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terça-feira, 20 de junho de 2023

Festas juninas e a cidadania

 Marcelo Barros



Na segunda quinzena de junho, em várias regiões do Brasil, o clima é de festas juninas. Em São Luis e algumas cidades do Maranhão, os festejos do Bumba-meu-boi recordam costumes que vêm de séculos. Por todo o Nordeste, a fogueira e comidas de milho verde são acompanhadas por Quadrilhas e brincadeiras próprias da festa. Caruaru e Campina Grande disputam entre si quem tem o maior São João do mundo.

Para as culturas tradicionais, tanto dos povos indígenas, como das populações do campo e do sertão, junho representa o tempo da colheita do milho no Nordeste e no sul, a coleta do mate. Ainda há povos indígenas, para os quais esses festejos comemoram o início do ano novo. Na cordilheira dos Andes, as comunidades indígenas festejam o Inti-Rami, a festa do rei Sol, inscrita nos calendários oficiais da Bolívia, Peru e Equador. Na Argentina, Paraguai e sul do Brasil, os Guarani chamam este tempo de Ara Pyaú (Tempo Novo). É o batismo da erva mate, o ka’a  nheemongaraí, cujas projeções sobre o ano novo são interpretadas pelo Xeramoi (pajé). Também se celebra a cerimônia de nominação, quando as crianças recebem o nome guarani dado pelo pajé. Devido a influências católicas, esse ritual é chamado de “batismo guarani”.

As danças juninas mais comuns vieram das cortes da Europa. Quadrilhas eram danças da nobreza europeia nos tempos da colonização. O povo se apropriou delas e as democratizou. Atualmente, nos chamados “casamentos caipiras”, figuras como a do padre e do juiz da roça são caricaturados. Assim, pessoas pobres que não têm voz na sociedade expressam sua crítica social e seu protesto. O fato de tomar como padroeiros das festas juninas Santo Antônio, São João Batista e São Pedro se vincula aos tempos em que tudo era religioso. Revela resistência cultural e liga esses santos à realidade dos pobres de hoje. O espírito dessas festas pede que as pessoas e comunidades possam ir além da criatividade com a qual ensaiam uma dança de quadrilha ou encenação caipira. É urgente ensaiar uma sociedade nova na qual todos e todas sejam protagonistas e restabelecer a dignidade da Política, colocada a serviço do Bem Comum.

Enquanto o povo brinca as festas juninas, políticos de direita se organizam para impedir o governo federal de cumprir suas metas e fazer o Brasil voltar. O presidente da Câmara mostra suas garras de coronel que faz política em função de si mesmo.  O governo que, para vencer eleições teve de fazer acordo com ampla faixa de partidos e bancadas, é coagido a pagar preço altíssimo.  Em meio a tudo isso, a governabilidade oficial, garantida pela relação entre os três poderes, acaba dificultando a comunicação direta do governo com o povo que continua sendo mais testemunha e assistente da politicagem dos grandes do que participante ativo em uma Política na qual todos possam ser cidadãos e cidadãs.  

Para quem vive um caminho espiritual, religioso ou não, se trata de sinalizar o projeto de um mundo novo possível. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, as festas juninas traduzem uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque o projeto divino no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).

quinta-feira, 23 de junho de 2022

CARLITO MAIA, SENHOR CIDADANIA

 Frei Betto     


                 

 
       Meu querido Carlito, você partiu há 20 anos. Viver não pode ser sinônimo de sofrer, e a sua agonia se prolongou por muito tempo. A última vez que nos vimos foi na terça, 18 de junho de 2002. Você estava muito sereno quando, ao lado de Tereza, dei-lhe a bênção da despedida. Agradecemos ao Pai/Mãe de Amor o dom de sua existência. Agora, no colo de Deus, você ri de suas inquietações quanto aos mistérios que, para nós, se escondem do outro lado da vida. 
       Lamentamos a sua partida. Com a sua ausência, ficamos órfãos de quem nos ensinou a lutar por cidadania. "Brasil? Fraude explica", bradou você diante de tanta corrupção. Você era a cidadania em carne e osso. O último pré-socrático. Com suas frases curtas e certeiras, proverbiais e irônicas,  construiu uma obra literária e contestatária de inestimável valor, inclusive filosófico, com o mérito de proferir axiomas que todos entendem. 
       Viramos cúmplices desde 1966, quando nos conhecemos no convento dos dominicanos, no bairro de Perdizes, na capital paulista. Convidado por um dos padres, você veio pronunciar palestra sobre TV. Contou como funcionava a sua agência de publicidade, a Magaldi, Prosperi & Maia; como descobriu Roberto Carlos num show de calouros da TV Tupi; como desenhou o perfil da Jovem Guarda, que se tornou, naquela década, o programa da TV Record de maior audiência nacional. 
       Desde então, não perdemos mais contato, mesmo porque sua irmã Dulce se tornou minha companheira no Teatro Oficina, na resistência à ditadura e no cárcere. E a minha admiração só cresceu, pois você jamais pôs a alma a leilão. Depois de beber tudo a que tinha direito num coquetel de indignações, transformou-se num ébrio de utopias. "Sonho, logo existo", era o seu lema.
       Espelhado em Chaplin, seu alter-ego, você combateu o regime militar sem perder o humor e o amor. Virou contrabandista de gente, produtor de fugas, alcoviteiro de guerrilheiros, semeador de esperanças. Acionou sua metralhadora giratória de frases e citações, e fez da ironia uma arma capaz de derrubar prepotências e denunciar safadezas. 
       Poeta do cotidiano, socialista compulsivo, sempre partilhou com amigos e amigas a irreverência de seus textos e recortes de jornais e revistas. Artífice da vida, jamais esqueceu aniversários e homenagens, celebrados por você com a alegria das flores, como quem semeia primavera ainda que reine rigoroso inverno neste país e em nossos corações. E agora, quem nos mandará "beijares e abraçares" em papéis timbrados da Rede Globo, com a sua assinatura acompanhada de uma estrela vermelha? 
       Quem, como você, soube fazer amigos? Betty Milan retratou esse dom em "O Clarão", sua biografia afetiva. Você, que viveu "livre e solitário como uma árvore, porém solidário como uma floresta", sabia e nos ensinava que "nós não precisamos de muita coisa. Só precisamos uns dos outros." 
       Mineiro como eu, você nunca foi daqueles que ficam em cima do muro para ver melhor os dois lados. Homem de opções e ações, teve a dignidade embonezada pelo MST, que sempre contou com o corajoso apoio de quem soube enfatizar que "a luta é entre os sem-terra e os sem-vergonha".
       Fundador do PT, você cunhou as expressões "Lula-lá" e "Sem medo de ser feliz", e preferia "perder com as bases a vencer sem elas". Desconfiado, sabia que "quando a esquerda começa a contar dinheiro, converte-se em direita". 
       Sua vida, coerente e bela, foi o brado maior de quem jamais teve medo de algo tão simples e, no entanto, hoje raro: vergonha na cara. Fiel às suas raízes, você sempre nos recordava que "é de pequenino que se torce o destino". Tanta coerência refletia esta sua autodefinição: "Sou o que de mim fiz, porque assim quis."
       Louvo a Deus, pleno de gratidão, pela dádiva de sua existência. "A esperança já perdi várias vezes. A fé jamais”, dizia você. Ainda bem, meu querido amigo, tão amado por Deus e por todos nós que, nesta terra de papagaios, sentimos muito a falta de quem não desperdiçava palavras e esbanjava bom humor.
       Em um dos bilhetes que me enviou, você transcreveu esta frase de Antonin Artaud: "Parto à procura do impossível. Vamos ver se o encontro." Guardo a certeza de que, aqui nesta Terra, valeu o esforço de quem, em vida, teve a honra de ver o próprio nome batizando o Troféu Cidadania da revista Imprensa. No avesso desta existência sei que, agora, não há mais nada impossível para você. Para sempre, sua vida é terna. 
       Mais uma vez, a Deus, Carlito.


 
Frei Betto é escritor, autor de “Minha avó e seus mistérios” (Rocco), entre outros livros. 
Livraria virtual: freibetto.org    

 

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 


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terça-feira, 20 de outubro de 2020

O PAPA E A CIDADANIA UNIVERSAL

Por  Marcelo Barros 

Nesta semana a ONU celebra seus 75 anos e lembra o 24 de outubro de 1945, quando foi criada. Nestes dias, a humanidade recebe de presente a nova carta do papa Francisco sobre a fraternidade universal e amizade social. Esta carta-encíclica é dirigida a toda a humanidade e tem como objetivo provocar uma reflexão sobre a vida depois da pandemia.

O papa afirma que se sentiu motivado a escrever esta carta desde que, em fevereiro de 2019, se encontrou com o grande Imã Ahmad Al- Tayyeb, uma das maiores autoridades do Islamismo no mundo. Juntos, eles publicaram uma Declaração sobre a Paz e a Fraternidade.  Outro fator que apressou a carta foi a inesperada ocorrência da pandemia. No primeiro capítulo da encíclica, o papa lamenta que, salvo poucas exceções, nesta emergência sanitária, a humanidade demonstrou total incapacidade de atuar conjuntamente. Na maioria dos países o desmantelamento do sistema público de saúde foi responsável pela morte de muitas pessoas que teriam sido salvas, se o mundo tivesse outra forma de organização (Cf. n. 35).

Nesta semana, a Organização Mundial de Saúde publicou uma cifra que os meios de comunicação evitam mostrar. Conforme os dados oficiais, os Estados Unidos, com toda a sua riqueza, é o país no mundo com número maior de vítimas da Covid 19 (280 mil) e o Brasil ultrapassou a marca de 150 mil. Ao mesmo tempo, a China que tem dois bilhões e quatrocentos milhões de pessoas conta até agora cinco mil mortos. O Vietnam com cem milhões de habitantes chora 35 mortes e Cuba, cuja população é de 10 milhões, teve 153 vítimas fatais. Estes dados confirmam que, como o papa escreve em sua encíclica: a sociedade atual perdeu o sentido da História (n. 13), desenvolve novas formas de colonização cultural (n. 14) e gera situações cruéis e inusitadas de escravidão (n. 24).

No capítulo 2: “Um estranho no caminho”, o papa pede permissão aos leitores não cristãos para comentar a parábola evangélica do samaritano. Denuncia que a sociedade dominante exclui os diferentes e transforma o próximo em sócio (n. 102). E reafirma: “a mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para a humanidade” (n. 105). Convida todos os seres humanos a pensar e atuar como parte da humanidade, com senso comunitário. Mostra que, para lutar contra a pobreza, é preciso enfrentar suas causas estruturais. Declara que a propriedade individual é legítima, mas o bem coletivo deve estar acima do individual e toda propriedade deve ter uma função social (n. 116).

O capítulo V, “A melhor Política” mostra valores, mas também os limites das visões liberais (163- 164). Propõe uma reforma profunda da ONU que deve ampliar sua tarefa e se tornar família das nações ou verdadeira comunidade internacional (173). Pede que se resgate a dignidade da Política com P maiúsculo e que esta seja expressão do amor social (176- 177).

No capítulo 6 desenvolve uma pedagogia do Diálogo como forma de convivência e cita o nosso Vinícius de Moraes ao dizer que “a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida” (n. 215). O papa cita Vinícius, no “Samba da Bênção”, canção na qual Vinícius se apresenta como Capitão do Mato, pede a bênção à Mãe Menininha do Gantois e se apresenta como sendo o branco mais negro do Brasil.

O capítulo 7 trata de como tomar posição diante dos conflitos que são inevitáveis na vida. Defende o perdão como perspectiva, mas deixa claro que o perdão não substitui a justiça, nem supõe esquecimento (n. 246- 248). Condena a violência do Estado, sempre muito mais forte e cruel do que qualquer violência de grupos particulares (253). Rejeita radicalmente a guerra, a pena de morte e a prisão perpétua (n. 253). Pede que a humanidade constitua um Fundo Mundial para acabar com a Fome (263). No último capítulo (o VIII) dedica-se a mostrar como as Religiões devem se colocar a serviço da fraternidade no mundo. Deixa claro que “os textos religiosos clássicos de todas as tradições podem oferecer um significado para todas as épocas (n. 275). Insiste que as religiões devem se renovar através de dois cuidados ou perspectivas: concentrar-se no essencial e voltar às fontes da fé (n. 282).   

Mais uma vez, ao intensificar o diálogo com a humanidade na busca de saídas para a crise que vivemos, o papa sofre ataques. Intensificam-se contra Francisco hostilidades e oposições que, no passado recente, nenhum papa viveu. Os inimigos do papa vêm de dois setores: daqueles que, como Steve Banon, têm fortes interesses econômicos a salvaguardar e para isso usavam a religião e agora se sentem deslegitimados pelo papa. No entanto, a oposição mais violenta vem de um grupo de cardeais, bispos e padres da própria Igreja Católica. Estes se sentem ameaçados em suas ambições eclesiásticas e suas necessidades de poder e riqueza. Alguns afirmam claramente que esperam a mudança de papa para recolocar a Igreja no seu devido lugar. Independentemente dos inimigos que querem a sua morte, o papa continua a nos convidar: “Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos e filhas desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos e irmãs” Encíclica Fratelli Tutti, n. 8). 

 

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 7 de julho de 2020

POPULAÇÃO DA TERRA E CIDADANIA MUNDIAL

Por Marcelo Barros

 

Nesses últimos tempos, quem acompanha as notícias sobre o Brasil pode pensar que houve alguma transformação na orientação dos grandes meios de comunicação. Mesmo as grandes redes de televisão que sempre apoiaram a extrema-direita, agora criticam o presidente e dizem: Basta! De fato, o que acontece é que eles estão, astutamente, tentando descer do barco que eles mesmos patrocinaram e que, agora, afunda. Pronunciam-se contra o Bolsonero. No entanto, continuam, ardorosamente, a defender o ministro da Economia, responsável pelas medidas que, literalmente, levam milhões de pessoas ao risco de morrer, vítimas do descuido com a pandemia do Covid 19 e do vírus da miséria e da fome. E isso ocorre no Brasil, como em outros países, como mesmo no centro do Império norte-americano.

É neste contexto que, neste sábado, dia 11 de julho, anualmente, a ONU celebra “o dia da população mundial”. Esta data foi implementada em 1989, pelo Conselho do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, para chamar atenção para as questões relacionadas com a população mundial. O dia da população mundial deve nos ajudar a viver melhor em um planeta no qual, a cada ano, a população humana cresce e os bens da terra, como água, ar e alimentação, se mostram limitados, afetados pela ação humana e sob ameaça de se tornar insuficientes.

Atualmente, grande parte da humanidade concorda com o papa Francisco que que o desafio mais urgente para a população da Terra é sobreviver ao sistema capitalista. Em nome do deus dinheiro, esse modo de organizar as relações sociais e econômicas aprofunda as desigualdades sociais, provoca desemprego e destrói a natureza. Conforme dados recentes, cinco milionários brasileiros detêm uma riqueza equivalente à metade de toda a população brasileira (Carta Capital, 27/06/ 2018).

A humanidade precisa mudar a cultura com a qual se relaciona entre si e com o planeta que habita. Somente uma organização social que se preocupe com todos os seres humanos e busque a igualdade e a justiça é ecologicamente sustentável e socialmente justificável.

Hoje, a maioria das pessoas vive em cidades. Já se contam em milhares as metrópoles com mais de um milhão de habitantes. Já somam 23, as cidades com mais de dez milhões de habitantes. São Paulo já ultrapassou vinte milhões. Nessas sociedades, ao menos aparentemente, o ideal humano é a máxima liberdade de cada um e com o mínimo de orientação. O liberalismo é um regime econômico, mas é também cultural. Cada um faz o que quer e vive como quiser. Muitas pessoas optam pela cidade grande justamente por causa do anonimato. Ninguém se mete na vida de ninguém. Através da internet e do celular, estamos sempre mais juntos e ao mesmo tempo, cada vez mais sozinhos. Isso é tido como liberdade. Todos lamentam muito que haja fome e miséria no mundo, mas ninguém renuncia a nada para resolver este problema. De acordo com os cientistas, o planeta Terra teria todas as condições de alimentar e sustentar até onze bilhões de pessoas. No entanto, como dizia o Mahatma Gandhi: “O mundo tem o suficiente para saciar as necessidades de todos os seres humanos, mas não basta para a ganância e a ambição dos ricos”.

Nesse contexto, filósofos judeus como Emmanuel Mounier e Martin Buber, baseados na fé bíblica, insistiram no valor da alteridade. Propõem que se aprofunde a importância do outro. Devemos aceitar que dependemos uns dos outros e aprender a viver a partir do outro. Também as filosofias de povos africanos como o  Ubuntu dos zulus e o Bem-viver dos povos indígenas nos propõem outro estilo de convivência humana. De acordo com esses horizontes de vida, o bem-comum e a preocupação com o outro se tornam centro da vida e garantem a convivência baseada na justiça e na paz. Para consolidar a sustentabilidade do planeta, também os animais e a natureza precisam e merecem ser tratados com respeito e não apenas como mercadoria ou mero objeto para o uso humano. Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano, assassinado por Hittler na Alemanha nazista, afirmava: “O Cristo está em mim para você e está em você para mim. Em mim, ele é fraco para mim mesmo e é forte para você. Em você, ele é fraco para você e é forte para mim”. 

Para as comunidades cristãs, a palavra “participação social” é a que traduz o termo grego: Koinonia, que, nas Igrejas, se tornou “comunhão”. Criar a comunhão é um projeto divino. O termo Igreja foi inspirado nas assembleias de cidadãos do mundo grego antigo. Paulo trouxe o termo Igreja para as comunidades cristãs para educá-las à participação de todos e como um ensaio do que o Espírito Divino propõe para o mundo todo. Hoje isso se traduz por cidadania, direito e dever de todos/as. Paulo escreveu à comunidade cristã de Corinto: “Através de Jesus Cristo, Deus nos chamou à comunhão, ou seja à plena participação social” (1 Cor 1, 9).

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

 

 


terça-feira, 10 de setembro de 2019

CIDADANIA TRANSFORMADORA



Por Marcelo Barros

Pouca gente sabe que, etimológicamente, o termo Igreja (em grego ekklesia) é sinônimo do que hoje se chama cidadania. Nos primeiros séculos de nossa era, nas cidades de cultura grega, Igreja designava a assembleia de cidadãos que tinham poder de decisão. Quando Paulo chamou de Igrejas os grupos de discípulos e discípulas de Jesus, fez com que mulheres, crianças, pobres e até escravos/as que nunca tiveram direito à cidadania do Império, assumissem a condição de cidadãos da nova realidade que Deus prometia fazer vir ao mundo para transformar todas as estruturas da sociedade. Paulo escreve à comunidade cristã de Corinto: “Vejam, irmãos, no grupo de vocês, não existem muitos sábios, poderosos ou nobres, conforme o mundo. Pelo contrário, o que o mundo considera louco, fraco e desprezível, Deus escolheu para confundir os sábios e poderosos. Deus escolheu o que aos olhos do mundo não vale nada para confundir o que o mundo considera importante” (1 Cor 1, 26- 28).

Durante os primeiros três séculos, as Igrejas cristãs foram fieis a essa vocação. Eram ensaios de um mundo novo, mais humano e justo. Procuravam inspirar-se nas bem-aventuranças proclamadas por Jesus, anúncios de mudança de vida para os pobres, pequenos e pessoas que sofrem. A partir do século IV, o Cristianismo foi reconhecido como religião oficial do Império Romano e acabou por conviver com muitas estruturas injustas do mundo. Há mais de vinte anos,  o papa João Paulo II, em nome da Igreja Católica, pediu perdão aos índios e aos negros pela cumplicidade da hierarquia da Igreja Católica com a escravidão e a dominação imposta pelos colonizadores.

Nesses dias de setembro, as comunidades cristãs latino-americanas recordam os 51 anos da conferência episcopal de Medellín, na Colômbia, reunião que juntou bispos católicos de todo o continente. Essa reunião deu a nossas Igrejas locais um rosto próprio, inserido em nossas realidades. O documento de conclusões da assembleia de Medellín insistiu na presença e atuação dos cristãos e cristãs nos processos sociais e políticos para transformar a América Latina em um continente mais justo e igualitário. Em Medellín, a missão da Igreja foi definida como serviço para cuidar da promoção humana de cada pessoa e dos povos, a partir dos valores da justiça, paz, educação e família. Isso foi em 1968, quando muitos países do continente viviam sob forte ditadura militar, patrocinadas e garantidas pelo governo imperial dos Estados Unidos da América do Norte. Por causa de sua opção evangélica e transformadora, a Igreja Católica e outras Igrejas sofreram muito. Bispos, padres, religiosos/as e leigos/as, foram perseguidos, presos e torturados. Muitos homens e mulheres  deram a vida para testemunhar o projeto divino de justiça e amor a ser realizado no mundo. Esse testemunho do projeto divino na luta para transformar as estruturas de injustiça da sociedade custou o sangue de muitos mártires, tanto pessoas ligadas à fé e às Igrejas cristãs, como simplesmente pessoas que se consagravam à justiça e aos direitos humanos. Infelizmente, a partir dos anos 80, muitos pastores e grupos da Igreja Católica voltaram ao modelo de Igreja centrada em si mesma e ciosa do seu poder e prestígio social. Isso fez com que, em muitos ambientes de Igreja, a conferência de Medellín tenha sido esquecida e ignorada.

Atualmente, com a influência positiva do papa Francisco, comunidades católicas e de outras Igrejas cristãs têm consciência de que devem reler, atualizar e completar as intuições principais da conferência de Medellín, para participar ativa e positivamente dos processos sociais e políticos novos que vivem muitos de nossos países latino-americanos nesse momento social e político no qual o Império norte-americano conseguiu de novo hegemonia no nosso continente. Através de governantes servis e de uma elite que quer manter os seus privilégios, ou através de guerras híbridas, baseadas principalmente na difusão de notícias falsas e da manipulação desonesta da opinião pública, o Império tenta controlar novamente toda a América Latina.

A memória da conferência episcopal de Medellín e o modelo de Igreja que saiu desse evento precisa ser retomado e completado. O documento 5 das conclusões de Medellín continua muito atual quando propõe: “Devemos dar a nossas Igrejas na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida comprometida na libertação de cada ser humano e de toda a humanidade” (Medellín, 5, 15).   

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   

sexta-feira, 26 de julho de 2019

CIDADANIA, FLORESTANIA: A AMAZÔNIA, TITULAR DE DIREITOS



por Leonardo Boff

Fenômenos novos exigem palavras novas. Assim cidadania se deriva de cidade e florestania, de floresta. Esta nova palavra, florestania, foi criada no Estado do Acre, sob o governo de Jorge Viana, representando conceito novo de desenvolvimento e de cidadania no contexto da floresta amazônica.

O propósito é implementar a cidadania dos povos da floresta, dos indígenas, dos seringueiros e dos ribeirinhos que se traduz por investimentos públicos na educação, na saúde e nas formas de produção extrativista, tendo como referência maior a floresta e sua derivação a florestania.

Floresta e ser humano vivem um pacto sócio-ecológico includente, onde o ser humano se entende parte da floresta e a floresta passa a ser um novo cidadão, respeitado em sua integridade, biodiversidade, estabilidade e luxuriante beleza junto com os outros cidadãos humanos. Ambos são beneficiados – povo e floresta – pois abandona-se a lógica antropocêntirca e utilitarista da exploração e se assume a lógica ecocêntrica, da mutualidade que implica respeito mútuo e sinergia.

Esta compreensão abre espaço para um enriquecimento possível do conceito de cidadania a partir da reflexão ecológica mais avançada. Agora trata-se da florestania não só como cidadania na floresta mas como cidadania da floresta. A floresta é considerada, pois, como um novo cidadão.

A compreensão que subjaz a esta afirmação e que entrou nas constituições do Equador e da Bolívia, reside no fato de a natureza e a Terra serem a condição necessária para a vida. Esta somente existe porque é sustentada pelos fatores físico-químico-ecológicos terrestres sem os quais não haveria vida. Se a vida tem dignidade, fato aceito por todos, ela engloba também a dignidade dos elementos que a tornam possível sobre o planeta.

Ademais, a natureza e a Terra possuem valor em si mesmo, independente da existência humana, que irrompeu quase no final do processo cosmogênico. Tendo valor em si mesmo, Terra e natureza, devem ser respeitadas. O próprio ser humano há de se entender parte da natureza e da própria Terra, formando com elas uma grande e única entidade. Este é o o legado que os astronautas nos transmitiram de suas naves espaciais e da Lua: Terra, natureza e humanidade formam uma única e complexa entidade.

Nesta visão, mais e mais sustentada pela moderna biologia e cosmologia, a floresta como floresta, a natureza bem como a Terra são vistas como sujeitos e como cidadãos e como tais titulares de direitos.

Isso ficou mais claro quando a ONU numa sessão solene no dia 22 de abril de 2009 decidiu chamar a Terra de Mãe Terra, dando-lhe a ela o mesmo tratamento que devotamos às nossas mães: o respeito, o cuidado e a veneração.

Impõe-se, portanto, a ampliação da personalidade jurídica à floresta, aos ecossistemas e à Terra como Gaia. Bem disse o pensador Michel Serres: “A Declaração dos Direitos do Homem de 1789 teve o mérito de dizer ‘todos os homens têm direitos’ e o defeito de pensar ‘só os homens”. Os indígenas, os escravos e as mulheres tiverem que lutar para serem incluídos em ‘todos os homens”. E hoje esta luta inclui as florestas e outros seres da natureza também sujeitos de direitos e, por isso, novos membros da sociedade ampliada.

Por fim, há que se incluir a própria Terra, como Gaia, super-organismo vivo, no rol dos cidadãos. Ela seria aquela realidade cidadã que cria as condições para todos os outros tipos de seres, como seu valor intrínseco e sujeitos de cidadania.

As novas ciências, a astrofísica e a cosmologia nos asseguram que o universo não resulta da soma de todos os seres existentes e por existir, como se estivem justapostos uns aos outros. Todos eles se encontram inter-retro-conectados. O universo é o conjunto articulado das conexões de tudo com tudo em todos os pontos e momentos. Todos os seres não são apenas portadores de massa e de energia mas também de informação trocada, retrabalhada e estocada de um jeito singular e próprio a cada ser.

O fator relação e inter-dependência de todos com todos,o Papa Francisco em sua excepcional encíclica sobre ecologia integral “sobre o cuidado da Casa Comum”(2015) repetidas vezes enfatizou:”nenhuma criatura se basta a si mesma…tudo está interligado..tudo está relacionado”(nn.86, 118, 120).

Com efeito, depois de termos criado a ameaça de destruição da Terra-Gaia não podemos mais exclui-la do novo pacto social, como o fizeram Hobbes, Rousseau e Kant, no passado, e Habermas e Appel no presente. Estes davam e dão por descontado o futuro da Terra. Hoje não é mais assim. Devastada Gaia, não há mais base para nenhum tipo de cidadania e de direitos, pessoais, sociais e naturais. Se quisermos sobreviver juntos, a democracia tem de ser também biocracia e cosmocracia, numa palavra, uma democracia sócio-ecológica.

A partir disso admitem eminentes cientistas que o universo e cada ser são portadores de níveis diversificados de consciência e possuem algum tipo de subjetividade, fruto das inter-relaçãos que entretém entre todos. A diferença entre a subjetividade humana e aquela do universo ou das florestas ou de outros seres não é de princípio mas de grau.

Em nós, em grau altamente complexo e, por isso auto-consciente, no universo e na floresta amazônica num outro, menos complexo, mas igualmente com grau próprio de consciência e de subjetividade. Por isso a floresta interage, sente, sofre, se alegra, dá seus sinais, responde e nos dá lições, algumas sábias e outras duras. Mas mostra que ela quer ser escutada, atendida, respeitada e incluída no cuidado humano.

Se a florestania fôr assumida num sentido amplo como postulado aqui, enquanto cidadania na floresta e da floresta, assistiremos a algo inédito no mundo. Na região da maior biodiversidade do planeta, na floresta amazônica, se inaugurará um novo ensaio civilizatório, referência possível para as demais florestas tropicais da Terra, assumidas e respeitadas como cidadãos. E comprovar-se-á a realidade de um desenvolvimento não predatório, de um ser humano feito anjo bom da Terra e não o seu satã ameaçador.

O cuidado das pessoas, das sociedades, da natureza e da Casa Comum será a atitude mais adequada e imprescindível para a nova fase da história da humanidade e da própria Terra.

Leonardo Boff é eco-teólogo,filósofo e escritor e escreveu Saudade de Deus- A força dos pequenos, a sair pela Vozes.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

CIDADANIA E PROJETO DE REFUNDAÇÃO DO BRASIL



por Leonardo Boff

A cidadania posui várias dimensões: é político-participativa, é econômica-produtiva, é popular-includente, é con-cidadania, é ecológica, e por fim é terrenal.

No contexto atual de um regime de exceção que não respeita mas antes fere a cidadania de todo um povo, precisamos aprofundar este tema.

A cidadania é um processo inacabado e sempre aberto a novas aquisições de consciência dos direitos, de participação política e de solidariedade, como fundamento de uma sociedade humanizada. Só cidadãos ativos podem fundar uma sociedade democrática, como sistema aberto (democracia sem fim no dizer de Boaventura de Souza Santos) que se sente imperfeita mas ao mesmo tempo sempre perfectível. Por isso, o diálogo, a participação, a vivência da correção ética e a busca da transparência constituem suas virtudes maiores.

A cidadania se realiza dentro de uma sociedade concreta que elabora para si projetos, muitas vezes, conflitantes entre si, de construção de sua soberania e dos caminhos de inserção no processo maior de planetização. Todos eles querem dar uma resposta à pergunta: que Brasil, depois de mais 500 anos, finalmente, queremos? Ocorre que o atual golpe interferiu tanto na Constituição colocando limites aos gastos sociais que acaba por impossibilitar a criação de um Estado Social Democrático nacional. É um projeto contra a nação livre, contra o povo e seu future.

Fundamentalmente e simplificando uma realidade muito complexa, podemos dizer: há atualmente dois projetos antagônicos disputando a hegemonia: o projeto dos endinheirados, antigos e novos, articulados com as corporações transnacionais (e hoje sabemos apoiados pelo Pentágono) querem um Brasil menor do que realmente é, um Brasil de no máximo 120 milhões, pois assim, acreditam eles, daria para administrá-lo, em seu benefício, sem maiores preocupações. Os restantes milhões que se lasquem pois sempre tiveram que se acostumar a viver na necessidade e a sobreviver como podem. Bastam políticas pobres para acalmar os pobres.

O outro projeto quer construir um Brasil para todos, pujante, autônomo, ativo, altivo e soberano face às pressões das potências militaristas, técnica e economicamente poderosas que visam a estabelecer um império do tamanho do planeta e viver da rapinagem das riquezas dos outros países. Estes se associam com as elites nacionais que aceitam ser sócios menores e agregados ao projeto-mundo, a troco de vantagens que podem auferir economicamente. Querem recolonizar a América Latina particularmente o Brasil para serem apenas exportadores de commodities e desnacionalizando nossa infra-estrutura insdustrial (energia electrica,petroleo,terras nacionais etc).

Os dois golpes que conhecemos na fase republicana, o de 1964 e do 2016, foram tramados e dados em função da voracidade dos endinheirados, contra o povo e recusando construir um projeto de nação soberana que teria muito que contribuir nesta fase planetária da Humanidade. Eles não têm um projeto de Brasil, somente um projeto para si, para a sua acumulação absurdamente alta.

A correlação de forças é profundamente desigual e corre em função das elites opulentas que segundo Jessé Souza compram as demais elites. Elas conseguiram dar um golpe em Dilma Rousseff e tanto fizeram que com um processo judicial completamente viciado colocar na prisão o ex-presidente Lula que goza, de longe, das preferências eleitorais do povo.

Estas elites do atraso não têm nada a oferecer para os milhões de brasileiros que estão à margem do desenvolvimento humano, senão mais empobrecimento e discriminação.

Mas estas elites que nem esse título merecem, pois são apenas ricos sem nunca chegarem a ser elites (Belluzo), não são portadoras de esperança e, por isso, são condenadas a viver sob permanente ameaça e com medo de que, uma dia, esta situação possa se reverter e perderem sua situação de riqueza e de privilégios.

Eis a nossa esperança: de que o futuro acabe pertencendo aos humilhados e ofendidos de nossa história que, um dia – e ele chegará – herdarão as bondades que a Mãe Terra reservou para eles e para todos.

É utópico, mas representa o sonho de todas as culturas que, um dia, todos, alegres, se sentarão juntos à mesa, na grande comensalidade dos libertos, gozando dos frutos da generosidade da Mãe Terra. Então, olhando para trás compreenderão que valeu a resistência, a indignação contra os malfeitos e a coragem de mudar.

Só então começará uma nova história, da qual os resistentes e lutadores foram os principais protagonistas, daquilo que, no caso de nosso país, poderá ser a verdadeira refundação do Brasil.

Leonardo Boff é filosofo-teólogo e escreveu:Brasil: prolongar a dependência ou concluir a refundação? Vozes 2018.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

ÁGUA E ENERGIA, DIREITOS DA CIDADANIA


Por Frei Betto

       De 1 a 5 de outubro deste ano, o Movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB) realiza, no Rio, seu 8º. encontro nacional. O tema, “Água e energia com soberania, distribuição de riqueza e controle popular”.

       Do encontro participarão também a Plataforma Operária e Camponesa de Energia, Via Campesina, Frente Brasil Popular, Movimentos de Afetados por Represas (MAR) e entidades internacionais. O objetivo é formular as bases de um projeto energético popular.

       Países ricos, como EUA, China, Alemanha e Inglaterra, altamente dependentes de energia, possuem reservas insuficientes, o que os motiva a tentar controlar as reservas estratégicas de países periféricos. O Brasil é alvo prioritário por deter potencial energético de grande qualidade e quantidade, como o pré-sal e a hidroeletricidade.

       Há décadas, governo a governo, nosso país abre mão de sua soberania energética. Hoje, a indústria de produção e distribuição de energia se encontra em mãos do capital privado. Hidrelétricas, linhas de transmissão e distribuidoras pertencem ao capital transnacional, sendo a Petrobras uma exceção.

       Embora a maior parte da energia do Brasil seja fornecida por hidrelétricas, consideradas de baixo custo de produção, o brasileiro paga uma das contas de luz mais caras do mundo. Há, porém, grandes empresas consumidoras que têm tratamento especial. A Samarco, por exemplo, responsável pelo crime socioambiental de Mariana (e ainda impune), recebe energia a preço de custo, o que equivale a dez vezes menos do que paga uma família pelo consumo da mesma quantidade de quilowatts. E tudo isso é controlado pelo Estado, a serviço do grande capital, através da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), sem nenhuma participação popular.

       O apetite das empresas transnacionais por nosso potencial energético impõe ao governo afrouxar o licenciamento ambiental, permitir a construção de hidrelétricas em áreas indígenas e forçar o deslocamento predatório das populações ribeirinhas.

       A soberania energética do Brasil vem sendo substituída pelo conceito de “segurança energética”, ainda que se paguem valores exorbitantes às empresas controladoras. Os trabalhadores do setor são terceirizados e precarizados pela reforma trabalhista do governo Temer, e seus movimentos sofrem criminalização, enquanto a população arca com o aumento das tarifas, do gás de cozinha e dos combustíveis de veículos.

       O encontro nacional do MAB visa a reforçar a luta pela soberania energética do Brasil; pelo controle popular sobre o planejamento e execução do setor; e pela adequada destinação da riqueza por ele gerada, de modo a garantir os direitos dos atingidos por barragens e melhor qualidade de vida aos trabalhadores.

       Água e energia são bens essenciais à vida humana e planetária, e não podem ser consideradas meras mercadorias. Portanto, deveriam estar excluídos do direito de apropriação privada.

       Há que pressionar o governo para que os recursos do pré-sal sejam aplicados em saúde e educação, geração de empregos e garantia de direitos da cidadania.

Frei Betto é escritor, autor de “Ofício de escrever” (Anfiteatro), entre outros livros.


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terça-feira, 26 de agosto de 2014

A cidadania e a Reforma Política

por Marcelo Barros


 Pesquisa da Fundação Perseu Abramo constatou: a maioria da população brasileira (89%) é favorável a uma reforma política. As manifestações de junho de 2013 que reuniram nas ruas de nossas cidades mais de dois milhões de pessoas tinham como um dos objetivos expressar que o povo não se sente realmente representado pelo atual Congresso Nacional. Como, em artigo recente, afirmou Frei Betto: “Hoje, nós votamos e o poder econômico elege! O financiamento deveria ser com recursos públicos e contribuição de pessoa física no limite de R$ 700. No sistema atual, qualquer candidato pode ser financiado por empresas. Uma vez eleito, passa a defender interesses corporativos, e não da população.”  Diante dessa realidade, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reuniu mais de cem entidades da sociedade civil brasileira para propor uma iniciativa popular de Reforma Política. Ao mesmo tempo, os movimentos sociais reunidos propuseram um Plebiscito Popular para que todos os brasileiros que quiserem possam votar pedindo a Reforma Politica. A diferença entre as duas iniciativas é que a das entidades confia ao atual Congresso a tarefa de reformar a Constituição. Já os movimentos sociais pensam que será muito difícil os atuais congressistas, dos quais muitos (a maioria) são financiados pelas grandes empresas votarem contra eles mesmos e os seus interesses. Por isso, propõem que possamos eleger uma Assembleia Constituinte, Exclusiva e Soberana para fazer a Reforma Política.
Recentemente, a CNBB e as organizações que tinham proposto a Iniciativa Popular assinaram um documento no qual expressam que as duas propostas se completam. Por isso, apoiam também o Plebiscito Popular, a ser realizado do 01 a 07 de setembro próximo. Nessa próxima semana, todos os brasileiros poderão votar por um Brasil que se tornou independente dos impérios políticos e agora se tornará libertado de todo domínio econômico abusivo de empresas privadas. Essa proposta do Plebiscito é apartidária. Não está vinculada à campanha de nenhum candidato ou partido politico. Como nenhum dos grandes meios de comunicação colabora com esse instrumento de educação do nosso povo, esse mutirão de cidadania tem de ser preparado e organizado por todas as pessoas de boa vontade que desejam um pais mais igualitário.
Esse tempo final de preparação do Plebiscito Popular é um momento especial de compromisso de cidadania para as comunidades cristãs e para todos os que se sentem herdeiros de profetas como Dom Helder Camara, Dom Tomás Balduíno e de tantos outros irmãos e irmãs que nos ensinaram a unir fé e compromisso de justiça e libertação. Como herdeiros desses grandes profetas, temos de conscientizar nosso povo, informar as pessoas do que se trata e ajudar os movimentos sociais a colher votos e organizar a votação na semana da pátria. 

Em uma carta aos fiéis da sua arquidiocese, Dom Fernando Saburido, arcebispo de Recife, afirmava: “Há cristãos que ainda pensam que a fé possa ser desligada da realidade concreta. Se nos desinteressamos pelo processo político, corremos o risco de deixar a Política nas mãos dos que não buscam o interesse comum. Como afirmou o papa Francisco: “Apesar de se notar uma maior participação de muitos (cristãos) nos ministérios laicais, esse compromisso (de fé) não se reflete ainda suficientemente na penetração dos valores cristãos no mundo social, político e econômico. Limita-se muitas vezes às tarefas no seio da Igreja, sem um empenho real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade” (Evangelii Gaudium, n. 102)”. Como cristãos, devemos apoiar e participar dessas iniciativas que visam a transformação justa da sociedade e da organização do Estado. Como escreveu São Paulo: “Estejam atentos para a maneira como vocês vivem. Não sejam ingênuos, mas pessoas sensatas. Aproveitem bem o tempo, porque esses dias são maus... (Em meio a essa realidade), procurem compreender a vontade do Senhor” (Ef 5, 15 e 17).   
      Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  

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terça-feira, 1 de abril de 2014

Democracia e cidadania




Por Marcelo Barros


 Há 50 anos do golpe militar de 1964, os meios de comunicação noticiam que, nesses dias, em São Paulo e outras cidades, grupos de direita mobilizam pessoas para uma nova “Marcha da Família com Deus pela liberdade”. Essa iniciativa reedita marchas que aconteceram em 1964 para apoiar o golpe ocorrido no 1º de abril. Nessas marchas, as pessoas expressam o desejo de que os militares intervenham para “salvar” o Brasil da corrupção e de  outros problemas que veem na situação atual do país. 

Em um regime democrático, é o direito dos cidadãos se expressarem livremente. As marchas ocorridas no dia 22 e outras que se fizeram não encontram apoio na maioria da população. É diferente de 1964 quando essas marchas, com apoio do empresariado, da classe média e mesmo da maioria do clero católico, reuniram mais de um milhão de pessoas. Hoje, poucos brasileiros apoiariam um retrocesso social e político aos tempos da ditadura. 

Nesses 50 anos, o Brasil mudou. Atualmente, em todo o país, ao menos em grandes setores da sociedade, existe uma consciência clara: não é pelo autoritarismo e pela imposição que conseguiremos mudar nada para melhor. Todas as renovações devem ser construídas a partir das bases e com a participação cidadã de todos. Na história do mundo, nenhuma ditadura perdurou. Além de terem sido transitórias, nenhuma deixou saldo positivo. Se temos problemas a resolver, a solução deve vir dos movimentos sociais organizados e das representações do povo consciente. Nesse ano de 2014, os movimentos sociais começam uma campanha para colher o milhão de assinaturas necessárias para que se possa pedir a instauração de uma Assembleia Nacional Constituinte para refazer nossa Constituição e atualizar uma ampla reforma política. Essa reforma será um passo para frente e não para retroceder aos tempos da ditadura. 

Naquele tempo, o fantasma do Comunismo era usado pelos agentes do império para assustar e ameaçar as pessoas menos informadas. Mesmo setores da hierarquia católica participaram daquele movimento. Hoje, os bispos não têm mais a mesma influência social que tinham naquele tempo. Hoje, o país é religiosamente mais plural. E a maioria dos religiosos sabe: o verdadeiro risco para o Brasil não é o socialismo e sim continuar vassalo do império que promoveu econômica e militarmente o golpe de 64 no Brasil e em diversos países do continente. É o mesmo império que, em nome da democracia, continua até agora a fomentar golpes e violências em vários países da América Latina. 

As marchas que ocorrem nesses dias podem levantar a bandeira da defesa da família de classe média, isolada em si mesma e mergulhada no afã do consumismo, mas não tem como, legitimamente, usar o nome de Deus. Ele nada tem a ver com uma elite que, pelo grito ou pela força, pretenda perpetuar as desigualdades sociais. 

 Hoje, a maioria do povo brasileiro rememora, mas não comemora o aniversário do golpe de 64. O objetivo dessa memória dolorosa é lembrar o que o povo sofreu e evitar que aquela tragédia se repita. A Comissão da Verdade do Ministério da Justiça tem documentos sobre quase 500 pessoas desaparecidas e assassinadas pela ditadura militar daqueles anos e sobre milhares de pessoas presas e perseguidas. Durante 21 anos, o Brasil se viu despojado e mesmo proibido de ter lideranças políticas. Toda manifestação pública de caráter livre era reprimida. Atualmente, certos setores de direita se manifestam contra a corrupção como se ela só existisse agora. Nem se pode dizer que, atualmente, seja  mais espalhada. A diferença é que agora tudo é escancarado. Podemos saber de tudo o que se passa. Na época da ditadura, a boca pequena, falava-se de desvios econômicos em obras como Itaipu, Ponte Rio Niterói e outras, mas nenhum órgão de imprensa podia noticiar. Havia boatos sobre golpes econômicos que envolviam primeiras damas, mas, todos faziam de conta que não sabiam de nada. 

 Quem vive a fé cristã sabe que o projeto divino é o reino de Deus, ou seja, o projeto divino de um mundo justo e de paz. Para a realização desse projeto, todos os filhos e filhas de Deus devem ser considerados cidadãos/ãs. Por isso, mesmo com falhas, a democracia é mais próxima desse projeto divino do que qualquer regime autoritário.