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terça-feira, 6 de setembro de 2016

"VIDA EM PRIMEIRO LUGAR"


Por Marcelo Barros



Colocar a vida em primeiro lugar, tanto no dia a dia pessoal, como, principalmente, no modo de organizar a sociedade é o espírito do "Grito dos Excluídos". Trata-se de uma iniciativa das pastorais sociais da CNBB, junto com os movimentos sociais que, a cada ano, se realiza na Semana da Pátria e, especialmente, no dia 07 de setembro.

O objetivo do "Grito dos Excluídos" é provocar uma nova mobilização social das comunidades e grupos de base. Essa iniciativa ajuda as comunidades e movimentos sociais a fortalecerem a unidade na defesa dos seus direitos e no exercício de sua cidadania. Nesse ano de 2016, em todas as capitais e em muitas cidades do Brasil, acontecerá a 22a edição do grito. O lema desse ano foi tirado de uma afirmação do papa Francisco no encontro que, em agosto de 2015, na Bolívia, teve com representantes dos movimentos sociais de todo o mundo. Ali, o papa afirmou e, nessa semana, o povo repete nas praças e ruas de nossas cidades: "Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata".

Atualmente, vivemos na América Latina e no Brasil, uma manifestação muito clara da crueldade de um sistema imperial que se aproveita da fragilidade e mesmo de erros dos governos mais progressistas do continente e paga à elite conservadora de plantão para encontrar os meios legais, legítimos ou não, para instalar governos que sirvam a seus interesses e roubem da população e, especialmente dos trabalhadores, os poucos direitos sociais que esses tinham conquistado.

Infelizmente, muita gente, anestesiada pela comunicação alienada e enganosa dos grandes meios de comunicação, só se dará conta quando for tarde demais. Nessa semana, o grito do povo organizado e dos movimentos sociais por mais vida e justiça se fará através de fóruns temáticos, seminários e caminhadas que visam fortalecer a consciência social das pessoas e reuni-las em um grande mutirão para construir um Brasil novo e mais justo com todos os seus cidadãos. Se conseguirmos isso, nunca mais será possível uma elite sem votos tomar o poder com aparência de legalidade e atrelar de novo o país aos interesses do império, cujos interesses estão por trás de todos os golpes, militares ou parlamentares, (mais de 108 em menos de cem anos) que ocorreram em toda a América Latina.

 Nas cidades gregas antigas, a Ágora era a praça da cidade ou o pátio, onde se realizavam as discussões públicas. Ali, os cidadãos tomavam as decisões sobre o rumo a seguir para toda a cidade. Na cultura do antigo Oriente Médio e no Israel bíblico, as cidades eram rodeadas de muros. Na porta principal de entrada, havia um pátio onde se reuniam os cidadãos para os julgamentos de pessoas aprisionadas ou suspeitas de crimes. No entanto, naquele mundo, só eram considerados cidadãos os homens adultos, casados e proprietários de terra. Mulheres, adolescentes e crianças, além de estrangeiros e lavradores sem terra não eram cidadãos e não tinham direitos constitucionais. Não participavam da ekklesia, assembleia dos cidadãos. Foi justamente esse nome (ekklesia) que, nos meados do século I de nossa era, Paulo de Tarso tomou do mundo grego para denominar as comunidades de discípulos e discípulas de Jesus. A partir de então, essas comunidades de periferia urbana que não faziam parte das assembleias do Império, passaram a se constituir como “assembleias de Jesus Cristo” ou Igrejas, nome que a História guardou para designar as comunidades cristãs.  Nos primeiros séculos, o termo Igreja designava principalmente as assembleias locais de cristãos/ãs reunidos/as como comunidades fraternas. O termo que mais caracterizava a vida dos cristãos/ãs era a participação plena na comunidade. Toda Igreja cristã deve ser sinal do amor divino no mundo. Deveria se organizar como uma espécie de ensaio, ou modelo de fraternidade que se poderia propor para o mundo todo. É esse exercício concreto de participação que os movimentos sociais ensaiam no Grito dos Excluídos. Nele, somos todos chamados a retomar nossa esperança no Brasil e a trabalhar juntos por uma Reforma Política, necessária e urgente do sistema brasileiro e por uma sociedade mais justa e solidária.



 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

DOROTHY DAY: OPÇÃO PELOS POBRES NA SOCIEDADE DA ABUNDÂNCIA

       
Por Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Ao retornar do lançamento do livro que organizei juntamente com o colega Paulo Fernando Carneiro de Andrade sobre Dorothy Day,  na Livraria Travessa, no Rio de Janeiro, reflito sobre como essa grande mulher não é conhecida na América Latina e no Brasil.  Parece uma contradição, quando toda a sua vida foi voltada para a opção preferencial pelos pobres, algo tão característico do sul do mundo, terra de injustiças e desigualdades, onde vivemos. Talvez a novidade de seu pensamento e ação fosse o de fundar essa opção ao norte da América.

A sensibilidade social de Dorothy Day tem traços extremamente atuais, que dizem muito sobre seu nível de consciência, à frente de seu tempo. Sem jamais apresentar uma tendência assistencialista ou alienante em seu amor pelos pobres, para ela sempre é muito claro que há de se estar junto aos pobres, com eles, mas também lutando incessantemente contra a pobreza. Uma caridade assistencialista não é suficiente. Não era o bastante assistir as vítimas da injustiça social; era necessário, além disso e inseparavelmente, trabalhar para atingir e destruir as causas das desordens sociais. 

A partir de questões concretas, sua sensibilidade era tocada, aguçada e questionada. E ela se perguntava:  “Onde estarão os santos, a fim de transformar a ordem social, não apenas para serem ministros religiosos para os escravos, mas para acabar com a escravidão? ”  Não basta lutar contra os efeitos da pobreza. Esta é um mal e deve ser extirpado. Para isso, há que se transformar a sociedade pela raiz.

Essas reflexões que se multiplicam através de todos os seus escritos  mostram-na como pioneira de movimentos que emergiriam apenas posteriormente na Igreja. A consciência do pecado social e da necessidade de soluções estruturais em vez de simples paliativos está muito presente, por exemplo, na Teologia da Libertação, que explodiu com grande força na Igreja latino-americana nos anos 1970.
  A necessidade de soluções políticas e estruturais – não apenas paliativas e fragmentadas – emergiriam na Teologia da Libertação que inspirou a Igreja latino-americana durante os anos 1970.  O Catholic Worker Movement, criado por Dorothy Day juntamente com Peter Maurin, não era simplesmente uma instância cívica ou política, mas uma atitude espiritual e fruto de uma leitura radical dos Evangelhos. 
Dorothy Day acreditava ser necessário experimentar a pobreza a partir de dentro, porque esta era a única maneira de desenvolver a verdadeira solidariedade aos pobres, abraçando seu mesmo destino. Fundando o Catholic Worker Movement, ela criou algo novo no Catolicismo Social do século XX.

Para alguns pesquisadores, o CWM é considerado algo que encarna uma teologia da libertação implícita, no contexto estadunidense. O CWM reivindica a pobreza voluntária, a não violência, a prática diária das obras de misericórdia, e a busca de uma autêntica libertação do pecado pessoal e social: uma conversão de corações e uma transformação das estruturas.

Nos anos 1930, quando o CWM começou, as mais fortes preocupações eram o desemprego massivo e a terrível pobreza causada pela Grande Depressão.  Mesmo após a mudança dos desafios, o movimento continuou, em solidariedade aos trabalhadores pobres marginalizados pela sociedade: através de greves, lutas sindicais, protestos contra guerras e prisões injustas.  Para Dorothy Day, estas ações eram equivalentes a testemunhar e proclamar os Evangelhos. Entre as críticas do movimento estavam: distribuição injusta da riqueza; organização política do governo; imagens distorcidas da pessoa humana causadas por classe, raça e restrições de gênero; e a corrida armamentista. O movimento falava em favor de seres humanos, uma sociedade descentralizada, atos de não violência, obras de misericórdia e pobreza voluntária.

Os pobres estão no centro do CWM, como estiveram para sua fundadora, Dorothy Day: “Enquanto nossos irmãos sofrem, devemos ter compaixão deles, sofrer com eles. Enquanto nossos irmãos sofrem por necessidades básicas, nos recusaremos a desfrutar de confortos. Encontros concretos diários com os pobres se tornaram o “áspero e terrível amor” sobre o qual ela frequentemente falou.

Sua concepção sobre o serviço aos pobres antecipa a Teologia da Libertação, que concebe o Deus da revelação judeu-cristã como um Deus “parcial”, que “prefere” os pobres. Como Pai amoroso, Deus se aproxima daqueles que estão mais necessitados: os pobres, os órfãos, a viúva, o estrangeiro. Ele sustenta aqueles que não têm ninguém que fale por eles.  Isto é o que o CWM quer imitar.  É neste encontro diário que o CWM nasceu, em gestos pequenos e concretos, como escrever um jornal e distribuí-lo por um centavo, ou dando boas-vindas aos que estão em necessidade, em busca de café quente e abrigo.

Estas ações teriam impacto além do tempo e espaço em que eram praticadas.  Décadas depois, a Igreja latino-americana, através da TdL, as fez visíveis novamente.  Antes desses teólogos fazerem suas reflexões, Dorothy Day e Peter Maurin combinaram uma filosofia do comportamento com ação concreta, inspiradas pela teologia do amor encarnado. Os pontos comuns entre o legado de Dorothy Day e a reflexão teológica que nasceu e cresceu na América Latina após o Concílio Vaticano II são notáveis. E, por isso, esperamos que o livro recém lançado ajude a fazer sua experiência e seu legado mais conhecidos e praticados entre nós.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga acaba de lançar o livro Fé, justiça e paz – O testemunho de Dorothy Day (editoras Paulinas e PUC-/Rio), organizado juntamente com Paulo Fernando Carneiro de Andrade.
 Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

“EL DIA TRISTE” DO BRASIL: O GOLPE PARLAMENTAR


Por Leonardo Boff



E aconteceu, que naqueles dias, sicários se travestiram de senadores, em grande número, não todos, e decidiram atacar uma dama honrada e incorruptível que lhes cortava o atalho para chegarem ao poder de Estado. A partir do Estado iriam fazer o que sempre fizeram: aproveitar-se dos bens públicos para auto-enriquecimento, escapar desesperadamente do braço da justiça e levar avante sua situação de privilégio, sempre à custa do povo pobre que eles querem manter longe, nas periferias, um exército de reserva, útil para seus serviços quase à moda de escravos.

Sangraram a dama incorruptível e honrada sob o pretexto de que práticas fiscais suas eram crime, coisa que os maiores especialistas em direito e economia, bem como instâncias oficias o negaram. Criaram uma farça e rasgaram a constituição. Cassar uma presidenta sem crime comprovado, é um golpe. Golpe parlamentar, esta é a palavra certa que tem que ser usada.

Eles se mostravam faceiros, farisaicamente dizendo que se sentiam mal, mas falando que inauguravam uma “era uma nova primavera, o começo de um novo Brasil próspero e justo.” Mentira.

O plano “Uma Ponte para o Futuro”, na verdade, é uma ponte para o atraso porque tenta desmontar os avanços que os trabalhadores, as mulheres, os negros, os povos indígenas, a população LGBT, os pobres e feitos invisíveis alcançaram, pela primeira vez, em nossa história no âmbito da inclusão social, dos salários, da saúde, da educação, das leis trabalhistas, das aposentadorias e de acesso ao ensino técnico e superior. E o mais grave: querem mantê-los no analfabetismo porque assim ficam silenciados e incapazes de reclamar direitos e dignidade.

Agora é o Mercado que conta. Quem quer saúde, que vá ao Mercado e pague. Quem quer estudar na universidade que vá ao Mercado e pague. Todas as coisas virarão mercadoria a serem vendidas e compradas. Compra-se dignidade? Compra-se solidariedade? Paga-se pelo amor? Não importa. São coisas que para eles não entram na contabilidade. Mas alguém pode viver e ser feliz sem tudo isso?

Houve nos primórdios da conquista e dominação do México em 1520 “La noche triste” quando grande parte do exército espanhol foi dizimado. Hoje em 2016 temos “El dia triste” no qual uma presidenta foi injustamente apeada do poder, conquistado pelas urnas.

Pelos espaços do Senado e nos corredores há sangue derramado. Uma “noche política triste” caiu sobre o Brasil, tirando a esperança dos que saíram da miséria e que correm o risco de novamente cair nela.

E todos os que lutaram para que se consolidasse a democracia de cunho social e que se respeitasse a vontade popular, expressa nas urnas, foram novamente traídos. Este dia é o dia dos “longos punhais” que sangraram a dama honrada e feriram gravemente a soberania popular.

Hoje, 31 de agosto é o dia da tristeza. Os que tramaram esse teatro e os senadores-sicários levarão a pecha de golpistas e farsantes pela vida afora. A consciência os perseguirá e sua memoria será pulverizada. A vontade de condenar não substitui a razão que se orienta pela verdade. Eles atropelaram a verdade sob o mento da injustiça. Estarão numa sinistra companhia, a daqueles que, anos atrás, assaltaram o Estado, oprimiram o povo, torturam como a presidenta Dilma e assassinaram a tantos que buscavam a restauração da democracia.

E, no entardecer da vida, enfrentarão um Juiz maior que desvelará toda a injustiça que conscientemente cometeram.

Leonardo Boff, professor emérito de ética da UERJ e escritor.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

DILMA: DEPOSIÇÃO CONSUMADA POR OPOSIÇÃO DERROTADA

Por Frei Betto



      Dilma e eu morávamos na mesma Rua Major Lopes, em Belo Horizonte. Todos os dias, a caminho da escola, passava defronte a minha casa. Via minha mãe cuidar do jardim e era amiga de minha irmã Thereza.

      Reencontrei-a na capital paulista, no Presídio Tiradentes, em 1970. Ela na ala feminina, conhecida como Torre das Donzelas, e eu, na masculina. Aos domingos era-me facultado atravessar o portão que separava as duas alas para fazer a celebração litúrgica entre as presas políticas. No cárcere, nem os ateus dispensavam as bênçãos divinas.

      Nossos caminhos se cruzaram pela terceira vez no Palácio do Planalto, em 2003. Ela, ministra de Minas e Energia; eu, assessor especial para o Fome Zero.

      Dilma tem gênio forte e pavio curto. Por isso propus a ela, no início de seu primeiro mandato, aprender meditação. Chegou a me ligar, mas as nossas agendas não coincidiram.

      Ela é uma administradora, uma gerentona, sem aptidão para as manhas da política. Quer decidir, não negociar. Quer resolver, não consultar. Tal impetuosidade dificultou seu desempenho político.

      Nosso último encontro foi em 26 de novembro de 2014, pouco depois de sua reeleição, ao derrotar a oposição. Por mais de uma hora recebeu, no gabinete presidencial, Leonardo Boff, Márcia Miranda, Maria Helena Arrochellas, Luiz Carlos Susin, Rosileny Schwantes e eu, vinculados à Teologia da Libertação. Entregamos a ela sugestões de profundas reformas estruturais.

      No início de 2015, ficou evidente que Dilma não cumpriria os itens de nossa pauta. Pressenti a derrota de seu governo. O que ela se propunha a fazer, como aprendiz de feiticeira, as forças conservadoras dominam por serem a própria feiticeira.

      Associado ao que há de mais fisiológico na política brasileira, Michel Temer se prestou ao golpe parlamentar. E abriu um perigoso precedente: desde agora, no Brasil, oposição não apenas rima com deposição. É uma artimanha da usurpação política que, de costas para o povo, se apropria da máquina do Estado.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
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