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domingo, 7 de agosto de 2011

AINDA O FUNDAMENTALISMO



por LEONARDO BOFF




O ato terrorista perpetrado na Noruega de forma calculada por um solitário extremista norueguês de 32 anos, trouxe novamente à baila a questão do fundamentalismo. Os governos ocidentais e a mídia induziram a opinião pública mundial a associar o fundamentalismo e o terrorismo quase que exclusivamente a setores radicais do Islamismo.

Barack Obama dos USA e David Cameron do Reino Unido se apressaram em solidarizar-se com governo da Noruega e reforçaram a idéia de dar batalha mortal ao terrorismo, no pressuposto de que seria um ato da Al Qaeda.

Preconceito. Desta vez era um nativo, branco, de olhos azuis, com nivel superior e cristão, embora o The New York Times o apresente “sem qualidades e fácil de se esquecer”.Além de rejeitar decididamente o terrorismo e o fundamentalismo devemos procurar entender o porquê deste fenômeno. Já abordei algumas vezes nesta coluna tal tema que resultou num livro “Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz: desafio do século XXI”(Vozes 2009).

Ai refiro, entre outras causas, o tipo de globalização que predominou desde o seu início, uma globalização fundamentalmente da economia, dos mercados e das finanças. Edgar Morin a chama de “a idade de ferro da globalização”. Não se seguiu, como a realidade pedia, uma globalização política (uma governança global dos povos), uma globalização ética e educacional.

Explico-me: com a globalização inauguramos uma fase nova da história do Planeta vivo e da própria humanidade.

Estamos deixando para trás os limites restritos das culturas regionais com suas identidades e a figura do estado-nação para entrarmos cada vez mais no processo de uma história coletiva, da espécie humana, com um destino comum, ligado ao destino da vida e, de certa forma, da própria Terra. Os povos se puseram em movimento, as comunicações universalisaram os contactos e multidões, por distintas razões, começam a circular pelo mundo afora.A transição do local para o global não foi preparada, pois o que vigorava era o confronto entre duas formas de organizar a sociedade: o socialismo estatal da União Soviética e o capitalismo liberal do Ocidente. Todos deviam alinhar-se a uma destas alternativas.

Com o desmonte da União Soviética, não surgiu um mundo multipolar mas o predomínio dos EUA como a maior potência econômico-militar que começou a exercer um poder imperial, fazendo que todos se alinhassem a seus interesses globais. Mais que globalização em sentido amplo, ocorreu uma espécie de ocidentalização mundo e, em sua forma pejorativa,uma hamburguerização. Funcionou como um rolo compressor, passando por cima de respeitáveis tradições culturais.

Isso foi agravado pela típica arrogância do Ocidente de se sentir portador da melhor cultura, da melhor ciência, da melhor religião, da melhor forma de produzir e de governar. Essa uniformização global gerou forte resistência, amargura e raiva em muitos povos. Assistiam a erosão de sua identidade e de seus costumes. Em situações assim surgem, normalmente, forças identitárias que se aliam a setores conservadores das religiões, guardiães naturais das tradições. Dai se origina o fundamentalismo que se caracteriza por conferir valor absoluto ao seu ponto de vista. Quem afirma de forma absoluta sua identidade, está condenado a ser intolerante para com os diferentes, a desprezá-los e, no limite, a eliminá-los.Este fenômeno é recorrente em todo o mundo.

No Ocidente grupos significativos de viés conservador se sentem ameaçados em sua identidade pela penetração de culturas não-européias, especialmente do Islamismo. Rejeitam o multiculturalismo e cultivam a xenofobia.

O terrorista norueguês estava convencido de que a luta democrática contra a ameaça de estrangeiros na Europa estava perdida. Partiu então para uma solução desesperada: colocar um gesto simbólico de eliminação de “traidores” multiculturalistas.

A resposta do Governo e do povo norueguês foi sábia: responderam com flores e com a afirmação de mais democracia, vale dizer, mais convivência com as diferenças, mais tolerância, mais hospitalidade e mais solidariedade. Esse é o caminho que garante uma globalização humana, na qual será mais difícil a repetição de semelhantes tragédias.




Leonardo Boff é autor de “Virtudes para um outro mundo possivel” 3 vol. Vozes 2008-2009.

QUEM PREPARA A MESA?






por ASSUERO GOMES





Quem prepara mesa do banquete real? Da festa do embaixador? Da presidenta e sua comitiva? Quem limpa o chão e o carpete? Quem espana os móveis e arruma as cadeiras? Quem lavou a toalha de fino linho e seus guardanapos? Quem polirá os metais nesta noite tão linda? Quem despertou ainda de noite e saiu para levar a galinha, o porco, os ovos para vender na feira para ser comprado pelo mercado e ser vendido aos compradores do palácio? Quem suou e rezou de sol a sol para que chovesse um pouco na hora certa para que o trigo brotasse e a alface não perecesse e a tomate lhe rendesse alguns centavos por quilos?
Quem ceifou o trigo na hora certa e colheu as uvas? Quem foi a Babette e o Vatel na hora palaciana enquanto seus próprios filhos choravam de fome e de abandono?
Tantas perguntas não feitas entre a degustação de vinhos finos harmonizados e entre queijos de deliciosos matizes que jamais serão experimentados por quem realmente os fez. Para que perguntas se a noite está tão galante e o cerimonial impecável?
Quem iluminou o salão e abriu a porta principal com um gesto curvo? Quem ficará depois recolhendo o lixo do luxo até cair exausto, para pegar duas conduções até seu casebre? Talvez consiga burlar a vigilância feita por um igual seu e leve algum pedaço de bolo mordido para a filha.
Quem cuida de todas as refeições do mundo de maneira silenciosa e servil para que o alimento chegue à mesa do senhor e da senhora, mesmo que seja desperdiçado. Quem transforma o arado em garfo e em arado de novo e em garfo numa eterna e fatigante jornada invisível? Quem recolherá o desperdício de cada mesa, de cada transporte, de cada safra, de cada manada? Quem paga a conta de quem se alimenta de lixo na terra que mana leite e mel?
A noite continua dançante ao som de uma valsa vienense ou de uma banda de jazz dos anos 40, quem notou a vida do garçom ou da copeira, senão apenas as notas da canção e a agilidade da bela moça de decote vermelho que pulsa roubando a atenção de quantos se vêem cegos no salão como num perfume de mulher.
Quem prepara a mesa é o mesmo que paga a conta, sem ser convidado para o banquete, como um fantasma que ronda a Europa na festa do baile da ilha fiscal.

Assuero Gomes
assuerogomes@terra.com.br

NO PRINCÍPIO, A BÊNÇÃO



por Marcelo Barros




Nesta época do ano em que o litoral do Nordeste corre o risco de sofrer novas inundações, grande parte do Brasil vive, ao contrário, a estação da seca. A região sul é visitada por ondas de frio e o Centro-oeste sofre a falta de umidade. Neste tempo, o cuidado com a natureza e a prevenção contra as queimadas se tornam ainda mais importantes e urgentes.

As festas juninas e celebrações andinas, que se encerraram com o final de junho, comemoram a vitória do sol e da vida sobre o frio e a morte. Muitas pessoas que, neste mês, aproveitam alguns dias de férias desejam que o tempo seja favorável. É também para que a estação nos seja propícia que grupos indígenas, em Minas e em outras partes do Brasil, fazem rituais de cura da Mãe Terra.
As Igrejas despertam para a responsabilidade ecológica. Na Igreja Católica, a Campanha da Fraternidade deste ano tinha como tema o cuidado com a criação. A teologia cristã nunca negou a bondade das coisas criadas e a presença amorosa do Espírito em todo o universo.

Mas, por motivos culturais, acabou se concentrando mais na história do pecado humano e da redenção realizada pelo Cristo. Esta teologia dá pouco espaço ou valoriza menos a relação entre o Espírito de Deus e o universo.

Este Espírito é a energia amorosa que, a cada instante, cria, recria e fecunda tudo o que existe. Nenhum cristão nega a centralidade da morte e ressurreição de Jesus para a fé bíblica, mas procura ligar todas as coisas. Não podemos ver a redenção como se fosse desligada da criação e da presença divina atuante no universo.

Paulo escreve que “onde o pecado abundou, a graça divina foi ainda mais transbordante” (Rm 5, 20). A desordem humana, presente na história, não diminui a beleza e a energia amorosa da vida, bênção divina para todo o universo. Mattew Fox, teólogo norte-americano, traduz assim o início do evangelho de João: “No princípio de tudo, existia a Energia Criadora. Esta Energia criadora comunicada por Deus como uma Palavra viva (o Verbo) era divina. Por meio dela, todas as coisas foram criadas e nada existe sem esta energia amorosa. (...) Ela (a Palavra que criou tudo) se tornou carne e no meio de nós plantou sua tenda.

Nela, vimos a presença divina, glória que é sua, como Filha única do Criador, cheia de graça e verdade” (no livro In principio era la gioia, pp. 19- 20). Apóstolos como João e Paulo nos falam que esta esta energia amorosa é uma comunicação de amor ao universo (uma palavra divina) e teve como máxima expressão a pessoa de Jesus Cristo que assume todo o universo em sua pessoa e se manifesta como presença divina em toda criatura.
Conforme os evangelhos, Jesus veio anunciar e trazer para nós o reino de Deus. A natureza é o primeiro elemento deste reinado divino no mundo. Afirmar que Deus é rei significa lembrar que, como uma mãe que dá à luz a todas as criaturas existentes, o seu amor governa a ordem cósmica. Jesus disse: “Olhem os pássaros do céu. Olhem os lírios do campo. Deus cuida deles. Não vai cuidar de vocês?” (Mt 6 e Lc 12). E, aos pobres, confirma: “vosso é o reino divino” (Lc 6, 20). Isso significa que todo ser humano tem uma dignidade de rei neste mundo. Mestre Eckhart, místico medieval, ensinava: “Todo ser humano é de sangue real. Nasceu das profundezas mais íntimas da natureza divina e é representante de Deus para espalhar amor e recriar permanentemente toda criação divina”.
Muitas vezes, a humanidade compreendeu a dignidade do ser humano como supremacia sobre os outros seres e direito de dominar e explorar a natureza. Ao contrário, Deus nos fez jardineiros e gerentes da sua criação, para agirmos como ele age conosco e manifestarmos que todo ser vivo é obra de um amor eterno que atua permanentemente como energia de vida e de bênçãos. Esta revelação de que Deus é energia de amor está na liturgia da Igreja. Em cada eucaristia, os cristãos cantam: “a terra está cheia da vossa glória”. Esta bênção divina restaura a cada dia a natureza, nos faz sentir parte desta criação divina, unidos a todos os seres vivos. Quem crê em Jesus Cristo o encontra nesta inserção no universo. Ele se manifesta como o Cristo cósmico que leva à plenitude a criação, até que, como diz São Paulo, “Deus seja tudo em todos”.

OVO DA SERPENTE AO NORTE DO PLANETA




por Clara Lucchetti Bingemer





A Noruega viveu na última sexta-feira, dia 22, a maior tragédia do país desde a Segunda Guerra Mundial. Dois atentados causaram 76 mortes. Primeiro, uma bomba explodiu no centro da capital, Oslo, na região onde estão localizados vários prédios governamentais. A segunda tragédia aconteceu em uma ilha próxima da capital, Utoya. Lá, Anders Behring Breivik, um homem de 32 anos, vestido com uniforme da polícia, abriu fogo contra jovens reunidos em um acampamento de verão. Ele foi detido logo depois pela polícia e admitiu o crime.

O atirador – ligado à extrema-direita - também é responsável pelo ataque em Oslo.Perplexo, o mundo contempla o país com altos índices de desenvolvimento que é a Noruega gemer de dor, impotente ao chorar seus mortos.

E compartilha da perplexidade do povo norueguês por não compreender o objetivo e o sentido de tão brutal atentado. O que poderia mover uma pessoa jovem como Anders Behring Breivik a abrir fogo contra outros jovens que pacificamente faziam um acampamento de verão? Mais: como compreender o que o próprio Breivik declara no manifesto, afirmando estar movendo "guerra de sangue" a imigrantes e marxistas?

O manifesto, divulgado na internet na própria sexta-feira, poucas horas antes dos dois ataques, parece, em boa parte, copiado de um texto do terrorista americano Ted Kaczynski, conhecido como "Unabomber", e que entre 1978 e 1995 matou três pessoas, enviando até 16 bombas a alvos diversos, como universidades e companhias aéreas. Porém, introduz outros conceitos, diferentes do predecessor. Conceitos tão herméticos e obscuros – dentro do contexto em que são invocados – como "multiculturalismo" e "marxismo cultural".

Os alvos de Breivik, pelo visto, são os comunistas, os muçulmanos e quem sabe quem mais? Assim começou há mais de 60 anos, outra história que tinha como inimigos mortais, alvos de total extermínio não os muçulmanos e comunistas, mas os judeus. Enquanto o predecessor de Breivik, Adolf Hitler, fazia sua demencial trajetória Europa afora, 60 milhões de seres humanos foram deportados para os campos da morte, assassinados, torturados e usados como cobaias em laboratórios.O estilo espetacular e exibicionista também ajuda a conectar os dois exterminadores.

Ambos se acreditavam investidos de uma missão que para ser levada a cabo necessitaria de uma “revolução”, dolorosa, mas necessária. Além disso, têm ânsia por visibilidade. Enquanto Hitler organizava verdadeiros shows públicos de sua pessoa e de todo o exército que comandava, Breivik se dispôs a falar perante o juiz, mas com a presença da imprensa. Isso não lhe foi permitido.Breivik é um fanático, que parece não recuar diante de nada para eliminar de sua frente aqueles que considera indesejáveis ou ameaçadores para o “sonho europeu” que persegue e difunde em suas mensagens pela internet.

Os ataques que protagonizou, fundamentados por teorias de extrema-direita, deixam a Europa e o mundo em estado de alerta, já que uma onda de repulsa a imigrantes, declínio econômico, aumento do desemprego e medo crescente de retaliação de fundamentalistas islâmicos têm tomado conta de vários países do velho continente.O que os tristes acontecimentos da Noruega nos dizem é que parece que o apoio a teorias xenófobas, como as que segue o atirador fanático de Oslo e da ilha de Utoeya, está crescendo.

Vem da Bíblia o conceito de que a coexistência com ideias e companhias maléficas equivale a chocar o ovo de uma serpente. Em 1977, o notável cineasta Ingmar Bergman fez um filme com o título "O Ovo da Serpente", ambientado entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, quando o nazismo nasceu e prosperou na Alemanha, encantando governantes de índole totalitária em vários cantos do mundo.

O resultado é bastante conhecido e lamentado até os dias de hoje.Eventos como o da Noruega parecem assustadoramente apontar nesta direção. Através do gesto tresloucado e das palavras mais ainda de Breivik, pode-se discernir o futuro provável da Europa e do mundo se providências enérgicas não forem tomadas para reprimir a expansão desta ideologia de extrema direita que retorna. Através das membranes finas do ovo, pode-se vislumbrar o réptil peçonhento e letal, perfeitamente concebido e pronto para atacar.








Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco). Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)