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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Homenagem a Paulo Freire em seu centenário de nascimento

 Frei Betto


        Posso afirmar, sem receio de exagerar, que Paulo Freire é raiz da história do poder popular brasileiro nos 50 anos entre 1966 e 2016. Esse poder surgiu, como árvore frondosa, da esquerda brasileira atuante na segunda metade do século XX: grupos que lutaram contra a ditadura militar (1964-1985); as Comunidades Eclesiais de Base das Igrejas cristãs; a abrangente rede de movimentos populares e sociais despontados nos anos 1970; o sindicalismo combativo; e, na década de 1980, a fundação da CUT (Central Única dos Trabalhadores); da ANAMPOS (Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais) e, em seguida, da CMP (Central de Movimentos Populares); do PT (Partidos dos Trabalhadores); e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra); e de tantos outros movimentos, ONGs e entidades.

       Se eu tivesse que responder à sugestão: “Aponte uma pessoa causa de tudo isso.” Eu diria, sem nenhuma dúvida: Paulo Freire. Sem a metodologia de educação popular de Paulo Freire, não haveria esses movimentos, porque ele nos ensinou algo de muito importante: ver a história pela ótica dos oprimidos e torná-los protagonistas das mudanças na sociedade. 

                       Os excluídos como sujeitos políticos 

       Ao sair da prisão política, em fins de 1973, tive a impressão de que toda luta aqui fora havia acabado por força da repressão da ditadura militar, até porque todos nós, imbuídos da pretensão de sermos os únicos entendidos em luta capaz de resgatar a democracia, estávamos na cadeia, mortos ou no exílio. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar uma imensa rede de movimentos populares disseminados por todo o Brasil.

       Quando o PT foi fundado, em 1980, vi companheiros de esquerda reagirem: “Operários? Não. É muita pretensão operários quererem ser a vanguarda do proletariado! Somos nós, intelectuais teóricos, marxistas, que temos capacidade para dirigir a classe trabalhadora”. No entanto, no Brasil os oprimidos começavam a se tornar não só sujeitos históricos, mas também lideranças políticas, graças ao método Paulo Freire.

       Uma vez, no México, companheiros de esquerda me perguntaram:

       — Como fazer aqui algo parecido ao processo de vocês lá no Brasil? Porque vocês têm um setor de esquerda na Igreja, um sindicalismo combativo, o PT… Como se obtém essa força política popular?

       — Comecem fazendo educação popular – respondi - e daqui a trinta anos...

       Eles me interromperam:

       — Trinta anos é muito! Queremos uma sugestão para três anos.

       — Para três anos não sei como fazer – observei -, mas para trinta anos sei o caminho.

       Em resumo, todo o processo de acumulação de forças políticas populares, que resultou na eleição de Lula a presidente do Brasil, em 2002, e manteve o PT no governo federal por treze anos, não caiu do céu. Tudo foi construído com muita tenacidade a partir da organização e mobilização de bases populares pela aplicação do método Paulo Freire.

 

O método Paulo Freire

 

       Conheci o método Paulo Freire em 1963. Eu morava no Rio de Janeiro, integrava a direção nacional da Ação Católica. Ao surgirem os primeiros grupos de trabalho do método Paulo Freire, engajei-me em uma equipe que, aos sábados, subia para Petrópolis, distante 70km do Rio, para alfabetizar operários da Fábrica Nacional de Motores. Ali descobri que ninguém ensina nada a ninguém, uns ajudam os outros a aprenderem.

       O que fizemos com os trabalhadores daquela fábrica de caminhões? Fotografamos as instalações, reunimos os operários no salão de uma igreja, projetamos diapositivos e fizemos uma pergunta absolutamente simples:

       — Nesta foto, o que vocês não fizeram?

       — Bem, não fizemos a árvore, a mata, a estrada, a água…

       — Isso que vocês não fizeram é natureza - dissemos.

       — E o que o trabalho humano fez? – indagamos.

       — O trabalho humano fez o tijolo, a fábrica, a ponte, a cerca…

       — Isso é cultura - dissemos. — E como essas coisas foram feitas?

       Eles debatiam e respondiam:

       — Foram feitas na medida em que os seres humanos transformaram a natureza em cultura.

       Em seguida, aparecia a foto do pátio da Fábrica Nacional de Motores ocupado por muitos caminhões e as bicicletas dos trabalhadores. Simplesmente perguntávamos:

       — Nesta foto, o que vocês fizeram?

       — Os caminhões.

       — E o que vocês possuem?

       — As bicicletas.

       — Vocês não estariam equivocados?

       — Não, nós fabricamos os caminhões...

       — E por que não vão para casa de caminhão? Por que vão de bicicleta?

       — Porque o caminhão custa caro, e não pertence a nós.

       — Quanto custa um caminhão?

       — Cerca de 40 mil dólares.

       — Quanto vocês ganham por mês?

       — Bem, ganhamos em média 200 dólares.

       — Quanto tempo cada um de vocês precisa trabalhar, sem comer, sem beber, sem pagar aluguel, economizando todo o salário para, um dia, ser dono do caminhão que você faz?

       Aí eles começavam a calcular e tomavam consciência da essência da relação capital x trabalho, o que é mais-valia, exploração etc.

       As noções mais elementares do marxismo, enquanto crítica do capitalismo, vinham pelo método Paulo Freire. Com a diferença de que não estávamos dando aula, não fazíamos o que Paulo Freire chamava de ‘educação bancária’, ou seja, enfiar noções de política na cabeça do trabalhador. O método era indutivo. Como dizia Paulo, nós, professores, não ensinávamos, mas ajudávamos os alunos a aprenderem. 

Culturas distintas e complementares 

       Quando cheguei a São Bernardo do Campo (SP), em 1980, havia militantes de esquerda que distribuíam jornais entre as famílias dos trabalhadores. Certo dia, dona Marta me indagou:

       — O que é “contradição de crasse”?

       — Dona Marta, esqueça isso.

       — Não sou de muita leitura – justificou-se - porque minha vista é ruim e a letra, pequena.

       — Esqueça isso – eu disse. — A esquerda escreve esses textos para ela mesma ler e ficar feliz, achando que está fazendo revolução.

       Paulo Freire nos ensinou, não só a falar em linguagem popular, plástica, não academicamente conceitual, mas também a aprender com o povo. Ensinou o povo a resgatar sua autoestima.

       Ao sair da prisão, morei cinco anos em uma favela no Espírito Santo. Lá trabalhei com educação popular no método Paulo Freire. Ao retornar a São Paulo, no fim dos anos 1970, Paulo Freire me propôs dar um balanço da nossa experiência em educação e, graças à mediação do jornalista Ricardo Kotscho, produzimos o livro chamado “Essa escola chamada vida” (Ática). É o seu relato como educador e criador do método, e da minha experiência como educador de base.

       No livro, conto que na favela em que eu morava havia um grupo de mulheres grávidas do primeiro filho, assessoradas por médicos da Secretaria Municipal da Saúde. Perguntei aos médicos por que trabalhar apenas com mulheres grávidas do primeiro filho. 

       — Não queremos mulheres que já tenham vícios maternais. – disseram - Queremos ensinar tudo.

       Pois bem, passados uns meses, bateram na porta do meu barraco.

       —  Betto, queremos sua ajuda.

       — Minha ajuda?

       — Há um curto-circuito entre nós e as mulheres. Elas não entendem o que falamos. Você, que tem experiência com esse povo, podia nos assessorar.

       Fui assistir ao trabalho deles. Ao entrar no Centro de Saúde do morro, fiquei assustado. Ali estavam mulheres muito pobres, e o Centro havia sido todo enfeitado com cartazes de bebês Johnson, loirinhos de olhos azuis, propaganda da Nestlé etc. Diante daquele visual, reagi:

       — Está tudo errado. Quando as mulheres entram aqui e olham esses bebês, percebem que isso é outro mundo, não tem nada a ver com os bebês do morro.

       Assisti ao trabalho dos médicos. Percebi que falavam em FM e as mulheres estavam sintonizadas em AM. A comunicação realmente não funcionava. Numa sessão, o doutor Raul explicou, em linguagem científica, a importância do aleitamento materno e, portanto, das proteínas, para formação do cérebro humano. Quando ele terminou a exposição, as mulheres o fitaram como eu ao abrir um texto em mandarim ou árabe: não entendo nada.

       — Dona Maria, a senhora entendeu o que doutor Raul falou? – perguntei.

       — Não, não entendi, só entendi que ele falou que o leite da gente é bom pra cabeça das crianças.

       — E por que a senhora não entendeu?

       — Porque não tenho estudo. Frequentei pouco a escola, nasci pobre na roça. Eu tinha que trabalhar na enxada e ajudar no sustento da família.

       — E por que o doutor Raul soube explicar tudo isso?

       — Porque ele é doutor, é estudado. Ele sabe e eu não sei.

       — Doutor Raul, o senhor sabe cozinhar? – indaguei.

       — Nem café sei fazer.

       — Dona Maria, a senhora sabe cozinhar?

       — Sei.

       — Sabe fazer frango ao molho pardo (prato que, no Espirito Santo, e também em algumas áreas do Nordeste, é chamado de galinha de cabidela)?

       — Sei.

       — Por favor, fica de pé – pedi - e conta pra gente como se faz um frango ao molho pardo.

       Dona Maria deu uma aula de culinária: como se mata o frango, de que lado se tiram as penas, como preparar a carne e fazer o molho etc.

       Quando ela se sentou, falei:

       — Doutor Raul, o senhor sabe fazer um prato desses?

       — De jeito nenhum, até gosto, mas não sei cozinhar.

       — Dona Maria – concluí - a senhora e o doutor Raul, os dois perdidos em uma mata fechada, famintos e, de repente, aparece uma galinha. Ele, com toda cultura, morreria de fome, a senhora não.

       A mulher abriu um sorriso de orelha a orelha. Ela descobriu, naquele momento, um princípio fundamental de Paulo Freire: não existe ninguém mais culto do que o outro, existem culturas distintas, socialmente complementares. Se pusermos na balança toda minha filosofia e teologia, e a culinária da cozinheira do convento em que vivo, ela pode passar sem meus conhecimentos, mas eu não posso passar sem a cultura dela. Eis a diferença. A cultura de uma cozinheira é imprescindível para todos nós. 

Paulo Freire e desafios de futuro 

       Diante da emergência de tantos governos autoritários e da profusão de mensagens antidemocráticas, racistas, homofóbicas, machistas e negacionistas nas redes digitais, me parece de suma importância revisitar Paulo Freire nesta data do centenário de seu nascimento.

       O refluxo das forças progressistas na América Latina nos últimos anos, e o despontar de figuras neofascistas como Bolsonaro no Brasil, nos obrigam a reconhecer que há décadas abandonamos o trabalho de base de organização e mobilização populares. Esse vazio junto às populações da periferia, das favelas, das zonas rurais pobres, vem sendo ocupado pelo fundamentalismo religioso, pelo narcotráfico e milicianos.

       Em suas obras, Paulo Freire nos ensina que não há mobilização sem prévia conscientização. É preciso que as pessoas tenham um “varal” onde pendurar os conceitos políticos e as chaves de análise da realidade. O “varal” é a percepção do tempo como história.

       Há civilizações, tribos, grupos, que não têm percepção do tempo como história. Os gregos antigos, por exemplo, acreditavam que o tempo é cíclico. Hoje, o tempo cíclico retorna por meio do esoterismo, do negacionismo, do fatalismo e do fundamentalismo religioso. Mas retorna, sobretudo, pelo neoliberalismo.

       A essência do neoliberalismo é a desistorização do tempo. Quando Fukuyama declarou que “a história acabou”, ele expressou isto que o neoliberalismo quer nos incutir: Chegamos à plenitude dos tempos! O modo neoliberal de produção capitalista, baseado na supremacia do mercado, é definitivo! Poucos são os escolhidos e, muitos, os excluídos. E não adianta mais querer lutar por uma sociedade alternativa, um “outro mundo possível”!

       De fato, hoje em dia é difícil falar em sociedade alternativa. Socialismo então, nem pensar! Criou-se um pudor, um bloqueio intelectual e emocional. "O socialismo acabou, desabou, ruiu, foi enterrado!”, alardeiam as pitonisas. As alternativas que se colocam são, em geral, intrassistêmicas.

       A noção de que o tempo é história vem dos persas, repassada aos hebreus e acentuada pela tradição judaica. Três grandes paradigmas de nossa cultura são de origem judaica - Jesus, Marx e Freud - e, portanto, trabalharam com a categoria de tempo como história.

       Não se consegue estudar o marxismo sem aprofundar os modos de produção anteriores, para entender como se chegou ao modo de produção capitalista. E entender, em seguida, como suas contradições poderiam levar aos modos de produção socialista e comunista. A análise marxista supõe, portanto, o resgate do tempo como história.

       Se alguém faz análise ou terapia, o psicanalista logo pergunta ao paciente sobre o seu passado, sua infância, sua criação. Se o paciente puder falar sobre sua vida intrauterina, tanto melhor... Toda a psicologia de Freud é um resgate de nossa temporalidade como indivíduos.

       A perspectiva de Jesus era histórica. O Deus de Jesus se apresenta com currículo vitae: não é um deus qualquer - é Deus de Abraão, Isaac e Jacó - ou seja, um Deus que faz história. A categoria principal da pregação de Jesus é histórica: o Reino de Deus. Embora colocado lá em cima pelo discurso eclesiástico, teologicamente não se situa lá em cima. O Reino é algo lá na frente, é a culminância do processo histórico.

       É curioso que na Bíblia a história, como fator de identificação do tempo, é tão forte que no relato do Gênesis a Criação do mundo já aparece marcada por essa historicidade do tempo antes do aparecimento do ser humano.

       Para muitos, história é aquilo que homens e mulheres fazem. Então, não haveria história antes do surgimento de homens e mulheres, tanto que se fala em pré-história. Para a Bíblia, já há história antes do aparecimento do ser humano. Tanto que os gregos consideravam o deus dos hebreus uma entidade muito incompetente. Um verdadeiro deus cria como o Nescafé: instantâneo, e não a prazo, como mostra o relato bíblico. Ora, no relato da Criação, em sete dias, já há historicidade. E Paulo Freire, homem de formação cristã e militante adepto dos fundamentos do marxismo, soube perceber a importância da leitura do mundo como condição da leitura do texto.

       Ao neoliberalismo não convém essa perspectiva. Por isso, não se pode fazer educação popular sem ter o “varal” para dependurar as roupas... Esse “varal” - o tempo enquanto história - é fundamental para que se possa visualizar o processo social e político. Isso acontece também na dimensão micro de nossas vidas. Por que, hoje, muitos têm dificuldade de ter projetos de vida? Por que jovens chegam ao 20 anos sem a menor ideia do que pretendem ser ou fazer da vida? Para muitos deles, tudo é aqui e agora.

       Portanto, se queremos resgatar o legado de Paulo Freire, o caminho é voltar ao trabalho de base com as classes populares, adotando o seu método em uma perspectiva histórica, aberta às utopias libertárias e ao horizonte democrático. Fora do povo não há salvação. E se acreditamos que a democracia deve ser, de fato, o governo do povo para o povo e com o povo, não resta alternativa senão adotar o processo educativo paulofreiriano que situa os oprimidos como protagonistas políticos e históricos.

       Quando Paulo Freire retornou de 15 anos de exílio, em agosto de 1979, nos encontramos em São Paulo. Éramos vizinhos e, com frequência, eu o visitava. Estreitamos muito as nossas relações pessoais.

       Assim, termino esta homenagem com este texto que escrevi no dia 2 de maio de 1997, data da transvivenciação de Paulo Freire: 

       “Ivo viu a uva", ensinavam os manuais de alfabetização. Mas o professor Paulo Freire, com o seu método de alfabetizar conscientizando, fez adultos e crianças, no Brasil e na Guiné-Bissau, na Índia, na Nicarágua e em tantos outros lugares, descobrirem que Ivo não viu apenas com os olhos. Viu também com a mente e se perguntou se uva é natureza ou cultura.

       Ivo viu que a fruta não resulta do trabalho humano. É Criação, é natureza. Paulo Freire ensinou a Ivo que semear uva é ação humana na e sobre a natureza. E a mão, multiferramenta, desperta as potencialidades do fruto. Assim como o próprio ser humano foi semeado pela natureza em anos e anos de evolução do Universo.

       Colher a uva, esmagá-la e transformá-la em vinho é cultura, assinalou Paulo Freire. O trabalho humaniza a natureza e, ao realizá-lo, o homem e a mulher se humanizam. Trabalho que instaura o nó de relações, a vida social. Graças ao professor, que iniciou sua pedagogia revolucionária com trabalhadores do Sesi de Pernambuco, Ivo viu também que a uva é colhida por boias-frias, que ganham pouco, e comercializada por atravessadores, que ganham muito mais.

       Ivo aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber ler, ele não é uma pessoa ignorante. Antes de aprender as letras, Ivo sabia erguer uma casa, tijolo a tijolo. O médico, o advogado ou o dentista, com todo o seu estudo, não é capaz de construir como Ivo. Paulo Freire ensinou a Ivo que não existe ninguém mais culto do que o outro, existem culturas paralelas, distintas, que se complementam na vida social.

       Ivo viu a uva e Paulo Freire mostrou-lhe os cachos, a parreira, a plantação inteira. Ensinou a Ivo que a leitura de um texto é tanto melhor compreendida quanto mais se insere o texto no contexto do autor e do leitor. É dessa relação dialógica entre texto e contexto que Ivo extrai o pretexto para agir. No início e no fim do aprendizado é a práxis de Ivo que importa. Práxis-teoria-práxis, num processo indutivo que torna o educando sujeito histórico.

       Ivo viu a uva e não viu a ave que, de cima, enxerga a parreira e não vê a uva. O que Ivo vê é diferente do que vê a ave. Assim, Paulo Freire ensinou a Ivo um princípio fundamental de epistemologia: a cabeça pensa onde os pés pisam. O mundo desigual pode ser lido pela ótica do opressor ou pela ótica do oprimido. Resulta uma leitura tão diferente uma da outra como entre a visão de Ptolomeu, ao observar o sistema solar com os pés na Terra, e a de Copérnico, ao imaginar-se com os pés no Sol.

       Agora Ivo vê a uva, a parreira e todas as relações sociais que fazem do fruto festa no cálice de vinho, mas já não vê Paulo Freire, que mergulhou no Amor, na manhã de 2 de maio de 1997. Deixa-nos uma obra inestimável e um testemunho admirável de competência e coerência.

       Paulo deveria estar em Cuba, onde receberia o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade de Havana. Ao sentir dolorido seu coração que tanto amou, pediu que eu fosse representá-lo. De passagem marcada para a Palestina, não me foi possível atendê-lo. Contudo, antes de embarcar fui rezar com Nita, sua mulher, e os filhos, em torno de seu semblante tranquilo: Paulo via Deus.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco) e de “Essa escola chamada vida” (Ática), em parceria com Paulo Freire e Ricardo Kotscho. Livraria virtual: www.freibetto.org

 Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

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terça-feira, 7 de setembro de 2021

NOVOS GRITOS DO POVO EXCLUÍDO



Marcelo Barros

 

Mesmo em meio à pandemia que ainda nos ameaça com novas cepas, os movimentos sociais se unem às pastorais de Igrejas na organização do 27º Grito dos/as Excluídos/as. Durante esta semana, na qual o Brasil recorda a sua independência de Portugal, de norte a sul do país, as manifestações populares nos dizem que a independência política tem de ser completada por verdadeira libertação de todas as pessoas que vivem no país. Por isso, é importante que todos e todas escutem o grito das multidões de brasileiros e brasileiras ainda excluídos/as dos seus direitos básicos. O tema deste XXVII Grito resume gritos novos e antigos em um só assim formulado: “Vida em primeiro Lugar! “Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda, já!”.

Este tema com seus diversos gritos se insere na campanha Fora Bolsonaro que não é apenas dos excluídos e excluídas. Abrange pessoas de todas as categorias que não querem compactuar com a barbárie. O Brasil vive sob constantes ataques à nossa soberania e democracia. Cada dia, o presidente e sua base ameaçam o povo brasileiro com novo golpe, ora com palavras, ora com tanques das Forças Armadas, ora com chantagens ao Congresso. Desgasta a relação entre as instituições, como nos últimos dias, com notícias falsas e estímulo ao ódio aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Em um momento no qual o mundo inteiro está alarmado com as consequências dramáticas do aquecimento global e a ONU prepara duas conferências sobre mudanças climáticas, o governo brasileiro privilegia o modelo depredador, favorece  queimadas e aposta na destruição da natureza. Toma como inimigos os povos originários e, a cada dia, aprova medidas para lhes roubar terra e direitos adquiridos.

O povo brasileiro amarga um dos piores índices de desemprego da nossa história e um aumento descomunal do trabalho informal e mal remunerado. Por tudo isso e para dar um basta nesta situação, toda pessoa de boa vontade e que ama a Vida é convidada a se manifestar nesta semana e especialmente no dia 7 de setembro, no 27º Grito dos Excluídos e Excluídas e nesta Campanha Fora Bolsonaro!

Juntos por um país verdadeiramente independente, sem genocídio da população pobre, negra e indígena, com justiça social e oportunidades para que o povo volte a sonhar e ter orgulho de ser brasileiro.

É urgente mobilizar as comunidades excluídas dos direitos básicos, para que participem nas etapas de formação e mobilização social, especialmente pelo direito à vacina, ao auxílio emergencial e Fora Bolsonaro, assim como nos mutirões pela Vida da 6ª Semana Social Brasileira, promovida pela CNBB e por vários organismos da sociedade civil e  que está em processo de construção.

Ainda há quem pense que religião nada tem a ver com Política. Os profetas da Bíblia nunca pensaram assim. Mostraram que a atitude fundamental para adorar a Deus é lutar pacificamente pela justiça e pelo direito de todos. Jesus Cristo tomou como missão testemunhar o reino de Deus e nos ensinou a orar: Venha a nós o teu Reino. Isso significa que Deus tem um projeto para o mundo e esse projeto inclui a organização social e política da sociedade a partir da justiça eco-social e da Paz.

O próprio termo Igreja que o apóstolo Paulo usou para denominar as comunidades de discípulos e discípulas de Jesus era o nome das assembleias de cidadãos nas cidades do Império. Portanto, o próprio fato de se constituir como assembleias (Igrejas) revela que a vocação das comunidades cristãs é serem células de um mundo transformado. Por isso, para quem tem fé, participar do Grito dos Excluídos e Excluídas é não só ato de cidadania mas também de fé e espiritualidade. O próprio Jesus está nesse grito e nos chama recordando suas palavras: “Eu vim para que todos e todas tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10).

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

AMOR DESDE SEMPRE, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(04/09/2021)

 

     Parece ser uma tarefa difícil tomar a defesa do amor contra as ameaças dos preconceitos e discriminações. Afinal de contas, se dois parceiros decidem amar-se, nada poderá impedi-los, enquanto perdurar sua convergência de desejos e sentimentos. Isso seria uma verdade irrefutável, caso eles pudessem confinar seu amor no mundo dos sentimentos e das palavras. Porém o amor é sobretudo uma construção de vidas em parceria. Vidas humanas não se constroem à margem dos acontecimentos em sua volta. Amor algum é uma ilha.

     Ao contrário, somos enriquecidos pela experiência dos que, antes de nós, caminharam pelas suas trilhas. E no amor encontraram o valor único, em função do qual se nasce, se vive, se morre.

     Da antiga civilização grega herdamos a figura de EROS, símbolo do amor romântico, associado ao prazer, ao desejo, à paixão. Quem foi Eros? Segundo a narrativa de Platão, os deuses banqueteavam-se, celebrando o aniversário da deusa  AFRODITE. Então PORO, a abundância, embebedou-se de nectar e adormeceu no jardim. Foi aí que PÊNIA,  a penúria, aproveitando-se da situação, manteve com ele uma relação carnal. Desta união da abundância com a penúria nasceu EROS, esta figura de garoto travesso, ambivalente, sedutor e matreiro, atraente e ilusório, às vezes de venda nos olhos, armado de arco e flecha  pronto a "ferir" quem se oferece ao seu alvo. No entanto, AFRODITE desgostava-se do filho porque ele permanecia criança, não crescia. Consultou TEMIS, a prudência, e esta lhe fez ver o motivo: EROS vivia muito solitário, precisava de companhia, precisava de um irmão. AFRODITE deu à luz outro filho, ANTEROS, e, daí em diante, o pequeno deus passou a crescer e tornou-se o mais belo deus do Olimpo.

      A sabedoria dos gregos nos legou também a ciência dos quatro elementos planetários, terra, água, fogo, ar. Alguns de seus pensadores julgaram necessário acrescentar mais dois: o amor e o ódio; o primeiro como força de atração e o segundo como força de repulsão. Daí firmou-se a crença no amor cósmico, a saber, nada que tem vida sobrevive sem o impulso de uma energia amorosa. As plantas amariam a terra através das leis da vegetação. Os animais se amariam através dos instintos naturais. Até os corpos químicos participariam desta lei universal pela afinidade de uns com os outros.

     O Cristianismo abandonou esta concepção do amor cósmico. O amor é distintivo exclusivo do ser humano, único feito à imagem e semelhança do Criador. Nem por isso devemos descartar o legado luminoso da mitologia grega. O amor exige parceria e relação pessoal. Onde isso não se dá, a pessoa não está habilitada a crescer e aperfeiçoar-se. Na solidão ela perde suas energias vitais, apenas subsiste, apenas circula em volta de si, (como diz Raul Seixas), "esperando a morte chegar".

     A pandemia do coronavirus remontou-nos àquela visão bipolar do amor cósmico. Quem olhou  atento às reações emocionais de algumas pessoas logo após a vacinação, decerto vislumbrou algo de sobrenatural, uma espécie de êxtase, o ápice de um ato de amor gerado de muitos fatores: o trabalho silencioso e oculto dos cientistas, o serviço dos profissionais de saúde ali presentes e também o movimento da matéria química penetrando no corpo agraciado.

    Simultaneamente eclode a força oposta do caos. Ele acomete nas atitudes do mandatário da nação e seus asseclas, pregando a intolerância ideológica, o preconceito patológico, a xenofobia, acionando a energia repulsiva do ódio .

     É hora de acionar Princípio Unificador, pelo poder da Fé.  O Deus que esteve em quaisquer manifestações de amor, desde o princípio do mundo, que esteve em Eros, estará, infinitamente, em nós. E, neste momento, nos convoca para a ação.

-Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

domingo, 5 de setembro de 2021

BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA - PARA UM 7 DE SETEMBRO


Pe. Fabio Potiguar dos Santos


Num dia bem cedo, naquele momento onde não se é mais noite nem tão pouco ainda é dia, no tempo do antigo testamento, um grupo de jovens semitas subiram o monte para salmodiar. Um levava a harpa, outro a cítara, um ainda carregava a flauta e mais um, o pandeiro.  Eles cantavam o Salmo 85,10: “ A verdade e o amor se encontram; a justiça e a paz se beijam e abraçam”.

Centenas de anos depois um jovem, Deus jovem, Aquele que nos amou antes que amássemos a Ele (1 Jo 4,19), Aquele que tendo nos amado nos amou até o fim (Jo 13,1), falava “para multidão que ficava admirada com as palavras cheia de graça e de encanto que saiam de sua boca” (Lc 4,22) e sua “boca falava do que estava cheio o coração” (Cf Lc 6,45, por isso, “experimentaram a beleza da palavra de Deus” (Hb 6,5)  e Ele mesmo era a “Palavra que se fez carne e habitou entre nós”(Jo 1,14)e então disse no  Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados” (Mt 5, 6).

Aqui está, para mim, a fundamentação mística, ética, estética, teológica e pastoral do engajamento apaixonado dos cristãos com a promoção da dignidade humana, da justiça social, da democracia,  dos Direitos Humanos civis e políticos, assim como dos Direitos Humanos econômicos, sociais, culturais e ambientais  e do cuidado com a Casa Comum ( que é sujeita de direitos!)

Nós temos fome e sede de justiça porque comemos do Pão da Vida (Jo 6,51) e bebemos da Água da Vida que Ele nos dar (Jo 4, 14). Nós temos fome e sede de justiça porque comemos a verdadeira comida e bebemos a verdadeira bebida, sua carne, Ele feito carne, e bebemos o seu sangue (Jo 6,55).Nós temos fome e sede de justiça porque comendo da sua carne e bebendo do seu sangue, Ele permanece em nós e nós nele (Jo 6,56).

Nós temos fome e sede de justiça porque Ele nos disse tomando o pão, tomai e comei, isto é meu corpo. Tomai e bebei isto é o meu sangue (Mc 14,22-25). É porque tomamos e comemos desse pão, é porque tomamos e bebemos desse cálice que, ao tomarmos, ao mesmo tempo que somos saciados, ficamos, por causa dessa comida e bebida, famintos e sedentos dessa bem-aventurança. Quem luta pela justiça, é solidário, generoso e promove a partilha que Jesus nos ensinou na Multiplicação dos Pães, onde os gestos são o da Última Ceia: “ Jesus tomou os pães e, deu graças, partiu-os e deu aos seus discípulos...”(Jo 6,11).

Nós temos fome e sede de justiça porque em Mateus, capítulo cinco, versículo seis, ele nos chama de Bem-aventurados e, no capítulo vinte cinco, versículos trinta e quatro e trinta e cinco, Ele nos chama de Benditos. Foi por causa dessa sede e dessa fome que pudemos dar de comer a quem tinha fome e de beber a quem tinha sede tanto na dimensão mais emergencial e urgente, bem como, e principalmente na dimensão de mudanças estruturais.

A fundamentação da opção preferencial pelos pobres é cristológica. Para Eucaristia Jesus diz, “Isto é o meu corpo e sangue”. Para o pobre ele diz “ tive fome... foi a mim que o fizestes” (Mt 25,35.40). Aliás, o que é profecia no Antigo Testamento se torna cumprimento e realização no Novo. “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? “(Is 58,6-7)

O Catecismo da Igreja Católica (1397) nos recorda muito bem:  A Eucaristia compromete-nos com os pobres: Para receber, na verdade, o corpo e o sangue de Cristo entregue por nós, temos de reconhecer Cristo nos mais pobres, seus irmãos (Mt 25,40) Pode resultar, que mesmo tendo celebrado muitas Missas, que corramos o risco de ouvir lá no final: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo preparado o diabo e para os seus anjos. Pois tive fome e não me deste de comer, tive sede e não me deste de beber” (Mt 25, 41-42).

O que dirão, meu Deus, os que substituíram  a paz e o amor do seu Anúncio pelas agressões e o ódio, que trocaram a justiça pela exploração dos pobres e a devastação da natureza? Seria deus e não Deus? Seria jesus e não Jesus? Que deixam o Estado Democrático de Direito, burguês., por propostas totalitárias e ditatoriais? Aonde se fundamentam na Doutrina da Igreja? São meu irmãos e irmãos, e amo-os com a ternura de Cristo Jesus (Fl 1,8) .

Imagina Deus dizer para os que vão as missas : “Desprezo as vossas festas, e os incensos de vossas assembleias solenes não me exalam bom cheiro. E ainda que me ofereçais holocaustos, ofertas de alimentos, não me agradarei delas; nem atentarei para as ofertas de vossos animais gordos. Afasta de mim o barulho dos vossos cânticos; porque não ouvirei as melodias de vossas liras. Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e a justiça como torrente que não seca. (Am 5,21-24)

Tomemos os nossos instrumentos sonoros, aqueles que temos nas mãos ou no coração. Salmodiemos este encontro da verdade e do amor, que é o Cristo.

Vamos juntos com Dom Helder Camara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Paulo Evaristo, Dom José Maria Pires, Dom Fragoso, Padre Antônio Henrique,Irmã  Dorothy Stang, Padre Josimo, Margarida Maria Alves, Santo Dias, Dermi Azevedo e inumerável multidão de mulheres e de homens.

Vamos, “a marcha final vai ser linda de viver...”  como ouvimos emocionados e todo arrepiados  na voz poética e profética do Dom em Invocação à Mariama e, Milton Nascimento, ao fundo, numa canção negra antiga e inefável.

 Vamos!Vamos em frente motivados pela palavra de um bispo de Roma latino americano de Buenos Aires, Argentina, quando da sua Mensagem de Natal de 2020 a Cúria se referindo a Dom Helder,  “aquele santo bispo brasileiro”, disse: “Lembremo-nos que só conhece verdadeiramente a Deus quem acolhe o pobre que vem de baixo com a sua miséria e que, precisamente nestas vestes, é enviado do Alto; não podemos ver o rosto de Deus, mas podemos experimentá-lo ao olhar para nós quando honramos o rosto do próximo, do outro que nos ocupa com as suas necessidades. O rosto dos pobres. Os pobres são o centro do Evangelho. E recordo o que dizia aquele santo bispo brasileiro: «Quando me ocupo dos pobres, dizem de mim que sou um santo; mas, quando me pergunto e lhes pergunto: “Porquê tanta pobreza?”, chamam-me “comunista”».

Vamos! A opção pelos pobres e sua libertação é ordem de Deus.  No final da história aqueles que têm fome e sede de justiça ouvirão:

“Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer...: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?... E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.” (Mt 25,34-40).

Vamos. Cantemos e dancemos esse abraço da justiça e da paz, música e dança envolvente desses bem-aventurados, melhor, esse beijo, como no original hebraico, a língua daqueles rapazes que foram acordar a aurora.  

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife