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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Biografia Desautorizada


 Por Frei Betto
  
     O Vaticano se surpreendeu ao receber um tal Dr. Gabriel. Veio dar entrada no processo de apreensão de todos os exemplares dos Evangelhos. 

     Segundo o doutor (que vestia longa capa negra, semelhante à dos juízes do STF, para esconder as asas), os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João não foram fiéis à vida de Jesus. Perante uma comissão de cardeais, doutor Gabriel apontou os graves erros, com fortes conotações difamatórias, contidas nos textos bíblicos.

      O nascimento em Belém. Não é verdade que Jesus nasceu numa estrebaria. Isso não faz jus a um descendente do rei Davi. E não convém à fé cristã o episódio dos reis magos. Magos praticam magia, contrária à doutrina cristã. E é óbvio que há fortes influências astrológicas no relato de que eles foram conduzidos por uma estrela do Oriente.

      O massacre de bebês em Belém, passados ao fio da espada por ordem do rei Herodes. Um episódio de caráter nitidamente sensacionalista. Inverossímil. Por que Herodes haveria de temer um recém-nascido? Belém era uma cidade muito pequena para conter tantos bebês. Jesus não nasceu lá, nasceu em Nazaré, e por isso era chamado de Nazareno.

      A presença de Jesus, aos doze anos, entre os doutores. Como o enviado de Deus poderia ser um adolescente desobediente a pessoas tão santas como seus pais, Maria e José? E quem acredita que um pirralho atrairia a atenção de intelectuais especialistas na lei mosaica?

      As bodas de Caná e o milagre de transformar a água em vinho. Jesus jamais incentivou o alcoolismo. Por que haveria de fazer um milagre para saciar bebuns? Milagres são para curar, não para evitar fim de festa.

      A mulher adúltera. O adultério era punido com o apedrejamento. Como Jesus haveria de perdoar uma safada que traía seu marido? As leis existem para ser cumpridas, e não fraudadas por corações amolecidos.

      A ressurreição de Lázaro. Por que Jesus haveria de submeter seu amigo Lázaro à dupla experiência da morte? Lázaro ressuscitou para a vida eterna, e não de volta a este mundo, como consta nos evangelhos.

      Judas, o traidor. Que imaginação fértil ousou criar esse personagem macabro? Jesus, como Deus, era onisciente, e jamais escolheria para apóstolo um homem fraco de caráter, capaz de vendê-lo por trinta moedas.

      A cura da sogra de Pedro. Quem disse que Pedro tinha sogra? Nem tinha mulher! Se Jesus fundou a Igreja e instituiu o celibato para seus bispos e sacerdotes, como admitiria como primeiro papa um homem casado? Além disso, sogras são motivo de chacota.

      A parábola do Filho Pródigo. Por que o pai haveria de festejar aquele que dilapidou seus bens com farras e prostitutas, e não o filho obediente e trabalhador que nunca o decepcionou? E isso de que o pai mandou preparar um “novilho gordo” não fica bem a uma Igreja que propõe a seus fiéis periódica abstinência de carne. Jesus era vegetariano.

      O encontro de Jesus com o homem rico. Este, desde pequeno, cumpria todos os mandamentos. Era um santo. Por que Jesus haveria de exigir dele que entregasse todos os seus bens aos pobres? Isso poria fim à pobreza? Os evangelistas retratam aqui um Jesus desalmado e intolerante.

      Armado de chicote, Jesus derruba as mesas dos cambistas no Templo de Jerusalém. Jesus não apelava à violência. Por que portaria um chicote? Escorraçar os cambistas equivaleria, hoje aos black blocs destruírem a Bolsa de Valores.
     A Parábola do Bom Samaritano. Por que Jesus haveria de constranger um doutor da lei sugerindo que um samaritano, que não cumpria à risca a lei de Moisés, era mais obediente a Deus do que ele? O relato ridiculariza o sacerdote e o levita, como se tais autoridades religiosas fossem indiferentes ao sofrimento alheio.

     Dito isso, e ainda mais, Dr. Gabriel advogou o veto às quatro biografias não autorizadas que circulam mundo afora sob o título de Evangelhos.

Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.



http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.


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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Os olhos da mulher amada

Por Assuero Gomes
 
São como lagos. Transparentes mas profundos. Refletem, um, a luz do sol mais luminoso, outro, a lua misteriosa e algumas estrelas fugidias.

Ao primeiro olhar, descuidado talvez, possa parecer sua plena beleza como sendo esta, apenas o brilho emprestado do sol ou roubado de algumas estrelas e da lua. Mas, os olhos da amada são mais profundos.

... mas, os olhos da amada são mais profundos. Eles externam a alma guardada em segredo, à espera do viajante definitivo, aquele que desvendará esses lagos, abaixo da superfície.

Verá que ora transbordam ora secam, conforme as marés interiores, com seus fluidos e ritmos próprios, pulsantes.

O amante perceberá, apenas olhando, que mares navegar ou respeitar, quando atracar sua embarcação fugindo da tormenta ou quando se aventurar em busca da noite mais serena.

Os olhos da mulher amada podem mostrar a mais bela das auroras ou o por do sol suave, e ainda assim guardar segredos, podem ainda, deixar se ouvir a melodia dos anjos ou o silêncio de uma oração.

Quanta ternura poderá derramar esses lagos, em lágrimas delicadas ou quanta dor poderão guardar numa aridez intrigante? Se a boca detém o véu mais inexpugnável de uma mulher, seus olhos são traiçoeiros para si mesma, pois revelam seu espírito, impudicamente.

Os olhos da mulher amada carregarão a imagem do seu amado, submersa nas águas profundas dos seus lagos, para que, mesmo que reflitam lugares distantes, países diversos, estações outonais, ele, seu amado, esteja guardado junto a si.

Quem mais perscrutou os olhos das mulheres, numa busca infinita por tesouros submersos, foi Amedeo Modigliani. Encontrou-os nos olhos de Jeanne Hébuterne, e nunca mais se perdeu; mas foi ela, e somente ela, quem encarnou a alma dos olhos da mulher amada à perfeição, na louca radicalidade de um amor total, vivido às últimas consequências. Um amor cego, sem concessões ou dúvidas. Um amor trágico como um vendaval. Como um punhal em brasa penetrando a carne branca e dilacerando um coração escafandro, submerso nas lágrimas de um lago inexpugnável.

Os olhos da mulher amada são ainda como faróis resplandecentes, que emprestam à luz da lua, uma beleza suave e estejam onde estiverem, irradiam sua claridade aos olhos do amado.

Espelhos de cristais de açúcar, são escudos de desventuras e tristezas, filtros insones de imagens náufragas, íntimas imagens náufragas.

Olhos de ver por dentro, olhos de oásis e tempestade. Olhos de vida.

Assuero Gomes


Médico e escritor

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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Negritude e libertação



Por Marcelo Barros

Cada vez mais no Brasil, novembro se torna o mês da consciência negra. As comemorações do aniversário do martírio de Zumbi dos Palmares, no dia 20 de novembro, provocam manifestações culturais e religiosas afrodescendentes, entre as quais, algumas duram todo o mês. Na primeira segunda feira de novembro, em cidades como Recife e o Rio de Janeiro, o centro urbano é tomado por caminhadas do povo de terreiros. Ali se juntam membros de várias nações de Candomblé, de Umbanda e outras tradições locais como a Jurema no Nordeste e a Macumba no Rio. Um dos principais objetivos dessas manifestações pacíficas é denunciar agressões que continuam ocorrendo por parte de grupos religiosos fanáticos contra comunidades religiosas afrodescendentes. Outra reinvindicação é que se revejam os programas do ensino religioso ecumênico, para que nele haja também lugar para o conhecimento cultural das religiões de tradição afro. Essas são pautas mais especificamente religiosas. No entanto, o que essas manifestações revelam de mais profundo é a vitalidade das comunidades de matriz afrodescendentes e como elas foram importantes na luta contra o racismo e no caminho da promoção e da libertação das pessoas empobrecidas no Brasil e em todo o mundo. 

As homenagens a Zumbi se fazem por sua vida consagrada a acabar com a escravidão no Brasil. Infelizmente, o Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir oficialmente a escravidão, já no final do século XIX (1888). Quando isso ocorreu e de forma extremamente ambígua, (os negros foram mandados à rua sem nenhuma indenização nem ajuda para sobreviver), a luta contra a escravidão já tinha mais de cem anos. Dinamarca foi o primeiro país a abolir o comércio de escravos (1792), seguida do Reino Unido (1807) e Estados Unidos em 1810. É claro que essas conquistas foram frutos não do senso de justiça ou da bondade dos patrões e sim da luta dos escravos por sua libertação. Nos países capitalistas, começava o processo de industrialização e as indústrias pediam operários capazes de manobrar máquinas e que ganhassem salários para comprar os produtos produzidos. No mundo industrial, não havia mais interesse em manter escravos da gleba. Quem lutou contra a escravidão por motivos humanitários e por convicção ética foram os revolucionários que queriam libertar a América Latina do domínio europeu. Em outubro de 1810, Miguel Hidalgo proibia a escravidão na  Nova Espanha (México). Pouco depois, na Venezuela, Simon Bolívar proclamava o direito à liberdade para índios e negros. E propunha educação para todos como caminho de promoção humana e igualdade social. Somente em 1926, a Sociedade das Nações (atual ONU) assinou a convenção que declarou ilegal a escravidão. Mesmo assim, ainda agora, em 2013, o relatório anual da ONU denuncia que, no mundo, 30 milhões de pessoas humanas ainda são vítimas de escravidão (Cf. Folha de S. Paulo, 17/10/2013). Nesse relatório internacional, o Brasil é elogiado por sua legislação e pelo trabalho do Ministério do Trabalho que tem conseguido libertar muitos lavradores escravizados em latifúndios no campo e em carvoarias. Mas, ainda existem focos de escravidão nos estados do Norte e na periferia de cidades grandes como São Paulo. 

 As tradições religiosas afro descendentes têm sido as mais fieis guardiães da dignidade e da liberdade das comunidades negras. Para as comunidades cristãs da primeira geração, Paulo escreveu: “É para que sejamos livres que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1. 13). “Onde está o Espírito de Deus, aí tem de haver liberdade” (2 Cor 3, 17). 



MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br
 
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A importância da espiritualidade para a saúde



Por Leonardo Boff

      Via de regra todos os operadores de saúde foram moldados pelo paradigma científico da modernidade que operou uma separação drástica entre corpo e mente e entre ser humano e natureza. Criou as muitas especialidades que tantos benefícios trouxeram para o diagnóstico das enfermidades e  também para as formas de cura.

     Reconhecido este mérito,  não se pode esquecer que se perdeu a visão de totalidade: o ser humano inserido no todo maior da sociedade, da natureza e das energias cósmicas e a doença como uma fratura nesta totalidade e a cura como uma reintegração nela.

     Há uma instância em nós que responde pelo cultivo desta totalidade, que zela pelo  Eixo estruturador de nossa vida: é a dimensão do espírito. De espírito vem espiritualidade. Espiritualidade é o cultivo daquilo que é próprio do espírito que é sua capacidade de projetar visões unificadoras, de relacionar tudo com tudo, de ligar e re-ligar todas as coisas entre si e com a Fonte Originária de todo ser.

      Se espírito é relação e vida, seu oposto não é matéria e corpo mas a morte como ausência de relação. Nesta acepção, espiritualidade é toda atitude e atividade que favorece a  expansão da vida, a relação consciente, a comunhão aberta, a subjetividade profunda e a transcendência como modo de ser, sempre disposto a novas experiências e a  novos conhecimentos.

      Neurobiólogos e estudiosos do cérebro identificaram a base biológica da espiritualidade. Ela se situa no lobo frontal do cérebro. Verificaram empiricamente que sempre que se captam os contextos mais globais ou ocorre uma experiência significativa de totalidade ou também quando que se abordam de forma existencial (não como objeto de estudo) realidades últimas, carregadas de sentido e que produzem atitudes  de veneração, de devoção e de respeito, se verifica uma aceleração das vibrações em hertz dos neurônios aí localizados. Chamaram a este fenômeno de “ponto Deus” no cérebro ou da emergência da “mente mística”(Zohar, QS: Inteligência espiritual, 2004). Trata-se de uma espécie de órgão interior pelo qual se capta a presença do Inefável dentro da realidade.

     Este fato constitui uma vantagem evolutiva do ser humano que, enquanto homem-espírito, percebe a Realidade Fontral sustendando todas as coisas. Dá-se conta de que  pode, surpreendentemente, entabular um diálogo e buscar uma comunhão íntima com ela. Tal possibilidade o dignifica, pois o espiritualiza e o leva a graus mais altos de percepção do Elo que liga e re-liga todas as coisas. Sente-se inserido no Todo.

     Este “ponto Deus” se revela por valores intangíveis como mais compaixão, mais solidariedade, mais sentido de respeito e de dignidade. Despertar este “ponto Deus”, tirar as cinzas  que uma cultura demasiadamente racionalista e materialista o cobriu, é  permitir que a espiritualidade aflore na vida das pessoas.

     No termo, espiritualidade não é pensar Deus mas sentir Deus mediante este órgão interior e fazer a experiência de sua presença e atuação a partir do coração.  Ele é percebido como entusiasmo (em grego significa ter um deus dentro) que nos toma e nos faz saudáveis e nos dá a vontade de viver e de criar continuamente sentidos de existir.

     Que importância emprestamos  a esta dimensão espiritual no cuidado da saúde e da doença? A espiritualidade possui uma força curativa própria. Não se trata de forma nenhuma de algo mágico e esotérico. Trata-se de potenciar aquelas energias que são próprias da dimensão espiritual tão válidas como a inteligência, a libido, o poder, o afeto entre outras  dimensões do humano. Estas energias são altamente positivas como amar a vida, abrir-se ao demais, estabelecer laços de fraternidade e de solidariedade, ser capaz de perdão, de misericórdia e de indignação face às injustiças deste mundo como o faz exemplarmente o Papa Francisco.

      Além  de reconhecer todo o valor das terapias conhecidas existe ainda um supplément d’ame como diriam os franceses. Ela quer sinalizar  um complemento daquilo que já existe mas que o reforça e enriquece com fatores  oriundos de outra fonte de cura. O modelo estabelecido de medicina não detém, por certo, o monopólio do diagnóstico e da  cura. É aqui que encontra o seu lugar a espiritualidade.

     A espiritualidade reforça na pessoa, em primeiro lugar, a confiança nas energias regenerativas da vida, na competência do médico/a e no cuidado diligente ou do enfermeiro/a. Sabemos pela psicologia do profundo e da transpessoal, do valor terapêutico da confiança na condução normal da vida. Confiar significa fundamentalmente afirmar: a vida tem sentido, ela vale a pena, ela detém uma energia interna que a autoalimenta, ela é preciosa. Essa confiança pertence a uma visão espiritual do mundo.

     Pertence à espiritualidade, a convicção de que a realidade que captamos é maior do que as análises nos dizem. Podemos ter acesso a ela pelos sentidos interiores, pela intuição e pelos secretos caminhos da razão cordial. Percebe-se que há uma ordem subjacente à ordem sensível, como o sustentava sempre o grande físico quântico, prêmio Nobel, David Bohm, aluno predileto de Einstein.

     Esta ordem subjacente responde pelas ordens visíveis e ela sempre pode nos trazer surpresas. Não raro, os próprios médicos/as se surpreendem, com a rapidez com que alguém se recupera ou mesmo como situações, normalmente, dadas como irreversíveis, regridem e acabam levando à  cura. No fundo é crer que o invisível e o imponderável é parte do visível e do previsível.

      Pertence também ao mundo espiritual, a esperança imorredoura de que a vida não termina na morte, mas se transfigura através dela. Nossos sonhos de voltar à vida normal deslancham energias positivas que contribuem na regeneração da vida enferma.

      Força maior, entretanto, é a fé de sentir-se na palma da  mão de Deus. Entregar-se, confiadamente, à sua vontade, desejar ardentemente  a cura mas também acolher serenamente sua vontade de chamar-nos  para si: eis a presença da energia espiritual. Não morremos, Deus vem nos buscar e nos levar para onde pertencemos desde sempre, para a sua Casa e para o seu convívio. Tais convicções espirituais funcionam como fontes de água viva, geradoras de cura e de potência de vida. É o fruto da espiritualidade.

Leonardo Boff escreveu com Jean-Yves Leloup e outros, Espírito e Saúde, Vozes 2007.
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