mais numerosas, com maior número de participantes e maior visibilidade – acolhem pessoas que já não gostam de ver um Jesus tão radicalmente comprometido com os condenados da terra. A tendência é de se alinhar à política do poder do estado, como se pode verificar nos escritos de Justino (100-160 dC), por exemplo. Aparecem diversas tendências. Alguns dizem que o ensino desses mestres prejudica ‘as pessoas simples’ e semeia divisão. Marcião não é o único a ser afastado nesses anos decisivos, a mesma sorte sendo reservada a mestres como Valentino, Taciano e Montano (cuja história conto em seguida). Aparece o termo ‘herege’, que serve para discriminar os que não seguem a linha predominante. Aparecem pastoralistas que, querendo apagar o fogo, aconselham moderação, lutam pela unificação, mas, mesmo assim, concordam em traçar uma linha divisória entre ‘ortodoxos’ e ‘hereges’. Mestres que são exigentes em termos de pobreza e despojamento perdem audiência. O tema Espírito Santo é controverso. Estamos diante de um momento decisivo na história do cristianismo.

A palavra do Espírito Santo: Montano.

Apenas 14 anos após o afastamento de Marcião, em 158 dC, eclode mais um movimento a agitar as mentes dos líderes cristãos durante décadas.

O palco, agora, é a Frígia (centro-oeste da atual Turquia). Um certo Montano, um sacerdote de Cibele convertido ao cristianismo, cria, em Pepusa, uma localidade rural perto de Filadélfia, na Frígia, um movimento de escravos, libertos e trabalhadores rurais da região. Ela vai acompanhado de duas mulheres profetisas, Priscila e Maximila, que – no linguajar da época – falam em línguas, se extasiam e gritam: aparece o Defensor(Paráclito), que se manifesta com gemidos inefáveis (Rm 8, 26) e grita: Abba, Pai (Gl 4, 6). Cita-se o Dito 44 do Evangelho de Tomé: Quem quer que blasfeme contra o Espírito Santo não será perdoado, seja na terra, seja no céu, um Dito que aparece nos evangelhos sinóticos e em textos como o Diatesseron de Taciano, uma frase frequentemente repetida nos primeiros tempos do movimento de Jesus (Harnack, I, 427). Blasfemar contra o Espírito Santo é se desviar do caminho de Jesus. Se o Defensor se revela agora na Frígia, uma região tão desprezada e discriminada quanto a Galileia de Jesus, é prova que ali se pratica a legítima tradição de Jesus.

Antes de continuar, repito aqui o que escrevi acerca da tradição em torno de Marcião: as fontes literárias disponíveis sobre o montanismo estão igualmente recheadas de preconceitos, exageram nos aspectos negativos, tratam o montanismo como se fosse uma heresia.

Pesquisas sérias apuraram que se trata aqui de um movimento de gente pobre, escrava, liberta, gente do campo, iletrada, que retoma textos do Evangelho de João como os que citei acima (Jo 14, 16; 14, 26; 15, 26; 16, 7) e os aplica a Montano, Priscila, Maximila. O Espírito Santo lhes dita o que têm a dizer. Palavras que alimentem a esperança dos pobres, ditas de modo livre imaginoso. Assim, a profetisa Priscila, com ingênua ousadia, se diz Cristo aparecido em forma de mulher (Harnack, I, 429). Um mundo de cristofanias e teofanias, com um entusiasmo ainda não abafado, bem ao gosto do povo. O nascimento de Jesus num presépio, os anjos e os pastores, a fuga ao Egito, Jesus entre os doutores em Jerusalém. O menino Jesus brinca com São João Batista, ajuda seu pai São José na carpintaria. Histórias que o povo guarda com carinho e transmite de geração em geração. Os profetas passam pelas comunidades, ensinam as coisas de Jesus de um modo que as pessoas entendem facilmente, são bem acolhidos pela população. Os documentos aludem a uma ‘explosão de profetismo’ no final do século II, que vai muito além da Frígia e atinge largos espaços das partes orientais do Império Romano.

Os intelectuais cristãos, os chamados ‘Padres da Igreja’, não reagem todos do mesmo modo diante do montanismo. Se, de um lado, percebem que o caráter convulsivo das manifestações pró e contra Montano demonstra que algo está errado com o sistema que se pretende implantar no movimento cristão, de outro lado ficam intimidados com a força de uma reação por parte dos bispos. Como acontece frequentemente na história da humanidade, os mais organizados vencem a parada. No caso do montanismo, os bispos são a parte mais organizada. Sua vitória impõe conformidade e silêncio. Muitos intelectuais hesitam e, com o tempo, acabam se conformando. Enquanto Ireneu ainda demonstra simpatia pelo montanismo, Tertuliano é bem mais reticente. Em princípio, ele simpatiza com os montanistas e, com sua pena afiada, escreve a frase lapidar que talvez melhor descreve o valor perene de movimentos como o montanismo e o profetismo em geral: ‘Ubi tres, ibi ecclesia, licet laici: onde se reúnem três, há igreja, mesmo se são leigos’ (Exortação à Castidade). Mas, paradoxalmente, Tertuliano aceita determinados princípios diametralmente opostos à ideia leiga. Ele aceita a ‘regra apostólica’, a ‘sucessão apostólica’, a ‘reserva exclusiva’, além de concordar com a ideia que o tempo da revelação do Espirito Santo teria expirado com a morte do último apóstolo. Efim, ele acaba pendendo do lado do ‘apostólico’. Segundo von Harnack, essa contradição em Tertuliano se deve ‘a uma convicção não cristã, mas romana, segundo a qual toda religião postula leis firmes e ordenações estáveis’ (Harnack I, 434).

Por volta de 177, o montanismo alcança Roma, onde suscita controvérsias. Ali aparece um certo Praxeas, ‘confessor’ proveniente da Frígia, que vem predispor o bispo local (ainda não se fala em papa) contra o ‘Paráclito’. A repressão é rápida. Quatro bispos romanos sucessivos se pronunciam contra o ‘Paráclito’ (Harnack I, 742) e são logo acompanhados por bispos da Ásia, que cerram fileiras contra Montano. Por volta do ano 200 dC se percebe um recuo dos profetas e um avanço dos bispos. Os primeiros Sínodos episcopais da história do cristianismo são dirigidos contra o montanismo. O tom dos textos conservados é ríspido e severo, tende a desmoralizar os profetas, que só estariam dizendo bobagem, coisas sem sentido, confundindo os fiéis, espalhando ideias contraditórias, agitando as comunidades, desorientando e fanatizando. Significativa a omissão do termo ‘profeta’ e a insistência no termo ‘apóstolo’. Apóstolos contra profetas, eis a questão. Apóstolos apresentados como herdeiros de uma missão recebida de Jesus, que atravessa a história por meio da ‘sucessão apostólica’, de uma dinastia de bispos. O bispo é a atualidade, o profeta é o passado. Os profetas antigos, como Isaías, Jeremias e outros, terminam sua missão com a morte do último apóstolo. Não há mais profetas. Os apóstolos herdam a missão profética.

Em tudo isso, não se pode esquecer que os textos desses primeiros Sínodos são redigidos ‘no calor da hora’, ou seja, marcados pelas emoções do momento. Emoções claramente anti-montanistas, anti-Paráclito. O historiador não atribui a esse tipo de textos um valor além do que ressalta de uma análise contextualizada. Quando os Sínodos afirmam que só os apóstolos são mediadores da revelação, eles estão em guerra contra um movimento que pretende o contrário. Em outras palavras, o confronto com o montanismo postula uma interpretação a ser realizada dentro do princípio do contexto (Harnack, II, 387). Seja como for, a restrita atribuição da revelação ao universo ‘apostólico’ e a retirada de credenciais ao ‘profético’ acabam convencendo muita gente. A ‘auctoritas scripta’ (predominância da tradição escrita sobre a tradição oral) vence as falas de gente iletrada, as falas de Montano, Priscila, Maximila. Por trás, se desvaloriza a ação do Espírito Santo na história, e isso é muito sério.

Nesse sentido se pode dizer que o Credo de Niceia (do ano 325) segue uma conduta já traçada pelos Sínodos do início do século III. Nele, toda a atenção se concentra na figura de Jesus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ‘Theon ek Theou’ (Deus de Deus). Só no final parece, como se fosse um apêndice, a frase ‘kai eis to Agion Pneuma’ (e também no Espírito Santo). E ponto final (o Credo de Calcedônia, no final do século IV, acrescenta: ‘que falou pelos profetas’). Medo de uma igreja por demais profética? De uma igreja liderada por ‘mestres’ livres, diretamente inspirados pelo Espírito Santo? Da influência do ‘mestre’ Ario de Alexandria, contra quem se dirigem todas as baterias em Niceia? Os bispos vêm acompanhados por sacerdotes intérpretes de textos bíblicos. Não há registro da presença de ‘mestres’ (profetas) no Concílio de Niceia, que consagra a vitória dos sacerdotes ‘apostólicos’ sobre os mestres ‘espirituais’.

A Palavra do Espírito Santo: o Papa Francisco.

Eis o que vale rememorar hoje, no embate entre o papa e alguns cardeais. Vale rememorar que o movimento montanista provoca uma divisão de águas no organograma da igreja cristã. Há um antes e um depois da intervenção episcopal daqueles tempos remotos. Muda a política global da instituição cristã. Como escreve Adolfo von Harnack em sua ‘História dos Dogmas’, o que acontece no final do século II determina o curso ulterior do cristianismo. E, de modo ainda mais pungente: a primeira ortodoxia vira heresia. O corpo episcopal toma oficialmente conta dos destinos da tradição cristã, e os resultados dessa decisão perduram até nossos dias. Bispos contra profetas, palavras de ordem contra o Espírito Santo.

À primeira vista, a história do Papa Francisco tem nada a ver com histórias tão antigas como a de Marcião e Montano. Além disso, o atual Papa não costuma evocar o tema do Espírito Santo. Mas não se pode deixar de observar o seguinte: o atual papa não se projeta propriamente como líder de uma religião peculiar, mas como interlocutor em questões que atingem a sociedade humana em geral. Isso é muito importante. É um sinal do Espírito Santo que sopra onde quer.

Num texto que publiquei em meu blog dois meses atrás sob o mesmo título ‘O Papa Francisco e a Luta pela Palavra’, chamei a atenção ao fato que Francisco fala em ‘não julgar’, ‘dar preferência a processos’, ‘ser igreja em saída’, ‘não insistir sempre nas mesmas questões’, etc.  Embora essas expressões esporádicas não explicitem uma tese, penso que não se pode ignorar que Francisco não sai em defesa de ‘princípios católicos’, como fizeram seus antecessores desde o surgimento da Idade Moderna, não aborda temas como ‘tradição apostólica’, ‘sucessão apostólica’ (bispos sucessores dos apóstolos), ‘reserva apostólica’ (a revelação divina reservada aos apóstolos e seus sucessores), os temas de um embate entre bispos e montanistas no início do século III, largamente integrados na tradição da oficialidade cristã. Ele se move num outro patamar.

Se é para evocar aqui essa antiga contenda entre o ‘profético’ e o ‘apostólico’, como faço nestas páginas, há de se dizer que Francisco está do lado do ‘profético’, do ‘Paráclito’, do Espírito Santo. Suas palavras abandonam lugares comuns, desde muito integrados no discurso da oficialidade cristã e isso causa estranheza em muita gente, enquanto cria distância diante do que dizem cardeais como Müller, Brandmüller e Burke, que dizem as coisas de sempre, fáceis de serem entendidas pela maioria dos católicos. Pois a história ensina que, quando uma mesma narrativa se repete ao longo de séculos por meio dos mesmos gestos, das mesmas palavras, das mesmas imagens e dos mesmos ritos, a mente humana passa a considerá-la normal e até normativa. Assimila essa narrativa e dela se apropria. Estamos tão habituados a ver mitras e estolas, capas e casulas, báculos episcopais e invocações solenes, preces codificadas sempre repetidas, estamos tão acostumados a ver o papa falar do evangelho num dos mais suntuosos cenários da Europa Ocidental, que achamos isso normal. A luta pela palavra evangélica é ingrata e dura. Palavras ‘fáceis’, sempre repetidas, garantem sucesso político. Isso em contraste com o Papa Francisco, que opta por palavras ‘difíceis’. Como as do Espírito Santo.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O PAPA FRANCISCO E A LUTA PELA PALAVRA (1)




Por Eduardo Hoornaert

De que modo o Papa Francisco faz uso da palavra? Ela indica, designa, afirma/nega, ou, pelo contrário, não designa nem indica, mas questiona, suscita dúvidas? É uma palavra ‘fácil’ ou ‘difícil’? Mal se avalia a importância dessa questão. O que acontece nestes dias entre o Papa Francisco e alguns dos Cardeais ‘dissidentes’ configura uma luta que, afinal, ultrapassa as contingências do papado católico e mesmo do cristianismo, para alcançar a questão global do tipo de convivência que estamos construindo nas sociedades em que vivemos.

A palavra fácil.

Os primeiros anos do Papa Francisco foram relativamente tranquilos. Ele pronunciava palavras que agradavam a muitos, dentro de fora da igreja. Até brincava com palavras. Virou um papa ‘pop’. Mas com os dois Sínodos sobre a Família (2014 e 2015), a maré começou a virar e se ouviu dizer que ele é um Papa ‘de palavras difíceis’. O mesmo aconteceu com o texto Amoris Laetitia de 2016. Palavras inusitadas para um papa, que suscitaram dúvidas e inseguranças.

A frente anti-Francisco, que se revela com crescente desenvoltura, costuma usar palavras designativas, como demonstro em seguida por meio de alguns exemplos de declarações recentes, pronunciadas por cardeais ou outras autoridades políticas, e que realço aqui usando letras em negrito.

- Num encontro na Plaza del Duomo em Milão, no dia 20 de maio pp., Matteo Salvini, que acaba de ganhar as eleições presidenciais na Itália com mais de 34 % dos votos, discordou abertamente da palavra do Papa, que disse, num encontro no dia 18 do mesmo mês com jornalistas: O Mediterrâneo está se tornando um cemitério. Na presença de Marine Le Pen da França (a extrema direita que acaba de crescer na França nas eleições de 26/05), e Geert Wilders da Holanda, Salvini beijou um rosário e contestou diretamente o Papa declarando: ‘À Sua Santidade eu digo que a política deste governo está eliminando os mortos no Mediterrâneo com eficiência e caridade cristã’. Numa outra oportunidade, ele mostrou uma camiseta na qual figuram as palavras: ‘meu papa é Bento (XVI)’.

- O Sr. Steve Bannon, ex-assessor de Trump nas eleições de 2017, dá mostras de querer dirigir seus holofotes para a Itália de Salvini Tem um plano ambicioso na cabeça: fundar uma ‘Escola de novos gladiadores em defesa do Ocidente’, para formar líderes católicos nacionalistas e populistas, intitulado ‘Instituto Dignitatis Humanae’. Para tanto, ele tentou estabelecer tal Escola num antigo Mosteiro de cartuxos (fundado em 1204) nas montanhas de Trisulti, a uma hora de carro de Roma. A assistência eclesiástica seria dado pelo Cardeal americano Raymond Burke. Pelo momento, ele está com problemas com o fisco, mas não parece que ele pensa em abdicar do plano. De qualquer modo, em relação Papa Francisco ele é direto: ‘O papa é o inimigo’.

- O Cardeal Burke, que acabei de mencionar, pronunciou, no dia 18 de maio pp., uma palestra na Universidade Angelicum de Roma, que foi transmitida pela TV CNS (Community Network Services), um canal abrangência mundial, em que voltou ao tema da imigração. Afirmou que essa imigração deve ser entendida dentro do quadro geral de um movimento que ‘constitui uma invasão muçulmana no mundo ocidental’. E explica: ‘O Islãse vê destinado a governar o mundo’. ‘Isso ameaça a cultura verdadeira que consiste no respeito pela vida, respeito pela moral sexual e culto devido a Deus’. Por isso, ‘limitar a imigração massiva muçulmana é um exercício responsável de patriotismo’. E, na mesma linha: ‘desobedecer ao papa é um dever, caso ele exercer seu poder de modo pecaminoso’.

- O Cardeal alemão Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, entra no coro com palavras não menos contundentes: ‘as palavras do Papa não sãopalavras de um estadista. O papa não resolve nada, não decide nada’. Nisso, ele comenta a famosa frase do Papa Francisco quem sou eu para impedir a um homossexual de se aproximar de Deus?, para insinuar que o papa seria adepto de permissividade sexual. Ora, insiste Müller, quem sente atração por uma pessoa do mesmo sexo tem de guardar a castidade. Senão, afirma ele, ele adere, sabendo ou não, ao movimento gay, que é de caráter totalitário e intenta desconstruir a família. O discurso do Cardeal Müller estabelece, pois, uma ligação entre permissividade homossexual e totalitarismo.

Aqui, o Cardeal tenta arrastar o Papa para a arena de uma contenda com a opinião pública que, sempre mais, considera o casamento gay como algo normal. Segundo investigações da Organização das Nações Unidas (ONU), os menores de quarenta anos (os chamados ‘millenians’) consideram a orientação sexual como um dos traços variáveis do ser humano, sem maiores considerações de ordem moral. Assim como a cor da pele, a nacionalidade, etc.

Os cardeais que citei acima deixam entender que se sentem irritados com determinados gestos do Papa Francisco. Eles o consideram um ‘populista’, que manda parar o papamóvel para abraçar um doente em seu carrinho, visita padres casados, oferece carona a refugiados em Roma, conversa com ortodoxos, judeus, islamitas, e até ateus, beija a face de um cego, lava os pés de criminosos presos, figura em fotos ao lado de camponeses peruanos e indígenas colombianos. Decididamente, Francisco nem sempre demonstra a moderação que convém ao cargo. Parece se deixar levar por ‘extremos’. Não se revela um líder sensato, de discursos razoáveis e ponderados.

Coisa mais insidiosa aparece em abril 2019. O Papa resignatário Bento XVI estaria segurando a bandeira de uma oposição não confessa ao Papa Francisco. O estopim foi um texto, intitulado ‘Reflexões’, que Bento XVI mandou entregar, em final de fevereiro de 2019, ao Papa Francisco e ao Secretário do Estado Cardeal Pietro Parolin. Nesse texto, Bento XVI atribui a pedofilia no clero à ‘frouxidão doutrinal e a atitudes laxistas frente a homossexuais’. Como nem o Papa, nem o Cardeal Secretário reagiram diante de tais ‘Reflexões’, elas foram entregues aos grandes meios de comunicação no mês de abril. Como escrevi acima, Salvini aproveitou da confusão para exibir uma camiseta com os dizeres: ‘Meu papa é Bento’.

Por que tanto redemoinho? Em que sentido a palavra do Papa Francisco incomoda?

A palavra difícil.

O Papa Francisco incomoda por pronunciar palavras difíceis. Cito aqui algumas.

1. Quem sou eu para julgar?

A frase foi pronunciada no avião de volta da Jornada da Juventude no Rio de Janeiro em 2013, poucos meses depois da eleição. Continua sendo, até hoje, a mais famosa frase do Papa Francisco: Quem sou eu para impedir um homossexual de se aproximar de Deus?Uma frase que implica que seus ouvintes tenham a capacidade de fazer uma leitura contextualizada dos trechos do Antigo Testamento que tratam da assim chamada ‘sodomia’, como Gn 19, 15 (Ihwh faz cair uma chuva de súlfur sobre Sodoma); Lv 18, 22 e 20, 13 (que contém uma condenação formal da ‘sodomia’) e 2Sm 1, 26 (onde se comenta o amor homossexual entre Davi e Jônatas). O discurso do papa pressupõe, pois, gente disposta a refletir, estudar, se aprofundar.

2. Não se deve dar preferência a espaços de poder frente aos tempos, por vezes largos, dos processos. Nosso poder consiste em colocar em marcha processos, mais que ocupar espaços.

Outra frase nada fácil, pois ela sugere a capacidade de se operar uma mudança radical na pastoral da igreja católica, tal qual foi concebida e realizada desde a Idade Média. Uma pastoral que consiste basicamente em ‘ocupar espaços’, tanto territoriais (a paróquia) quanto institucionais (capelanias, assistências eclesiásticas, diretorias, assessorias), tanto imaginários quanto políticos. Vejamos em detalhes como isso foi concebido na Idade Média e vigora até hoje:

- O controle dos tempos da vida. Do berço à morte, o homem vive sob o controle da religião católica. A hora, o dia, a semana, o ano, a vida, tudo é ‘eclesiástico’.

- O controle do espaço físico. Não chega a ser total, pois sempre existiram grupos que conseguiam escapar e viver em espaços próprios, como, na Idade Média, os boêmios, os goliardos (sacerdotes vagantes) e, de certa forma, os devotos nas confrarias, e hoje muitos leigos. Esses espaços livres, contudo, nunca rivalizaram nem de longe com a rede de instituições controladas pelo clero: cristandade, diocese, paróquia, santuários.

- Um terceiro espaço ocupado pelo estado eclesiástico é o do ensino. Na Idade Média, a única formação intelectual era eclesiástica. Nas escolas episcopais e monásticas não se estudavam ciências humanas como antropologia, sociologia, psicologia, história, muito menos ciências positivas como física, química, biologia etc. Mas, em contrapartida, a teologia nas Universidades era extremamente racional e fomentava o espírito científico, o que criou um espaço para o posterior cultivo das ciências modernas. Mas, de qualquer modo, o clero manteve ao longo de muitos séculos o monopólio da escrita. Ser letrado significou, antes da Revolução Francesa, ser clérigo.

- Um quarto espaço controlado pelo estado eclesiástico é o da comunicação de massa. Na Idade Média, quem diz mídia, diz igreja. A Igreja Catedral domina a cidade, a Igreja Paroquial domina a aldeia. Catedral episcopal e igreja paroquial constituem os instrumentos midiáticos mais ostensivos da sociedade. A população mora em torno da igreja. Em certos casos, a catedral é tão espaçosa que a população inteira nela cabe (como em Paris). Todos contemplam o bispo e sua corte litúrgica, ficam impressionados com tanta exibição de poder e majestade. É através desses instrumentos midiáticos que o estado eclesiástico controla a moral dos habitantes, concretamente através da catequese, do sermão e da confissão auricular. Chega a controlar laços de parentesco, valorizando o padrinho de batismo diante do pai biológico.

- Um quinto setor público ocupado pelo estado eclesiástico é o da saúde pública. Sucesso garantido: hospícios monásticos nos inícios e em seguida hospitais nas cidades. Nesse setor operaram, com notável competência, as ordens femininas. Elas compunham a imagem pública da sociedade, não só nas cidades maiores, mas também nas aldeias, principalmente nas terras controladas por ordens monásticas.

- Finalmente, o clero exerceu, durante séculos, controle sobre a morte das pessoas. A onipresença do espectro do inferno, sendo que só o clero tem condições de salvar as almas do inferno, abrir as portas do céu, ou pelo menos do purgatório. O clero providencia o enterro no cemitério em torno da igreja paroquial, sendo que a freguesia toda sabe que um dia vai ‘repousar’ em torno dela.

Diante de tão impressionante painel histórico, o Papa Francisco tem a coragem para dizer: Não se deve dar preferência a espaços de poder. Trata-se de incentivar processos, dinamizar a ação, colocar a igreja em marcha: Nosso poder consiste em colocar em marcha processos, mais que ocupar espaços. Para avançar na construção de um povo, o tempo é superior ao espaço.

Abandonar a ideia da centralidade da igreja na construção da sociedade, dar a César o que é de César, não querer ocupar todos os espaços, colocar em marcha processos? Militar na construção da justiça e da misericórdia, do encontro e do diálogo? Eis um programa para valer. Nisso, todos são convocados: crentes e descrentes, católicos e ateus, cristãos e islamitas, comunistas e liberais.

3. A igreja em saída.

Abandonar a pastoral sedentária, andar pelos caminhos do mundo, deixar de lado a pastoral sedentária. Francisco não estará sugerindo que se abandone uma pastoral quase unicamente centrada na ‘administração (paroquial) dos sacramentos, que ela seja gradativamente abandonada, em benefício de uma pastoral em saída, missionária? Ora, a pastoral sacramental tem o peso de séculos. O trabalho sacramental na paróquia constitui a própria razão de ser dos vigários. Sendo habilitados a administrar sacramentos e tendo em mãos os meios de salvação dos paroquianos, os sacerdotes detêm um poder considerável. Pois, embora a teologia ensine que os sacramentos são sinais do amor de Deus, eles são vividos, durante séculos, num enquadramento de intimidação, de medo do inferno, da rejeição social, da discriminação. Durante séculos, ao guardar o monopólio dos sacramentos, considerados indispensáveis à salvação, o estado eclesiástico suscita na população o terror diante das penas do inferno, como comprovam sermonários antigos, revelados pela pesquisa histórica. Os pregadores empurram os recalcitrantes aos sacramentos.

Mas, com o tempo, o medo do inferno vai cedendo. Pessoas mais formadas se declaram independentes e abrem um novo espaço. Antes da Revolução Francesa, por exemplo, mais de 90% dos franceses iam à missa todos os domingos. Vinte anos depois, o número era de 20%. Antes da Revolução, os que não recebiam os sacramentos eram fichados na polícia e tratados como suspeitos. Tudo mudou em poucos anos, o que mostra que estava em marcha um processo amadurecido.

Ao falar em igreja em saída, o Papa constata implicitamente que hoje já não se frequentam os sacramentos como antes. É de se lamentar, sem dúvida, pois – afinal - os sacramentos são gestos de Deus bondoso e misericordioso. Mas eles foram manipulados pelo estado eclesiástico durante séculos, o que faz compreender a atual reação contra sentimentos de dependência e obediência, a favor da liberdade.

O Papa sabe que, na mente de grande parte do clero, a diminuição da prática sacramental é interpretada como uma decadência. Alguns clérigos perdem a necessária motivação para continuar em trabalhos paroquiais. Para outros, os sacramentos continuam sendo o caminho de seu relacionamento com o povo, a motivação principal de seu trabalho. Muitos ainda entendem que o sacerdote está na paróquia para celebrar os sacramentos. Para eles, a perda de frequência aos sacramentos, por parte dos leigos, chega a ser algo dramático. Mesmo assim, Papa Francisco bate duro: paróquia não é cartório.

4. Não podemos continuar insistindo só em questões referentes ao aborto, ao casamento homossexual e ao uso de contraceptivos

Uma das artimanhas de um sistema político consiste na articulação do ‘discurso de desvio’. Questões laterais são insistentemente abordadas, enquanto se deixa a passagem livre para operações políticas nada favoráveis à maioria da população. Sem desmerecer a importância das discussões sobre aborto, casamento homossexual, uso de contraceptivos, imigração, há de se dizer que elas podem ocultar o que está realmente acontecendo nas atuais sociedades: a transferência da ‘riqueza das nações’ para as contas bancárias de poucos indivíduos extremamente ricos. Enquanto a TV enche os noticiários com assuntos de moral, a depredação da riqueza de grande maioria da população, em benefício de poucos, prossegue seu livre curso. A crescente desigualdade social não aparece no discurso hegemônico. Não se fala em controle fiscal das riquezas de grandes consórcios financeiros, não se fala em imposto progressivo. Fala-se em ‘imposto fixo’ (flat tax), igual para todos, com isenções que não aparecem na tela.

O Papa, embora não fuja de temas como migração, pedofilia, etc., detecta um movimento de desvio no modo em que esses temas costumam ser abordados nos noticiários. No tocante à pedofilia no clero, ele tem a lucidez e a coragem de afirmar que não basta elaborar regulamentos punitivos, mas que precisa encarar o encobrimento de crimes clericais, uma prática generalizada, como comprovam os noticiários. Esse encobrimento não é algo casual, expressa o funcionamento real do estado eclesiástico. Aqui, Francisco encara, com certo temor, um sistema que se formou ao longo de séculos, o paradigma do ‘bem da igreja’, um poder que praticamente se identifica com a igreja. Nos documentos oficiais de autoridades eclesiásticas, pode-se substituir o termo ‘igreja’ por ‘estado eclesiástico’. O sentido permanece o mesmo. Alguns milhares de pessoas representam 1,3 bilhão de pessoas, ou seja, aos católicos espalhados pelo mundo. Ao tomar resolutamente partido por essa maioria, Francisco não tem por onde fugir: ele tem de encarar o sistema eclesiástico. Ele tem de saber resistir à maioria do clero, ao stablishment da Cúria Romana.

Com passos calculados, ele afirma, no recente Decreto ‘Praedicate Evangelium’, editado em maio 2019, que a Cúria Romana não é um órgão a ‘auxiliar o papa na administração da igreja’, mas um órgão missionário, a serviço da igreja em saída. Não é pouca coisa, pois com isso o Papa enfrenta regulamentos que remontam ao ano 1588, logo depois do Concílio de Trento, quando se estruturou a Cúria como organizadora do poder central católico frente ao luteranismo e outros movimentos centrífugas. Regulamentos não revogados na reforma da Cúria empreendida em 1988 pelo Papa João Paulo II (‘Pastor Bonus’). No momento em que Francisco declara que a Cúria Romana deve estar ‘ a serviço do colégio episcopal’ no tocante à evangelização e à missão, ele provoca uma turbulência de resultados imprevisíveis.

5. Lutero não se equivocou, o Islã pode ser considerado uma ‘verdadeira religião’, o divorciado pode participar da eucaristia, o celibato pode ser questionado, a mulher merece um lugar mais importante na igreja, há aborto e aborto, a união entre homossexuais não é, em si, pecaminosa.

Quem sou eu para julgar o posicionamento de Lutero? Quem sou eu para me pronunciar sobre o Islã? Quem sou eu para mexer com a vida de um divorciado? Quem sou eu para dizer à mulher quantos filhos ela deve ter e como ela tem de se comportar na igreja? Quem sou seu para dizer que o sacerdote deve ser necessariamente um celibatário? (Quem sou eu para dizer que o candomblé não é uma ‘verdadeira religião’?).

Palavras diametralmente opostas a um discurso hoje hegemônico nos grandes meios de comunicação e que o escritor americano Samuel Huntington resume na expressão ‘conflito de civilizações’. Enquanto assessores de líderes mundiais confidenciam que um enfrentamento global entre superpotências está na agenda e enquanto se realizam articulações em vista a uma ‘terceira guerra mundial’, o Papa sinaliza que é possível apagar os focos da terceira guerra mundial por meio de uma política de ‘encontro entre as civilizações’. Esse seu posicionamento é importante, pois sua voz é potencialmente ouvida por não menos de 1,3 bilhão de pessoas (os católicos), o que não é pouca coisa, para não contar os que não são católicos e ouvem o papa.

6. O Lawfare, além de colocar a democracia dos países em sério risco, é utilizado para minar os processos políticos emergentes e incentivar a violação sistemática dos direitos sociais.

Pronunciada numa Conferência de Imprensa no dia 4 de junho de 2019, essas palavras do Papa Francisco demonstram que ele está em ‘plena luta pela palavra’. O termo ‘lawfare’, que provém dos anos 1970, significa ‘guerra jurídica’. A lei vira arma política, manobras juridico-legais substituem força armada. Eis o modo pelo qual o poder do estado frequentemente opera em nossos dias, incentivado por vitórias políticas de líderes como Trump, Bolsonaro, Salvini e outros.

Nos primeiros anos de seu pontificado, era principalmente em suas conversas no avião, de volta de uma viagem internacional, que Francisco costumava se ‘soltar’. Como na famosa frase de 2013: quem sou eu para julgar? Ou em 2015, quando ele brincou: os católicos não são obrigados a se reproduzir como coelhos. Ou ainda em 2016, quando ele disse que o então candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, não é cristão (ao prometer construir um muro na fronteira com o México).

Ultimamente, porém, nas coletivas de imprensa a bordo, o Papa está se mostrando mais comedido. A respostas, nestes dias, nada mais são que reiterações de coisas já ditas. Isso parece denotar um crescente clima de tensão nos altos escalões da hierarquia católica. De reconhecidamente espontâneo e aberto, incentivador de debates e disposto a resolver questões difíceis em público, Francisco se mostra ultimamente mais contido. A impressão e que ele se sente acuado. É nesse sentido que o jornalista italiano Marco Politi, um dos melhores conhecedores do Vaticano, escreve que o Papa, atualmente, fica ‘isolado da igreja’ (‘La Solitudine di Francesco’, Editori Laterra, 2019).

A luta pela palavra.

Eis a luta pela palavra em pleno curso. Uma luta que se situa sempre mais num cenário de Lawfare, Fake News, Twitters, enfim, no cenário político criado pelos novos recursos da comunicação eletrônica.

Um exemplo? Na preparação das recentes eleições europeias de 26 de maio de 2019, máquinas produtoras e divulgadoras de Fake News (outro nome de ‘palavra fácil’, ‘palavra que se pretende designativa’) despejaram nada menos de 3 bilhões de falsas notícias nas telas dos eleitores (daria 20 doses para cada eleitor). 30.000 máquinas espalharam durante semanas seu veneno tóxico pela Europa inteira. Ainda bem que os responsáveis por Facebook, Google, You Tube, Instagram e Twitter tenham esboçado uma reação e tenham eliminado 1, 6 bilhão de visualizações (trolls) na Espanha, 100 milhões na França, 900 milhões na Itália, 100 milhões na Alemanha, 200 milhões na Polônia, 100 milhões no Reino Unido. Esse pequeno exemplo mostra que no futuro teremos de ‘lutar por palavras’, a favor do uso correto delas e contra seu abuso para fins interesseiros. Todos e todas sabemos que a Internet veio para ficar e a humanidade terá de lidar com palavras veiculadas por ‘máquinas’ sempre mais potentes e penetrantes na intimidade das mentes.
A sociedade, até hoje, parece meio atordoado com esse novo modo de combate. Daí a conveniência de cavar mais fundo numa questão filosófica: como se transmite (ou não se transmite) a verdade por meio da palavra? A transmissão da palavra e sua relação com a verdade.

Para que você entenda melhor onde quero chegar, realcei acima alguns verbos usados pela ala da hierarquia que se opõe ao Papa, citando-os em negrito: ‘a imigraçãoconstitui uma invasão’; ‘ o Islã se vê destinado a governar o mundo’; ‘o Islã ameaça a cultura verdadeira’; ‘as palavras do Papa Francisco não são palavras de um estadista’; ‘o movimento gay é de caráter totalitário, intenta destruir a família’; ‘a pedofilia provém de frouxidão doutrinal e atitude laxa diante da homossexualidade’. Palavras de ordem designativa.

As expressões usadas pelo Papa Francisco são manifestamente de outra ordem. Como relatei acima, Francisco se expressa por meio de frases como: quem sou eu para julgar?,não se deve dar preferência, a igreja em saída, não podemos continuar insistindo.., Lutero pode estar certo, o divorciado pode participar da eucaristia, etc. Essas duas últimas frases não hão se ser interpretadas num sentido designativo, mas num sentido questionador: ‘será que Lutero está certo? Será que um divorciado pode pensar em participar da eucaristia?’. O mesmo se diga a respeito de conhecidas palavras de Francisco acerca do celibato, da participação de mulheres na igreja, da validade do Islã, da contestação por parte de Lutero, etc.

Enfim, o papa não designa. Ele questiona, exorta, convida, faz refletir. Mas não define.

Qual o sentido dessa diferenciação? O que os filósofos têm a dizer sobre esse tema? Entremos por uns instantes em território filosófico.

Desde Aristóteles, os filósofos, ao tratar da cognição, recomendam cuidados com enunciações designativas. Nem falo de Sócrates que é mais que claro nesse ponto. Ao constatar que nós, humanos, conhecemos por meio da informação, seja direta, por meio dos cinco sentidos, seja indireta, por falas, escritas ou imagens, esses filósofos nos advertem diante dos possíveis engodos causados por enunciações designativas. Aristóteles, em sua ‘Ética’, ao afirmar que a verdade consiste em detectar, numa mensagem recebida, ‘aquilo que é’ (id quod est), não deixa de alertar para o imperativo ético: nem sempre ‘aquilo que é’ me agrada, está em conformidade com meus interesses. Como me comporto diante do que ameaça se contrapor aos meus interesses? Pois não faltam, na vida da gente, imperativos não éticos, interesses pessoais, vantagens financeiras, lutas pelo poder, exercícios do poder, obediência a ordens dadas, compromissos de vida já assumidos, opção por modelos autoritários, ou simplesmente acomodação com situações existentes.

Discursos designativos podem, na realidade, servir para emitir uma ordem, expressar um desejo, uma exortação, um sentimento, uma intuição, uma imaginação, um sonho, um projeto, um cálculo, etc. Revestidos de objetividade, esses discursos não raramente ocultam intencionalidades no sentido de exercer um domínio sobre as mentes, firmar consensos, enfim, exercer poder sobre pessoas.

Como se perpetuam esses consensos ao longo da história? Principalmente pela família. Ela forma um elo de transmissão de mensagens de geração em geração. Como realçou Freud em suas penetrantes análises, discursos emitidos por instâncias que parecem merecer respeito, penetram fundo no seio da família e assim moldam nosso modo de pensar desde a infância. O fator família marca as vidas humanas. Em não poucos casos, as molda definitivamente. Assim afloram dentro de nós sentimentos aparentemente espontâneos, na realidade transmitidos de geração em geração e por isso mesmo pouco controláveis. Quem não estranha ver um passageiro de chinelos entrar num avião? Quem não estranha ver um negro segurar um diploma de estudos universitários ou dirigir um carro de luxo? Reações emocionais difíceis de serem analisadas, mais difíceis ainda de serem superadas. Freud, em seu tempo, apelou para a psicanálise, a fim de penetrar nesse universo. Muitos discursos, emitidos por poderes políticos e econômicos, combinam com o que aprendemos em casa quando éramos crianças. Os imperativos nada éticos que subjazem a esses discursos não são fáceis de serem detectados. Isso torna a vida humana complexa, a busca da liberdade e da autonomia uma verdadeira aventura. Muitos sucumbem no caminho e, de tanto ver televisão, se metem num labirinto tão intricado de informações contraditórias que não encontram mais a saída. Confusos e desorientados, desacostumados a refletir, acabam se rendendo. Não querem mais pensar. Quem contempla o atual cenário cognitivo, verifica com espanto quão facilmente as pessoas se deixam prender nas redes de discursos enganosos. Uma situação que só se explica pela forte adesão emocional a palavras designativas.

Assim compreendemos o fato aparentemente contraditório de pobre votar em rico ou em candidato que defende os interesses dos ricos. Isso tem desnorteado mais de um observador, mas Maquiavel explica o fato dizendo que as pessoas se rendem facilmente a enunciados que lhes parecem confiáveis. Voltaire ainda acrescenta: ‘mentez, mentez toujours: il en restera toujours quelque chose’ (mintam, mintam sempre: algo há de ficar). E Goebbels, ministro da informação do governo nazista, completa: ‘uma mentira repetida mil vezes se torna verdade’. Ninguém passa ileso pela prova da veracidade.

Assim compreendemos que, para um católico comum, fica bem mais fácil entender o Cardeal Burke, o Cardeal Brandmüller ou o Cardeal Müller, que captar o sentido das palavras do Papa Francisco. Os primeiros dispensam um pensamento mais aprofundado, seguem a rotina de palavras sempre repetidas, dizem as coisas de sempre. Nada mais fácil, para um cardeal, que repetir palavras ouvidas pelos católicos desde a infância. Resulta bem mais difícil compreender as palavras de um papa que diz que Lutero não se equivocou, o Islã pode ser uma ‘verdadeira religião’, o divorciado pode participar da eucaristia, o celibato pode ser questionado, a mulher merece um lugar mais importante na igreja, há aborto e aborto, a união entre homossexuais não é, em si, pecaminosa, etc.

Hoje temos, para nos apoiar, os filósofos linguistas, os que, ao longo do século XX, provocaram a ‘reviravolta linguística’, em muitos casos como resposta ao uso da palavra por parte de ditadores europeus, tanto na Rússia como na Alemanha, Itália, Espanha e Portugal. Hoje temos Bakhtin, Ricoeur, Bourdieu, Wittgenstein, Zizek, Noam Chomsky.

Lembro que, em 1945, logo depois do desfecho da Segunda Guerra Mundial, Ludwig Wittgenstein reuniu nada menos de 693 aforismos para nos ajudar a superar a ingenuidade com que discursos designativos costumam ser acolhidos na sociedade. Posteriormente publicados sob o título ‘Investigações filosóficas’ (Vozes, Petrópolis, 2005, 4a ed.; ou ainda: Nova Cultural, São Paulo, 1994. Veja também seu ‘Sobre la Certeza’, Gedisa, Barcelona, 1995), esses aforismos permanecem um remédio eficiente contra a sedução da palavra.

Esses filósofos linguistas, de diversas matizes, nos propõem o exercício constante de limpeza da mente. Há de se tomar um antídoto contra ‘Lawfare’, ‘Fake News’, etc. Ninguém se engane, essas novas técnicas de comunicação vieram para ficar e se desenvolver sempre mais, já que repousam sobre um saber em pleno desenvolvimento, que ainda não revelou todas as suas potencialidades. Vivemos em sociedades cada vez mais ‘informáticas’, onde não só enormes conglomerados informativos derramam sobre nós diariamente um fluxo ininterrupto de informações, mas onde o Twitter também permite que cada um(a) de nós emita, por sua vez, informações e afirmações, a seu bel prazer.

Um exercício constante, uma meditação, momentos de reflexão diária, um exercício contínuo e diário de domínio inteligente sobre o pensamento, tão necessário – ou até mais – que o exercício físico que fazemos diariamente para ficar em forma.

Num texto próximo, sob o mesmo título, me proponho tratar da luta pela palavra nos inícios da história do cristianismo. Isso significa que o Papa Francisco está inserido numa longa história de luta pela palavra evangélica.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.