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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Um lírio que floriu no arame farpado



Por Maria Clara Bingemer                                                     

            O mundo celebrou discretamente uma data importante em termos de reafirmação da fé na espécie humana.  Há ocasiões em que é possível constatar a identidade deste ser que tem tantas coisas semelhantes a qualquer dos mamíferos, mas a quem foi dado um dom único por parte do Criador: a alma, o espírito.  Por isso, mesmo em meio ao mais absurdo horror, o ser humano – embora seja capaz das mais atrozes crueldades – pode fazer gestos e ter atitudes de uma nobreza que cala as palavras e nos leva a curvar a cabeça em reverente silêncio.

            É este o caso de Etty (Esther Hillesum), cujo centenário ocorreu em 15 de janeiro último.  Nascida em 15 de janeiro de 1914 em Deventer, Holanda, filha de um professor de línguas clássicas e de uma judia russa que quando terminou a escola instalou-se em Amsterdam, na casa de um viúvo aposentado, seu patrão e que se tornou também amante.  Mulher extremamente atraente por sua inteligência, personalidade e profundidade de espírito, Etty exercia grande fascínio sobre os homens e, além do velho Hans, teve muitos outros namorados.
            Foi em Amsterdam que conheceu o amor de sua vida, o psicólogo discípulo de Jung, Julius Zíper, que sendo judeu como ela e homem de fé, abriu-lhe as portas dos caminhos da oração.  Etty Hillesum começou a rezar, a falar com Deus, e em pouco tempo havia mergulhado tão fundo na experiência espiritual que começou a receber graças místicas das quais se tem notícia na história das religiões apenas com relação a pessoas muito especiais.

            A bela experiência de amor por Spier e por Deus começou a desenvolver-se em meio às restrições crescentes impostas aos judeus pelos nazistas na Holanda. Após um tempo relativamente breve, Etty decidiu apresentar-se voluntariamente no campo de Westerbork como assistente social. Seus diários indicam que estava convencida de só poder ser fiel a si mesma se não abandonasse os que se encontravam em perigo e se usasse sua energia para trazer vida às vidas dos outros; ser um bálsamo para as feridas deles.  O futuro bem próximo mostraria que ela não seria eximida da sorte de seu povo.          

            Chegou a Westerbork justamente no momento em que  as deportações para Auschwitz estavam começando.  Para mais de cem mil judeus, Westerbork era a última parada antes de Auschwitz.  Entre agosto de 1942 e setembro de 1943, Etty Hillesum empregou seu tempo mantendo seu diário, escrevendo cartas e cuidando dos doentes no hospital do campo. Sendo, enfim, “o coração pensante das barracas do campo”.

            Na medida em que a vida de Etty Hillesum se revela e manifesta, pode-se testemunhar o processo de gradual superação da inclinação de encontrar consolo e alívio em ilusões, fantasias, na direção de ideais ou verdades eternas através da mediação da mais dura realidade.  Ela se dá uma e outra vez ao real, ao fato, àquilo que é concreto e particular: pessoas individuais, encontros, eventos.  Ela gradualmente aceita sua situação extremamente limitada na vida e assim fazendo a transforma.  Esta progressiva auto aceitação ocorre a um grau tal que ela realiza e aceita a habitação da divindade em seu interior.  Ela olha a vida de frente e reconhece que se deve aceitar as coisas como elas são.
            Mas ao mesmo tempo recusa-se a deter-se na tristeza e desânimo consigo própria e os outros. Seus olhos pousaram naqueles que personificariam a destruição de si mesma e de seu povo, e com aguda inteligência descreve sua covardia e temeridade mascaradas de bravura e poder.  Com o olhar iluminado pela Verdade contemplada, vê diretamente através do autoengano pelo qual foram cegados os carrascos do povo de Israel. São os próprios nazistas que estão presos pelas cercas de arame farpado.  Não seus prisioneiros.

                 No dia 30 de novembro de 1943, o bálsamo que era a vida de Etty Hillesum foi derramado nas câmaras de gás e fornos crematórios de Auschwitz em solidariedade com seu próprio povo, e com milhões de outros seres humanos. Ela compreende que Deus não é responsável diante de nós pelos eventos históricos.  Nós somos responsáveis diante de Deus pelas maneiras pelas quais traímos o dom divino e sua presença.  Seu “insight” mais significativo pertence à vulnerabilidade da vida divina e é o pino da dobradiça que mantém juntas as várias ambiguidades e paradoxos de sua vida interrompida. 

      Esta mulher judia jovem, inteligente, bonita e brilhante é capaz de fazer a passagem dos prazeres imediatos da vida aos maiores sacrifícios por causa do amor e da solidariedade que sentia para com seu povo.  E fazer isto com alegria, gratidão e uma profunda e espiritual consciência, sem o menor laivo de amargura, capaz de ver beleza na desolação mortal do campo, indo para Auschwitz cantando com sua família e apreciando em meio ao horror do campo os elementos da natureza, a água que corre, o aroma das flores.  E sentir-se rica e agraciada, mesmo sendo obrigada a enfrentar e suportar uma morte certa e injusta.

Já em seus últimos escritos, lemos o que Etty escreve, resumindo seus sentimentos em tão grave e definitivo momento: «Gostaria muito de viver como os lírios do campo. Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo».

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco.
            
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

João Batista Libânio, teólogo (1932 – 2014)



Por Frei Betto


     Éramos primos. Ele jesuíta; eu, dominicano. Dotado de inteligência brilhante, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, falava espanhol, inglês, alemão, francês, latim e grego. Formou-se em neolatinas pela PUC-Rio.

     Estudou também em Frankfurt. Na Alemanha, foi aluno do celebre teólogo Karl Rahner. Especializou-se em teologia dogmática.

     Suas pregações eram acentuadamente bem humoradas e, no trato pessoal, surpreendia pela tiradas irônicas pinceladas de citações clássicas, muitas delas em alemão.

     Durante o Concílio Vaticano II, dirigiu, em Roma, o Colégio Pio Brasileiro, destinado a seminaristas do Brasil.  

     Em 1969, ao me ver perseguido pela ditadura, acolheu-me no Seminário Cristo Rei, em São Leopoldo (RS), onde ministrava teologia.

     Em 1974, ingressou no Grupo Emaús, esteio da teologia da libertação no Brasil. Duas vezes por ano nos reunimos em um fim de semana. Libanio jamais faltava. Era, de fato, o coordenador do grupo. Acolhia-nos na casa de retiro dos jesuítas em Corrêas (RJ) e anotava todos os assuntos debatidos  em cada reunião. Em abril próximo seria peça-chave nas comemorações dos 40 anos do Grupo Emaús.

     Embora erudito, tinha uma radical opção pelos mais pobres. Morava em Venda Nova, na Grande Belo Horizonte, e dava aulas no seminário dos jesuítas. Aos fins de semana celebrava em uma paróquia rural de Vespasiano (MG).
     Escritor talentoso, publicou 125 livros, dos quais 36 de autoria própria. Assessorou importantes reuniões de bispos e cardeais, do Sínodo dos Bispos, em Roma, às assembleias da CNBB. Foi um dos principais animadores das Comunidades Eclesiais de Base no Brasil e na América Latina.

     Nos últimos anos, recusava a maioria dos convites recebidos para dar palestras e prestar assessorias. Preferia ficar em casa para orar, ler e escrever.

     Disciplinado, andarilho, nadava quase todos os dias. Durante o retiro que pregava para as Irmãs de Sion, em Curitiba, dedicadas à pastoral popular, sofreu um infarto fulminante na manhã de quinta-feira, 30 de janeiro. Transvivenciou aos 82 anos.

     Agora a luz de sua profunda fé cristã desnudou-lhe todo o Mistério.

 Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

São Sepé, rogai por nós



Por Marcelo Barros


Apesar de não constar no rol oficial dos santos da Igreja, desde o século XVIII, o povo do Rio Grande do Sul canonizou Sepé Tiarajú, cacique guarani. Em 1756, esse índio deu a vida por seu povo e para que a terra pudesse ser comum a todos. Em reconhecimento do seu martírio, o povo da região deu o nome de São Sepé a uma cidade da região central do Rio Grande do Sul. Em 2009, um decreto do presidente da República inscreveu o nome de Sepé Tiaraju no Livro dos Heróis da Pátria.

A história conta que, até 1756, toda a região compreendida pelos atuais estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul pertencia à Espanha. Ali os jesuítas acolhiam os índios Guarani para impedir que fossem caçados e escravizados pelos brancos. Os jesuítas batizavam os índios para torna-los cidadãos do império e assim protegê-los da escravidão. Ali viviam mais de um milhão de Guarani. A língua do território era indígena e o poder era exercido comunitariamente. As missões obedeciam a um modelo de Cristandade conquistadora. Eram colonialistas porque, de certa forma, obrigavam os índios a viverem como cristãos brancos. Entretanto, apesar disso, nas aldeias dos sete povos, os índios reproduziam muito de sua cultura. Falavam seu idioma nativo e desenvolviam artes como arquitetura e música, na qual eram exímios artistas. Voltaire, intelectual francês do século XVIII, inimigo jurado da Igreja e principalmente dos jesuítas, escreveu: “A experiência das missões Guarani representa um verdadeiro triunfo da humanidade e uma das mais belas experiências sociais já realizadas” (Cf. Clovis Lugon, A República cristã comunista dos Guaranis, Paz e Terra, 1968).

Como a experiência comunitária dos Sete Povos da Missão era uma ameaça para a ambição dos impérios europeus, os reis de Portugal e Espanha se aliaram e assinaram o Tratado de Madri (1750). Através desse acordo, o rei de Portugal deu de presente à Espanha a Colônia do Sacramento, atual Uruguai e recebeu do rei espanhol o território dos Sete Povos da Missão. No entanto, o tratado exigia que os jesuítas fossem expulsos da região e as aldeias da missão destruídas. Os índios se negaram a abandonar suas terras, suas lavouras e um gado estimado em dois milhões de cabeça. As aldeias construídas como verdadeiras cidades, com Igreja, praça, padaria, salão de música e escola eram mais adiantadas do que muitas cidades europeias da época. O cacique Sepé Tiaraju comandou a resistência dos índios contra os dois exércitos imperiais reunidos. Ele dizia: “Esta terra, nós a recebemos de Deus e não podemos deixá-la”. Sepé tombou em combate no dia 07 de fevereiro de 1756 em Batovi, hoje São Gabriel (RS). Três dias depois, em Caiboaté, os exércitos de Portugal e Espanha trucidaram os últimos índios e obrigaram crianças e mulheres sobreviventes a atravessar o rio Uruguai e se dispersar pelas florestas e campos sem fim. 

Apesar de que os acontecimentos da vida de São Sepé e das missões dos sete povos fazem mais de 250 anos, alguns fatos de hoje parecem lembrar aquela tragédia, mostrada no filme “A Missão” de Roland Joffé, em 1986.  Ainda hoje, a maioria dos povos indígenas no Brasil não tem garantida a demarcação de suas terras e o respeito à autonomia de suas culturas. No Brasil de hoje, o agronegócio da soja e os grandes projetos de hidroelétricas e estradas que invadem os territórios indígenas, além dos grandes prejuízos que causam à natureza, expulsam comunidades indígenas e ameaçam a própria existência dos povos indígenas, tanto na Amazônia, como no Pará, Mato Grosso do Sul e em todo o Brasil. Nesse contexto, retomar nesses dias a memória de São Sepé Tiaraju é uma forma de recordar a tantos índios e índias que ainda hoje arriscam a vida para que os povos autóctones deste continente possam viver livres e em sua terra.  Quem vive um caminho de busca espiritual sente-se interpelado à solidariedade com os povos indígenas, fonte de sabedoria e de espiritualidade ecológica para toda humanidade. Em uma de suas mensagens de Natal, Dom Pedro Casaldáliga escrevia: “O Verbo se fez índio e habitou entre nós”.


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 45 livros publicados, entre os quais “O Amor fecunda o Universo (Ecologia e Espiritualidade) com co-autoria de Frei Betto. Ed Agir, 2009.
 
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Os Salmos: a anatomia da alma humana



Por Leonardo Boff



Os salmos constituem uma  das formas mais altas de oração que a humanidade produziu. Milhões e milhões de pessoas, judeus, cristãos e religiosos de todas as tradições, dia a dia, recitam e cantam salmos, especialmente os religiosos e religiosas e os padres no assim chamado “ofício das horas” diário.

Não sabemos exatamente quem seus autores, pois eles recolhem as orações que circulavam no  meio do povo. Seguramente muitos são de Davi (século X a.C). É considerado, por excelência, o protótipo do salmista. Foi pastor, guerreiro, profeta, poeta, músico, rei e profundamente religioso. Conquistou o Monte Sion dentro de Jerusalém e lá, ao redor da Arca da Aliança, organizou o culto e introduziu os salmos.

Quando se diz “salmo de Davi” na maioria das vezes significa: “salmo feito no estilo de Davi”. Os salmos surgiram no arco de quase mil anos, nos lugares de culto e recitados pelo povo até serem recopilados na época dos Macabeus no século II.a.C. O saltério é um microcosmo histórico, semelhante a uma catedral da Idade Média, construída durante séculos, por gerações e gerações, por milhares de mãos e incorporando as mudanças de estilo arquitetônico das várias épocas. Assim há salmos que revelam diferentes concepções de Deus, próprias de certa época, como aqueles, estranhas para nós, que expressam o desejo de vingança e o juízo implacável de Deus.

Os salmos testemunham a profunda convicção de que Deus, não obstante habitar numa luz inacessível, está em nosso meio, morando como que numa tenda (shekinah). Podemos chegar a Ele, em súplicas, lamentações, louvores e ações de graças. Ele está sempre pronto para escutar.

O lugar denso de sua presença é o Templo onde se cantam os salmos. Mas como Criador do céu e da terra, está igualmente em todos os lugares, embora nenhum possa contê-lo.

Com razão, se orgulhavam os hebreus dizendo: “ninguém tem um Deus tão próximo como nós”! Próximo de cada um e no meio de seu povo. Os salmos revelam a consciência da proximidade divina e do amparo consolador. Por isso há neles intimidade pessoal sem cair no intimismo individualista. Há oração coletiva sem destituir a experiência pessoal. Uma dimensão reforça a outra, pois cada uma é verdadeira: não há pessoas sem o povo no qual estão inseridas e não há povo sem pessoas livres que o formam.

Ao rezar os salmos, encontramos neles a nossa radiografia espiritual, pessoal e coletiva. Neles identificamos nossos estados de ânimo:  desespero e alegria, medo e confiança, luto e dança, vontade de vingança e  desejo de perdão, interioridade e fascinação pela grandeza do céu estrelado. Bem o expressou o reformador João Calvino (1509-1564) no prefácio de seu grandioso comentário aos salmos:
“Costumo definir este livro como uma anatomia de todas as partes da alma, porque não há sentimento no ser humano que não esteja aí representado como num espelho. Diria que o Espírito Santo colocou ali, ao vivo, todas as dores, todas as tristezas, todos os temores, todas as dúvidas, todas as esperanças, todas as preocupações, todas as perplexidades até as emoções mais confusas que agitam habitualmente o espírito humano”.

Pelo fato de revelarem nossa autobiografia espiritual, os salmos representam a palavra do ser humano a  Deus e, ao mesmo tempo, a palavra de Deus ao ser humano. O saltério serviu sempre como  livro de consolação e fonte secreta de sentido, especialmente quando irrompe na humanidade o desamparo, a perseguição, a injustiça e a ameaça de morte. O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) deu este insuspeitado testemunho: ”Das centenas de livros que li nenhum me trouxe tanta luz e conforto quanto estes poucos versos do salmo 23: O Senhor é meu pastor e nada me falta; ainda que ande por um vale tenebroso, não temo mal nenhum, porque Tu estás comigo”.

Um judeu, por exemplo, cercado de filhos, era empurrado, para as câmaras de gás em Auschwitz. Ele sabia que caminhava para o extermínio. Mesmo assim, ia recitando alto o salmo 23: “O Senhor é meu pastor…Ainda que eu ande pela sombra do  vale da morte, nenhum mal temerei, porque Tu estás comigo”. A morte não rompe a comunhão com Deus. É passagem, mesmo dolorosa, para o grande abraço infinito da paz eterna.

Por fim, os salmos são poesias religiosas e místicas da mais alta expressão. Como toda poesia, recriam a realidade com metáforas e imagens tiradas do imaginário. Este obedece a uma lógica própria, diferente daquela da racionalidade. Pelo imaginário, transfiguramos situações e fatos detectando neles sentidos ocultos e mensagens divinas. Por isso dizemos que não só habitamos prosaicamente o mundo, colhendo o sentido manifesto do desenrolar rotineiro dos acontecimentos. Habitamos também poeticamente o mundo, vendo o outro lado das coisas e um outro mundo dentro do mundo de beleza e de  encantamento.

Os salmos nos ensinam a habitar poeticamente a realidade. Então ela se transmuta num grande sacramento de Deus, cheia de sabedoria, de admoestações e de lições que tornam mais seguro nosso peregrinar rumo à Fonte. Como bem diz o salmista: “quando caminho entre perigos, tu me conservas a vida…e estás  até o fim a meu favor” (Salmo 138, 7-8).

Leonardo Boff é autor de  O Senhor é meu Pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.

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