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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Esperança contra toda desesperança


Por Francisco de Aquino Júnior


 

Vivemos tempos difíceis e até dramáticos: O crescimento da extrema direita com sua política antissocial de desmonte do que resta de políticas sociais e de aversão aos direitos humanos tem levado a um aumento escandaloso da pobreza e das mais diversas formas de violação dos direitos humanos (feminicídio, racismo, homofobia etc.). Com o agravante de que tudo isso se dá com a cumplicidade – até militante – de amplos setores das igrejas cristãs e de seus pastores, destruindo a herança mais importante da tradição judaico-cristã para a civilização ocidental: o ser humano criado à “imagem e semelhança de Deus” ou a dignidade fundamental de todo ser humano. Mas, precisamente neste tempo, somos chamados a dar testemunho de uma esperança ativa e criativa, provada na cruz, regada com sangue martirial, sustentada e dinamizada pelo Espírito do Senhor que “a partir de baixo” vai reciclando/refazendo/recriando a vida.

Como tanto insistiu Paulo Freire, a esperança é uma dimensão fundamental da vida humana. Aquela dimensão que faz de nossa vida uma obra inacabada e uma tarefa permanente. É a dimensão utópica da vida. Aquilo que nos desinstala, que nos mobiliza, que nos põe a caminho.  É uma “necessidade ontológica” e, enquanto tal, um “imperativo existencial e histórico”. Sem esperança a vida humana se torna impossível. “A desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir ao fatalismo onde não é possível juntar as forças necessárias ao embate recriador do mundo”. Por isso, dizia: “sem poder negar a desesperança como algo concreto e sem desconhecer as razões históricas, econômicas e sociais que a explicam, não entendo a existência humana e a necessária luta para fazê-la melhor sem esperança e sem sonho”. O homem é “um ser da esperança que, por ‘n’ razões, se tornou desesperançado”. Mas a esperança renasce sempre de novo, quando menos se espera e de onde menos se espera. E a razão última ou a fonte última dessa esperança, como indicou o papa Francisco na encíclica Laudato Si’, é a presença salvífica e re-criadora do Espírito de Deus no mundo. Ele “encheu o universo de potencialidades que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo novo” (LS, 80). Por isso, “nem tudo está perdido”. Não se deve esquecer jamais que “os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também se superar, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionamento psicológico e social que lhe seja imposto”. Nada é definitivo nesse mundo. “Não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a reanimar no mais fundo dos nossos corações” (LS, 205).

Mas a esperança sozinha não transforma o mundo. Não basta querer e sonhar. É preciso ousar, arriscar, inventar… Nas palavras de Paulo Freire, “a esperança é necessária, mas não é suficiente […]. Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo”. A esperança que transforma o mundo é uma esperança ativa/criativa que se faz resistência e luta cotidianas. Resistência crítica: na denúncia, no enfrentamento e na luta contra toda forma de opressão, injustiça, exploração e negação de direitos. Resistência criativa: na construção de novos padrões e novas formas de atividade econômica (agroecologia, economia solidária, tecnologias sociais etc.), de novas relações de gênero, da cultura da solidariedade, de articulação das forças populares, de cultivo da dimensão místico-espiritual. E todo esse processo, adverte Ignacio Ellacuría, teólogo-mártir salvadorenho, é marcado por uma tensão fecunda entre o “ideal utópico” e sua “moderação realista”. O “ideal utópico” impede o fatalismo, o conformismo e a resignação diante das injustiças, bem como o pragmatismo político que é fruto de conchavos e negociatas com as elites. A “moderação realista”, por sua vez, “sem perder seu ideal utópico, o modera conforme as possibilidades históricas”. Isso exige lucidez, discernimento e sabedoria. A vida não funciona na base do “tudo ou nada”. Um passo para frente ou mesmo para trás pode ser decisivo para novas conquistas. E, de novo, é importante perceber a dimensão estritamente espiritual desse processo, através do qual o Espírito do Senhor, que é Espírito de vida e que “atua a partir de baixo”, vai reciclando, refazendo, recriando a vida.

 

domingo, 16 de maio de 2021

UM SORRISO DE ESPERANÇA



 

                                  para Mel…

 

Preciso urgentemente sorrir,

Não o sorriso do leve esticar dos lábios,

Mas aquele que se alarga,

Mergulha fundo na alma e chega aos olhos, Iluminando esses tempos tão tenebrosos…

Preciso, urgentemente, sorrir,

Não por um motivo qualquer,

Mas por uma razão verdadeira…

Um sorriso apenas,

Antes que eu esqueça como é…

Seria pedir muito que viesse acompanhado de gargalhadas?

Daquelas de criança…

Que dobra, repica e contagia…

Queria, de novo, o sorriso, o riso, a gargalhada…

Daquelas que acende todas as luzes  da alma…

Rir de dobrar o tronco e doer a barriga,

Pode até cair uma gotinha no canto do olho…

Afinal, como soprou um anjo

Ri é Resistência!

Resistiremos!

Ah sim, Resistiremos!

Porque há vida nova chegando,

Contaminando de Esperança o que o ódio tentou destruir…

Contaminando de Amor

Um mundo novo que surge

No romper dessa madrugada!

 

                       Goretti Santos

sexta-feira, 9 de abril de 2021

INDIGNAÇÃO, FATALISMO, FÉ, ESPERANÇA E APRENDIZADO: COVID-19

 


 

LEONARDO BOFF


 

O intrusão do Covid-19 trouxe grandes questionamentos para a existência humana. Para frear sua propagação se impuseram várias medidas restritivas que provocaram impaciência, indignação,desesperança e fatalismo. Mas também criaram a oportunidade de fé, de esperança e sobretudo de reflexão sobre o sentido de nossa presença neste planeta e de um aprendizado para a vida que deve seguir melhor, mais terna e fraterna.

O vírus invisível desmascarou a arrogância do ser humano moderno que se julgava um pequeno deus, capaz de, com a tecnociência, dominar as forças da natureza e submetê-las ao aeu serviço. O Covid-19 demonstrou que somente nos assenhoreamos da natureza se obedecermos a ela.  Não somos donos mas parte da natureza junto e não em cima dos demais seres abraçados como irmãos e irmãs.

 O Covid-19 nos revelou como seres expostos à imprevisilidade e à vulnerabilidade, quer dizer, não dominamos as condições que garantem ou ameaçam nossa vida.  Quem, afora alguns epidemiologistas, como um dos maiores, David Qammen, previu a chegada ameaçadora do vírus? São poucos países que tem um SUS (Sistema Único de Saúde) como nós no Brasil. Não o tinham os USA, a Itália, a Espanha, o México entre otros. Ademais somos seres que não possuem nenhum órgão especializado (Mangelwesen de Arnold Gehlen) que assegure a nossa existência nem possuímos um habitat próprio, como cada espécie da natureza possui. Precisamos construir pela interação com a natureza e pelo trabalho o nosso habitat, vale dizer, um lugar hospitaleiro no qual podemos viver com sem maiores ameaças e em paz.

O vírus ataca as pessoas, ricas e pobres, as classes, as religiões e todas as nações do planeta. As armas de destruição em massa sobre as quais se funda o poder dos impérios atuais em busca de hegemonia mundial e até de dominação sobre outros povos, se tornaram ineficazes e até ridículas. O que nos está salvando não são os mantras da cultura do capital (o lucro, a concorrência, o individualismo, o assalto aos bens e serviços da natureza, o domínio do mercado sobre a sociedade) mas os valores quase ausentes nesse sistema capitalista e neoliberal: a centralidade da vida, a interdependência entre todos, a solidariedade, a generosidade, o cuidado de uns para com os outros e para com os bens naturais escassos, as relações sociais mais amigáveis contra a voracidade insaciável do mercado, um estado social que cuida das demandas básicas de seus cidadãos.Eis um aprendizado que estamos fazendo e que deve ser internalizado e fundar um novo paradigma de comportamento, para que não se traduza   apenas por alguns atos mas se torne uma atitude permanente, pois é essa que transforma.

A indignação e a impaciência são compreensíveis, pois somos seres sociais.  Não poder conviver, abraçar e beijar nossos entes queridos e amigos é penoso e entristecedor. Assumimos as renúncias como o cuidado para conosco mesmos e como solidariedade para com os demais para não contaminá-los ou nós mesmos não  sermos contaminados. A indignação importa que se transforme em empatia para os que sofrem, seja nos hospitais, seja com as famílias que perderam seus entes queridos.

O fatalismo significa aceitar um fato como inevitável face ao qual nada podemos fazer. Essa é uma visão negacionista que  nos leva à inércia e ao tédio. Esquece que o ser humano foi criado criador; possui dentro de si energias escondidas que são mais fortes que a dureza dos acontecimentos. Podemos resistir a eles, evitá-los e, mesmo acontecidos, sempre é possível tirar lições deles e assim superá-los. Nada é fatal nesse mundo. Somente o é a morte. Mas a morte não precisa significar o fim de nossa peregrinação mas o momento de transfiguração, o exercício da suprema liberdade ao não permitir que a vida nos seja tirada, mas entregá-la a um Maior e despedir-se de te mundo, agradecidos pelo fato de termos existido. É inspiradora a última palavra de Santa Clara, a companheira de São Francisco de Assis: ”Senhor, te agradeço por me teres criado”. Inclinou a cabeça ao lado e expirou e assim caiu nos braços de Deus-Pai-e-Mãe de bondade que  a esperavam.

Face à avassaladora pandemia urge suscitar a fé e alimentar a esperança. Fé, em seu sentido bíblico, significa mais que acolher verdades e  aderir a doutrinas. É antes de tudo uma confiança em  Alguém que acompanha nossos passos, conhece todos os nossos altos e baixos, que sabe do pó do qual somos feitos e tem piedade de nós. Por isso, como diz de forma consoladora, o salmo 103:”Ele não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre; como um pai sente compaixão por seus filhos, assim o Senhor tem compaixão por aqueles que a Ele se confiam porque conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó”(v.9-14). Ter fé significa que a vida, por mais penosa que seja, tem sentido e vale a pena assumi-la e amá-la. Hoje a assumimos em sua fragilidade e confiamos que esse Alguém pode se compadecer de nós e nos salvar do vírus letal.

A esperança nos faz compreender que o invisível é parte do visível. A realidade empírica e dada não é toda a realidade. Ela esconde algo invisível que pertence à nossa condição humana: as incontáveis possibilidades e virtualidades escondidas dentro de nós. Podemos desentranhá-las inventar uma solução nova aos nossos problemas. É a esperança que nos permite sonhar e pensar em mundos ainda não vividos e ensaiados mas que somos desafiados a moldá-los. Enquanto houver esperança, jamais existirão becos sem saída. Pela esperança nos convencemos a nós mesmos de que o Covid-19 não representará o “Next Big One”, o grande vírus terminal, contra o qual nenhuma vacina seria eficaz e que poderia liquidar grande parte da biosfera e levar milhões  da humanidade a um desfecho trágico.

Ainda temos futuro. Nascidos no coração das grandes estrelas vermelhas, há bilhões de anos, seguiremos irradiando. Alimenta nossa esperança uma das últimas frases da Laudato Si: como cuidar da Casa Comum do Papa Francisco:”Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”(n.244).

Leonardo Boff é filósofo e teólogo e escreveu: O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amor social a sair em breve pela Vozes 2021.

 

terça-feira, 21 de abril de 2020

COVID 19 - 21/04/2020 - DÉCIMA OITAVA REFLEXÃO



 
por Frei Aloísio Fragoso

A ESPERANÇA EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


    Ao lado da Fé e do Amor, a Esperança compõe a trilogia que a nossa Igreja chama de "virtudes capitais". Sobre elas se assentam as demais virtudes; sobre elas se sustentam o equilíbrio mental e emocional dos indivíduos  e a  construção da fraternidade universal.
    A despeito disso, não consigo desenvolver uma reflexão sobre este assunto, a mente parece travada. Só me ocorrem idéias vagas, abstratas, conceituais, do tipo "quem espera sempre alcança", "a esperança é a última que morre" e outros clichês desgastados pelo uso.
    Recorro às Escrituras Sagradas e me deparo com uma linguagem mística, transcendente. Como em Ap.22,17: "O Espírito e a Esposa dizem "Vem!" Possa aquele que ouve dizer também "Vem"! Quem tem sede venha, e quem quiser, beba gratuitamente da Água da Vida". Belíssima imagem para simbolizar a soma das nossas esperanças: beber gratuitamente da Água da Vida.
    Abro o livro dos salmos e descubro, nesta coleção de cânticos e orações do Povo de Deus, uma surpresa: ele é a narrativa de todas as suas esperanças misturada com a narrativa de seus desesperos e desolações. Ao mesmo tempo em que reclama da omissão de Javé ("Acorda, ó Deus, por que dormes? Abandonas teu povo nas mãos dos inimigos? Não vês que eles zombam de nós dizendo: cadê o Deus de vocês?" o salmista  confessa a confiança do povo no Único que pode salvá-lo. Outra surpresa é ver que os salmos estão escritos, do começo ao fim, em forma de poesia.
   Então me vem à cabeça usar os mesmos artifícios, a poesia e a mística, para tratar deste assunto. Vou buscar inspiração nas imagens que povoaram a minha adolescência. A imagem do circo com seus malabarismos (sempre quis ser ou mágico ou trapezista). A lembrança de uma figura histórica que me presenteava sempre de novo com risos e gargalhadas: Charles Chaplin. E a representação do Paraíso Perdido, que eu redesenhavaa na imaginação, com mil formas e cores.
    Que vejo simbolizado  em cada uma destas imagens? Na visão do picadeiro, sonhos que se misturam com a realidade na construção da Esperança. Nos filmes de Carlito, estímulos e desafios nutrindo o desejo incontido de abalar os Sistemas dominantes, infectados de vírus infinitamente mais letais do que o coronavirus. E no Paraíso  Perdido, não o que ficou para trás, no início da Criação, mas sim o que temos de reconquistar para o futuro.
    Se tiverem paciência, leiam os três sonetos que daí resultaram:

       VISÕES

Do que resta dos meus anos, gostaria
De fazer um poema surrealista:
Da infância refazer o velho circo,
O palhaço, o mágico e a trapezista.

Com o palhaço revestir de fantasias
Tantos planos que ainda estão na lista.
Rir de mim, rir da vida, rir de tudo,
Com o deboche sereno de um artista.

Da cartola do mágico tirar flores
Vermelhas, só vermelhas, de presente
Aos amigos que ficaram até o fim.

E, ao final, numa profusão de cores,
Do trapézio saltar, ingenuamente,
Entre os BRAÇOS que acenam para mim.

    CHARLES CHAPLIN

Mil novecentos e cincoenta e dois.
Lá se vai Carlito e não tem volta,
Pelo crime de excesso de talento,
De fazer-se livremente de idiota

Em favor de "idiotas" reprimidos.
Fabricante de máscaras, não se esgota.
Cada máscara esconde um opressor.
Mc. Carthy se vê e se revolta,

E com ele a Legião Americana,
Moralistas cínicos e otários
E as elites coléricas, empoladas.

Nos cinemas a platéia não se engana,
Reconhece o gênio e os falsários
E aplaude e explode em gargalhadas.

    NOVO PARAÍSO

Devolva-me o tempo ao mais remoto
Dos dias da Criação, e, junto a Deus,
Possa eu assistir atentamente
Ao princípio da terra e dos céus.

Enquanto se deslumbram os meus olhos,
O sopro do Criador levanta os véus
E renasce das distintas criaturas
A forma que deslumbra os olhos meus.

E escuto um murmúrio onipresente:
"Tudo é belo", "tudo é bom", menos somente
Não haver no universo o pranto e o riso.

E o Senhor recria o homem e a mulher
E lhes deixa por destino e por dever
A conquista do Perdido Paraíso.

    Está é a minha esperança em termos ideais: refazer o Projeto original do Criador, em tarefa que Ele entregou aos nossos cuidados, mas empenhou sua palavra como garantia do êxito final.
    Cada um vive da sua esperança.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

ESPERANÇA: INDIGNAÇÃO E CORAGEM




Por Leonardo Boff

Vivemos no Brasil nos últimos dois anos dois grandes golpes: o primeiro, o impeachment e a deposição de Dilma Rousseff e neste ano de 2018 a ascensão da extrema-direita com a eleição de Jair Bolsonaro a presidente do Brasil.

Não foi Bolsonaro que ganhou. Foi o PT que perdeu e com ele o Brasil.

1.Vivemos tempos sombrios e incertos

Vivemos tempos sombrios e incertos. Internacionalmente somos motivo de vergonha e de escárnio. Não sabemos sequer que futuro nos espera. A estrutura de governo que até agora se montou, particularmente no Ministério das Relações Exteriores e no da Educação nos desenham um quadro perturbador. No lugar da partidização dos cargos do Estado está ocorrendo uma militarização de seus principais postos.

Os militares não precisaram dar um golpe. O ex-capitão Bolsonaro os chamou para dentro do Governo. Como estamos sem horizonte, ficamos perplexos e muitos tomados de desesperança.

2.. Resgate da utopia e das utopias minimalistas

Num contexto assim, antes de falar de esperança, temos que resgatar a dimensão da utopia. A utopia não se opõe à realidade, antes pertence a ela, porque esta não é feita apenas por aquilo que é feito e dado, o que está aí palpável. Mas por aquilo que ainda pode ser feito e dado, portanto por aquilo que é potencial e viável não é ainda visível.

A utopia nasce deste transfundo de potencialidades presentes na história, em cada povo e em cada pessoa. O renomado filósofo alemão Ernst Bloch introduziu a expressão principio-esperança. Ele é mais que a virtude da esperança; emerge como uma fonte geradora de sonhos e de ações. O princípio esperança representa o inesgotável potencial da existência humana e da história que permite dizer não a qualquer realidade concreta, às limitações de nossa condição humana, aos modelos políticos e às barreiras que cerceiam o viver, o saber, o querer e o amar. E dizer sima formas novas ou alternativas de organização social ou de plasmação de qualquer projeto. O não é fruto de um sim prévio e anterior.

Hoje podemos afirmar que as grandes utopias, as utopias maximalistas, do iluminismo (dar cultura letrada a todos), do socialismo (fazer que o nós prevaleça sobre o eu) e também do capitalismo (o eu prevalecer sobre o nós) entraram numa profunda crise. Nunca realizaram o que prometiam: nem todos participam da cultura letrada, a maioria não assistiu a distribuição equitativa e justa dos bens e a riqueza foi somente de pequenos grupos e não das maiorias. Mais ainda: todas estas utopias degradaram a Casa Comum pela super-exploração, e produziram um mar de pobreza, de injustiça social e de sofrimento evitável no lugar de benefícios para todos.

Somos obrigados a nos volver paras utopias minimalistas, aqueles que, não podendo mudar o mundo, podem, no entanto, melhorá-lo.
As utopias minimalistas são aquelas que foram implementadas pelos governos Lula-Dilma e seus aliados com base popular que agora pelo governo de ultra-direita seguramente serão desmontadas.

A nível das grandes maiorias são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda as necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não tire tanto tempo de vida, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e com uma aposentadoria suficiente para enfrentar os achaques da velhice.

A consecução destas utopias minimalistas cria a base para utopias mais altas: aspirar que a nação supere relações de ódio e de exclusão,que os povos se abracem na fraternidade, que não se guerreiem, se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma outra utopia seria possível.

3.Resgatar a força política da esperança

A vitória de Bolsonaro é fruto de uma imensa e bem tramada fraude: suscitando o anti-petismo, colocando a corrupção endêmica no país, como se fosse coisa só do PT, defendendo alguns valores de nossa cultura tradicionalista e atrasada, ligada a um tipo de família moralista e de uma compreensão distorcida da questão de gênero, alimentando preconceitos contra os indígenas, os quilombolas, os homoafetivos, os LGBTI e divulgando milhões milhões de fake news, caluniando e difamando o candidato Fernando Haddad. Informações seguras constataram que cerca de 80% das pessoas que receberam tais falsas notícias acreditaram nelas.

Por trás do triunfo da extrema-direita atuaram forças do Império, particularmente, da CIA como o mostraram vários analistas da área internacional, as classes dos endinheirados, herdeiros da Casa Grande, no sentido de preservar seus privilégios, parte do Ministério Público, do grupo ligado ao Lava-Jato, parte do STF e com expressiva força a imprensa empresarial conservadora que sempre apoiou os golpes e se sente mal com a democracia.

A consequência é o descalabro político, jurídico e institucional. É falacioso dizer que as instituições funcionam. Funcionam seletivamente para alguns. Todas elas estão contaminadas pela corrupção e pela vontade de afastar Lula e o PT da cena política. A justiça foi vergonhosamente parcial especialmente o foi pelo justiceiro juiz federal de primeira instância Sérgio Moro que tudo fez para pôr Lula na prisão,mesmo sem materialidade criminosa para tanto. Ele sempre se moveu não pelo senso do direito, mas pelo law fare (distorção do direito para condenar o acusado) e pelo impulso de raiva e por convicção subjetiva. Diz-se que estudou em Harvard. Fez apenas quatro semanas lá, no fundo para encobrir o treinamento que recebeu nos órgãos de segurança dos USA no uso da law fare.

Conseguiu impedir que Lula fosse candidato à presidência já que contava com a maioria das intenções de voto e até lhe sequestraram o direito de votar. A vitória fraudulenta de Bolsonaro (por causa dos milhões de fake news) legitimou uma cultura da violência. Ela já existia no país em níveis insuportáveis (mais de 62 mil assassinatos anuais). Mas agora ela se sente legitimada pelo discurso de ódio que o candidato e agora presidente Bolsonaro soube alimentar durante a campanha. Tal realidade sinistra, trouxe como consequência um forte desamparo e um sofrido vazio de esperança.

Este cenário adverso ao direito e a tudo o que é justo e reto, afetou nossas mentes e corações de forma profunda. Vivemos num regime de exceção, num tempo de pós-democracia ( juiz no Rio, Rubens Casara). Agora importa resgatar o caráter político-transformador da esperança e da resiliência, as únicas que nos poderão sustentar no quadro de uma crise sem precedentes em nossa história. Temos que dar a volta por cima, não considerar a atual situação como uma tragédia sem remédio, mas como uma crise fundamental que nos obriga a resistir, a aprender das contradições e a sair mais maduros, experimentados e seguros para rasgar um novo caminho mais justo, democrático, popular e includente para o Brasil.

Referimo-nos ao princípio esperança já citado anteriormente, que é aquele impulso que nos habita a sempre nos mover, projetar sonhos e utopias e dos fracassos nos permitir tirar sábias lições e nos tornar mais fortes na resiliência, na resistência e na luta.

As duas formosas irmãs da esperança

A  Santo Agostinho (353-450 da era cristã), talvez o maior gênio cristão e africano de Hipona, hoje Argélia, grande formulador de frases, nos vem esta sentença: “a esperança tem duas belas e queridas filhas: a indignação e a coragem; a indignação para recusar as coisas como estão aí; e a coragem, para mudá-las”.

Nesta fase de nossa história, devemos evocar, em  primeiro lugar, a filha-indignação contra o que o futuro governo de Bolsonaro está e ainda irá perpetrar criminosamente contra o povo, contra os indígenas, contra os negros, contra os quilombolas, contra a população do campo, contra as mulheres, contra os sem-teto, e os sem-terra (MST) criminalizando-os como terroristas, os trabalhadores e contra os idosos, tirando-lhes direitos e rebaixando milhões que da pobreza estão passando para a miséria.

Nem escapa a autonomia nacional, pois o governo ofendendo nossa soberania, está permitindo vender terras nacionais a estrangeiros e mostrando um humilhante alinhamento à estratégia direitista e militarista do governo norte-americano de Trump.

Se o governo ofende o povo, este tem direito de evocar a filha-indignação e de não lhe dar paz. Deve denunciar, resistir e pressionar o mais que puder para mudar dos rumos da política.

A filha-coragem se mostra na vontade de mudanças, não obstante os enfrentamentos que poderão ser calorosos. É ela que nos manterá animados, nos sustentará na luta e poderá nos levar a mudanças substantivas. É imperioso voltar às bases populares, de onde nasceu o PT, criar escolas de formação política, passar de beneficiarios de projetos governamentais de inclusão a cidadãos ativos que se organizam, elaboram pressões, saem às ruas e apresentam projetos alternativos aos oficiais que deem centralidade aos mais pobres e vulneráveis e se decidam por um outro tipo de democracia participativa e ecológica.

Lembremo-nos do conselho de Dom Quixote:”no hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas”: “Não devemos aceitar as derrotas sem antes dar todas as batalhas”.

Há um dado que devemos sempre tomar em conta: é evocar o primeiro artigo da constituição que reza: ”todo o poder emana do povo”. Governantes, deputados e senadores são apenas delegados do povo. Quando estes atraiçoam e não representam mais os interesses gerais mas os do mercado voraz, e de grandes grupos corporativos nacionais e internacionais que só conhecem a competição e desconhecem ao que é mais humano em nos que é a colaboração e solidariedade, o povo tem direito de reclamar por um empeachment e buscar formas legais de afastá-lo de poder.

As duas belas filhas da esperança poderão fazer  sua a frase do escritor argelino-francês Albert Camus, autor do famoso romance A Peste: ”Em meio ao inverno, aprendi que bem dentro de mim, morava um verão invencível”.

O povo brasileiro, em seu momento, assim esperamos, fará sentir dentro de si este verão invencível, fruto de uma rebelde esperança. Será o resgate da democracia contra a impostura do governo Bolsonaro e de seus seguidores e um pilar para refundação de nosso país sobre outros valores e sobre bases mais humanitárias e participativas.

A esperança não é apenas um princípio, quer dizer, um dado da essência humana. Ela é também uma virtude cristã, junto com a fé e o amor. A esperança, de certa forma, está na base da vida. Podemos perder a fé e continuamos a viver. Podemos perder o amor de nossa vida e nos realizarmos num outro. Mas quando perdemos a esperança, estamos a um passo do suicídio porque a vida perdeu sentido e o futuro não possui mais nenhum horizonte com uma luz orientadora. Dominam as trevas.

A esperança no Novo Testamento

Curiosamente, os Evangelhos nunca falam de esperança. Logicamente, havia no povo eleito, a esperança pela vinda do Messias libertador. Ela ocorre uma vez na epístola de São João (1 Jo, 3,3), 4 vezes na epístola aos Hebreus e 3 vezes na primeira epístola de São Pedro. Mas é uma virtude muito presente nos Atos dos Apóstolos (7 vezes) e frequentemente nas cartas de São Paulo. Bem escreve na Epístola aos Romanos que Abraão teve “uma esperança contra toda esperança, de ser pai de muitas nações”(4,18). Numa outra passagem diz que “a esperança nunca engana pois o amor está em nossos corações”(5,5).

Cristo nos salvou. Mas peregrinamos no mundo longe de Deus. Por isso afirma São Paulo: “é na esperança que somos salvos”(Rom 8,24). Aos Efésios fala que num certo tempo “vivíamos sem esperança e sem Deus”(2,12) e agora pelo sangue de Cristo pertencemos ao Messias.

Embora não se use frequentemente a palavra esperança, a realidade da esperança para os cristãos foi, é e será Jesus Cristo vivo, morto e ressuscitado. Por ele Deus mostrou   que a promessa de salvação e de libertação da criação e da humanidade nunca desvaneceu. Nele, pela ressurreição, estamos seguros de que a esperança jamais nos defraudará e que por ela se antecipou o fim bom da criação, do destino humano e do universo.

Devemos somar as energias da esperança, daquela que está sempre presente em nosso ser com aquela que é uma virtude cristã. Ambas se dão as mãos. Elas nos enriquecem com as energias para suportar as aflições do tempo presente mas muito mais nos dão a coragem para enfrentá-las e inaugurar um novo caminho.

Talvez nunca em nossa história temos precisado tanto das duas formas de esperança como agora, pois os tempos são maus e somos governados por forças poderosas do ódio, da exclusão, da falsidade, da violência e da mentira.

Que o Espírito que é esperança dos pobres não nos deixe desanimar mas nos acompanhe com sua Energia divina para sermos fiéis ao sonho de Jesus. Ele veio para nos ensinar a viver os bens do Reino: do amor, da justiça,da compaixão com os pobres, do perdão e da total confiança no poder de Deus, “apaixonado amante da vida”(Sb 11,2 6).

(Palestra dada no dia 2 de dezembro de 2018 em Belo Horizonte a um numeroso grupo de políticos que assumem a fé cristã como fonte de ética e de inspiração para os ideais democráticos, grupo este organizado pelo ex-deputado Durval Angelo de Andrade e atualmente membro do Tribunal de Contas do Governo de Minas Gerais)

Leonardo Boff, teólogo e assessor de movimentos sociais.


terça-feira, 27 de novembro de 2018

REORGANIZAR A ESPERANÇA





Por Marcelo Barros

A partir do próximo domingo, as Igrejas cristãs mais antigas do Ocidente entram no que chamam de “tempo do Advento”. São quatro semanas nas quais as comunidades são chamadas a reavivar a esperança fundamental que temos na vida. É importante ligar isso com a celebração anual do Natal, como festa da renovação da humanidade, simbolizada em Jesus. O objetivo é nos alimentar na esperança de um mundo renovado.
Para quem crê, a esperança não consiste apenas em aguardar algo que se deseja e sim em viver de acordo com aquilo que se espera. Na etimologia do termo latino (spes), a esperança significa tornar presente agora aquilo que é desejado ou esperado para amanhã.  A esperança nada tem a ver com a ilusão do futuro. Ao contrário, a verdadeira esperança nos enraíza no presente, no aqui e agora, para nos abrir à plenitude do que podemos ser.

Assim a esperança nos transforma, como também transforma o mundo. É claro que não estamos falando de uma esperança qualquer. No caso de uma comunidade judaica ou cristã, a esperança é o próprio coração da fé. O que se espera não é fruto de nossa imaginação ou de nossos desejos. O objeto da esperança é o que Deus quer e prometeu para a humanidade. As culturas humanas podem dar nomes diferentes. Os povos indígenas chamam de “bem-viver”. Os evangelhos chamam de “reinado divino”. 

Assim sendo, essa esperança é muito característica da fé bíblica. Ela não depende da conjuntura favorável. Não pode ser prisioneira de nossas vitórias ou conquistas. Nem refém dos resultados. Se assim fosse, deixaria de ser a esperança que nos faz orar cada dia: “Venha a nós o teu reino”.

A esperança que Deus deposita em nós é humilde, pobre e teimosa. Sofrida e rebelde como a esperança dos profetas e do profeta Jesus. Como a esperança da mãe-Terra, que em meio aos ataques do sistema opressor, geme de dor. No entanto, não deixa nunca de gerar flores e sinais de vida nova. Nossa esperança se realiza aqui e agora, mas é movida pelo Infinito e se dirige ao Infinito. É dom do Espírito e a ela nunca poderemos renunciar ou rejeitar. Ao contrário, ela é a teimosia de saber que nossa luta é invencível. Que podemos ter perdido algumas batalhas e ainda perder outras, mas a luta continua e, como dizem os índios em Chiapas, sul do México: "Nós somos um exército de sonhadores. Por isso somos invencíveis".

É compreensível que nosso olhar sobre o Brasil atual, principalmente depois dessas eleições e sobre o próprio mundo, nos traga a tentação da desesperança. Diante das notícias cotidianas que nos assaltam, muita gente mais consciente se sente atordoada.

Isso torna mais urgente a nossa tarefa de reavivar a esperança, tanto dentro de nós mesmos, como em nossas relações familiares e sociais. Nas comunidades, é preciso realimentar a esperança como ensaio do reinado divino no mundo. Por isso, temos de partir da fé e desenvolver uma espiritualidade sócio-político libertadora. Isso significa viver a fé e a busca da intimidade com Deus não só no íntimo do coração, mas na luta por uma sociedade mais justa e por um mundo de acordo com o projeto divino.

Para quem participa de grupos cristãos, esse é o projeto do tempo do Advento. Temos de vivê-lo de modo que alimente nossa esperança e nossa atuação nas bases da sociedade e na inserção nos movimentos sociais. Nas Igrejas, é urgente retomarmos a ceia de Jesus, não apenas como culto piedoso e clerical, mas como alimento de comunhão e resistência. Assim, a ceia eucarística se tornará profecia antecipadora de um mundo de partilha e sinal maravilhoso de nosso bem-querer, movido pelo Espírito e que pode transformar o mundo. Será uma maravilha poder responder ao que o autor da primeira carta de Pedro propunha: “Estejam sempre prontos/as a prestar contas da esperança que existe em vocês” (1 Pd 3, 15).


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


terça-feira, 27 de março de 2018

ENGRAVIDAR O MUNDO NA ESPERANÇA DA PÁSCOA



por Marcelo Barros

O planeta Terra está doente. A humanidade padece uma crise profunda que tem diversas faces. Apresenta um desequilíbrio social e uma organização política iníqua. Sustenta uma economia que, cada vez mais, concentra renda. Oito pessoas possuem uma riqueza equivalente a mais de três bilhões de seres humanos. E ainda destrói a natureza de forma implacável. Em países como o Brasil, a violência toma formas realmente assustadoras. Esse é o contexto no qual, nesse domingo, as Igrejas cristãs antigas começam a Semana Santa e, a partir da próxima 5ª feira, celebrarão a festa anual da Páscoa de Jesus. Alguém pode se perguntar o que uma coisa tem a ver com a outra. 

Muitos cristãos tradicionais – católicos, ortodoxos e evangélicos, tanto fieis, como pastores/as, não se preocupam em ligar a fé com a realidade social e politica. Para essas pessoas, a fé diz respeito apenas à intimidade de cada consciência e ao âmbito interno dos templos nos quais o mistério é celebrado. Eles e elas repetirão os mesmos ritos, ouvirão as mesmas leituras e cantarão os mesmos cânticos, como se nada tivessem a ver com o mundo real em que vivemos. 

Cristãos mais exigentes se perguntam se tem sentido celebrar a ressurreição de Jesus em meio a um mundo que vive mergulhado nas cruzes nossas de cada dia. Não há respostas fáceis, nem prontas. No entanto, podemos pensar que, ao contrário, é justamente pelo fato de que o mundo está aprisionado às forças da morte que mais precisamos celebrar a Páscoa. A celebração pascal pode alimentar a esperança da libertação integral e de uma vida nova com a mensagem transformadora da ressurreição de Jesus. Se Jesus ressuscitou realmente e nós podemos ser testemunhas do Ressuscitado, esse mundo tem remédio, Podemos acreditar que a salvação divina está em ação na humanidade e na natureza. A ressurreição de Jesus é energia curadora que renova a vida, o amor solidário e dá razão a todas as nossas melhores esperanças. No entanto, é bom sempre insistir e repetir:  isso não ocorrerá magicamente e nem independentemente de nossa ação. 

Quando na quinta-feira santa, os cristãos estiverem lembrando a ceia de Jesus, precisam se dar conta de que cada vez que celebram a eucaristia, deveriam se comprometer em levar uma vida movida pela partilha real e radical de tudo o que temos e o que somos. Na sexta-feira santa, celebramos a cruz de Jesus como Páscoa de vida. Isso significa escutar o apelo de Deus para nos solidarizarmos a todos os que, no mundo atual, continuam pregados à cruz e morrem vítimas das violências, das injustiças sociais. Que o martírio deles e delas seja cada vez mais fecundo e possa resultar em libertação e vida para todos/as. Finalmente, na noite do sábado santo, ou na madrugada do domingo, celebraremos a vigília-mãe de todas as celebrações cristãs. Proclamaremos que, como Luz que ressurge no meio da escuridão da noite, Jesus ressuscitou. Então, a humanidade inteira, cristãos e não cristãos, somos chamados a ressuscitar com ele para iniciar uma vida nova e, assim, trabalharmos nas comunidades e movimentos sociais para transformar o mundo e renovar o universo com a força do amor divino. Que essa celebração pascal nos dê a graça de nos tornarmos novas criaturas que semearão nesse mundo doente as sementes de um novo mundo de amor e justiça. 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.
   

sexta-feira, 2 de março de 2018

FACE À MISÉRIA DA POLÍTICA, A ESPERANÇA NÃO PODE MORRER





Por Leonardo Boff

Apesar de toda a alegria do carnaval passado em quase todas as cidades de nosso pais, há um manto de tristeza e desamparo que se pode ler nos rostos da maioria que encontramos nas ruas das grandes cidades como o Rio e São Paulo entre outras.
É que politicamente o golpe parlamentar-jurídico-mediático (e hoje sabemos apoiado pelos órgãos de segurança dos USA) nos fechou o horizonte. Ninguém pode nos dizer para onde vamos. O que aponta de forma inegável é o aumento da violência com um número de vítimas que se igualam e até superam as regiões de guerra. E ainda sofremos uma intervenção militar no Rio de Janeiro.
Se bem observarmos, vivemos dentro de uma guerra civil real. As classes que já estavam abandonadas, agora o são mais ainda pelos cortes dos programas sociais que o atual governo de Estado de exceção impôs a milhares de famílias.
Tínhamos saído do mapa da fome. Regressamos a ele. E não se diga que foram as políticas dos governos do PT. Essas nos tiraram do mapa. A aplicação rigorosa do neoliberalismo mais radical pela nova classe dirigente instalada no Estado, está produzindo fome e miséria. O crescimento da violência nas grandes cidades é proporcional ao abandono a que foram submetidas.
As discussões dos vários organismos, responsáveis pela segurança, nunca vão à raiz da questão. O real problema que não querem abordar reside na nefasta desigualdade social, vale dizer, na injustiça social, histórica e estrutural sobre a qual está construída a nossa sociedade. A desigualdade social cresce quanto mais se concentra a renda e quanto mais avança o agronegócio sobre terras indígenas e dos povos da floresta e quanto mais se fazem cortes na educação, na saúde e na segurança.
Ou se faz justiça social nesse pais, que implica reformas: a agrária, a tributária, a política e a do sistema de segurança ou nunca superaremos a violência. Ela tenderá a crescer em todo o país.
Se um dia, é o que tememos, a marginália das grandes periferias abandonadas se rebelarem, por causa da fome e da miséria e decidirem assaltar supermercados e invadir os centros urbanos, poderá produzir um “bogotaço” brasileiro como ocorreu nos meados do século passado em Bogotá, destruindo, por semanas a fio, quase tudo que se via pela frente.
Estimo que as elites do atraso, apoiadas por uma mídia conservadora e golpista por uma justiça fraca, para não dizer cúmplice e pelo aparato policial do Estado, reocupado por elas, poderão usar de grande violência, sem resolver mas agravando a situação.  Ou haverá uma mudança radical que dê outro rumo ao nosso país.
Nesse quadro, como ainda alimentar a esperança de que o Brasil tem jeito e que podemos criar uma sociedade menos malvada,no dizer Paulo Freire?
Bem disse o bispo profético, o ancião Dom Pedro Casaldáliga lá dos fundos do Araguaia matogrossense: portadores de esperança são aqueles que caminham e se empenham para superar situaçãoes de barbárie. Estas mudanças nunca virão de cima, nem do atual stablishment, virão de baixo, dos movimentos sociais organizados e com parcelas de partidos comprometidos com o bem-estar do povo.
O Papa Francisco ao reunir-se com os movimentos sociais latino-americanos em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia, cunhou três expressões resumidas nos três T: terra para as pessoas produzirem, teto para se abrigarem e trabalho para ganharem sua vida.
Lançou um desafio: não esperem nada de cima pois virá sempre mais do mesmo; sejam vocês mesmos os profetas do novo, organizem a produção solidária, especialmente a orgânica, reinventem a democracia. E sigam estes três pontos fundamentais: a economia para a vida e não para o mercado; a justiça social sem a qual não haverá paz; e o cuidado com a Casa Comum sem a qual nenhum projeto terá sentido.
A esperança nasce deste compromisso de transformação. A esperança aqui deve ser pensada na linha do que nos ensinou o grande filósofo alemão Ernst Bloch que formulou “o princípio esperança”. Quer dizer, a esperança não uma virtude entre outras tantas. Ela é muito mais: é o motor de todas elas, é a capacidade de pensarmos o novo ainda não ensaiado; é a coragem de sonhar um outro mundo possível e necessário; é a ousadia de projetar utopias que nos fazem caminhar e que nunca nos deixam parados nas conquistas alcançadas ou quando derrotados, nos fazem levantar para retomarmos a caminhada. A esperança se mostra no fazimento, no compromisso de transformação, na ousadia de superar obstáculos e enfrentar os grupos de opressores, a maioria descendentes da Casa Grande.Essa esperança não pode morrer nunca.
Leonardo Boff é teólogo, filosofo e escritor e escreu:Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência? a sair pela Vozes em março.
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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

MANIFESTO DA ESPERANÇA TRANSFORMADORA



Por Marcelo Barros

Há várias formas de celebrar o Natal. O Natal do Pai Noel, das publicidades comerciais e do consumo. No meio disso, há o Natal das confraternizações de família e de amigos. Nas comunidades e principalmente no campo, o Natal é marcado por celebrações tradicionais. As comunidades de base fazem novenas. Em várias regiões do Brasil, saem os grupos de folia lembrando os Santos Reis. No Nordeste, ainda se fazem pastoril e reizado. É ótimo que o Natal seja ocasião de comunidades e grupos se encontrarem e retomarem suas raízes culturais. Entretanto, a proposta mais profunda da liturgia cristã do Natal vai além de tudo isso. Recorda o nascimento de Jesus para propor uma renovação de vida. Nos séculos antigos, os pais da Igreja afirmavam: "Cristo se fez homem para que todo ser humano seja divinizado".

O melhor mesmo é celebrar o Natal de modo que favoreça esse processo de uma humanização que nos diviniza. No Natal, as pessoas são convidadas a renovar a esperança em si mesmas e em todo ser humano. É sempre bom insistir: todos nós somos capazes de nos transformar. Celebrar o Natal deve nos ajudar a reviver no mais íntimo de cada um/uma de nós algo da inocência do primeiro amor.

Nós somos feitos de amor e para o amor. Conforme a carta de João, "somos aqueles que acreditamos no Amor". Estamos todos em busca de um céu que está escondido no próprio coração humano e que pode acolher a vastidão de nossos sonhos. Queremos captar a linguagem dos corações que suspiram por um olhar, desejam uma carícia e acolhem o mais profundo de bom que existe em cada pessoa e mesmo em cada ser vivo.

Nos dias anteriores ao Natal, as comunidades cristãs costumam ler textos dos evangelhos que pedem a todos a atitude permanente da vigilância. Conforme a Bíblia, vigiar é manter-se acordados e com os olhos bem abertos sobre o que está acontecendo em torno de nós e no mundo. A palavra de Deus nos ensina a ser sempre críticos em relação à realidade. No entanto, como lembrava o Mahatma Gandhi, devemos começar por nós mesmos a mudança que pedimos ao mundo. É preciso que a celebração desse Natal nos fortaleça no esforço de uma transformação interior que é permanente.

Quem acompanha as notícias e vê a realidade do mundo atual percebe que os meios de comunicação e os governantes se uniram na tarefa de provar que o ser humano é visceralmente mau e que a sociedade humana não tem solução, nem remédio. O jeito é sobreviver todos contra todos na barbárie nossa de cada dia. Por isso, a celebração desse Natal precisa ser uma profecia contra esse pessimismo. Como dizia Dom Helder Camara: "Quanto mais a noite é escura, mas a madrugada será luminosa".

No Natal, costumamos armar presépios em nossas salas. É importante que esse costume não seja apenas algo rotineiro mas nos lembre que, hoje, a Belém na qual Jesus nasceu é aqui. Vamos, então, acolher a mensagem dos novos anjos que nos anunciam a salvação vinda do amor divino e nos coloquemos em caminho, como os pastores. Vamos contradizer o pessimismo de quem não crê mais em nada, superar o clima hostil de intolerância e radicalismos que invadem nossas cidades e chamar as pessoas conhecidas ou desconhecidas para olhar as estrelas e conosco cantar a alegria da fé: "Tu vens, tu vens. Eu já escuto os teus sinais".


Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.br