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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Vacina contra a intolerância religiosa

 Marcelo Barro


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Em meio ao terrível sofrimento provocado por nova explosão de contaminações pela Covid e a epidemia de influenza (gripe), ao menos contamos com vacinas que, de fato, se revelam eficazes. Lutamos para que a ONU proclame as vacinas contra vírus como bens comuns da humanidade. É preciso denunciar como iniquidade o fato de indústrias da saúde triplicarem os seus lucros a partir da dor e das doenças da imensa maioria da humanidade. Parece que, para não mudar essa realidade cruel e desumana, a elite que multiplica sua riqueza a partir da desgraça da multidão usa como arma eficiente os vírus da intolerância. No mundo inteiro, há um surto de intolerância e discriminação contra grupos culturais e religiosos diferentes da cultura dominante.

No Brasil, a cada dia e por horas e horas, os canais de rádio e televisão transmitem cultos e pregações do Cristianismo ritual, alienado e alienante, seja católico, seja evangélico, ou pentecostal. É claro que há um público de pessoas idosas que tem o direito de terem em casa suas missas tradicionais, ou cultos de suas Igrejas. No entanto, ao mesmo tempo que os canais se abrem para esse tipo de expressões cultuais  não permitem nem aceitam comunicar nada que, mesmo no âmbito de celebrações católicas ou evangélicas,  sejam de conteúdo mais profético e crítico. E mantêm um muro de censura e silêncio cúmplice sobre a violência cotidiana que sofrem grupos religiosos minoritários, principalmente, comunidades das religiões afro-brasileiras, a cada dia, vítimas de ataques e perseguições. Apesar da Constituição Brasileira defender a liberdade de culto para todas as religiões, ainda existem programas de rádio e televisão nos quais se prega a intolerância e se combatem os cultos afro. Esses atos de violência religiosa não são praticados por ateus dogmáticos, contrários à religião. São cometidos por grupos que se dizem cristãos e agem em nome de Deus. Apoiam-se em uma leitura ao pé da letra e fanática de certos textos bíblicos para justificar uma imagem de Deus cruel, violento e intolerante.

No Brasil, a cada ano, apesar do atual governo federal que promove o ódio e a violência, o 21 de janeiro é comemorado como “o dia nacional de combate à intolerância religiosa”. Essa data foi criada pelo presidente Lula, através da lei federal n. 11.635 de 27 de dezembro de 2007. Ao escolher esse dia, se quis homenagear a Mãe Gilda, Ialorixá do Axé Abassá de Ogum, em Salvador. Ela faleceu no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de perseguição e ataque de um grupo neopentecostal fundamentalista que invadiu o templo do Candomblé, desrespeitou os símbolos sagrados ali representados e ofendeu gravemente a mãe de santo.

Ainda bem que, até aqui, esses grupos pentecostais e católicos de linha carismática não descobriram ainda que os mesmos livros da Bíblia que mandam perseguir e destruir cultos de religiões estrangeiras,  ordenam também apedrejar mulheres adúlteras, pessoas que transem com animais ou simplesmente que não respeitem o sábado. O que farão esses cristãos, quando descobrirem que as mesmas leis bíblicas que condenam outros cultos, permitem a escravidão de estrangeiros e mandam vender pessoas como escravas, para saldar dívidas não pagas? Será que, em pleno século XXI, essas pessoas que querem cumprir a Bíblia ao pé da letra passarão a praticar essas leis culturais da Ásia antiga?

Em outras épocas, quase todas as Igrejas históricas condenaram hereges à morte. Queimaram na fogueira mulheres consideradas feiticeiras ou bruxas e pessoas que praticassem formas de sexo não aprovadas pela Igreja. Durante séculos, a Igreja Católica se proclamou como a única religião verdadeira e sistematicamente combatia as outras. Somente há 50 anos, em 1965, ao concluir o Concílio Vaticano II que, em Roma, reuniu todos os bispos do mundo, a Igreja Católica publicou a declaração Nostra Aetate, que reconhece o valor das outras religiões e incentiva os fieis a valorizar o diferente e praticar o diálogo. Da parte das outras Igrejas, em 1961, o Conselho Mundial de Igrejas, que reúne mais de 340 confissões evangélicas e ortodoxas, em sua assembleia geral em Nova Dehli, pediu às Igrejas-membros uma atitude de respeito e diálogo com todas as culturas e colaboração com outras tradições religiosas.

No mundo atual, a diversidade cultural e religiosa faz com que os diferentes caminhos espirituais possam se complementar e se enriquecer mutuamente. Faz com que cada grupo reconheça os elementos de verdade que existem em outros grupos  e se abram ao que Deus revela a cada um, não somente a partir da sua própria tradição, mas também através dos outros caminhos religiosos.

Nas últimas décadas, em diálogo com a humanidade, muitos cristãos descobriram como critério da fé o que apóstolo Paulo escreveu ao grupo de Corinto: “Deus nos fez servidores de uma nova aliança, não da letra da lei, mas do espírito, porque a letra mata e o espírito é quem faz viver” (2 Cor 3, 6). Do mesmo modo, a imagem que Jesus transmite de Deus é a de um paizinho carinhoso que “faz nascer o sol sobre os bons, mas também sobre os maus e faz chover sobre quem é justo e quem é injusto” (Mt 5, 45).  

 

 

segunda-feira, 29 de março de 2021

VACINA: BEM COMUM

 


    Maria Clara Bingemer


 

Acho bonito as pessoas tirando foto do momento em que são vacinadas.  Comecei a reparar nisso quando a primeira senhora britânica de mais de 90 anos foi vacinada e disse estar “altamente aliviada”. Depois foram idosos de ambos os gêneros e em melhor ou pior estado de saúde. Sempre a foto acompanhando o evento histórico de receber a vacina.  Amigos e amigas já próximos de minha idade também documentaram sua experiência. 

O que há de tão transcendental nesse ato de imunizar-se e oferecer o braço para receber a espetadela que carrega um líquido impregnado de esperança?  Em que essa vacina difere das outras? Por que nos traz essa emoção como se a vida entrasse em nosso corpo com a inoculação do líquido que promete imunizar-nos em boa proporção contra a pandemia que aterroriza toda a humanidade?

            Existem vários elementos que me parecem fazer dessa vacina tão ardentemente esperada não apenas um evento sanitário, mas igualmente um evento inspirador e revelador do que é a condição humana.

            Somos seres relacionais.  Não existimos senão coexistindo e convivendo. Isso é verdade desde que o Criador pronunciou no sexto dia sobre a criatura que formara do barro e em cujas narinas soprara o hálito da vida: “Não é bom que o homem esteja só”.  A vocação de Adão é a comunhão e não a solidão. E quando a Adão foi dada a companheira Eva, mãe dos viventes, a comunhão aconteceu.  A alteridade a instituiu e isso foi muito bom, disse Deus, antes de descansar ao sétimo dia contemplando sua obra. 

            É fato que após isso Adão e Eva romperam essa comunhão.  E por isso é tão trabalhoso reconstituí-la.  Somos todos Adão e Eva que buscamos a vida com dificuldades e dor, mas também a fruímos com gozo e deleite.  E todos experimentamos o desejo da comunhão plena em todos os momentos em que ela se fragmenta e é obstaculizada pelas várias investidas diabólicas de tudo que divide e separa. 

            O vírus vem sendo uma pedagogia dura e fecunda sobre tudo isso.  Os gestos de proximidade, afeto, amor nos foram proibidos em nome da saúde coletiva. Foram interditados os abraços e beijos, os encontros, as celebrações festivas.  Nos foram impostas máscaras que erguem barreira entre nós e os outros. E o álcool e a água e o sabão nos obrigam a exterminar os rastros dos contatos humanos a cada momento e a cada passo. 

            Demorou perceber que toda essa separação com relação aos outros, junto aos quais sempre desejamos tanto estar, era na verdade a forma acertada de proceder em benefício deles e delas mesmo.  O amor que antes se exprimia com gestos de contato e proximidade agora devia expressar-se por atos de distanciamento em nome do cuidado e do amor. 

            A vacina é um elemento novo que entra nesse cenário.  Anunciando esperança de imunização, baixa de contágio e controle da pandemia, é a única opção que existe no horizonte para vencer essa tão difícil prova que atravessamos já há mais de um ano.  Por isso, a alegria tão radiante e um brilho de tal fulgor nos olhos daqueles que após uma longa peregrinação em meio às trevas do medo e do desânimo agora sentiam poder ter novamente esperança.  

            Essa esperança consiste em voltar a poder realizar os gestos do afeto e da comunhão. Os avós sonham em novamente beijar e abraçar os netos.  Os amigos desejam voltar a poder juntar-se, conversar, rir e cantar juntos, sentir a presença cálida e estimulante daqueles que se querem bem. Todos desejam andar livremente pelas ruas, entrar nos cinemas e teatros, ouvir, cantar e dançar em shows musicais, sem medo e sem barreiras. 

            Os que cremos desejamos ardentemente poder voltar a frequentar nossas igrejas em celebrações com muita gente e poder abraçar os irmãos efusivamente, desejando-lhes a paz.  E comungar o corpo e sangue do Senhor, expressão da comunhão vital e verdadeira que realiza e conduz à vida plena. 

            Tantas vacinas já tomamos: sarampo, tuberculose, poliomielite, antitetânica.  Mas apenas a vacina contra a Covid- 19 nos acendeu na consciência essa convicção de que oferecendo o braço para a tão desejada espetadela estamos, na verdade, realizando um profundo ato ético. 

Já o Papa Francisco que não apenas vacinou-se mas providenciou doses de vacina para todos os funcionários do Vaticano declarou: “Eu acredito que, eticamente, todo mundo deve tomar a vacina. É uma opção ética porque você aposta na sua saúde, na sua vida, mas também na vida dos outros”

Esperemos que a pandemia nos tenha ensinado em profundidade que nada do que penso ou faço afeta apenas a mim.  Estou conectada com todos os seres vivos e tudo impacta em tudo.  E dentro desse tudo, meus irmãos em humanidade agora me pedem esse gesto ético, de fé e esperança na vida, de abertura e amor.  A vacina me dá essa oportunidade. Que ela seja o sinal pascal de vitória da vida nesses tempos de tanta paixão e tanta treva que temos vivido.  É uma boa motivação para uma celebração mais profunda e esperançosa da Semana Santa que se aproxima.

 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros

 

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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

VACINA PARA PSICOPATAS FACÍNORAS

 



 

Prof. Martinho Condini

 

Caras amigas e amigos, quando penso que se esgotaram o estoque de estupidez do  paraquedista presidente e o seu governo, eles se superam e me surpreendem, claro que sempre negativamente. 

A primeira surpresa vem do Ministério da Saúde que publicou uma portaria no final de agosto que obriga os médicos e demais profissionais de saúde quando acolherem pacientes de casos em que houver indícios ou confirmação do crime de estupro, devem informar a polícia. E também determinaram que a vítima violentada deverá ver a imagem do feto em ultrassonografia, se não bastasse ela ainda deverá ser submetida a um extenso questionário sobre o estupro. Só faltou eles informarem que a vítima deverá dar um beijo na boca do estuprador, com direito a foto e porta retrato para colocar no criado mudo do seu quarto.

Esses psicopatas facínoras que aprovaram essa portaria gostariam que isso fosse feito com sua mãe, esposa ou filha? Há menos de um mês tivemos o caso da menina no Espírito Santo que foi estuprada e engravidou do próprio tio. Agora o ministério da saúde apresenta essa esdrúxula portaria para humilhar mais ainda as possíveis vítimas, que chegam ao hospital destroçada física e psicologicamente. Onde está a questão humanitária dessa corja?Em 2018 foram 66 mil vítimas de estupro no Brasil. O maior índice desde que o estudo começou a ser feito em 2007.  A maioria das vítimas (53,8%) foram meninas de até 13 anos. Conforme a estatística, apurada em micro dados das secretarias de Segurança Pública de todos os estados e do Distrito Federal. Quatro meninas até essa idade são estupradas por hora no país. Ocorrem em média 180 estupros por dia no Brasil, 4,1% acima do verificado em 2017 pelo anuário. Esses dados são suficientes para que o aborto legal seja respeitado nesse país.

O núcleo duro do governo e congressistas governistas neopentecostais e neoconservadores que se dizem ‘cristãos’ ou ‘de Deus’, deveriam ter tido vergonha na cara e ter impedido a publicação ou solicitado o seu cancelamento quando dela tomaram ciência, apesar que ciência não ser o forte dessa gente, em nenhum sentidos. E por favor, não venham com menção a Deus nessa questão do estupro legal. A última religiosa congressista governista que se referiu a Deus é suspeita de ter assassinado o ‘marido’.  

E a segunda surpresa foi mais uma pérola do paraquedista presidente da república, no dia 1º de setembro, que afirmou: “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”. Para reforçar a sua fala a Secretaria da Comunicação da Presidência da república emitiu  a seguinte mensagem: “O governo do Brasil preza pela liberdade dos brasileiros”.

Tenho certeza que hoje, enquanto vocês estão lendo este artigo já morreram mais de 122 mil pessoas no Brasil por causa da pandemia do covid 19.

O mundo está ensandecido em busca de uma, duas, três, quatro, cinco e mais quantas vacinas vierem para que as pessoas voltem a ter alegria de viver, de se relacionar, de trabalhar e se divertir. E somos obrigados a ouvir esses absurdos da cupula governamental do país que está em 2º lugar em número de mortos no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos da América, coincidentemente governado por outro facinora e psicopata, que também negou a pandemia como o nosso paraquedista presidente.

Historicamente sabemos quantas vidas foram salvas no século XX e início do XXI, graças as campanhas de vacinação em massa em nosso país, contra sarampo, poliomielite, coqueluche, caxumba, rubéola, H1N1 e outras.  

Mas infelizmente, no início do século XXI, iniciou-se uma onda mundial antivacina que possibilitou a volta de doenças que já estavam erradicadas há décadas no Brasil.

Agora o que nos resta é torcer para que se encontre o mais rapidamente possível a vacina para o covid-19, e que as pessoas se conscientizem que crianças e adultos devem ser vacinados para evitarmos o alastramento de epidemias e milhares de mortes.

Agora, vacina para insanidade mental de psicopatas e facínoras que governam esse país, acho impossível ser descoberta, mas se descobrissem, a ignorância os impediriam de tomar.


O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com