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quinta-feira, 5 de março de 2015

MOEDA DE PRATA

Por Frei Betto



      Decide a Câmara dos Deputados, à revelia dos eleitores, da moral e dos bons costumes, conceder às mulheres dos deputados e aos maridos das deputadas passagens de avião pagas com o nosso dinheiro. É a farra aérea.

      Já que o ajuste fiscal não se aplica às Suas Excelências, por que não estender a prebenda às sogras e genros, filhos e netos? Que viaje toda a família nas asas do despudorado nepotismo abastecido pela malversação do dinheiro público.

      Machado de Assis prefigurou o Brasil de hoje no Conto de escola, ambientado em 1840. Na sala de aula, Raimundo, em troca de “cola”, passa ao colega Pilar uma moeda de prata. Toma lá, dá cá. Porém, o colega Curvelo andava de olho. E delata a negociata ao mestre Policarpo, que castiga os corruptos com “bolos” de palmatória.

      No Brasil republicano, aplicar palmatórias não é permitido a nós, eleitores. Até que venham as próximas eleições, não temos como punir os nobres deputados prestes a aprovar, em nome do ajuste fiscal, as medidas que penalizam ainda mais os pobres: redução do acesso a benefícios da Previdência Social, ao seguro desemprego e ao abono salarial. Enquanto isso, seus cônjuges ajustam o cinto em viagens aéreas...

        Será, como insinua Machado de Assis, que só nos resta ir atrás do diabo do tambor?... Ora, melhor sugerir às Suas Excelências que façam bom uso de sua moeda de prata e aprovem também auxílio-balada para filhos adolescentes, abono-socorro a parentes endividados e bolsa família de grife, com direito a jatinhos executivos para levar toda a prole de férias a Miami.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
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quarta-feira, 4 de março de 2015

“O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO” (Glauber)

 por   Juracy Andrade


Falo hoje a minhas leitoras e meus leitores sobre um opúsculo que escrevi em 2006, encomendado pelo jornalista e amigo Fernando Portela, sócio à época da editora paulista Terceiro Nome. Perdão pela publicidade. Seu título é Padres comunistas!, com o subtítulo “O que pensa e por onde anda a Igreja de esquerda no Brasil”. Título e subtítulo escolhidos pelos editores. Eu teria posto uma interrogação no título, em vez de exclamação, e não concordo que exista uma Igreja de esquerda, pois o cristianismo é uma religião e não uma instituição política. Embora tenhamos de concordar que a religião (todas elas) interage profundamente com a política, a cultura. Os editores têm suas exigências com escritores pouco conhecidos.

Uns 40 anos antes, quando o golpe de 1964 já havia vitimado o país, eu havia cometido outro livro sobre a Igreja, escrito logo após minha passagem pelo clero e minha licenciatura em teologia em Lyon. Eduardo Portela, que mais adiante seria ministro da Educação, tem uma editora no Rio, Tempo Brasileiro, e se dispôs a publicar trabalhos produzidos pelo pessoal da equipe de Paulo Freire. Ele é baiano, mas fez o curso de direito no Recife e é muito ligado à cidade. Os originais do meu livro, A Igreja na Cidade (cidade aí como civilização), estavam com ele quando os gorilas a serviço dos Estados Unidos, instigados e financiados também pelos inamovíveis senhores da casa-grande, derrubaram o presidente constitucional, Jango, para implantar uma ditadura sangrenta e burra de mais de 20 anos. Eduardo Portela manteve o compromisso e o livro saiu em 1965.

Mas eu andava preso ou me escondendo aqui e ali. Não houve lançamento oficial nem se podia fazer muito alarde. O livro não teve muita saída, apesar de um excelente prefácio de Roberto Alvim Corrêa e de boas críticas na imprensa, inclusive uma de  Otto Maria Carpeaux. Aproximei-me do Alvim Corrêa numa temporada que passei no Rio, pensando em me mandar de volta à Europa. Uma tarde, fomos tomar chá na famosa Colombo. Numa mesa perto estavam umas mocinhas, também sorvendo chá, e ele fez esta observação “Nous sommes à l’ombre des jeunes filles en fleur”, aludindo a um título de Marcel Proust em seu monumental e saboroso A la recherche du temps perdu. Ele era meio francês. Morara muito tempo em Paris onde teve uma livraria.

Algo semelhante ocorreu com o meu segundo livro. Logo após o lançamento, os sócios da Terceiro Nome se separaram. A Terceiro Nome ficou com Mary Lou Paris. Meu livro passou para uma editora de Fernando Portela. Enquanto esses arranjos se faziam, não houve muita divulgação. Se eu ainda tiver tempo, nesta minha peregrinação terrena, penso em fundir aqueles dois livros, que podem ser de utilidade a quem deseja uma Igreja desvaticanizada (quem sabe Francisco consegue essa façanha?). Creio que ambos estão esgotados, mas dou aqui uns endereços a quem interessar possa: www.editoramostarda.com.br, www.terceironome.com.br, e o e-mail de Fernando Portela – fatportel@gmail.com.

Já que falei em Francisco, o cabra é bom mesmo. Que cochilo dos cardeais! (Lembram A ceia dos cardeais, de Júlio Ribeiro?: “Como arcebispo d’Ostia e cardeal deão, cumpre-me receber o embaixador de França”.) Creio que eles comeram demais antes da seção do conclave que escolheu Franciscio: vino, pasta asciuta, molto pandolce ..., e ficaram sonolentos. Queriam uma siesta e deu no que deu. É o “Dragão da Maldade” (a Cúria) “conta o Santo Guerreiro”.

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Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

terça-feira, 3 de março de 2015

O QUE É MESMO O BOLIVARIANISMO

Por Marcelo Barros


A versão de alguns meios de comunicação social e de muitos  políticos, empenhados em evitar qualquer transformação libertadora para o povo é que o maior desastre que, atualmente, acontece na América Latina é o Bolivarianismo. Até um ministro do STF afirmou que o risco para o Brasil seria cair no Bolivarianismo. Outro dia, em uma reunião de comunidade eclesial de base, senhoras da periferia se perguntavam: “Que diabo é essa história de Bolivarianismo e por que é tão perigoso?”

Quem, pela primeira vez, me falou de Bolivarianismo foi o arcebispo Dom Helder Camara. Em 1965, em uma carta circular, ele escreveu a seus colaboradores: “Monsenhor Dell´Acqua, secretário do papa (Paulo VI), me recebeu carinhosamente. A problemática da América Latina lhe era familiar. (...) Entende e estimula o novo Bolivarianismo, no sentido do esforço conjunto para a independência econômica do Continente, em articulação sempre maior com o 3º Mundo e abertura para o mundo inteiro”. (68a Circular, Roma 17/ 11/ 1965). Mais tarde, em outras duas cartas, Dom Helder retoma o assunto. Explica que o Bolivarianismo recebeu esse nome da figura de Simon Bolívar, o Libertador, que, no início do século XIX, a partir da Venezuela, conseguiu com seu exército, libertar do império espanhol, quase toda a  América Latina. 

Na memória e na consciência do povo venezuelano, o Bolivarianismo sempre se manteve vivo, mas foi retomado de modo renovado, no começo dos anos 70, em ambientes populares e no meio de jovens militares nacionalistas, em busca de mais justiça social e de um país verdadeiramente independente. A Venezuela vivia uma imensa desigualdade social. Uma pequena elite era dona de todo o país e gozava seus lucros em Miami e Paris. Do estrangeiro, dominavam a imprensa, a companhia de petróleo e todas as riquezas do país. E as Forças Armadas eram usadas como apoio para garantir os privilégios dos mais ricos e como caminho de riqueza e corrupção para oficiais, além de sustentar governos corruptos. Por perceber isso, oficiais da Academia Militar de Caracas começaram a dar aos jovens militares uma formação humanista e crítica a esse sistema. E ali, em 1971, aos 17 anos, entrou Hugo Chávez. Ele vinha de Barinas, interior do país. Era um jovem forte e inteligente. Nesse ambiente que suscitava o diálogo entre militares e intelectuais civis, em pouco tempo, Hugo Chávez passou a conhecer bem a história da Venezuela e da América Latina. Incorporou, em seu coração e para toda a vida, os ideais de Simon Bolívar e de outros homens e mulheres que lutaram pela igualdade social e pela libertação do povo. A partir daí, ele e vários companheiros, criaram nas periferias de Caracas “círculos bolivarianos”. Eram grupos de discussão, parecidos com os “círculos de cultura”, propostos por Paulo Freire em sua metodologia de alfabetização. Espalharam-se por toda Venezuela e, pouco a pouco, se uniram a movimentos populares, camponeses e indígenas que queriam mudar o país. Muitos desses grupos eram comunidades cristãs, animadas por pessoas ligados à Teologia da Libertação[1]. Em 1991, Chávez e seus companheiros tentam tomar o poder e são presos. Quando saem da prisão, vão diretamente para os bairros populares e continuam o trabalho de conscientização e preparação das mudanças. Com o aumento da consciência social e da educação das bases, Hugo Chávez e seus companheiros vencem as eleições democráticas de 1999. Propõem para o país o Bolivarianismo, baseado em três caminhos: 
1o – libertar a Venezuela e toda a América Latina do imperialismo. 
2o – integrar o continente latino-americano em uma comunidade de países independentes, mas unidos.
 3o – caminhar na direção de uma maior igualdade social e um socialismo democrático, a partir das raízes indígenas. A maioria dos venezuelanos acatou a proposta. 

Em menos de dez anos, o povo votou uma nova Constituição Bolivariana. E na América Latina, Chávez suscitou organismos de integração que hoje fazem do nosso continente o único no qual, a partir do ano 2000, a pobreza não aumentou. Segundo a ONU, a Venezuela foi o país latino-americano que mais conseguiu diminuir as desigualdades sociais. No dia 06 de março, os latino-americanos que buscam uma justiça nova para todos, recordam os dois anos do falecimento do presidente Chávez. O povo da Venezuela garante a continuidade do projeto ao qual ele consagrou a vida. E quanto mais a história olhar à distância, mais o colocará como um dos maiores homens do nosso tempo.




[1] - Esses dados são tirados do livro do jornalista norte-americano BART JONES, Hugo Chávez, da origem simples ao ideário da revolução permanente, São Paulo, Novo Conceito, 2008, p. 97. 


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

segunda-feira, 2 de março de 2015

O QUE PRECISA SER INCORPORADO AO PROCESSO DE EDUCAÇÃO

por Lenardo Boff


Geralmente o processo educativo da sociedade com suas instituições como a rede de escolas e de universidades estão sempre atrasados em relação às mudanças que acontecem. Não antecipam eventuais processos e custam-lhes fazer as mudanças necessárias para estar à altura deles.

Entre outras, duas são as grandes mudanças que estão ocorrendo na Terra: a introdução da comunicação global via internet e redes sociais e a grande crise ecológica que põe em risco o sistema-vida e o sistema-Terra. Podemos eventualmente desaparecer da face da Terra. Para impedir esse apocalipse a educação deve ser outra, diversa daquela que dominou até agora.

Não basta o conhecimento. Precisamos de consciência: uma nova mente e um novo coração. Precisamos também de uma nova prática. Urge nos reinventar como humanos, no sentido de inaugurar uma nova forma de habitar o planeta com outro tipo de civilização. Como dizia muito bem Hannah Arendt: “podemos nos informar a vida inteira sem nunca nos educar”. Hoje temos que nos reeducar e no reinventar como humanos.

Por isso, acrescento às dimensões acima referidas, estas duas: aprender a cuidar e aprender a se espiritualizar.

Mas antes faz-se mister, previamente, resgatar a inteligência cordial, sensível ou emocional. Sem ela, falar do cuidado e da espiritualidade faz pouco sentido. A causa reside no fato de que todo sistema moderno de ensino se funda na razão intelectual, instrumental e analítica. Ela é uma forma de conhecer e de dominar a realidade, fazendo-a mero objeto. Sob o pretexto de que a razão sensível impediria a objetividade do conhecimento, foi recalcada. Com isso surgiu uma visão fria do mundo. Ocorreu uma espécie de lobotomia que nos impede de nos sentir parte da natureza e de perceber a dor os outros.

Sabemos que a razão intelectual, como a temos hoje, é recente, possui cerca de 200 mil anos quando surgiu o homo sapiens com seu cérebro neo-cortical. Mas antes dele, surgiu há cerca de 200 milhões de anos, o cérebro límbico, por ocasião da emergência dos mamíferos. Com eles, entrou no mundo o amor, o cuidado, o sentimento que se devotam à cria. Nós humanos, esquecemos que somos mamíferos intelectuais. Logo, somos fundamentalmente portadores de emoções, paixões e afetos. No cérebro límbico reside o nicho da ética, dos sentimentos oceânicos como os religiosos. Antes ainda há 300 milhões de anos, irrompeu o cérebro reptilínio que responde por nossas reações instintivas; mas não é o caso de abordá-lo aqui.

O que importa é que hoje temos que enriquecer nossa razão intelectual com a razão cordial, muito mais ancestral, se quisermos fazer valer o cuidado e a espiritualidade.

Sem essas duas dimensões não iremos nos mobilizar para cuidar da Terra, da água, do clima, das relações inclusivas. Precisamos cuidar de tudo, sem o que as coisas se deterioram e perecem. E então iríamos encontro de um cenário dramático.

Outra tarefa é resgatar a dimensão da espiritualidade. Ela não deve ser identificada com a religião. Ela subjaz à religião porque é anterior a ela. A espiritualidade é uma dimensão inerente ao ser humano como a razão, a vontade e sexualidade. É o lado do profundo, de onde emergem as questões do sentido terminal da vida e do mundo.

Infelizmente estas questões foram tidas como algo privado e sem grande valor. Mas sem sua incorporação, a vida perde irradiação e alegria. Mas há um dado novo: os neurólogos concluíram que sempre que o ser humano aborda estas questões do sentido, do sagrado e de Deus, há uma aceleração sensível nos neurônios do lobo frontal. Chamaram a isso “ponto Deus” no cérebro, uma espécie de órgão interior pelo qual captamos a Presença de uma Energia poderosa e amorosa que liga e re-liga todas as coisas.

Avivar esse “ponto Deus” nos faz mais solidários, amorosos e cuidadosos. Ele se opõe ao consumismo e materialismo de nossa cultura. Todos, especialmente os que estão na escola, devem ser iniciados nessa espiritualidade, pois nos torna mais sensíveis aos outros, mais ligados à mãe Terra, à natureza e ao cuidado, valores sem os quais não garantiremos um futuro bom para nós.

Inteligência cordial e espiritualidade são as exigências mais urgentes que a atual situação ameaçadora nos faz.

Leonardo Boff é colunista do JBonline e escreveu Saber cuidar, Vozes 2000 e O cuidado necessário e Vozes 2013.