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terça-feira, 5 de março de 2013

Resgate da memória do Espírito Santo




Por LEONARDO BOFF

Num artigo anterior nos esforçamos por resgatar a dimensão do “espírito” vastamente afogada na cultura consumista e materialista da modernidade. Agora queremos resgatar a figura do Espírito Santo, sempre colocada à margem ou esquecida na Igreja latina. Como é uma Igreja de poder, convive mal com o carisma, próprio do Espírito Santo. Ele é a fantasia de Deus e o motor das transformações, tudo o que a velha instituição hierárquica não deseja. Mas Ele está voltando.
     O Concílo Vaticano II afirma enfaticamente:”O Espírito de Deus dirige o curso da história com providência admirável, renova a face da Terra e está presente na evolução”(Gaudium et Spes,  26/281). Ele está sempre em ação. Mas aparece mais intensamente quando ocorrem rupturas instauradoras do novo. Quatro rupturas, próximas a nós, merecem ser mencionadas: a realização do Concílio Ecumênico do Vaticano Ii (1962-1965); a Conferência Episcopal dos bispos latino-americanos em Medellin (1969); o surgimento da Igreja da libertação; e a Renovação Carismática Católica.
      Pelo Vaticano II (1962-1965)  a Igreja acertou seu passo com o mundo moderno e com suas liberdades. Especialmente estabeleceu um diálogo com a tecno-ciência, com o mundo do trabalho, com a secularização, com o ecumenismo, com as religiões  e com os direitos  humanos. O Espírito rejuvenesceu com ar novo a crepuscular instituição eclesiástica.
     Em Medellin (1968) acertou o passo com o sub-mundo da pobreza e da miséria que caracterizava e ainda caracteriza o continentente latino-americano. Na força do Espírito, os pastores latinoamericanos fizeram uma opção pelos pobres e contra a pobreza e decidiram implementar uma prática pastoral que fosse de libertação integral: libertação não apenas de nossos pecados pessoais e coletivos, mas libertação do pecado da opressão, do empobrecimento das massas, da discriminação dos povos originários, do desprezo pelos afrodescententes e do pecado da dominação patriarcal dos homens sobre as mulheres desde o neolítico.
     Desta prática nasceu a Igreja da libertação, a terceira irrupção. Ela mostra seu rosto pela apropriação da leitura da Bíblia pelo povo, por um novo modo de ser Igreja mediante  as comunidades eclesiais de base, as várias pastorais sociais (dos indígenas, dos afrodescentes,  da terra, da saúde, das crianças e outras) e de sua correspondente reflexão que é  a teologia da libertação. Esta Igreja da libertação criou cristãos engajados politicamente do lado dos oprimidos e contra as ditaduras militares, sofrendo perseguições, prisões, torturas e assassinatos. Talvez é uma das poucas Igrejas que pode contar com tantos mártires como a Irmã Doroty Stang e até bispos como Angelleli na Argentina e Oscar Arnulfo Romero em El Salvador.
      A quarta irrupção  foi o surgimento da Renovação Carismática Católica a partir de 1967 nos USA e na América Latina  a partir dos anos 70 do século XX. Ela trouxe de volta a centralidade da oração, da espiritualidade, da vivência dos carismas. Criaram-se comunidades de oração, de cultivo dos dons do Espírito Santo e de assistência aos pobres e doentes. Esta renovação ajudou a superar  a rigidez da organização eclesiástica, a frieza das doutrinas e rompeu com o monopólio da palavra detida pelo clero, abrindo espaço para a voz  livre dos fiéis.
      Estes quatro eventos só são bem avaliados teologicamente quando os colocarmos sob a ótica do Espírito Santo. Ele sempre irrompe na história e de forma inovadora na Igreja que então se faz geradora de esperança e de alegria de viver a fé. É o que esperamos agora com a eleição do  novo Papa. Que os cardeais deixem as disputas internas para criar espaço para o Espírito poder inspirar um nome de coragem e determinação para pôr fim aos escândalos de natureza sexual e financeira que desmoralizaram tão profundamente a hierarquia e envergonharam os fiéis.
     Hoje vivemos talvez a maior crise da história da   humanidade. É um tempo invernal. Ela é a crise maior porque pode ser terminal. Com efeito, nos demos os instrumentos da auto-destruição. Construímos uma  máquina de morte que pode nos matar a todos e liquidar toda a nossa civilização, tão custosamente construída em milhares e milhares de anos de trabalho criativo. E junto conosco poderá perecer grande parte da biodiversidade. Se essa tragédia ocorrer, a Terra continuará sua trajetória, coberta de cadáveres, devastada e empobrecida,  mas sem nós.
     Por esta razão, dizemos que com nossa tecnologia de morte inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno. Quer dizer, o ser humano está se mostrando como o grande meteoro rasante ameaçador da vida. Ele pode preferir a autodestruição de si mesmo e a danificação perversa da Terra viva, de Gaia, do que mudar de estilo de vida, de relação para com a  natureza e  com a Mãe Terra.  Como outrora na Palestina, judeus preferiam Barrabás a Jesus. Os  atuais inimigos da vida poderão preferir  Herodes às crianças inocentes. Mostrar-se-ão de fato o Satã da Terra ao invés de serem o Anjo da Guarda da criação.
     É nesse momento que invocamos, implorados e gritamos a oração litúrgica da festa de Penetcostes: “Veni, Sancte Spiritus, et emite coelitus, lucis tuae radium”: “vem Espírito Santo, envia do céu um raio de tua luz”.
     Sem a volta do Espírito, corremos o risco de que a crise deixe de ser chance de acrisolamento e degenere numa tragédia sem retorno. Nas comunidades eclesiais se canta: “Vem, Espírito Santo e renova a face da Terra”.

segunda-feira, 4 de março de 2013

CINEMANIA - 21 Jump Street (2012) - Anjos da Lei



por ROSSANA MENEZES

Diretores: Phil Lord, Chris Miller
Roteiristas: Michael Bacall (screenplay), Michael Bacall (story)
Elenco: Jonah Hill, Channing Tatum, Ice Cube | See full cast and crew


Alguém aqui lembra do seriado que passava na Rede Globo na década de 80 e que  lançou Johnny Depp ao sucesso? 
     Pois é, 21 Jump Street é uma homenagem à essa série de mesmo nome. Eu confesso que não lembro muito bem do enredo... eu lembro que tinha uns adolescentes metidos a justiceiros... mas se era uma série de comédia ou estava mais pra um policial, eu sinceramente não me recordo. Eu sei que fazia muito tempo que eu não chorava de rir vendo um filme. 
     Os personagens Schmidt (Hill) e Jenko (Channing Tatum), estudaram juntos na Highschool. Um era o gostosão burro e o outro era o looser cdf. Muitos anos depois eles se encontram na academia de polícia e sao designados para a sua primeira missão: Voltar à escola para desmembrar uma gangue que estava fabricando e comercializando uma nova droga. 


     O filme é recheado de piadas dos mais variados tipos. Das mais leves às mais pesadas sem perder o prumo. Não é uma daquelas comédias idiotas estilo American Pie, mas não é uma comédia pra você ver com a sua avó. É aquele estilo de comédia meio surreal, onde algumas cenas são exatamente NADA do que você espera. Não que o filme seja inovador. Longe disso. Mas quem já viu Hang Over (Se beber não case) sabe do que eu estou falando. 
     Um dos pontos mais interessantes do filme é a forma como eles abordam a mudança na organização social dentro das escolas hoje em dia. Se antes ser cool era jogar no time de Football, ter um carrão e praticar bullying com os mais fracos, hoje legal é ser green, sustentável e estudioso. E isso deixa os policiais totalmente perdidos.

Enfim, pra quem tá afim de uma boa comédia, sem muita censura, vale a pena conferir. 

A renúncia do Papa



 Por ASSUERO GOMES

Ratzinger me surpreende mais uma vez. Confesso que quando da sua escolha para suceder João Paulo II uma decepção e um desânimo tomou conta do espírito de uma parte de cristãos católicos que almejavam uma Igreja mais progressista nos moldes e orientações do Concílio Vaticano II.
     Surpreendeu-me, como já tive oportunidade de expressar em outro artigo, a maneira como ele conseguiu ouvir opiniões de outras vozes antes de tomar algumas decisões. A grande vantagem de Bento XVI é que ele é um teólogo. A diferença de quem estuda e reflete honestamente é saber de suas próprias limitações. Ratzinger jamais foi um messiânico, justiça se faça. Ele permitiu que o lado obscuro e sujo da Igreja viesse à tona, especificamente a questão da pedofilia e a financeira.
     Um breve papado de oito anos, mas que mergulhou profundamente na história. O segundo papa que renuncia de livre e espontânea vontade, em dois mil anos.
     Certamente a mídia vai expor à exaustão a sua renúncia, elucubrações sobre o assunto vão ocupar a mente de milhares e milhares de pessoas, outra dezena de livros de ficção e conspirações vai ser editada e vai fazer a fortuna de alguns. As causas da renúncia vão ser pesquisadas e aventadas com mil e uma possibilidades: doença, política interna, política externa, etc... Dificuldades de ordem teológica e administrativa vão ser levantadas.
     O Papa renunciando continua infalível? O sucessor tomando uma atitude ou emitindo um decreto ou um ensinamento diferente de Bento XVI, a quem os católicos deverão seguir? Deixando de ser Papa a assistência do Espírito Santo recairá sobre o próximo automaticamente? Ele deixa de ser o administrador da Igreja e chefe de Estado, mas continua iluminado? Será o que, depois da abdicação: um bispo, um cardeal, ocupará um cargo especial, um Papa honorário?
     Questionamentos de ordem teológica, filosófica e prática serão inúmeros, mas a Igreja com sua sabedoria saberá conduzir-se através dos caminhos da humanidade, de maneira lenta, dando respostas atrasadas a perguntas urgentes, respondendo rapidamente a perguntas sem respostas, criando perguntas sem ter as respostas, com suas falhas, seus pecados, suas virtudes, erros e acertos, mas caminhando, completando no próprio corpo as chagas do Cristo, que misteriosamente continua amando-a.
     Bento XVI fez um movimento incomensurável e de inquestionável amplitude, que vai repercutir na história da Igreja e, portanto na história da humanidade.
     A sensação que me passa, decorridos alguns dias, é a de um profeta que vendo os que deveriam ser pastores do povo, imersos num turbilhão de situações conflituosas com a vontade de Deus, faz um último, solene, surpreendente, tranquilo, consciente e único gesto profético, como ator definitivo de uma cena definitiva, retirando-se para se manter radicalmente inserido, protagonista e eloquente no silêncio de quem não comunga com a realidade na qual a instituição está mergulhada. 
     Ratzinger me surpreendeu, como surpreendeu a um quarto da população mundial. Mergulhou na sua própria humanidade, um mergulho profundo e sereno, como daqueles que vislumbrando a imensidão do mar se questionam da sua própria imagem refletida numa pequena poça no seu banheiro ou espelho de barbear, e se apaixonando pelo mar mergulham despidos de si próprios.
     Bento XVI mostrou que a infalibilidade do Papa é possível, pois está inserida na sua falibilidade humana.

Assuero Gomes
Cristão católico leigo da arquidiocese de Olinda e Recife

sábado, 2 de março de 2013

A Igreja: Mistério de Fé




Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER

     Os últimos dias fizeram com que os olhos do mundo se voltassem com  curiosidade e interesse para a Igreja Católica.  O agente detonador de  todo este movimento foi, sem dúvida, a inesperada renúncia do Papa Bento XVI.   Mas parece-me que ao fundo está outro fator que convém trazer à baila,  examinar e refletir: o lugar dessa instituição de 2000 anos em uma sociedade  secularizada, plural e libertária como é hoje a parte ocidental do  mundo.
     Não é a primeira vez que a Igreja – e muito concretamente a  Igreja Católica – passa por uma grave crise.  Diria até que aquela que  agora atravessamos não é das piores.  Senão lembremo-nos da primeira  contenda entre Pedro e Paulo, da qual o Novo Testamento dá notícia e que  poderia ter dividido a Igreja para sempre.  E além dela, a crise ariana  em torno da divindade de Jesus.  E mais perto de nós a que resultou na  Reforma Protestante com simonia e outros desmandos.  Crises, portanto,  não são novidade para essa Igreja que a todas sobreviveu.
     Desde uma  perspectiva  de fé, a análise que se possa fazer do atual momento que  vive a Igreja é necessariamente diferente de outras análises, mais  sociológicas, políticas etc.  O olhar da fé não quer ignorar ou excluir  esses outros olhares.  No entanto, sob pena de desvirtuar-se totalmente e  não fazer ressoar de forma adequada a palavra diferenciada que deseja  pronunciar, não pode deixar de lado o que lhe é próprio e específico.
     Em uma perspectiva de fé, a Igreja é antes de tudo um mistério.   A ecclesia neotestamentária não consiste apenas em um grupo que se reúne com regras próprias e interesses comuns.  É muito mais que isto.   Ou talvez radicalmente diferente disto.  Trata-se da assembleia dos  que crêem em Jesus Cristo e no Deus por ele revelado.  A fé neste evento  histórico-teologal mudou suas vidas e eles e elas desejam agora entrar em um  novo modo de vida: o modo de vida crístico que é essencialmente comunitário. A  comunidade dos que assim querem viver é então a Igreja.
     Santa e  pecadora é essa Igreja que desde o primeiro momento se autocompreendeu, em  palavras do apóstolo Paulo, como esposa de Cristo.  Nela, o que é humano,  contingente, pecador, sempre existiu e é iniludível.  Composta de seres  humanos e frágeis, muitas vezes se viu a comunidade sacudida e erodida pelo  mal que se expressou em lutas de poder, invejas, alianças espúrias etc. Porém,  sempre dessas crises se levantou e cresceu, porque seu fundo mais profundo é a  santidade de Cristo que é sua cabeça; é o Vento Santo do Espírito que a  preside e conduz, e não permite que nada prevaleça contra ela.
     O mesmo  Paulo que usava expressões tão elevadas para se referir à Igreja que amava  tinha consciência do pecado presente em seu seio.  E vemos repetidas  vezes o apóstolo usar expressões duras para repreender os fiéis que  considerava filhos – “filhinhos” ternamente amados – e que não hesitava em  chamar de “santos” quando os percebia vítimas dos enganos e das falácias do  pecado que os dividia e conspurcava.
     Os escândalos que hoje  presenciamos ferindo a face da Igreja  e que explodiram e ganharam  visibilidade no pontificado que ora termina com Bento XVI, não são novos,  portanto.  Porque as paixões e os vícios desde sempre convivem neste  abismo de transcendência e finitude que é o ser humano.  O desalento e  sofrimento de Bento XVI diante de certas situações eclesiais hodiernas,   conclamando a Igreja à conversão no início da Quaresma, foram também os  de muitos líderes eclesiais em todos os níveis e segmentos eclesiais ao longo  desta história de mais de dois milênios.
     A verdade tem que ser  assumida e olhada de frente, por mais dolorosa e vergonhosa que seja.   Pois sem reconhecê-la e assumi-la, a conversão não se dará.  No  entanto, reconhecer  os pecados da Igreja implica assumi-los como nossos.  E assmi-los na fé.  Fé que nos diz que não se trata apenas de uma  instituição civil ou de uma grandeza sociológica essa que está no epicentro de  tantos conflitos.  Mas trata-se de uma comunidade de fé.  E assim  sendo, apesar de ter e dever reconhecer todas as fragilidades próprias à  humana condição de seus membros, é mistério que faz encontrar o brilho da  santidade e do amor mesmo em meio às mais escuras e densas noites.
     Só  com esta atitude a Igreja poderá realizar as mudanças que deseja e que são  urgentes e necessárias.  Santa e pecadora, humana e divina, mistério de  fé, ela procurará então, uma vez mais, voltar-se para o norte que a orienta e  segui-lo com fidelidade e esperança. A comoção que provocou a renúncia do Papa  é sinal de que mesmo com um papel diferente, mesmo em um mundo secularizado, a  comunidade dos que guardam o testemunho de Jesus e creem no Deus que Ele chama  de Pai ainda tem algo a dizer nestes tempos tão conturbados que são os nossos.
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do  Departamento de Teologia da PUC-Rio e escritora. É autora de “Crônicas de cá e de lá” (editora Subiaco), que  pode ser  encomendado diretamente à escritora pelo e-mail –  agape@puc-rio.br – R$ 20,00

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