O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador DEMÔNIOS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DEMÔNIOS. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de março de 2021

DEMÔNIOS FOGEM DO INFERNO

  

Frei Betto


 

       O inferno está vazio de demônios porque eles invadiram a Terra com suas obras malignas: pandemia, neonazismo, negacionismo, pedofilia, racismo, homofobia, misoginia, terrorismo digital etc.

       Nos níveis mais profundos do inferno, Dante identifica os hipócritas e os ladrões (no oitavo) e os traidores da pátria e dos amigos (no nono). O que, no Brasil, nos remete aos que consideram a pandemia uma “gripezinha”, fazem cara de paisagem diante das “rachadinhas”, admitem que o nosso país é um “pária” na configuração mundial, evitam medidas para salvar a vida da população e escanteiam aqueles que o ajudaram a se eleger, como fez com Gustavo Bebianno, Major Olímpio e Sérgio Moro.

       Deste lado da vida, nos defrontamos com infernos estruturais: desigualdade social, devastação ambiental, trabalho escravo, genocídio, guerras, armas nucleares e químicas etc.

       Em sua etimologia grega, demoníaco não é um ente, é o desejo de um ser humano de que ele e seus atos sejam considerados definitivos e supremos. Daí o visceral apego de certos políticos ao poder. São pessoas de baixa autoestima e quando alçadas à função de mando encontram nisso uma forma para tentar encobrir suas fragilidades e contradições, alimentando em seus apoiadores a convicção de que estão diante de um “mito”. Como observou Sartre, certos seres humanos vivem na ilusão de ser Deus. 

       Aliás, o que Sartre quis dizer ao cunhar o axioma de que “o inferno são os outros”? Não quis fazer entender que o próximo é demoníaco e, portanto, devemos nos enclausurar no mais ferrenho solipsismo. Quis denunciar que o olhar do outro pode confundir o meu modo de ser e anular a minha individualidade. É o caso de quem tem medo de ser o que é e transfere sua razão de viver para algum “pastor”, “guia” ou “mito” capaz de lhe indicar o caminho da “verdade” que haverá de libertá-lo. Vale lembrar que o demônio sempre se disfarça de anjo, sua primeira natureza.

       “Grande sertão, veredas”, de Guimarães Rosa, termina por ressaltar o paradoxo que angustiou toda a epopeia de Tatarana: existe ou não o Demo? O narrador, ao final, sublinha: “Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano.”

 

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

®Copyright 2021 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

COVID 19 QUINQUAGÉSIMA OITAVA REFLEXÃO -DIABOS E DEMÔNIOS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


 POR FREI ALOÍSIO FRAGOSO

     Desta vez vamos permitir que se infiltrem em nossa REFLEXÃO algumas figuras sinistras chamadas demônio, diabo, satanás. Há quem, só de medo de pronunciar seus nomes, prefere dar-lhes apelidos, tais como capeta, tinhoso, rabudo, coisa ruim, capiroto, suco de sangue e outros tantos.

     Considerando o sentido etimológico de cada um destes nomes, não há motivo para tanto medo. Demônio e diabo, palavras de origem grega,  significam "espírito maléfico" e "semeador da discórdia", enquanto satanás, de procedência hebraica, se traduz por "o inimigo".

     Assim sendo, cada um de nós já andou fazendo o papel de diabo ou satanás: sempre que praticamos a maledicência estamos diabolizando, dividindo; sempre que fazemos mal ao semelhante estamos satanizando, inimizando. (Hoje entendo porque minha mãe tinha razão quando chegava ao limite da paciência com nossas trelas de crianças, e gritava: "seus diabos!". Sim, éramos cinco diabinhos quebrando a paz da casa).

     Já na boca de numerosos pregadores religiosos, estes nomes viraram armas de grande efeito "pedagógico" com o fim de aterrorizar e controlar as consciências dos simples e dos escrupulosos.

     Afinal, como definir estes personagens?

     É difícil dar-lhes uma única definição. Eles resultaram da fusão de muitas crenças de variadas culturas em diferentes épocas. Carregam, no entanto, uma característica comum, constituem a personificação do mal, a representação do mundo das trevas. Mas traduzem nuances, graduações e funções diferenciadas, de acordo com essas tradições culturais.

     Na mitologia grega, "daimôn" se traduz por "espírito", não necessariamente espírito maléfico. Havia os eudaimones (do bem) e os cacodaimones (do mal). Vale lembrar que o substantivo grego "eudaimonia" quer dizer felicidade, o somatório dos espíritos benfazejos concentrados numa pessoa.

     Já no Budismo chamam-se Mara, uma espécie de opositor de Buda, fonte das ilusões, encarnação das forças antagônicas à iluminação.

     Para o Islamismo "shaitan" (satã) não possui poderes superiores, seu papel é apenas desencorajar os fiéis de obedecer aos preceitos de Alá.

     Algumas outras culturas absorvem estes nomes como simples metáfora designativa da disposição congênita de fazer o mal.

     Na passagem do Judaísmo para o Cristianismo, adquiriram uma relevância sempre mais crescente e abrangente, entraram decididamente no imaginário dos povos ocidentais e foram alimentados por discursos e imagens aterradores. Dante Alighieri, em sua "Divina Comédia", descreve uma verdadeira iconografia do inferno inspirada nestas crenças.

     Podemos imaginar o quanto estes personagens se prestaram para os interesses de dominação dos povos mais poderosos. Foi o que se deu durante a invasão das Américas  pelos  espanhóis e portugueses. O Novo Mundo virou a representação do Anti-Cristo, legitimando e facilitando, desta maneira, a destruição das culturas e o confisco dos bens dos indígenas.

     Ao longo dos séculos de escravidão negra, a imagem mais difundida  do 😈, com chifres, tridente, manto escuro e pele negra servia para satanizar as divindades de origem africana.

    Fora disso, suas figuras estavam associadas a todo tipo de dissidentes (judeus, muçulmanos, herejes, feiticeiras, cientistas, pensadores).

     Ainda hoje, a grande mídia, porta-voz das classes dominantes, continua diabolizando os movimentos sociais que combatem seus instintos de dominação (O MST é um exemplo)

     Na verdade, jamais houve época em que o mundo dos humanos não tenha sido permeado do sobrenatural. Não devemos julgar os fatos do passado com as lentes do presente. Compreende-se que, quanto mais fraca, inculta e desigual uma sociedade, tanto mais necessitava de acreditar no diabo como meio de reforçar suas bases éticas e morais, impedir a desconstrução da imagem do mal, e assim induzir pelo medo a boa conduta dos indivíduos.

    Nada, porém, legitima a terrível destruição de valores e vidas humanas que a manipulação destas figuras causou e ainda causa à Humanidade, ao longo da sua História.

     À luz destes conhecimentos, não é difícil identificar os que estão assumindo o lugar de satanás e do diabo  no enfrentamento à pandemia do coronavirus em nossa "pátria amada Brasil". Aqueles que, em seus discursos proclamam o nome de Deus e em seus projetos são guiados pelos demônios da cobiça, da divisão e do ódio.

    Quanto aos de pura intenção, o seu poder maior de exorcizar todos os demônios está nas palavras do apóstolo João: "A VITÓRIA QUE VENCE O MUNDO É A NOSSA FÉ"*1Jo,5,4.