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quinta-feira, 11 de novembro de 2021

IMPÉRIO DO MEDO

 Frei Betto


 

      Neste mundo desprovido de utopia, senso histórico e confiança na representatividade política, o medo ocupa cada vez mais espaço. As forças conservadoras incutem em muitos tal insegurança que, como cordeiros a serem tosquiados, aceitam trocar a liberdade pela segurança. Essa doença tem nome: eleuterofobia, medo de ser livre. Deixa-se de melhorar a qualidade de vida ou fazer uma viagem de lazer para manter intocado o dinheiro no banco. 

      Temos medo do desemprego, da inflação, da recessão. Medo da pandemia. Medo do governo neofascista. Medo do ódio destilado nas redes digitais. Medo da velhice. “O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho” (Guimarães Rosa in “Conversa de bois”, Sagarana). A toda hora soa o alarme: Cuidado! A fera está solta!

Nem sempre identificamos a fera com nitidez mas, como manada, disparamos em atropelos para nos afastar o mais possível do seu alcance. 

      Quem é a fera? É o “outro”, o imigrante que vem roubar nossos empregos. É o estrangeiro que ameaça subverter o nosso estilo de vida. É o muçulmano que, por baixo da túnica, carrega um cinturão de dinamites. É o refugiado que obriga o nosso governo a desviar recursos para socorrê-lo. É o homossexual encarado como promíscuo. É quem pensa diferente e cujas ideias nos parecem conter material explosivo...

      Assim o medo se dissemina pelo país. Penetra em nossas casas. Impregna-nos a mente, os olhos, os ouvidos, o olfato e o paladar. Medo do alimento que engorda, do tabaco que envenena, da bebida que embriaga. Medo de tudo e de todos. Esquecemos que a sabedoria recomenda ter medo do medo. 

      Cresce a síndrome do medo. Isso vale para Rio, São Paulo, Nova York, Paris ou qualquer outra grande cidade. Medo de assalto, o que induz o cidadão a tonar-se prisioneiro de sua própria casa, trancada a mil chaves, dotada de alarme de segurança, e quebrada, no visual, pelas 
grades que cobrem as janelas.

      O medo viaja a bordo do desconhecido. O porteiro do prédio deve exigir identificação, o nome é anunciado por interfone, o visitante conferido pelo olho mágico e, por fim, as fechaduras, de roliças chaves dentadas, abertas uma a uma.

      Doença da moda é a agorafobia - medo de lugares públicos. Teme-se que a praça esconda ladrões atrás das árvores, e crianças pedintes se transformem em perigosos assaltantes ao se aproximar do carro. Aumenta o número de pessoas que preferem não sair à noite, jamais usam joias e entram em pânico se alguém se dirige a elas para perguntar onde fica tal rua. O homem é, enfim, o lobo do homem. "Quem vive sob o domínio do medo nunca será livre", dizia Horácio.

      De onde vem tanto medo? Da sociedade que nos abriga, marcada por desigualdade e preconceitos. Se não somos iguais em direitos e nas mínimas condições de vida, por que se espantar com reações diferentes? Como exigir polidez de um homem que sente na pele a discriminação racial e, na pobreza, a social? Como esperar um sorriso de uma criança que, no barraco em que mora, vê o pai desempregado descarregar a bebedeira na surra que dá na mulher? A discriminação humilha, e a humilhação gera ressentimento, amargura e revolta.

      O medo decorre também das autoridades civis e religiosas que, na falta de argumentos, atemorizam com ameaças, bravatas, terrorismo psicológico, evocações do demônio e do inferno. 

      O contrário do medo não é a coragem, é a fé. Não apenas religiosa, mas cívica, política, utópica. Acreditar que o futuro pode ser melhor e diferente. E começar, hoje, a semear os bons frutos a serem colhidos no futuro.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Espiritualidade, amor e êxtase” (Vozes), entre outros livros. Livraria virtual:         freibetto.org

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 


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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

BALANÇO DE 2019: O IMPÉRIO DA IMPOSTURA



por leonardo boff

Afora os grandes empresários que aplaudem calorosamente o ministro Paulo Guedes porque ganham com a crise, o balanço de 2019 na perspectiva das vítimas dos ajustes fiscais, dos que perderam direitos na reforma da previdência e dos resistentes é repudiável.
Instalou-se aqui o império da impostura. Um presidente que deveria dar exemplo ao povo de virtudes que todo governante deve ter, realizou atos acintosos que na linguagem religiosa, bem entendida por ele, são verdadeiros pecados mortais. Pela moral cristã mais tradicional é pecado mortal caluniar certas ONGs, bem o ator Leonardo di Caprio culpando-os de incentivar os incêndios da Amazônia ou difamando o reconhecido educador Paulo Freire e o cientista Ricardo Galvão ou mentir contumazmente mediante fake news e alimentar ódio e rancor contra homoafetivos, LGBTI, indígenas, quilombolas, mulheres e nordestinos. A lentidão no julgamento do massacre de Brumadinho-MG e de Mariana-MG está mostrando a insensibilidade das autoridades. Algo parecido ocorreu com o derrame ignoto(?) de petróleo em 300 praias de 100 municípios do Nordeste.
Não cabe a ninguém julgar sua intenção subjetiva. Isso é coisa para Deus. Mas cabe fazer um juízo  sobre fatos e atos, portanto, realidades objetivas e concretas para as quais cabe um juízo ético e teológico. Tal atitude imoral foi entendida por muitos como carta branca para desmatar mais, assassinar lideranças indígenas e a polícia tornar-se mais violenta e até assassina.
Estamos vivendo sob o império da impostura no campo nacional e no internacional. Um psicanalista francês, Roland Gori escreveu um instigante livro “La fabrique des imposteurs”(Paris 2013). Para ele o impostor é aquele que prefere os meios aos fins, que nega as verdades científicas, que distorce a realidade solar, que não se rege por valores porque é apenas um oportunista, que afirma algo e logo depois o nega conforme suas conveniências, que pratica a arte de iludir as pessoas ao invés de emancipá-las pelo pensamento critico, que despreza o cuidado pelo meio ambiente, que passa por cima das leis, que culpabiliza os pobres e que não demonstra  amor nem  piedade.
O que transcrevi aqui está referido no livro “La fabrique des imposteurs” e representa um retrato da atmosfera de impostura reinante nas mais altas instâncias políticas do Brasil.
As medidas contra a educação, a saúde, a ciência, ao meio ambiente e aos direitos humanos concretiza a mais rude impostura contra tudo o que se construiu de positivo nos últimos decênios. Somos conduzidos a um estágio regressivo, anterior ao iluminismo, numa mentalidade fundamentalista com viés fascistóide.
Talvez o ato para nós mais humilhante foi o gesto de vassalagem explícita do atual governante ao presidente dos USA, oferecendo-lhe o que podia sem receber nada em troca. Risível e ridículo foi quando, numa recepção de chefes de estado lhe diz a Trump “I love you” e recebeu apenas 17 segundos de atenção.
A impostura grassa veemente, em primeiro lugar, nos USA onde o presidente Trump, segundo repete Paul Krugman, Nobel de economia, constitui um perigo para a humanidade. Mente a mais não poder e se justifica ao dizer que são “verdades alternativas”. Igual impostura ocorre nos países ultra neoliberais onde o povo se rebela como no Chile, no Equador,na Colômbia, culminando com um golpe de estado contra a população indígena e seu representante na Bolívia, lançando o povo na fome e no desespero.
Perigosa impostura ocorreu na COP25 em Madrid que contra todas as evidências e dados científicos predominaram os negacionistas do aquecimento global, o Brasil incluído. Contra eles o relatório final recolhe a advertência da ONU:”Se nada fizermos, no final do século, a temperatura pode aumentar de 4-5 graus”. Com estes níveis, a vida que conhecemos não subsistirá. Será um verdadeiro Armagedom ecológico. Nossa espécie correrá perigo.
Não obstante esta atmosfera tenebrosa cabe celebrar a libertação de Lula, vítima da aplicação da law fare, instrumento de perseguição política com o objetivo de prendê-lo. O que ocorreu.
Termino com as palavras severas do prêmio Nobel de medicina de 1974, Christian de Duve:”A perspectiva não é apenas preocupante: é aterrorizante. Se não conseguirmos conter o crescimento demográfico (poderia dizer o aquecimento global) racionalmente, a seleção natural fará isso por nós irracionalmente, às custas de privações sem precedentes e de danos irreparáveis ao meio ambiente. Tal é a lição que quatro bilhões de anos  nos oferece a história da vida na Terra”(Poeira vital 1997,369).
Bem o enfatizava o Papa Francisco em sua encíclica ecológica:”as previsões catastróficas não se podem olhar com desprezo e ironia”(n,161). A impostura nos faz surdos a estes clamores. Por causa disso, o destino humano dificilmente escapará de uma tragédia.
Leonardo é teólogo e filósofo e escreveu:A saudade de Deus-a força dos pequenos, Vozes 2019.


sexta-feira, 24 de maio de 2019

SOB O IMPÉRIO DO GROSSEIRO E DO OBSCENO



por leonardo boff

Se há algo a lamentar profundamente hoje em dia nas redes sociais de nosso país é o império da grosseria e da obscenidade.
Essa metáfora já foi usada por outros: parece que as portas e as janelas do inferno se abriram de par em par. Daí saíram os demônios das ofensas pessoais, das injúrias, dos fake news, das mentiras, das calúnias e de toda sorte de palavras de baixíssimo calão. Nem precisaria Freud ter chamado a atenção ao fato de que há pessoas com fixação anal, usando palavras escatológicas e metáforas ligadas a perversões sexuais, pois as encontramos frequentemente nos twitters, nos facebooks, nos youtubes e em outros canais.
A grosseria demonstra a falta de educação, de civilidade, de cortesia e de polidez no trato para com as pessoas. A grosseria transforma a pessoa em vulgar. O linguajar vulgar usa expressões que ferem a sensibilidade dos outros ao seu redor. A vulgaridade contumaz deixa as pessoas inseguras, pois, nunca sabem quais gestos, palavrões ou metáforas de mau gosto podem sair de gente grosseira. O grosseiro casa o mau gosto com o desrespeito.
Especialmente, embora não exclusivamente, é o homem mais vulgar em sua linguagem. A mulher, não exclusivamente, pode ser vulgar no modo de se expor. Não se trata apenas no modo de se vestir, tornando-a explicitamente sensual e sedutora, mas no comportamento inadequado de se portar. Se a isso ainda se somam palavras obscenas e grosseiras faz-se mais vulgar e grotesca.
Especialmente grave é quando os portadores de poder como um presidente, um juiz da corte suprema, um ministro de Estado ou senador entre outros, esquecem o caráter simbólico de seu cargo e usam expressões vulgares e até obscenas. Espera-se que expressem privada e publicamente os valores que representam para todos. Quando falta esta coerência, a sociedade e os cidadãos se sentem traídos e até enganados. Aqueles que usam excessivamente expressões indignas de sua alta função são os menos indicadas para exercê-las.
Infelizmente é o que verificamos quase diariamente no linguajar daquele que ocupa o cargo mais alto da nação. Seu linguajar, não raro, é tosco, ofensivo, quando não escatológico e quase sempre burlesco.
Se é grave alguém ser grosseiro, mais grave ainda é o ser obsceno. Pois, este, o obsceno, rompe o limite natural daquilo que implica respeito e o sentido bom da vergonha. Já Aristóteles em sua Ética anotava que nos damos conta da falta de ética quando se perdeu o sentido da vergonha. Sem ela, tudo é possível, pois, não haverá nada que imponha algum limite. Até a Shoah, o extermínio em massa de judeus pelo nazismo, se tornou terrível realidade.
Nem tudo vale neste mundo. Houve Alguém que foi sentenciado à morte na cruz por testemunhar que nem tudo vale e que é digno entregar a própria vida por aquilo que deve ser incondicionalmente intocável e respeitável: a reverência ao Sagrado e a sacralidade do pobre e do que injustamente sofre.
Houve no Ocidente uma figura que se transformou em arquétipo da cortesia e da finura de espírito, daquilo que Pascal chamava de “esprit de finesse” contraposto ao “esprit de géométrie”; aquele, cheio de cuidado e de delicadeza e este outro, marcado pela frieza do cálculo e pela vontade de poder.
Um franciscano francês, Eloi Leclerc, sobrevivente do campo nazista de extermínio de Dachau e Birkenau, traduziu assim a cortesia de Francisco de Assis: “ter um coração leve” sem nenhum espírito de violência e de vingança, o reverso o de ter um coração pesado como o nosso, cheio de grosserias e de obscenidades. Aí ele faz o Poverello de Assis dizer:
“Ter um coração leve é escutar o pássaro cantando no jardim. Não o perturbes. Faze-te o mais silencioso possível. Escuta-o. Seu canto é o canto de seu Criador.”
“Rosas desabrocham no jardim. Deixa que possam florir. Não estendas a mão para colhê-las. Elas são o sorriso do Criador”.
“E se encontrares um miserável, alguém que está sofrendo desesperado, cala-te, escuta-o. Enche teus olhos com a presença dele, com a vida dele até que ele possa descobrir em teu olhar que tu és seu irmão. Então tu o fizeste existir.Tu foste Deus para teu irmão” (O Sol nasce em Assis, Vozes 2000 p.127).
Releva dizer: somos seres duplos, grosseiros e obscenos, mas também podemos e devemos ser gentis e corteses. Destes precisamos muitos, nos dias atuais, em nosso país. Para isso importa educar o coração (sim, dar valor à educação) para que seja leve e totalmente distante de toda a grosseria e de toda a obscenidade, tão vigentes entre nós.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo, ex-frade mas conservando o espírito franciscano de Assis.




terça-feira, 19 de julho de 2016

O IMPÉRIO E A RESISTÊNCIA



Por Marcelo Barros


Quanto mais o mundo se abre à comunicação imediata e se popularizam os recursos de internet e redes sociais, mais os ambientes de poder se cercam de serviços secretos e estratégias ocultas. A maioria dos latino-americanos nunca ouviu falar de algumas cláusulas dos tratados de livre comércio que os governos de seus países fazem com os Estados Unidos. Isso é mais grave porque tem repercussão direta na vida dos mais pobres. Pequenos comerciantes nem sabem porque, de repente, começam a ter prejuízos.

 Produtos do outro lado do mundo, muitas vezes, fabricados com trabalho semiescravo, são vendidos com preços menores e destroem o mercado local. Através do Tratado de Associação Trans-Pacífico, doze países latino-americanos como o Chile, o Peru e a Colômbia assinaram isenção de impostos para 18 mil produtos norte-americanos. Enquanto esses milhares de produtos, vindos dos Estados Unidos, poderão ser vendidos em nossos países, isentos de impostos, nossos produtos não terão condições de competir com eles, nem poderão entrar nos Estados Unidos nas mesmas condições comerciais. Bernie Sanders, pre-candidato democrático à presidência dos EUA, afirmou: "Nos países mais pobres, o TTP vai devastar a economia de muitas famílias de trabalhadores".

Na Europa, a opinião pública sabe muito pouco sobre o Transatlantic Trade and Investiment Partnership (Ttip). Esse tratado de livre comércio significa a liberação total do comércio e dos investimentos. Põe fim a todas as barreiras tarifárias. Abrange 800 milhões de pessoas e quase 45% de todo o comércio mundial. Mas, entre governantes e empresas, guarda-se segredo sobre como ele será implementado. Sabe-se apenas que a Comissão Europeia se comprometeu a entrar nesse caminho. Ninguém votou em nada. Um dos segredos que saiu a público foi que o TTIP acabará com o chamado "princípio da precaução". Até agora para comercializar um produto na Europa o produtor precisa demonstrar que ele não fará mal à saúde das pessoas e ao ambiente. Nos Estados Unidos, se faz o contrário: até que não se prove que o produto faça mal e polua, se pode vender. O novo tratado tornará essa lei norte-americana válida para a União Europeia.

Nos países latino-americanos que tiveram governos progressistas e mais populares, o presidente Hugo Chávez havia conseguido substituir o ALCA (Tratado de livre comércio com os EUA) pela ALBA, um acordo cultural e comercial entre os países pobres da América na linha da solidariedade e do apoio mútuo. Para os interesses norte-americanos era tão importante derrubar esse projeto que valeu a pena patrocinar a volta de governos de direita em países como Argentina e Peru, financiar um golpe de Estado em Honduras e golpes parlamentares no Paraguai e agora no Brasil.

Uma das primeiras providências do governo brasileiro, que, teoricamente, ainda seria interino, é privatizar tudo o que é possível, destruir todos os programas sociais e principalmente entregar o Pré-sal às multinacionais norte-americanas.

Enquanto as massas continuam anestesiadas pelo plim-plim da televisão e pelos jornais a serviço do Império, essa realidade nova criou uma maior articulação dos diversos movimentos sociais. Além dos objetivos específicos de luta pela terra, pelo teto ou por condições dignas de trabalho, os movimentos sociais se unem em defesa da democracia. Eles lutam pacificamente para que o atual retrocesso que ocorre no caminho de integração latino-americana e de autonomia dos nossos países não destrua todas as conquistas já realizadas por nossos povos.


Em toda a América Latina esse caminho novo e de libertação tem sido impulsionado pelas comunidades indígenas e pelos movimentos de lavradores em nome de sua espiritualidade cósmica. É a própria veneração à Mãe Terra e à natureza que exigem o respeito à dignidade de toda pessoa humana e que ninguém, nem a natureza sejam tradados como mera mercadoria. Para quem tem a fé bíblica, a liberdade dos povos e a dignidade de toda pessoa humana são sinais da vinda ao mundo do projeto divino de justiça, paz e integridade para todo o universo. 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

O IMPÉRIO DA LEI.


por Eduardo Hoornaert



Nos últimos dias vimos altos representantes do poder judiciário brasileiro vir ao público para defender o ‘império da lei’, acima de tudo. Nesse cenário, a Carta ao Povo Brasileiro, que Lula mandou publicar na noite de 17/03, constitui um contraponto. Ele escreve: ‘Não tive acesso a grandes estudos formais, como sabem os brasileiros. Não sou doutor, letrado, jurisconsulto. Mas sei, como todo ser humano, distinguir o certo do errado, o justo do injusto’. Por conseguinte, contesta o valor absoluto do ‘império da lei’.

Permitam-me os que lerem este texto evocar uma história que todos os cristãos bem conhecem: a condenação de Jesus, tal qual vai descrita no Evangelho de Marcos. Como afirmam os melhores estudiosos, Jesus foi condenado à morte segundo a Lei Romana e a Jurisprudência Judaica. Quando Jesus é preso, ele é levado ao Sinédrio reunido na Casa do Sumo Sacerdote Caifás. Aí sacerdotes, letrados e anciãos investigam se ele é culpado de morte. Os depoimentos são contraditórios e não levam a nada, como relata o Evangelho de Marcos: ‘os Sumos Sacerdotes e todo o Sinédrio procuraram contra Jesus um depoimento que lhes permitisse condená-lo à morte e eles não encontraram nada’ (Mc 14, 55). Mas aí, o Sumo Sacerdote Caifás intervém. Faz um depoimento em que deixa entender que Jesus é um perigo para a nação israelita. Caifás é o exemplo de um juiz preocupado em salvaguardar as instituições.

 Ele passa a trabalhar com suspeitas nebulosas, que impressionam vivamente os sacerdotes do Sinédrio. Vale a pena observar aqui que esses sacerdotes não devem ser considerados pessoas amorais, corruptas, perversas. O contrário é verdade. Eles agem em conformidade com a responsabilidade que lhes compete, instalam um processo, chamam testemunhas e interrogam o acusado (leia o trecho Mc 14, 55-65 por inteiro).  A questão é que eles se deixam guiar por questões formais e não compreendem o que os aldeões da Galileia compreendem muito bem: que Jesus é gente boa, faz bem ao povo e o ajuda a superar seus problemas. Isso é algo que os letrados de Jerusalém não conseguem enxergar. As leis os cegam. Eles ficam obcecados pela ideia que seguir procedimentos legais é fazer a coisa certa. Insisto nesse ponto: o que é realmente perturbador, nos relatos evangélicos sobre a condenação de Jesus, é que Ele não é condenado por pessoas perversas. O contrário é verdade. Alguns sacerdotes que seguem a jurisprudência de Caifás são particularmente honrados e respeitados por sua maneira de viver. Mas a questão da justiça propriamente dita (o que Lula chama de ‘distinguir o certo e o errado, o justo e o injusto’) não lhes aflora à consciência. Eles seguem cegamente a lei e com isso se tornam absolutamente incapazes de distinguir entre o bem e o mal. Não são levados por ódio ou fanatismo, simplesmente não conseguem enxergar a criminalidade de seus próprios comportamentos. Praticam o mal, pensando fazer o bem. Pensam que glorificam a Deus enquanto condenam à morte Aquele que age em conformidade com a Vontade de Deus. Isso provém do fato que se deixam nortear pela lei e não pelo senso de justiça inato em todas as pessoas.

Não estou aqui querendo comparar Lula com Jesus e fazer dele um santo. Todos os brasileiros sabem que Lula não é um santo. Mas quem é o santo nessa história? Escrevi este texto para defender o senso de justiça que existe ‘em todo ser humano’, a capacidade de distinguir ‘o certo do errado, o justo do injusto’, e que a atual jurisprudência oculta quando fala em ‘império da lei’. Como não duvidar do ‘império da lei’ quando estamos com os presidentes da Câmara e do Senado acusados de ser corruptos, diversos membros da Comissão do Impeachment com ações de improbidade (suspensas pela lei?), etc. etc. Os aldeões da Galileia bem sabiam que Jesus era uma pessoa de grande valor, algo que escapou à compreensão dos jurisprudentes em Jerusalém.


O tipo de reflexão que subjaz a esse texto pode causar estranheza em ambientes cristãos. Isso provém do fato que o cristianismo viveu durante séculos aliado ao poder e dessa forma perdeu largamente a capacidade de criticar o império da lei em nome de um princípio superior: o amor, a sensibilidade pelo mais fraco, o compromisso com o marginalizado. A confusão na mente de muitos cristãos é causada por uma leitura superficial e fundamentalista dos Evangelhos. Temos de reaprender a ler os Evangelhos. Inclusive para poder refletir sobre o momento político que atravessamos.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/