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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Fraternidade e Fome


Desde 1964 a Igreja do Brasil promove durante a quaresma uma Campanha da Fraternidade. A quaresma é um tempo marcado pelo chamado à conversão: mudança de vida (mentalidade, sentimento, atitude), volta ao Senhor, adesão ao seu Evangelho. Essa conversão é tanto pessoal (conversão do coração), quanto social (transformação da sociedade). Para ajudar na vivência do espírito quaresmal, a Igreja convida a intensificar a prática da oração, do jejum e da caridade. E para que a caridade não se reduza a uma ação meramente assistencial, a Igreja do Brasil, retomando a doutrina social da Igreja, promove uma Campanha da Fraternidade que trata de algum problema grave da sociedade que exige mudança e que compromete todas as pessoas e instituições.

Pela terceira vez a Companha da Fraternidade trata do problema da fome, chamando atenção para um dos pecados mais graves de nossa sociedade e convidando os cristãos e o conjunto da sociedade a se empenharem na superação dessa injustiça e desse crime que é um verdadeiro pecado que clama ao Céu: “Repartir o pão” (1975); “Pão para quem tem fome” (1985); “Dai-lhes vós mesmos de comer” (2023).

A fome não é um dado natural. Não é fruto do acaso ou do destino. Não é mera consequência de preguiça ou comodismo pessoal. Nem muito menos é vontade ou castigo de Deus. Ela é um produto social. É resultado das tremendas injustiças e desigualdades que caracterizam nossa sociedade e fazem com que uns tenham tanto e outros tenham tão pouco ou quase nada. A situação atual do Povo Yanomami em Roraima é o exemplo mais vivo e dramático da injustiça e desigualdade de nossa sociedade: Fruto do egoísmo e da cobiça de garimpeiros, madeireiros e empresários; fruto de um modelo econômico que sacrifica vidas humanas e toda natureza no altar do deus-mercado/lucro; fruto da indiferença social, da cultura do consumismo e da busca de enriquecimento a qualquer preço; fruto da cumplicidade de políticos e governos genocidas que fecham os olhos diante desses crimes ou até mesmo estimulam essas práticas criminosas.

Mas a situação do povo Yanomami não é um fato isolado. O drama da fome está presente ao longo da história do Brasil. E é a expressão mais cruel e perversa do modelo capitalista de sociedade que implantou aqui ao logo de mais de 500 anos. Uma série de políticas públicas desenvolvidas na primeira década do século reduziu bastante o drama da fome no Brasil, fazendo com que o país saísse do mapa da fome em 2014. Mas o desmonte progressivo dessas políticas a partir de 2016, agravado com a pandemia da Covid-19, fez com que o Brasil voltasse ao mapa da fome.

Os dados são alarmantes: 33 milhões de pessoas passando fome (15,5% de toda população ou o equivalente à população das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte e Manaus); mais de 125 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar (58,1% de toda população). Isso é bem mais grave nas regiões Nordeste (21%) e Norte (27%) e na zona rural (18,6%). E atinge sobretudo pessoas pretas ou pardas e famílias chefiadas por mulheres. Em março de 2020 estimava-se cerca de 222 mil pessoas em situação de rua e esse número cresceu assustadoramente na pandemia, como se pode ver em qualquer grande cidade.

Essa situação é muito mais escandalosa e criminosa se considerarmos que não falta alimento no Brasil. Aliás, o país bate recordes anuais na produção para exportação de milho, soja, trigo, carne etc. A fome no Brasil, vale repetir, é fruto da injustiça e da desigualdade social. É um pecado mortal que clama ao céu! E pode ser eliminada com a solidariedade de todos e com vontade e decisão políticas. Como tantas vezes repetiu o presidente Lula “é preciso colocar o rico no imposto de renda e o pobre no orçamento”. Precisamos lutar para que isso se torne realidade.

 A ordem de Jesus aos discípulos diante da multidão “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14, 16) ecoa com muita força entre nós, sobretudo nesse tempo quaresmal em que somos chamados à conversão. Certamente, nenhuma pessoa ou comunidade pode resolver o problema. Mas cada um pode compartilhar um pouco do que tem e cada comunidade, grupo, pastoral ou movimento pode se organizar para ajudar a superar essa situação: doando cesta básica; ajudando pessoas a desenvolverem alguma atividade produtiva; promovendo feiras da agricultura familiar e economia solidária; exigindo dos governos a compra dos produtos da agricultura familiar; defendendo os programas de transferência de renda como “bolsa família” e “bolsa catador”, a reforma agrária e políticas públicas de saúde (SUS), educação, moradia…

Isso é questão de humanidade e justiça social!

Isso é questão de fé e critério de salvação ou de condenação!

 

 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Habitar a Terra - Qual o caminho para a fraternidade universal

 


                        Leonardo Boff



Faz-se uma constatação triste: o tipo de mundo no qual vivemos é tudo menos fraternal. O que predomina é o poder que, logo de início, estabelece uma divisão entre quem tem poder e quem não tem poder. Trata-se do poder-dominação, político, econômico, ideológico, midiático, também familiar e outros. Desta divisão nasce toda sorte de desigualdades: uns se sobrepondo aos outros, a maioria colocada no andar de baixo e uns poucos no andar de cima.

A desigualdade significa injustiça social que é eticamente inaceitável. Para as pessoas de fé, a injustiça social representa um pecado contra o Criador porque ofende a Ele e a seus filhos e filhas. Portanto, estamos submetidos a uma situação que não agrada a nós e também não agrada a Deus.

Grande é a busca humana por uma sociedade livre, igualitária, justa e fraterna. Em nome dela se fizeram as grandes revoluções, sempre derrotadas, mas nunca definitivamente vencidas, pois o anelo humano por liberdade, igualdade e fraternidade é imorredouro. Haverá sempre pessoas e movimentos sociais que manterão vivo este sonho e procurarão concretizá-lo na história.

Muitos são os motivos que fundam a fraternidade. Primeiramente somos todos portadores da mesma humanidade, pouco importa a origem, a cor da pele, a religião e a visão de mundo. Todos possuímos o mesmo código genético de base, presente em todos os seres vivos: os vinte aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas. Dito numa linguagem pedestre: somos construídos por 20 tijolinhos diferentes e por quatro tipos de cimento. Combinados os tijolinhos e amalgamados pelos vários tipos de cimento, emerge a biodiversidade. Quer dizer, existe um laço de fraternidade real entre todos os seres vivos e especialmente entre os humanos. A fraternidade é universal, a natureza incluída.

Outra razão da fraternidade é o fato de todos os seres, também os humanos, possuírem algo em comum: viemos do barro da Terra. Homo, ser humano, procede de humus terra boa e fértil. Da mesma forma, o nosso ancestral bíblico Adam  se deriva de adamah que quer dizer: terra arável e fecunda. Desse barro o Criador nos tirou e moldou como suas criaturas, todos irmanados entre si.

Estas raízes comuns clamam para vivermos em fraternidade universal e ilimitada. Este foi o sonho de Jesus advertindo que ninguém seja chamado de mestre, poque todos somos irmãos e irmãs. A fraternidade sem fronteiras foi a busca ardente de São Francisco de Assis que chamava a todos os seres da natureza com o doce nome de irmãos e irmãs. Foi conversar com o sultão muçulmano no Egito porque queria uma fraternidade universal que implicava incluir cristãos e não cristãos. É o grande sonho de Francisco de Roma, o atual Papa que escreveu uma corajosa encíclica Fratelli tutti, “todos irmãos e irmãs” como resposta a um mundo globalizado que cria sócios, mas não irmãos e irmãs, nos faz virtualmente próximos, mas realmente distantes por causa da riqueza de alguns à custa da pobreza de muitos.

Dentro do mundo atual, fundado sobre o poder-dominação sobre pessoas, sobre povos e sobre a natureza, a fraternidade universal não possui condições de realização. No entanto, se não conhece viabilidade, ela pode ser uma atitude permanente, um modo de ser, um espírito que impregna todas as relações entre as pessoas e também as institucionais, de participação igualitária e cooperativa. Tudo isso à condição de renunciarmos ao poder-dominação e de termos humildade, não como uma virtude ascética, mas como um molhar nossas raízes no mesmo humus de onde a natureza e nós garantimos nossa existência, vendo cada ser e cada pessoa um irmão e uma irmã, com a mesma origem e o mesmo destino. Entre irmãos e irmãs vigora amor, cuidado e um profundo sentimento de pertença.

Devido às ameaças sérias que pesam sobre a Mãe Terra super-explorada e a dilaceração do tecido social das nações, a fraternidade sem fronteiras, como um novo tipo de presença no mundo, nos poderá salvar. Este livro Habitar a Terra: qual o caminho para a fraternidade universal quer trazer ao debate a urgência do amor social e da fraternidade universal, pelo menos como um modo de ser terno e despojado da vontade de poder-dominação, criando um laço de afeto e de cuidado entre todos do mundo natural e do mundo humano.


Leonardo Boff, 1938, doutorou-se em Munique em teologia sistemática. Foi professor de teologia por 22 anos no Instituo Teológico Franciscano de Petrópolis, posteriormente doutorou-se em filosofia na UERJ e foi professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia Filosófica na Universidade do Rio de Janeiro. Foi professor visitante em várias universidades europeias. Foi editor religioso por muitos anos da Editora Vozes e coordenou a publicação da obra completa de C.G.Jung.  É portador do prêmio Nobel alternativo da Paz de 2001 pelo Parlamento sueco. É detentor de vários títulos de doutorado honoris causa de distintas Universidades. Escreveu cerca de cem livros nas áreas da teologia, da filosofia, da espiritualidade e da ecologia.

 

terça-feira, 13 de julho de 2021

A FRATERNIDADE HUMANA NA CASA COMUM

 Marcelo Barros


 

A ONU consagra o 11 de julho como "dia mundial da população".  Há quem veja nessa data um alerta para se encontrar meios de diminuir a população da Terra. Atualmente a população humana está chegando perto de oito bilhões de pessoas no mundo. O planeta Terra teria recursos para alimentar e prover a vida de 11 bilhões de seres humanos. No entanto, isso não será possível se a atual geração se comporta de forma irresponsável e egoísta no uso da água, dos alimentos e dos bens que deveriam ser comuns a toda a humanidade. 

Com este “dia mundial da população”, a ONU quer chamar a atenção da humanidade para a urgência de um planejamento mais cuidadoso para favorecer a vida de todos e maior cuidado com o planeta, para que a terra não se torne inabitável. A cada ano, a população da Terra registra um aumento de mais ou menos 75 milhões de pessoas.

Não temos os dados a partir da pandemia, mas sabemos que que a população cresce na África e diminui em alguns países ricos.. Além disso, é escandaloso saber que, enquanto no Japão, na Suécia e outros países ricos, a média de vida é de 80 anos, em países africanos,  como a Zâmbia e o Zimbabue, é considerado feliz quem atinge a idade de 35.  Atualmente, nos países ricos, quem quer está vacinado. Em países pobres, a taxa de pessoas vacinadas mal ultrapassa 10% e em alguns países mais estranhos, surgem perguntas até sobre as datas de validade das vacinas.

Como afirmava o Mahatma Gandhi, a terra é suficientemente fértil e pode alimentar quase o dobro da população humana. No entanto, não basta para saciar a ambição da pequena elite econômica que domina o planeta. Em 2015, a ONU publicou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o Mundo, a serem alcançados nesses próximos quinze anos. De acordo com essa meta, esperava-se que até 2030, a humanidade tivesse conseguido proporcionar segurança alimentar e água potável para toda a população da terra. A pandemia veio revelar que essa meta fica cada vez mais longe de ser alcançada. Em plena pandemia, desigualdades sociais se multiplicaram, os mais ricos triplicaram os seus ganhos e muitos governos aumentaram os gastos em armamentos.

Cada vez mais fica claro: se a sociedade dominante não mudar o modo de organizar o mundo, todo o sistema de vida no planeta Terra está ameaçado. Com o aquecimento global e a destruição provocada pela sociedade capitalista na natureza, mudou a temperatura na superfície do planeta e na sua atmosfera. Entramos em uma nova era geológica.

Essa nova idade da Terra, que se sucedeu ao Holoceno, recebeu dos cientistas o nome de Antropoceno, porque é provocada pelo ser humano (antropos). Cientistas de diversos países estudaram a quantidade de energia ou calor que entra na atmosfera. Essa energia se acumula nos reservatórios do planeta, como os oceanos, as geleiras e o próprio solo da terra. Eles compararam e descobriram que o calor ali acumulado é esquivalente a 0, 58 W/ m2. Segundo eles, é um calor equivalente ao provocado pela explosão de 400 mil bombas atômicas. Diante dessa realidade, é urgente que a sociedade civil se organize mais e pressione os governos e empresas para que assumam sua responsabilidade em relação ao futuro. No dia mundial da população, é importante refletir sobre que mundo entregaremos aos filhos dos nossos filhos.

Quem crê em Deus como Amor sabe que, ao agredir a natureza, se ataca o próprio Criador. Ao mesmo tempo, quando trabalhamos para salvar uma nascente de água, preservar um pedaço de mata ou simplesmente possibilitar uma agricultura ecológica, estamos cuidando da vida e, concretamente, do futuro da população humana. Se somos crentes, estamos colaborando com o Espírito Mãe da Vida que, no universo, mantém permanentemente o evoluir de sua criação.  

O papa Francisco tem insistido com toda a humanidade para criar nova consciência ecológica e retomar a proposta da fraternidade humana. Na encíclica Fratelli Tutti, ele nos lança este convite: “Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos e filhas dessa mesma terra que nos abriga a todos e todas, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos e irmãs” (FT 8).

 

terça-feira, 4 de maio de 2021

A FRATERNIDADE HUMANA NO PLANETA DA INFORMAÇÃO

 


Marcelo Barros

 

Em meio a tantas datas comemorativas destes dias (dia da Mãe Terra e dia da classe trabalhadora), poderia parecer pouco relevante que a ONU tenha consagrado o 03 de maio como “dia internacional da liberdade de imprensa”. Quantas questões envolvidas nesta proposta!

Em nossos dias, apesar não estarmos mais submetidos a ditaduras militares, há pessoas processadas e ameaçadas de punição com a lei de segurança nacional, por ter se expressado contra o presidente da República. No Brasil e em outros países, a liberdade de imprensa continua cerceada, seja pelo poder político de índole totalitária, seja principalmente pelo poder econômico dos grandes conglomerados que fazem da comunicação a arma para concentrar mais poder e obter mais lucros.

O domínio econômico impõe um controle quase total sobre as informações que a sociedade recebe. Atualmente, assiste-se a uma concentração sempre maior de órgãos da imprensa nas mãos de poucos proprietários. No Brasil, a grande imprensa sempre foi propriedade de poucas famílias que, em cada região, controlam jornais, rádios e televisões. Em todo o mundo, mais de 80% das agências de notícia e dos organismos de comunicação pertencem a grandes empresas que controlam, ao mesmo tempo, as redes de informação, as grandes companhias petrolíferas e também indústrias de armamentos. 

No plano político, nas décadas recentes, os meios de comunicação têm se tornado armas mortíferas e certeiras usadas pelos impérios para destruir governos progressistas e projetos de emancipação política de países que não lhes agradam. O governo norte-americano gasta milhões de dólares para que, diariamente, em todos os países da América, se publiquem notícias negativas em relação aos governos ou aos políticos que devem ser destruídos. A guerra de quarta geração foi usada contra a Líbia, contra a Síria. Hoje, o império norte-americano a usa contra o governo e o povo da Venezuela.

Este tipo de guerra se tornou muito mais barata do que a convencional e mais eficiente. No Brasil, a produção de notícias falsas já elegeu até presidente da República. Todo mundo sabe que a rede da família Marinho promoveu um juizinho do interior a falso herói nacional. Serviu-se amplamente dele para destruir a democracia e possibilitar a entrega sistemática de todas as riquezas nacionais a empresas estrangeiras. Garantiu a vitória do inominável para o governo do país. Depois que as coisas não saíram de acordo com o esperado e, por várias razões, a farsa está sendo descoberta, a Rede Esgoto descarta o juiz e quer dar ao país a impressão de que tomou a defesa do povo.

  É verdade que todo ponto de vista é sempre vista de um ponto. Também se sabe que é mais barato opinar do que informar objetivamente. Mas, os cidadãos têm direito a uma informação honesta. É direito de quem informa tomar partido e declarar suas preferências ideológicas e sociais. Basta que isso seja claro, até para favorecer o debate e a pluralidade de opções. Embora pertença a uma empresa particular, um meio de comunicação social é sempre serviço público. Deve cumprir sua tarefa sem ser subjugado a interesses privados.

Em sua mensagem para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais que ocorrerá no domingo 16 de maio, o papa Francisco apontou para os riscos de uma comunicação social que não tenha controles, diante da expansão das chamadas ‘fake news‘. O papa afirmou: “Há algum tempo, descobrimos como as notícias e imagens são fáceis de serem manipuladas. Isso ocorre por diversos motivos, às vezes até apenas por um narcisismo banal. É preciso perceber os riscos provocados pelas notícias falsas na internet, especialmente, com a pandemia da Covid-19. Atualmente, os meios de comunicação oferecem mais espaço para uma “informação reconfeccionada”, e são menos capazes de interceptar a verdade das coisas ou a vida concreta das pessoas. Também não conseguem informar sobre os fenômenos sociais mais graves. A consciência crítica nos empurra não a demonizar os instrumentos de comunicação e sim a cuidar de termos sempre maior capacidade de discernimento”.(...) “Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, das informações que damos, do controle que, juntos, podemos exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos convocados a ser testemunhas da verdade”, completou. “É necessário um jornalismo  “valente” e com coragem para ir de encontro às pessoas e às histórias de vida”.

Quem é cristão se lembra: a palavra de Deus nos vem através do “evangelho”, termo grego que significa boa notícia, informação verdadeira e libertadora, a respeito do projeto divino no mundo. O compromisso dos meios de comunicação com a humanidade é fazer com que as notícias publicadas e seus comentários possam ser realmente como “evangelhos”, isso é notícias que levem à vida e à liberdade humana. Independentemente de serem ligados ou não a uma religião, serão notícias evangélicas se servirem a um projeto de mundo mais justo e fraterno. Para isso, é indispensável e urgente que os meios de comunicação sejam livres e democráticos.

  

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

sábado, 20 de março de 2021

“FRATERNIDADE E DIÁLOGO: COMPROMISSO DE AMOR” – POR UMA MÍSTICA DAS INSIGNIFICÂNCIAS [1]

 

Kinno Cerqueira [2]


 

 

Introdução

O tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2021 faz jus às intuições mais profundas do Evangelho de Jesus de Nazaré. Durante nossa conversa, eu gostaria de abordá-lo sob a perspectiva de “uma mística das insignificâncias”. Para fazê-lo, preciso, porém, efetuar um recuo ou abrir um parêntese que nos permita refletir sobre algumas questões que subjazem sutilmente à CFE e seu tema.

 

Por um diálogo a partir das dessemelhanças

As teologias católicas e protestantes conservam semelhanças e dessemelhanças entre si. No transcurso de uma Campanha da Fraternidade Ecumênica, como esta que ora vivemos, testemunhamos um grande esforço para firmar um diálogo fraterno entre as tradições católica e protestante por meio da evidenciação e da valorização dos aspectos teológicos comuns a estas duas tradições, sendo as diferenças teológicas postas em segundo plano ou anexadas à lista de assuntos proibidos. Nesta perspectiva, as semelhanças são concebidas como condição fundamental para a realização do diálogo fraterno, enquanto as dessemelhanças lhe são uma ameaça a ser evitada.

Evidenciar e valorizar as semelhanças entre as tradições católica e protestante constitui um esforço necessário e louvável. Todavia, pergunto-me se a fuga das dessemelhanças não superficializa ou, pior ainda, falsifica o diálogo. Notadamente, o ecumenismo que conhecemos está mais voltado para a construção de uma narrativa midiática – que se adeque ao politicamente correto – do que para a instauração de um genuíno diálogo entre corações. Por conta disto, as CFEs, não obstante seu inestimável valor, revelam-se profundamente ambíguas: por um lado, evidenciam as semelhanças entre as tradições católicas e protestante e promovem um suposto diálogo; por outro, mascaram as dessemelhanças existentes entre essas tradições e, consequentemente, superficializam o diálogo, impedindo-nos de fazer uma experiência de alteridade que resulte em fecundas sínteses.

A minha intuição caminha num sentido um pouco distinto do que costuma impulsionar o diálogo entre as tradições católica e protestante: desejo que dialoguemos a partir das dessemelhanças entre essas tradições, precisamente sobre uma dessemelhança teológica que julgo ser de fundamental importância para o aprofundamento da fé – entenda-se fé como nossa resposta concreta ao evangelho de Jesus de Nazaré.

 

Um ponto de dessemelhança: as dimensões da fé

“A teologia não é Deus”: eis uma proposição ao mesmo tempo sabida e desconsiderada. Todas as teologias, inclusive aquelas que produziram nossos credos, catecismos e concílios, são compreensões e discursos humanos sobre (as revelações de) Deus. Visto que o ser humano sempre sente, compreende e discursa a partir de sua condição subjetiva e histórica, as teologias refletem, em grande medida, o espírito do tempo em que foram formuladas [3].

As teologias católica e protestante apresentam-se, cada uma por sua vez, como um conjunto de tendências que se encontram e se desencontram, de tal modo que, ao invés de falarmos em teologia católica e teologia protestante, seria mais honesto pluralizarmos estas palavras, dizendo assim: teologias católicas e teologias protestantes. Porém, a despeito da reconhecida pluralidade teológica das tradições católica e protestante, arrisco dizer-lhes que, em alguns aspectos, é perfeitamente possível distinguir as teologias católicas das teologias protestantes, e vice-versa. E tais aspectos diferenciadores tem que ver com as condições subjetivas e históricas em que tais teologias formularam suas linhas mestras.

Uma análise comparada das teologias católicas com as teologias protestantes deixa ver várias dessemelhanças entre estas duas grandes tradições cristãs. Dentre essas dessemelhanças, destaco uma: a compreensão sobre as dimensões da fé – e insisto:  entenda-se fé como nossa resposta concreta ao evangelho de Jesus de Nazaré.

As teologias católicas carregam em si a inapagável experiência política da igreja mater et magistra (mãe e mestra), enquanto as teologias protestantes nascem num contexto de transição da Idade Média para a Modernidade, um tempo marcado pela realocação da religião no âmbito privado e pela ênfase na consciência individual. Disso resulta que, por um lado, as teologias católicas acentuam a dimensão comunitário-política da fé, ao passo que as teologias protestantes, por outro lado, enfatizam a dimensão “pessoal” da fé [4]. Noutras palavras: se o horizonte da tradição católica é a igreja universal e o mundo como um todo, os olhos protestantes estão voltados para a pessoa isoladamente ou, quando muito, para a igreja local.

Agora que tomamos conhecimento dessa dessemelhança entre a tradição católica e a tradição protestante, perguntamo-nos: o que isso nos revela? Em primeiro lugar, que estamos diante de um dado de realidade que nos convida a assumir nossas diferenças. Em segundo, que esta diferença em particular nos convida a revisitar a vida de Jesus, conforme narrada nos evangelhos, a fim de revisarmos nossa compreensão sobre as dimensões da fé.

 

A fé de Jesus

Quando caminhamos pelas páginas dos quatro evangelhos canônicos, vemos Jesus igualmente entregue a experiências triviais e a feitos grandiosos. Jesus conversa com uma mulher samaritana à beira de um poço (Jo 4,1-42), anda de mãos dadas com um cego (Mc 8,22-26), abraça uma criança (Mc 9,33-37), contempla os lírios do campo e os passarinhos dos céus (Mt 6,25-34), caminha com dois peregrinos assustados (Lc 24,13-35), assa pão e peixe à beira-mar (Jo 21,1-9) e entrega como herança o convite ao amor profundo (Jo 13,34-35). Com igual vivacidade, Jesus denuncia a corrupção do templo (Jo 2,13-22), chama o rei Herodes de raposa (Lc 13,31-35), desmascara as práticas homicidas dos religiosos (Lc 11,45-52) e ensaia uma revolução social a partir dos empobrecidos (Lc 6,20-26; Mt 25,31-46).

Notadamente, Jesus assume cada instante como experiência de Deus, seja o passarinho que voa e a criança que corre, seja a denúncia da injustiça e a tomada de opção pelos empobrecidos. A fé de Jesus, isto é, seu compromisso com Deus, tem, pois, dimensão pessoal e comunitário-política. Para Jesus, extasiar-se ante uma meiga flor que dança ao vento é uma experiência de fé tão profunda quanto assumir o cruento caminho da cruz.

 

Por uma mística das insignificâncias

A vida de Jesus inspira-nos a viver uma mística das insignificâncias. Mística é experiência profunda de Deus. Martinho Lutero dizia que Deus é tão pequenino a ponto de habitar um grão de areia e tão grandioso a ponto de carregar o mundo na ponta dos dedos. A vida mística é um aperceber-se da presença de Deus nas acontecências mais profanas e corriqueiras e nas experiências mais complexamente articuladas. 

A ênfase exclusiva na dimensão pessoal da fé resulta num individualismo egóico que nos aprisiona em nós mesmos, de modo a não nos sentirmos responsáveis pela transformação do mundo. A acentuação da dimensão comunitário-política da fé, por sua vez, faz-nos esquecer das pequenas coisas, inclusive da necessidade de transformar nosso mundo interior. A mística das insignificâncias nos convida a abrir o coração para implicarmo-nos em tudo. A plenitude da força da fé depende da sensibilização de nosso olhar e da totalidade de nossa entrega.

A CFE 2021, para ser vivida em profundidade, precisa ser dinamizada por uma mística das insignificâncias. Como escreveu o poeta mato-grossense Manoel de Barros:

Poderoso pra mim não é aquele que descobre o ouro.

Pra mim poderoso é aquele que descobre

as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado e chorei.

 

Neste caminho místico, haveremos de perceber que as insignificâncias são, a bem da verdade, apenas aparentes insignificâncias: se é preciso salvar o planeta para preservar os jardins, é igualmente verdade que uma pétala pode salvar o mundo.

 

 

Notas:

[1] Texto apresentado numa roda de conversa da Escola Vivencial de Fé do Movimento de Cursilho da Cristandade, em 16 de março de 2021 (https://www.youtube.com/watch?v=PqJwyYbLjEQ).

[2] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

[3] As teologias podem conter em si uma mescla de oposição e negação em relação ao tempo em que foram gestadas e formuladas. O que não há, porém, é neutralidade. Afinal de contas, quem pensa e discursa sempre o faz em reação a outrem, ainda que inconscientemente.  

[4] O aspecto comunitário-político da fé pode ser visto, no âmbito comunitário, na importância conferida à igreja, aos sacramentos, às mediações da graça etc. e, no âmbito político, na existência da DSI (Doutrina Social da Igreja), de consideráveis encíclicas, de pastorais, de grupos de fé e política etc. Por outro lado, a ênfase das teologias protestantes na dimensão pessoal da fé revela-se, por exemplo, na maneira com a qual os protestantes se agarram com a ideia de salvação como resultado da adesão à “verdade” da fé doutrinal, o que se daria, inclusive, sem necessidade de obras de amor.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

FRATERNIDADE E AMOR: ESPÍRITO E LEI

 


Marcelo Barros

 

Quem acompanha as redes sociais sabe que nas últimas semanas, tem se intensificado o clima de tensão e mesmo de conflitos na interpretação da fé e do modo de compreender a missão cristã. Mais concretamente, o alvo escolhido por católicos tradicionalistas para  a sua guerra sagrada passou a ser a 5ª Campanha da Fraternidade Ecumênica, aberta pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) na quarta-feira, 17 de fevereiro, início da Quaresma.

É surpreendente o fato desta ser a quinta campanha da fraternidade ecumênica e somente agora se manifestar todo este ódio e rejeição. Antes de mais nada, isso revela que, neste início de 2021, o ambiente social e eclesial no Brasil é mais duro, fechado e polarizado em posturas extremas do que aquele que vivíamos em 2000, quando fizemos a primeira campanha ecumênica e as outras que se seguiram em 2005, 2010 e 2016.

É claro que, desde o começo deste caminho, havia tensões e divisões nas Igrejas. Sempre houve. No entanto, em nossos dias, se exacerbou o espírito de cruzada em defesa da Cristandade. E, mais do que antes, as redes virtuais oferecem excelente palco para o destempero de quem busca vítimas a queimar na fogueira do seu dogmatismo e moralismo.

Os acusadores da Campanha da Fraternidade Ecumênica não são tão sinceros a ponto de afirmar que não se interessam por Fraternidade aberta a todos e que, para eles, o diálogo nada tem a ver com a fé e a espiritualidade. Também pensam que o combate à heresia que veem sempre nos outros é mais importante do que a unidade dos cristãos, pela qual Jesus orou na véspera de sua paixão. Defendem valores tradicionalistas e usam como arma de guerra a fé interpretada como dogma contra os inimigos. Então, tinham de encontrar no texto da CFE 2021 algum pretexto para a sua luta. E focaram o seu combate em um número do texto-base da CFE 2021 (o 68). Neste parágrafo, eles acham que o texto-base defende o que chamam de “ideologia de gêneros”. Faz menção a gays, travestis e transexuais como vítimas da violência nossa de cada dia.

  A primeira impressão a qualquer observador é que a polêmica veio um pouco tarde demais. O texto já está distribuído por todo o país e a Campanha está em pleno andamento. Por isso, a própria CNBB, alguns bispos e um cardeal vieram a público tentando apagar o fogo. Infelizmente, quase todas essas intervenções se revelaram ambíguas e pouco felizes. De algum modo, todas essas mensagens parecem dizer aos oponentes: “de fato, o que vocês estão reclamando é justo e o texto não corresponde ao pensamento católico, mas como tínhamos nos comprometido em fazer mais uma campanha ecumênica, não conseguimos evitar isso. Desculpem...”.

 Em nenhuma delas aparece a mínima postura de solidariedade ao CONIC. Ao contrário, todas dão a impressão de que os bispos pedem desculpas ao Centro Dom Bosco pela obrigação de serem ecumênicos e terem sido pouco cuidadosos ao não censurar previamente o texto-base da CFE. Explicam que o texto é ecumênico, como se isso fosse sua limitação ou defeito. Se algum/a leitor/a pensar que, pelo fato de ser ecumênico o texto é, no plano mais profundo católico, isso é universal, os bispos vêm e corrigem: Não. E fazem questão de dizer que, ao menos no que diz respeito ao ensinamento moral, o pensamento católico não é ecumênico. Lamentável.

Para quem lê o evangelho, sabe que Jesus teve de enfrentar muitas polêmicas como essa. Basta ler o evangelho de Marcos ou algumas páginas do 4º evangelho para acompanhar os dolorosos debates de Jesus com doutores da lei, fariseus e religiosos do templo. O ataque lançado contra Jesus era sempre o de que ele parecia não estar de acordo com a lei e ser um risco para a religião hegemônica. E Jesus que, conforme Mateus, fazia questão de dizer “não ter vindo abolir a lei e sim levá-la à sua plenitude”(Mt 5, 17), insistia que a lei, o sábado e as instituições religiosas deveriam servir à vida e ser em função do ser humano e não o contrário. Em seu tempo, Paulo conclui que a letra mata e só o Espírito faz viver (2 Cor 3, 6).

Para quem dedica a sua vida ao que o saudoso irmão Roger Schutz, fundador e primeiro prior de Taizé, denominava “a paixão pela unidade do Corpo de Cristo”, isso tudo é extremamente doloroso. Ensina-nos muitas coisas. Talvez a primeira é que documentos, textos e estudos são importantes, mas não transformam o coração sectário de ninguém. Só a convivência e o amor são capazes dessa conversão pascal.

O tema desta CFE 2021 é tirada da carta aos efésios. Ali no capítulo 2, a carta alude ao antigo muro que, no templo de Jerusalém dividia o átrio dos gentios (pagãos) do átrio dos judeus. E o texto diz que, pela sua morte na cruz, Jesus aboliu este muro de inimizade que separava as pessoas em religiões diferentes. “De dois povos, ele fez um só povo, abolindo a Lei, com seus mandamentos e exigências”  (Ef 2, 15). Infelizmente, 21 séculos depois, uma Campanha da Fraternidade Ecumênica que nem é inter-religiosa; é proposta a cristãos, todos batizados no mesmo Cristo, receba tanta incompreensão. Religiosos católicos, com cumplicidade até de alguns pastores, parecem decididos a reedificar de novo o muro de separação. É preciso que os pastores, preocupados em salvar o seu poder e sua legitimidade, não valorizem mais a lei do que o amor pelo qual Jesus deu a vida.  E a todos e todas, chamados/as a testemunhar que Deus é amor e Jesus morreu “para reunir na unidade os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo” (Jo 11, 52), não desanimemos e retomemos à construção da unidade a partir de baixo e não das cúpulas. A partir do amor e não apenas das leis. Ouvir o outro e conviver com o diferente gera conhecimento que exorciza preconceito e gera admiração, respeito e amor.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

FRATERNIDADE: A DIFÍCIL CONSTRUÇÃO ECUMÊNICA

 



     Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

            A palavra ecumenismo encontra suas raízes na cultura grega e significa: mundo habitado. O conceito não pretendia avançar em questões demográficas ou estatísticas, mas carregava o belo sentido de povo civilizado, de cultura aberta em termos não apenas geográficos como também civilizacionais. O Cristianismo nascente adotou a ideia e o conceito, fazendo dos mesmos um ideal e uma missão: fazer habitável a obra de Deus, que é toda a criação, promovendo a unidade e a concórdia. 

            Desde muito cedo, a Igreja percebeu não apenas a necessidade dessa unidade como também o enorme desafio que significava construí-la a partir e por meio da diversidade. Os Concílios da Antiguidade procuraram superar propostas e doutrinas que dividiam a Igreja, e chegar a consensos que pudessem uni-la em termos de conteúdos da fé, para que fossem aceitos e praticados por todos os cristãos. 

            A história avançou e houve esforços de unidade, mas também ataques.  Houve guerras de religião em que se matava em nome de Deus e empreendimento ideológicos e políticos unilaterais, nos quais tristemente cristãos chegaram a considerar prestar um serviço a Deus eliminando os que professavam religiões diferentes. E houve um momento em que os próprios cristãos se dividiram, permanecendo em campos opostos e considerando hereges e apóstatas os que entendiam e viviam a fé cristã em outros termos. 

            A partir dessa divisão entre cristãos surgiu o movimento ecumênico moderno, que fomentou o diálogo e a cooperação entre os cristãos, para fazer frente à evangelização em um mundo sempre mais secularizado e mais plural. O ecumenismo tornou-se uma iniciativa entre diversas denominações cristãs, na busca do diálogo e da unidade, de superar divergências e divisões históricas, culturais e mesmo doutrinais.  Para isso, houve muito trabalho para aceitação da diversidade entre as igrejas já que todas buscam encontrar em Cristo seu ponto de unidade.  Professam um só Credo, recebem um só Batismo, e veem cada vez com maior clareza que estar divididos é um escândalo e um contratestemunho. 

            Por parte da Igreja Católica, o Concílio Vaticano II é um marco por assumir para dentro do magistério oficial da Igreja Católica Romana o desejo e o compromisso de aproximar-se sempre mais dos irmãos que adoram o mesmo Deus e reconhecem como Senhor o mesmo Cristo.  Porém, mais longe ainda foi o Concílio, acompanhando  um movimento que já se fazia sentir no campo religioso como um todo e na sociedade.  Compreendeu que a caminhada ecumênica implica passar mesmo as fronteiras do cristianismo como tal e abraçar as outras religiões, que nomeiam Deus de forma diferente e organizam sua fé de outro modo. 

            O ecumenismo, portanto, nestas quase seis décadas que nos separam do Concílio Vaticano II, se alarga sempre mais, convertendo-se progressivamente em um macro ecumenismo.  Com isso nada mais faz do que seguir fielmente o que o texto do documento mais importante do evento conciliar, a Constituição Gaudium et Spes diz: a Igreja quer ser perita em humanidade e não deseja que nada de humano lhe seja estranho.  Portanto, para fazer um mundo habitado pelos filhos de Deus é preciso ampliar o horizonte além mesmo das fronteiras institucionais e religiosas e ir ao ser humano. 

            A Campanha da Fraternidade, lançada todos os anos pela CNBB durante o período da Quaresma, traz este ano uma bela novidade.  Não apenas seu tema é o ecumenismo pensado amplamente, em termos de uma inclusão universal que conduza toda a humanidade à paz verdadeira cuja fonte é Cristo.  Mas ela é ecumênica desde as origens.  Seu texto base foi pensado e preparado por uma equipe ecumênica, sob a responsabilidade do Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs).         

            O sopro ecumênico, que busca a unidade, o diálogo e o amor, se fazem sentir ao longo de todo o texto e de suas propostas que soam como convite amoroso aos fiéis cristãos que desejam deixar para trás a divisão e construir a unidade.  Uma unidade plena, universal, que só pode dar-se através da integração das diferenças, enriquecendo-se do que todos e cada um podem trazer. 

            A isso aspira a Campanha da Fraternidade.  Só pode haver fraternidade se for universal.  E não à toa a palavra “católico” significa universal.  A CNBB testemunha luminosamente seu desejo de ser plenamente universal - ou seja, católica – abrindo sua campanha, que acontece no momento de mais densa convergência de fé e testemunho, a todos os irmãos que comungam da fé em Jesus Cristo. 

            A CF 2021 em tempos de tanta divisão dá uma decisiva contribuição ao diálogo e uma real chance à paz.  O lema da Campanha, tomado da epístola aos Efésios, diz: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade”. Superar as divisões e buscar a unidade com coragem e alegria, eis a conversão pedida a todo discípulo e discípula de Jesus Cristo nesta Quaresma. 

  A   teóloga é autora de “Santidade:chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

NOTA DE APOIO À CAMPANHA DA FRATERNIDADE ECUMÊNICA E DE REPÚDIO A SEUS DETRATORES

 



 

O CENTRO ALCEU AMOROSO LIMA PARA A LIBERDADE/CAALL vem demostrar seu repúdio ao vídeo “Saiba quem está por trás da Campanha da Fraternidade!”  divulgado pelo Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro, RJ.

 O vídeo ofende de maneira grosseira e caluniosa as Igrejas integrantes do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), que são chamadas de “seitas” e desrespeitadas na figura de seus responsáveis maiores.

Demonstra desconhecimento dos valores evangélicos e hostilidade à caminhada ecumênica da Igreja Católica assumida pelo Papa João XXIII, o Concílio Vaticano II, pelos papas Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

 É um vídeo que fortalece a intolerância e o ódio religioso. Por ser contra o ecumenismo, o diálogo interreligioso, transforma-se em anticatólico e totalmente contrário ao espírito do evangelho e à oração  de Jesus na última ceia: “Que todos sejam um, como tu Pai estás em mim e eu em ti, que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21). 

 O vídeo ataca as Campanhas da Fraternidade, desde sua primeira realização em 1964, como sendo contrárias ao espírito da quaresma e não aceita as Campanhas da Fraternidade Ecumênicas, realizadas a cada cinco anos, desde o ano 2000.

É contra, de modo especial, à Campanha da Fraternidade Ecumênica/2021 cujo tema é "Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor pela unidade", tendo como lema a carta aos Efésios: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2 14). 

 Neste momento tão doloroso que estamos vivemos, com milhões de pessoas contaminadas pela COVID19 e mais de 230 mil mortos, é escandaloso, vergonhoso, ver pessoas, que se dizem católicas, pregar desinformação, ódio, preconceito e intolerância e não se unirem num comum esforço em favor de tantas vidas ameaçadas.

 À CNBB, ao CONIC, todas as pessoas que foram ofendidas neste deplorável  vídeo, nossa solidariedade e apoio, para que continuem firmes criando pontes e não levantando muros.

 Mais do nunca precisamos de humanidade, de diálogo e compaixão e não ódios infundados.

 

Petrópolis, 7 de fevereiro de 2021

Maria Helena Arrochellas

Diretora do CAALL

112 anos do nascimento de Dom Helder Camera.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

É POSSÍVEL A FRATERNIDADE HUMANA UNIVERSAL E COM TODAS AS CRIATURAS?(II)

 

                                   


Leonardo Boff

 

Há um ano, em fevereiro de 2019 o Papa Francisco, ao visitar os Emirados Árabes assinou em Abu Dahbi importante documento com o Grão Imã Al Azhar Amad Al-Tayyeb “Sobre a fraternidade humana em prol da paz e da convivência comum”. Em sequência a ONU estabeleceu o dia 4 de fevereiro o Dia da Fraternidade Humana.

Todos são esforços generosos que visam senão a  eliminar, pelos menos a minimizar as profundas divisões que imperam na  humanidade. Almejar uma fraternidade universal parece um sonho distante mas sempre desejado.

O grande obstáculo à fraternidade: a vontade de poder

O eixo estruturador das sociedades mundiais e de nosso tipo de civilização, já o refletimos anteriormente é a vontade de poder como dominação.

Não há declarações sobre a unidade da espécie humana e da fraternidade universal bem como  a mais conhecida  Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 da ONU, enriquecida com os direitos da natureza e da Terra que conseguem impor limites à voracidade do poder

Bem o entendeu Thomas Hobbes em seu Levitã (1615):” Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”. Jesus foi vítima desse poder e foi judicialmente assassinado na cruz. Nossa cultura moderna se assenhoreou da morte, pois com a máquina de extermínio total já criada, pode eliminar a vida sobre a Terra e a si mesmo. Como controlar o demônio do poder que nos habita? Onde encontrar o remédio?

A renúncia a todo o poder pela radical humildade

Aqui São Francisco nos abriu um caminho: a radical humildade e a pura simplicidade. A  radical humildade implica pôr-se junto ao húmus, à terra, onde todos se encontram e se fazem irmãos e irmãs porque todos vieram do mesmo húmus. O caminho para isso consiste em descer do pedestal onde  nos colocamos como senhores e donos da natureza e operar um  radical despojamento de qualquer título de superioridade. Consiste em fazer-se realmente pobre, no sentido de tirar tudo o que se interpõe entre o eu e o outro. Aí se escondem os interesses. Estes não podem prevalecer, pois são entraves para o encontro com o outro, olho a olho, rosto a rosto, de mãos vazias para o abraço fraterno entre irmãos e irmãs, por diferentes que sejam.

A pobreza não representa nenhum ascetismo. É o modo que nos faz descobrir a fraternidade, juntos sobre o mesmo húmus, sobre a irmã e mãe Terra Quanto mais pobre mais irmão do Sol, da Lua, do pobre, do animal, da água, da nuvem e das estrelas.

Francisco palmilhou humildemente esta senda. Não negou as obscuras origens de nossa existência, do húmus (de onde vem homo em latim) e desta forma se confraternizou com todos os seres, chamando-os com o doce nome de irmãos e irmãs, até o feroz lobo de Gubbio.

Um outro tipo de presença no mundo

Temos a ver com uma nova presença no mundo e na sociedade, não como quem se imagina coroa da criação estando em cima de todos, mas como quem está ao pé e junto com os demais seres. Por esta fraternidade universal, o mais humilde encontra sua dignidade e sua alegria de ser por sentir-se acolhido e respeitado e por ter seu lugar garantido no conjunto dos seres.

Leclerc obstinadamente coloca sempre de novo  a pergunta como quem não está totalmente convencido: “Será que  a fraternidade é possível entre os seres humanos? Ele mesmo responde:

”Somente se o ser humano se colocar a si mesmo com grande humildade, entre as criaturas, dentro de uma unidade de criação (que inclui o ser humano e a natureza como um todo) e respeitando todas as formas de vida, inclusive as mais humildes, ele poderá esperar  um dia formar uma verdadeira fraternidade com todos os seus semelhantes. A fraternidade humana passa por esta fraternidade cósmica”(p.93).

A fraternidade vem acompanhada pela simplicidade Esta não é nenhuma atitude piegas ou carola. Trata-se de um modo de ser, afastando tudo o que é supérfluo, todo tipo de coisas que vamos acumulando, fazendo-nos reféns delas, criando desigualdades e barreiras contra os outros  e negando-se a conviver solidariamente com eles e a contentar-se com o suficiente, compartilhando-o com os outros.

Esse percurso não foi fácil para Francisco. Sentia-se  responsável pelo caminho da radical pobreza e fraternidade. Ao crescer o número de seguidores, aos milhares, impunha-se uma organização mínima. Havia belos exemplos do passado. Francisco tinha verdadeira ojeriza a isso. Chega a dizer: ”não me falem das regras de Santo Agostinho, de São Bento ou de São Bernardo; Deus quis que eu fosse um  novo louco nesse mundo (novellus pazzus)”. É a clara afirmação da singularidade de seu modo de vida e de seu estar no mundo e na Igreja, como um simples leigo, que toma absolutamente a sério o evangelho, no meio e junto  dos pobres e invisíveis e não como um clérigo da poderosa Igreja feudal.

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A grande tentação de São Francisco

Entretanto, num dado momento de sua vida, entra numa profunda crise, pois via que seu caminho evangélico de radical pobreza e fraternidade estava sendo-lhe arrebatado. Amargurado, se retira numa ermida e no bosque, por dois longos anos, acompanhado pelo seu íntimo amigo Frei Leão “a ovelhinha de Deus”. É a grande tentação que as biografias pouco relevância lhe conferem, mas essencial para se entender a proposta de vida de Francisco.

Por fim, despoja-se deste instinto de posse espiritual. Aceita um caminho que não é  o seu mas que era inevitável. Onde dormiriam os frades? Como se sustentariam? Prefere salvar a fraternidade que seu ideal próprio. Acolhe jovialmente a férrea lógica da necessidade. Já não pretende mais nada. Despojou-se totalmente até de seus desejos mais íntimos  a ponto que seu  biógrafo São Boaventua o chamar de  vir desideriorum (homem de dsejos).

Agora, totalmente despojado em seu espírito, deixa-se conduzir por Deus. O Espírito será o senhor de seu destino. Ele mesmo não se propõe mais nada. Está  à mercê daquilo que a vida lhe pedir, vendo-a como vontade de Deus. Sente nisso a maior liberdade de espírito possível que se expressa por uma alegria permanente a ponto de o chamarem “o irmão sempre alegre”. Ele não ocupa mais o centro. O centro é a vida conduzida por Deus.E isso basta.

Volta ao meio dos confrades e recupera a jovialidade e a plena alegria de viver. Mas seguindo o chamado do Espírito, como nos inícios, volta  a conviver com os leprosos, que chama de “meus cristos” em profunda comunhão fraterna. Jamais abandona a profunda comunhão com  a irmã e Mãe Terra. Ao morrer, pede que o coloquem nu sobre a Terra para a ultima carícia e a total comunhão com ela.

A unidade da criação: todos irmãos e irmãs, os humanos e a natureza

Francisco buscou incansavelmente  a unidade da criação mediante a fraternidade universal, unidade que inclui seres humanos e seres da natureza. Tudo começa com a fraternidade com todas as criaturas, amando-as e respeitando-as. Se não cultivarmos esta fraternidade com elas, vã será a fraternidade humana que passa a ser meramente retórica e continuamente violada.

Curiosamente, o renomado antropólogo Claude Lévy Strauss que muitos anos lecionou e pesquisou no Brasil e aprendeu a amá-lo (veja seu livro “Saudade do Brasil”) confrontado com a crise aterradora de nossa cultura sugere o mesmo remédio de São Francisco:” o ponto de partida deve ser uma humildade principal: respeitar todas as formas de vida…preocupar-se do homem sem preocupar-se com as outras formas de vida é, quer queiramos ou não,  levar a humanidade a oprimir-se  a si mesma, abrir-lhe o caminho da auto-opressão e da auto-exploração”(Le Monde 21-22 de janeiro de 1999).  Face às ameaças planetárias também afirmou:”A Terra surgiu sem o ser humano e poderá continuar sem o ser humano” .

Voltemos ao nosso momento histórico: o confinamento social nos criou as condições involuntárias para colocarmos esta questão fundamental: O que é essencial: a vida ou o lucro? O cuidado da natureza ou sua ilimitada exploração? Finalmente que Terra queremos? Que Casa Comum desejamos habitar? Somente nós seres humanos ou junto com todos os demais irmãos e irmãs da grande comunidade de vida, realizando a unidade da criação? 

O Papa durante a pandemia tomou-se o tempo para refletir sobre esta momentosa questão. Expressou-a  em termos graves, quase desesperadores na Fratelli tutti embora, como homem de fé, mantivesse e reafirmasse sempre a esperança.

O sobrevivente do campo de extermínio nazista, Eloi Leclerc, a recolocou de forma existencial e permanentemente angustiada  mas com acenos de esperança, dentro de frequentes sobressaltos causados pela memória inapagável dos horrores sofridos nos campos de extermínio nazista.

Se não pode ser um estado, a fraternidade pode ser um novo tipo de presença no mundo

Francisco viveu em termos pessoais a  fraternidade universal. Mas em termos globais fracassou. Teve que compor-se com a ordem e com o poder. E o fez sem amargura, reconhecendo e acolhendo sua inevitabilidade. É a tensão permanente entre o carisma e o poder. O poder é um componente da essência do ser humano social. O poder, não é uma coisa (o estado, o presidente, a polícia) mas uma relação entre pessoas e coisas. Ao mesmo tempo assume a forma de  uma instância de direção social.  Contudo, devemos qualificar a relação e a direção. Ambos estão a serviço do bem de todos ou a de grupos que então se revela como como exclusão e  dominação? Para evitar esse modo (o demônio que o habita), prevalente na modernidade, deve ser sempre colocado sob controle, ser pensado e vivido a partir do carisma. Este representa um limite ao poder para garantir seu caráter de serviço à vida e ao bem de todos e evitar a tentação da dominação e até do despotismo. O carisma é sempre criativo e coloca em xeque o poder instituído.

Respondendo à questão se é possível uma fraternidade universal, diria:  dentro do mundo em que vivemos sob o império do poder-dominação sobre pessoas, nações e sobre a natureza, ele vem sempre inviabilizado e até negado. Por aquí no hay camino.

No entanto, se ele não pode ser vivido como um estado permanente, ele pode se realizar como como um espírito, como uma  nova presença e como um modo ser  que tenta impregnar todas as relações mesmo dentro da atual ordem que é uma desordem. Mas isso somente é possível à condição de cada pessoa ser humilde, de colocar-se junto ao outro e ao pé da natureza, superar as desigualdades e ver em cada um, um irmão e uma irmã, colocados sobre o mesmo húmus terrenal onde estão nossas origens comuns e sobre o qual convivemos.

O Tempo de São Francisco e o nosso tempo

Francisco de Assis, no quadro conturbado de seu tempo, no tramontar do feudalismo e no alvorecer das comunas, mostrou a possibilidade real de, ao menos a nível pessoal, criar uma fraternidade sem limites. Mas seu impulso o levava para mais longe: criar uma fraternidade global ao unir os dois mundos de então: o mundo muçulmano do sultão egípcio Al Malik al-Kâmil com quem nutriu grande amizade com o mundo cristão sob o pontificado do Papa Inocêncio III, o mais poderoso da história da Igreja. Desta forma realizaria seu sonho maior: uma fraternidade realmente universal, na unidade da criação, confraternizando o ser humano com outros seres humanos, mesmo de religiões distintas mas unidos com todos os demais seres da criação.

Esse espírito, no contexto das forças destrutivas do antropoceno e do necroceno reinantes, se confronta com uma situação, totalmente diversa daquela vivida por Francisco de Assis. Nela não se questionava se a Terra e a natureza tinham futuro ou não. Pressupunha-se que tudo estava garantido. O mesmo ocorreu na grande crise economico-financeira de 1929 e  mesmo na de 2008. Ninguém  colocava em  questão os limites da Terra e de seus bens e serviços não renováveis. Era um pressuposto dado como evidente pois, para todos, ela comparecia qual baú cheio de recursos ilimitado, base para um crescimento também ilimitado. Na Laudato Si o Papa chama este concepção de mentira.

Hoje não é mais assim. Tudo se desvaneceu, pois sabemos que nos podemos destruir e abalar as bases físicas, químicas e ecológicas que sustentam a vida.

O espírito de fraternidade como exigência para a continuidade de nossa vida no planeta

Não estamos face a uma opção, que podemos assumir ou não. Mas face à uma exigência  da continuidade de nossa vida nesse planeta. Encontramo-nos numa situação ameaçadora para a nossa espécie e a nossa civilização.

 O Covid-19 que afetou a inteira humanidade cabe ser interpretado como um sinal da Mãe Terra de que não podemos continuar com a dominação e devastação de tudo o que existe e vive. Ou fazemos, como adverte o Papa Francisco de Roma à luz do espírito e  do um novo de ser no mundo de Francisco de Assis, “uma radical conversão ecológica”(N.5) ou pomos em risco o nosso futuro como espécie: “As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia..Nosso estilo de vida e o nosso consumismo insustentáveis só  podem desembocar em catástrofes”(Laudat Si n.161). Na Frateli tutti é mais contundete: ”Estamos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho, só é possível salvar-nos juntos”(n.32). Trata-se de uma derradeira cartada para a humanidade.

O surgimento das condições para uma fraternidade universal

Mas eis que surge uma nova alternativa possível, pois a história não é retilínea. Ela conhece rupturas e saltos. Assim estaríamos face a um salto no estado de consciência da humanidade. Pode chegar a um momento em que ela se torna plenamente consciente de que pode se auto-destuir seja por uma fenomenal crise ecológica, social e sanitária (atacada por vírus letais) seja por uma guerra nuclear. Entenderá que é preferível viver fraternalmente na mesma Casa Comum do que entregar-se a um suicídio coletivo. Será obrigada a convencer-se de que a solução  mais sensata e sábia consiste em cuidar da única Casa Comum, a Terra, vivendo dentro dela, todos, como irmãos e irmãs, a natureza incluída. Seguramente a humanidade não está condenada a se autodestruir, nem pela vontade de poder-dominação nem pelo aparato bélico, capaz de eliminar toda vida. Ela é chamada a desenvolver as incontáveis potencialidades que estão nela, como um momento avançado da cosmogênese.

 Será, então, um dado da consciência coletiva aquilo que as encíclica Laudato Si e Fratelli tutti repetem de ponta a ponta: todos estamos relacionados uns com os outros, todos somos interdependentes e só sobreviveremos juntos. Tudo será relacional, também as empresas, gerando um equilíbrio geral assentado sobre o amor social, o  sentido de pertença fraterna,  o altruísmo, a solidariedade e o cuidado comum de todas as coisas comuns (água, alimentação, moradia, segurança, liberdade e cultura etc).

Todos se sentirão cidadãos do mundo e membros ativos de suas comunidades. Haverá um governo planetário plural (de homens e mulheres, representantes de todos os países e culturas) que buscará soluções globais para problemas globais. Vigorará uma hiperdemocracia terrenal. A grande missão coletiva é construir a Terra, como já no deserto de Gobi, na China, nos idos de 1933, anunciava Pierre Teilhard de Chardin. Assistiremos ao surgimento lento e sustentável da noosfera vale dizer, das mentes e corações sintonizados dentro do único planeta Terra. Este é o nosso ato de fé.

Agora serão dadas as condições do sonho de Francisco de Assis e de Francisco de Roma: uma real fraternidade humana, de um verdadeiro amor social junto com os demais irmãos e irmãs da natureza.

Cabe a nós como pessoas e como coletividade pensar e repensar com a maior seriedade, colocar e recolocar esta questão: Dentro da situação mudada de Terra e da humanidade e das ameaças qe pesam sobre elas não representa puro sonho e utopia inviável buscar um espírito da fraternidade universal entre os humanos e com todos os seres da natureza e realizá-lo coletivamente. Esta será  a grande saída que nos poderá salvar. O Papa Francisco crê e espera que este é o caminho. Pode ser tortuoso, conhecer obstáculos e fazer desvios, mas segue pelo  rumo certo.

Somos urgidos a responder, pois o tempo do relógio corre contra nós. Ou acolhemos a proposta  da figura mais inspiradora do Ocidente, o humilde Francisco de Assis, como o chama  Tomás Kempis, autor da Imitação de Cristo e retomada na Fratelli tutti pelo Francisco de Roma e repensada por Leclerc e Lévy Strauss ou poderemos trilhar um caminho já percorrido pelos dinossauros há 67 milhões de anos. Mas cremos não ser este o destino da humanidade.

 Só nos resta palmilhar este caminho da fraternidade universal e do amor social porque  então poderemos  continuar, sob a luz benfazeja do sol, sobre esse pequeno planeta, azul e branco, a Terra, nosso querido lar e Casa Comum. Dixi et salvavi aninam meam.

 

*Leonardo Boff é ecoteólogo brasileiro e escreveu:”O covid-19: um contra-ataque da Terra contra a humanidade”(Petrópolis-Rio, 2020/21).