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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

TEM FUTURO A IGREJA CATÓLICA?

Frei Betto


 

       No atual modelo, a resposta à pergunta acima é não. É a opinião do papa Francisco. Prova disso é que ele acaba de convocar uma maratona democrática intitulada “Para uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação e Missão”. O objetivo é dar voz a 1,3 bilhão de católicos sobre o futuro da Igreja. O que pensam da participação das mulheres, do divórcio, dos grupos minoritários (gays etc.), dos jovens, e de muitos outros temas polêmicos hoje dentro da instituição.

       A primeira das três etapas do processo vai até abril de 2022. Consiste em ouvir os fiéis da base, paroquianos e militantes de movimentos pastorais. A segunda, de setembro de 2022 a março de 2023, é a escuta das opiniões dos fiéis pelos bispos de cada Continente. Por fim, em outubro de 2023, Roma abrigará o Sínodo dos Bispos que resumirá as opiniões colhidas em um documento a ser sancionado e divulgado pelo papa.

       É profunda a crise da Igreja Católica. Embora o Concílio Vaticano II (1962-1965) tenha lançado as bases pastorais, teológicas e bíblicas de uma renovação significativa, os pontificados de João Paulo II e Bento XVI puseram o pé no freio. Valorizaram movimentos anacrônicos, anticonciliares, saudosos da missa em latim e do triunfalismo clerical. 

       Enquanto “a volta à grande disciplina”, na expressão de meu primo, o teólogo jesuíta J.B. Libanio, reafirmava a intocabilidade do celibato, a pedofilia corria solta sob o silêncio cúmplice de bispos e cardeais que optaram por “salvar” seus padres em detrimento das vítimas, muitas delas crianças. E as mulheres continuaram excluídas do sacerdócio, relegadas à condição de seres de segunda classe.

       Muitas causas podem ser apontadas para explicar a crise da Igreja Católica, a evasão de fiéis, a contradição entre o que se prega e o que se vive. Considero uma das mais graves o clericalismo, essa doença infantil do esteticismo eclesiástico, que se segrega do comum dos mortais ao circular de batina nas ruas e aprecia o excesso de incenso em pompas litúrgicas. 

       O clericalismo também é combatido pelo papa Francisco. Enquanto os leigos forem tratados como subalternos, tributários da catequese infantil, destituídos de meios para se manter atualizados em matéria de teologia e Bíblia, veremos as Igrejas Evangélicas crescerem exponencialmente. 

       Aliás, essas Igrejas têm muito a ensinar aos católicos em matéria de “comunhão, participação e missão”. A madame vai à missa; a faxineira dela, ao culto. E os preconceitos católicos, outrora focados nos espíritas e ateus, agora se voltam aos evangélicos, como se todos fossem fundamentalistas. Recomendo, como excelente antídoto ao preconceito, o livro de Juliano Spyer, “Povo de Deus – quem são os evangélicos e por que eles importam” (SP, Geração, 2020). 

       Após o Vaticano II, a Igreja Católica havia plantado as sementes de seu futuro renovado: as Comunidades Eclesiais de Base. Mas o conservadorismo autoritário tratou de arrancá-las. Bem como sabotar qualquer debate sério a respeito de celibato, aborto, divórcio, matrimônio homoafetivo, ortotanásia e, em especial, o direito de as mulheres terem acesso ao sacerdócio, ao episcopado e ao papado. 

       Espero que as opiniões das bases católicas, recolhidas na primeira fase da convocatória de Francisco, não sejam filtradas pelos bispos ao apurarem os questionários. Esperar que bispos ousem abrir mão de seu poder na estrutura hierarquizada da Igreja e admitir mudanças que ponham em risco a posição que ocupam é, no mínimo, confiar no milagre. Mas a fé ensina que ele existe, e o Espírito Santo, que “sopra onde quer”, é capaz de nos surpreender. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Espiritualidade, amor e êxtase” (Vozes), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

QUANDO FOI QUE A IGREJA CATÓLICA CONDENOU FORMALMENTE A ESCRAVIDÃO?


Por Eduardo Hoornaert



A escravidão acompanhou a maior parte da história do cristianismo.  Nos primeiros séculos a própria Igreja foi, em amplos setores, escravocrata sem que isso, aparentemente, causasse estranhamento. Prova é a escassez de documentação a respeito. É por puro acaso que sabemos, por exemplo, (pela leitura da Carta a Filemon), que o apóstolo Paulo tinha um escravo a seu serviço. Esse dado passa despercebido. Mas quando lemos hoje, em livros de história, que naqueles tempos um escravo normalmente não vivia mais que 25 anos, de tanto labutar e sofrer, compreendemos que essa situação não tinha nada de inocente.

Na era dos colonialismos modernos, a partir do século XVI, o escravismo recrudesceu de forma virulenta e se tornou sistêmico, ou seja, era uma fator fundamental da vida econômica. Também a Igreja (com suas estruturas hierárquicas estabelecidas desde séculos) não tinha como se sustentar em países como o Brasil senão por meio de trabalho escravo, como bem assinalou o Padre Nóbrega no seu famoso dilema: ou viver num Brasil com escravos ou abandonar a missão do Brasil.  Não existia paróquia ou convento sem escravos. Aproximadamente quatro  milhões de africanos foram importados ao Brasil, ao longo de quatro séculos, sem que se alguma voz eclesiástica autorizada aparecesse a condenar a escravidão formalmente. Temos, decerto, o caso dos Padres Gonçalo Leite e Miguel Garcia bem no início da missão jesuítica na Bahia, que apresentei em meu livro ‘História da Igreja no Brasil (período colonial), Vozes, Petrópolis, 5ª edição, 2008, 308), mas isso é muito pouco. Quando, na segunda parte do século XIX, abolicionistas como Luís Gama, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco, fizeram suas campanhas contra a escravidão,  não encontraram apoio na Igreja. Tiveram de apelar para a Maçonaria, como escreveu Joaquim Nabuco. Ele mesmo  chegou a viajar a Roma, mas não foi recebido pelo papa Leão XIII. O resultado: o Brasil foi o último país do mundo a abolir oficialmente a escravidão.

O tempo passou e a Igreja continuou calada, não disse nada acerca da escravidão. Temos de esperar até o Concílio Vaticano II (1962-1965) para ver aparecer o termo ‘escravidão’ em um texto tão genêrico e tão abstrato que precisa prestar muita atenção para perceber que se trata aqui da condenação de algo que sustentou os trabalhos missionários durante séculos. No parágrafo 27 da Constituição ‘Gaudium et Spes’ se lê:

São infames as seguintes coisas: tudo quanto se opõe à vida, como seja, toda espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho; em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis.

É no meio de um monte de condenações genéricas que aparece (ou melhor, fica escondido) o termo ‘escravidão’. Trata-se da única passagem em que o termo aparece num sentido econômico, social e político, pois, nas demais passagens de documentos do Vaticano II, o termo ‘escravidão’ tem um sentido metafórico. A frase, em que o termo aparece, segue o modelo dedutivo, tradicional em textos eclesiásticos: a partir de um texto bíblico, de uma afirmação dogmática ou de um princípio filosófico se entabula uma reflexão. A formulação contrasta com o modelo de leitura que o Papa João XXIII quis imprimir aos textos do Concílio, quando falou em ‘sinais dos tempos’. Ele recomendou o método indutivo: em primeiro lugar, analisar a realidade vivida e só depois, num segundo momento, investigar a Palavra de Deus acerca dela e finalmente agir (ver, julgar, agir).

Acontece que a Constituição Pastoral Gaudium et Spes é um texto híbrido. Em alguns parágrafos, segue o modelo dedutivo, em outros o indutivo. Na Introdução e nos parágrafos 4 a 10, por exemplo, o modelo indutivo prevalece, mas é logo abandonado na Primeira Parte do documento, entre os parágrafos 12 e 63. Na segunda Parte da Constituição (‘Alguns Problemas mais urgentes’), no parágrafo 46, a leitura indutiva é retomada e se estudam cinco setores da vida (família, cultura, economia, política, comunidade internacional) a partir de uma descrição da realidade vivida. É nesse bloco, que que a problemática da escravidão e de suas consequências merecia ser abordada, o que infelizmente não aconteceu. A menção à escravidão ficou no parágrafo 27, numa citação tão escondida em meio à longa lista de ‘coisas infames’ (homicídio, suicídio, aborto, eutanásia, prisões arbitrárias, deportações, prostituição, etc.) que o leitor menos avisado passa por cima dela, sem perceber seu alcance.

A questão de fundo é a seguinte: como a Igreja se afastou tanto e por tanto tempo de um dos princípios fundantes do movimento de Jesus, que é a misericórdia e a ação a favor do ser humano que chega ao último degrau da despersonalização, sendo tratado como ‘peça’ a ser vendida, comprada, explorada e utilizada até a exaustão? Como ela não revela de vez essa história com toda clareza, num documento como Gaudium et Spes? É estarrecedor ter de constatar que a alusão passageira à escravidão, no parágrafo 27 de Gaudium et Spes, constitui a primeira condenação eclesiástica da escravidão, autorizada pela mais alta instância, em toda a história da Igreja Católica. Numa referência meio escondida, redigida depois que o instituto formal da escravidão foi abolida na maioria dos países civilizados.

Será que o Concílio, para corresponder aos problemas que a humanidade enfrenta, teria de se expressar de forma mais clara sobre esse ponto? Penso que sim, pois há de se considerar que, de diversos modos, a escravidão persiste, embora de forma camuflada.Só destaco aqui a situação em que muitas mulheres brasileiras vivem atualmente.  O universo dos empregados domésticos no Brasil conta hoje com aproximadamente 600.000 pessoas, das quais 96 % são mulheres. 20 % das mulheres negras do país são empregadas domésticas. Entre a atual situação das babás e a das amas-de-leite do final do século XIX, no Rio de Janeiro, quando 92 % delas eram proibidas de alimentar seus próprios filhos, pois a ‘indústria’ das amas-de-leite estava no auge, há mais continuidade que ruptura. A babá de hoje, como a ama-de-leite do passado, cuida dos filhos dos outros e frequentemente não tem como cuidar convenientemente de seus próprios filhos. Esse é apenas um aspecto de uma realidade que continua viva em nossos dias. É urgente voltar à leitura bíblica em torno da escravidão e perceber como ela foi distorcida ao longo dos tempos. Nesse sentido, você pode consultar um trabalho meu já antigo, dos anos 1980: ‘A leitura da Bíblia em relação à escravidão negra no Brasil-Colônia: um Inventário’ (Estudos bíblicos 17, Vozes, 1988, 11-30).

 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Um Olhar Protestante sobre a Igreja Católica



por J u r a c y   A n d r a d e


     O terceiro número da nova revista Olhar Cristão, editada pela mesmo grupo da excelente revista pernambucana Algomais, traz breve artigo intitulado ‘Por uma Igreja mais simples’, que retrata a impressão causada pelo novo papa em comunidades protestantes. Desculpem, pois protestante parece uma denominação antiquada; hoje se fala muito mais em evangélico para designar os membros de igrejas reformadas. Acredito, contudo, que protestante é um termo forte e mais adequado mostrando a ruptura com a Igreja de Roma, o protesto de cristãos e teólogos inconformados com as estripulias do Vaticano e dos papas, como venda de indulgências, supercentralização contrária à tradição apostólica, etc. etc. etc. Além de que todo cristão não pode deixar de ser evangélico. E tem mais: há uma chusma de assim ditas igrejas, que se apresentam como neopentecostais e evangélicas, mas não são mais que grandes empresas financeiras que fariam Lutero e outros reformadores se mexerem em seus túmulos.

     O que mais impressiona o articulista, que não assina seu nome, é o discurso e a prática de Francisco contra o luxo e a ostentação; por uma Igreja mais simples que faça uma opção preferencial pelos pobres; e contra as raízes das injustiças sociais. É a volta aos princípios que marcaram os primórdios da fé cristã. É a crítica à supervalorização da Igreja como instituição. Refere-se ainda aos debates e mudanças que foram impulsionados pelo Concílio dos anos 1960 (convocado por João 23), com seus desdobramentos do lado de cá do Atlântico nas conferências episcopais de Medellín, na Colômbia em 1968, e de Puebla, no México em 1972.

     Lembro, por minha conta, a retomada do controle pela Cúria Romana, a corte papal do Vaticano, que levou a recuos do papa Paulo 6º em relação aos aggiornamenti e propostas do Concílio e à gigantesca volta atrás dos papas João Paulo 2º e Bento 16, que pretendiam voltar ao Concílio de Trento (o concílio contra o protestantismo) e a uma Igreja medieval. O Sínodo dos Bispos, tradição apostólica restaurada pelo Concílio dos anos 1960, foi escanteado em proveito da corte dos cardeais. As conferências episcopais passaram a sofrer feroz censura valendo apenas o que fosse aprovado no Vaticano, como ocorreu anos atrás em Aparecida.
Outra revista voltada para os protestantes mas com grande marca ecumênica, Ultimato, dirigida pelo pastor Elben M. Lenz César em Viçosa, MG, chama especialmente a atenção de seus leitores para a opção preferencial pelos pobres do papa Francisco. Lembro que trata-se de uma marca da Teologia da Libertação, tão malvista e perseguida pelos valentes papas medievais (autênticos imperadores de Roma) Wojtyla e Ratzinger. Assina o artigo René Kivitz. Lembra que Francisco apresentou-se à multidão na Praça de São Pedro como bispo de Roma e não Sumo Pontífice (título imperial), trocou o trono dourado por uma cadeira branca bem simples, usa um anel de prata e sapatos comuns (Bento usava Prada), uma cruz de aço pendurada no pescoço. Mora num hotel simples que hospeda bispos que viajam a Roma. Mistura-se ao povo e não usa carro blindado. Foi a Lampedusa ver os miseráveis que tentam migrar para a Europa. Num grande engarrafamento de trânsito no Rio, não deixou de acenar para as pessoas. Simplicidade, serviço aos pobres, agenda social mais importante que a moral e a dogmática. Ele está familiarizado com as mazelas do Terceiro Mundo.

    O exemplo de Francisco leva o autor a lembrar passagens bíblicas e neotestamentárias. Os seguidores de João Batista são instados a dar frutos dignos de arrependimento, apresentar evidências de seu compromisso com o Reino de Deus: quem tem duas túnicas deve dar uma e quem tem comida deve reparti-la.

     Acrescento algumas observações. Nem a preocupação e a ação de Francisco contra a chaga da pedofilia (fruto do autoritarismo clerical e do celibato forçado) contentaram o encarregado de um relatório da Comissão de Direitos Humanos da ONU, que se afastou de suas atribuições desacreditando as ações da própria organização, como disse o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi. Não é raro que esse tipo de funcionário misture suas convicções com a realidade adotando posições preconceituosas, anticatólicas no caso. A acusação valia até há pouco tempo: sobrepor o interesse do Vaticano ao das vítimas, adotando um código de silêncio.

    O caso desse relatório da ONU lembra o caso do padre Lancelotti, que cuida em São Paulo do povo da rua, inclusive menores. Foi falsamente acusado de pedofilia (depois absolvido) e, na ocasião, uma emissora pertencente a uma igreja rival deitou e rolou dias e dias sobre o falso caso de pedofilia.

     A chaga de que falamos é uma realidade crua e embaraçosa. Papas anteriores ao Hermano procuraram jogar o lixo para baixo do tapete, passando a mão na cabeça de pedófilos e até (João Paulo 2º) beatificando um notório pedófilo mexicano, um tal de Maciel. Mas como ignorar, num documento oficial de uma organização desmoralizada, mas ainda firme, os esforços e ações da Igreja de Francisco?


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sexo e celibato na Igreja Católica




Por Frei Betto


    O Vaticano admitiu, pela primeira vez, no Comitê da ONU para os Direitos da Criança, em Genebra, a 16 de janeiro, crimes de abuso sexual, como pedofilia, praticados por membros da Igreja Católica.

   
    Tais crimes ocorrem em quase todas as instituições que lidam com menores, e sobretudo no interior do núcleo familiar, onde pais estupram filhas. Porém, sua prática deve ser severamente punida, e não acobertada em uma Igreja que se propõe a educar crianças segundo os valores do Evangelho.
    O papa Francisco, em missa na manhã de 16 de janeiro, declarou que os escândalos da Igreja “são tantos” que não podem ser citados individualmente e são uma “vergonha”: “Essas pessoas não têm ligação com Deus. Tinham apenas uma posição na Igreja, uma posição de poder”, disse o pontífice.

    Francisco surpreende positivamente por suas afirmações a respeito da sexualidade. Além de não demonizar os gays, ao contrário de tantos prelados que consideravam a homossexualidade uma doença (e nisso coincidiram com governos socialistas), e relativizar o tema do aborto nesse mundo em que poucos protestam contra as guerras e, menos ainda, apoiam a erradicação da fabricação e comércio de armamentos (incluídas as de armas químicas).
    Francisco convidou, para ocupar a importante função de Secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, que afirmou não ser o celibato um dogma.

    Há tempos a Teologia da Libertação e as teologias feministas defendem o fim do celibato obrigatório para sacerdotes católicos, o que não se justifica à luz da Bíblia. Pedro, escolhido primeiro papa, era casado (Marcos 1, 30), e na Igreja primitiva homens casados eram ordenados sacerdotes.
    O preconceito à sexualidade nasce na Igreja por influência neoplatônica, que culmina na (falsa) justificativa de que a lei natural associa sexo e reprodução. Daí o fato de perdurar, ainda hoje, na doutrina oficial da Igreja Católica, a exigência de os casais só terem relações sexuais se houver intenção de procriar. Até 1903 gestos de carinho entre casados eram considerados pecados...

    Tive um professor de teologia moral que afirmava ser a associação entre sexualidade e reprodução um princípio zoológico, e não teológico. Hoje, sei que ele se equivocou. Mesmo animais ignoram o vínculo entre sexo e reprodução. Pesquisas demonstram que muitos deles fazem sexo por ser prazeroso, e não por quererem se reproduzir.

    O afeto costuma falar mais alto que inclinações naturais. O pesquisador Frans de Waal (2010) conta que, em cativeiro, porquinhos órfãos foram adotados por uma tigresa de Bengala. “Em lugar de cuidar daqueles porquinhos, seria mais adequado, do ponto de vista biológico, que a tigresa os usasse como uma refeição rara em proteínas” (p. 67). Porém, animais também possuem predisposição psicológica para cuidar de filhotes vulneráveis.


    Outro argumento que se utiliza para justificar o celibato é o contábil. Casado, o sacerdote poderia dilapidar os bens da Igreja se valendo do direito de herança. Ora, se assim fosse, sacerdotes das Igrejas Ortodoxa e Anglicana, e pastores protestantes, que se casam, já teriam levado suas comunidades à falência.

    O celibato é apenas uma opção de vida, sem a qualidade do matrimônio, que a Igreja enaltece como um dos sete sacramentos – fontes de união com Deus. Se não é um dogma, como afirmou o cardeal Parolin, então pode ser removido, facultando aos atuais e futuros sacerdotes optar ou não por ele. O que abriria aos cinco mil padres casados que vivem no Brasil a possibilidade de serem reintegrados ao ministério sacerdotal.

    Será meio caminho andado para que, no futuro, a Igreja Católica exclua a mulher do estatuto de ser de segunda categoria, e permita também a ela o acesso ao sacerdócio, assim como Jesus fez da samaritana e de Maria Madalena as primeiras apóstolas.



Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.
 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Copyright 2014 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los, propomos assinar todos os artigos do escritor. Contato – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Decadência da igreja católica?




por EDUARDO HOORNAERT

      Ouve-se falar hoje, aqui e acolá, em decadência da igreja católica. Efetivamente, há sinais de que essa igreja não esteja mais conseguindo corresponder aos anseios dos tempos em que vivemos, algo que a médio ou longo prazo pode significar o fim do projeto formulado 1500 anos atrás por    
Agostinho em sua obra ‘A cidade de Deus’, que está na base da igreja católica tal qual a conhecemos hoje. O grande teólogo apresentou, no século V, um dilema: ou você vive e milita na ‘cidade de Deus’, ou pertence à 'massa damnata' marcada pelo 'pecado original'. O projeto funcionou por longos séculos e agora chega ao fim. O historiador inglês Arnold Toynbee formulou uma lei da história que me parece interessante para a discussão. É a ‘lei do desafio e resposta’, exposta no final de seu livro monumental ‘Um Estudo de História’ (Martins Fontes, São Paulo, 1986). Depois de estudar o surgimento, apogeu e declínio de 21 civilizações, Toynbee conclui: todo projeto humano é formulado para responder a determinados desafios, o que faz com que seja necessariamente incompleto, provisório e passageiro. Nenhum projeto humano pode aspirar à eternidade. Ora, escreve Toynbee, o fato de o papado ter reagido negativamente aos esforços de Cavour para unificar a Itália (início século XIX) marca os primeiros sinais da passagem para a lenta decomposição do sistema católico. O papa deixa de pensar no mundo e pensa em preservar seus privilégios. Isso é fatal. A questão hoje consiste em ver se há condições de reformar o modelo, tornando-o capaz de responder aos desafios do momento. .
     Não se pode responder a tudo, há sempre deficiência, mas penso que a atual situação consiste numa inaptidão generalizada. Comparemos a atitude do papa diante da unificação da Itália (início século XIX) com os rumos que a França tomou no final do século anterior. A revolução francesa constitui um exemplo paradigmático de um projeto que responde de forma apropriada aos anseios do tempo. Dai seu sucesso. Os povos querem ‘liberdade, igualdade e fraternidade’, e a revolução responde positivamente. Uma postura totalmente diferente é a do papa, que vai assumindo sempre mais posturas reacionárias.  
     Toynbee vê nessa recusa do papa o início da decadência do sistema católico. Por encarnar o poder supremo por tantos séculos, o papado não tem mais sensibilidade diante do que se passa na realidade e isso constitui um sinal de decadência. Seguindo o raciocínio de Toynbee, não se sabe o que pode acontecer com a igreja católica. É possível que ela mude totalmente de feições ou mesmo desapareça do cenário histórico. De qualquer modo, aqui não se trata de um drama. Os projetos passam, a história passa. Os projetos humanos são todos provisórios. O sonho de Agostinho deu origem a um grande projeto, que moldou o Ocidente. Mas ficou na contramão do desejo de liberdade hoje se manifesta de mil maneiras. Os tempos mudam e isso é bom. 
     O importante consiste em apoiar as energias positivas que atuam dentro do catolicismo, da mesma forma em que se devem apoiar as forças vivas existentes no candomblé, na igreja universal do reino de Deus, no pentecostalismo e em todos os projetos que procuram trabalhar para melhorar a vida da humanidade. Enquanto o papa se afasta da vida vivida e se recolhe em seu 'Apartamento' e enquanto o vaticano se vê enredado em escândalos, os cristãos conscientes não enxergam nada de trágico em tudo isso. Só os que gostam de montar uma tragédia grega de paixões pelo poder, intrigas, hipocrisias é que comentam o tempo todo esses noticiários. Os mais conscientes preferem acupar-se de outros assuntos. Eles pensam no real drama de nosso mundo de hoje. Hoje, o drama é outro, o desafio é outro. O que importa é que o cristianismo signifique algo para os 50 % da população mundial que vive curvada sob pobreza e miséria. 
     No planeta em que vivemos, 25 mil pessoas morrem por dia de inanição e 16 mil crianças de fome. 852 milhões de pessoas passam fome. As fortunas das três pessoas mais ricas do mundo é superior ao PIB de 48 países. Os 5 % mais ricos ganham 114 vezes mais que os 5 % mais pobres. As pessoas que dormem na rua, as 864 favelas do Rio, as 20 a 25 pessoas que morrem por dia de forma violenta, no Rio, e que nem merecem mais uma menção no noticiário. Isso dá vergonha, isso é o drama. Que entre as 20 cidades mais desiguais do mundo, 5 são brasileiras (Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba), eis o que dá vergonha. Que mais de 10 milhões de brasileiros vivem com menos de 39 reais por mês e que a Globo nunca dá esses números, eis a vergonha, eis o apelo para o cristianismo. O drama é que 10 % das pessoas que vivem neste país detêm 75 % da riqueza que o país produz, que 5 mil famílias (1 %) controlam 45 % da riqueza do país.