O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador para. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador para. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Para que este ano novo se torne de fato Novo

 Marcelo Barros


Nestes dias, por todo o mundo, as pessoas dizem umas às outras os votos de feliz ano novo. Há quem acredite que, pelo fato de se falar, o desejo se torna realidade, quase de modo automático. Outros pensam que o próprio desenrolar do tempo faz as coisas ficarem melhores.

Alguns povos tradicionais ainda guardam costumes como, na noite do ano novo, queimar toda a roupa usada e iniciar esse tempo com vestimentas brancas ou novas, símbolo de renovação da vida. Na madrugada do primeiro dia do ano, fieis dos cultos afrodescendentes vão às praias e rios com flores e oferendas aos espíritos do céu e da terra. Em nome de todos os seres humanos, cantam sua disposição de amor e comunhão universal.

As perspectivas de 2023 para o mundo não parecem otimistas. A ambição das grandes potências, o interesse das industrias armamentistas e os projetos imperialistas dos Estados Unidos e da Rússia mantêm a guerra na Ucrânia e garantem outras guerras pelo mundo. A ONU ainda tenta salvar a ecologia a partir de projetos capitalistas como entregar a defesa da natureza a grandes empresas. A água continua sendo tratada como mercadoria a ser privatizada. Mesmo sabendo que as pandemias ameaçam toda a humanidade e ninguém se salva sozinho, a Organização Mundial da Saúde ainda se omite em relação à campanha mundial para que todas as vacinas contra vírus sejam gratuitas e para todos e todas.

Na América Latina, o sonho de uma pátria grande solidária exige mais esforços. A guerra dos meios de comunicação contra qualquer transformação do mundo a favor dos empobrecidos continua implacável.

No Brasil, o ano novo foi marcado pela imagem da posse de um novo governo. Na cerimônia, ficou marcada para a história a imagem de um velho índio, a criança negra, a catadora de material reciclável e mais outras pessoas, representativas da população mais empobrecida ao subir a rampa do palácio do Planalto com o presidente Lula. Tomara que este gesto tão forte de simbolismo não se dilua na cultura vigente que ainda mantém uma separação gritante entre governo e sociedade civil. No dia da posse, o ritual prevê o encontro do Presidente eleito com o Congresso e os poderes constituídos, mas o povo é mantido do lado de lá da cerca armada depois do lençol de água que separa o palácio da população. Parece que ao povo compete apenas acenar e aplaudir.

Para que, no Brasil e no mundo, este ano novo se torne realmente um tempo novo, será necessário firmar as bases de uma sociedade civil organizada a partir da inclusão social e de uma educação para a Paz, a não-violência e o diálogo. Sem dúvida, as religiões que, durante séculos, conviveram com as desigualdades e as injustiças sociais e muitas vezes as legitimaram, têm agora a função de desenvolver uma espiritualidade libertadora que testemunhe Deus como Amor e não como poder opressor.

No Fórum Social, ocorrido em Túnis, na África, em 2015, havia um grande folder no qual estava escrito: "A humanidade precisa de uma verdadeira revolução. Só a nossa ousadia pode torná-la possível". Essa ousadia comunitária parte da convicção de que o amanhã pode ser diferente. Para os cristãos, nos alegra mais ainda a fé de que, nesse caminho, estamos sempre acompanhado por Jesus ressuscitado que disse a seus discípulos/as: "Eu estarei com vocês todos os dias, até que esse tempo se complete" (Mt 28, 20).

 

 

 

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A profecia do Natal para toda a humanidade

 Marcelo Barros


 

No dia 24, véspera da festa do Natal, a liturgia latina costuma repetir um refrão, baseado no livro do Êxodo: “Hoje, todos saberão que o Senhor virá e amanhã verão a sua glória”. “Do mundo, será destruída a iniquidade e sobre nós brilhará a salvação”.

Atualmente, a iniquidade do mundo se tornou mais escandalosa. A desigualdade social se multiplica. Milhões de pessoas são excluídas de condições mínimas de vida sadia. Fome e miséria aumentam. Diariamente, milhares de crianças morrem por não terem acesso à água potável. Além disso, o armamentismo ameaça a própria segurança do planeta. 

O evangelho do Natal nos assegura: “A Palavra divina se faz carne em nós e em todas as criaturas” (Jo 1, 14). Essa palavra ressoa, hoje, no grito surdo da mãe Terra, agredida e ameaçada em suas condições de vida. Ecoa nos campos contaminados pelos agrotóxicos. É o grito sufocado da irmã Água transformada em mercadoria e privatizada.

Essa palavra de dor e de resistência da mãe Terra, da Água e de toda a natureza se faz carne e é acolhida e respondida na luta de resistência de tantas pessoas. Pensemos na luta heroica de tantos/as profissionais da saúde nos tempos mais difíceis da pandemia e ainda hoje. Assim, a resistência dos povos indígenas, dos lavradores sem-terra e dos pequenos agricultores, assim como a organização dos trabalhadores/as das cidades e a sobrevivência de tanta gente sem teto, sem trabalho e sem comida. 

Neste Natal, cantar que será destruída a iniquidade do mundo é profecia que nos anima e nos compromete com a esperança. Esperança vai além das fronteiras da fé cristã. É algo que diz respeito a toda a humanidade. Ao ser palavra de amor para toda a humanidade, a mensagem de Natal nos chama a sermos cada vez mais humanos e cuidadores/as do planeta. Isso significa nos abrir cada vez mais aos outros. Implica em priorizar o diálogo, a convivência; reconhecer a dignidade inviolável das pessoas e de todo ser vivo. Quem não é capaz de aceitar o diferente não sabe o que é Natal.

Jesus de Nazaré se revelou como homem (do gênero masculino), mas acolhe também a dimensão divina do feminino. Revela que Deus é Pai e Mãe e permite que o chamemos de Ele ou Ela. Na realidade do nosso mundo tão ferido por desigualdades sociais, raciais e de gênero, o Natal nos revela os rostos plurais do Espírito. Faz-nos descobrir cada ser humano, homem ou mulher, homo, hetero, ou trans, como imagens do amor divino.

Desde criança, Jesus não é encontrado pelos religiosos de Jerusalém e sim pelos pastores do campo. Manifesta-se não no templo e sim nos barracos e acampamentos, como foi a gruta e a manjedoura de Belém. Assim, hoje, o Espírito, Ventania do Amor Divino,  se revela de formas diversas, mas sempre a partir da comunhão com as pessoas mais vulneráveis.

A Palavra feita carne no Natal nos faz reconhecer a presença divina nas manifestações de todas as culturas e religiões. No Brasil, o Natal nos compromete na defesa das comunidades indígenas e afrodescendentes, na luta pela terra e pelo direito a viver suas culturas e expressões religiosas.

A encarnação de Jesus, celebrada neste Natal, deve nos fazer reconhecer e valorizar a permanente encarnação do Espírito Divino nos terreiros afro e ocas indígenas. Em nosso continente, mais do que o Cristianismo, as religiões negras e indígenas foram instrumentos de resistência cultural. Ajudaram as pessoas escravizadas de ontem e as excluídas de hoje a manter reconhecida a sua dignidade humana. 

O mundo inteiro se transforma em imenso presépio. Não do Menino Jesus que, hoje é o Cristo Ressuscitado que nos vem pelo Espírito. É essa energia materna de amor que cobriu Maria com sua sombra e, hoje, fecunda o universo com seu amor e sua força libertadora.

 

Feliz Natal para você e para todos os seus entes queridos. 

Abraço carinhoso do irmão Marcelo Barros

 

 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Para que este Natal seja novo

 


Marcelo Barros

 

Mesmo se temos muitos motivos de preocupação e estamos encerrando um ano que, em matéria de sofrimentos, não nos poupou, é bom vermos nesta celebração do Natal um apelo à esperança e à renovação da vida. Desde suas origens anteriores ao Cristianismo, por festejar o ciclo solar, o Natal é celebração da luz que vence as trevas, do calor que vence o frio e a morte.

Em um dos evangelhos lidos nas comunidades para preparar o Natal, o profeta João Batista anuncia Jesus como aquele que vem nos mergulhar na ventania do Espírito e no fogo. E fazer com que dentro de nós e no mundo reacendamos o fogo da justiça amorosa, da solidariedade e do cuidado uns com os outros e com a mãe Terra e a natureza.

Neste momento, infelizmente, há muitas pessoas que congelaram o seu coração e parecem não reagir mais às injustiças estruturais do mundo e à desumanidade que nos rodeia. A celebração do Natal não é apenas a simples memória de um aniversário. Deve convocar todas as pessoas humanas, cristãs ou não, religiosas ou não a um renascer da vida que seja um verdadeiro renascer. Aliás, o que significaria nascer, se não fosse para estar abertos a um constante renascer?

Em cada idade física, o ser humano larga uma idade e renasce para outra. Maria Zambrando, filósofa espanhola, ensinava que, como todo animal, o ser humano é mortal. No entanto, o que o caracteriza não é ser mortal e sim ser natal, isso é, chamado a uma permanente renovação do ser e da vida. O poeta Pablo Neruda afirmava: “Nascemos como esboço. É preciso sempre renascer. Nascemos para renascer”. Podemos dizer que renascemos cada vez que realizamos os passos que a vida exige e nos abrimos para uma nova etapa.

O sentido mais profundo da celebração do Natal é abrir nossos corações e nossas vidas para essa perspectiva de uma vida nova, tanto no plano pessoal como de nossas relações e atividades sociais e até políticas. Viver o espírito do Natal é não apenas recordar Belém e o presépio no qual Jesus recém-nascido está rodeado de seus pais e é visitado pelos pobres pastores do campo. Esses relatos do evangelho já foram escritos na perspectiva de nos ajudar a ver no menino que nasce em Belém o Senhor Ressuscitado que, pelo seu Espírito, nos chama a sempre renascer.

Conforme o quarto evangelho, em uma conversa noturna com Nicodemos, um mestre do Judaísmo, Jesus explica: “O que nasce conforme o mundo (ou no modo de falar hebraico: o que nasce da carne) é carne, ou seja, pertence a esse modo de ser do mundo. O que nasce do Espírito, é espírito. Por isso, é preciso nascer do Espírito” (Jo 3, 7).

É preciso compreendermos que esse processo de renovação interior tem suas raízes no mais profundo de cada pessoa mas toma corpo em um modo de viver comunitário. Isso significa assumir a realidade em que vivemos e retomar nossas relações com as pessoas, em um caminho comunitário e de serviço à paz, justiça eco-social e cuidado com a mãe Terra e toda a natureza.

Para que esse renascimento da vida seja possível, é preciso denunciar e combater a política que serve à morte e ao desamor. Dom Oscar Romero, mártir da caminhada libertadora, insistia que a verdadeira espiritualidade consiste em acentuar a dignidade da Política e fazer com que ela se coloque a serviço dos mais pobres e possa ser transformadora.

Neste 2021 e no contexto social e político que vivemos no Brasil, é bom recordar o que os bispos latino-americanos afirmaram no documento de conclusão da 2ª Conferência do episcopado latino-americano em Medellín (1968): "Queremos construir uma Igreja libertadora de toda a humanidade e libertadora de cada ser humano por inteiro, em todas as suas dimensões" (Med. 5, 15).

Se cremos que, no Natal, Jesus assumiu a condição humana com todas as suas fragilidades e problemas, cada celebração do Natal nos convida a sermos pessoas cada vez mais capazes de amar, sempre mais disponíveis ao diálogo e, em tudo, humanas, como Jesus.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 9 de outubro de 2021

Para refletir

 


Prof. Martinho Condini


 

         Estamos a praticamente a um ano das próximas eleições presidenciais, desde que o Estupidossauros  Bolsonaurus não apronte alguma até lá.  E o que estamos ouvindo é que a disputa será polarizada e que o país está rachado. Não, o país está quebrado. Ouvimos falar também que parte da responsabilidade pela condição a qual nos encontramos política e economicamente hoje, é em parte por causa do Partido dos Trabalhadores, que estiveram no comando do país de 2003 a 2016.

         O descontentamento de uma parcela considerável da população brasileira levou ao poder um excremento humano responsável por mais de seiscentos mil mortos pela covid, criou uma rede de corrupção no ministério da saúde na compra de vacinas, ressuscitou a inflação, elevou índice de desemprego (temos um número equivalente a população da Bélgica de desempregados, o Pantanal e a Amazônia nunca queimou tanto na história como nestes últimos 3 anos e perdemos a soberania nacional dentre outras mazelas atribuídas a esse desgoverno. O Brasil  além de perder o respeito conquistado ao longo de sua história,  não é recebido por nenhum chefe de Estado em seus territórios. Ou seja, somos o patinho feio  e põe feio nisso do planeta, além de termos o pior governo republicano da nossa história.

         Para refrescar a memória daqueles que ainda acreditam nesse desgoverno genocida, é bom lembrar que quando se tem vontade política, plano de governo e principalmente compromisso com os mais necessitados se pode fazer muita coisa. Que não é o nosso caso.      Como afirmou o padre Julio Lancelotti não adianta falar em Deus acima de todos e deixar a população passando fome. Bem como termos a miserabilidade da sociedade  aumentando a olhos vistos nas ruas das grandes metrópoles desse país. Não entendo como pessoas que se dizem cristãs apóiam esse desgoverno, só posso concluir que não entenderam  uma única só palavra que Cristo falou em vida. É lamentável esse verme travestido de presidente usar a religião para enganar os inocentes por meio dos pastores condutores do seu gado.  

         Quero esperançar que em 2023 tenhamos um país que volte a ser a 5ª economia do mundo, respeitado pelas principais nações industrializadas, sendo exemplo em políticas Públicas na área da saúde, educação e moradia. Quero ver as pessoas desse país tendo orgulho de ser brasileiro novamente. Perdemos a nossa dignidade, atualmente somos motivos de chacota em qualquer lugar do mundo.

         Estou convencido que esse resgate será possível sim, com muita resistência por parte de brasileiras e brasileiros que acreditam na política como ferramenta de transformação da sociedade.

         Criar 1 milhão de cisternas, construir 400 UPAS, deixar mais 600 UPAS em construção, distribuir milhares de ambulâncias pelo país inteiro, construir 382 escolas técnicas federais, entregar ao país 18 universidades federais, aumentar em 400% o número de pobres, negros e mestiços nas universidades, tirar mais de 36 milhões de pessoas da condição de miseráveis e gerar mais de 15 milhões de empregos, isso é usar a política como instrumento para transformar a socieade, isso é plano de governo, isso é compromisso social com a população brasileira. 

         Esses são números do governo popular e progressista do presidente Luis Inácio Lula da Silva, que nas eleições de 2022 terá a possibilidade de voltar ao poder e colocar o Brasil de novo nos trilhos da dignidade, da justiça social e da soberania nacional.       


 O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com   

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

RITUAIS PARA A FELICIDADE

 Frei Betto 


 

       É preciso saber enxergar um palmo além do chão, da parede, do teto ou mesmo das convicções que nos norteiam. Tudo depende de nossa cabeça. Somos, como seres humanos, aquilo que está gravado em nossa mente – ideias, noções, fantasias, impressões.

       Se fomos educados na crença de que há pessoas superiores a outras devido à cor da pele ou nos deixamos convencer, pela publicidade, que pilotar um carro a 300 km/h é mais nobre que lutar para combater a fome, então nossos atos serão regidos pelo racismo ou pelo culto aos ídolos do consumismo.

       No Ocidente, avançamos em ciência e tecnologia e retrocedemos em valores humanos e espirituais. Atulhados em grandes cidades, trancafiados em apartamentos ou em casas cercadas de muros e prédios por todos os lados, já não contemplamos a natureza. Perdemos o silêncio do indígena que caminha pela floresta em busca de caça e distingue o canto dos pássaros. Ou do viajante que em seu cavalo ou carroça se deixa inebriar pela variedade de tons das encostas e plantações.

Vemos sem olhar, escutamos sem ouvir, falamos sem medir o peso das palavras. A vida, como mistério, declina em nossa falta de sensibilidade. O pragmatismo nos induz, célere, ao rol dos ansiosos, a antessala dos infartados, à mesa dos obesos que engolem sem mastigar.

       A tradição judaica ensina-nos um conjunto de deveres – as mitzuot – que ajudam a impregnar-nos da presença divina. “Nós nos exercitamos em conservar nosso sentimento de admiração, recitando uma oração antes de tomar o alimento”, escreve A.J. Heshel. “Cada vez que bebemos um copo d’água recordamos o eterno mistério da Criação. (...) Quando desejamos comer pão ou fruta, ou então gozar de agradável fragrância ou de um cálice de vinho, ao saborear pela primeira vez a fruta da estação, ao contemplar o arco-íris ou o oceano, ao observar as árvores em flor, ao nos encontrarmos com uma pessoa douta no conhecimento da Torá ou na cultura leiga, ao receber notícias boas ou más, foi-nos ensinado invocar Seu grande nome e nossa consciência dele” (Dio alla ricerca dell’uomo, Turim, 1969).

       Na liturgia cristã, os gestos são lentos para que se permita aprofundar o espírito: o vinho derramado no cálice, as ondulações suaves do canto gregoriano, os joelhos dobrados em sinal de adoração ao Senhor. Isso vale para o conjunto da vida. Na relação com o alimento usufrui melhor quem faz da refeição, celebração. Sem pressa ou preocupações. O que importa não é o prazer, é a felicidade.

       Sentir os atos mais vulgares como aventura espiritual é um desafio proposto pelas religiões orientais. Um ocidental enche de água o copo sem ouvir o murmúrio do líquido, enquanto a cabeça permanece distante daquele momento. Um oriental instruído na sabedoria milenar sabe ser aqui-e-agora: copo, água, sede, gesto e atenção formam um todo e favorecem a harmonia interior.

       O sábio não corre atrás do tempo nem se deixa arrastar pelo ritmo do relógio. Ele é senhor do tempo. Em suas atividades nunca submerge, pois se comporta “como a cortiça na água”, como sugere São João da Cruz. Ele aprendeu que só o Absoluto e suas expressões – as pessoas e a natureza - valem a pena. Tudo mais é relativo e, como tal, não merece tanta importância.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Minha avó e seus mistérios” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

®Copyright 2021 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

SINAL DIVINO PARA ALÉM DAS RELIGIÕES

 


Marcelo Barros

 

Neste ano de 2021, no Brasil, no campo ecumênico das Igrejas, uma das mais importantes novidades é a criação da Rede Ecumênica da Água (REDA). Iniciativa do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), este organismo reúne cristãos e cristãs de várias Igrejas com o objetivo de promover o cuidado com a água potável como direito de todo ser vivo e bem comum da humanidade. Como tudo está interligado, a defesa da água potável abrange mesmo as não potáveis, como as dos oceanos e todas as águas, como elementos fundamentais dos quais depende toda a vida no planeta.

A defesa das águas é assunto prioritário para todas as correntes espirituais que ligam a fé com a vida.  Em todas as religiões, os elementos considerados sagrados devem ser profundamente respeitados e protegidos. Ora, no mundo capitalista, a água, assim como a terra e toda a natureza são consideradas meramente como mercadorias a serem exploradas, sem outro critério a não ser o lucro das elites. 

De fato, neste mês de agosto um alerta importante foi dado sobre a estiagem na região do Pantanal, que atinge rios, vales e baixadas nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Já há quase três anos sem enchente nos rios, a região enfrenta uma das piores secas do século. Felipe Dias, diretor do SOS Pantanal, afirma com clareza: “A crise é consequência de falta de proteção de nascentes, de cursos d’água. É falta de recarga dos aquíferos com a impermeabilização que fazemos nos solos”.

Em outras regiões como Minas Gerais e a Amazônia, as mineradoras e o garimpo continuam provocando destruição sistemática e cruel de rios e fontes de água com consequências sempre mais trágicas.

Por isso, não deixa de ser consolador ver que, em todo o continente latino-ameriano, cada dia cresce mais a consciência de que a defesa da água é responsabilidade de toda a sociedade civil. Em julho deste ano, Gualegaychu, cidade da região de Rosário na Argentina, aprovou oficialmente a realização anual de uma Semana do Direito Humano à Água e ao Saneamento Básico. Isso foi consequência de uma luta árdua e que vem de muitos anos da sociedade civil e de instituições como  a Ágora dos/das Habitantes da Terra na Argentina e a Cátedra da Água na Universidade de Rosário, luta coordenada pelo professor Anibal Facciendini e sua equipe. Gualegaychu é uma cidade que luta contra indústrias de pasta e papel que contaminam o rio Uruguai que banha toda aquela região. O objetivo da semana anual do Direito Humano à Água e ao Saneamento é conscientizar a população e lutar contra a mercantilização e privatização da água e dos serviços de saneamento.

A falta de saneamento ambiental, sobretudo em países pobres, colabora para a contaminação dos mananciais. Conforme dados da ONU, no mundo atual, mais de 1,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 bilhões não têm acesso ao saneamento. O impacto na saúde humana e no meio ambiente é trágico. Agrava-se ainda mais essa situação quando a ambição, visando usos futuros privados da água, a privatiza. A partir de dezembro de 2020, pela primeira vez na história, a água passou a ser negociada como commodity no mercado futuro em bolsa de valores. Em Wall Street, na Bolsa de Valores de Nova York, a Nasdaq lançou  o Nasdaq Velez Califórnia com o seu Water Index (a cotação da Água).

As culturas originárias e toda a sabedoria ancestral da humanidade nos ensinam que “estamos vinculados ao universo através da água”. Para quem crê em Deus, em qualquer que seja a tradição religiosa, a água é sempre vista como expressão cósmica do amor divino. Por isso, a Rede Ecumênica da Água, mesmo sendo iniciativa de Igrejas cristãs, provoca o diálogo e o ecumenismo entre as culturas e com outras religiões. Além de ser uma rede em defesa da água, estimula a espiritualidade ecológica. Esta ajuda as pessoas e comunidades a integrar a água como sinal e instrumento de união com o todo o universo que nos cerca. Em nossos dias, toda a humanidade precisa considerar a Água como santíssimo sacramento da vida.

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

DIA DOS PAIS: ELEGIA PARA TOMÁS COVAS

 


Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

            O prefeito de São Paulo, Bruno Covas,  morreu de um câncer agressivo e doloroso no último mês de maio.  O Brasil acompanhou sua luta e sua coragem, sempre a postos no trabalho, mesmo em tratamento. Acompanhou igualmente sua agonia desde que deu entrada no hospital, falecendo logo após. Em todo esse período de dor e esperança até o último minuto, seu filho Tomás, de 15 anos, esteve junto.  Todos pudemos vê-lo sozinho ao lado do caixão do pai, amparado apenas por uns poucos familiares e assessores do prefeito.  

            A Covid-19 fez a dor de Tomás e sua precoce orfandade ainda mais dolorosas.  Não pode haver enterro com muitas pessoas, devido ao risco do contágio. Tomas não pôde abraçar pessoas que admiravam seu pai e lhe diriam coisas boas sobre aquela figura essencial que acabara de perder.  Impressionou a dignidade do jovem ao lado do caixão e podemos imaginar quantas perguntas sem respostas aconteciam em seu interior. 

            Tomás Covas amava muito o pai.  Em entrevistas após sua morte, testemunhou que lhe havia dito para ir tranquilo, que descansasse daquela imensa luta contra a doença incurável que o assediava desde 2019. Certamente guarda de Bruno boas lembranças, com alegria, presença, proximidade e esperança. 

            Uma das mais importantes, segundo seu testemunho, é o jogo de futebol que ambos foram assistir juntos em janeiro, quatro meses antes da morte do prefeito. Era o final da Copa Libertadores que aconteceu no Maracanã.  Um sonho de ambos ver essa final juntos.  O pai havia acabado uma longa e dolorosa sessão de quimioterapia e foi licenciado pelos médicos.  Pediu mais três dias de licença não remunerada na prefeitura e foi junto com o filho realizar o sonho de torcer no estádio Mário Filho, o lendário Maracanã. 

       Recentemente, no entanto, o presidente resolveu comentar criticamente e com bastante desaire o gesto do prefeito. Bolsonaro afirmou a apoiadores na porta do Palácio do Planalto, referindo-se a Covas: “O outro, que morreu, fecha São Paulo e vai assistir à Palmeiras e Santos no Maracanã”. Referia-se às medidas restritivas que Bruno Covas tomara para evitar a propagação do coronavírus. Acusava o prefeito de ser incoerente por ter ido ao Maracanã com o filho. 

            Diante das declarações do presidente, Tomás não resistiu e pronunciou-se.  Sua fala foi dura e contundente.  E a meu ver emocionante. Um filho que acaba de perder o pai com tenra idade não suportou a crítica injusta e pouco sensível, mesmo vinda do presidente das República. Acusou o presidente de não ter sensibilidade por atacar uma pessoa que já não está mais entre nós e, portanto, não pode se defender. Declarou ter respeitado, juntamente com seu falecido pai, todos os protocolos na ida ao Maracanã.  

            Finalmente, definiu as agressões contra seu pai como vazias, ressaltando o significado que havia tido para pai e filho a última saída de prazer e alegria que tiveram. Fora para “curtir seus últimos momentos juntos”, acrescentou.  E terminou dizendo que isso era amor, sentimento que o presidente nunca entenderá. 

            Tomás, nesse Dia dos Pais, meu pensamento vai para você. Tal como você, fiquei órfã de pai muito cedo e sei bem a falta que faz a figura paterna na vida de qualquer pessoa.  Partilho sua dor.  E ao mesmo tempo me sinto cheia de admiração por sua firmeza nas declarações e no repúdio a palavras que atingiram a memória de seu pai. Ele certamente neste momento está muito orgulhoso de você.  

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

 

terça-feira, 22 de junho de 2021

TEMPO NOVO PARA OS POVOS ORIGINÁRIOS

 

Marcelo Barros


 

Nesta semana, a partir de 21 de junho, dia do solstício do inverno no hemisfério sul, vários povos originários celebram festas que correspondem ao que tradicionalmente, no hemisfério norte, se costumou denominar o ano novo. Em muitos recantos da cordilheira, povos andinos celebram o Inti- Raimi, festa do renascimento do Sol, rei da vida. Esses festejos nos recordam a antiga festa romana de 25 de dezembro que deu origem à atual celebração cristã do Natal.

No sul do Brasil, os Guarani Mbyá denominam essa época de junho como Ara Pyaú (Tempo Novo). Os fortes ventos (yvytu) anunciam o tempo novo, marcado pela cerimônia da erva-mate, o ka’a nheemongaraí, cujas projeções sobre o ano-novo são interpretadas pelo pajé. Em outras regiões do Brasil, é a festa do milho. 

Essas celebrações indígenas, seja nos Andes, seja no Brasil, tiveram de se vestir de festas cristãs em honra de São João para serem aceitas. Desde as últimas décadas, a sociedade dominante investe nessas festas populares para explorar o turismo. Seja como for, os povos originários sempre têm sabido usar sua capacidade de organização para, nas brincadeiras e festas juninas, ensaiar novo estilo  de sociedade.  

Nestes dias, os mesmos quétchuas que desfilam de roupas longas e coloridas na Plaza Mayor de Cuzco  acabam de eleger Pedro Castillo, simples professor da roça, como presidente da República do Peru. Apesar da pandemia, em um imenso cortejo formado por pessoas de diversas etnias, os índios  descem as montanhas e vão a pé até Lima para manifestar aos peruanos da cidade grande que eles também são cidadãos. Representam a parte maior do país e querem ver respeitado o seu voto.

Na Colômbia e no Chile, comunidades tradicionais se manifestam exigindo mudanças e pedindo justiça. No Brasil, há poucos dias, associações indígenas criaram o Parlaíndio, um Parlamento dos Povos Indígenas. Esse organismo representará as vozes e interesses de quase um milhão de pessoas no Brasil. São povos que resistem e precisam de ver reconhecidos seus direitos coletivos. Querem viver suas culturas originárias, em seus territórios sagrados e junto com os Espíritos e Encantados, cuidar da natureza.

É urgente essa mobilização dos povos originários e a ela devemos nos juntar, todas as pessoas que amam a justiça e a paz. Como já há três anos, em Puerto Maldonado, na Amazônia peruana, afirmou o papa Francisco: “Os povos originários nunca foram tão ameaçados como estão sendo agora, em sua existência física e em suas culturas”.

As notícias revelam que na Amazônia e no Pantanal do Mato Grosso do Sul, a destruição da natureza tem se dado de modo gigantesco. Em todo o Brasil, companhias mineradoras como a Vale têm assassinado a vida de rios inteiros, transformados em leitos de contaminação e morte. As primeiras vítimas desse ecocídio são os povos originários.

De maio a junho somente no Oeste do Paraná, ocorreram quatro suicídios de adolescentes e jovens Avá Guarani, todos menores de  23 anos e todos ligados a falta de perspectivas de vida em sua cultura.

Neste ano, a pandemia ainda não permitirá que no Brasil e nos Andes as festas de um novo tempo possam ser vividas do modo como desejaríamos. No entanto, elas podem ser ensaiadas na educação da juventude e na prioridade que devemos dar a superar a propaganda anti-ética dos dominadores. É preciso que as manifestações populares ganhem sempre mais força nova. 

Assim, mesmo no cuidado sanitário do distanciamento físico e do uso de máscaras, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, traduzem para toda a humanidade uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).


  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

PARA MAIORES DE 60 ANOS EM TEMPOS DE PANDEMIA

 por Marcelo Barros

 


No Brasil, o presidente e os que o apoiam afirmam que a pandemia não é grave porque só mata velhinhos. Apesar disso, infelizmente, entre as 135 mil vítimas dos vírus do descuido e do desamor, há enorme proporção de jovens e de pessoas abaixo de 60 anos. A política do governo em relação a índios, negros e populações de periferias lembra a eugenia praticada pelos nazistas na Alemanha da década de 1940.

No entanto, a população brasileira continua a envelhecer. Por isso, é importante recordar que, nesta quinta-feira, 1º de outubro, a ONU celebra o Dia internacional das pessoas idosas. O objetivo é ajudar os mais velhos/as a se integrarem na sociedade e garantir que a sociedade possa assegurar os direitos das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos.

No Brasil, desde 2003, a lei nº 10.741, chamada o Estatuto do Idoso, dispõe os direitos assegurados às pessoas da chamada terceira idade. Nesse mesmo ano, a CNBB começou a Pastoral das Pessoas Idosas, com o objetivo de assegurar a dignidade e a valorização das pessoas idosas no seu ambiente social. 

Apesar do envelhecimento da população, a sociedade é pensada para a juventude. Como, em geral, os mais velhos não produzem, perdem sua importância social. Parece que só a juventude importa. Envelhecer se torna mais doloroso e difícil.

No Brasil, se calculam em mais de 25 milhões de pessoas que passam dos 65 anos. Isso exige aumento de assistência, médicos especializados, mas supõe principalmente uma sociedade menos desigual e mais humanizada.  Em muitas cidades, existem associações da terceira idade que promovem encontros, lazer, danças e passeios. As universidades mantêm programas de extensão universitária e atividades como cursos de computação, ginástica, natação, música, dança e outras artes.

Essas organizações propõem às pessoas idosas e a toda a sociedade que as coisas possam ser realizadas com calma no lugar da agitação. Sugerem a disponibilidade no lugar do estresse. Valorizam mais a qualidade e não só a quantidade. Trata-se, finalmente, de viver a graça do dia de hoje mais do que o afã da permanente projeção para o amanhã.

Para todo ser humano, em qualquer cultura que seja, envelhecer é sempre um processo difícil e exigente. Não é fácil manter o espírito jovial quando se vê o corpo decair progressivamente. No entanto, podemos fazer escolhas que nos permitam envelhecer de forma mais humanizada.

Até hoje, ninguém sabe exatamente a causa biológica do envelhecimento. Por isso, não se pode, até agora, deter ou evitar esse fenômeno. Clineu de Melo, médico especialista em Geriatria da USP, afirmou: “O envelhecimento é a perda gradativa das reservas que todos os organismos têm para usar em momentos de estresse”[1].

Todos os organismos foram pensados pela natureza para nascer, viver, reproduzir-se e depois morrer. Assim, durante milênios, a média da vida humana era de 30 anos. Cientistas descobriram que, a partir dos 30 anos, entramos em uma etapa da vida para a qual a seleção natural não nos preparou. Leonard Stayflick, professor na Universidade de Califórnia, afirma: “A velhice é um produto da civilização. Só ocorre propriamente nos seres humanos, nos animais domésticos e nos mantidos em zoológicos e em laboratórios”.

Comumente ligamos o envelhecimento à idade. De fato, há uma relação, mas não é direta e linear. Há pessoas de 90 anos que parecem ter 70 e há pessoas de 60 com jeito de 90. Não se pode generalizar, mas uma pesquisa mostra que a longevidade humana é maior em comunidades nas quais não existe aposentadoria. É mais frequente encontrar pessoas de mais de cem anos nos mosteiros budistas, em conventos cristãos, em comunidades afrodescendentes  e indígenas do que em sociedades nas quais as pessoas mais velhas são postas em asilos, esperando a morte.

O processo do envelhecimento depende da saúde, do clima e mesmo da raça a qual pertencemos. No entanto, o temperamento e o estilo de vida da pessoa em questão também influi muito. Do mesmo modo, também a espiritualidade, como energia do espírito em ação na pessoa, pode ser elemento fundamental de vitalidade.

A primeira coisa que as tradições espirituais propõem é manter sempre no coração e no concreto do dia a dia um projeto de vida e a disposição de fazer tudo em função disso, na relação com o mundo e com a comunidade a qual pertencemos.

Em meio a um momento de forte perseguição política e de marginalização na sua própria Igreja, Dom Helder Camara escrevia um livro de meditações com o título: Mil razões para viver.

Conforme a escritura, toda história do povo bíblico começou pelo chamado de Deus a Abraão, velho e casado com uma mulher estéril. Mesmo quando nos sentimos frágeis e como que incapazes de mudar a sociedade, Deus torna a nossa esterilidade fecunda e, então, um novo mundo é possível.

 



 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

“ABRE TUA MÃO PARA TEU IRMÃO” (Dt 15,11):

 



uma reflexão sobre o tema do Mês da Bíblia 2020 [1]

 

por Kinno Alves Cerqueira [2]

 

Nunca deixará de haver pobre na terra;

é por isso que eu te ordeno:

abre a mão em favor do teu irmão,

do teu humilde e do teu pobre

em tua terra (Dt 15,11) [3]

 

 

1 Para começar

Desde 1971, a Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil consagrou o mês de setembro para o estudo da Bíblia. A cada ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, elege um livro a ser lido e um lema-chave que sirva como ponto de partida para a leitura a ser empreendida. Neste ano de 2020, quando já entrevemos o jubileu de ouro do Mês da Bíblia, o livro a ser lido é o Deuteronômio e o lema-chave escolhido, “Abre tua mão para teu irmão” (Dt 15,11).  

O Mês da Bíblia não é um espaço para simplesmente venerarmos um conjunto de livros antigos que não raras vezes nos causa estranheza. Na verdade, o Mês da Bíblia é o nosso mês, pois nas páginas da Bíblia redescobrimos nossa própria história com suas belezas e limitações, mas sobretudo como horizonte de possibilidades, de sonhos, de conversão da vida...

 

2 Habitar os jardins

Não raras vezes, aproximamo-nos da Bíblia como um taxonomista a identificar espécimes de flores que lhe são trazidas de jardins nos quais ele nunca esteve. Não haveria um caminho mais belo a ser feito? Há que se caminhar, despretensiosa e amorosamente, ao interior dos jardins bíblicos, ali onde, a um só tempo, os perfumes embriagam-nos e os espinhos despertam-nos a consciência.

Na alameda florida, nossos olhos se fecham e nossas mãos não se podem esquivar do toque sensitivo que engendra o despertar da pele, a redescoberta do corpo como lugar de acolher, desdizer e redizer o que descobrimos de nós na Palavra e da Palavra em nós [4].

 

3 Viagens sem mapas

O ato de acolher, desdizer e redizer faz nascer a coragem de permitirmo-nos viajar por dentro de nós mesmos sem bússolas nem mapas. De caminhos traçados por outrem, descobrimo-nos a nós mesmos como caminho inaudito, realidade pouco sabida e sempre pressentida a interrogar-nos sobre o que somos.           

 

4 Somos mãos

A frase “Abre tua mão” (Dt 15,11) é um tanto escorregadia, pois facilmente ouvimo-la como sendo uma referência à mão em seu sentido estritamente laborioso ou, quando muito, como alusão à dimensão operativo-pragmática de nosso existir. Na Bíblia, porém, o vocábulo “mão” (hebr. יָד) forma uma constelação de sentidos: “mãos, antebraço, pênis; lado, próximo, margem, lugar, força; monumento, eixos de roda, suportes, encaixes, parte” [5].

Daí por que não seja estranho que leiamos na Bíblia que é a “mão” de YHWH que cria a liberdade dos hebreus escravizados (Dt 5,15; 6,21; 7,8; 9,26), a beleza do luar grinaldado de estrelas (Sl 19,1-2), a ousadia profética (Is 26,11), a palavra desnudante das tramas dos homens (2 Rs 3,15). As mãos humanas ameaçam o status dos deuses (Gn 3,22) e divinizam selfs (Dt 4,28), derramam sangue inocente (Gn 14,11) e arrepiam os corpos dos amantes (Ct 2,6; 5,4), amesquinham a vida (Gn 37,22) e dão-lhe o sabor de leite e mel (Dt 6,3).    

Como vemos, a semântica bíblica dilata, potencia e complexifica o sentido da palavra “mão” a ponto de salvar-nos da estreiteza de sentido que nos impede de vislumbrar a potente complexidade que somos nós: somos mãos, nossas mãos somos nós com tudo o que sentimos, desejamos e miramos.

 

5 A aventura de abrir-se   

“Abre tua mão” (Dt 15,11) aparece-nos, pois, como uma voz a chamar-nos para aceder à bela aventura de abrir-se desde dentro para acolher os apelos que nos vem das vidas que estão diante de nós. Trata-se de suspender as respostas para dar lugar ao inusitado da vida, de perder as palavras para reencontrá-las renascidas noutros corpos, refazer a vida diante de outras vidas, enfim, de acolher o outro a partir do outro, para que no outro descubramos mais de nós e em nós, mais do outro.

 

6 A radicalidade da descoberta

A aventura na qual nos lançamos culmina na radical descoberta de que somos irmãos: (...) “abre tua mão em favor do teu irmão” (Dt 15,11). A corresponsabilidade que emerge dessa descoberta comporta tanta força que “os outros” tornam-se “meus outros” e os humildes, os pobres e a terra, “meus humildes”, “meus pobres” e “minha terra”. Descortina-se diante de nós a possibilidade de tornarmo-nos pessoas, ou seja, seres humanos em inter-relação cosmocizante [6].    

 

7 Abonitar a vida

O assombro de tal descoberta e nossa subsequente adesão ao chamado para tornarmo-nos pessoas inscrevem-nos no interior de um sonho repetidamente consignado na encantada imagem de “uma terra que mana leite e mel” (Ex 3,8; Dt 6,3). Tal imagem não descreve a qualidade solo-climática de uma terra, mas sublinha a fartura, símbolo da paz, como possibilidade sempre presente para um povo formado por pessoas que exercem a corresponsabilidade traduzida na partilha. Trata-se, pois, de um sonho a um só tempo poético e político de “abonitamento da vida”.

 

7 Esperança nos passos, sonhos nas mãos

A esperança de um sonho não reside na quietude desinteressada nem em análises sofisticadas da realidade. A poetisa Cora Coralina escreveu [7]:

Desistir?

Eu já pensei seriamente nisso,

mas nunca me levei realmente a sério.

É que tem mais chão nos meus olhos

do que o cansaço nas minhas pernas,

mais esperança nos meus passos,

do que tristeza nos meus ombros,

mais estrada no meu coração

do que medo na minha cabeça.

 

Entre a realidade e o sonho estamos nós, gente que, de mãos dadas, leva a esperança nos passos, a boniteza nos olhos, os sonhos nas mãos...

 

 

Notas:

[1] Contribuição apresentada por ocasião da live Como organizar o Mês da Bíblia nas comunidades, promovida pelo Grupo de Pesquisa Cristianismo e Interpretações da Pós-graduação em Teologia (PPGTEO) da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), em 29 de AGO de 2020. 

[2] Mestrando em Teologia do Programa de Pós-graduação em Teologia (PPGTEO) da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Bolsista da CAPES. Integrante do Grupo de Pesquisa Cristianismo e Interpretações do PPGTEO da UNICAP.  Assessor do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) em Pernambuco. E-mail: kinno_cerkeira@hotmail.com

 

[3] BÍBLIA. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulinas, 2002.

 

[4] Poder-se-ia dizer: acolher, desfigurar e transfigurar.

[5] KIRST, N. et al. Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2014, p. 85.   

[6] O termo “cosmocizante” designa a qualidade do que cosmociza, isto é, que transforma uma determinada realidade (caótica) em cosmos. 

[7] Poema disponível em: <https://sonho_realidade.blogs.sapo.pt/tag/cora+coralina> Acesso em 28 AGO 2020.