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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

POSSE E TRANSCENDÊNCIA

Frei Aloísio Fragoso


     Estive presente na terceira posse de Lula. Lembrar este acontecimento como um simples registro histórico já valeria pelos 6 anos de espera e o preço de ansiedades que paguei por isso. No entanto, gostaria de expressar o que senti sem ver, o que transcende os fatos, a sua transfiguração. Algo semelhante ao que deve ter sentido o velho Simeão, segundo narra o evangelista Lucas. Quando Maria apresentou o Menino Jesus no templo, em obediência ao costume da época, ele tomou a Criança nos braços e exclamou: "agora, Senhor, pode despedir teu servo em paz, pois os meus olhos viram a salvação do meu povo" Lc.2,15-30.

     Depois de tudo o que vi e ouvi em Brasília, no dia primeiro de janeiro de 2023, já me dou por bem vivido e com direito a partir em paz.

     Dias antes de viajar, fui advertido por alguns amigos: "traga capa de chuva, aqui em Brasília está chovendo todos os dias". Deu-se o contrário do previsto. No dia da posse o sol brilhou desde a manhã até a noite e nenhum pingo de chuva caíu na cidade. Mera coincidência, dirão muitos. Eu digo o que senti e juro que foi algo transcendental. Senti o efeito mágico de 300 000 vozes cantando em uníssono "o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da pátria nesse instante".

     O mar vermelho da cor predominante transmutou-se de imagem de um Partido político para a simbologia do sangue, sangue real de corações, veias e lutas, cor do martírio de heróis  anônimos, do sacrifício cotidiano de um povo, sem o qual as cores da bandeira nacional esmaecem e viram ideologia neo-facista.

     Os gritos ininterruptos de "olê, olê, olá" soavam como ecos  de uma orquestra ensaiada em quatro anos de ansiosa espera e sofrida militância. 

     Desde o dia em que decidi participar desta posse, andei reprimindo uma sensação de medo, frente ao noticiário cotidiano de ameaças e violências. Esta sensação só cresceu logo que nosso avião aterrissou na Capital Federal e um grupo de passageiros se pôs a cantar "olê, olê, olê, olá, Lulá...." Contudo, no dia seguinte, a partir do momento em que nos acomodamos na Esplanada dos Ministérios e uma multidão incontável aglomerou-se em nossa volta, dissolveu-se o medo, naturalmente, como uma nuvem se dissolve, até desaparecer por completo. Nenhum sinal de tensão, somente emoção, alegria, expontaneidade. Nenhuma medida de segurança é capaz de impedir uma ação terrorista bem planejada. Só consigo entender este fenômeno como resultante de um energia coletiva, sublimada pela Fé, nutrida pela consciência do seu protagonismo histórico e projetada miticamente sobre a  pessoa de Lula.

     A culminância desta experiência mística veio em forma de surpresa, nos seus momentos finais: Lula subindo a rampa do Planalto, acompanhado por personagens representativos da população brasileira ( um índio, um negro, um deficiente físico, uma catadora de lixo, um operário de fábrica, uma trabalhadora doméstica, um professor universitário), sob o delírio e lágrimas da multidão. Foram estes os escolhidos para cumprir o rito solene de passar a faixa presidencial. E decerto o mundo inteiro entendeu o seu significado: era das mãos do povo que Luís Inácio Lula da Silva recebia o direito de governar a nação.

     No dia seguinte, reunimo-nos em um pequeno grupo para uma avaliação e partilha. Não conseguimos descrever verbalmente o que presenciamos. Abraços e lágrimas substituiram as palavras. Mas será perenemente inesquecível  o sentimento de que vivenciamos um capítulo transcendental da História do Brasil.


Brasília, 02/01/2023

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

AMOR E SENSUALIDADE, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO 


21/10/2021

     Segundo o livro do Gênese, no início da Criação, o Universo era apenas um imenso vazio. Então o amor de Deus começou a pulsar e todas as coisas passaram a existir. O mundo criado é, pois, uma expansão do amor divino. Sua substância, sua matéria prima é moldada no amor. Daí nascemos nós, por um ato de amor e, a vida inteira, travamos uma ardente batalha de amar e ser amados. Até sermos um dia mergulhados na eternidade onde, escreve S. Paulo, "Deus será tudo para todos".

     Este belo hino cósmico ao amor encontra fundamento na realidade? Uma coisa é o que é o amor, outra coisa, o que dele  fizemos. O próprio mundo que construímos para nossa habitação não o favorece, ao contrário, propõe objetivos que lhe roubam as condições de bom êxito.

     Haverá uma relação intrínseca que faça uma ponte entre amor, sensualidade e espiritualidade? Pagamos promessa da reflexão anterior, cedendo a palavra aos grandes místicos:

    Sto. Agostinho foi uma mente genial em falar coisas belas e profundas sobre este assunto. "Amor pondus meus", dizia ele, "o amor é meu centro de gravitação". E ousava "pressionar" o próprio Deus: "não me negues o que amo, Senhor, pois me deste o dom de amar". Contudo, jamais conseguiu conciliar os dois tempos da sua existência, os anos da juventude, repleto de aventuras sensuais, e os anos posteriores da sua conversão. Ao filho que teve, e amava ternamente, deu o nome de Deodato ( dado por Deus), mas também o chamou de "fruto do meu pecado". O grande Agostinho fica sendo um exemplo a mais das incoerências humanas, a que nem os santos escapam. Nele o amor sublimado acabou asfixiando o amor carnal e isso teve uma influência marcante na doutrina moral da Igreja até hoje.

     Sto. Tomás de Aquino, outro gênio do pensamento cristão, coloca, entre os primeiros anseios do amor, o êxtase. A pessoa movida pela paixão foge do habitual para o excepcional. A paixão o leva para fora de si e o põe em estado de êxtase.

     Sta. Teresa D'Avila, uma das maiores místicas do cristianismo, levitava com frequência. A lei da gravidade não podia deter o seu voo apaixonado para Deus

("vivo sem viver em mim e tão alto bem almejo que morro por não morrer", escreve ela).

     Engana-se quem pensa que os grandes místicos foram privados de todos os prazeres prometidos aos amantes. No mundo da transcendência eles descobriram um manancial de prazer incomparável e inesgotável. Só quem os experimentou sabe a diferença.

     A pandemia do coronavírus tem sido uma oportunidade ímpar de enxergarmos os paradoxos de uma sociedade mercadora de sensações hedonistas. Ocupada 24 horas em produzir objetos de consumo, ela não se dá conta do que se passa na alma dos seus clientes. O coronavírus, fazendo jus ao próprio nome, tirou-nos do trono de nós mesmos e devolveu-nos a nossa real dimensão; obrigou-nos a reavaliar nossas relações nas várias esferas da existência e repensar nossas vidas; derrubou os mecanismos montados para legitimar  as seduções e promessas do Mercado;  aniquilou de vez a confiança em quaisquer atitudes de auto-suficiência. Ao final, nos deparamos com uma verdade assustadora: nossos maiores inimigos somos nós mesmos.

     Por outra parte, trouxe-nos a certeza de como somos peças importantes, indispensáveis, para a sobrevivência do planeta. E mais, confirmou que a única referência insubstituível de prazer confiável e duradouro está na relação com nosso semelhante. Tudo isso pode significar uma guinada na concepção do amor humano, favorecendo o equilíbrio entre sensualidade e espiritualidade. O tempo dirá se a lição foi apreendida. Enquanto esperamos, anima-nos a advertência de S. Paulo: "ainda que se corrompa o nosso homem exterior, o interior se renova dia a dia" 2Cor. 4,16.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

 

domingo, 24 de outubro de 2021

Amor e Sensualidade, em Tempos de Coronavírus

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(23/10/2021)

 

     Qualquer pessoa que tenha feito uma experiência de amor real e profunda percebe que o amor fala linguagens diferentes, de acordo com as suas diferentes fontes vitais. A maioria das pessoas, contudo, na pressa de desfrutar de seus prazeres, limita-se a uma única linguagem, a dos sentidos, da sensualidade.  

     Vivemos numa sociedade onde há uma superabundância de estímulos sensuais externos (praias, out-doors, casas de show, bancas de revista, etc.). No entanto, quanto mais estímulos são oferecidos, tanto mais é preciso oferecer. O excesso de visibilidade comprova por si mesmo que esta sociedade encontra-se deserotizada. A sobrecarga de erotização destruíu o verdadeiro erotismo.

     Foi preciso criar uma nova terminologia enquadrada nestas circunstâncias; fala-se em "fazer amor" e em "fazer sexo". O amor foi partido em dois. Como se o sexo tivesse de pagar tributo ao amor, pagar-lhe uma taxa extra para redimi-lo do pecado. Isso porque se o prazer sensual fosse dispensado de qualquer sentido ético, a vida coletiva estaria sob ameaça.

     Os que querem ir mais a fundo neste assunto mergulham no estudo de Sigismundo Freud. Por motivo de ignorância, não me arrisco a jogar a rede em águas profundas; prefiro pegar peixe miúdo na superfície, apenas lembrando que, para Freud, todos os amores são derivados do amor erótico, todos estão ligados a uma base de energia psico-física chamada libido.

 

     Enquanto alguns poucos entendidos discutem Freud, uma procissão infinita de viventes vai desfilando e movendo-se à procura do único bem que conta com a aprovação unânime universal, o mais valioso e apreciado, o bem supremo: a felicidade. Segue esta multidão numa marcha apressada, competitiva e dispendiosa. Não há tempo de perguntar "o que é a felicidade?". Novento e nove vírgula nove por cento concorda, de antemão, que ela tem que ter o gosto inconfundível do prazer sensorial. Onde não houver prazer dos sentidos não há felicidade.

       Uns descobrem migalhas e outros miragens de felicidade. Uns se empanturram de objetos de consumo, outros vomitam de tédio. Alguns matam e outros se deixam morrer. Poucos fazem fortuna, a maioria empobrece. Uns desmaiam de overdose, outros, de fome. Não poucos enlouquecem. Ouve-se de longe a voz de uma criança "felicidade é o peixinho comer a isca sem se machucar no anzol". E ouve-se também a voz forte de uma jovem a cantar "felicidade é uma calça jean azul e desbotada". Um poeta com 80 anos desnuda as ilusões e escreve "há duas épocas na vida em que a felicidade está numa caixa de bombons"(C.D.A.). Enfim, um flósofo filosofa "estamos condenados a ser felizes" (Sartre).  Mas, aconteça o que acontecer, nada ou ninguém consegue deter a marcha inexorável e a multidão continua perambulando pelo mundo, sem ver o seu ser. Sucede, vez por outra, que alguém escapa e vai olhar à distância e percebe que toda essa multidão não é senão uma ilha. E se lhes abrem os olhos. Destes falaremos no próximo capítulo.

      Inesperadamente infiltra-se nesse meio um fantasma invisível. E por ser invisível, recebe um nome simbólico: coronavirus. Ele ataca e, ao mesmo tempo em que espalha dores e mortes, deixa lições inesquecíveis. Sendo a melhor delas a seguinte: O amor mais necessário e eficaz, na luta pela vida, tem sido amor desvinculado de seus componentes de erotismo e sensualidade. Vimos profissionais da saúde salvar vidas a preço de ingentes sacrifícios. Cientistas dia e noite isolados em suas pesquisas até alcançar a descoberta da almejada vacina. Pais e mães juntando suas últimas forças de reserva, a fim de garantir a harmonia da família, exaurida numa longa e compulsória quarentena. Anônimos trabalhadores de hospitais, garantindo a imprescindível higiene. E outros tantos preservando a dignidade  dos mortos, no ato de devolvê-los ao seio da terra. Heróis e heroinas desconhecidos, indiferentes ao risco da própria vida, desde que pudessem acompanhar cada instante dos seus entes queridos, que caminhavam para o fim.

     O que há de prazer sensorial nestes verdadeiros holocaustos   de amor ao próximo? Perguntemos aos seus protagonistas e os ouviremos falar de  uma satisfação transcendente, vivida na profundidade da alma, a que nenhum outro prazer se compara, vinda desta descoberta: "não há maior prova de amor do que dar a vida..." Jo.15,13.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

AMOR E MISERICÓRDIA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (3)

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(19/10/2021)

 

     Dos personagens que protagonizam a Parábola do Filho Pródigo, nenhum está livre de polêmica e interpelação. Como não discordar do adolescente que decide abandonar a família sem uma razão justificável? Como aceitar a conduta do pai que o deixa partir e ainda lhe dá a herança, mesmo prevendo o fracasso final? Como explicar a reação do irmão mais velho que não se alegra com a volta do caçula e se nega a entrar na festa do perdão?

 

     Contudo, entre este último e os dois primeiros há enorme distanciamento de sentimentos. Enquanto o pai chora de alegria e o filho pródigo chora de arrependimento, ele permanece de coração fechado. Ficara em casa servindo nos trabalhos cotidianos. Cumprira seu papel de bom filho. Porém não se  anima com o retorno do outro. E enfrenta o pai com o argumento da justiça: "a mim o senhor nunca deu uma festa como esta que dá agora ao meu irmão que gastou todo dinheiro com as prostitutas".

 

     Qualquer tribunal humano lhe daria ganho de causa, pois o julgaria de acordo com os ditames do código penal. Mas Jesus nos coloca perante o tribunal divino, onde "a misericórdia triunfa sobre o julgamento" Tiago  2,13.

      (De passagem, vale lembrar nosso genial Ariano Suassuna, em seu "Auto da Compadecida". Quando tudo parecia perdido para João Grilo, no tribunal celeste, e nem Jesus encontrava uma saída, a Compadecida entra em cena e interfere: "Filho, João Grilo sofreu demais em vida para não merecer outra chance".)

 

     Esta passagem do Evangelho não trata do certo e do errado, trata sim do modo de agir de Deus. Se Ele nos julgasse segundo o rigor do que é certo e do que é errado, o que seria de nós?  Ao fazer uso da razão pura, o filho mais velho achou motivo de fechar o coração, e, ao mesmo tempo tempo, nos deu motivo de levantar algumas dúvidas: será que ele ficou em casa por amor à família ou por não ter tido a coragem de partir? Será que não acolheu o irmão  caçula movido pelo senso de justiça ou por despeito e inveja? Será que foi ao irmão que não quis perdoar ou a si mesmo,  por ter perdido suas próprias chances?

 

     Não somos meros funcionários da vida, somos seus parceiros, nascemos para criá-la, contrui-la e desposá-la como marido e mulher desposam um ao outro. Daí, quem não está bem com a vida, não consegue perdoar o pecador arrependido.

 

     Quanto a Deus, Ele não precisa dar explicacões, pois conhece as intenções mais secretas da alma humana. Ele ama não porque é amado, como se o amor fosse uma retribuição. Ama não para ser amado, como se o amor fosse uma negociação. Simplesmente ama, porque é Deus. E Deus é Amor.

 

     Antes que alguém me pergunte se a Parábola do Filho Pródigo se aplica também em favor dos que estão na cúpula do poder político do país, advirto: nesta parábola há um verbo que aparece vezes seguidas conjugado em vários tempos e modos: arrepender-se. Aí está uma condição "sine qua non" para o exercício da misericórdia. Embora não discrimine ninguém, ela não age unilateralmente, mas exige da pessoa agraciada, uma reação comprovada pela conversão de vida. Ela não cabe, por inútil, onde se permanece irredutível numa política  genocida  (no enfrentamente da covid)  e paulatinamente homicida e ecocida (na gestão da Economia). Nestes casos, a única chance de recuperar o direito à misericórdia seria um diagnóstico médico de psicopatia. Mas, então, estariam constitucionalmente impedidos de governar a nação. 

 

     Jesus deixa claro que  a Parábola do Filho Pródigo é só para os que se arrependem. "Não joguem pérolas aos porcos, pois eles vão pisoteá-las e, a seguir, vão atacar vocês" Mt.7,6.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

domingo, 17 de outubro de 2021

AMOR E MISERICÓRDIA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(15/10/2021)

 

     A "Parábola do Filho Pródigo", além de uma das páginas mais belas da Bíblia, é tida como uma obra prima da literatura universal. Sobre ela debruçaram-se alguns gênios da filosofia e da arte, com a intenção de sondar-lhe o tesouro de saber e mistério. Um destes foi o poeta pernambucano Augusto Frederico Schmidt. Ele descreve o que se passaria n'alma do irmão mais novo, no momento em que surpreende seus familiares com a decisão de partir.

 

      "Os seus olhos viviam escondendo desejos de fuga. Ele mesmo não sabia porque, mas se sentia diferente dos outros, dos que nasceram na vasta casa paterna, dos que trabalhavam com o pai no engrandecimento e na prosperidade da família. Sentia-se despreendido da velha árvore. Enquanto os outros dormiam e encontravam no abandono noturno a reparação das longas fadigas do dia, o filho pródigo era assistido pela miragem e a provocação dos seus sonhos."

 

     O poeta também nos convida entender as tensões do coração paterno. "Nada é tão triste como o olhar do pai que se despede do filho. Nada é tão triste como as mãos que se

levantam para a última  bênção sobre a cabeça de um jovem que um dia foi pequeno nos seus braços paternos e cresceu ao lado do pai protetor e vigilante e agora principia a pensar e caminhar por si mesmo..."

 

     Um dos maiores pintores da história foi Rembrant. Um dos seus quadros mais famosos retrata o exato momento em que o terno abraço paterno acolhe o filho arrependido e humilhado. Sua face tem os olhos cegos. Ele os gastara perscrutando sombras na noite. Tentando descobrir no longe do caminho, sol a pino, o vulto do filho regressando. Cego também por não querer ver a culpa do filho. Sem contar as lágrimas escondidas. No centro do quadro observa-se o milagre das suas mãos: uma rude e grossa, é mão de homem; outra longa e fina, é mão de mulher. O artista não consegue admitir, nessa estória, a ausência da figura materna. Parece querer dizer: "Deus é um pai que ama como uma mãe.

 

     André Gide, dos mais renomados escritores franceses do século passado, escreveu "O Regresso do Filho Pródigo". Ele o imagina num encontro individual com um por um dos familiares,  cada qual reagindo ao seu modo. A mãe a reclamar a dor da saudade. O pai, a falta de mais um operário nos trabalhos da família. O irmão mais velho, a irresponsabilidade. No entanto, surge uma surpresa em cena: um terceiro filho que nascera na sua ausência. Este chorava inconsolável. Interpelado, desabafa: todos os dias sonhava acordado com o irmão distante. Era seu herói. Era seu idólo. E agora, na mesma noite em que decidira partir também, aquele volta e destroi os seus planos.

 

     Partir é uma sina irrecusável do desenvolvimento humano. Onde estaríamos muitos de nós, se nossos avós não tivessem trocado as brenhas do sertão pela cidade grande, onde seus filhos pudessem estudar, doutorar-se, "ser gente na vida" (dizia minha mãe).

 

     Durante estes meses sombrios do coronavirus, assistimos a cenas  extraordinariamente tocantes de partidas e regressos. Pessoas queridas contagiadas, trocando o abrigo do lar pelo hospital e, em seguida, a enfermaria pela UTI. O olhar apreensivo de parentes, disfarçando o medo com sinais de esperança. Outras tantas vezes, o regresso dos que se curavam, como um cortejo jubiloso, para o abraço e a festa inesquecível da família.

 

     No entanto, muitos foram infectados porque relaxaram o isolamento doméstico, em busca de aventuras proibidas.

 

     Na verdade, os filhos pródigos, figuras que se reproduzem sempre de novo na história, não regressam para abdicar de ser livres, mas sim para recomeçar o longo aprendizado da liberdade.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

AMOR E MISERICÓRDIA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(11/10/2021)

 

 

     Desde o aparecimento do "homo sapiens" no planeta terra, quantos palavras já foram escritas para se falar de amor? - Só Deus sabe (entenda-se isso ao pé da letra). Poucas, no entanto, alcançam o encanto e a riqueza de um breve trecho bíblico:   " A Parábola do Filho Pródigo". Na verdade, ela trata do amor de Deus, porém encerra o que há de melhor e mais sábio em favor do amor humano.

 

     Logo de início traz uma lição profunda sobre o mistério da liberdade. Nada faltava ao filho mais novo no seio da família, exceto uma só coisa: espaço suficiente para realizar seus sonhos. Autorizado pelo pai, ele partiu, sentindo-se finalmente livre, não porque antes se sentisse escravo, e sim porque a pessoa é sempre maior do que sua casa, maior do que suas posses, maior do que seus laços de sangue e parentesco.

 

     Esta lição tem origem em Deus. Ele deixa-nos partir em qualquer direção, mesmo na direção contrária à sua vontade. Isso nos torna responsáveis pelo caminho de ida e volta. Daí porque tantas pessoas tem enorme dificuldade de ser livres e, de bom grado, trocariam o liberdade pela segurança; adorariam ter a mão segura e poderosa de um super pai guiando-as a cada passo do caminho. Este pai não seria Deus. Ele nos deixa livres, ainda que pressentindo que chegaremos ao fundo do poço. "Eis que vos coloco na encruzilhada do caminho entre a vida e a morte. Escolhei!", declara o livro do Eclesiástico.

      O filho pródigo partiu porque queria partir. O pai deu-lhe a bênção e a herança porque não lhe comprazia a presença compulsória do filho. Quem se contenta em ser amado sob pressão?

Deixar partir, pois, é um sacrifício que o amor exige, a serviço da vida.

      No mundo pragmático em que vivemos, sucesso ou fracasso se mede pelos resultados contábeis. O filho pródigo perdeu anos de vida, estragou a saúde, desperdiçou a herança, sofreu fome e solidão, foi humilhado a ponto de lhe ser negada a comida jogada aos porcos. Mas os critérios da misericórdia são outros, são ditados pelas saldos morais: o filho pródigo aprendeu o caminho de volta às suas origens, voltou mais experiente e sábio,  mais consciente do que é ser filho, mais preparado para ser pai. E aprendeu a lição mais decisiva da vida, a que só se aprende sozinho, através de acertos e desacertos.

      Afinal o que é a misericórdia? Ela é o amor chegando à sua última consequência, o amor da absoluta gratuidade; ela chega na hora em que o amor

 é injustamente ferido; é o amor que abdica de si mesmo e não pergunta se o outro merece ou não merece, antes de se dar, mas simplesmente entrega-se.

      Logo se vê que não há a mínima chance de a misericórdia infiltrar-se em alguma brecha das estruturas do Sistema Capitalista. Este deixaria de existir se, por um só dia, a adotasse.

      Permitam-me, neste momento,  partilhar um fato no qual tive uma pequena participação como coadjuvante. Uma amiga de muitos anos, de idade avançada, modelo excepcional de uma fé heróica, testou covid positivo e a morte a levou do nosso meio em poucos dias. Teve a graça de ver atendido o seu último desejo: "se isso acontecer comigo, não me deixem sofrer muitas dores". Desde então a família vive uma silenciosa e dolorida tensão emocional.  Foi um dos filhos que, voltando de uma viagem, contagiou-a dentro de casa, em seu cauteloso isolamento doméstico. Como superar o possível ressentimento familiar, em favor da harmonia

e da tranquilidade das consciências? Com o exercício da misericórdia. Nenhum filho faria isso em sã consciência. Nenhuma mãe o condenaria por isso. Toda boa mãe se sacrificaria pela paz da família. Que prevaleça, pois, o amor misericordioso.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

domingo, 10 de outubro de 2021

AMOR E PARÁBOLAS, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(08/10/2021)

 

     Em nossa Reflexão anterior apreciamos uma parábola narrada por Jesus, em resposta a um doutor da lei que se aproximou e perguntou-lhe "qual o maior mandamento da Lei?"  Na verdade, o doutor da lei não buscava resposta para algo que ele já conhecia sobejamente; sua intenção era outra, era discutir religião em público, o que, naquela época, era motivo de vanglória e prestígio.

 

     Jesus então conta-lhes uma parábola baseada em fatos reais, e todos os presentes se sentem flagrados. Os personagens da narrativa acham-se ali, no meio deles: era um sacerdote, um levita e um samaritano. O primeiro, figura conceituada, ungido como representante do  povo junto a Javé. O segundo, servidor do templo, ministro do culto. Por fim, quem era o terceiro?  Um intruso, execrável, alvo de ódio e desprezo, por conta de uma longa história de rivalidades entre a Judéia e a Samaria. 

 

        Para a maioria das pessoas ali presentes era um insulto a escolha do samaritano como o personagem

bom e solidário, o único a socorrer o pobre homem caído à beira do caminho. Jesus derruba uma muralha de ódios e preconceitos, que boicotava o mandamento do amor.

 

     A simbologia contida na parábola permite-nos dar-lhe outras configurações. Podemos imaginar Jesus dirigindo-se a nós, moradores de Recife. "Um certo cidadão caminhava pela Av. Agamenon Magalhães quando foi assaltado por marginais que o expoliaram e o jogaram sangrando à margem do asfalto. Aconteceu passar por ali um frade franciscano, dirigindo seu pálio cinza claro, viu aquele homem, compadeceu-se, mas, neste momento, o semáforo acendeu a luz verde e ele seguiu adiante, não podia atrapalhar o trânsito. Logo a seguir passou um pastor protestante, viu-o também, teve compaixão, mas, consultando o relógio, calculou que não daria para chegar em tempo ao culto, onde era seu dever pregar a Palavra de Deus. Foi adiante. Casualmente passou pelo mesmo caminho um morador da favela do Coque. Avistou o companheiro ferido, teve pena, colocou-o dentro da sua carroça de juntar papelão e conduziu-o ao Hospital da Restauração ali próximo. E permaneceu ao seu lado todo tempo, até ver tomadas as  providências indispensáveis.

 

     Como não imaginar a

 raiva surda das elites sociais preconceituosas e de algumas "respeitáveis" denominações religiosas, ouvindo a homilia de um "comunista" disfarçado de Jesus!

 

     Podemos altear mais o nosso vôo imaginário: Jesus discursa perante os representantes dos povos, reunidos na Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque. "Um certo país extremamente pobre do continente africano estava prestes a perder metade da sua população, contaminada pelo coronavirus. Logo o governo dos Estados Unidos prometeu uma ajuda humanitária, precisando antes resolver uns entraves burocráticos e políticos. Não tardou e o governo russo fez a mesma promessa, a ser cumprida logo após ficarem claras as  intenções dos norte-americanos. Porém, no dia seguinte ao grito do S.O.S. aterrissou no aeroporto da capital do país extremamente pobre um avião, trazendo a bordo uma centena de médicos cubanos. Estes apressaram-se em ocupar os hospitais improvisados do país, cuidando dos infectados. E aí permanecem até hoje.

 

     De repente muitos se deram conta de que a parábola do Bom Samaritano começava a converter-se em fatos reais. Notícias que a grande mídia sonega, mas são divulgadas nas redes sociais, confirmam: o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) doou mais de 5 mil toneladas de alimento e um milhão de marmitas no combate à pandemia da fome no Brasil, durante a tragédia da covid19. Além disso, por meio do trabalho de base das campanhas e brigadas  solidárias nas periferias urbanas e rurais contra o avanço da covid e da fome, foram formados mais de 2.000 Agentes Populares de Saúde, que distribuiram 30.000 máscaras de proteção para a população mais vulnerável ..." E mais e mais.

 

       Diz o Evangelho que, ao final da sua narrativa, Jesus perguntou ao doutor da lei: "qual destes agiu como o próximo do homem caído à beira do caminho? - !!! - Pois bem, vá e faça a mesma coisa" Cfr.Lc. 10,25ss

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

AMOR E PARÁBOLAS, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(05/10/2021)

   

     Todos os grandes pensadores da História, creio eu, alguma vez foram convidados a falar sobre o assunto do amor. Poucos ousaram dar definições, a maioria preferiu servir-se de metáforas e alegorias.

      Jesus não escaparia desta regra geral. No entanto, Ele sempre associava o amor a uma prática de vida. "Quem me ama cumpre  os meus mandamentos" Jo.14,23. Quando exigiam mais do que uma simples sentença, Ele contava parábolas, abertas à compreensão dos simples ou dos letrados.

      Uma destas parábolas narra que um doutor da lei, querendo pô-lo à prova, perguntou-lhe: "Mestre, qual é o maior dos mandamentos?" Como se ele mesmo já não o soubesse! Como se os ouvintes ali presentes já não o tivessem decorado! Como se a prática do amor precisasse antes de uma definição verbal!

     Jesus percebe de imediato a intenção do doutor da lei: fazer uma exibição pública de conhecimentos abstratos; preencher o tempo de provar o amor real com intermináveis e teóricas discussões. Então conta-lhes uma parábola, baseada em fatos reais.

       "Um certo homem caminhava de Jerusalém para Jericó e caíu nas mãos de assaltantes, que o  despojaram e o jogaram ferido à margem da estrada. Por ali passou um sacerdote e, a seguir um escriba; viram aquele homem e foram adiante.  Mas passou também um samaritano. Este desceu da sua montaria, tratou das feridas e permaneceu com ele até ter certeza da cura e da segurança. Cfr. Lc.10:25-37. Os dois primeiros pertenciam à elite dos cidadãos piedosos e fiéis praticantes da religião. Já o outro era uma figura detestada por conta de um longo histórico de ódios e preconceitos entre samaritanos e judeus.

      Escolhendo personagens do meio dos seus ouvintes, Jesus transfere a questão das bocas para as consciências, das teorias para o compromisso. Nega-lhes o benefício da neutralidade e a todos nivela na balança de direitos, deveres e dignidade.

      Aí está uma parábola perpetuamente atual. Ela acontece também entre pessoas de boa vontade. Quantas vezes os "anjos" se reúnem horas seguidas para refletir e planejar, enquanto os "demônios" entram em campo e agem, agem, agem! Quando finalmente os "anjos" decidem partir para a ação, o estrago está feito. Então eles voltam para casa  e dizem: precisamos rezar mais tempo pela conversão dos pecadores.

 "E quem é o meu próximo?" Perguntou o doutor da lei.

      Em meio a atual catástrofe sanitária e política do país, os detentores do poder usurpado determinam a lista dos que devem ser excluídos desse direito. Até sobrarem os elementos da única definição admissível: "meu próximo é quem concorda comigo e com os meus projetos". Os outros são execráveis comunistas, inimigos da "pátria amada Brasil".

      A pandemia do coronavirus expôs suas entranhas aos olhos do mundo. No dia 28 de janeiro do ano em curso, diversas entidades religiosas (CONIC, CIMI, CNBB) entregaram à ONU um Documento denunciando seus crimes hediondos com palavras fortes: "a pandemia no país é alimentada por uma conduta política, econômica e social contraditória, negacionista, indiferente à dor, que está ampliando as profundas desigualdades (....) As populações mais afetadas por esta política são as pessoas negras e indígenas, fortalecendo assim o racismo estrutural da nossa sociedade" (....) 

     Contudo, é indispensável considerar também a outra face da realidade, a que nos comove e convence. Para isso voltaremos ao assunto.

      Enquanto isso, não nos é difícil imaginar a razão por que o sacerdote da Parábola do Samaritano passou indiferente pelo corpo ferido e abandonado. Ele tinha pressa de chegar à Sinagoga e  cumprir sua tarefa de pregar a Palavra de Deus. Mas Deus ficou  ali, caído à beira do caminho.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

domingo, 3 de outubro de 2021

AMOR EM EXEMPLOS, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


 FREI ALOÍSIO FRAGOSO

(27/09/2021)

  

     Qualquer um que se proponha a falar deste assunto corre o risco de ser repetitivo, por uma razão muito simples: tudo já foi dito sobre o amor, em milhões de anos em que  esta tem sido a mais irrecusável das necessidades humanas.  Isso não lhe tira a novidade quando se leva em conta que cada pessoa é única, irrepetível e, consequentemente, a experiência amorosa de cada uma é original e nova.

 

     Relembremos algumas destas experiências, tidas como exemplares porque encerram algo comum a todos nós, à nossa grandeza e à nossa pequenez.

 

        Fora do âmbito da Fé, os apreciadores da poesia decerto conhecem a poetisa portuguesa Florbela Spanca e se comovem com a sua tragédia pessoal. Seus poemas revelam uma verdadeira  obsessão  pelo tema do amor. Um deles começa dizendo "minha alma de sonhar-te anda perdida, meus olhos andam cegos de te ver.... " e termina com um arremate místico: "podem voar mundos, morrer astros, que tu és como Deus, princípio e fim". Aí está a utopia do amor humano, transcender o limite do tempo.  Fracassada em seus amores, Florbela suicidou-se. Mas continua venerada pelos  seus conterrâneos, como poetisa e como pessoa. É que a humanidade admira quem leva o amor até as últimas consequências, mesmo que acabe em loucura.

 

       No campo do testemunho cristão, lembro um exemplo incomparável, que avalio como prova suprema de amor ao próximo.O missionário espanhol Pedro Claver, nascido no ano de 1580, morreu aos 74 anos de idade e viveu mais de 40 destes anos nos porões dos navios negreiros vindos da África. Revoltado com o comércio de seres humanos, ele fez um voto na sua juventude: "serei escravo dos escravos". Todos os dias ele os esperava no porto de Cartagena, Colômbia, um dos maiores entre-postos do comércio de escravos das Américas, nos séculos XVI e XVII. Chegavam  semi-mortos, doentes no corpo, feridos na alma. Pedro Claver descia aos porões escuros e fétidos e, durante semanas  curava-lhes as chagas e o desespero. Por suas mãos teriam passado cerca de 300.000 escravos. Morreu vítima de uma epidemia de peste. Ao canonizá-lo, o Papa Leão XIII declarou: "Pedro Claver é o santo que mais me impressiona, depois do próprio Cristo".

 

      Ao conhecer exemplos que a História dos Povos imortalizou, consideremos que eles devem ser vistos como uma referência, não como modelos acabados. Eles são exemplares porque outras pessoas os complementaram; o anonimato destas pessoas não lhes tira o mérito compartilhado com esses heróis e heroínas. A História seria injusta se não fosse supervisionada pelo Olhar Divino, que "vê o que está oculto e dá a cada um a merecida recompensa" cfr. Mt. 6,6.

 

     A tragédia do coronavirus  abriu a consciência do médico  pneumologista Ivan Mendes Ribeiro e seu depoimento nos serve de lição: "Na minha formação o foco era no profissional médico, na sua atuação. Agora vejo claro que, quando se vai para a prática, descobre-se que sozinho a gente não é nada. O pneumologista precisa do enfermeiro qualificado que mereça a sua confiança; do fisioterapeuta qualificado, para cuidar da reabilitação; do técnico de enfermagem qualificado, para preparar o medicamento; do profissional de limpeza competente, para manter o hospital limpo. Sozinho não se consegue absolutamente nada".

 

      Caso se possa imaginar algum acréscimo de alegria no céu, imagino a alegria de S. Paulo, vendo comprovadas estas suas palavras: "Vós sois o Corpo de Cristo e cada um de vós é um de seus membros.(....). O olho não pode dizer à mão "eu não preciso de você". Nem a cabeça pode dizer aos pés: "dispenso a ajuda de vocês". Pelo contrário, os membros do corpo que parecem os mais fracos são os mais necessários" Cfr.1Cor. 12,1ss.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

AMOR E SOCIEDADE, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(24/09/2021)

 

     Crendo antes que o amor humano é dom divino e transcende tempos, espaços, raças, culturas e classes sociais, me atrevo a levantar uma questão: o modelo de vida imposto pelo atual Sistema dominante favorece ou boicota a prática do amor? Eu mesmo não ousaria dar uma resposta que não fosse dialética: nem um "não" total nem um "sim" absoluto.

 

     De tanto produzir o virus do individualismo, o nosso modelo de sociedade hedonista gera o seu antídoto: a sede de autenticidade. O fracasso da tecnologia em cumprir suas promessas de felicidade provocam o retorno a valores tradicionais, tidos em conta de envelhecidos e inúteis. Por outra parte, a sociedade de consumo oferece o produto pronto para uso imediato; você o adquire, utiliza, deleita-se, joga fora a embalagem e recomeça a inútil maratona à procura do objeto que sacie sua insaciável fome de ser feliz. Não se exige esforço prolongado, não há necessidade de ser inteligente, criativo, original. Basta que se abram os olhos e a bolsa. Num mundo de cidadãos e cidadãs continuamente apressados, uma oferta assim seduz como um presente de deuses.

 

    O que tem isso a ver com o amor? -  Muito! Considere-se que este shopping-center global em que virou o planeta terra exibe milhões de objetos do desejo acessíveis às pessoas que se amam, tornam-se formas de dar materialidade aos seus sentimentos e emoções. Prova disso é a superlotação das lojas nos dias convencionados para se demonstrar amor: dia da criança, dia dos namorados, dia das mães, etc.

 

     Ora, o verdadeiro amor não se contenta com coisas prontas, acabadas. Ele esconde em si um impulso criativo. Ele mesmo quer gerar e criar, e se compraz em aventurar e correr riscos. Nunca se tem certeza sobre o final de suas iniciativas. Os seus parceiros não são pré-moldados, seu bom êxito não tem garantia antecipada, não  lhe adianta publicidade,  somente a eles, os parceiros, cabe construir a unidade que supõe diversidade. Em suma, a mais perfeita tecnologia não casa com a utopia do amor que visa crescer e perpetuar-se.

 

     Todos os amantes do mundo sabem disso teoricamente. Na prática, a frágil natureza humana, fustigada pela máquina de consumo e produção, prefere ter em mãos o que é mais fácil, imediato e prazeiroso. E facilmente se confunde o objeto do desejo com o sujeito do amor. Reduz-se o amor ao simples desejo. Daí a catástrofe das relações provisórias e descartáveis, com prazo de validade determinado pelo tempo em que durar a satisfação.

 

     A pandemia do coronavirus chegou desmontando todos estes esquemas armados pelo Poder Econômico. Suas lojas esvaziaram-se e redescobrimos os lugares onde amar é construir vidas e outros onde amar é salvar vidas: o convívio familiar, os leitos dos hospitais, os espaços de socorrer os amedrontados, de estar atento aos solitários, de solidarizar-se com os parentes das vítimas, de revalorizar os pequenos gestos, as palavras confortantes, as coisas simples, os protestos em prol da saúde pública, a fé engajada.

     Aprendemos que a essência mais íntima do amor está na doação.

 

     Esvaziaram-se também os templos, e compreendemos que Deus não se deixa confinar, que Ele mora no mundo, usa nossos trajes e estar a nos dizer o tempo todo: "o que fizerdes a estes, é a mim que estais fazendo". Reaprendemos, enfim que o amor não termina na experiência que dele fazemos, pois tudo que amamos pode ser tirado de nós, mas o amor não; ele sempre volta, em outras  formas ou em outras pessoas.

 

     Enquanto pressentimos o fim da pandemia, escutemos a advertência de Jesus a Nicodemos, que o foi procurar nas trevas da noite: "em verdade, em verdade te digo: quem não renascer não verá o Reino de Deus" Jo.3,3.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

domingo, 26 de setembro de 2021

AMOR E ECOLOGIA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(21/09/2021)

 

     Hoje em dia faz boa figura quem passeia com seu cãozinho de estimação, em público, e lhe faz afagos, os mesmos que faria a uma pessoa querida. A ideia de fraternidade planetária ultrapassa a fronteira do exclusivamente humano, deixa de ser utopia de poucos, universaliza-se.

     Também faz sentido por em questão os fundamentos desta nova visão ecológica. Ela se funda no puro pragmatismo, no mero instinto de sobrevivência,  ou num sentimento místico, numa eco-espiritualidade?  Frei Leonardo Boff afirma "chegamos a um ponto da história em que percebemos a possibilidade de auto-destruição." Que diferença faz uma ou outra destas concepções?

     No ano de 1987 o Papa João Paulo II proclamou S. Francisco de Assis Patrono da Ecologia. Ele o fez atendendo a um apelo de ecologistas de todas as partes da terra. S. Francisco é visto como um arquétipo da humanidade, alguém no qual homens e mulheres se projetam e refazem sua crença na possibilidade da perfeição humana.

     É indispensável, no entanto, uma visão crítica sobre o Francisco ecológico, a fim de superar uma tendência reducionista, que se limita ao formato romântico-holístico e exclui sua natureza revolucionária. É o que se evidencia no singelo poema de Vinicius de Morais: "lá vai S. Francisco pelo caminho, de pé descalço, tão pobrezinho, bebendo água no ribeirinho, cantando à noite pros passarinhos. Lá vai S. Francisco, de pé no chão, levando nada no seu surrão, dizendo ao fogo "bom dia, amigo", dizendo ao vento "saúde, irmão....".

 

      Historicamente, S. Francisco rebelou-se contra a estrutura social do seu tempo (séc.XIII) em que todo acesso à festa da vida tinha um preço e era o preço do Mercado. Ele se pôs a esboçar uma nova mundivisão onde a felicidade tinha que ser universal e gratuita. E decidiu começar, ele mesmo jovem, rico e pródigo, começar do nada, nada cobiçar e nada possuir. Todas as coisas são dons gratuitos de Deus. Seu olhar sobre o mundo é de absoluta gratuidade.

     A consequência prática foi o que tinha que ser: ruptura com o pai, rico comerciante e, consequentemente, com a sociedade que este representava. Só lhe restou trocar de lugar social, mudando seu endereço do meio dos mais ricos para o meio dos paupérrimos.

    O resto da sua vida foi a saga de um louco: "O Senhor me chamou pra ser um novo louco no mundo", escreve em seu testamento. O que  resultou dessa loucura?  Sigismundo Freud responde ao reconhecer nele o ser humano que mais longe levou a expressão do amor, capaz de criar laços entre os seres mais estranhos.

     Hoje muitos tentam reencontrar a natureza com intenções variadas, seja com finalidade terapêutica ou um sentimento holístico ou uma condição tardia de sobrevivência. S. Francisco procura as criaturas respeitando desde o início, sua identidade original. Não as procura com o intuito de possui-las, de usá-las, mas sim de irmanar-se com elas. Para ele uma flor é sempre uma flor e não um objeto de decoração de nossa sala. Um cachorro é um cachorro e não um guarda fiel da nossa casa. Ao contrário da maioria, que só consegue amar as coisas, prendendo-as a si, só consegue apreciá-las adquirindo-as e, logo que as possui, confinando-as.

 

     A cupidez da posse impede a contemplação da beleza, impede o desfrute do prazer que os seres vivos só partilham com quem não os faz sentir-se ameaçados. É desta maneira que S. Francisco resgata o dom natural, que perdemos há milhões de anos, de comunicar-nos harmoniosamente com as demais criaturas.

     A pandemia do coronavirus obrigou os entendidos e os que querem entender, a avançar mais em suas pesquisas e descobertas. Cedamos a palavra a um epidemiologista de renome internacional, o africano Bernard Bentt: "A crescente aproximação entre animais selvagens e humanos, a invasão de seus habitats naturais, as mudanças climáticas, o tipo de desenvolvimento econômico e de urbanização facilitam a disseminação de patologias entre seres humanos e animais. Quando degradamos seus ambientes selvagens ou estabelecemos nossos assentamentos em suas áreas, tornamo-nos parte do eco-sistema e do ciclo selvático de transmissão viral que ocorre entre animais das florestas".

     Em suma, a natureza sabe cuidar de si mesma. O nosso papel é conservá-la e proteger sua biodiversidade. S. Francisco nos ajudaria a reaver cristãmente a antiga crença mitológica no amor cósmico; segundo esta, nada do que possui vida sobrevive sem o impulso de uma energia amorosa. E assim todas as criaturas seriam vistas como uma universal teofania.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

AMOR AO PRÓXIMO E AMOR A DEUS, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (4)

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(17/09/2021)

 

     Retornamos ao ano de 1643 a fim de continuar apreciando a pregação do maior orador sacro da língua portuguesa, desta vez com o propósito de conclui-la. Tendo apontado três remédios eficazes para curar o amor enfermo, Vieira encerra a série com o de efeito mais imediato: um outro amor maior.

 

     Pode acontecer que nem o remédio natural do tempo, nem o artificial da ausência nem o violento da ingratidão consegue curar a enfermidade do amor. Dizem que amor com amor se paga.  Mais certo é dizer que amor com outro amor se apaga. Assim como dois contrários não podem estar juntos em um só sujeito, assim também, no mesmo coração, não podem caber dois amores, porque o amor que não é inteiro não é amor. Também costuma-se afirmar que o contrário da luz são as trevas. Não é verdade. O contrário da luz é outra luz maior. Vejam as estrelas: no meio das trevas brilham e resplandecem mais, porém, em aparecendo o sol, desaparecem as estrelas. De modo semelhante, o melhor remédio para curar o amor enfermo é um outro amor maior.

 

     Ah, Senhor, que só o vosso amor, que não teve remédio, possa ser remédio para as loucuras do nosso. Remediai tantas cegueiras! Remediai tantos desatinos! Remediai tantas perdições! E pelo amor com que nos amastes até o fim, tenha hoje fim todo amor que não leve a Vós!

 

      Vieira prolonga-se bem mais tempo em sua eloquência e afirma  ao final: O verdadeiro amor não procura a causa nem o fruto. Se eu amo porque me amam, meu amor tem uma causa. Se amo para que me amem, estou buscando o fruto. Se amo porque me amam, é uma obrigação, faço o que devo. Se amo para que me amem, é uma negociação, procuro o que desejo. Quem ama porque o amam é agradecido. Quem ama para que o amem é interesseiro. Mas quem ama porque ama e para amar, sem outro porque nem para que, este ama verdadeiramente.

 

     Certamente Deus não espera que alcancemos tamanha perfeição no amor, mas convida-nos a procurá-la. Procurando-a sem visar resultados, muitos encontraram os melhores resultados, muito mais do que esperavam e almejavam. Esta é a utopia do amor, o dar tudo sem nada querer, para tudo possuir.

     Alguns sinais desta perfeição brilharam em meio às nuvens escuras do coronavirus. Mas não sem antes confrontar-se com as contradições humanas.

    A primeira comunidade onde se faz  o aprendizado do amor foi decerto a mais afetada pelos acontecimentos fora da sua esfera.

     Quanto tempo há de durar o impacto psicológico naquela criança que se deparou com o pai, à porta do elevador, e o viu recuar ostensivamente, e fugir do abraço carinhoso a que estavam acostumados? Quem o viu na cena estampada nas redes sociais, nem tão cedo esquecerá a perplexidade daquele olhar infantil.

      Outras questões foram se levantando e desafiando psicólogos e pedagogos. A convivência contínua, ininterrupta sob o mesmo teto familiar é humanamente suportável?  E é bemfazeja para lidar com crianças e adolescentes?  E mais: como definir a própria natureza do lar, ele é o único abrigo seguro onde os familiares devem permanecer o máximo de tempo, ou é, na verdade, o lugar para onde eles retornam com segurança, depois do aprendizado nas diversas esferas públicas, igualmente indispensáveis?

     Sobre estes assuntos, que se debrucem pedagogos e psicólogos. O certo é que as grandes crises fazem aflorar os paradoxos da natureza humana, expõem o que nela há de melhor e de pior. No entanto, o instinto de sobrevivência e o anseio de felicidade prevalecem. A humanidade venceu todas as pandemias da História. E está vencendo mais uma. Temos, pois, motivo de cantar o salmo 8, "Senhor, a tua presença irrompe por toda terra..."  e continuar batalhando contra o virus da pandemia moral, infinitamente mais letal do que o covid e que se infiltra no corpo sócio-político-econômico desta pátria amada Brasil.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor