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domingo, 20 de dezembro de 2020

O ANTI-PRESÉPIO DO NATAL EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


 

    Esta madrugada, estando eu metade dormindo, metade acordado,  tive um sonho enigmático, mais enigmático do que costumam ser os sonhos, algo parecido com um sussurro no ouvido. Quase inaudível, uma voz dizia "se foste capaz de montar um presépio vivo, por que não montar também um anti-presépio? Desta forma, as sombras deste último realçariam a luz do primeiro. Acordei me esforçando para decifrar este enigma com a semi-claridade dos primeiros raios da manhã.

       O ponto de partida era real. Dois dias antes,  eu ensaiara a montagem de um presépio com figuras humanas de hoje representativas dos personagens daquela noite de Belém.

      Decidi recusar a sugestão. Temi agredir este sentimento de paz que paira no universo, como estrela cadente, a cada fim de ano. Esta espécie de saudade do Paraíso perdido. Com medo, no entanto, de errar por omissão, acabei me dispondo a cumprir uma parte da proposta. Vou mencionar nomes bíblicos que poderiam fazer parte do que estamos chamando de anti-presépio, deixando a cargo dos leitores e leitoras dar-lhes uma identidade, com outros tantos nomes vivos do cenário nacional. Herodes: ele mesmo submisso ao Império Romano, reinava sobre um povo escravizado e impotente.  Pilatos: Procurador do Imperador Tibério César, nada mais que um capacho

Fariseus: seita coesa de guardiães intransigentes na defesa das tradições. Anciãos do Povo : Conselheiros das Altas Cúpulas, pseudo porta-vozes do povo. Escribas: copistas intérpretes da Lei, bem cotados no meio de um povo com 99% de analfabetos. Sacerdotes do Templo: detentores do monopólio do culto e da renda do comércio de animais para os holocaustos diários.

      Estes grupos formavam a legião dos que se agitaram com o simples anúncio de que estava pra chegar um novo Rei, precedido por vaticínios alarmantes.

     Pronto, sirvam-se destes personagens, a seu bel prazer,  na armação de um anti-presépio vivo.

       Só acrescento, à guisa de motivação: haverá dúvida na escolha de um figurante para o patético Herodes, com sua obsessão de apagar o brilho da Estrela?

     Agora eu gostaria de apressar o passo e me juntar à caravana de peregrinos que iniciaram sua caminhada em janeiro, com o propósito de chegar a dezembro, em tempo de encontrar o Menino-Deus. Partiram cheios de entusiasmo, energias, esperanças.

     Quando chegaram ao mês de maio, uma parte do grupo parou e falou aos demais: nós decidimos voltar. Estamos por demais cansados. Sentimos falta do que deixamos para trás, nossa segurança e tranquilidade. Perdemos todos os capítulos da novela das 20h. Obrigado pela boa companhia. Olhem para cima e vejam uma coisa: as nuvens taparam o brilho da Estrela.

     Os demais seguiram adiante até agosto. Logo no início de setembro outro grupo mais numeroso pediu a palavra e falou: decidimos encerrar a jornada no lugar onde estamos e aqui permanecer. Valeu a pena. Fizemos boas amizades e debates inesquecíveis. Estamos satisfeitos. Vamos festejar este momento e procurar algo que nos dê maior prazer e satisfação.

     Então o grupo minoritário reagiu com firmeza e declarou: que fiquem para trás os alienados e os acomodados, os que preferem tranquilidade e os que só buscam prazer. Nós somos os apaixonados e almejamos a plenitude, a plena realização. Não descansaremos enquanto não encontrarmos o Menino e sua Mãe.

     Modéstia à parte, me identifiquei com estes últimos e segui adiante com eles. Se pedirem uma palavra de estímulo, recitarei estes versos de Drumond de Andrade: "estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Estou onde estão minhas raízes, meu caminho, onde sobrei, insistente, aflitivo, sobrevivente da vida que ainda não vivi, juro por Deus, ainda não vivi".

     (Em dado momento, senti uma estranha intuição, uma certeza de que, à exceção do Menino, vou encontrar os demais, José, Maria, os Pastores, os Magos, usando máscara).

   Nenhuma palavra a mais. Silêncio para ouvir o silêncio de Deus.

 Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

sábado, 19 de dezembro de 2020

NATAL, QUAL A COR DE DEUS?

 



Pe Fabio Potiguar dos Santos

 

Era noite. Tudo escuro. Homens pastores eram guardados por suas ovelhas. Um fogo de gravetos em chamas cintilantes refulgindo em rostos olhos de pessoas e animais. Não muito longe dali, numa lapinha, uma mulher dava à luz ao seu menino acompanhada daquele que lhe é enfermo de amor: José.  Tudo muito singelo e discreto. Não fosse o anjo e a estrela alumiada no céu a proclamar o nascimento, nada mais anunciava a noite revestida de luz. É preciso levantar a cabeça e contemplar os luzeiros acessos nos céus de noite... faz-se necessário e urgente sentir mais além e perceber a insustentável leveza de um anjo.

 Era noite e escuro. Um anjo de Deus se apresentou aos pastores envolvendo-os de luz. “Tenho para vocês uma notícia boa e nova, uma grande alegria: nasceu hoje para vocês um menino, o Salvador!”

Sinto asas em meus braços, minha boca é cheia de riso e meus lábios de uma canção natalina. Sou o anjo do alegre anúncio. Digo com o coração bailando e iluminado: “Nasceu hoje para você, um menino, o Salvador do mundo!”

Veja, você está agora todo cercado e envolvido de luz. Sinta a mágica de luz e de cores. Da tela desse artigo sai algo mais do que sei lá. Seu rosto está todo iluminado, seu corpo é tomado de uma sinergia envolvente...  Você está vendo?

 Ontem, há dois mil anos, um anjo apareceu aos pastores. Hoje um anjo aparece a você. Seja menino ou menina, porque só eles podem experimentar, iguais aos pastores, essa visão. Sim, com mente e coração abertos, você de novo criança, abra os olhos e veja anjos dançando nas nuvens cantando glória para Deus e cantado paz, alegria, força e amor à você. Você soltou sua imaginação. Você ver agora. Enquanto a multidão do coro celestial entoa hinos,  o meu anjo amigo e o  seu anjo amigo, diz a mim e a você a alegria: “Nasceu hoje o um menino”. Ele continua nascendo em cada criança que nasce, sem exceção, mas teima em nascer naquelas que nascem na miséria, na pobreza e na opressão como Ele nasceu. Sejam pastores para todas elas, repito, sem exceção, mas principalmente por aquelas que nascem nas periferias dos impérios de hoje como ele nasceu na periferia do império romano em Belém, Casa do Pão, sendo Ele mesmo o Pão, nos ensinando já no mistério da encarnação o que fez no mistério pascal, tomar o pão, partir o pão, partilhar o pão. 

 Nascemos a imagem de Deus. Hoje Deus nasce à imagem do Homem. Deus é carne de nossa carne de agonia e prazer. E por falar na carne de Deus, qual a cor de Deus, hein?

Estava morando na França, eu e Eduardo começamos uma relação epistolar. Escrevíamos sobre tudo. Lá pelo meio das tantas, sendo eu um padre vivendo num mosteiro trapista e ele um poeta e  um intelectual professor universitário em Fortaleza, começamos a falar de Deus. Eduardo então me saiu com essa: “Qual a cor de Deus?” Respondi-lhe que perguntasse ao meu sobrinho João, com dois anos na época, ele como criança saberia como ninguém a cor de Deus. Chegou o dia. Com Joãozinho no colo, preferiu perguntar a Pedro, menino de uma sensibilidade fabulosa. Enquanto Pedro colocava a mão no queixo e levantava a cabeça e olhos pensativo, Joãozinho não perdeu tempo e mandou ver: “A cor de Deus?”. E tocando a pele de Eduardo disse. “A cor de Deus é essa aqui!”. Chorei quando recebi a carta com a resposta. A cor de Deus, como canta meu irmão gêmeo Fabiano, o pai dos meninos, a cor de Deus é  índio, é negro, é branco é multicolor.   Natal... “e  o Verbo se fez carne e habitou entre nós!” .

 Natal. Deus se faz humano para o humano se fazer partícipe do divino pelo mistério da encarnação que é um único mistério da morte e ressurreição. Quando na Missa, por, com e em Cristo, no Espírito Santo se oferece ao Pai o Sacrifíco Pascal que nos recria, salva e nos redime, na preparação das oferendas, no momento que se coloca uma gota de água no cálice, se ora em silêncio: “Pelo mistério dessa água e desse vinho possamos participar da divindade do vosso Filho que se dignou assumir nossa humanidade”.

        

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O NATAL DE JESUS E O NOSSO NATAL SOB O COVID-19

 

Leonardo Boff


O Natal do ano 2020 seja talvez o mais próximo do verdadeiro Natal de Jesus sob o imperador romano César Augusto.

Este imperador ordenara um recenseamento de todo o império. A intenção não era apenas como entre nós, de levantar quantos habitantes havia. Era isso, mas o propósito era cobrar de cada habitante um imposto, cuja soma com aquele de todas as províncias se destinava a manter a pira de fogo permanentemente acesa e sustentar os sacrifícios de animais ao imperador que se apresentava e assim era venerado como deus. Tal imposição a todos do Império provocou revoltas entre os judeus.

Esse fato, mais tarde, foi usado pelos fariseus como uma armadilha a Jesus: devia pagar ou não o imposto a César? Não se tratava do imposto comum, mas aquele que cada pessoa do império devia pagar para alimentar os sacrifícios ao imperador-deus.

Para os judeus significava um escândalo pois adoravam um único Deus, Javé, como poderiam pagar um imposto para venerar um falso deus, o imperador de Roma? Jesus logo entendeu a cilada. Se aceitasse pagar o imposto seria cúmplice da adoração a um deus humano e falso, o imperador. Se o negasse se indisporia com as autoridades imperiais negando-se a pagar o tributo em homenagem ao imperador-deus.

Jesus deu uma resposta sábia: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E outras palavras, dai a César, um homem mortal e falso deus o que é de César: o imposto para os sacrifícios e a Deus, o único verdadeiro, o que é de Deus: a adoração. Não se trata da separação entre a Igreja e  o Estado como comumente se interpreta. A questão é outra: qual é o verdadeiro Deus, aquele falso de Roma ou aquele verdadeiro de Jerusalém? Jesus, no fundo, responde: só há um Deus verdadeiro e deem a ele o que lhe cabe, a adoração.  Dai a Cesar, o falso deus, o que é de César: a moeda do imposto. Não misturem deus com Deus.

Mas votemos ao tema: o Natal de 2020, como nunca na história, se assemelha ao Natal de Jesus. A família de José e de Maria grávida são filhos da pobreza como a maioria de nosso povo. As hospedarias estavam cheias, como aqui os hospitais estão cheios de contaminados pelo vírus. Como pobres, Jesus e Maria, talvez nem pudessem pagar as despesas como, entre nós, quem não é atendido pelo SUS não tem como bancar os custos de um hospital particular. Maria estava na iminência de dar à luz.  Sobrou ao casal, refugiar-se numa estrebaria de animais. Semelhantemente como fazem tantos pobres que não têm onde dormir e o fazem sob as marquises ou, num canto qualquer da cidade. Jesus nasceu fora da comunidade humana, entre animais, como tantos de nossos irmãos e irmãs menores nascem nas periferias das cidades, fora dos hospitais e em suas pobres casas.

Logo depois de seu nascimento, o Menino já foi ameaçado de morte. Um genocida, o rei Herodes, mandou matar a todos os meninos abaixo de dois anos. Quantas  crianças, no nosso contexto, são mortas pelos novos Herodes vestidos de policiais que matam crianças sentadas na porta da casa? O choro das mãe são eco do choro de Raquel, num dos textos mais comovedores de todas as Escrituras: “Na Baixada (em Ramá) se ouviu uma voz, muito choro e gemido: a mãe chora os filhos mortos e não quer ser consolada porque ela os perdeu para sempre (cf.Mt 2,18).

De temor de ser descoberto e morto, José tomou Maria e o menino Jesus atravessam o deserto e se refugiram no Egito. Quantos hoje sob ameaça de morte pelas guerras e pela fome, tentam entrar na Europa e nos USA. Muitos morrem afogados, a maioria é rejeitada, como na catolicíssima Polônia e vem discriminda; até crianças são arrancadas dos pais e engaioladas como pequenos animais. Quem lhes enxugará as lágrimas? Quem lhes mata a saudade dos pais queridos? Nossa cultura se mostra cruel contra os inocente e contra os imigrantes forçados.

Depois que morreu o genocida Herodes, José tomou Maria e o Menino e foram esconder-se num lugarejo tão insignificante, Nazaré, que sequer consta na Bíblia. Lá o Menino “crescia e se fortalecia cheio de sabedoria “(Lc 2,40). Aprendeu a profissão do pai José, um fac-totum, construtor de telhados e coisas da casa, um carpinteiro. Era também um camponês que trabalhava o campo e aprendia a observar a natureza. Ficou lá escondido até completar 30 anos, foi quando sentiu o impulso de sair de casa e começar a pregação de uma revolução absoluta: “O tempo da espera expirou. A grande reviravolta está chegando (Reino). Mudem de vida e acreditem nessa boa notícia” (cf.Mc 1,14): uma transformação total de todas as relações entre os humanos e na própria natureza.

Conhecemos seu fim trágico. Passou pelo mundo fazendo o bem (Mc 7,37; Atos 10,39), curando uns, devolvendo os olhos a cegos, matando a fome de multidões e sempre se compadecendo do povo pobre e sem rumo na vida. Os religiosos articulados com os políticos o prenderam, torturaram e o assassinaram pela crucificação.

Saiamos destas “sombras densas” como diz o Papa Francisco na Fratelli tutti. Voltemos o olhar desanuviado para o Natal de Jesus. Ele nos mostra a forma como Deus quis entrar na nossa história: anônimo e escondido. A presença de Jesus não apareceu na crônica nem de Jerusalém e muito menos de Roma. Devemos aceitar esta forma escolhida por Deus.  Realizou-se a lógica inversa da nossa: “toda criança quer ser homem; todo homem quer ser grande; todo grande quer ser rei. Só Deu quis ser criança”. E assim aconteceu.

Aqui ecoam os belos versos do poeta português Fernando Pessoa:

         “Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

         Ele é o humano que é natural,    

         Ele é o divino que sorri e que brinca.

É a criança tão humana que é divina”.

Tais pensamentos me trazem à memória uma pessoa de excepcional qualidade espiritual. Foi ateu, marxista, da Legião Estrangeira. De repente sentiu uma comoção profunda e se converteu. Escolheu o caminho de Jesus, no meio dos pobres. Fez-se Irmãozinho de Jesus. Chegou a uma profunda intimidade com Deus, chamando-o sempre de “o Amigo”. Vivia a fé no código da encarnação e dizia: “Se Deus se fez gente em Jesus, gente como nós, então fazia xixi, choramingava pedindo o peito, fazia biquinho por causa da fralda molhada”. No começo teria gostado mais de Maria e mais grandinho mais de José, coisa que os psicólogos explicam no processo da realização humana.

Foi crescendo como nossas crianças, observava as formigas, jogava pedras nos burros e, maroto, levantava o vestidinho das meninas para vê-las furiosas, como imaginou irreverentemente Fernando Pessoa em seu belo poema sobre o Jesus menino.

Esse homem, amigo do Amigo, “imaginava Maria ninando Jesus, fazê-lo dormir porque de tanto brincar lá fora, ficava muito excitado e lhe custava fechar os olhos; lavava no tanque as fraldinhas; cozinhava o mingau para o Menino e comidas mais fortes  para o trabalhador o bom José”.

Esse homem espiritual italiano que viveu, muitas vezes ameaçado de morte, em tantos países da América Latina e vários no Brasil, Arturo Paoli, se  alegrava interiormente com tais matutações, porque as sentia e vivia na forma de comoção do coração, de pura espiritualidade. E chorava com frequência de alegria interior. Era amigo do Papa que o mandou buscar de carro na cidadezinha uns 70 km de Roma para passarem toda um tarde e falarem da libertação dos pobres e da misericórdia divina. Morreu com 103 anos como um sábio e santo.

Não esqueçamos a mensagem maior do Natal: Deus está entre nós, assumindo a nossa condition humaine,alegre e triste. É uma criança que nos vai julgar e não um juiz severo. E esta criança só quer brincar conosco e nunca nos rejeitar. Finalmente, o sentido mais profundo do Natal é esse: a nossa humanidade, um dia assumida pelo Verbo da vida, pertence a Deus. E Deus, por piores que sejamos, sabe que viemos do pó e nos tem uma misericórdia infinita. Ele nunca pode perder, nem deixará que um filho seu ou filha sua se perderão. Assim, apesar do Covid-19 podemos viver uma discreta alegria na celebração familiar. Que o Natal nos dê um pouco de felicidade e nos mantenha na esperança do triundo da vida sobre o Covid-19.

 

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor e escreveu: Natal: a jovialidade e a  humanidade de nosso Deus,  Vozes 2005.

 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

CARTÃO DE NATAL

 Frei Betto


 

      Feliz Natal a quem não planta corvos nas janelas da alma, nem embebe o coração de cicuta e ousa sair pelas ruas a transpirar bom humor.  

      Feliz Natal a quem cultiva ninhos de pássaros no beiral da utopia e coleciona no espírito as aquarelas do arco-íris. E a todos que trafegam pelas vias interiores e não temem as curvas abissais da oração.  

      Feliz Natal aos que reverenciam o silêncio como matéria-prima do amor e arrancam das cordas da dor melódicas esperanças. Também aos que se recostam em leitos de hortênsias e bordam, com os delicados fios dos sentimentos, alfombras de ternura.  

      Feliz Natal aos que trazem às costas aljavas repletas de relâmpagos, aspiram o perfume da rosa-dos-ventos e trazem no peito a saudade do futuro. Também aos que semeiam indignações, mergulham todas as manhãs nas fontes da verdade e, no labirinto da vida, identificam a porta que os sentidos não veem e a razão não alcança.  

      Feliz Natal a todos que dançam embalados pelos próprios sonhos e nunca dizem sim às artimanhas do desejo. Aos que ignoram o alfabeto da vingança e jamais pisam na armadilha do desamor, pois sabem que o ódio destrói primeiro a quem odeia.  

      Feliz Natal a quem acorda todas as manhãs a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas quebrando convenções que só obrigam a quem carece de convicções. E aos artífices da alegria que no calor da dúvida dão linha à manivela da fé.  

      Feliz Natal a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas a fim de atirá-los no lixo do olvido e guardam recatados os seus olhos no recanto da sobriedade. A quem resguarda-se em câmaras secretas para reaprender a gostar de si e, diante do espelho, descobre-se belo na face do próximo.  

      Feliz Natal a todos que pulam corda com a linha do horizonte e riem à sobeja dos que apregoam o fim da história. E aos que suprimem a letra erre do verbo armar e se recusam a ser reféns do pessimismo.  

      Feliz Natal aos que fazem do estrume adubo de seu canteiro de lírios. Também aos poetas sem poemas, aos músicos sem melodias, aos pintores sem cores e aos escritores sem palavras. E a todos que jamais encontraram a pessoa a quem declarar todo o amor que os fecunda em gravidez inefável.  

      Feliz Natal aos ébrios de transcendência e aos filhos da misericórdia que dormem acobertados pela compaixão. E a todos que contemplam ociosos o entardecer, observando como o Menino entra na boca da noite montado em seu monociclo solar.  

      Feliz Natal a quem não se deixa seduzir pelo perfume das alturas e nem escala os picos em que os abutres chocam ovos. E a todos que destelham os tetos da ambição e edificam suas casas em torno da cozinha. 

       Feliz Natal a quem, no leito de núpcias, promove uma despudorada liturgia eucarística, transubstanciando o corpo em copo inundado do vinho embriagador da perda de si no outro. E a quem corrige o equívoco do poeta e sabe que o amor não é eterno enquanto dura, mas dura enquanto é terno.  

      Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão e convocam os famélicos à mesa feita com as tábuas da justiça e coberta com a toalha bordada de cumplicidades.  

      Feliz Natal aos que secam lágrimas no consolo da fé e plantam no chão da vida as sementes do porvir. E aos que criam hipocampos em aquários de mistério e conhecem a geometria da quadratura do círculo.  

      Feliz Natal a quem se embebeda de chocolate na esbórnia pascal da lucidez crítica e não receia pronunciar palavras onde a mentira costura bocas e enjaula consciências. E a todos que com o rosto lavado das maquiagens de Narciso dobram os joelhos à dignidade dos carvoeiros. 

      Feliz Natal a todos que sabem voar sem exibir as asas e abrem caminhos com os próprios passos, inebriados pelos ecos de profundas nostalgias. E aos que decifram enigmas sem revelar inconfidências e, nus, abraçam epifanias sob cachoeiras de magnólias.  

      Feliz Natal aos que saboreiam alvíssaras nos bosques onde vicejam anjos barrocos e nadam suas gorduras deixando os cabelos brancos flutuarem sobre a saciedade de anos bem vividos. E a todos que dão ouvidos à sinfonia cósmica e nos salões da Via Láctea bailam com os astros ao ritmo de siderais incertezas.  

      Feliz Natal também aos infelizes, aos tíbios e aos pusilânimes, aos que deixam a vida escorrer pelo ralo da mesquinhez e, no calor de seus apegos, veem seus dias evaporar como o orvalho aquecido pelo alvorecer do verão. Queira Deus que renasçam com o Menino que se aconchega em corações desenhados na forma de presépios.  

Frei Betto é escritor, autor “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

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