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sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Mudanças climáticas: aprender a fazer as conexões

 Leonardo Boff


Não estamos mais indo ao encontro do aquecimento global. Estamos já dentro dele, possivelmente de forma irreversível. Na COP 15 de Paris de 2015 se firmou o acordo de inversão de um bilhão de dólares anuais para reter o aquecimento e ajudar os países que não possuem meios suficientes para isso. A perspectiva era de evitar que o clima crescesse 1,5C até 2030, tendo como referência o começo da era industrial. O fato é que quase ninguém cumpriu o prometido. Como o aquecimento cresce dia a dia, chegamos ao ponto de o último relatório do IPCC de ano de 2023 e de outras fontes oficiais nos revelam que este aquecimento nos chegará antecipado entre 2025 e 2027.Ele poderá alcançar 2graus Celsius.

Temos verificado neste ano de 2023 um aumento assustador do aquecimento atingindo praticamente todo o mundo, chegando e muitos lugares acima de 40C ou mais. Já não podemos falar simplesmente de aquecimento global mas de mudança de regime climático da Terra. Inauguramos uma nova era, com níveis climáticos variáveis conforme as regiões, mas possivelmente se estabilizando planetariamente por volta de 38-40C.

Neste ano já se fizeram notar as consequências funestas desta mudança de regime climático: o grande degelo das calotas polares, incêndios devastadores em muitas regiões do mundo, como no Canadá e nas Filipinas que incinerou uma inteira ilha com casas e carros e tudo o que perfaz uma cidade. No Sul do Brasil ocorreram um ciclone devastador e enchentes em muitas cidades, algumas delas praticamente destruídas.

Andando por aquele lugares no final de setembro e refletindo em vários centros com numerosos grupos sobre esse fenômeno, sempre de novo surgia a pergunta: por que está ocorrendo esta devastação, com mortes e milhares de desabrigados? Esforcei-me, o mais que pude, para lhes conscientizar de que estes fenômenos não são naturais,mesmo com a confluência de dois fatores: o el Niño e o aquecimento global. Estea fenômenos são inaturais. Eles obedecem à nova lógica das mudanças do regime climático. Devemos todos nos preparar porque tais devastações serão cada vez mais frequentes e mais danosas.

Muitos dos mais notáveis climatólogos atestam que chegamos atrasados com nossa ciência e técnica. Elas, nas condições atuais da pesquisa, pouco podem fazer, apenas advertirmos da chegada dos ciclones, dos tufões e das tempestades e minorar os efeitos danosos. Mas eles virão fatalmente. Quer queiram ou não os negacionistas, os dirigentes de grandes corporações planetárias e de inteiros governo,o fato inegável é que entramos num estágio novo da história da Terra. Muitos, especialment crianças e idosos terão dificuldades de adaptação e morrerão. Igual devastação ocorrerá na própria natureza com a fauna a flora.

No que se refere às enchentes tenho explicado que cada rio possui dois leitos: o normal pelo qual ele normalmente corre e o segundo ampliado que é aquele espaço que lhe pertence e que acolhe as águas das enchentes. Neste espaço do leito ampliado não podemos fazer construções e elevar inteiros bairros. Temos que respeitar o que  lhe pertence e reforçar a mata ciliar que margeia seu leito principal. Caso contrário, enfrentaremos  destruições momentosas com muitas vítimas de pessoas e de animais que pertencem à nossa comunidade de vida.

Aprendemos pela ecologia não meramente verde e ambiental mas pela ecologia integral (urbana, social, política, cultural e espiritual) aquilo que é a tese fundamental da física quântica e de todo discurso ecológico: todos os seres estão interligados. Tudo é relação e nada existe fora da relação. Isso nos leva a incorporar uma compreensão que identifica as conexões de todos os fenômenos. O terremoto do Marrocos, a enchente na Líbia, os incêndios no Canadá e a onda quase insuportável de calor que tomou conta da Europa e em quase todo o nosso  país, tem a ver com as enchentes no Sul do país.Pois o problema é sistêmico, afeta todo o planeta.

A maioria  das audiências públicas organizadas pelos organismos do governo federal e estadual geralmente é hegemonizada pelo discurso dos cientistas. Ele não são os melhores conselheiros pois trabalham os meios técnicos,sugerem medidas dentro do sistema no qual estamos encerrados, mas não se colocam a questão dos fins.

O discurso é dos fins e não dos meios: que tipo de Terra queremos? Que mudanças devemos fazer no modo de produção e consumo? Como diminuir a vergonhosa desigualdade social mundial?A maioria cai na ilusão de que dentro do atual sistema produtivista seja capitalista seja socialista, notoriamente devastador dos bens e recursos da natureza, pode-se chegar a soluções que resultam da diminuição de gazes de efeito estufa. Ledo engano. Dentro desta bolha que ocupou todo o planeta não há solução contra a mudança de regime climático. Pois são exatamente eles que sugam os recursos escassos da natureza que consequentemente produzem milhões de toneladas anuais de CO2 e de metano (28 vezes mais danoso que o CO2)lançadas na atmosfera.

É urgente, se queremos ainda permanecer neste planeta, fazer uma “conversão ecológica fundamental” como o diz a encíclica do Papa “como cuidar da Casa Comum”

Os grandes conglomerados e aquela pequeníssima porção de pessoas que controla o sistema de produção e o fluxos financeiros de onde tiram seus fabulosos lucros, jamais aceitam tal mudança. Perderiam seus ganhos, privilégios, poder econômico e político.  No entanto, seguir por este caminho tornaremos a Terra cada vez mais inabitável, com milhõe se refugiados climáticos e emigrantes que já não podem mais viver em seus lugares queridos. Engrossaremos o cortejo daquele que rumam na direção de sua própria sepultura. Se quisermos evitar  este destino, devemos mudar.

Qual a alternativa necessária? Não é aqui o espaço pra detalhar esta complexa resposta. Mas refiro apenas duas palavras-chaves: passar do ser  humano, hoje dominante, como “dominus”, senhor e dono da natureza e não sentindo-se parte dela, explorando-a sem limites  para o o ser humano como “frater” irmão e irmã entre todos os humanos e também com os demais seres da natureza da qual é a parte consciente, porque possuímos com eles e mesma base biológica e cuidamos dela. Somos de fato irmãos e irmão, por um dado de ciência mais do que pela mística cósmica de São Francisco.  O fato é que não nos tratamos como irmãos e irmãs. Somos antes insensíveis e até cruéis.Sobre tal tema remeto aos meus próprios escritos que tentam detalhar este novo rumo.

 

Leonardo Boff escreveu O doloroso parto da Mãe Terra:uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social, Vozes 2021; Habitar a Terra: qual o caminho para a fraternidade universal, Vozes, 2021; Cuidar da Terra e proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record 2014; A busca da justa medida como fator para o equilíbrio da Terra, Vozes 2023.

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terça-feira, 24 de agosto de 2021

MUDANÇAS CLIMÁTICAS E ALTERNATIVAS

Marcelo Barros


 

Na segunda-feira, 09 de agosto, a ONU publicou o relatório do grupo de peritos formado por 234 cientistas internacionais sobre a realidade da crise ecológica na Terra. De fato, a destruição das condições de vida no planeta avança de forma assustadora. O aquecimento global que já era previsto e esperado alcançou níveis que os cientistas calculavam que não viriam antes de dez anos. Essa realidade já provoca inundações maiores do que as de sempre. Em algumas regiões se traduzirá em secas e outras tragédias ambientais, com intensidade e frequência, como nunca tinham ocorrido. Esse desequilíbrio climático e geológico trará consequências trágicas para as populações, principalmente as mais pobres e vulneráveis.

Pela primeira vez, os cientistas asseguram que tal situação é provocada, em sua maior parte, pela ação humana e pelo modelo de desenvolvimento predatório que ainda prevalece em todos os continentes do mundo. Alguns cientistas a estudar as eras geológicas, chamam a atual de antropoceno para designar a era na qual a sociedade humana se tornou responsável pela destruição da Terra e pela ameaça que isso significa para toda a vida no planeta. Desde alguns anos, especialistas da ONU começaram a falar em um dia da sobrecarga da Terra. Esta data marca o momento no qual o nosso consumo anual de serviços e recursos naturais ultrapassa o que a Terra pode regenerar naquele mesmo ano. Essa data que em anos anteriores se colocava em setembro e depois em agosto, neste ano de 2021, conforme os estudiosos, já se deu no dia 29 de julho. Infelizmente, a imprensa que publica datas que comemoram as mais diversas categorias profissionais e valoriza muitas atividades humanas, não divulga suficientemente o que esta data significa e assim não toma consciência da responsabilidade social nessa sobrecarga da Terra. A coisa certa para todos nós é que tudo isso terá imensa e imediata repercussão no Brasil (Cf. O Estado de São Paulo, 3ª feira, 10 de agosto de 2021).

Os governos dos países ricos estão dispostos a tomar alguma medida que possa aliviar ou ao menos adiar um pouco a crise. No entanto, há um limite: essas medidas não podem e não devem afetar o sistema capitalista do qual eles dependem. Ora, cada vez mais, analistas e cientistas percebem que todo esforço para deter as mudanças climáticas que ameaçam o planeta será inútil, se a humanidade não for capaz de superar a economia capitalista que é essencialmente depredadora em função da acumulação de riquezas para uma ínfima minoria de bilionários que dominam o mundo.

Na encíclica Laudato Si, o papa Francisco confirma: a ecologia ambiental depende da ecologia social. Leonardo Boff já tinha insistido que é necessário ouvir o grito da Terra articulado com o grito dos pobres.

Cada vez mais é comum afirmar que, se entendemos o universo como o conjunto de redes de relação entre todos os seres vivos, é preciso que nós, humanos nos integremos nisso que a Carta da Terra chama de “comunidade da vida”. Temos de assumir a sustentabilidade da Terra e da Vida como a prioridade que deve reger toda a organização social, econômica e cultural da humanidade e da nossa relação com a natureza. Precisamos reencontrar formas de proteger a integridade e a vitalidade da Terra. A saúde da Terra é a nossa saúde e salvação. Podemos aprender isso com as culturas dos povos indígenas e todas as populações originárias.

Na América Latina, as comunidades indígenas e os grupos de base sabem que a salvação terá de vir de baixo e das bases. Por isso, organizações indígenas e de lavradores se mobilizam em sucessivos encontros para salvar a mãe Terra. Tomam decisões justas e acertadas para lutar contra a lógica desumana e antiecológica do agronegócio, assim como contra a difusão das sementes transgênicas e agrotóxicos. Em várias regiões do país, povos originários, grupos de base e pastorais sociais denunciam os males causados pelas mineradoras que oprimem violentamente as comunidades locais e destroem os rios, a floresta e toda a natureza. 

Para quem vive uma busca espiritual, o cuidado amoroso com a Mãe Terra, com a água e com todo ser vivo fazem parte do testemunho urgente e fundamental: há uma inteligência amorosa presente e atuante no universo, pela qual, apesar de todas as agressões e crimes cometidos contra o Planeta, ainda podemos salvá-lo.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br