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terça-feira, 28 de junho de 2022

Festas juninas e Ecologia

 Marcelo Barros


No momento atual que vivemos no Brasil, a cada dia, os movimentos sociais e o povo mais pobre têm ido às ruas para se manifestar pela Democracia. Em geral, por trás dessas manifestações, está a defesa da Constituição e o apelo para que o voto do povo seja respeitado. No entanto, toda manifestação popular pode ser ensaio de democracia. Um bom exemplo disso é o cuidado com o qual, em quase todo o Brasil, as pessoas preparam e organizam os festejos juninos.

Ainda há quem olhe as festas populares como expressões de mera alienação social. De fato, no tempo do antigo império romano, cada vez que alguma guerra se aproximava, ou uma lei iria tornar a vida mais difícil, os pensadores do império promoviam o que chamavam de “pão e circo”. Essa fórmula vigora até hoje em certos círculos do sistema opressor. Até hoje, jornais televisivos sem compromisso com a transformação do mundo alternam notícias de massacres e crimes com cenas de futebol. Depois de mostrar imagens da seca e fome no nordeste, filmam na mesma região algum forró de São João .

De fato, os festejos juninos têm origens pré-cristãs nas mudanças de estação. Na Bolívia, Peru e Equador, os índios festejam o ano novo andino. No Brasil, o povo faz brincadeiras caipiras, quadrilhas e comidas típicas de cada região. Algumas das danças juninas vieram das cortes da Europa e são hoje o que se chamam “quadrilhas” que ainda usam termos franceses e fazem as pessoas se vestir de caipiras e dançar como a nobreza de outros séculos. Assim, a própria história das festas juninas revela uma democratização de costumes, antes restritos aos nobres e dos quais os pobres se apropriaram. Nos casamentos matutos, figuras como padres e juízes da roça são caricaturadas porque só se interessam por dinheiro e poder. Essas críticas revelam o modo como as camadas mais empobrecidas do povo podem expressar, democraticamente, suas críticas e seu protesto social. Mesmo o fato de tomar santos da Igreja Católica, como Santo Antônio, São João Batista e São Pedro para fazer festas que revelam resistência cultural é bom porque liga os santos com a realidade da vida dos pobres de hoje.

Uma consequência positiva da tragédia que é a crise política pela qual o Brasil passa nesses dias é que os movimentos sociais conseguiram superar suas diferenças e se uniram. Não é fácil organizar uma comunidade de bairro ou ajudar as pessoas a pensar criticamente e a criticar as notícias impostas pelos grandes meios de comunicação. Em geral, nos bairros e periferias, as pessoas, crianças, jovens e adultas, se organizam com muita disciplina para ensaiar a quadrilha, preparar as danças caipiras e brincar. As festas juninas revelam que nosso povo tem uma surpreendente capacidade de se organizar,  quando deseja e se o assunto é do seu mundo afetivo. Quem, de fora, vê os ensaios e a eficiência da preparação da festa, muitas vezes, de forma espontânea e sem dinheiro, pode desejar que essa mesma energia de unidade e de organização apareça na caminhada social e política das bases e na direção da luta pacífica para transformar esse mundo.

Mesmo que não seja de forma consciente, ao preparar as brincadeiras juninas, as pessoas revelam uma capacidade de união que não se restringe apenas a uma dança de quadrilha ou uma encenação caipira. Elas se tornam capazes de ensaiar uma sociedade nova na qual todos serão protagonistas. Assim, na alegria e de forma despretensiosa, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, parecem traduzir uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).

terça-feira, 2 de novembro de 2021

A civilização da Ecologia Integral

 Marcelo Barros


Neste mês de outubro, a ONU concluiu a primeira parte da 15ª Conferência Mundial sobre a Diversidade Biológica (COP 15). Por conta da segurança sanitária, os representantes de mais de cem países tiveram de se reunir, uma parte presencialmente em Kunming, cidade do sudoeste da China e a maior parte dos/das participantes de forma virtual. Da segunda-feira 11 à sexta, 15 de outubro, se reuniram os grupos de trabalho e concluíram pela publicação de uma “Declaração de Kunming” Este documento mostra um consenso sobre a urgência de salvar a biodiversidade no mundo. Para isso, propõe que, deste mês de novembro até 2030, a ONU consiga colocar sob a proteção a proteção internacional 30% das áreas de floresta e de biomas ameaçados, como também se intensifique a proteção dos oceanos. Em Kunming, foram representantes de 72 países que concordaram em priorizar a educação para uma “civilização ecológica”. Xi Jinping, presidente da China, anunciou a criação de um “fundo Kunming”. Isso significa a contribuição de 1, 5 bilhões de yuans (mais de 220 milhões de dólares) para apoiar a conservação da biodiversidade nos países considerados “em desenvolvimento”. Esse material será rediscutido e afunilado em mais uma sessão de trabalho em Genebra, durante o mês de janeiro de 2022, antes do documento final ser votado e decidido em seus detalhes, provavelmente em abril na China, quando se encerrará oficialmente a COP 15. 

Quem acompanha as notícias da imprensa sabe que o desafio maior é como conciliar as resoluções necessárias para salvar a biodiversidade com os interesses de lucro das empresas e dos governos que continuam considerando a natureza como matéria prima e como mercadoria. Representantes de grandes empresas multinacionais enviaram ao grupo reunido em Kuning uma carta na qual afirmavam: “Devemos reconhecer a amplidão da crise ligada à destruição da natureza. A natureza é essencial na luta contra as mudanças climáticas. Não pode haver comércio nem lucro em um planeta morto”.

Cada vez mais, fica mais claro para a humanidade que em um sistema social e econômico que coloca o lucro em primeiro lugar não existe possibilidade nem de biodiversidade, nem de civilização ecológica. Desde anos, o povo pobre que se reúne junto com as pastorais e movimentos sociais no Grito dos Excluídos tem como palavra de ordem: A vida em primeiro lugar.   Só é possível ver a terra como “casa comum” se a prioridade máxima de toda atividade humana passa a ser a vida. Quanto mais nos inserimos nesse caminho mais percebemos que não é possível salvar a biodiversidade em um mundo de injustiças sociais. Por isso, o melhor é falarmos em sociobiodiversidade, ou seja, um olhar que reúne os ecossistemas da natureza com a luta pacífica pela justiça social e o respeito às diversidades de gêneros, raças, culturas e religiões, além da justiça construída a partir dos direitos da classe trabalhadora e do povo excluído.

Nos Andes, a cultura ketchua mantém até hoje a noção do Pachacuti. Conforme essa visão, a colonização colocou o mundo de cabeça para baixo. É preciso reinverter a ordem do mundo de modo que se recomponha a harmonia entre os seres humanos e a natureza e os Espíritos das montanhas. Isso é o Pachacuti.

A Carta da Terra, documento aprovado pela UNESCO, como uma carta dos direitos da Terra, em um parágrafo citado pelo papa Franscisco na encíclica Laudato si, afirma: “O destino comum nos obriga a procurar um novo início. Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar de uma nova reverência face à vida., pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida” (LS 207).

 

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

 

 

domingo, 26 de setembro de 2021

AMOR E ECOLOGIA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(21/09/2021)

 

     Hoje em dia faz boa figura quem passeia com seu cãozinho de estimação, em público, e lhe faz afagos, os mesmos que faria a uma pessoa querida. A ideia de fraternidade planetária ultrapassa a fronteira do exclusivamente humano, deixa de ser utopia de poucos, universaliza-se.

     Também faz sentido por em questão os fundamentos desta nova visão ecológica. Ela se funda no puro pragmatismo, no mero instinto de sobrevivência,  ou num sentimento místico, numa eco-espiritualidade?  Frei Leonardo Boff afirma "chegamos a um ponto da história em que percebemos a possibilidade de auto-destruição." Que diferença faz uma ou outra destas concepções?

     No ano de 1987 o Papa João Paulo II proclamou S. Francisco de Assis Patrono da Ecologia. Ele o fez atendendo a um apelo de ecologistas de todas as partes da terra. S. Francisco é visto como um arquétipo da humanidade, alguém no qual homens e mulheres se projetam e refazem sua crença na possibilidade da perfeição humana.

     É indispensável, no entanto, uma visão crítica sobre o Francisco ecológico, a fim de superar uma tendência reducionista, que se limita ao formato romântico-holístico e exclui sua natureza revolucionária. É o que se evidencia no singelo poema de Vinicius de Morais: "lá vai S. Francisco pelo caminho, de pé descalço, tão pobrezinho, bebendo água no ribeirinho, cantando à noite pros passarinhos. Lá vai S. Francisco, de pé no chão, levando nada no seu surrão, dizendo ao fogo "bom dia, amigo", dizendo ao vento "saúde, irmão....".

 

      Historicamente, S. Francisco rebelou-se contra a estrutura social do seu tempo (séc.XIII) em que todo acesso à festa da vida tinha um preço e era o preço do Mercado. Ele se pôs a esboçar uma nova mundivisão onde a felicidade tinha que ser universal e gratuita. E decidiu começar, ele mesmo jovem, rico e pródigo, começar do nada, nada cobiçar e nada possuir. Todas as coisas são dons gratuitos de Deus. Seu olhar sobre o mundo é de absoluta gratuidade.

     A consequência prática foi o que tinha que ser: ruptura com o pai, rico comerciante e, consequentemente, com a sociedade que este representava. Só lhe restou trocar de lugar social, mudando seu endereço do meio dos mais ricos para o meio dos paupérrimos.

    O resto da sua vida foi a saga de um louco: "O Senhor me chamou pra ser um novo louco no mundo", escreve em seu testamento. O que  resultou dessa loucura?  Sigismundo Freud responde ao reconhecer nele o ser humano que mais longe levou a expressão do amor, capaz de criar laços entre os seres mais estranhos.

     Hoje muitos tentam reencontrar a natureza com intenções variadas, seja com finalidade terapêutica ou um sentimento holístico ou uma condição tardia de sobrevivência. S. Francisco procura as criaturas respeitando desde o início, sua identidade original. Não as procura com o intuito de possui-las, de usá-las, mas sim de irmanar-se com elas. Para ele uma flor é sempre uma flor e não um objeto de decoração de nossa sala. Um cachorro é um cachorro e não um guarda fiel da nossa casa. Ao contrário da maioria, que só consegue amar as coisas, prendendo-as a si, só consegue apreciá-las adquirindo-as e, logo que as possui, confinando-as.

 

     A cupidez da posse impede a contemplação da beleza, impede o desfrute do prazer que os seres vivos só partilham com quem não os faz sentir-se ameaçados. É desta maneira que S. Francisco resgata o dom natural, que perdemos há milhões de anos, de comunicar-nos harmoniosamente com as demais criaturas.

     A pandemia do coronavirus obrigou os entendidos e os que querem entender, a avançar mais em suas pesquisas e descobertas. Cedamos a palavra a um epidemiologista de renome internacional, o africano Bernard Bentt: "A crescente aproximação entre animais selvagens e humanos, a invasão de seus habitats naturais, as mudanças climáticas, o tipo de desenvolvimento econômico e de urbanização facilitam a disseminação de patologias entre seres humanos e animais. Quando degradamos seus ambientes selvagens ou estabelecemos nossos assentamentos em suas áreas, tornamo-nos parte do eco-sistema e do ciclo selvático de transmissão viral que ocorre entre animais das florestas".

     Em suma, a natureza sabe cuidar de si mesma. O nosso papel é conservá-la e proteger sua biodiversidade. S. Francisco nos ajudaria a reaver cristãmente a antiga crença mitológica no amor cósmico; segundo esta, nada do que possui vida sobrevive sem o impulso de uma energia amorosa. E assim todas as criaturas seriam vistas como uma universal teofania.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

ECOLOGIA EM FRAGMENTOS: AS PARTES NO TODO



por Leonardo Boff

O discurso ecológico procura ver o Todo nas partes e as partes no Todo numa rede de conexões que liga e re-liga todos os seres. Aqui apresento uns fragmentos do discurso ecológico em tópicos que nos tocam  diretamente.

1.A irracionalidade de nosso estilo de viver

O modelo de sociedade e o sentido de vida que os seres humanos projetaram para si, pelo menos nos últimos 400 anos, estão em crise.

Este modelo nos fazia acreditar que o importante é acumular grande número de meios de vida, de riqueza material, de bens e serviços a fim de poder desfrutar a curta passagem por este planeta.

Para realizar este propósito nos ajudam a ciência que conhece os mecanismos da natureza e a técnica que faz intervenções nela para benefício humano. E procurou-se fazer isso com a máxima velocidade possível.

Portanto, busca-se o máximo de benefício com o mínimo de investimento e no tempo mais breve possível.

O ser humano, nesta prática cultural, se entende como um ser sobre as coisas, dispondo delas a seu bel prazer, jamais como alguém que está junto com as coisas, convivendo com elas como membro de uma comunidade maior, planetária e cósmica.

O efeito final e triste, somente agora visível de forma inegável é este, expresso na frase atribuída a Gandhi: “a Terra é suficiente para todos, mas não para os consumistas”.

Nosso modelo civilizatório é tão absurdo que se os benefícios acumulados pelos países ricos fossem generalizados aos demais paises, precisaríamos outras quatro Terras iguais a essa que temos.
O que mostra a irracionalidade que este modo de viver implica. Por isso pede o Papa Francisco em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum”: uma radical conversão ecológica e um consumo sóbrio e solidário.

2. A natureza é mestra

Em momentos de crise civilizacional, como a nossa, é imperioso consultar a fonte originária de tudo: a natureza, a grande mestra. Que ela nos ensina?

Ela nos ensina que a lei básica da natureza, do universo e da vida não é a competição que divide e exclui, mas a cooperação que soma e inclui.

Todas as energias, todos os elementos, todos os seres vivos, desde as bactérias e os virus até os seres mais complexos, somos todos inter-retro-relacionados e, por isso, interdependentes. Um coopera com o outro para viver.

Uma teia de conexões nos envolve por todos os lados, fazendo-nos seres cooperativos e solidários. Quer queiramos ou não, essa é a lei da natureza e do universo. Por causa desta teia de interdependências chegamos até aqui.

É essa soma de energias e de conexões que nos ajuda a sair das crises e a fundar novo ensaio civilizatório. Mas nos perguntamos: somos suficientemente sábios para enfrentar situações críticas e responder aos novos desafios?

3. Tudo está relacionado com tudo

A realidade que nos cerca e da qual somos parte, não deve ser pensada como uma máquina mas como um organismo vivo, não como constituída de partes estanques, mas como sistemas abertos, formando redes de relações.

Vigoram duas tendências básicas em cada ser e no inteiro universo: uma a de se auto-afirmar individualmente e outra a de se integrar num todo maior. Se não se auto-afirma corre o risco de desaparecer. Se não se integra num todo maior, corta a fonte de energia, se enfraquece e pode também desaparecer. Importa equilibrar estas duas tendências. Caso contrário caimos no individualismo mais feroz – a auto-afirmação – ou no coletivismo mais homogeneizador – a integração no todo.
Por isso temos sempre de ir e vir das partes para o todo, dos objetos para as redes, das estruturas para os processos, das posições para as relações.
A natureza é, pois, sempre co-criativa, co-participativa, ligada e re-ligada a tudo e a todos e principalmente à Fonte Originária de onde se originam todos os seres.

4.Desde o começo está presente o fim

O fim já está presente no começo. Quando os primeiros elementos materiais depois do big bang começaram a se constituir e a vibrar juntos aí já se anunciava um fim: o surgimento do universo uno e diverso, ordenado e caótico, o aparecimento da vida e o irromper da consciência.
Tudo se moveu e se interconectou para dar início à gestação de um céu futuro que começou já aqui em baixo, como uma sementinha, foi crescendo, crescendo até acabar de nascer na consumação dos tempos. Esse céu, desde o começo, é o próprio universo e a humanidade chegados à sua plenitude e consumação.

Não há céu sem Terra, nem Terra sem céu.
Se assim é, então, ao invés de falarmos em fim do mundo, deveríamos falar em um futuro do mundo, da Terra e da Humanidade que então serão o céu de todos e de tudo.

Leonardo Boff é ecoteólogo e filsósofo e escreveu: De onde vem ? Mar de Ideias, Rio 2017.


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A URGÊNCIA DE UMA ECOLOGIA INTEGRAL


Por Leonardo Boff



Uma das afirmações básicas do novo paradigma científico e civilizatório é o reconhecimento da inter-retro-relação de todos com todos, constituindo a grande rede terrenal e cósmica da realidade. Coerentemente a Carta da Terra, um dos documentos fundamentais desta visão das coisas, afirma: ”Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes”(Preâmbulo, 3).

O Papa Francisco em sua encíclicas sobre O cuidado da Casa Comum se associa a esta leitura e sustenta que “pelo fato de que tudo está intimamente relacionado e que os problemas atuais requerem um olhar que leve em conta todos os aspectos da crise mundial”(n.137) se impõe uma reflexão sobre a ecologia integral pois só ela dá conta dos problemas da atual situação do mundo. Esta interpretação integral e holística ganha um reforço inestimável dada a autoridade com que se reveste a figura do Papa e a natureza de sua encíclica, dirigida a toda a humanidade e a cada um de seus habitantes. Não se trata mais apenas da relação do desenvolvimento com a natureza mas do ser humano para com a Terra como um todo e com os bens e serviço naturais, os únicos que podem sustentar as condições físicas, químicas e biológicas da vida e garantir um futuro para a nossa civilização.

O tempo é urgente e corre contra nós. Por isso, todos os saberes devem ser ecologizados, vale dizer, postos em relação entre si e orientados para o bem da comunidade de vida. Igualmente todas as tradições espirituais e religiosas são convocadas a despertarem a consciência da humanidade para a sua missão de ser a cuidadora dessa herança sagrada recebida do universo e do Criador que é a Terra viva, a única Casa que temos para morar. Junto com a inteligência intelectual deve vir a inteligência sensível e cordial e mais que tudo a inteligência espiritual, pois é ela que nos relaciona diretamente com o Criador e com o Cristo ressuscitado que estão fermentando dentro da criação, levando-a junto conosco para a sua plenitude em Deus (nn.100; 243).

O Papa cita o comovente final da Carta da Terra que resume bem a esperança que deposita em Deus e no empenho dos seres humanos: ”Que nosso tempo seja lembrado pelo despertar de um nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida”(n. 207).

Uma outra notável contribuição nos vem do conhecido psicanalista Carlos Gustavo Jung (1875-1961) que em sua psicologia analítica deu grande importância à sensibilidade e submeteu a duras críticas o cientifismo moderno. Para ele a psicologia não possuía fronteiras, entre cosmos e vida, entre biologia e espírito, entre corpo e mente, entre consciente e inconsciente, entre individual e coletivo. A psicologia tinha que ver com a vida em sua totalidade, em sua dimensão racional e irracional, simbólica e virtual, individual e social, terrenal e cósmica e em seus aspectos sombrios e luminosos.

Sabia articular todos saberes disponíveis, descobrindo conexões ocultas que revelavam dimensões surpreendentes da realidade. Conhecido foi o dialogo em 1924-1925 que Jung manteve com um indígena da tribo Pueblo no Novo México nos USA. Este indígena achava que os brancos eram loucos. Jung lhe perguntou por que os brancos seriam loucos? Ao que o indígena respondeu: ”Eles dizem que pensam com a cabeça”. “Mas é claro que pensam com a cabeça” retrucou Jung. “Como vocês pensam”? – arrematou. E o indígena, surpreso, respondeu: ”Nós pensamos aqui” e apontou para o coração (Memórias, Sonhos, Reflexões, p. 233).

Esse fato transformou o pensamento de Jung. Entendeu que o homem moderno havia conquistado o mundo com a cabeça mas que havia perdido a capacidade de pensar e sentir com o coração e de viver através da alma. A mesma crítica fez o Papa quando esteve na ilha italiana de Lampeduza onde centenas de refugiados se haviam afogado. “Desaprendemos a sentir e a chorar.”

Logicamente não se trata de abdicar da razão – o que seria uma perda para todos – mas de recusar o estreitamento de sua capacidade de compreender. É preciso considerar o sensível e o cordial como elementos centrais no ato de conhecimento. Eles permitem captar valores e sentidos presentes na profundidade do senso comum. A mente é sempre incorporada, portanto, sempre impregnada de sensibilidade e não apenas celebrizada.

Em suas Memórias diz: ”há tantas coisas que me repletam: as plantas, os animais, as nuvens, o dia, a noite e o eterno presente nos homens. Quanto mais me sinto incerto sobre mim mesmo, mais cresce em mim o sentimento de meu parentesco com o todo”( p. 361).

O drama do homem atual é ter perdido a capacidade de viver um sentimento de pertença, coisa que as religiões sempre garantiam. O que se opõe à religião não é o ateísmo ou a negação da divindade. O que se opõe é a incapacidade de ligar-se e religar-se com todas as coisas. Hoje as pessoas estão desenraizadas, desconectadas da Terra e da anima que é a expressão da sensibilidade e da espiritualidade.

Se não resgatarmos hoje a razão sensível que é uma dimensão essencial da alma, dificilmente nos movemos para respeitar o valor intrínseco de cada ser, amar a Mãe Terra com todos os seus ecossistemas e vivermos a compaixão com os sofredores da natureza e da humanidade.

Leonardo Boff, colunista do JB on line e escritor


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

ECOLOGIA HOJE: UMA APOSTA PELA VIDA

Por Leonardo Boff


          Há poucos pensadores no campo da ecologia que tentam ir às raízes da atual crise ecológica global. Um dos mais renomados é seguramente o mexicano Enrique Leff com seu mais recente livro: A aposta pela vida: imaginação sociológica e imaginários sociais nos territórios ambientais do Sul “((a sair pela Vozes). Além de professor e pesquisador, foi por vários anos o Coordenador da Rede de Formação Ambiental para a América Latina e o Caribe no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Acumulou muitas experiências que serviram e servem de base para a sua produção intelectual.

Dá ênfase à preocupação filosófico-social, pois seu interesse é decifrar os mecanismos que nos levaram à atual crise e como poderemos sair bem dela. Portanto, estuda as causas metafísicas (a concepção do ser e da realidade) e epistemológicas (os modos de conhecimento) em suas diversas ontologias (determinações sociais, políticas, culturais e do mundo da vida, entre outras).

Procede a um detalhado trabalho de reconstrução da ecologia social e da ecologia política: como surgiram e evoluíram face à crescente crise ecológica, especialmente ao aquecimento global. Essa parte é relevante para quem quiser conhecer os meandros dos discurso ecológico em suas diferentes tendências.

A pergunta que atravessa todo seu texto, denso, rico em referências bibliográficas de várias ciências e tendências, se concentra nesta questão: como estabelecer as condições adequadas à vida num mundo feito insustentável?

A resposta demanda duas tarefas:

A primeira é a demolição dos pressupostos equivocados da modernidade com sua racionalidade técnico-científica-utilitarista e vontade de dominação de tudo: de territórios, de povos, da natureza e dos processos da vida; realiza esta diligência com uma argumentação cerrada, citando as autoridades filosóficas e científicas mais sérias, sempre salvaguardando o que é irrenunciável mas denunciando como esse tipo exacerbado de racionalidade levou a uma crise civilizatória global com processos insustentáveis e hostis à vida, podendo levar, em seu termo final, a um colapso de nossa civilização.

A segunda consiste na criação de uma nova consciência e o sentido de um destino comum Terra-Natureza-Humanidade. É a parte mais criativa. Auxilia-o a teoria da complexidade e do caos; discute o sentido da sustentabilidade como princípio de vida e de imperativo da sobreviência. Interroga as várias teorias do surgimento da vida e sustenta a tese de F. Capra segundo o qual a vida se originaria do metabolismo entre matéria e energia, gerando redes autogenerativas que liberam os fluxos da vida.

Detalha os diferentes modos de se reconstruir e de se apropriar da natureza, respeitando seus ritmos e ciclos.

Contrariando o paradigma vigente de apropriação privada da natureza e dos fluxos vitais em função do enriquecimento, sabendo apenas modernizar sem ecologizar os saberes, postula vários imaginários alternativos de organizar a Casa Comum, consoante as diferentes culturas nas quas a identidade e a diferença são trabalhadas de forma integradora. Valoriza especialmente a contribuição andina do “bien vivir”. Mais que uma filosofia de vida é uma metáfora de um mundo em harmonia com o Todo. O sumak kawsai (bien vivir) engloba práticas sociais nas quais se expressam as relações dos povos com o cosmos, com seu território, seus ecossitemas, suas culturas e suas relações sociais.

A parte final nos comunica grande esperança: o crescimento a nível mundial através de incontáveis movimentos e experiências locais que revelam a capacidade das populações de resistir à razão econômica, instrumental e utilitarista vigente. Os países centrais que já exploraram praticamente quase todos os seus serviços e bens naturais tentam recolonizar especialmente a América Latina para que seja uma reserva destes bens para eles. Na nossa visão latino-americana, tais “bondades da natureza” como dizem os povos originários, constituem a base para os direitos da natureza e da Terra tida como a Pachamama, para os direitos culturais e ambientais que concretizam outras formas de habitar a Casa Comum e de se beneficiar de tudo o que ela nos oferece para viver em harmonia.

Aqui se revela uma nova aposta pela vida, que não a ameaça, mas dela cuida, cria-lhe as condições de sua permanência sobre a face da Terra e lhe garante as condições de co-evoluir e constituir-se num bem a ser herdado pelas gerações que virão depois de nós.

Este livro de Leff é um alento para aqueles que uma vez despertaram para a crise ecológica, não se resignam diante das estratégias de dominação dos poderosos, mas resitem e ensaiam novas formas de convivência, de produção, de consumo e de cuidado e respeito para com todos os seres especialmente pela grande e generosa Mãe Terra.

É um livro necessário que vai na linha exposta com grande força pelo Papa Francisco em sua encíclica sobre “o cuidado da Casa Comum.

Leonardo Boff é colunista do JB on line e escreveu: Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 2002.

 


quarta-feira, 8 de julho de 2015

O CÂNTICO DAS CRIATURAS E A ECOLOGIA INTEGRAL: DOIS FRANCISCOS SE ENCONTRAM, O DE ASSIS E O DE ROMA

por Juracy Andrade

“A política não deve se submeter à economia e esta não deve se submeter aos ditames e ao paradigma ‘eficientista’ da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje é imperioso que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente a serviço da vida humana. A salvação dos bancos a todo custo, fazendo a população pagar o preço, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois de longa, custosa e aparente cura.” Estas palavras dão o tom da recentíssima encíclica do papa Francisco Laudato si’, palavras iniciais de uma poesia de São Francisco de Assis, o Cântico das criaturas.

Creio que é a primeira vez que um papa trata do aspecto teológico da ecologia e coloca esse hoje tão preocupante aspecto da natureza em relação direta com a vida humana. E é certamente a primeira vez que um líder da cúpula da Igreja levanta uma bandeira da Teologia da Libertação, tão abominada por seus imediatos antecessores, o papa polonês e o alemão. Quem sabe o fato de sua origem na periferia de uma instituição ainda tão eurocêntrica explique essa disposição de abraçar uma bandeira empunhada longe do tradicional quadro de preocupações da Cúria Romana. Uma instituição que há séculos aprisiona o bispo de Roma. Simbolizando seu desejo de libertar-se desse abraço de sucuri, Francisco passa longe do tal de Palácio Apostólico. Mora num hotel onde pode muito mais facilmente livrar-se de ciladas medievais e tentar conseguir desmontar a máfia dos cardeais tradicionais. Aliás, esse título pomposo de Palácio Apostólico é de morrer de rir (o que dá pra rir dá pra chorar, como no samba). Vocês já imaginaram São Pedro morando em um palácio e servido por fâmulos e uma guarda pretoriana?

Bem. O fato é que temos agora aí um “papa verde” e uma “encíclica verde”, na qual se sente o dedo do nosso teólogo e ecologista Leonardo Boff. Em recente artigo neste nosso O Porta-Voz, ele, que deixou a ordem franciscana, mas não de ser franciscano, ressalta a virada do discurso ecológico operada pelo papa quando ele fala em “ecologia integral”, muito mais além da ecologia ambiental. 

Boff ressalta “o risco de que essa visão integral seja assimilada dentro do costumeiro discurso ambiental, não se dando conta de que todas as coisas, saberes e instâncias são interligados. Quer dizer, o aquecimento global tem a ver com a fúria industrialista, a pobreza de boa parte da humanidade está relacionada com o modo de produção, distribuição e consumo, a violência contra a Terra e os ecossistemas é uma deriva do paradigma de dominação que está na base da nossa civilização dominante já há quatro séculos, o antropocentrismo é consequência da compreensão ilusória de que somos donos das coisas e que elas só gozam de sentido na medida em que estão  colocadas ao nosso bel prazer”.

Os que mandam na Terra não podem apreciar uma tal linguagem. O Jebinho, por exemplo, caçula do clã Bush, candidato a presidente dos EUA, deu bronca dizendo que não deve obediência ao papa. O que propõe Francisco: mudança de rumo já na direção de um só mundo e um projeto comum que nos possa tirar do atoleiro. Leiam o artigo de Boff e sua entrevista ao Jornal do Brasil, ambos encontráveis neste O Porta-Voz. E vamos terminar com uma palavra do grande cristão e filósofo Teilhard de Chardin, que, já nos anos 30 do século passado, proclamava que a era das nações já passara e que a tarefa é construir a Terra. Ninguém o escutou e vieram a 2ª Guerra Mundial e, com um intervalo de apenas cinco anos, a Guerra da Coreia, seguida de mais centenas. A indústria bélica não pode viver e lucrar sem guerras ...


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia


terça-feira, 30 de junho de 2015

A ENCÍCLICA LODATO SII E OS POBRES DO MUNDO

Por Marcelo Barros


Finalmente saiu a encíclica do papa sobre ecologia. Nos Estados Unidos, congressistas republicanos e seus candidatos à presidência tinham feito pressão para que o papa não a publicasse.

Há alguns meses, grandes empresários e donos de mineradoras, espalhadas por todos os continentes, fizeram um retiro espiritual no Vaticano para mostrar ao papa que as mineradoras são ecológicas e só extraem minérios da terra. Não a destroem. Mesmo alguns cardeais norte-americanos, mais ligados aos senhores do mundo do que aos pobres, expressaram seus receios. Tentaram impedir que, ao falar de Ecologia Ambiental, o papa pusesse o dedo na chaga e tocasse na Ecologia Social. No entanto, toda pressão, de dentro da própria Igreja e de fora, foi inútil.  A encíclica saiu, poética e profética. Começa por retomar o Cântico das Criaturas de São Francisco para confirmar: “a nossa casa comum é como uma irmã, com a qual compartilhamos a existência e é como uma mãe que nos acolhe nos braços” (n. 1). A partir daí, formula o convite insistente a todos para renovar o diálogo sobre o modo como estamos construindo o futuro do planeta” (n. 14).

No método latino-americano do “ver, julgar e agir”, o papa tratou da Ecologia a partir da realidade social do mundo, da injustiça do sistema econômico excludente dos pobres e da cultura da indiferença que infesta a humanidade.  Isso mostra que é importante ler a encíclica Lodato Sii  a partir da realidade do mundo dos pobres, maiores vítimas da injustiça eco-social provocada pelo sistema que domina o mundo e que também oprime a Terra e a natureza.

O Brasil é um dos países onde as contradições entre um modelo de desenvolvimento predatório e a responsabilidade com a terra, nossa casa comum, se manifestam de modo mais forte.

Conforme dados divulgados pelo jornalista Washington Novaes, no Brasil, mais de 1,26 milhão de quilômetros quadrados de 1.440 municípios de oito Estados nordestinos e do norte de Minas Gerais já mostram algum nível de desertificação. O processo de degradação do solo é muito forte, juntamente com a perda da cobertura vegetal, da biodiversidade e da capacidade de produção da agropecuária. E como mostra o papa em sua encíclica, toda vez que a vulnerabilidade da terra não é respeitada, os que mais sofrem são os pobres. Nas áreas brasileiras que estão em processo de desertificação, a presença de “pobres e indigentes é superior à proporção em outras regiões do país. Na verdade, Caatinga e Cerrado têm 85% dos pobres no País (Cf. Eco 21, abril de 2015).

Essa realidade afeta o abastecimento doméstico de água e de alimentos. Por causa da crise da água, em Alagoas, mais de cem mil pessoas estão sendo socorridas para o abastecimento doméstico. No Ceará, pela falta d’água, agricultores perderam de 80% a 90% das safras de milho e feijão (Cf. Remabrasil, 6/5).

A leitura da encíclica do papa Francisco deve nos fazer lembrar dos povos indígenas do Brasil, ameaçados em sua existência como os nossos ecossistemas mais preciosos.

Atualmente, o Brasil tem 820 mil índios, uma pequena parcela da população brasileira, mas com a qual temos uma imensa dívida histórica, social e ecológica. E assim como a terra e toda a natureza, em todas as regiões do Brasil, em um ano, os assassinatos de índios cometidos por madeireiros e grilheiros de terra teve o aumento de 42% (138 casos). No mesmo período e pelo mesmo motivo, os suicídios de índios adolescentes e jovens atingiu 135 registros, um recorde em três décadas. É a partir dessa realidade que, nós, brasileiros, principalmente cristãos/ãs das diversas Igrejas, somos chamados a ler e interpretar a encíclica do bispo de Roma sobre a ecologia. Ele nos propõe aprofundar uma educação e espiritualidade ecológica (n. 202 ss), ou seja, nos formar para a aliança entre o ser humano e o ambiente (n. 209). Isso não se fará sem uma verdadeira “conversão ecológica” (n. 216).

Um documento dos missionários combonianos do Nordeste afirma: “Sabemos quanto o sistema capitalista, ecocida e suicida, herdou da cultura religiosa cristã. Por outro lado, temos a inspiração radicalmente evangélica de São Francisco e o testemunho vivo de muitos e muitas mártires que nos relançam em defesa da vida. Precisamos igualmente de um profundo e humilde processo de conversão e purificação. Uma nova escuta da Revelação, a partir do encontro fecundo entre a Palavra bíblica, o livro da criação e a sabedoria dos povos e das religiões”. Ler a encíclica a partir dos empobrecidos e da realidade do nossos país nos convoca para o que o papa chama de “Ecologia integral”.


  Nosso irmão Leonardo Boff declara que nem a ONU conseguiu sintetizar tão bem essa proposta. Agora, temos de tirar as consequências: a partir das bases, reelaborar uma maneira de viver e expressar a fé que seja libertadora, pluralista (isso é, aberta à colaboração com outras tradições espirituais) e holística, ou seja, baseada em uma justiça eco-social que una o cuidado com a libertação e com a vida dos oprimidos à comunhão efetiva e espiritual ao universo, sacramento de uma presença da qual somos testemunhas e colaboradores. Como diz o cântico de entrada da Missa de Pentecostes:  “O Espírito de Deus, o universo todo encheu, tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, aleluia” (inspirado no versículo bíblico do livro da Sabedoria 1, 7).  

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A NOVA ENCÍCLICA PAPAL: ENTREVISTA DE LEONARDO BOFF AO JORNAL DO BRASIL


Uma das inspirações para encíclica “verde”,Leonardo Boff fala sobre futuro da “casa comum” e dz que a Encíclica do papa vai reforçar visão mais integral de ecologia.



O teólogo e ecólogo Leonardo Boff, colunista do JB, foi uma das vozes que ajudaram a montar a encíclica do papa Francisco dedicada ao meio ambiente, divulgada na quinta-feira (18). Em entrevista por e-mail, ele falou sobre como seus textos e contribuições chegaram até Bergoglio, “uma das maiores lideranças mundiais, seja no campo religioso, seja no campo político”. Comentou ainda sobre a forma como o papa tem lidado com questões delicadas e também sobre as respostas de potências mundiais às ameaças a “nossa única casa comum”.
“Vejo poucos avanços porque os interesses econômicos se sobrepõem à preocupação pela salvaguarda da única casa comum que temos para morar”, diz Boff em entrevista ao JB
“Vejo poucos avanços porque os interesses econômicos se sobrepõem à preocupação pela salvaguarda da única casa comum que temos para morar. Há uma inconsciência irresponsável e culposa acerca das ameaças que pesam sobre nosso futuro. Se o que a comunidade científica mundial diz fosse ouvido, outros seriam os resultados dos encontros organizados pela ONU sobre o aquecimento global e a crescente erosão da biodiversidade”, alertou Boff. “Meu sentimento oscila entre a catástrofe e a crise”, continuou.
O Papa Francisco estabeleceu uma “relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta” na encíclica Laudato Si [Louvado seja] – Sobre o cuidado da casa comum, divulgada nesta quinta-feira (18) e publicada em português pelas Edições Paulinas. Em janeiro, durante visita às Filipinas, Francisco demonstrou preocupação com a ecologia, afirmando a “necessidade de ver, com os olhos da fé, a beleza do plano de salvação de Deus, a ligação entre o ambiente natural e a dignidade da pessoa humana”.
Para Boff, “o escândalo da pobreza mundial num mundo de altíssimo consumo, a devastação dos ecossistemas e as ameaças que pesam sobre a casa comum, descuidada e maltratada” preocupam constantemente o papa Francisco.

Confira a entrevista com Leonardo Boff na íntegra:

JORNAL DO BRASIL – Como foram suas conversas com o Papa durante a elaboração da encíclica? Houve um encontro pessoalmente?
Leonardo Boff – É com certo constrangimento que respondo às perguntas desta entrevista, para não dar a impressão de uma importância de minha parte que não tenho. Se me perguntarem: você ajudou o Papa a escrever a encíclica?  Devo dizer: não. Apenas ofereci tijolos com os quais, se ele quisesse, poderia construir alguma coisa. Nunca tive um encontro pessoal com o Papa Francisco, somente indireto. Primeiramente através de uma amiga comum, Clélia Luro, para a qual ele telefonava de Roma todos os domingos por volta das 10h.
Através dela ele mandava os recados a mim e me fazia as solicitações de textos. Primeiramente, me pediu um texto que o ex-Presidente da Assembléia da ONU (gestão 2008-2009), Miguel d’Escoto, e eu havíamos elaborado para ser o marco teórico da nova ONU que está sendo excogitada: “Declaración Universal del Bien Común de la Madre Tierra y de la Humanidad”. O texto é urdido dentro do novo paradigma segundo o qual todas as coisas são interconectadas, formando um incomensurável sistema em evolução. Neste texto usávamos muito o termo “casa comum” para referir-nos à Terra.
Depois, quando o Papa esteve no Brasil novamente, por intermédia de uma pessoa, Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales-SP, mandei entregar o livro que havia escrito em função de sua vinda ao Brasil: “Francisco de Assis – Francisco de Roma: uma nova primavera para Igreja”(Editora Mar de Ideias, Rio). Além disso, pedi para entregar em espanhol “Francisco de Assis: ternura e vigor” (Vozes), no qual abordava largamente a questão ecológica, pois ele o havia solicitado pela Clélia Luro. Junto mandei em espanhol a “Carta da Terra”, com recomendações minhas para que a utilizasse, pois me parecia o mais importante documento sobre ecologia no início do século XXI, fruto de uma vasta consulta de mais de duzentas mil pessoas de todas as orientações, sob a direção de Michail Gorbachev; eu havia participado da redação e havia conseguido incluir o tema do cuidado, “o laço de parentesco com toda a vida” e a espiritualidade.
Escrevi ao Papa que a Carta da Terra afirmava a interdependência entre todos os seres e o valor intrínseco de cada um, contra o antropocentrismo tradicional. Outra vez enviei através do bispo de Altamira no Xingu, Dom Erwin Kräutler, que havia em 2014 ganhado o prêmio Nobel alternativo da Paz pelo Parlamento sueco e que passando por Roma o Papa o convidou para redigir algo sobre a Amazônia. Por ele mandei em espanhol o meu livro mais completo sobre ecologia, “Ecologia: grito da Terra-grito dos pobres” (Trotta), expressão assumida pela encíclica. Enviei o outro igualmente em espanhol “Cuidar la Tierra: hacia una ética universal”, publicado no México (Dabar).
O principal foi um livreto com um DVD sobre as quatro ecologias, com belíssimas imagens onde abordo também a ecologia integral. Outros materiais foram enviados ao embaixador argentino na Santa, Sé Eduardo Valdés, amigo de Bergoglio, pois enviando diretamente ao Vaticano nunca se tem a certeza de que as coisas  cheguem às mãos do Papa. Através dele enviei um livro que considerava importante “Proteger la Tierra – cuidar la vida: como evitar el fin del mundo” (Dabar Mexico).
Através do mesmo embaixador enviei vários artigos em espanhol sobre questões ecológicas que saem noJB Online, onde colaboro já há vários anos. Lembro-me que escrevi num bilhete para ser entregue ao Papa, no qual havia uma citação da Carta da Terra que achava que devia constar na encíclica, como de fato consta no número 207: “Como nunca antes na história o destino comum nos obriga a buscar um novo começo… que nossa época possa ser lembrada pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida” (palavras finais da Carta da Terra).
Nem eu nem o embaixador recebemos qualquer retorno. Qual não foi a surpresa do embaixador Eduardo Valdes quando, no dia anterior à publicação da encíclica, isto é, no dia 17 de junho, o Monsenhor Fernandez do Vaticano se comunicou com ele para lhe agradecer todos os materiais meus que ele havia encaminhado ao Papa Francisco. Para terminar: fiz o que o Papa Francisco me pedia, sem qualquer pretensão de influenciá-lo. A encíclica é dele e ele é seu autor. Comumente, o Papa trabalha com um corpo de peritos que o servem e com outros especialistas convidados. O que posso dizer é que sinto ressonâncias de meus pensamentos e  modos de dizer na encíclica que não são apenas meus, mas de quantos trabalham a partir do novo paradigma de uma ecologia integral. Mas fui apenas um simples servo, como se diz no Evangelho.
O que o senhor poderia dizer a respeito dele e da forma como está conduzindo questões delicadas na Igreja?
Considero o Papa Francisco uma das maiores lideranças mundiais, seja no campo religioso seja no campo político. No campo religioso, usou da ternura de São Francisco para tratar as pessoas, particularmente os mais pobres. Mas tratou com a firmeza de um jesuíta aqueles que macularam a imagem da Igreja cristã com abusos sexuais e crimes financeiros. Neste ponto, ele foi duro e agiu como um médico. Limpou o Vaticano e talvez tenha muito que limpar ainda.
O fato mais visível é que ele trouxe uma primavera à Igreja depois de tempos de volta à grande e velha disciplina. Os cristãos sentem a Igreja como um lar espiritual e não como um pesadelo a ser suportado com desalento. Politicamente ele tem promovido o diálogo entre os povos, aproximado Cuba aos Estados Unidos e vice-versa e pregado insistentemente o encontro como forma de superar preconceitos e fundamentalismos e criar espaço para a paz. E o faz com tanta doçura e convicção que dificilmente alguém deixa de dar-lhe atenção.
O escândalo da pobreza mundial num mundo de altíssimo consumo, a devastação dos ecossistemas e as ameaças que pesam sobre a casa comum, descuidada e maltratada, o preocupam constantemente, pois pressente situações de traços apocalípticos, se nada de sério fizermos para conter o aquecimento global. Creio que a encíclica irá reforçar uma visão mais ampla, sistêmica, integral de ecologia, inserindo especialmente a questão social, mental e profunda. Espero que a discussão agora seja mais enriquecida e não apenas reduzida ao ambientalismo.
O senhor tem visto avanços significativos nesta questão entre as principais potências mundiais?
Há uma inconsciência irresponsável e culposa acerca das ameaças que pesam sobre nosso futuro
Vejo poucos avanços porque os interesses econômicos se sobrepõem à preocupação pela salvaguarda da única casa comum que temos para morar. Há uma inconsciência irresponsável e culposa acerca das ameaças que pesam sobre nosso futuro.
Se o que a comunidade científica mundial diz fosse ouvido, outros seriam os resultados dos encontros organizados pela ONU sobre o aquecimento global e a crescente erosão da biodiversidade que, segundo o conhecido biólogo Edward O. Wilson, oscila entre 27-100 mil espécies que desaparecem definitivamente da evolução, a cada ano.
Vivemos tempos de Noé, onde as pessoas comem e bebem, casam e dão-se a casar sem se dar conta do anúncio de um tsunami. Desta vez será diferente. Não haverá uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os demais. Todos poderemos ter o mesmo destino trágico. O Papa fala destas questões, mas como homem de fé, lembra que Deus, é o “o Senhor amante da vida”, texto que usa mais de uma vez e que concede à esperança a última palavra e não ao desastre.
Como o senhor vê o futuro da Terra? Há esperança?
Meu sentimento oscila entre a catástrofe e a crise. Como estudioso da questão já há mais de 30 anos e lendo os últimos dados científicos tenho a impressão de que nossa vez já chegou. Fizemos tantas e tão graves agressões  contra a mãe Terra que já não merecemos mais viver sobre ela. Ademais, de ano em ano são mais de três mil espécies que chegam ao seu clímax e naturalmente desaparecem do processo da evolução. Não poderá ter chegado a nossa vez? Ou a crise que conserva, sempre purifica e faz crescer.
Por outro lado, como homem de fé, sei que o desígnio do Criador, inscrito nas circunvoluções do processo cosmogênico, pode levar a nossa pequena nave ao porto mesmo tendo ventos contrários. Mesmo que ocorra uma catástrofe que liquide a vida visível de nosso planeta (só 5% é visível, o resto, os 95% são invisíveis como as bactérias, vírus e fungos) acredito que a última palavra a terá a vida. Como não sei. Faço uma aposta positiva, creio e espero.


Leonardo Boff é teólogo e autor do livro SABER CUIDAR, entre outros