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sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Natal: os Herodes de ontem, de hoje e a Divina Criança

 


Leonardo Boff


 

Os ancestrais relatos sobre o “Divus Puer”(a Criança Divina) ganham sempre novas significações consoante a mudança dos tempos e dos contextos históricos.Nós os lemos e interpretamos com os olhos de hoje, no quadro de uma situação sombria,marcada pela morte de milhões do mundo inteiro e de milhares entre nós sob o ataque traiçoeiro de um vírus letal. Descobrimos similitudes e poucas diferenças entre o Natal de outrora e de hoje.Na verdade, numa leitura simbólica, temos a ver com algo que afeta a todos os humanos.

De um lado, temos José e Maria, sua esposa, grávida de nove meses.Eles vem de Nazaré, do norte da Palestina para o sul, em Belém. São pobres como a maioria dos artesãos e camponeses mediterrâneos. Às portas de Belém, Maria entra em trabalho de parto:  segura a barriga pois a longa caminhada acelerou o processo. Batem à porta de uma hospedaria. Ouvem o que os pobres na história sempre ouvem:”não tem lugar para vocês na hospedaria”(Lc 2,7).

Abaixam a cabeça e se afastam preocupados. Como ela vai dar à luz? Sobrou-lhes, na vizinhança, uma estrebaria  de animais. Ai há uma manjedoura com palhas,  um boi e um jumento que, estranhamente, permanecem quietos, observando. Ela dá a luz a um menino entre os animais. Faz frio. Ela o envolve com panos e ajeita-o nas palhinhas. Choraminga alto como todos os recém nascidos.

Há pastores que velam à noite, vigiando o rebanho.São considerados impuros e por isso desprezados, por estarem sempre às voltas com os animais e seus excrementos. Surpreendentemente, uma luz os envolveu e escutaram do Alto uma voz lhes anunciando:”não temais anuncio-vos uma grande alegria que é para todo o povo;acaba de nascer o  Salvador; este é o sinal: encontrareis um menino envolto em panos,deitado numa manjedoura”. Ao porem-se, pressurosos, a caminho ouviram um cântico mavioso, de muitas vozes, vindo do Alto:”Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens  por Deus amados”(Lc 2,8-18). Chegam e se confirmou tudo o que lhes fora comunicado: aí está um menino, tiritando, enfaixado em panos e deitado na manjedoura,em companhia de animais.

Algum  tempo depois,eis que vem descendo o caminho, três sábios do Oriente. Sabiam interpretar as estrelas. Chegam. Extasiam-se pela misteriosidade da situação. Identificam no menino aquele que iria sanar a existência humana ferida. Inclinam-se, reverentes, e deixam presentes simbólicos. Com o coração leve e maravilhados, tomam o caminho de volta, evitando a cidade de Jerusalém, pois aí reinava uma pessoa terrivelmente belicosa.

Lição: Deus entrou no mundo, na calada da noite,sem que ninguém o soubesse. Não há pompa nem glória, que imaginaríamos adequadas a um menino que é Deus. Mas preferiu vir fora da cidade, entre animais. Não constou na crônica da época,nem em Jerusalém, muito menos em Roma. No entanto,aí está Aquele que o universo estava gestando dentro de si há bilhões de anos, aquela “luz verdadeira que ilumina cada pessoa que vem a este mundo”(Jo 1,10).

Devemos respeitar e amar a forma como Deus quis entrar neste mundo: anônimo como anônimos são as grandes maiorias pobres e menosprezadas da humanidade.Quis começar lá em baixo para não deixar ninguém de fora. A situação humilhada e ofendida deles foi aquela que o próprio Deus  quis fazer sua.

Mas há também sábios e homens estudiosos das estrelas do universo e que captam atrás das aparências o mistério de todas as coisas. Entrevem neste menino de corpinho tiritante, que molha os paninhos,choraminga e busca, faminto, o seio da mãe, o Sentido Supremo de nossa caminhada e do próprio universo.Para eles é também Natal.

É verdade o que se conta por aí: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino”.

Esse é um lado, alvissareiro: um raio de luz no meio da noite escura. Um pouco de luz tem mais direito que todas as trevas. Daí nos vem salvamento, uma revolução dentro da evolução que, de forma antecipada, chegou à sua plenitude. Em fim…

Mas há o outro lado, sombrio e também trágico. Há um Herodes que se sente ameaçado em seu poder de soberano pela presença deste menino. José,atento, logo se dá conta:ele quer mandar matar o menino. Foge para o Egito com Maria e o menino ao colo que dorme, busca o seio e volta a dormir.

Herodes é sanguinário. Por segurança mandou matar todas as crianças de Belém e arredores de dois anos para baixo.Assim não escaparia o menino Jesus. Então se ouviu um dos lamentos mais comoventes de todas as Escrituras:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos assassinados e não quer ser consolada porque os perdeu para sempre”(Mt 2,18).

Os Herodes se perpetuam na história. Entre nós temos um que não ama a vida, que zomba do vírus letal,que não se compadece das lágrimas e choros de milhares de famílias quer perderam filhos, irmãos, parentes e amigos. Não se sentem consoladas enquanto não se fizer justiça. Nega proteção vacinal a crianças e a jovens entre 5 a 11 anos. Eles podem ser contaminados, contaminar e até morre.Não quer porque não quer, na contramão da ciência e dos países que estão vacinando suas crianças. Acostumou-se ao negacionismo, parecendo ter feito um pacto com o vírus. Ouvem-se vozes de pais e de avós,vindas de todos os lados:”quero a vida de meus filhos e filhas; quero que os vacinem; quero que vacinem meus netos e netas”.

Como o faraó, endureceu seu coração e alimenta o propósito do Herodes do tempo do menino.Mas haverá sempre uma estrela,como a de Belém, a iluminar nossos caminhos.Por mais perverso que seja o nosso Herodes não pode impedir que o sol nasça cada manhã nos trazendo esperança, aquele que foi chamado “O Sol da Esperança”.

Essa alegria é inaudita: a nossa humanidade,fraca e mortal, a partir do Natal começou a pertencer ao próprio Deus.Por isso algo nosso já foi eternizado pelo Divino Menino que nos garante que os Herodes da morte jamais triunfarão. Feliz Natal a todos com muita luz e discreta alegria.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu O Sol da Esperança: Natal, histórias, poesias e símbolos, Mar de Ideias, Rio 2007; Natal: a humanidade e a jovialidade de nosso Deus, Vozes 2009. Para encomendar:contato@leonardoboff.eco.br

 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

NATAL DO CRISTO CÓSMICO


Por Marcelo Barros


Nesses dias, as comunidades cristãs e o mundo já estão no clima da festa de Natal. Até a vigília da festa no dia 24, a liturgia antiga da Igreja nos convida a pedir a vinda, não apenas do menino que, um dia, Jesus foi, mas do Cristo atual, ressuscitado e que se manifesta vivo como energia de renovação para o planeta Terra. Em suas cartas, o apóstolo Paulo escreve sobre o Cristo: “Ele sujeitará a si todas as coisas. Tudo o que existe no universo tem sua subsistência nele (no Cristo). Ele recapitula tudo o que existe (Col 1, 15 – 22). Sua ressurreição inaugurou uma “criação nova” como parto de um universo reconciliado (Gl 6, 2 e 2 Cor 5, 14 ss).

A conclusão disso é que o Natal não deve ser apenas uma recordação nostálgica, como se se tratasse de um simples aniversário do nascimento de Jesus. Essa festa do 25 de dezembro foi criada no século IV. Quando os antigos romanos celebravam o solstício do inverno, os cristãos quiseram lembrar que o Cristo é o sol da justiça que vem do alto para renovar nossas vidas. Nos primeiros tempos, o nome da festa do Natal era “A Páscoa do novo Nascimento”. Assim, os antigos cristãos afirmavam que o Natal celebra uma manifestação do Cristo Ressuscitado. Até hoje, em algumas Igrejas Orientais, se chama a festa de “Teofania”, manifestação divina. E, tanto no Oriente, como no Ocidente, no dia 06 de janeiro se celebra a Epifania, a manifestação do Cristo em nossa carne.

A cada ano, falamos de uma nova vinda porque os efeitos de sua ressurreição em todo o universo ainda não são visíveis. Sua manifestação é um processo no qual Deus quer que participemos como testemunhas e instrumentos de sua presença amorosa no universo. Em cada Natal, pedimos que essa realidade nova do universo cristificado, (ou seja, totalmente assumido pela presença do Cristo ressuscitado) se manifeste logo e de forma total. Apesar de que o nosso mundo parece cada vez mais doente e dividido, celebramos a confiança de que a manifestação do Cristo Cósmico venha salvar a nós e ao universo.

Nesse mês de dezembro, por ocasião da Conferência da ONU sobre mudanças climáticas, todas as grandes religiões do mundo se mostraram conscientes da sua responsabilidade para salvar o planeta Terra da ambição humana que o condena à morte.

Há poucos dias, as comunidades judaicas celebraram a festa de Hanuká. Antigamente, nessa festa, se acendiam as lâmpadas do templo. Atualmente, não existe mais o templo de Jerusalém e não se podem mais acender suas lâmpadas para trazer luz à escuridão do inverno. Agora, o templo de Deus é o universo. Então, as luzes de Hanuká são acesas nas casas judaicas para iluminar a humanidade e libertar o mundo da escuridão do desamor e da indiferença.

Na Amazônia, o povo Yanomami tenta escutar de novo os Xamãs que fazem ressuscitar os cânticos dos Xariris, espíritos da floresta que é viva. Ela está ferida pelas queimadas provocadas pelos fazendeiros. Ela é destruída pelas máquinas dos garimpos e das mineradoras que provocam destruições e podem ocasionar desastres como o de Mariana.


É importante que as comunidades cristãs liguem essa celebração do Natal com o cuidado da terra, da água e de toda a natureza. Hoje, o universo é o verdadeiro presépio do Cristo Cósmico. Embora de forma ainda invisível, ele  vem, hoje a esse mundo. A liturgia dos últimos dias antes do Natal invoca Jesus como Salvador para o mundo de hoje. Com sua profunda formação litúrgica e grande sensibilidade artística, Reginaldo Veloso traduziu de forma adaptada as invocações das antífonas Ó. A cada dia, uma nova invocação chama o Cristo Ressuscitado, um dia como Libertação, no outro como Sabedoria. Um dia, o contempla como nova Sarça Ardente, na qual Deus se revela aos Moisés de hoje. Finalmente, ele é chamado de Emanuel, presença divina no meio de nós. Todos os dias, a versão das comunidades  conclui com um refrão que canta: “Vem, ó filho de Maria, vem trazer-nos alegria. Quanta sede, quanta espera, quando chega, quando chega aquele dia?”    

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.