O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.

terça-feira, 17 de julho de 2018

POR TRÁS DO BRASIL DA CORRUPÇÃO




Por Marcelo Barros    

Quando se fala em Política, a maioria das pessoas aponta a corrupção como a fonte de todos os males. Muita gente não percebe que a corrupção econômica e política faz parte da própria lógica do sistema vigente. Não se trata apenas de pecados pessoais desse ou daquele. Falou-se muito em passar o Brasil a limpo, mas está acontecendo exatamente o contrário. Como no tempo da Bíblia, pregava  o profeta Jeremias chama-se o bem de mal e ao mal se considera bem. O milagre dessa proeza que embaralha a visão justa e faz as pessoas se enganarem está no interesse dos senhores que dominam a sociedade. Eles manipulam a opinião pública,  manobram a justiça e financiam o legislativo. Fazem com que pareça honesto e legítimo que apenas cinco brasileiros detenham uma riqueza equivalente à renda da metade de toda a população brasileira (Carta Capital, 27/ 06/ 2018). E apontam como corruptos, alguns que vêm de classe mais pobre e ousaram achar que poderiam ser tratados como iguais. Esses são condenados por qualquer suspeita de irregularidade. Um ex-presidente é acusado de possuir ilegitimamente um apartamento de proletário que ninguém consegue provar que lhe pertencia. Fazem um julgamento cheio de irregularidades jurídicas, o condenam rapidamente e o prendem contra todas as normas de legalidade. De fato, Lula não  aprendeu a lição de dois dos seus predecessores que multiplicaram suas riquezas no exercício do poder e, claro, de forma absolutamente legal. Um enriqueceu em diversos cargos políticos e se tornou dono de praticamente tudo o que existe de maior e mais lucrativo no seu estado de origem. O outro, mais intelectual, prefere manter a posse de dezenas de apartamentos no exterior, sendo os mais conhecidos o do Central Park em Nova York, o outro em Barcelona, em Paris e assim por diante... E a cultura vigente conclui: "Esses souberam ser espertos. Quem manda não saber se fazer na vida?".

Quanto aos juízes dos tribunais da inquisição, vale o que disse Jesus a respeito dos doutores da lei do seu tempo: "filtram um mosquito e deixam passar um camelo"(Mt 23, 24).

Por falar em camelos econômicos, os donos da rede de televisão que domina o mercado das comunicações em todo o Brasil não precisam de se preocupar se sua fortuna não tem um centavo obtido de forma lícita e honesta. Eles contam com os favores de ministros do Supremo e garantem apoio ao governo que abre o país às empresas petrolíferas do mundo todo.

Em artigo magistral que se divulgou pela internet, Malu Ayres afirma: "A sonegação fiscal no Brasil chega, por ano, a roubar dos cofres públicos R$ 1 trilhão". Qual a lava-jato que se preocupou com isso? Afinal, "A folha de pagamentos dos desembargadores do RRF 4 compraria, em cada mês, uns dez triplex daquele".  

Na realidade política brasileira, o mais estranho é que, em todas as denúncias e nas milhares de páginas dos processos de corrupção que enchem as mesas dos juízes da Lava-jato e de outras operações similares, nada aparece sobre bancos. Bancos e banqueiros são todos puros e vão para o céu. Quem sabe, o dinheiro da corrupção viaja de um país a outro, ou migra para paraísos fiscais sempre no bolso de alguma cueca ou voam milagrosamente por obra de algum santo, padroeiro dos doleiros? Enquanto isso, nas ruas e ambientes familiares, as pessoas comuns se devoram, como desejam as redes que dominam a comunicação de massa. Não somente fazem o povo de bobo, como apostam na cultura da intolerância e do ódio que sempre leva ao fascismo.

Daqui há quinze dias, o Brasil entrará claramente no período de campanha eleitoral. Como podemos ajudar as pessoas a compreenderem melhor a natureza da crise ética a que estamos submetidos? É preciso ajudar o povo a perceber o farisaísmo oportunista que distrai a atenção das pessoas, manipula os dados e favorece o verdadeiro roubo do dinheiro público. É preciso a população acordar em tempo ainda de salvar o que ainda sobrou da grande devastação a que o país está submetido.

Em tudo isso, o mais triste é ver pessoas e grupos que seguem a fé e se dizem espirituais e se negam a ver a realidade. Em outubro próximo, o papa Francisco vai declarar como santo o arcebispo mártir de San Salvador, Dom Oscar Romero. Em uma de suas homilias, Dom Romero afirmava: “É fácil ser portador da Palavra e não incomodar a ninguém. Basta ficar no espiritual e não se engajar na História. Dizer palavras que podem ser ditas, não importa onde e quando, porque não são propriamente de parte alguma” [1].


Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.




[1] - OSCAR ROMERO, l´Amour Vainceur, citado por PIERRE VILAN, Os Cristãos e a Globalização, Sao Paulo, Ed. Loyola, 2006, p. 41.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O ECLIPSE DA ÉTICA NA ATUALIDADE





Por Leonardo Boff 
Entre os dias 10-13 de julho realizou-se em Belo Horizonte um congresso internacional organizado pela Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER) em torno dos temas: Religião, Ética e Política. As exposições foram de grande atualidade e de qualidade superior. Refiro-me apenas à discussão acerca do Eclipse da Ética que me coube introduzir.
A meu ver dois fatores atingiram o coração da ética: o processo de globalização e a mercantilização da sociedade.
A globalização mostrou os vários tipos de ética, consoante as diferenças culturais. Relativizou-se a ética ocidental, uma entre tantas. As grandes culturas do Oriente e as dos povos originários revelaram que podemos ser éticos de forma muito diferente.
Por exemplo, a cultura maia coloca tudo centrado no coração, já que todas as coisas nasceram do amor de dois grandes corações, do Céu e da Terra. O ideal ético é criar em todas as pessoas corações sensíveis, justos, transparentes e verdadeiros. Ou a ética do “bien vivir y convivir” dos andinos assentada no equilíbrio com todas as coisas, entre os humanos, com a natureza e com o universo.
Tal pluralidade de caminhos éticos teve como consequência, uma relativização generalidade. Sabemos que a lei e a ordem, valores da prática ética fundamental, são os pré-requisitos para qualquer civilização em qualquer parte do mundo. O que observamos é que a humanidade está cedendo diante da barbárie rumo a uma verdadeira idade das trevas mundial, tal é o descalabro ético que estamos vendo.
Pouco antes de morrer em 2017 advertia o pensador Sigmund Bauman:”ou a humanidade se dá as mãos para juntos nos salvarmos ou então engrossaremos o cortejo daqueles que caminham rumo ao abismo”. Qual é a ética que nos poderá orientar como humanidade vivendo na Casa Comum?
O segundo grande empecilho à ética é aquilo que Karl Polaniy chamava já em 1944 de “A Grande Transformação”. É o fenômeno da passagem de uma economia de mercado para uma sociedade puramente de mercado. Tudo se transforma em mercadoria, coisa já prevista por Karl Marx em seu texto A miséria da Filosofia de 1848, quando se referia ao tempo em que as coisas mais sagradas como a verdade e a consciência seriam levadas ao mercado; seria “tempo da grande corrupção e da venalidade universal”. Pois vivemos este tempo. A economia especialmente a especulativa dita os rumos da política e da sociedade como um todo. A competição é sua marca registrada e a solidariedade praticamente desapareceu.
O que é o ideal ético deste tipo de sociedade? É a capacidade de acumulação ilimitada e de consumo sem peias, gerando uma grande divisão entre um pequeníssimo grupo que controla grande parte da economia e as maiorias excluídas e mergulhadas na fome e na miséria.   Aqui se revelam traços de barbárie e crueldade como poucas vezes na história.
Precisamos refundar uma ética que se enraíze naquilo que é específico nosso, enquanto humanos e que, por isso, seja universal e possa ser assumida por todos.
Estimo que que em primeiríssimo lugar é a ética do cuidado que segundo a fabula 220 do escravo Higino e bem interpretada por Martin Heidegger em Ser e Tempo constitui o substrato ontológico do ser humano, aquele conjunto de fatores sem os quais jamais surgiria o ser humano e outros seres vivos. Pelo fato de o cuidado ser da essência do humano, todos podem vive-lo e dar-lhe formas concretas, consoantes suas culturas.. O cuidado pressupõe uma relação amigável e amorosa para com a realidade, da mão estendida para a solidariedade e não do punho cerrado para a dominação. No centro do cuidado está a vida. A civilização deverá ser bio-centrada.
Outro dado de nossa essência humana é solidariedade e a ética que daí se deriva. Sabemos hoje pelo bio-antropologia que foi a solidariedade de nossos ancestrais antropoides que permitiu dar o salto da animalidade para a humanidade. Buscavam os alimentos e os consumiam solidariamente. Todos vivemos porque existiu e existe um mínimo de solidariedade, começando pela família. O que foi fundador ontem, continua sendo-o ainda hoje.
Outro caminho ético, ligado à nossa estrita humanidade é a ética da responsabilidade universal, Ou assumimos juntos responsavelmente o destino de nossa Casa Comum ou então percorreremos um caminho sem retorno. Somos responsáveis pela sustentabilidade de Gaia e de seus ecossistemas para que possamos continuar a viver junto com toda a comunidade de vida.
O filosofo Hans Jonas que, por primeiro, elaborou “O Princípio Responsabilidade”, agregou a ele a importância do medo coletivo. Quando este surge e os humanos começam a dar-se conta de que podem conhecer um fim trágico e até de desaparecer como espécie, irrompe um medo ancestral que os leva a uma ética de sobrevivência. O pressuposto inconsciente é que o valor da vida está acima de qualquer outro valor cultural, religioso ou econômico.
Por fim importa resgatar a ética da justiça para todos. A justiça é o direito mínimo que tributamos ao outro, de que possa continuar a existir e dando-lhe o que lhe cabe como pessoa. Especialmente as instituições devem ser Justas e equitativas para evitar os privilégios e as exclusões sociais que tantas vítimas produzem, particularmente nosso país, um dos mais desiguais, vale dizer, mais injustos do mundo. Daí se explica o ódio e as discriminações que dilaceram a sociedade, vindos não do povo mas daquelas elites endinheiradas que sempre viveram do privilégio. Atualmente vivemos sob um regime de exceção, no qual tanto a Constituição e as leis são pisoteadas ou mediante o Lawfare (a interpretação distorcida da lei que o juiz pratica para prejudicar o acusado)
A justiça não vale apenas entre os humanos mas também para com a natureza e a Terra que são portadores de direitos e por isso devem ser incluídos em nosso conceito de democracia sócio-ecológica.
Estes são alguns parâmetros mínimos para uma ética, válida para cada povo e para a humanidade, reunida na Casa Comum. Devemos incorporar uma ética da sobriedade compartida para lograr o que dizia Xi Jinping, chefe supremo da China “uma sociedade moderadamente abastecida”.Isto significa um ideal mínimo e alcancável. Caso contrario poderemos conhecer um armagedon social e ecológico.
Leonardo Boff escreveu: “Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2018.


quinta-feira, 12 de julho de 2018

GEOGRAFIA DO VENENO





Por Frei Betto

Em meio à Copa, deputados federais aprovaram, a 25 de junho, o parecer que propôs reduzir o controle governamental sobre o uso de agrotóxicos no Brasil. Vitória da bancada ruralista. Atualmente, 30% dos agrotóxicos permitidos no Brasil são proibidos na União Europeia.
A fome, como questão política, entrou na agenda brasileira desde 1946, quando Josué de Castro publicou o clássico Geografia da fome, sublinhando que a desnutrição de milhões de pessoas nada tem a ver com a fatalidade, seja climática, seja religiosa.
Passados 70 anos, a geógrafa e professora da USP Larissa Mies Bombardi publica o atlasGeografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, um conjunto de mais de 150 imagens entre mapas, gráficos e infográficos que radiografam os impactos do uso de agrotóxicos no Brasil.
O Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos no cultivo de alimentos. Cerca de 20% dos pesticidas fabricados no mundo são despejados em nosso país. Um bilhão de litros ao ano: 5,2 litros por brasileiro!
Há direta relação entre uso de agrotóxicos e o agronegócio no Brasil. As plantações de soja, milho e cana utilizaram 72% de todo agrotóxico comercializado no País em 2015. Estas são três das principais mercadorias da agricultura capitalista que estão no topo da lista de exportações brasileiras.
Ao recorde quantitativo soma-se o drama de autorizarmos o uso das substâncias mais perigosas, já proibidas na maior parte do mundo por causarem danos sociais, econômicos e ambientais.
O conjunto de mapas do Atlas está dividido em seções que abordam, por exemplo, as intoxicações por agrotóxicos de uso agrícola, com mapas em escalas nacional, regional, estadual e municipal. As intoxicações são detalhadas segundo a circunstância da intoxicação, o sexo da população intoxicada, a faixa etária, os grupos étnico-raciais, a exposição ao trabalho e a escolaridade.
No período entre 2007 e 2014, os casos de intoxicação por agrotóxicos notificados ao Ministério da Saúde somam 25 mil ocorrências – na média, 8 intoxicações diárias. Entretanto, estima-se que, para cada caso notificado, outros 50 não foram notificados.
Os mapas sobre intoxicação por agrotóxicos revelam que a principal ocorrência no Brasil é a de tentativa de suicídio, com números alarmantes: mais de 9.500 casos de tentativas de suicídio com ingestão de agrotóxicos entre 2007 e 2014.
Os mapas que abordam a intoxicação por faixa etária revelam uma realidade que afronta diretamente os direitos humanos e, em especial, os direitos das crianças e adolescentes: cerca de 20% da população intoxicada é de crianças e jovens com idade até 19 anos. Mesmo bebês de 0 a 12 meses são intoxicados por agrotóxicos: em números oficiais, somaram mais de 340 casos entre 2007 e 2014.
Atlas mostra profunda assimetria entre os limites permitidos para resíduos de agrotóxicos em alimentos e na água, no Brasil e na União Europeia.
No Brasil, o limite de resíduo de malationa (inseticida) no brócolis é 250 vezes maior do que o permitido na União Europeia. No feijão, essa diferença é 400 vezes maior por aqui.
Na água potável, a diferença de resíduos é 5 mil vezes maior para o agrotóxico glifosato (o herbicida mais vendido no Brasil) em relação à União Europeia.
Outro conjunto de mapas mostra que 70% dos municípios paulistas são atingidos pela pulverização aérea de agrotóxicos, prática proibida na União Europeia desde 2009.
O Estado brasileiro tem atuado de forma a subvencionar o capital das corporações fabricantes de agrotóxicos. No Brasil, o ICMS tem redução de 60% e há isenção total de PIS/COFINS e de Imposto sobre Produtos Industrializados para a produção e o comércio de agrotóxicos.
Segundo o defensor público Marcelo Novaes, apenas no Estado de São Paulo e no ano de 2015, o governo deixou de arrecadar cerca de 1,2 bilhão de reais por conta dessas desonerações.
Enquanto a fome segue sendo realidade sofrida para milhões de brasileiros, o capital transforma alimentos em commodities e em agroenergia, segundo o modelo baseado na estrutura fundiária concentrada e no uso massivo de agrotóxicos.
Há que buscar solução na transição agroecológica, ou seja, na gradual e crescente mudança do sistema atual para um novo modelo baseado no cultivo orgânico, mantendo o equilíbrio do solo e a biodiversidade, e redistribuindo a terra em propriedades menores.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

 Copyright 2018 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

TEMPO DE INDIGNAÇÃO





Por Goretti Santos

Que tempos são estes?

Que imperam a mentira e a hipocrisia?

Todos são grandes amigos, virtualmente amados...

E na realidade do agora, a solidão... o vazio...

Que tempos são estes?

Que impera o ódio pela inclusão,

Que retrocesso vem maquiado de modernidade,

E na realidade do agora,

Apenas os interesses de sempre...

A minoria, com suas mãos sujas de sangue,

Que ainda insiste em disseminar desânimo

Na maioria do povo meu!