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quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

ACOLHER A FRAGILIDADE: UMA MEDITAÇÃO SOBRE O NATAL

 



Kinno Cerqueira [1]

 

Um dos principais sustentáculos do atual cristianismo brasileiro é a imagem mental de um Deus todo-poderoso assentado sobre um trono de glória, majestade e poder. A consequência homilética dessa imagem é a prevalência de sermões/homilias em cujo centro está a censura da fragilidade humana, do inacabado e do caminho por fazer que somos.

Para quem está habituado ao Deus todo-poderoso, soa desconcertante esta afirmação de Jesus: “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14,9). Com estas palavras, Jesus apresenta-se como espelho no qual podemos contemplar aquela imagem de Deus em geral encapada por nosso desejo de poder: o Deus frágil, pobre, nu, indigente, mendigo.

A fragilidade de Jesus interpela-nos a que nos libertemos dessa imagem mental em que Deus é a divinização da negação de nossa fragilidade. Na manjedoura, não encontramos outra imagem senão a do menino carente, nem outra voz a não ser seu choro, nem outro assombro que não seja sua pequenez, sua dependência, sua absurda fragilidade.

No corpo do menino, tocamos nosso próprio corpo, esse corpo habitado por carências, medos, faltas. E na sua voz, escutamos nossa própria voz, os sussurros mais secretos de nossa alma, os soluços de nosso existir aportados no cais de lágrimas de nosso íntimo mais invernal.

O caminho rumo à manjedoura inaugura o encontro com a imagem do Deus frágil, interpelação a libertarmo-nos de imagens de Deus repressoras do que nos constitui, possibilidade de reconciliação com a fragilidade que somos. A manjedoura não pode acolher-nos a não ser que acolhamos, antes de tudo, nossa própria fragilidade.

 

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

O AMOR EM JESUS

 Frei Betto


          Jesus não nos pediu que não tenhamos inimigos, e sim que os amemos. O que é amar o inimigo? Lutar para que ele também se torne aberto ao projeto do Reino. Não se trata de libertar somente a classe trabalhadora, mas toda a sociedade, incluindo os opressores.    


            Uma característica interessante do amor de Jesus aparece no episódio do encontro com o homem rico (Marcos 10,17-22). Este indaga o que fazer para ganhar a vida eterna (só os que já têm assegurada esta vida perguntam a Jesus como ganhar a outra...). Jesus respondeu: "Você conhece os mandamentos", e recitou-os. O homem confirmou que, desde pequeno, cumpria todos. São Marcos sublinha que "Jesus o amou" para, em seguida, acrescentar que ele recomendou ao homem: "Vai, vende os teus bens, distribui aos pobres e depois vem e me segue". Diz o Evangelho que "o homem foi embora triste e aborrecido porque era muito rico".
           O amor de Jesus não o impediu de ser exigente. Eis o conceito de amor de Jesus: quem ama é verdadeiro com o outro. Amar é fazer bem ao outro, ainda que isso doa muito. Jesus, ao amar, levava as pessoas a encontrarem a verdade, mesmo que isso criasse nelas antipatia por ele, como foi o caso dos fariseus.
           É indisfarçável nos evangelhos o lado irônico da personalidade de Jesus. Na parábola do bom samaritano (Lucas 10, 25-37), o doutor da lei lhe perguntou: "O que devo fazer para ganhar a vida eterna?" Jesus devolveu-lhe a questão: "O que está escrito na lei?" Como se dissesse: "Você não é doutor, formado? Por que pergunta isso a mim?" O doutor recitou de cor o texto bíblico: "Amarás o Senhor teu Deus..." Jesus apenas retrucou: "Faça isso e viverá".

        Percebe-se claramente, pelo relato de Lucas, que o doutor ficou sem graça. Serrou o galho e ele mesmo caiu. Por isso, devolveu a pergunta a Jesus: "Mas quem é o meu próximo?" Jesus deu uma resposta factual, qualitativamente muito diferente da resposta conceitual que o doutor da lei havia dado.
         Jesus não nos pediu que não tenhamos inimigos, e sim que os amemos. O que é amar o inimigo? Lutar para que ele também se torne aberto ao projeto do Reino. Não se trata de libertar somente a classe trabalhadora, mas toda a sociedade, incluindo os opressores. Libertá-los da vida indigna, dos falsos valores, da condição de exploradores, das concepções monstruosas que trazem na cabeça sobre a divisão social. Porém, acreditamos que o sujeito da libertação são aqueles que têm interesse na conquista de uma nova ordem social. Os pobres são os bem-aventurados. Pois os que já desfrutam de privilégios não querem abrir mão de seu conforto. Querem perpetuar o presente, jamais buscar um futuro melhor para todos.
         Muitos imaginam que, sendo Deus, o homem Jesus teria a visão beatífica do Pai, como quem carregasse dentro de si a contemplação direta da face de Deus. Ora, tal ideia é condenada pela Igreja como herética, por negar a união hipostática Deus-homem em Jesus. Não se pode aceitar que ele era Deus por dentro e homem por fora. Era totalmente Deus e totalmente homem, por dentro e por fora. E tinha fé como nós temos. E até passou por crises de fé, como nós passamos, a ponto de se sentir abandonado por Deus.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de quarentena – 90 dias em fragmentos evocativos” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

OS DEZ NOTÁVEIS

  


Prof. Martinho Condini

 

Pelé estaria expulso escrete canarinho brasileiro de todos os tempos?

Pixinguinha não estaria na banda dos dez notáveis músicos brasileiros?

Milton Santos não comporia o grupo dos dez notáveis cientistas brasileiros?

Milton Nascimento não apareceria entre os dez notáveis cantores brasileiros?

Grande Otelo não comporia a trupe dos dez notáveis atores brasileiros?

Aleijadinho não constaria do panteon dos dez notáveis escultores brasileiros?

Carlos Drumond de Andrade seria defenestrado  dos dez notáveis do poetismo brasileiro?

Chacrinha não comporia o rol dos dez notáveis animadores de TV brasileira?

Chico Buarque de Holanda estaria excluído do palco dos dez notáveis letristas brasileiros? 

Fernanda Montenegro não integraria o elenco das dez notáveis atrizes brasileiras?

Elis Regina não ingressaria no estrelato das dez notáveis cantoras brasileiras?

Stanislau Ponte Preta estaria fora da redação dos dez notáveis jornalistas brasileiros?

E Paulo Freire ficaria de fora da sala de aula com os dez notáveis educadores brasileiros?

Penso, que dificilmente alguns desses brasileiros não estariam entre os dez notáveis.

         Pois é, no site do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para incentivo a pesquisa ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, na página inicial do site nos apresentam uma relação dos principais cientistas brasileiros da nossa história, denominados por eles de notáveis. É uma relação de mais de sessenta cientistas e pesquisadores.

         E qual é a surpresa para quem abrir essa página onde estão historiadores, geógrafos, sociólogos e educadores ilustres, como Anísio Teixeira e Florestan Fernandes? A ausência do patrono da educação brasileira, o pesquisador, educador e pensador Paulo Freire.

          Por que Paulo Freire não está nesta lista de notáveis? Coincidência ou não está ausência se dá no período desse desgoverno, que desde seu início, adotou uma política de desmonte da educação brasileira e um processo de desconstrução da obra e da imagem de Paulo Freire. Sem contar com os desqualificados ministros da educação que já passaram pelo ministério e os que estão por vim.

         O educador Paulo Freire é o único brasileiro que consta na lista dos 100 autores mais importantes nas universidades de língua inglesa. O livro “Pedagogia do Oprimido” está entre os três livros mais citados na área de ciências humanas no mundo. Freire é o brasileiro que mais recebeu títulos de “doutor honoris causa’ na nossa história.

         A grandeza do legado da práxis freiriana é demonstrada por meio das 8 cátedras Paulo Freire, 1 Instituto Paulo Freire e 46 grupos de pesquisa existentes no Brasil, como também em outros países da América Latina e Central, Estados Unidos, Canadá e Europa.

         Por isso, a indignação de Paulo Freire não constar na relação dos notáveis de uma instituição de fomento a pesquisa em nosso país.

         Penso que apesar desse desrespeito com o educador Paulo Freire, sabemos que há uma considerável rede de Educadoras e Educadores no Brasil e no mundo que têm na práxis freiriana uma bandeira de luta e resistência para se construir por meio da educação uma sociedade libertária e igualitária.

   O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com         

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

É NATAL, APESAR DA PANDEMIA

 


Marcelo Barros 



As notícias nos alertam sobre o repique da Covid 19 no Brasil e uma nova onda com mutação diferente do vírus em alguns países do mundo. Enquanto aumenta o número de pessoas contaminadas e a cada dia é maior a taxa de mortalidade, empresas internacionais e governos disputam quem pode lucrar mais com a venda de vacinas e equipamentos para a proteção da vida. Por conta da pandemia, quase um terço da humanidade afunda no desemprego e na pobreza. Enquanto isso, afirma Ladislau Dowbor em seu livro “A era do capital improdutivo”: 42 pessoas possuem uma riqueza maior do que a metade de toda a humanidade. Um relatório da OXFAM prova que 3, 7 bilhões de seres humanos não conseguem alcançar a renda da qual desfrutam 42 grandes bilionários do mundo. Só Jeff Bezos, o dono da Amazon.com possui uma riqueza pessoal estimada em 200 bilhões de dólares. 

Neste quadro da pandemia, governos cancelam festas de finais de ano e limitam ao máximo a possibilidade de concentrações humanas. No entanto, neste contexto, mais do que nunca é necessário que os cristãos celebrem o Natal. E devolvam a esta celebração o sentido original da festa. Não se trata de festejar aniversário do menino Jesus. Desde que no século IV, as comunidades cristãs decidiram celebrar o Natal, o objetivo era lembrar que Deus assume a realidade humana e vem fazer do mundo inteiro um novo presépio de sua inserção no meio de nós.

O Espírito Santo, como Mãe de Ternura, vem inspirar novas testemunhas, encarregadas de lembrar ao mundo que o projeto divino é contrário à sociedade do desvínculo e da indiferença social. Mais do que qualquer pregação religiosa, celebrar o Natal é expressar a amorosidade da vida, traduzida em solidariedade, como expressão de que o Cristo se faz carne neste mundo atual. Lembramos o natal de Jesus em Belém para testemunharmos hoje o Natal do Cristo cósmico que nos faz ver a presença divina na natureza, nos seres vivos e na história do nosso povo.

No Brasil, vamos viver este  Natal, solidários aos quase dois milhões de pessoas infectadas e chorando a morte de mais de 180 mil pessoas. Desta, muitas podiam não ter morrido se o governo brasileiro não insistisse em uma política que parece aproveitar o vírus para dizimar comunidades indígenas, quilombolas e populações de periferia. Tudo se torna mais difícil porque não adianta culpar apenas o presidente. Atrás dele, há uma elite escravagista e uma mídia interesseira que fazem qualquer coisa para garantir os seus privilégios. E o pior de tudo é que em nome de  Jesus e gritando Deus acima de todos, católicos e evangélicos apoiam e sustentam esta iniquidade.

  Esta celebração do Natal de Jesus vem nos dizer algumas coisas boas e outras desafiadoras. A boa é que o Senhor vem sim, está no meio de nós. É fonte de libertação e de vida nova para nós e para a humanidade.  O aspecto desafiador é que é um Deus que vem a nós como veio no Natal, isso é como recém-nascido pobre em uma manjedoura. O Natal nos lembra que o nosso Deus é um Deus impotente. Não adianta termos as reações de Pedro e de muitos dos discípulos que sempre imaginavam que o Cristo viesse impor o seu poder e transformar o mundo. Não adianta das nossas prisões de hoje, fazer como o profeta João Batista que da prisão mandou perguntar a Jesus: É você mesmo, ou temos de continuar esperando outro que venha para resolver essa realidade? Ele só pode nos salvar através da cruz nossa de cada dia, Cruz dos irmãos e irmãs que aceitam assumir essa missão do Natal de uma humanidade nova.

Podemos sim, como Maria, receber o anúncio de que estamos todos/as grávidos e grávidas de um novo modo de ser. Esse novo modo de ser transforma-nos interiormente. Deve criar um modo novo de ser Igreja e um modo novo de ser humanidade. E aí, apesar de todos os Bolsoneros da vida, feliz Natal! Teremos então luz e força para encontrar as vacinas eficazes para as muitas pandemias que precisamos vencer: além a da Covid 19, as do desamor, da indiferença, do individualismo e de uma economia que mata. Na Argentina, nos anos 80, cantava Mercedes Sosa em sua Canción de cuña navideña: “

Todos tan alegres, llegó Navidad

y en mi rancho pobre, y en mi rancho pobre

tristeza sonó igual.

 

No llores mi niño, ya no llores más

que nadie se acuerda, que nadie se acuerda

que no tienes pan.

 

Allá en un pesebre, dicen que nació

un niñito rubio, rubio como el sol.

 

Dicen que es muy pobre, pobre como tú,

destino de pobre, destino de pobre

destino de cruz”.

 

Quem quiser ouvir a música no you tube:

 

https://youtu.be/iRoc1WBmNrk -  Canción de cuña navideña - Mercedes Sosa

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br