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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Palavras de Pedro - Epifania

  Dom Pedro Casaldáliga,


  

Só para os três Mágoa

essa tua palavra imensa?

Só três vassalos, Rei?...

Não desperdicei a estrela!

 

Que se congreguem na tua gruta

todas as caravanas da terra.

Chame as do Oriente entumecido

- que trouxe as primeiras

e na hora do alvorecer. Ao Ocidente

chame-o... como se ele não estivesse.

 

Todas a Ti, ainda que Herodes se altere!

 

(Não queres, Mãe, que teu Fruto seja

para todos,

como o de Eva...?)

 

Pedro Casaldáliga, Palavra Ungida

Arte: A. Batista Jr.

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!Palavras de Pedro

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Para que este ano novo se torne de fato Novo

 Marcelo Barros


Nestes dias, por todo o mundo, as pessoas dizem umas às outras os votos de feliz ano novo. Há quem acredite que, pelo fato de se falar, o desejo se torna realidade, quase de modo automático. Outros pensam que o próprio desenrolar do tempo faz as coisas ficarem melhores.

Alguns povos tradicionais ainda guardam costumes como, na noite do ano novo, queimar toda a roupa usada e iniciar esse tempo com vestimentas brancas ou novas, símbolo de renovação da vida. Na madrugada do primeiro dia do ano, fieis dos cultos afrodescendentes vão às praias e rios com flores e oferendas aos espíritos do céu e da terra. Em nome de todos os seres humanos, cantam sua disposição de amor e comunhão universal.

As perspectivas de 2023 para o mundo não parecem otimistas. A ambição das grandes potências, o interesse das industrias armamentistas e os projetos imperialistas dos Estados Unidos e da Rússia mantêm a guerra na Ucrânia e garantem outras guerras pelo mundo. A ONU ainda tenta salvar a ecologia a partir de projetos capitalistas como entregar a defesa da natureza a grandes empresas. A água continua sendo tratada como mercadoria a ser privatizada. Mesmo sabendo que as pandemias ameaçam toda a humanidade e ninguém se salva sozinho, a Organização Mundial da Saúde ainda se omite em relação à campanha mundial para que todas as vacinas contra vírus sejam gratuitas e para todos e todas.

Na América Latina, o sonho de uma pátria grande solidária exige mais esforços. A guerra dos meios de comunicação contra qualquer transformação do mundo a favor dos empobrecidos continua implacável.

No Brasil, o ano novo foi marcado pela imagem da posse de um novo governo. Na cerimônia, ficou marcada para a história a imagem de um velho índio, a criança negra, a catadora de material reciclável e mais outras pessoas, representativas da população mais empobrecida ao subir a rampa do palácio do Planalto com o presidente Lula. Tomara que este gesto tão forte de simbolismo não se dilua na cultura vigente que ainda mantém uma separação gritante entre governo e sociedade civil. No dia da posse, o ritual prevê o encontro do Presidente eleito com o Congresso e os poderes constituídos, mas o povo é mantido do lado de lá da cerca armada depois do lençol de água que separa o palácio da população. Parece que ao povo compete apenas acenar e aplaudir.

Para que, no Brasil e no mundo, este ano novo se torne realmente um tempo novo, será necessário firmar as bases de uma sociedade civil organizada a partir da inclusão social e de uma educação para a Paz, a não-violência e o diálogo. Sem dúvida, as religiões que, durante séculos, conviveram com as desigualdades e as injustiças sociais e muitas vezes as legitimaram, têm agora a função de desenvolver uma espiritualidade libertadora que testemunhe Deus como Amor e não como poder opressor.

No Fórum Social, ocorrido em Túnis, na África, em 2015, havia um grande folder no qual estava escrito: "A humanidade precisa de uma verdadeira revolução. Só a nossa ousadia pode torná-la possível". Essa ousadia comunitária parte da convicção de que o amanhã pode ser diferente. Para os cristãos, nos alegra mais ainda a fé de que, nesse caminho, estamos sempre acompanhado por Jesus ressuscitado que disse a seus discípulos/as: "Eu estarei com vocês todos os dias, até que esse tempo se complete" (Mt 28, 20).

 

 

 

 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

O elefante na sala

Eduardo Hoornaert


 

Certa vez, ao discutir questões filosóficas com um colega num gabinete da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, nos anos 1940, Ludwig Wittgenstein, com sua conhecida impetuosidade, gritou: Há um elefante na sala. Com isso, ele quis indicar que seu interlocutor, ao que lhe parecia, não enxergava o óbvio.

 

A imagem desse elefante me parece apropriada para passar um olhar crítico pelos vastos campos da atual cognição na civilização ocidental. Desde os primeiros esboços na Mesopotâmia, a impressão que se tem é que o próprio processo civilizador impede de enxergar ‘elefantes’, principalmente o elefante da escravidão. Na Grécia clássica, que nos lega a filosofia, a escravidão é onipresente, mas invisível. Dizem os historiadores que, na cidade de Atenas em tempo de Péricles (séc. V aC), cinco mil cidadãos vivem sustentados por cem mil escravos, um número aproximativo, pois acerca de escravos não existe registro escrito. No Liceu de Atenas (fundado por Aristóteles no século IV aC) não é difícil se imaginar um vai-e-vem incessante de ‘pedagogos’, escravos que trazem e levam crianças e jovens de famílias boas para participar de exercícios educativos. Pelo pátio do referido Liceu, homens e mulheres se cruzam, a preparar as mesas, servir comidas e bebidas, limpar o chão e as latrinas. Os estudantes não lhes dão atenção. Nem o próprio Mestre Aristóteles, que lhes dedica apenas umas linhas de sua ‘Política’ (não cito textualmente): esses nossos servidores fazem o que lhes compete fazer para o bom andamento do Liceu e isso lhes dá satisfação. A natureza cria uns para mandar e outros para obedecer. Os ‘servi ex natura’ (servos por natureza) nos são úteis, e mais não digo, já que temos que nos conformar com as leis da natureza, que dispensam reflexões filosóficas. Em outras palavras: Aristóteles deixa o elefante perambular tranquilamente por seu território.

Séculos depois, o teólogo cristão Agostinho (séc. V dC) não pensa diferente. Ele se mostra triste com os destinos da humanidade pecadora, essa ‘massa damnada’ herdeira do ‘pecado original’ de Adão e Eva. Mas não parece afetado pelo fato que, na guarnição militar costeira romana, sediada em Hipona, onde ele é bispo, se despacham rotineiramente grupos de africanos algemados, com destino aos mercados de escravos existentes na Itália. O teólogo lamenta o ‘inferno’ dos pecadores, mas não parece ouvir os lamentos e sussurros de africanos escravizados.

 

Desde a era da modernidade, sucessivos ‘elefantes’ entram na sala da cognição ocidental. Spinoza, Galileu, Kant, Hegel, Darwin, Freud, Marx, cada um num determinado setor, apontam evidências não reconhecidas ou mesmo abertamente negadas pela oficialidade. Eles formam o topo de um ‘iceberg’, pois o povo, tradicionalmente silencioso, mostra simpatia por seus posicionamentos. Parece que percebe o andar do elefante, mais que a elite. As mulheres, de seu lado, não deixam de apontar, por vezes de modo aberto e ativo, outras vezes silenciosamente, o sistema largamente heterônomo em que são obrigadas a passar a vida.

 

A cultura dominante, desde os tempos da modernidade até hoje, tapa os ouvidos e fecha os olhos, para não ver o elefante passar. A igreja dominante, por exemplo, desde os séculos XVII, só abre a boca para condenar, perseguir e mesmo levar à morte: inquisição [inúmeras mortes], fogueira [entre 40 e 50.000 ‘bruxas’ queimadas], Syllabus, índice livros proibidos, condenação, silenciamento, censura por todo canto. Ela passa a enxergar heresia em todo canto. Assim chega ao absurdo de condenar Santa Joana d’Arc à fogueira por se vestir de homem! A inquisição é um inferno: todos têm medo de todos, pois todos podem acusar o outro de ‘heresia’. Uma exasperação ‘a longo prazo’, repercussão impressionante da política de fechar os olhos e tapar os ouvidos. Para não ver o elefante passar.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Novo Ano

 Goretti Santos 


 


A Assuero Gomes e todas as vítimas do negacionismo fascista…


Estamos de volta!

Dobramos a esquina da dor,

E subimos a rampa!

O caminho foi longo…

Iniciou no primeiro: " Pela minha família, por Deus…", 

Vomitado pelo deputado golpista!

Naquele 17, abriu o nosso choro…

O motivo do cuspe na cara, 

Ouviríamos nos tenebrosos anos seguintes…

Estamos de volta!

Depois de tanto horror, depois de tanta dor,

Dobramos a esquina da terra plana,

E subimos a rampa!

A cada passo desse longo caminho, 

Vertemos sangue…

Perdemos irmãos, tios, pais, mães…perdemos filhos…

E nossa perda foi mote para o deboche…

"E daí? Não sou coveiro!"

Choramos de soluçar , 

Inimaginável desumanidade …

Jesus, torturado na goiabeira, 

Foi crucificado na carne de Aldir, Paulo Gustavo, Nicette…

E como se tanta dor, 

Ainda não bastasse para aplacar a sede da besta,

Fomos alvejados com oitenta tiros

Na pele negra de Evaldo, Luciano…

Espremidos no suco da laranjada,

Continuamos resistindo, recuperando fôlego dia a dia, hora a hora, minuto a minuto…

Dobramos a esquina, quase sem ar,

E subimos a rampa!

Caminho árduo, escaldante, pés em carne viva,

Viva a carne de Paulino Guajajara, Bruno, Dom…

Dobramos a esquina, com florestas em chamas,

Exausto de tanta dor, respirando fuligem, no dia que se fez noite…

Dobramos a esquina do cinismo,

E subimos a rampa

Com Resistência

E toda a fauna e flora da Pátria Amada…

Com Raoni e todos os idosos Guardiões da história e das matas…

Subimos a rampa

Com Weslley e todos os trabalhadores 

Violados em seus direitos…

Com Murilo e todos os professores, alunos, 

Todas as Universidades, todos os cientistas

E toda ciência…

Subimos a Rampa!

Com Jucimara, Aline e todas as Marielles, 

Com todas as trabalhadoras e todas as vítimas de feminicídio…

Subimos a Rampa!

Com Ivan e todas as pessoas impedidas de exercerem sua cidadania…

Dobramos a esquina de tanto terror,

E subimos a Rampa!

Chegamos com Francisco e todas as crianças

Para ter certeza que o futuro nos espera,

A voz da esperança falando mais alto!

Estamos de volta,

Somos uma Nação, 

Inteira,

Voltando a Respirar!


Goretti Santos

07/01/23