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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

RECEITA ELEITORAL


por Frei Betto


Escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes)



      Trate de se apresentar muito bem preparado ao discursar. Em campanha eleitoral, você precisa obter o apoio dos amigos e o apreço do povo.

      Faça amizades de todo tipo: para ter uma boa imagem, com homens de carreira e nomes ilustres (os quais, mesmo se não têm interesse em declarar seu voto, ainda assim conferem prestígio ao candidato).

      Três coisas levam os homens a dar apoio eleitoral: favor, esperança ou simpatia espontânea. Graças aos mais insignificantes favores, as pessoas são levadas a julgar que há motivo suficiente para declarar seu apoio.

      Quanto aos que são atraídos pela esperança, aja de modo a parecer disposto a prestar ajuda, e também de forma a perceberem que você é um observador cuidadoso das tarefas executadas por eles.

      O terceiro tipo é o apoio espontâneo, que será preciso consolidar expressando agradecimentos, adaptando os discursos aos argumentos que parecem seduzir cada adepto isoladamente, dando mostras de retribuir-lhes a mesma simpatia, sugerindo que a amizade pode transformar-se em íntima e habitual.

       Volte sua atenção para a cidade inteira, todas as associações, todos os distritos e bairros. Se atrair seus líderes à amizade, facilmente terá nas mãos, graças a eles, a multidão restante.

      Habitantes de cidades pequenas e da zona rural, se os conhecemos pelo nome, acham que privam de nossa amizade. 

      Agora, cuidado com o seguinte: se alguém lhe prometeu fidelidade e você descobrir que tem duas caras, finja que não ouviu ou percebeu; se alguém, julgando que você suspeita dele, quiser atestar inocência, garanta com firmeza que nunca desconfiou do apoio que recebe nem tem por que desconfiar.

      Você deve ensaiar, até que pareça agir naturalmente; é preciso certa bajulação, a qual mesmo sendo viciosa e torpe no restante da vida, é imprescindível na campanha eleitoral.

      Outro conselho diz respeito a um pedido ao qual não seja capaz de atender: nesse caso, negue de modo simpático ou, então, não negue de jeito nenhum; a primeira atitude é de um bom homem; a segunda, de um bom candidato. Todas as pessoas, no íntimo, preferem uma mentira a uma recusa.

      Cuide para que sua campanha seja brilhante, esplêndida e popular, que tenha uma imagem e um prestígio insuperáveis.

      O texto acima foi escrito por Cícero, em Roma, há 2077 anos, para seu irmão, Marco Cícero, candidato, em 63 a.C., ao mais alto cargo da República, o de cônsul, equivalente ao de Presidente atualmente.

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

BASE DO SIONISMO “CRISTÃO” É O SIONISMO DE THEODORE HERZL

por  J u r a c y   A n d r a d e




Em meu último artigo neste Porta-Voz, falei sobre um sionismo cristão adotado por alguns adeptos do cristianismo, que chega a apoiar incondicionalmente o Estado de Israel e seu governo na limpeza étnica praticada contra os palestinos, em desobediência a resoluções da ONU e aos Acordos de Oslo. Diante de mais um massacre do governo israelense contra os palestinos de Gaza, que não respeita crianças, civis em geral nem mesquitas e instalações das Nações Unidas, me animo a tratar hoje do sionismo propriamente dito, aquele dos judeus, que deu origem ao Estado de Israel.

No final do século 19, as comunidades judaicas da Europa estavam mais fortalecidas, após séculos dos “pogroms” habituais no império tzarista e Europa oriental, e também devido à ascensão do socialismo. A partir dos pensamentos e ação de Theodore Herzl, o movimento sionista começou a se consolidar, a partir sobretudo do Congresso Sionista em 1897. Sua base está no suposto direito, que os israelitas passaram a adotar e cultivar, de retornar a sua terra bíblica, de onde haviam sido expulsos pelo Império Romano, originando as diversas diásporas. O movimento que se ampliou a partir de suas iniciativas criou também instrumentos políticos, econômicos e uma organização para por em prática suas bases ideológicas.

O objetivo central do sionismo era construir uma lar nacional judaico na Palestina, então dominada pelo Império Otomano e, mais tarde, pela Grã-Brertanha. Dentro dele havia e há muitas tendências, desde o sionismo religioso ao socialista, colaborando todas para o desfecho de 1948, quando foi estabelecido o atual Estado de Israel. Sion é um termo usado como sinônimo de Jerusalem. Durante o século 20, o sionismo promoveu a migração para a Palestina de milhares de judeus, que foram comprando terras ali e se estabelecendo principalmente na agricultura, através de cooperativas agrícolas, que chamam ”kibbutz” (“kibbutzim” no plural). Viviam em paz com os palestinos, pois, ao contrário do que passou a ocorrer com a criação do Estado de Israel, eles pagavam pelas propriedades que adquiriam. A partir de 1948, deu-se o confisco organizado e planejado de terras dos palestinos, que eram forçados a deixar tudo e partir para exílios que duram até hoje.

A comoção mundial ao se descobrirem os horrores perpetrados contra milhões de judeus europeus, pelo regime nazista da Alemanha, de 1932 a 1945, contribuiu muito para que os países ocidentais em geral favorecessem a criação do Estado de Israel. Tinham a consciência pesada pelo seu multissecular antissemitismo. 

Aconteceu porém que, além do desejo de voltar à terra bíblica de Israel, os líderes israelenses passaram (ou isso já se continha implicitamente em sua ideologia) à prática de uma limpeza étnica da Palestina, o que está documentado no livro que já citei do historiador judeu e israelense Ilan Pappe (The ethnic cleansing in Palestine). Não sendo, naquela época, a Palestina um Estado independente, os líderes árabes que a tutelavam não quiseram aceitar o Estado binacional proposto pela ONU nem a constituição de um Estado palestino. Passaram a fazer guerras e mais guerras perdidas contra Israel. Sem nenhuma competência bélica, o que ocorreu foi o Estado judeu ir comendo pelas beiradas as terras que haviam sobrado para os multisseculares habitantes da região. 

Achando pouco, o governo israelense resolveu implantar colônias judaicas no exíguo território que deveria constituir o Estado palestino. Os líderes israelenses aceitaram assinar os Acordos de Oslo que, entre outras providências, criaram a Autoridade Nacional Palestina (ANP), um embrião do futuro Estado. Hoje, é cada vez menor essa “autoridade” e Israel controla tudo na Palestina, inclusive o direito de ir e vir dos palestinos. Até muro tem. Muro de Berlim não podia, mas muro contra palestinos e até muro estadunidense contra imigrantes ilegais pode. Dá pra entender tanta coerência ocidental e democrática?

Para complicar, o Hamas, ramo mais radical da oposição palestina, decidiu reservar para si a Faixa de Gaza e, a partir dali, disparar mísseis contra o território israelense. Num momento em que o Hamas se aproximava da ANP, desencadeiam novo massacre contra a população de Gaza, sob o pretexto de atacar bases do Hamas. Sob as asas da águia americana, Israel se dispensa de acatar qualquer resolução das Nações Unidas.

Sempre que abordo este tema, chovem sobre mim acusações de antissemitismo, antijudaismo. Como posso ser contra os judeus se Jesus Cristo, Maria, os apóstolos, os primitivos cristãos eram judeus? Se Cristo queria apenas dar uma nova vida à religião mosaica? Ser contra o governo de Israel e a limpeza étnica da Palestina não é ser contra os judeus. Temos o direito de criticar tudo isso que os tais de sionistas “cristãos” ousam defender.


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia.

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terça-feira, 5 de agosto de 2014

No princípio, a bênção

por Marcelo Barros


No interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina as chuvas provocam inundações destruidoras. Enquanto isso, perto de São Paulo, católicos tradicionais fazem procissões para pedir a Deus chuva que melhore o nível de água das represas que abastecem as cidades. A situação é tal que até Deus parece impotente. A destruição ecológica 
produzida pela ambição humana fará a Terra sofrer cada vez mais contrastes extremos. Parecem gritos de dor do planeta sofrido. Por isso, no norte de Minas, algumas comunidades indígenas sobem a Serra da Mantiqueira para fazerem rituais de cura da mãe Terra. 

Enquanto as tradições espirituais indígenas e afrodescendentes sempre viram todas as criaturas como sagradas e procuraram descobrir a presença divina no universo, as Igrejas cristãs despertaram recentemente para a responsabilidade ecológica. A teologia cristã nunca negou a bondade das coisas criadas e a presença amorosa do Espírito em todo o universo. Mas, por motivos culturais, acabou se concentrando mais na história do pecado humano e da redenção realizada pelo Cristo. Hoje, os cristãos continuam a afirmar a centralidade da morte e ressurreição de Jesus para a fé bíblica, mas procuram ligar a revelação de Jesus no Evangelho à importância da natureza como permanente e incessante criação divina. Antes, as Igrejas sublinhavam mais os acontecimentos da  salvação oferecida à humanidade através de Jesus. No entanto, a respeito da criação, Paulo escreve que “onde o pecado abundou, a graça divina foi ainda mais transbordante” (Rm 5, 20). Isso significa que mesmo a grande desordem humana, presente na história e todo o mal que daí decorre não conseguem diminuir a beleza da vida e a energia amorosa da bênção divina para todo o universo. 

Nos evangelhos, Jesus fala na criação do universo ao falar no reino de Deus. Nas culturas antigas, afirmar o reinado divino era lembrar que o cosmos é dirigido por uma inteligência amorosa. Por isso, Jesus disse: “Olhem os pássaros do céu. Olhem os lírios do campo. Deus cuida deles. Não vai cuidar de vocês?” (Mt 6 e Lc 12). E, aos pobres, confirma: “vosso é o reino divino” (Lc 6, 20). Isso significa que todo ser humano tem uma dignidade de rei neste reinado divino no mundo. Mestre Eckhart, um dos maiores místicos cristãos da Idade Média, ensinava: “Todo ser humano é de sangue real. Nasceu das profundezas mais íntimas da natureza divina e do projeto divino de ter um representante seu para espalhar amor e assim recriar permanentemente toda criação divina”.

A interpretação literal da Bíblia levou as pessoas a pensar que tinham direito de dominar a natureza e explorá-la em seu proveito. O Capitalismo que domina grande parte do mundo olha a terra, as plantas e os animais apenas como mercadorias a serem explorados. Uma 
espiritualidade verdadeira mostra a dignidade própria de todo ser vivo e como a terra, os animais e as plantas merecem respeito.

A Bíblia ensina que o ser humano recebeu de Deus a missão de ser jardineiro e gerente do universo criado pelo amor divino. Ser testemunha do amor divino é superar a ideia de um deus que poderia nos fazer medo. Se Deus existe, só pode ser amor e bênção para nós e para todo o universo. Bênção significa pronunciar uma palavra que produz bem (bendizer é dizer o bem). É comunicar amor e paz. A bênção divina restaura a cada dia a natureza. Ela nos faz sentir parte desta criação divina, unidos a todos os seres vivos. Alegra, consola e fortalece a cada um de nós na caminhada da vida. Ao ressuscitar, Jesus elevou consigo toda a energia do universo e quer levar a criação à sua plenitude. Então, como afirmou São Paulo, “Deus será tudo em todos” (1 Cor 15).

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

As ameaças da Grande Transformação (II)


por Leonardo Boff


Analisamos no artigo anterior, as ameaças que nos traz a transformação da economia de mercado em sociedade de mercado com a dupla injustiça que acarreta: a social e a ecológica. Agora quermos nos deter em sua incidência no âmbito da ecologia tomada em sua mais vasta acepção, no ambiental, social, mental e integral.

Constatmos um fato singular: na medida em que crescem os danos à natureza que afetam mais e mais as sociedades e a qualidade de vida, cresce simultaneamente a consciência de que, na ordem de 90%, tais danos se tributam à atividade irresponsável e irracional dos seres humanos, mais especificamente, àquelas elites de poder econômico, político, cultural e mediático que se constituem em grande corporações multilaterais e que assumiram por sua conta os rumos do mundo. Temos, com urgência, fazer alguma coisa que interrompa este percurso para o precipício. Como adverte a Carta da Terra: “ou fazemos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscamos a nossa destruição e a da diversidade da vida”(Preâmbulo).

A questão ecológica, especialmente após o Relatório do Clube de Roma em 1972 sob o título “Os Limites do Crescimento” tornou-se tema central da política, das preocupações da comunidade científica mundial e dos grupos mais despertos e preocupados pelo nosso futuro comum.

O foco das questões se deslocou: do crescimento/desenvolvimento sustentável (impossível dentro da economia de mercado livre) para a sustentação de toda a vida. Primeiro há que se garantir a sustentabilidade do planeta Terra, de seus ecossistemas, das condições naturais que possibilitam a continuidade da vida. Somente garantidas estas pré-condições, se pode falar em sociedades sustentáveis e em desenvolvimento sustentável ou de qualquer outra atividade que queira se apresentar com este qualificativo.

A visão dos astronautas reforçou a nova consciência. De suas naves espaciais ou da Lua se deram conta de que Terra e a Humanidade formam uma única entidade. Elas não estão separadas nem juxtapostas. A Humanidade é uma expressão da Terra, a sua porção consciente, inteligente e responsável pela preservação das condições da continuiade da vida. Em nome desta consciência e desta urgência, surgiu o princípio responsabilidade (Hans Jonas), o princípio cuidado (Boff e outros), o princípio sustentabilidade (Relatório Brundland), o princípio interdependência, o princípio cooperação (Heisenberg/Wilson/Swimme/Morin/Capra)e o princípio prevenção/precaução (Carta do Rio de Janeiro de 1992 da ONU), o princípio compaixão (Schoppenhauer/Dalai Lama) e o princípio Terra (Lovelock e Evo Morales).

A reflexão ecológica se complexificou. Não se pode reduzi-la apenas à preservação do meio ambiente. A totalidade do sistema mundo está em jogo. Assim surgiu uma ecologia ambiental que tem como meta a qualidade de vida; uma ecologia social que visa um modo sustentável de vida e uma sobriedade compartida (produção, distribuição, consumo e tratamento dos dejetos); uma ecologia mental que se propõe erradicar preconceitos e visões de mundo, hostis à vida e formular un novo design civilizatório, à base de princípios e de valores para uma nova forma de habitar a Casa Comum; e por fim uma ecologia integral que se dá conta que a Terra é parte de um universo em evolução e que devemos viver em harmonia com o Todo, uno, complexo e perpassado de energias que sustentam a vitalidade da Terra e carregado de propósito.
Criou-se destarte uma grelha teórica, capaz de orientar o pensamento e as práticas amigáveis à vida. Então se torna evidente que a ecologia mais que uma técnica de gerenciamento de bens e serviços escassos representa uma arte, uma nova forma de relacionamento com a vida, a natureza e a Terra e a descoberta da missão do ser humano no processo cosmogênico e no conjunto dos seres: cuidar e preservar.

Por todas as partes do mundo, surgiram movimentos, instituições, organismos, ONGs, centro de pesquisa, cada qual com sua singularidade: quem se preocupa com as florestas, quem com os oceanos, quem com a preservação da biodiversidade, quem com as espécies em extinção, quem com os ecossistemas tão diversos, quem com as águas e os solos, quem com as sementes e a produção orgânica. Dentre todos estes movimentos cabe enfatizar o Greenpeace pela persistência e coragem de enfrentar, sob riscos, aqueles que ameaçam a vida e o equilíbrio da Mãe Terra.

A própria ONU criou uma série de instituições que visam acompanhar o estado da Terra. As principais são o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), a FAO (Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura), a OMS (Organização Mundial para a Saúde), a Convenção sobre a Biodiversidade e especialmente o IPPC (Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas) entre outras tantas.

Esta Grande Transformação da consciência opera uma complicada travessia, necessária para fundar um novo paradigma, capaz de transformar a eventual tragédia ecológico-social numa crise de passagem que nos permitirá um salto de qualidade rumo a um patamar mais alto de relação amistosa, harmoniosa e cooperativa entre Terra e Humanidade. Se não assumirmos esta tarefa o futuro comum estará ameaçado.


Leonardo Boff escreveu Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes, Petrópolis 2005.
 É filósofo e teólogo, escritor, assessor do projeto Cultivando Agua Boa da Itaipu Binacional  e um dos co-redatores da Carta da Terra

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