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terça-feira, 7 de novembro de 2017

AMEAÇAS CONTRA TODA A HUMANIDADE



Por Marcelo Barros

Os tempos são maus. Cada dia, as desigualdades sociais se agravam e a riqueza se concentra nas mãos de menos gente. Em Brasília, para agradar aos empresários do agronegócio, o Ministério do Trabalho abre as portas para legitimar o trabalho escravo. Em São Paulo, o gerente municipal declara que pobre não tem "hábito alimentar" e apresenta comida com prazo de validade esgotado para servir na merenda escolar e como alimento para pobres de rua. Manifestação na Paulista pede a volta dos militares. E Bolsonaro declara que o seu modelo de líder é o presidente Trump.

O pior é que não somente vivemos tempos de opressão, mas também de estupidez. Em vários países, presidentes se destacam, não por sua inteligência, ou capacidade de governar e sim por sua insensatez. E as pessoas vivem como se a intolerância e o ódio fossem o normal. Nos Estados Unidos, a cada ano, morrem mais de 11 mil pessoas, vítimas de armas de fogo. Em todos os estados do país, há mais pontos de venda de armas do que lanchonetes. Com essa cultura, se compreende que, nos últimos dois meses, em todo o país, tenham surgido mais de nove mil focos de racismo declarado. Esses grupos retomam práticas da Klus-klus-Kam. Reúnem-se para atacar, ferir e, quando possível, matar índios, negros e migrantes... Embora de modo discreto, contam com a aprovação e apoio do seu líder maior. Esse, deixa claro que considera a ONU uma idiotice. Prega que o cuidado ecológico é uma fantasia para crianças e o diálogo com outros povos uma perda de tempo. Recentemente, o presidente Trump deu um passo além. Ele e o presidente da Coreia do Norte trocaram ameaças e prometeram simplesmente detonar uma guerra nuclear. Talvez, a insensatez maior seja a das pessoas que não levaram isso a sério. Eduardo Hoornaert, mestre e historiador, lembra que, durante os anos 30, na Alemanha, Adolf Hittler proclamava ao mundo que iria conquistar o mundo e limpar a humanidade das etnias inferiores que não tivessem a pureza da raça ariana. Os líderes da Europa achavam que se tratava apenas de incontinência verbal do ditador alemão. Até que, em 1939, ele invadiu a Polônia. Aí já era tarde para detê-lo. Atualmente, há mais de 38 bombas nucleares armazenadas em algum lugar dos Estados Unidos, da França, da Inglaterra, Alemanha, Japão e Índia. Agora, a Coréia do Norte também pode jogar sobre o mundo o seu artefato nuclear de última geração. Qualquer uma dessas bombas é dez mil vezes mais potente do que as que, em 1945, destruíram Hiroshima e Nagazaki, produzindo mortes e doenças por décadas e décadas.

Há mais de 50 anos que a ONU tenta levar as nações a firmarem pactos de não proliferação de armas nucleares. Agora, o fundamentalismo de governos como o do Irã, o expansionismo de Putim na Rússia e principalmente a loucura insensível de Donald Trump e de King-Jong-Un podem conduzir o mundo a um ponto sem volta. Em meio a grupos da sociedade civil, nasce um movimento para levar o presidente dos Estados Unidos e o líder da Coréia do Norte a um tribunal internacional. Ambos podem e devem ser acusados de crime contra a humanidade.

Nos anos recentes, nos Estados Unidos, várias pessoas têm sido presas e condenadas pela lei de segurança nacional simplesmente por terem feito alguma piada na qual fingiam praticar terrorismo. Era brincadeira, mas o assunto é considerado sério demais para permitir humorismo. Como a sociedade internacional pode aceitar que dois governantes que se destacam pela mediocridade intelectual e falta de sensibilidade com seus semelhantes possam proclamar ameaças tão graves para a sobrevivência da humanidade e de toda a vida no planeta?

Nessa semana, de 10 a 11 decidiu promover no Vaticano dois dias de reflexão sobre “Perspectivas para um mundo livre das armas nucleares e para um desarmamento integral”.  Para esse encontro, o papa convidou 11 vencedores do prêmio Nobel da Paz, a cúpula da ONU, da OTAM e embaixadores de vários países. Ali se encontrarão representantes da sociedade civil e ministros de várias religiões que concordam: armamentos e guerras nunca são soluções justas para o caminho da humanidade.

Todas as tradições espirituais nos convidam a apostarmos que a paz é sempre possível. Crer em Deus é aderir ao seu projeto de paz. Quando a Bíblia diz que Deus transformará as armas de guerra em arados e instrumentos de cultivo, subtende que ele fará isso através de nós. Somos nós que temos de ser as pessoas abençoadas (bem-aventuradas) que, nos comportamos como filhos e filhas de Deus, porque construímos a paz.


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países    






segunda-feira, 6 de novembro de 2017

REFORMA: 500 ANOS DE RUPTURA E COMUNHÃO


  Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



             Em 31 de outubro comemoraram-se os 500 anos de um fato que marcou e redirecionou a história do Cristianismo.  Martinho Lutero, monge agostiniano alemão, tornou públicas as 95 teses através das quais protestava contra vários procedimentos da Igreja Católica, sobretudo a venda de indulgências.  Começava aí o movimento protestante.

            Outra versão dos fatos diz que Lutero afixou suas teses à porta da Igreja do Castelo de Wittberg, na Alemanha. Mas segundo indicam pesquisas mais recentes, ele simplesmente as enviou a seus superiores.  Elas então começaram a circular e a movimentar os ânimos dentro da Igreja.  E a ganhar adeptos.  Tanto que se tornaram outra Igreja, diferente da católica, e deram lugar ao movimento chamado Reforma. 

            O protestantismo é caracterizado por algumas afirmações que diferem da proposta católica.  Entre estas se destacam o que se chama comumente em Teologia as três “solas”: Sola fides, sola gratia, sola Scriptura.  Ou seja, só a fé, só a graça, só a Escritura. 

            Sola fide, ou só a fé significa que a justificação, realizada somente por Deus, é recebida apenas e unicamente pela fé, sem qualquer interferência ou necessidade de atos e iniciativas humanas, mesmo boas.  No entanto, na teologia protestante clássica, a fé que salva é sempre evidenciada pelas boas obras, que são seu fruto.  

Afirmando a primazia da fé, o protestantismo se contrapõe ao princípio católico baseado sobretudo na Epístola de Tiago de que “a fé sem obras é morta”.  Entende-se aí que o que salva são as boas obras e não a fé sem as obras.  

            Ao defender a primazia absoluta da fé que só pode crer e jamais produzir a salvação, Lutero se coloca frontalmente contra o poder das indulgências e orações que nada acrescentariam à obra que só Deus pode realizar no ser humano ao mesmo tempo justo e pecador, que seria a sua justificação. 

            Sola gratia ou só a graça é o ensinamento de que a salvação vem por graça divina , sem nenhum mérito por parte do ser humano e não como algo que este, pecador, merece.  A salvação é um dom imerecido que Deus dá por causa de Jesus.  Esta doutrina é o oposto do que seria a doutrina católica das boas obras, pelas quais o fiel pecador se aperfeiçoaria e adquiriria méritos purificadores que o aproximaria de Deus.  Para o protestantismo da Reforma, Deus é o único que age na graça, e por isso a graça é sempre eficaz, pois vem d´Ele e não tem qualquer cooperação por parte do ser humano. 

            Novamente estão aqui a graça divina e as obras em contraposição, afirmando o protestantismo de Lutero que a única iniciativa da salvação provém de Deus por sua graça e que o ser humano não pode “trabalhar” por sua própria salvação, devendo apenas acolhê-la como dom imerecido. 

            Sola Scriptura ou só a Escritura é o ensinamento de que a Bíblia é a única palavra autorizada e inspirada por Deus, e constitui a única fonte para a doutrina cristã, sendo acessível a todos.  Lutero beneficiou-se da então recente descoberta de Gutenberg, a imprensa escrita, e multiplicou as cópias da Bíblia impressa em alemão, devolvendo-a às mãos dos fiéis.  O protestantismo afirma igualmente que a Bíblia não exige interpretação fora de si mesma, ao passo que o catolicismo ensina que a Bíblia só pode ser autenticamente interpretada pelo magistério da Igreja, composto pelo Papa e pelos bispos sucessores dos apóstolos.  

            Enquanto os protestantes nas Escolas Dominicais aprofundavam-se na leitura e conhecimento da Sagrada Escritura, os católicos deviam contentar-se com as histórias sagradas que forneciam algo, uma pequena parcela, do conteúdo bíblico, já que o texto literal não era posto em suas mãos. Isso era livre exame e, portanto, “coisa de protestante”. 

            O Concílio Vaticano II, ocorrido em meados do século XX, reviu a atitude e as posições do catolicismo, sobretudo em relação à Escritura e, seguindo o movimento bíblico que já acontecia em seu interior, recomendou o uso e o estudo da Escritura por parte dos fiéis católicos.  Assim, houve uma disseminação enorme dos círculos bíblicos, grupos de estudos bíblicos e a Escritura passou a fazer parte do cotidiano dos católicos. 

            O Concílio igualmente, em mais de um de seus documentos, reconhece a necessidade e mesmo a urgência do ecumenismo, que consiste na aproximação entre católicos e protestantes, chamados a buscar mais o que os une do que aquilo que os separa com vistas a construir maior comunhão que resulte na única Igreja de Cristo. 

            Hoje, 500 anos depois, aqui estamos nesta luta bonita de construir comunhão.  Gratos somos os católicos à Reforma de Lutero, que abriu as portas para  maior liberdade dentro da Igreja e tanto fez por maior aproximação nossa da Palavra de Deus.  Felizes são igualmente os protestantes, que em um diálogo sempre maior com a “Católica” e Universal Igreja de Cristo Senhor e Salvador, alargam seus horizontes e vivem uma salvação livre e discernida, mas igualmente feita sinal e sacramento para o mundo inteiro. 

            De minha parte, só tenho a agradecer à Reforma de Lutero, que formou na retidão da fé e da justiça o homem que é meu esposo há quarenta e oito anos.  E que igualmente me deu os magníficos alunos, mestrandos e doutorandos que tive a graça de conhecer nestes mais de 30 anos de magistério teológico.  Celebremos os 500 anos da Reforma.  Os motivos são muitos, sólidos e belos.  Soli Deo Gloria!
  
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A   teóloga é autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco).
 Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A IDEOLOGIA É COMO A SOMBRA: SEMPRE NOS ACOMPANHA



Por Leonardo Boff

O tema da ideologia está em pauta: ideologia de gênero, política, econômica, religiosa etc.Tentemos tirar a limpo esta questão.
1. Todos têm uma determinada ideologia. Quer dizer, cada um se faz uma ideia (daí ideologia) da vida e do mundo. Tanto o pipoqueiro da esquina, quanto a atendente do telefone ou o professor universitário. Esta é inevitável, porque somos seres pensantes com ideias. Querer uma escola sem ideologia é não entender nada de ideologia.
2. Cada grupo social ou classe projeta uma ideologia, uma visão geral das coisas. A razão é que a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Se alguém tens os pés na favela, tem uma certa ideia de mundo e de sociedade. Se alguém tem os pés num apartamento de luxo junto à praia, tem outra ideia do mundo e da sociedade. Conclusão: não só o indivíduo, mas também cada grupo social ou classe, inevitavelmente elaboram sua visão da vida e do mundo a partir de seu lugar social.
3. Cada ideologia pessoal ou social, bem como todo saber, tem por detrás interesses, nem sempre explicitados. O interesse do operário é aumentar o seu salário. O do padrão, o de aumentar o seu lucro. O interesse de um morador da favela é sair daquela situação e ter sua casa decente. O interesse do morador de um apartamento de classe media é poder manter esse status social, sem ser ameaçado pela ascensão de gente do andar de baixo. Os interesses não convergem porque se aumenta o salário, diminui o lucro e vice-versa. Aqui se instaura um conflito.
4. O interesse escondido atrás do discurso ideológico deve ser qualificado: ele pode ser legítimo e importa explicitá-lo. Por exemplo: tenho interesse que esse grupo de famílias crie uma pequena cooperativa de produtos orgânicos, de hortaliças, tomates, milho etc. Esse interesse é legítimo e pode ser dito publicamente. O interesse pode ser ilegítimo e é mantido oculto para não prejudicar quem o propõe. Exemplo: há grupos que combatem o nu artístico para, na verdade, encobrirem a homofobia, a supremacia da raça branca e a perseguição aos grupos LGBT. Ou um politico de um partido neoliberal cujo projeto é diminuir salários, reduzir as aposentadorias e privatizar bens públicos apresenta-se como alguém que vai lutar pelos direitos dos trabalhadores, dos aposentados e defender a riqueza do Brasil. Ele ideologicamente oculta os reais interesses partidários para não perder votos. Essa ocultação é a ideologia como falsidade e ele, um hipócrita.
5. A ideologia é o discurso do poder especialmente do poder dominante. O poder é dominante porque ele domina várias áreas sociais. As elites brasileira têm tanto poder a ponto de comprarem as demais elites. Pelo fato de serem dominantes, impõem sua ideia sobre a crise brasileira, culpando o Estado como ineficiente e perdulário, os líderes como corruptos e a política como o mundo do sujo. Por outro lado, exaltam as virtudes do mercado, as vantagens das privatizações e a necessidade de reduzir as reservas florestais da Amazônia para permitir o avanço do agro-negócio. Aqui se oculta conscientemente a corrupção do mercado onde atuam as grandes empresas que subtraem milhões dos impostos devidos, mantém caixa dois, promovem juros altos que favorecem o sistema especulativo financeiro que drena dinheiro público, tirado do povo, para os bolsos de minorias, que, no caso brasileiro, são seis bilionários, possuindo igual riqueza que 100 milhões de brasileiros pobres. Essas elites ocultam as agressões ecológicas, a desnacionalização da indústria e fazem propaganda do  Agro  porque é pop. Praticam deslavada ideologia como enganação. Há redes de televisão que são máquinas produtoras de ideologia de ocultação, negando ao povo, dados sobre a gravidade da situação atual, gerando espectadores alienados, pois creem em tais versões irreais. Para encobrir sua dominação, apoiam projetos que beneficiam crianças ou secundam grandes eventos artísticos para parecerem benfeitores públicos. Por detrás ocultam falcatruas e apoiam abertamente determinados candidatos, satanizando a imagem do principal opositor.
6. Há também a ideologia dos sem-poder, dos sem terra e sem teto e outros que para se sustentaram, elaboram discursos de resistência e de esperança. Mas essa ideologia é benéfica pois os ajuda a viver e a lutar.
A ideologia é como uma sombra: sempre nos acompanha. Para superar as ilegítimas, faz-mister desmascará-la e trazer à luz os interesses escusos. E quando falamos a partir de um determinado lugar social, convém explicitar no discurso nossa ideologia. Conscientizada, a ideologia se legitima e democraticamente pode ser discutida ou aceita.
Leonardo Boff é articulista do JB online, terminou um livro sobre:Concluir a refundação ou prolonger a dependência do Brasil? Reflexões sobre a crise brasileira, a sair.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

AINDA A ARTE DA TOLERÂNCIA



Frei Betto

       Enquanto os povos viviam distantes um do outro, cada um com as suas crenças e costumes, a intolerância não se evidenciava. Isso teve início com a ruptura provocada na Igreja pelo surgimento do protestantismo. Então, pessoas de um mesmo vilarejo, bairro ou família se dividiam entre católicos e protestantes. O conflito se desencadeou e, inclusive, fez correr sangue.

       A reforma luterana rompeu a unidade religiosa do Sacro Império Germânico e, por consequência, a unidade de toda a Europa Ocidental.

       Foi preciso encontrar novos critérios para a paz. Não através da submissão forçada de uns por outros. E sim pela via do entendimento e do bom senso.

       Em 1686, Pierre Bayle escreveu ser um absurdo querer forçar alguém a pensar de uma determinada maneira. No máximo se pode obrigá-lo a fingir. Como já havia assinalado santo Tomás de Aquino no século XIII, a consciência de cada pessoa é irredutivelmente livre. A ponto de poder inclusive recusar a ideia de Deus.

       A obra de Bayle preparou o terreno para a liberdade de consciência. Três anos depois, em 1689, John Locke, filósofo inglês, publicou sua “Carta sobre a tolerância”, na qual defende que o Estado não deve interferir nas convicções religiosas, e sim assegurar a liberdade de crenças. Deu-se o início da laicização do Estado e da sociedade.

       Entre os séculos XVII e o início do XVIII, muitas vozes se ergueram contra a intolerância, como Baruch Spinoza, Jonathan Swift, John Toland, John Locke e Shaftesbury. A eles se somaram Montesquieu, Voltaire, Diderot, Rousseau, D’Holbach, entre outros.

      Em 1763, Voltaire lançou o “Tratado sobre a tolerância por ocasião da morte de Jean Calas”. Este comerciante de Toulouse era protestante. Seu filho, Marc-Antoine, de 20 anos, apareceu enforcado no sótão da casa. Como manifestara a vontade de aderir ao catolicismo, o pai foi acusado de matá-lo, condenado à morte e executado.

       Voltaire ergueu a sua voz contra o fanatismo. Exigiu revisão do caso. Apurou-se que o rapaz sofria de depressão. O pai, declarado inocente, foi reabilitado quando já se estava morto.

       Voltaire salientou que existe uma fraternal solidariedade entre os seres humanos. Todos se mobilizam quando há uma catástrofe – incêndio, alagamento, terremoto, furacão etc. Aliás, como há dias se comprovou após o terremoto no México e o massacre em Las Vegas, quando multidões se dispuseram a doar sangue e socorrer as vítimas. Por que a intolerância quando se trata de pensar ou crer de modo diferente?

       A intolerância só é aplicável às ciências exatas. Inútil querer que a água ferva antes de atingir os 100 graus centígrados. Ou insistir que 2 + 2 são 5...

       No campo científico, a tolerância só é aceitável em se tratando de hipóteses. Antes de se chegar ao dado científico há várias hipóteses até a comprovação empírica de que a molécula de água resulta da junção de dois átomos de hidrogênio com um de oxigênio.

       Isso é impossível em se tratando de crenças religiosas. Jamais as diferentes religiões ou tendências confessionais chegarão a um acordo quanto às suas convicções de fé. Restam, portanto, duas alternativas: a guerra ou a tolerância. E o passado demonstra que a guerra é inútil, apenas deixa lastro de ódio e sangue.

       Fora do âmbito das ciências, a tolerância é desejável. Se alguém acredita que todos procedemos, não da evolução dos símios, mas da união de Adão e Eva, isso é tolerável porque não faz mal a ninguém. Embora os criacionistas não logrem explicar como estamos aqui, neste planeta superpovoado, se Adão e Eva tiveram dois filhos homens, Caim e Abel. A menos que admitam o incesto com a mãe...

       Nem sempre é fácil demarcar a fronteira entre o tolerável e o intolerável. Depende de cada cultura. Para muitos é inconcebível que, em pleno século XXI, uma sociedade exija por lei que a mulher seja submissa ao homem, como ocorre na Arábia Saudita. Ainda que um estrangeiro que mora naquele país seja tolerante frente a esse absurdo, não significa que esteja de acordo com tal violação dos direitos humanos.

       Diante de opiniões e atitudes diferentes, como em recentes exposições artísticas no Brasil, o tolerante se alegra e celebra a diversidade; o intolerante se enche de ódio e apela à violência.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil – o mistério das cabeças degoladas” (Rocco), entre outros livros.
      
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