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domingo, 10 de abril de 2011

UM DESAFIO Á INTELIGÊNCIA ACADÊMICA

por LEONARDO BOFF No dia 27 de março morreu aos 88 anos de idade perto de Salvador o teólogo da libertação José Comblin. Belga de nascimento, optou por trabalhar na América Latina, pois se dava conta de que o Cristianismo europeu era crepuscular e via em nosso Subcontinente espaço para a criatividade e um novo ensaio da fé cristã articulada com a cultura popular. Ele incarnava o novo modo de fazer teologia, inaugurado pela Teologia da Libertação, que é ter um pé na miséria e outro na academia. Ou dito de outro modo: articular o grito do oprimido com a fé libertadora da mensagem de Jesus, partindo sempre da realidade contraditória e não de doutrinas e buscar coletivamente uma saida libertadora a partir do povo. Viveu pobre e despojado no Nordeste brasileiro. E mesmo lá, onde se presume não haver condições para uma produção intelectual aprimorada, escreveu dezenas de livros, muitos deles de grande erudição. Logicamente aproveitava as temporadas que passava na Universidade de origem, a de Lovaina, para se reciclar. Assim escreveu um dos melhores livros sobre a Ideologia da Segurança Nacional, dois volumes sobre a Teologia da Revolução, um detalhado estudo sobre o Neoliberalismo: a ideologia dominante na virada do século. E dezenas de livros teológicos, exegéticos e de espiritualiadade entre os quais destaco: O Tempo da Ação; Cristãos rumo ao século XXI e Vocação para a Liberdade. Foi assessor de Dom Helder Câmara em sua luta pelos pobres e de Dom Leônidas Proaño, bispos dos índios em Riobamba no Equador. Devido a suas idéias, foi em expulso do Brasil pelos militares em 1972. Foi trabalhar no Chile de onde os militares também o expulsaram em 1980. De regresso ao Brasil, se dedicou a dar corpo à sua profunda convicção: a de que o novo cristianismo no Brasil deverá nascer da fé do povo. Criou várias iniciativas de evangelização popular que vinham sob o nome de Teologia da Enxada. Inspirou-se no Padre Ibiapina e do Padre Cícero, os grandes missionários do Nordeste, pois mais que administrar sacramentos e fortalecer a instituição eclesiástica, exerciam a pastoral do aconselhamento e da consolação dos oprimidos, coisa que eles mais buscam. Ele é um dos melhores representantes do novo tipo de intelectual que caracteriza os teólogos da libertação e dos agentes de pastoral que estão nesta caminhada: operar a troca de saberes, vale dizer, tomar a sério o saber popular,”de experiências feito”, banhado de suor e sangue mas rico em sabedoria e articulá-lo com o saber acadêmico, crítico e comprometido com as transformações sociais. Essa troca enriquece a uns e a outros. O intelectual repassa ao povo um saber que o ajuda avançar e o povo obriga o intelectual a pensar os problemas candentes e se enraizar no processo histórico. A Intelligentzia acadêmica possui uma dívida social enorme para com os pobres e marginalizados. Em grande parte as universidades representam macroaparelhos de reprodução da sociedade discricionária e fábricas formadoras de quadros para o funcionamento do sistema imperante. Mas há de se reconhecer também, não obstante seus limites, o fato de que foi e é um laboratório do pensamento contestatário e libertário. Mas não houve ainda um encontro profundo entre a universidade e a sociedade, fazendo uma aliança entre a inteligência acadêmica e a miséria popular. São mundos que caminham paralalelos e não são as extensões universitárias que cobrirão esse fosso. Tem que ocorrer uma verdadeira troca de saberes e de experiências. Ignorante é aquele que imagina ser o povo ignorante. Este sabe muito e descobriu mil formas de viver e sobreviver numa sociedade que lhe é adaversa. Se há algum mérito nos teólogos da libertação (eles existem aqui e pelo mundo afora e Roma não conseguiu exterminá-los) é ter feito este casamento. Por isso não se pode pensar num teólogo da libertação senão metido nos dois mundos, para juntos tentarem gestar uma sociedade mais equalitária que, no dialeto cristão, tenha mais bens do Reino que são justiça, dignidade, direito, solidariedade, compaixão e amor. O Padre José Comblin nos deixou o exemplo e o desafio.

Leonardo Boff escreveu Teologia do cativeiro e da libertação, Vozes 1998.

JOSÉ COBLIN: O LEGADO DO PROFETA

POR MARIA CLARA BINGEMER A Igreja brasileira vive na saudade o luto por José Comblin, morto aos 88 anos, no dia 27 de março. Belga de nascimento, brasileiro por adoção, latino-americano por vocação, esse missionário que deu sua vida junto aos pobres e sofredores do sul do Equador deixa um vazio nestes nossos tempos carentes de profetas. Sua voz de fogo e sua razão clara e lúcida certamente provocam imensa nostalgia. O Padre José, como era carinhosamente chamado pelo povo nordestino a quem servia, nasceu em Bruxelas, em 1923. Foi ordenado sacerdote em 1947 e obteve o título de doutor em Teologia pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica. Onze anos depois de ordenado, em 1958, Comblin desembarcou em Campinas. Aqui foi assessor da JOC (Juventude Operária Católica) e professor da Escola Teológica dos Dominicanos em São Paulo, tendo como alunos alguns frades notáveis na história brasileira como Frei Betto e Frei Tito Alencar Lima, este torturado barbaramente nos cárceres da ditadura militar brasileira, o que o levou à depressão e ao suicídio na França. Posteriormente lecionou na Faculdade de Teologia do Chile, mas voltou para Recife a convite de Dom Helder Câmara, onde foi professor do famoso ITER (Instituto de Teologia do Recife), pondo em prática iniciativas criativas para colocar a teologia ao alcance do povo mais pobre do meio rural. Organizou muitos seminários rurais em Pernambuco e Paraíba e ali encontrou inspiração e base para uma Teologia da Enxada. Por suas idéias e prática, Pe. Comblin passou a ser persona non grata para o regime militar e foi expulso do Brasil, em 1971. Exilou-se no Chile por oito anos. Dali foi também expulso pela ditadura de Pinochet, em 1980. Voltou ao Brasil e radicou-se na Paraíba, dedicando-se à formação de seminaristas rurais e animadores de comunidades eclesiais de base. Alternava essa práxis docente e reflexiva em meio aos pobres com aulas no curso de pós-graduação de missiologia na PUC de São Paulo. Ouvir José Comblin falar era um privilégio. Comprometido com a verdade, sem fazer nenhuma concessão neste ponto, abria sua boca de profeta e deixava-nos muitas vezes desconcertados e perplexos. Não poupava críticas a uma Igreja que, no entanto, amava com paixão. E a violência da crítica dava a medida do amor. No entanto, era muito consciente de que a Igreja estava a serviço do Evangelho de Jesus, seu amor maior. E fazia questão sempre de recordar isso. José Comblin tinha uma grande esperança eclesial: os leigos. Acreditava nos cristãos batizados que recebiam do Espírito carismas e ministérios, e se entregavam ao serviço de sua fé. E por isso criou vários movimentos missionários leigos, na Bahia, na Paraíba, em Tocantins e outros pontos do Nordeste brasileiro. As reuniões da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião não serão mais as mesmas sem sua presença lúcida, profética e sábia. Cercado pelos jovens teólogos de todo o Brasil, Comblin sorria e respondia a cada pergunta com atenção e simplicidade, como era seu estilo. Seu pensamento encantava e impunha respeito, mesmo se dele se discordava. Era um mestre, sem sombra de dúvida. Encontrei-o pela última vez em março de 2010 em El Salvador, no congresso teológico que celebrava os 30 anos do martírio de Monsenhor Romero. Caminhamos juntos com milhares de outros peregrinos até a catedral onde celebramos a memória do mártir. Ali me disse que agora morava em Barra, na Bahia. Explicou-me com uma pureza cheia de simplicidade e por isso mesmo mais comovente que sentia estar perto da morte. E que por isso necessitava converter-se. E nada melhor para converter-se do que estar perto de um profeta. Por isso, tinha escolhido ir morar na diocese de Dom Cappio, a quem situava na categoria dos profetas. Seu depoimento comoveu-me. Ouvir aquele homem de muito mais de 80 anos buscando ainda conversão e proximidade do Senhor após toda uma vida entregue a Deus e aos pobres era realmente edificante. A notícia de sua morte chegou-me por mensagem eletrônica de amigos. Juntamente com a dor da perda de um irmão mais velho, senti gratidão por sua vida e responsabilidade em não deixar perder seu legado de teólogo, de profeta, de servidor de Deus e de seu povo. Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros. Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O QUE JOSÉ COMBLIN NOS CONTOU EM 2007.


por

Eduardo Hoornaert





Por ocasião dos sessenta anos da ordenação sacerdotal de José Comblin, um bom grupo de amigos(as) e missionários(as) se reuniu no santuário de Ibiapina em Santa Fé (Arara), no brejo paraibano, para festejar a data, reatar os contactos, fortalecer a rede e reanimar o espírito. José tinha 85 anos e estava particularmente eufórico. Ele nos confidenciou detalhes sobre sua vida, algo que não costumava fazer.

1. Desde muito jovem, seus talentos intelectuais chamaram a atenção de familiares e educadores. Quando, provavelmente com a idade de 16 ou 17 anos, ele disse a seu tio padre que queria ser missionário, este respondeu prontamente: ‘Missionário não, você e inteligente demais. Professor, isso sim, professor na universidade de Lovaina!’. Efetivamente, José estudou teologia em Lovaina e admirou a competência, aplicação e honestidade intelectual de professores como Lucien Cerfaux e Gustave Thils. Quando o novo ‘doutor’ foi nomeado vigário auxiliar numa paróquia em Bruxelas, foi uma decepção: ‘eu senti que não havia mais futuro para o catolicismo na Bélgica’. Então, ele procurou outra coisa. Quando, respondendo ao pedido do papa Pio XII, a universidade de Lovaina abriu um colégio para sacerdotes que desejavam partir para a América Latina, ele foi u m dos primeiros candidatos.

2. Com a idade de 35 anos, em 1958, José partiu para o Brasil. Na conversa de 2007 ele insistiu: Não deixei a Bélgica para responder ao apelo do papa nem para combater o comunismo, o protestantismo ou o espiritismo (as três ameaças da época, na opinião do Vaticano). Parti tampouco para remediar a falta de padres. Eu compreendi que o cristianismo estava se extinguindo na Europa e só poderia renascer fora de um continente tão deformado por longa tradição de colonialismo, tráfico de escravos, matança de povos, deformado também por multissecular opressão da liberdade e das forças vitais do ser humano’. Ao encontrar aqui, já nos primeiros dias, pessoas que correspondiam à sua visão, a alegria era grande. José ficou imediatamente fascinado pelo Brasil. Seus primeiros contactos foram com jovens da JOC (juventude operária católica), pois, como muitos padres de sua geração, ele era influenciado por Cardijn, padre da diocese de Bruxelas e fundador da JOC. Educado num ambiente onde obediência, discrição e mesmo timidez eram apreciadas e mesmo encorajadas, ele encontrou aqui pessoas que não eram nem obedientes, nem discretas nem tímidas. ‘Eu encontrei pessoas verdadeiras, que não escondiam o que eram, pessoas sem mentira’. A fascinação pelo modo de ser brasileiro aparentemente nunca mais o abandonou e isso me foi confirmado inesperadamente por sua própria irmã, que encontrei certa vez em Bruxelas, em 1980: ‘O que fizeram ali com meu irmão? Ele não é mais o mesmo!’.

3. Comblin nunca foi a Roma: ‘O que eu faria ali?’. Mas em 1968 o arcebispo Hélder Câmara lhe pediu de redigir um texto para a conferência dos bispos em Medellín (Colômbia). José foi a seu quarto e bateu o dia inteiro com os dedos na sua máquina de escrever. Sou testemunha, pois na época vivíamos na mesma casa, com portas e janelas sempre abertas. Principalmente a partir de textos de José Comblin, Gustavo Gutiérrez (Peru) e Juan Luis Segundo (Uruguay) surgiu então a expressão ‘opção pelos pobres’, na verdade uma confirmação verbal do que diversos bispos da América latina já estavam praticando na época, na fidelidade ao ‘pacto das catacumbas’ firmado em Roma no final do Concílio Vaticano II. Os três teólogos sabiam, pois, que estavam construindo sobre terreno firme, o que mais tarde ficou comprovado pelo surgimento da teologia da liberta� �ão. Dom Hélder Câmara, que era um homem perspicaz, tinha pedido, em 1965, a José Comblin de vir trabalhar em Recife. Desse modo o conselheiro de Dom Hélder entrou, aos poucos, em contacto com outros bispos progressistas da América latina como Leônidas Proaño (Ecuador), Mendez Arceo (México), Aloísio Lorscheider, José Maria Pires e muitos outros. A visão dos teólogos da libertação consistia basicamente na rejeição da ideologia do desenvolvimento e no aprofundamento de temas como opressão, ditadura econômica e política, fascínio do capitalismo (Jung Mo Sung) e solidariedade com os pobres. Quando o texto de 1968, por indiscrição, caiu nas mãos dos militares, Comblin entrou numa rota de colisão com o sistema e foi expulso do país em 1972. Ainda tentou viver no Chile, mas ali também Pinochet tomou o poder em 1974. A única possibilidade, depois da ‘abertura lenta e progressiva’ de 1977, consistia em permanecer no Brasil na qualidade de ‘turista’ por consecutivos períodos de três anos. Seu estatuto legal só foi regularizado no decorrer dos anos 1980.

4. Entretempo, Comblin muda outra vez o rumo de sua vida. Adeus formação sacerdotal em seminários e institutos de teologia, adeus grandes cidades. José desaparece e começa uma peregrinação de longos anos e grandes percursos, zigue-zague pelos imensos espaços do Nordeste, à procura de pessoas que se sensibilizem com sua ‘teologia da enxada’. A agricultura tradicional do Nordeste opera por meio da enxada, não do arado. Isso significa que a teologia da enxada parte da cosmovisão do agricultor comum, algo que pressupõe uma ‘reversão de todos os valores’ por parte de um teólogo formado por Cerfaux e Thils. Na qualidade de teólogo da enxada, José peregrina até três dias antes de morrer tranquilamente no Recanto da Transfiguração, em Salvador. Nos últimos anos ele conta com a dedicação incondicional de Mônica Muggler, que faz de tudo para que Jo sé possa trabalhar e viajar até a idade de 88 anos. Ela é motorista (ele mesmo não sabe dirigir carro!), planeja encontros (nos últimos anos de forma intensiva por meio de telefone celular), estabelece contactos, organiza planos de viagens, coloca textos na internet (laptop), encontra lideranças locais. José também tem seu laptop. Ele ainda me manda algumas palavras por ocasião de seu aniversário, cinco dias antes de morrer.

5. O milagre consiste no fato que um intelectual estrangeiro, de índole retraída, consegue estabelecer um laço provavelmente estável com a cultura iletrada do interior nordestino. Um milagre que, como todos os milagres, é incompreensível. Neste momento (31/03/2011) estou sendo informado que há velas acesas em cima de sua cova, ao lado do túmulo do padre Ibiapina, na calma e linda natureza do brejo paraibano, em baixo das árvores. E uma mulher se declara curada depois de rezar no túmulo do padre José Comblin.


Eduardo Hoornaert é teólogo, professor e escritor, com diversos artigos e livros publicados, que podem ser conferidos nesse site clicando no nome.

domingo, 3 de abril de 2011

A ARTE DE SEDUZIR


por FREI BETTO


Toda ditadura é megalômana. E a que governou o Brasil sob botas e fuzis, de 1964 a 1985, não foi diferente. A construção da rodovia Transamazônica simboliza a arrogância do regime militar.
Rasgou-se a selva de leste a oeste. Abriu-se a estrada em paralelo a caudalosas vias fluviais. Em vez de aprimorar o sistema de navegação pelo rio Amazonas e seus afluentes, a ditadura preferiu obrigar a floresta a ajoelhar-se a seus pés. Possantes máquinas puseram abaixo árvores milenares encorpadas de madeiras nobres, destruíram ecossistemas preciosos, alteraram o equilíbrio ecológico da região.
Tudo em nome de uma palavra tão propalada e, no entanto, vazia de significado: desenvolvimento. Leia-se: exploração predatória da maior floresta tropical do mundo, aberta à voracidade de mineradoras, madeireiras e, sobretudo, do latifúndio predador, quase sempre movido a trabalho escravo.
“No meio do caminho havia uma pedra”, repetiria Drummond. Povos indígenas. Como impedir que oferecessem resistência? Simples: através da arte de seduzir. A Funai ergueu tapini
Detalhe: o mato, não o gato, comeu a Transamazônica, fonte de riqueza e poder de umas tantas empreiteiras.
(cabanas de folhas). Dentro, utensílios de caça e cozinha, ferramentas etc. Os índios, encantados com os objetos, acolhiam gentilmente os caras-pálidas. E ingenuamente eram cooptados pelas relações mercantilistas. Em troca de bugigangas perdiam saúde, terras, liberdade e vida. Hoje, os índios somos todos nós. Os tapini, os shopping, a publicidade, as veneráveis bugigangas que nos agregam valor. O inumano imprime sentido ao humano, como faziam os deuses de ouro denunciados pelos profetas bíblicos: tinham boca, mas não falavam; olhos, mas não viam; ouvidos, mas não escutavam; pés, mas não andavam...
Estamos todos somos sob o efeito hipnótico do consumismo. Não importa se o produto é frágil ou de má qualidade. Seu design nos cativa. Sua publicidade nos faz acreditar que estamos comprando a oitava maravilha do mundo! E, ingenuamente, que se trata de um produto durável, mesmo conscientes de que o capitalismo não se importa com o direito do consumidor, e sim com a margem de lucro do produtor.
Como se livrar do labirinto consumista que, na verdade, se consuma nos consumindo? Não vejo outra porta de saída fora da espiritualidade, somada a uma nova visão do mundo. Sem espiritualidade corremos o risco – sobretudo os mais jovens – de dar importância àquilo que não tem. Imbuídos da baixa autoestima que nos incute a publicidade (“você não é ninguém porque não possui este carro, não veste esta roupa, não faz esta viagem...”) encaramos a mercadoria como algo que nos agrega valor. Não basta a camisa, a bolsa ou o tênis. Têm que ser de grife, com a etiqueta exibida do lado de fora. Assim, todos à nossa volta haverão de reconhecer o nosso status. E quiçá invejar-nos. E aquele ser humano que, ao lado, carece de produtos refinados, é visto como não tendo nenhuma importância. Pois não se enquadra no atual princípio pós-cartesiano: “Consumo, logo existo.”
É espiritualizada toda pessoa cujo sentido de vida deita raízes em sua subjetividade e cujas opções são movidas por ideais altruístas. Ela não faz do que possui – conta bancária, títulos, casa, carro etc. – seu fator de autoestima. Sabe que tem valor em si, que não é nutrido pela posse de bens e sim por sua capacidade de fazer o bem aos outros. Sua autoestima se funda na generosidade, solidariedade e compaixão. Ela é feliz porque sabe fazer outras pessoas felizes.
O mercado tudo oferece. Todos os seus produtos nos chegam embrulhados em papel de presente: se compramos este carro, seremos felizes; se bebemos aquela cerveja, nos sentiremos alegres; se adquirimos tal roupa, ficaremos joviais. O único bem que o mercado jamais oferta é justamente este que mais buscamos: a felicidade. No máximo, o mercado tenta nos convencer de que a felicidade é o resultado da soma de prazeres.
Ora, a felicidade é um bem do espírito, jamais dos sentidos, da cobiça ou da arrogância. É feliz quem ousa destampar o próprio ego e conectar-se com o Transcendente, o próximo e a natureza. Esse irromper para fora de si mesmo tem nome: amor. E se manifesta nas dimensões pessoal, no dom de si ao outro, e na social, no empenho de construir um mundo melhor.