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sábado, 3 de abril de 2021

FOME E SEMANA SANTA EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(02/04/2021)

 

     Para desconcerto geral, há um virus pior do que o COVID, infectando o corpo e a alma desta nossa "pátria amada Brasil". Suas causas são bem conhecidas, seus efeitos, bem visíveis para quem tem olhos pra ver e mente pra pensar. A fome.

     Nestes dias, nós cristãos estamos revivendo a Semana Santa. Somos convidados a contemplar a Cruz do Calvário. Considerando que "completo em minha carne o que faltou à sua Paixão" cf. Col. 1,24 ss, acrescentaremos às 7 Palavras de Jesus na Cruz, mais uma: "tenho fome". Sim. A fome Dele hoje está na fome de todos os famintos, desamparados e humilhados.

     Reflitamos a partir de um fato real. Há poucos dias, recebi um s.o.s. de moradores de Bola na Rede:"padre, arranje umas cestas básicas, pois já começamos a vender os objetos da nossa casa, para comprar comida". No primeiro momento, uma pessoa amiga e sensível fez doação de grande quantidade de um alimento saudável e nutritivo: macaxeira. No dia seguinte, a coordenadora da distribuição, irmã de Fé e Luta, me mandou uma mensagem, via wapp: "frei, nunca vi o povo tão feliz por causa de macaxeira". Confesso que senti uma alegria triste. Alegria, por razões óbvias, tristeza, por razões subjacentes.

     Quando um povo vive tamanha felicidade por 3 kg. de macaxeira (o que coube a cada família) é sintoma de que alguma coisa vai mal. Me senti desafiado a decifrar enigmas: o que é a fome? A que leva a dor da fome?

    Lembrei um pensamento do poeta latino Virgílio, aprendido no Seminário: "malesuada fames", a fome é má conselheira. Não! Ela é péssima conselheira. E eu que pensava diferente, curvo-me a esta verdade: ela, a fome não produz sentimento de justa revolta, gerador

 de mudanças sociais, ao contrário, produz passividade e subserviência. Se hoje alguns gritam de felicidade por conta de 3 kg. de macaxeira, amanhã, por motivos semelhantes, farão fila pra beijar a mão do opressor. Não tenho mais dúvida, a fome é arma do diabo. E como o diabo não precisa andar armado, ele a entrega aos opressores deste mundo. O Sistema Econômico Neoliberal  a utiliza com o fim de submeter os pobres ao mais vil e absoluto controle: o que obriga a escolher entre viver ou morrer.

      Daí me irmanei com outros personagens históricos de outros tempos e lugares deste mundo desigual. Mahatma Gandhy, um dos homens mais santos que este mundo já conheceu, profundamente religioso. Um dia ele foi interpelado por Rabindranath Tagore, maior poeta da Índia, prêmio Nobel de literatura. Este questionou sua pregação obsessiva e monocórdia contra a fome de seus compatriotas. Convidou-o a olhar também para o pássaro que canta, ao romper da aurora, sem perguntar por alimento. Gandhy respondeu, admitindo, democraticamente, que outros se ocupassem em cuidar de pássaros debilitados, ou de cantar a poesia da vida, mas "não se pode esperar que a salvação de um povo venha da arte, quando milhões estão a precisar  apenas de uma coisa: comida. Se, em minha volta o povo definha de fome, só me é permitida uma ocupação: alimentá-los". E acrescentou um dado da sua fé: "a um povo que sofre de fome e desemprego, Deus só pode aparecer de uma forma: como trabalho e garantia de comida".

      Não sendo cristão, Gandhy nos chama atenção para um Deus ecumênico. Ainda que sejam diversos os caminhos da Fé, para todos vale o mesmo princípio: "se alguém disser que ama a Deus, a quem não vê e não ama o irmão, a quem vê, é mentiroso" Cf.1 Jo.4, 20-21.

    Nestes dias da Semana Santa, ao acompanhar os passos da Via Sacra, não choremos por Ele ("não chorem por mim, mas por vocês e seus filhos" Jo. 28,48.) Ele está na glória do Pai. Celebremos sua Paixão e Ressurreição e, logo a seguir, voltemos para os caminhos onde Ele se encontra desfigurado em qualquer pessoa torturada pela maldita fome. Jesus não disse "teu irmão teve fome...." mas sim "eu tive fome e me deste de comer" Mt.25,35. Amém.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

A PÁSCOA DE UMA NOVA CIVILIZAÇÃO

                                                                     

Mauro Morelli 

Eis que de novo chega a Semana Santa reinando a pandemia com os males que a acompanham, obrigando-nos a fechar portas e portões, em debandada para salvar a própria pele! Na reclusão, perdendo fôlego e alegria de viver, batemos de frente com a angústia e o calafrio do risco eminente da morte se esgueirando para se aninhar nas profundezas de nosso ser.

Pouco a pouco janelas e portas vão se abrindo, pois o alarme para alguns é falso, nada mais do que uma gripezinha, que se afasta com tratamento precoce e, mais ainda, pelo poder de Deus acima de tudo. Vamos pois, porta a fora, para tocar a vida. Afinal, religião é religião; negócio é negócio. Como viver sem nossos botecos, restaurantes, supermercados e shopping centers, sem nossas festas, cultos e procissões?

Pe Dênis Cândido da SIlva

Nos templos e igrejas, sinagogas e terreiros, como nos demais espaços sagrados, com nossos ministros, guias espirituais, padres e pastores, ganhamos o céu sem perder a terra! Tudo continua como dantes, uns com muito, outros com muito pouco e a imensa maioria com quase nada! Sempre foi assim, é o normal da vida. Assim será e Deus seja louvado!

Porém, o tempo passa e o vírus vai ganhando mais força por causa de nossas falsas certezas. Mais do que uma gripe, a peste avança penetrando a fundo em casebres e palácios, uns morrendo à míngua, enquanto outros gozam de recursos que permitem atravessar a tormenta. Gritos e alaridos, protestos são ensaiados para defender a economia, enquanto a saúde despenca ladeira abaixo. O desespero bate nas portas das casas, dos templos e hospitais. Os centros de poder; alicerçados na falsidade de seus objetivos escusos e de alianças espúrias, permanecem omissos e coniventes com o genocídio galopante.

Nas entranhas degradadas da Mãe Terra, não mais fonte de vida, são gestados os vírus da peste que devora crianças, jovens e velhos. O senhorio humano desvairado e insano, rompeu a harmonia da Casa Comum. O tempo se esgota e nossa presença na Casa Comum se torna cada vez mais insuportável. Apelamos para o milagre, quando a resposta está com a ciência e com a consciência que exaltam e honram a biodiversidade e a unidade do pluralismo das formas de vida em comunhão.

Desta forma, confusos e perplexos, “provavelmente viveremos a Páscoa mais insólita de toda a história cristã. Talvez, com exceção de alguns períodos de perseguição em alguns países e em certas épocas da história, as maiores festas cristãs nunca ocorreram sem celebrações públicas. Talvez não tenha havido até agora uma Páscoa, numa tão grande parte do mundo, com as igrejas vazias e em muitos casos fechadas” (Tomáš Halík, O Tempo das Igrejas Vazias, ed. Paulinas, pp. 67-77).

Vamos, então, celebrar a Páscoa?! Mas qual Páscoa? Onde e como? Assim como nos questiona o teólogo tcheco Tomáš Halík, criado num regime ateu diverso do nosso, pretensamente católico e evangélico, estamos dispostos a superar as barreiras ideológicas para encontrar o caminho da fé em Deus que se revela identificado com os descartados, deserdados e crucificados da civilização do ter, do poder e do prazer?

Em plena crise civilizatória, estamos sonhando com a volta à normalidade? Logo mais com meio milhão de vidas ceifadas pela peste nutrida pelo descaso, deboche e omissão, vamos continuar delirando alicerçados em nossas crendices e religiosidade? Ou, rompendo com as amarras que nos escravizam, ousaremos passar pelo vale da morte onde sepultaremos as caricaturas de nossa idolatria e de nosso modo de viver que nos transformou em hóspedes insuportáveis na Casa Comum?

A pandemia torna-se para nós Kairós, uma dádiva do Amor Misericordioso que transforma a desgraça em graça! Muita coisa vai morrer e precisa morrer para o amanhecer do novo. Páscoa é a celebração da Vida triunfando sobre a Morte. Segundo Halík, “neste tempo, a fé de muitos crentes é sacudida, e também muitos “não-crentes” começam a interrogar-se sobre questões fundamentais” (Tomáš Halík, A Pandemia como Experiência Ecumênica. Demolição e Reconstrução, 2020).

A Páscoa é uma história de morte e ressurreição! Celebrar a Páscoa é uma decisão muito exigente, com implicações e desdobramentos que mudam o curso da história, seja a primeira reinando o Faraó, ou a de Jesus de Nazaré, que encerra a disputa entre Jerusalém e Garizim, pois Deus se encontra e se revela em Espírito e na Verdade da Vida; ou agora na pandemia, inaugurando uma nova civilização, em que tudo será novo ou não será!

Estamos dispostos a enterrar nosso modo de ser e de crer como Igreja? Como posso dizer que sou evangélico e católico, reduzindo a fraternidade ao círculo fechado e restrito dos que pensam e creem como nós cremos e pensamos?  Nada resolve mudar de Igreja ou descobrir novas estratégias e fazer piruetas mirabolantes para garantir a relevância e a adesão à nossa Igreja!

Coisa mais estéril e ridícula os gritos histéricos e a pressão para abrir e lotar os templos para louvar a Deus, bem como para acolher as generosas ofertas que garantam o esplendor e os serviços de seus templos.

Quantas coisas nos amarram e desfiguram, distanciando-nos dos primórdios da nossa herança e legado. Não havia senhores e nem servos, nem príncipes ou plebeus, nem ala masculina ou feminina, abastados e carentes; o ministério pastoral era exercido para uma Igreja toda ministerial, uma nova criatura que nasce mergulhando no mar de sangue e água que jorram da cruz.

Esperamos voltar com novas reflexões sobre o serviço convertido em poder, sobre as alianças que transformaram um pobre pescador em rei dos reis, pastores em príncipes revestidos com as pompas das cortes e palácios.

Quais os critérios que nos congregam e regem? Unidade no Pluralismo, Autonomia e Comunhão? Ou Centralização e Subserviência, Feudos e Senhorios?

Uma imagem contendo mesa, quarto

Descrição gerada automaticamente

Kcho, La Ultima Cena. 2011.Óleo sobre tela. 

 

Nesta Quinta Feira Santa, ao recordar a Santa Ceia, em nossos cultos e missas, estamos celebrando e vivendo a Eucaristia? O Concílio Vaticano II nos ensina que “a liturgia é o cume para o qual tende toda a ação da Igreja”. (Constituição Sacrosanctum Concilium, 10).

Jesus de Nazaré, o Verbo encarnado, despojado de glória e poder faz um gesto de escravo que lava os pés de seu senhor! Na Igreja, os últimos são os primeiros, os descartados são acolhidos, os chagados são curados?! Os impuros são acolhidos e purificados com o manto da misericórdia?!

A Eucaristia bem celebrada dispõe de duas Mesas para a Palavra e o Pão, pois a Palavra se fez Gente como nós e Pão que sustenta o peregrino. Eucaristia é Diálogo e Partilha do Amor Misericordioso. Acolher, entender, respeitar e amar as diferenças em suas variantes. Repartir o bocado, isto é, aquilo que é vida para mim.

Vamos celebrar a Páscoa em nossas casas, como nos primórdios, em volta da mesa, melhor se redonda, para o diálogo e a partilha que ajudem a entender quem nós somos, em que mundo vivemos e caminhar em busca de vida sempre mais plena.

“Se para muitos católicos a ida à missa dominical era um dos principais pilares da sua identidade cristã, agora terão de se questionar sobre o que pode ser uma nova e mais profunda fonte da sua vida de fé. O que faz de um cristão verdadeiro cristão, quando o funcionamento da Igreja tradicional de repente deixa de funcionar?” (Tomáš Halík, O Tempo das Igrejas Vazias, p.13).

Essa pandemia tornou nossas mesas mais vazias. Há uma ausência, um vazio, uma saudade. A mesa é profundamente um lugar eucarístico. Os evangelhos nos mostram Jesus em várias mesas, rodeado de gente, sobretudo de pecadores. O cardeal José Tolentino diz: “no centro da liturgia encontrarás a mesa. A mesa onde Jesus quis comer a Páscoa com os discípulos, a mesa de todas as refeições abertas onde acolheu os pecadores, a mesa da Eucaristia onde ele repetidamente se oferece” (José Tolentino Mendonça, Rezar de olhos abertos, ed. Quetzal, p.186).

Votos e preces para a Páscoa de uma nova civilização!

 

 

 

Dom Mauro Morelli é bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias (Rio de Janeiro, Brasil); Padre Dênis Cândido da Silva é da Diocese de Luz (Minas Gerais, Brasil) e mestrando em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia em Belo Horizonte (Minas Gerais). 

 

 


sexta-feira, 2 de abril de 2021

O CRUCIFICADO SE SOLIDARIZA COM AS VÍTIMAS DO COVID-19

 


Leonardo Boff

 


Um manto de tristeza se estende sobre toda a humanidade  e não há lenços suficientes para enxugar tantas lágrimas por causa da vítimas do Covid-19. O vírus não poupa ninguém,pois, invisível, pode atacar os que não tomam os devidos cuidados. Ele pôs de joelhos as nações militaristas que se encheram de armas, capazes de exterminar toda a vida no planeta, inclusive a humana.Elas são absolutamente inúteis diante do pequeníssimo coronavírus. Alexandre, o Grande (356-323 A.C) formou um império que ia do Adriático ao rio Indo, morreu picado,provavelmente,por um mosquito que produz uma febre viral (a febre do Nilo ocidental). Quem aqui  é mais forte? O jovem conquistador de 23 anos ou o mosquito? Estamos morrendo por um vírus invisível, arrasando com toda a nossa arrogância, sem dizer que ele é consequência de nossa sistemática agressão à natureza (o antropoceno e o necroceno) que se defende com sua arma letal e imperceptível, o Covid-19 e uma gama de outros vírus.

Todos tememos e sofremos, assistindo,impotentes, à dizimação de milhares, já cerca de dois milhões de vítimas. No Brasil a situação é dramática,porque um governante ensandecido e negacionista, sem qualquer sentimento de empatia, tolera que morram já mais de 300 mil pessoas e cerca de 13 milhões sejam infectados.

Não poder despedir-se dos mortos queridos, nem dizer-lhe um último adeus, e sem poder viver o luto imprescindível causa uma dor silenciosa de romper corações. É a nossa via-sacra de estações sem fim, de lamentos e choros. Celebramos  a sexta-feira santa da morte na cruz do Filho do Homem no contexto desta paixão mundial e nacional.Quem nos consolará? Quem nos sustenta a esperança de que a vida ainda uma vez irá triunfar e que poderemos viver livres e sadios, desfrutando da alegria estarmos junto com nossos entes queridos, amigos, amigas  e próximos?

Há muitas lições que se podem tirar da crucificação de Jesus, resultado de um duplo processo, religioso e político, seguramente de sentido transcendental como redenção/libertação dos seres humanos. Esta talvez seja a mais profunda. Mas há outros sentidos, humanitários, que podem, na atual situação, nos fortalecer no nosso desamparo e nas horas pesarosas do isolamento social, este que nos rouba a alegria de encontrar os familiares e amigos e poder abraçá-los e beijá-los. Consola-nos pensar que, para os que conseguem crer, não estamos sós em nossa paixão. O Crucificado sofre junto e irá sofrer até o final dos tempos enquanto houver sofredores e desamparados.

São Paulo o expressou adequadamente, numa versão simplificada:”ele não fez caso de sua condição divina, apresentou-se como um simples homem, em solidariedade se fez servo e até não temeu morrer na cruz”(cf.Carta aos Filipenses 2,6-8). Não foi ingenuamente ao encontro da morte. Ao saber que seus opositores decidiram matá-lo, testemunha-o o evangelho de São João, escondeu-se na cidade de Efraim perto do deserto (11,54). Sabemos que Efraim era uma cidade-refúgio. Quem fosse perseguido e ameaçado por qualquer razão, na cidade de Efraim não podia ser pego e estava protegido.Para lá rumou Jesus com seus seguidores.

A Epístola aos Hebreus testemunha:”entre lágrimas suplicou Àquele que o podia salvar da morte”. Versões mais antigas dizem:”e não foi atendido; apesar de ser Filho de Deus, teve que aprender a  obedecer por meio do sofrimento”5,7-8).No monte das Oliveiras, no Getsêmani seu temor face à morte iminente o leva a suplicar:”Pai, afasta de mim este cálice; mas não se faça a minha mas a tua vontade”(Lucas 22,42).

O evangelista Lucas relata” cheio de angústia, o suor tornou-se como grossas gotas de sangue a escorrer por terra”(22,44). Jesus foi tomado mais do que pelo medo, mas pelo pavor a ponto de suar sangue, como é atestado em pessoas na iminência de seu enforcamento ou fuzilamento. Mas o paroxismo foi alcançado na cruz: sentindo-se abandonado pelos seguidores e absolutamente só enfrenta a maior tentação pela qual um ser humano pode passar: a tentação da desesperança. “Será que foi tudo em vão? Passei pelo mundo fazendo o bem e eis que me encontro crucificado”. Expressa seu desamparo gritando:“Deus,oh Deus, por que me abandonaste?”(Marcos 15,34). Finalmente, nu por dentro e por fora, entrega-se ao Mistério que se esconde mas  que conhece todos os nossos destinos. A última palavra de Jesus, não resignada mas livre, foi:”Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”(Lucas 23,46). São Marcos ainda lembra:”dando um imenso brado, Jesus expirou”(15,37).

Jesus se mostrou o protótipo do ser humano fiel a Deus e a causa de Deus no mundo, a predileção pelos pobres, o amor incondicional e a misericórdia ilimitada, causa essa levada até ao extremo, entregando livremente a própria vida. A recusa humana de sua pessoa e mensagem pode decretar sua crucificação, mas não pode definir o sentido que Jesus conferiu a esta vergonhosa condenação: ser solidário com todos os crucificados e sofredores do mundo.

A ressurreição após seu destino trágico veio mostrar de que lado estava Deus, ao lado dele e de sua vida e causa.Revela a justiça divina contra o justiciamento perpetrado pelo seus opositores.

Uma lição que podemos tirar da sexta-feira da paixão é seguramente  esta: nenhum sofredor e prostrado de dor precisa sentir-se só. O Crucificado, agora Ressuscitado e feito o Cristo cósmico, estará sempre junto, sofrendo com quem sofre, dando esperança a quem quase se desespera e mostrando que a página mais importante do livro da  vida vem escrita não pelo ódio e pela morte matada, mas pela vida, levada à sua plenificação pela ressurreição. Diz um discípulo tardio de São Paulo, Timóteo:” verdadeira é esta palavra: se padecermos unidos a Cristo, com ele também viveremos”(Segunda Carta,2,11). Eis nossa consolação.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu Paixãa de Cristo- paixão do mundo, Vozes 2012 e Via-sacra para quem quer viver, Vozes 2003.

 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

TOM CRUISE E O BOM SAMARITANO

 Frei Betto


 

       Entramos na Semana Santa. Todo o mundo, o Brasil de modo especial, vive há mais de um ano em plena Sexta-Feira da Paixão: quase 3 milhões de mortos pela Covid, dos quais mais de 300 mil em nosso país.

       Dói a incerteza da doença em milhões de infectados; dói nas famílias dos mortos; dói a ausência de velórios; dói nos trabalhadores da saúde que, exaustos, sabem que não podem fazer milagres na falta de insumos, remédios, oxigênio e leitos; dói no bolso dos comerciantes que veem seus negócios falidos; dói no risco cotidiano enfrentado pelas pessoas obrigadas a sair de casa para trabalhar; dói ao viajar no transporte coletivo lotado; dói na falta de crédito facilitado a quem vê o seu empreendimento fechar, e dói por não ser permanente e suficiente o auxílio emergencial a tantos que precisariam ficar em casa e, ao mesmo tempo, se alimentar, pagar aluguel, e as contas de água, luz, telefone etc.

       Jesus sofre na dor dos enfermos e de suas famílias; no desamparo de quem vive nas ruas, não tem acesso a recursos sanitários e atendimento de saúde; na expectativa de uma vacina que, a conta gotas, demora a chegar para a maioria da população. 

        No Brasil, a maioria é cristã. Cristãos avulsos, sem vínculos paroquiais ou comunitários. Por isso, profanamos a Semana Santa. Em vez do lava-pés na quinta-feira, lavamos a alma em dúzias de cerveja e o corpo em mares e piscinas. Em vez da memória do Senhor morto na sexta-feira, o churrasco no quintal e a sofreguidão de quem acredita que felicidade é a soma de pequenos prazeres. Em vez da Páscoa, a mais importante festa cristã, um domingo de lazer no qual se espera apenas que o Sol ressuscite dentre as nuvens e nos conceda a glória de seu brilho. E, muitas vezes, promovendo aglomerações que, sutilmente, introduzem em nossas casas esta indesejada convidada que, nos dias que correm, costuma se manifestar dias depois de nossas confraternizações com familiares e amigos: a morte. 

       Os fatos históricos celebrados pela Igreja na Semana Santa fazem parte dos arquétipos que regem a nossa cultura ocidental. Olvidar-se que, no século 1, Jesus de Nazaré foi perseguido, preso, torturado e assassinado na cruz por "passar a vida fazendo o bem", como sublinham as Escrituras, é perder a própria identidade. Sem paradigmas e referências, invertemos os valores. Trocamos a religião pelo consumo, abraçando inclusive uma religiosidade prêt-à-porter, de quem busca na igreja apenas o que convém à própria segurança psicológica. Nenhuma preocupação com os pobres, nenhuma fome de justiça, nenhuma entrega à oração. Nada disso exige que se cumpra o fundamental: amar o próximo como a si mesmo. O que, nessa conjuntura, se traduz em solidariedade aos que padecem doenças, fome, falta de recursos mínimos para saldar contas triviais.

       Abraçar o caminho de Jesus é ver no próximo a face de Cristo, sobretudo naqueles com quem ele se identificou: "tive fome... tive sede... fui oprimido..." (Mateus 25,31). Que transtorno! Então terei de encarar essa criança de rua que estraga a paisagem da janela do meu carro como se visse o Menino Jesus? Terei de consolar familiares de pessoas doentes e pagar o salário da faxineira ainda que ela não venha trabalhar devido à pandemia?

       Heloisa Vinhas, brasileira de 23 anos que tentava vida melhor nos EUA, em março de 1996, ao atravessar uma rua de Los Angeles, foi atropelada pelo carro de uma motorista irresponsável, que fugiu sem prestar socorro. Atirada no asfalto da via preferencial, Heloísa corria o risco de ser morta por outros veículos. Porém, um jovem e famoso ator, Tom Cruise, que passava pelo local, manobrou seu Porsche de modo a proteger o corpo da moça e chamou a equipe de socorro. Em seguida, acompanhou Heloísa ao hospital e disse ao enfermeiro Jeffrey Furrows: "Sou Tom Cruise e quero que esta mulher receba o melhor tratamento possível. Eu pago a conta." A estimativa ultrapassava 20 mil dólares. Dias depois, ele retornou para visitar Heloísa.

       Tom Cruise jamais deve ter imaginado que, um dia, faria o papel, na vida real, de um dos mais destacados personagens bíblicos: o bom samaritano. Conta Jesus, no capítulo 10 do evangelho de Lucas (versículos 25 a 37), que "um homem ia descendo de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos assaltantes, que lhe arrancaram tudo e o espancaram. Depois foram embora e o deixaram quase morto. (...) Um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele e teve compaixão. Aproximou-se, fez curativos, derramou óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal e o levou a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, pegou duas moedas de prata e as entregou ao dono da pensão, recomendando: "Tome conta dele. Quando eu voltar, pagarei o que tiver gasto a mais."

       Como imitar Tom Cruise e o bom samaritano se perdemos a compaixão e a solidariedade? Preferimos Jesus espetado no crucifixo da parede. Na vida real, ele e o bom samaritano questionam nossas fantasias egocêntricas. 

       Infelizmente, muitos de nós ainda pensam assim: “É Páscoa, mas não passo. Fico na minha. Entregue ao ócio dos feriados. Se possível, vendo na TV um filme estrelado por Tom Cruise. E não me peçam que pare o carro caso encontre um acidentado na estrada. Sujaria tapetes e bancos, impressionaria as crianças, atrasaria a viagem. Exceto se a fatalidade fizer com que o acidentado seja eu.”

 

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de quarentena – 90 dias em fragmentos evocativos” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: fbetto.org

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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