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terça-feira, 18 de outubro de 2022

Momento de promessas, tempo de compromisso

 






Marcelo Barros

 

Daqui a poucos dias, o Brasil vai viver o segundo turno das eleições presidenciais e de vários governantes estaduais.  Principalmente, na opção por Lula ou pelo atual presidente, o que está em jogo são duas propostas ou projetos de país. Enquanto a extrema-direita ainda assusta as pessoas com o fantasma do Comunismo e provoca o medo de crentes com boatos de que, se eleito, Lula fecharia Igrejas, o projeto do seu candidato está ligado aos interesses de empresas mineradoras, de madeireiras, do latifúndio e do capital internacional. Retomam acusações sobre a corrupção do PT, mesmo se a corrupção na Petrobrás explodiu com os chamados “anões do orçamento”,  em 1993,  dez anos antes de Lula assumir o governo. Sabe que, nos governos do PT, a polícia federal teve como nunca liberdade para agir e os processos de corrupção, antes engavetados, vieram à tona. 

Atualmente, comparado com o que foi o chamado mensalão ou outros esquemas de corrupção ocorrido durante governos do PT, o “orçamento secreto” do atual presidente rouba do país uma soma equivalente a muitos mensalões. É claro que nenhum erro justifica outro. No entanto, na história do Brasil, quase sempre, acusações de corrupção servem de pretexto para que a direita desacredite a democracia e cometa crimes ainda piores.

A coligação de partidos que propõe Lula como presidente tem como base retomar um projeto de país para todos os brasileiros e brasileiras. A prioridade é garantir o direito universal à alimentação, à moradia e a condições de vida digna para mais de 33 milhões de brasileiros/as, nestes anos recentes, reduzidos à fome e à extrema pobreza. É urgente salvar o que ainda é possível da Amazônia e da sustentabilidade dos biomas brasileiros.

Trata-se de eleger alguém que, ao contrário do atual presidente, seja capaz de dialogar positivamente e de forma inteligente com o poder legislativo e com o judiciário, assim como com todos os segmentos da sociedade para construirmos novamente um país inclusivo para todos/as. Lula já demonstrou ser a pessoa mais competente para fazer isso.

É preciso ter clareza: quando o Evangelho diz que o Verbo, a Palavra de Deus, se fez carne, afirma que o amor divino assume a realidade do mundo como ela é. Encarna-se, isso é, se insere na caminhada da humanidade, sem transformá-la em Cristandade, evangélica ou católica. O projeto de país deve ser laico e pluralista, aberto a todos os cidadãos e cidadãs, a serviço da Paz, Justiça e Cuidado com a Terra e a natureza.

Quem é discípulo ou discípula de Jesus deve dar testemunho de que é capaz de conviver como irmão/ã com toda e qualquer pessoa humana, seja de que religião for, ou sem nenhuma tradição específica. Jesus não veio ao mundo para organizar religião. Afirmou: “Eu vim para que todos/as tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10).

Na sexta-feira, 7 de outubro, líderes religiosos/as de diversas tradições publicaram uma “Carta aberta às mulheres e homens de fé do Brasil”. Nesta carta, afirmam: “Nós, líderes religiosos e de diferentes credos e tradições, direcionamos nossa voz ao povo brasileiro. Nesse momento político conturbado, violento e disputado pelas redes sociais, convidamos todas as pessoas a assumirem sua cidadania, escolhendo cuidadosamente seu candidato e verificando seu alinhamento com os valores comuns às mais diversas tradições de fé que permeiam o coração do nosso povo...” (...).                   No final, concluem: “Não silenciemos! Escolhamos o Presidente do Brasil impulsionados pela FÉ e pelo compromisso com uma vida digna e justa para todas e todos. Nesse sentido, declaramos nosso voto e apoio ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, por entendermos que é nossa única opção para reconstruir o Brasil comprometida com a DEMOCRACIA, PLURALIDADE e JUSTIÇA SOCIAL”. Na íntegra, a carta pode ser lida no site do MST:

https://mst.org.br/2022/10/08/carta-aberta-as-mulheres-e-homens-de-fe-do-brasil/

Que a palavra profética destes irmãos e irmãs possa ressoar para todas as pessoas e comunidades de fé.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Promessas de outro tipo de Transformação(III)


por Leonardo Boff

 Para pormos em curso outro tipo de Grande Transformação que nos devolta a sociedade com mercado e elimine a deletéria sociedade unicamente de mercado, precisamos fazer algumas travessias impostergáveis. A maioria delas está em curso mas elas precisam ser reforçadas. Importa passar:

-do paradigma Império, vigente há séculos para o paradigma Comunidade da Terra;

-de uma sociedade industrialista que depreda os bens naturais e tenciona as relações sociais para uma sociedade de sustentação de toda a vida;
-da Terra tida como meio de produção e balcão de recursos sujeitos à venda e à exploração para a Terra como um Ente vivo, chamado Gaia, Pacha Mama ou Mãe Terra;

-da era tecnozoica que devastou grande parte da biosfera para a era ecozoica pela qual todos os saberes e atividades se ecologizam e juntas cooperam na salvaguarda da vida.

-da lógica da competição de se rege pelo ganha-perde e que opõem as pessoas para a lógica da cooperação do ganha-ganha que congrega e fortalece a solidariedade entre todos.

-do capital material sempre limitado e exaurível, para o capital espiritual e humano ilimitado feito de amor, solidariedade, respeito, compaixão e de uma confraternização como todos os seres da comunidade de vida;

-de uma sociedade antropocêntrica, separada da natureza, para uma sociedade biocentrada que se sente parte da natureza e busca ajustar seu comportamento à logica do processo cosmogênico que se caracteriza pela sinergia, pela interdependência de todos com todos e pela cooperação.

Se é perigosa a Grande Transformação da sociedade de mercado, mais promissora ainda é a Grande Transformação da consciência. Triunfa aquele conjunto de visões, valores e princípios que mais congregam pessoas e melhor projetam um horizonte de esperança para todos. Essa seguramente é a Grande Transformação das mentes e dos corações a que se refere a Carta da Terra. Esperamos que se consolide, ganhe mais e mais espaços de consciência com práticas alternativas até assumir a hegemonia da nossa história.

Há um documento acima citado a Carta da Terra por seu alto valor de inspiração e gerador de esperança. Ela é fruto de uma vasta consulta dos mais distintos setores das sociedades mundiais, desde os povos originários, das tradições religiosas e espirituais até de notáveis centros de pesquisa. Foi animada especialmente por Michail Gorbachev, Steven Rockfeller, o ex-primeiro ministro da Holanda Lubbers, Maurice Strong, subsecretário da ONU e Mirian Vilela, brasileira que, desde o início coordena os trabalhos e dirige o Centro na Costa Rica. Eu mesmo faço parte do grupo e tenho colaborado na redação do documento final e de sua difusão por onde posso.

Depois de 8 anos de intensos trabalhos e de encontros frequentes nos vários continentes, surgiu um documento pequeno mas denso que incorpora o melhor da nova visão nascida das ciências da Terra e da vida, especialmente da cosmologia contemporânea. Ai se traçam princípios e se elaboram valores no arco de uma visão holística da ecologia, que podem efetivamente apontar um caminho promissor para a humanidade presente e futura. Aprovado em 2001 foi assumido oficialmente em 2003 pela UNESCO como um dos materiais educativos mais inspiradores do novo milênio.

A Hidrelétrica Itaipu-Binacional, a maior do gênero no mundo, tomou a sério as propostas da Carta da Terra e seus dois diretores Jorge Samek e Nelton Friedrich conseguiram envolver 29 municípios que bordeiam o grande lago onde vive cerca de um milhão de pessoas. Deram início de fato a uma Grande Transformação. Lá se realiza efetivamente a sustentabilidade e se aplica o cuidado e a responsabilidade coletiva em todos os municípios e em todos os âmbitos, mostrando que, mesmo dentro da velha ordem, se pode gestar o novo porque as pessoas mesmas vivem já agora o que querem para os outros.

Se concretizarmos o sonho da Terra, esta não será mais condenada a ser para a maioria da humanidade um vale de lágrimas e uma via-sacra de padecimentos. Ela pode ser transformada numa montanha de bem-aventuranças, possíveis à nossa sofrida existência e uma pequena antecipação da transfiguração do Tabor.

Para que isso ocorra, não basta sonhar, mas importa praticar.

Leonardo Boff escreveu A opção-Terra: a salvação da Terra não cai do céu, Record 2009.

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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Promessas para o ano novo




Por Marcelo Barros


Nesses dias, muitas pessoas procuram oráculos que consultam búzios ou cartas para predizer como será o ano novo. A busca por uma vida mais feliz e de paz é justa e Deus abençoa. A Bíblia guardou a memória de pessoas que procuravam prever o futuro. Uma das mais antigas profecias da vinda do Messias foi feita por Balaão, vidente estrangeiro que profetizou para o povo de Israel a vitória sobre seus inimigos (Livro dos Números, 22 – 24). 

Desde os tempos antigos, no mundo inteiro, muitas comunidades festejam a mudança de ano com um banho regenerador que simboliza renovação interior. Até hoje, multidões se aglomeram nas praias para saudar o novo ano. Em outras culturas, as pessoas vestem roupas novas para simbolizar que assumem posturas novas de vida. Há também regiões nas quais o ano novo é celebrado com refeições cultuais. Existem alimentos específicos do ano novo, como, por exemplo, em alguns países da Europa, saborear ostras. Estas vêm fechadas e se abrem, assim como o mistério do tempo que, no 1º de janeiro, pode iniciar uma época nova para quem a acolhe.    

Todos esses costumes são válidos, desde que não vivamos o ano novo apenas como um dia que o calendário traz e, assim como chegou, em breve, terá passado. As Igrejas cristãs costumam falar em “ano da graça de 2014”. É um modo de dizer que o importante do tempo não é a contagem quantitativa, mas a sua densidade. Paulo escreveu à comunidade cristã de Roma que “a escuridão da noite quase passou e o dia está chegando. Devemos, então, ser como pessoas que despertam na madrugada e organizam suas vidas não como quem vive na escuridão e sim à luz do dia (Rm 13, 13). É um modo de dizer que temos de ser lúcidos (o próprio termo lucidez vem de luz), aprimorar o espírito crítico e refinar a consciência para saborear a vida como algo sempre novo e que nos leva à comunhão com os outros e com a natureza. 

Na Bíblia, com o passar do tempo, aqueles que o povo bíblico chamava de videntes e adivinhos passaram a ser chamados de profetas. O profeta ou profetiza procura não somente predizer a sorte das pessoas, mas descobrir qual a promessa de Deus para o tempo novo que se aproxima. Em geral, eles se preocupam com a vida, a saúde e o bem estar de cada pessoa, mas ligam isso com a vida e o bem de todo o povo. Desde os tempos imemoriais, as festas de mudança do ano dão lugar a predições, mas também a promessas e desejos de felicidade no ano novo. Evidentemente, ninguém muda a história só pela força do desejo, mas esse pode sim criar uma mística transformadora. Na sociedade internacional (ONU) e na Igreja Católica, o dia 1 de janeiro é dedicado à oração e reflexão pela paz do mundo e pela irmandade entre os povos. 

Para o Brasil, 2014 será um ano eleitoral no qual deveremos eleger nossos representantes no governo federal (presidente) e nos Estados, além de boa parte do legislativo.  Sem dúvida, as transformações sociais e políticas mais substanciais só podem vir da sociedade civil e dos movimentos do povo organizado. Entretanto, é importante um governo que dialogue com os movimentos sociais e se ponha verdadeiramente como nosso representante e como defensor, principalmente, das parcelas mais frágeis e sem voz da população. 

Nossos votos de feliz ano novo serão mais eficazes se forem acompanhados de instrumentos para que o povo brasileiro se torne mais capaz de uma visão crítica da realidade e progrida no caminho da integração latino-americana sonhada por Simon Bolívar. Assim, conquistemos uma pátria grande de justiça, paz e comunhão com a natureza.   
 
MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 45 livros publicados, entre os quais “O Amor fecunda o Universo (Ecologia e Espiritualidade) com co-autoria de Frei Betto. Ed Agir, 2009.

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