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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

COVID 19 - SEXAGÉSIMA E ÚLTIMA REFLEXÃO - EU MESMO EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

 



 por FREI ALOÍSIO FRAGOSO

     Dia virá, mais cedo ou mais tarde, em que terá fim este tempo sombrio do coronavirus. E seremos convidados a avaliar suas consequências e sequelas. Que mudanças terão acontecido na vida dos indivíduos e de toda a Família Humana?

     No dia 19 de março deixei a capelinha onde moro, na Comunidade do Coque, e afixei um cartaz na porta de saída: "estou me mudando para o Convento de S. Francisco, estarei de volta em 15 dias". Já lá se foram 5 meses, e outros se seguirão, sem prazo de encerramento. Em meio a surpresas, medos e incertezas, que lições aprendi?

     Durante o isolamento da quarentena, reaprendi antigas lições de meus formadores. Uma delas: o silêncio e a solidão voluntária são indispensáveis para o crescimento espiritual das pessoas. Pude comprovar esta verdade nestes meses em que sobrou-me tempo de ler, meditar, escrever e contemplar o mundo com a clara visão que a distância proporciona. .

     Por outro lado, escutei  o anjo da guarda me advertindo: cuidado com a acomodação! É muito fácil ser santo e passar esta imagem quando se está protegido pelas paredes domésticas, longe dos desafios e seduções do mundo. No entanto, o mundo é morada de Deus tanto quanto os conventos, mosteiros e templos. Os Evangelhos apresentam Jesus, a maior parte do tempo, caminhando pelas ruas e praças, pelas casas e feiras, pelos montes e colinas, por todos os lugares onde seu povo vivia, sofria e lutava. "Eu vim para servir", proclamava Ele.

     Será por isso que sinto esta comichão permanente na planta dos pés me chamando para os espaços lá de fora, onde minha missão é testemunhar o Deus da vida? Com certeza, no calor da luta, sentirei necessidade imperiosa de retornar ao "deserto interior" e me nutrir de espiritualidade, sem a qual toda luta, em nome de Deus, malogra.

     Nenhum dia da quarentena me desliguei do noticiário local, nacional, global. E nisso experimentei uma viva sensação de que somos conduzidos por duas forças: a do Espírito e a dos acontecimentos. São elas que nos tornam capazes de abertura para Deus, para os semelhantes, para o universo. E nos ajudam a interpretar os sinais deste tempo: pela primeira vez na História fica claro que há uma única humanidade. O que acontece com um acontece com todos.

     O anúncio diário de numerosas mortes vem acompanhado de grande dor mas, logo a seguir, de silenciosa resignação, causada talvez pela consciência do inevitável ou a comunhão com a mesma dor de tantos outros.

       Será que a morte é a maior perda da vida? Perda maior não será o que morre dentro da gente enquanto estamos vivos? Por exemplo, a perda da esperança. Tivemos motivo de sobra para perder toda esperança no interesse do Poder Econômico de salvar vidas humanas. Sua insensibilidade é inerente ao seu código genético. Pior ainda quando esta insensibilidade se incorpora no Chefe da nação, com sua necropolítica e seus discursos alucinógenos.

    Por outro lado, o testemunho dos que arriscaram e perderam a vida cuidando dos enfermos ofereceram-nos uma visão de Deus na terra. Isso basta para nos devolver a confiança na bondade humana.

     Apesar do coronavirus ter sido introduzido no Brasil por nobres passageiros de vôos internacionais, hoje as estatísticas apontam os pobres como as suas maiores vítimas, sem comparação. É o eterno jogo de 500 anos entre Casa Grande e Senzala, que sempre termina em 7  a 1. Basta de mas, porém, contudo, no entanto. Para não pecar por excesso de prudência, assumo como minha a legenda de Pedro Casaldáliga: "na dúvida, fico do lado dos pobres".

     Voltei a celebrar a Eucaristia, por enquanto on-line. A participação ativa dos fiéis, mesmo à distância, evidenciou o inigualável poder de resistência que reside na oração. Tudo o que está acontecendo cabe dentro de uma Eucaristia. A memória explicitada dos vivos e dos mortos me faz lembrar palavras de Sto. Agostinho: "quereis cantar os louvores de Deus? Sede vós mesmos o canto que ides cantar". E também outras palavras do poeta norte-americano What Whitman: "encontro cartas de Deus espalhadas pelas ruas, todas assinadas com seu nome, e as deixo onde estão, pois sei, onde quer que eu vá, outras vão chegar pontualmente e sempre".

     Em suma, tudo pode ser tirado de nós, menos o Amor e a Fé. Ainda quando perdemos o que amamos, o Amor volta em outras formas e outras pessoas.

      Assim quero concluir esta sexagésima e última  REFLEXÃO, com a humilde súplica dos discípulos de Jesus: "CREIO, SENHOR, MAS AUMENTAI MINHA FÉ".

Amém.


Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O QUE CONECTA WILSON WITZEL, LUIS NASSIF e JOSÉ GENOÍNO?



Por Carol Proner

Ativismo judicial. E decisões abusivas.

O que produziu mais de 15 anos de perseguição judicial contra José Genoíno está fora do direito.

O que tenta calar Luís Nassif, violando a liberdade de imprensa e de expressão, está fora do direito.

O que afasta o governador do Rio de Janeiro do cargo por decisão de juiz de primeiro grau, por mais difícil que seja reconhecer, também está fora do direito.

Mas num país que naturaliza o lawfare contra inimigos políticos, hoje o perseguido é o nosso, amanhã será o deles. A única certeza que temos é a “incerteza jurídica”, o derretimento da confiança no poder judiciário, nos tribunais, nos órgãos de correição, certeza de que vivemos o fim das regras do jogo democrático.

Acabamos de completar 4 anos desde afastamento criminoso de Dilma Rousseff – um impeachment que também estava fora do direito.

Desde que o país deu o passo torto pelo caminho do golpe, e de lá pra cá, foram muitos golpes dentro do golpe, rumamos incautos para a catástrofe. Pactuamos a servidão, a sujeição e a rendição a um sistema de justiça completamente afastado de princípios de justiça social.

De Temer a Bolsonaro, passamos pelas eleições de 2018 e, com protagonismo crepitante do judiciário, o favorito não participou do pleito. Não pode participar porque estava em Curitiba, na cela, incomunicável, com seus direitos humanos, políticos, civis, humanitários sendo violados no mais escandaloso processo de perseguição a um líder político deste início de século XXI.

O judiciário que prendeu Lula é o que afasta Witzel. E o mesmo que não reconhece os abusos da Lava Jato contra Lula e contra a soberania do país. E é também o mesmo que não censurou ou puniu Wilzel quando incitou violência indiscriminada contra população civil.

 

Zeitgeist, o espirito autoritário dos tempos e que orna perfeitamente com as vestes talares, de primeira a última instância. Contamina o Ministério Público, o síndico do condomínio e o guarda da esquina. Aliás, dizem que foi o mesmo ar que respirou o tio da menina de 10 anos no Recife, violentada desde os seis, desde que demos o passo torto e renunciamos à democracia. E o ar contaminado também sopra para os lados do Mato Grosso para atiçar as chamas contra as terras Xavante, com o requinte de dar carona ao vírus mortal.

Na ditadura civil militar de 1964 também vivemos o autoritarismo judicial. Mas eram mais discretos. Da decretação da falência da Panair aos tribunais militares, passando pela aparente normalidade dos Tribunais Superiores, de lá pra cá, tudo permaneceu sob o efeito Lampedusa. Permaneceram como entulho, como estudamos nas universidades, entulho autoritário.

O que une Genoíno, Nassif e Witzel? A constatação de que é inadiável o processo de reforma do poder judiciário e das autonomias do sistema de justiça. E que Constituição volte a valer alguma coisa.

Carol Proner é advogada, doutora em direito, professora da UFRJ, membro da ABJD – Associação Brasileira dos Juristas pela Democracia

  

E DAÍ?!

 





por Goretti Santos

 

E daí, se faltar o ar e a vida se esvair?!

E daí, se não houver mares a navegar?!

E daí, se o dia virar noite?!

E daí, se as árvores arderem em chamas e a floresta se transformar em carvão?!

 E daí, se as mulheres forem assassinadas por serem mulheres?!

E daí, se as crianças forem duplamente violentadas?!

E daí, se saírem às ruas disseminando o horror?!

E daí, se dissermos basta?!

E daí se reconstruirmos nossa morada comum?!

E daí, se percebermos que pessoas são muito mais valiosas que ações de mercado?!

E daí, se nos unirmos e juntos limparmos o ódio derramado, o óleo e a dor?!

E daí, se unidos em grande diversidade colarmos os cacos?

As marcas ficarão, mas quem sabe, conseguiremos salvar o pote...

E daí, se numa infinita corrente de mãos entendermos que todas as vidas importam?!

E que nenhuma a menos nos fará os melhores!

E daí, se numa grito uníssono, expulsarmos todos os demônios?!

E a vida florescerá

E uma Estrela voltará a brilhar!

 

                                *Goretti Santos

                                                   26/08/2020

         *Fisioterapeuta e poeta. 

                                                

 

 

 

 

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A FÉ QUE NOS TORNA MAIS HUMANOS

 

 Por Marcelo Barros

 



Quem é cristão/ã se vê como discípulo/a de Jesus de Nazaré que nos revelou a presença de Deus no humano. Quanto mais humano, mais expressa a presença divina em seu coração e sua vida.

 


Em tempos de fundamentalismos religiosos, a fé parece tornar as pessoas menos humanas. Há séculos, o Imperialismo ocidental impõe seus interesses e extermina os dissidentes e diferentes, sempre em nome de Jesus. Atualmente, o Império norteamericano se considera imbuído de uma vocação divina e cristã para dominar o mundo. Como reação a esta perversão social e política, também em nome de Deus, grupos que se dizem muçulmanos protestam contra o imperialismo matando inocentes. No Brasil, em nome de Cristo, grupos neopentecostais invadem terreiros e desrespeitam comunidades de tradições espirituais afrodescendentes. Em nome da fé, diante de tragédias como a gravidez de risco de uma criança de dez anos, vítima de abuso sexual, religiosos fundamentalistas esbravejam sua norma moral e sempre dizendo defender a vida. Sempre visando a mulher, transformada de vítima em pecadora, sem uma atitude concreta que possa mudar a estrutura machista desta sociedade sem coração.

Diante disso, para muita gente de boa vontade parece que de um lado está a religião e seus valores e, do outro lado, está a vida com seus desafios. Como dizia o grande Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”.

Na realidade, nestes dias, a Igreja Católica lê textos do evangelho de Mateus (capítulo 23) nos quais Jesus ataca não os que não têm fé e sim os religiosos. Na porta do templo, Jesus denuncia a desumanidade não dos ateus e sim dos professores da Bíblia e das autoridades do templo. A acusação que ele faz é que “vós filtrais um mosquito e engolis um camelo”. “Sois como sepulcros caiados, por fora brancos e bonitos, mas por dentro, podres. Cuidais da imagem pública e social que tendes mas por dentro estais cheios de hipocrisia”.

Estas acusações proféticas do mestre nos advertem a todos. Parecem referir-se a fragilidades pessoais, nas quais todos nós podemos cair. No entanto, não se trata só de acusações a pessoas que se consideram santas e não são. Jesus denuncia a própria instituição religiosa que tende a isolar a lei moral da vida concreta. Na exortação apostólica “A alegria do amor” , o papa Francisco lembra: “É justo que haja uma lei moral clara, mas sua aplicação tem sempre de depender das circunstâncias concretas e exige que os pastores dialoguem com os leigos que têm responsabilidades e critérios éticos” AL 37). A palavra do papa confirma o que disse Jesus: “A lei foi feita para as pessoas e não as pessoas para a lei”. 

A credibilidade das Igrejas e de toda religião está cada vez mais ligada ao compromisso destas contribuírem com a justiça e a paz no mundo. Na América Latina, a estreita relação entre fé e espiritualidade libertadora foi proclamada oficialmente pela 2ª Conferência dos bispos católicos latino-americanos, reunida em Medellín, em 1968. Há 52 anos, no início de setembro, esta conferência era concluída com uma mensagem, até hoje, atual e necessária: “Que se apresente cada vez mais nítido, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação do ser humano por inteiro e de toda a humanidade” (Medellin. 5, 15 a)

Nos nossos dias, mesmo contando com a palavra profética do papa Francisco, grande parte dos católicos nas dioceses do Brasil quer saber se pode contar com as forças vivas da Igreja Católica e de sua hierarquia para testemunhar ao mundo um Deus Amor e mais humano do que esta sociedade secular. Infelizmente, ao contrário do que falaram os bispos em Medellín, parece que certo grupo de padres e bispos ainda testemunha um Deus que, para ser fiel, às exigências de sua lei, se torna menos humano do que este mundo já tão cruel.

Há 52 anos, (1968), pela primeira vez, uma grande assembléia eclesial se interessava por um tema que não dizia respeito apenas à organização interna da Igreja. O título da conferência de Medellín foi “A Igreja no mundo em transformação”. A perspectiva era projetar uma visão integral do ser humano, compreendido a partir de sua dimensão social e da sua vocação para a libertação. De fato, a conferência conseguiu realmente falar ao mundo. Até hoje, o milagre divino é que, apesar de todas as dificuldades da Igreja e do mundo, Medellín deixou um espírito que não morreu. Nunca mais o episcopado católico latino-americano e caribenho conseguiu retomar a liberdade e a amplidão do espírito de Medellín. No entanto, embora restrito a minorias proféticas, o apelo dos bispos na conferência ressoa até hoje e incomoda. Jesus pediu que acreditássemos mais em Deus do que nas instituições religiosas. Deu-nos o Espírito Santo para nos guiar. E Paulo pediu: Não apaguem o Espírito dentro de vocês.

As oposições diretas que o papa Francisco enfrenta na própria cúpula eclesiástica não são apenas contra o fato de que o papa retoma o espírito e as orientações fundamentais do Concílio Vaticano II. Ele também retoma o sopro profético de Medellín para toda a Igreja. Hoje, bispos e padres que se pronunciam por uma Moral que parece religiosa mas não parte de uma visão da vida em seu conjunto acaba sendo pouco humana. Temos sim de defender a vida desde o momento da concepção, mas é preciso aprofundarmos o modo como defender de modos realistas e em sintonia com o sensus ecclesiae (a sensibilidade da Igreja) que não parece estar sendo a mesma de hierarcas que não dialogam e não se colocam na perspectiva da sinodalidade proposta pelo papa. Desde que assumiu o ministério de bispo de Roma, o papa Francisco procura mostrar que as normas morais devem ser defendidas, mas sempre a partir da acolhida e do apoio às pessoas mais vulneráveis e nunca de forma que separe e violente a vida concreta das pessoas em questão.