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terça-feira, 14 de junho de 2022

A mística libertadora da Mãe-Terra


Marcelo Barros


 

Nestes dias, o sul do Brasil vive fortes ondas de frio. No Nordeste, o volume das chuvas foi excepcional. Nesta sociedade, marcada pelo descuido com os mais empobrecidos, provocou muitas mortes, inúmeras pessoas desabrigadas e grandes sofrimentos. Notícias internacionais revelam: “A revista Planet Lancet Planetary, publicação científica, revela o resultado da pesquisa de 30 pesquisadores internacionais: Em todo o mundo, a cada ano, a poluição mata nove milhões de pessoas. De 2021 para o final de março de 2022, em cada seis mortes, uma foi provocada pela destruição da natureza e pela contaminação do ar, da água ou do solo. Morrem três vezes mais pessoas, vítimas da poluição, do que de todas as outras doenças que afetam a humanidade. Em todos os continentes, esses fatores têm sido provocados pela industrialização forçada, pela explosão demográfica e urbanização descontrolada” (Le Monde, 5ª feira, 19/ 05/ 2022 p. 9).

É nesta realidade que, neste domingo, 05 de junho, a ONU celebra o Dia mundial do ambiente e cuidado com a Mãe Terra. Há 50 anos, nesta mesma data, em 1972, se inaugurava em Estocolmo, na Suécia, a 1ª Conferência Global sobre o Clima e Mudanças Climáticas.  Agora, 50 anos depois, novamente cientistas e ativistas da Ecologia se reunirão para tentar deter a marcha da destruição da vida. Os dados apontam que esta forma de organizar a sociedade e a economia já provocou a extinção de mais de 90% das espécies vivas no planeta Terra e ainda há algumas ameaçadas de extinção.  

É compreensível que muitas pessoas se perguntem o que podemos nós, cidadãos e cidadãs comuns fazer por esta causa. Antes de mais nada tomar consciência de que as mudanças climáticas e fenômenos como secas, inundações, terremotos e ondas de extremo calor ou de frio intenso têm sido provocados pela ação da sociedade. As centenas de pessoas que, na semana passada, morreram nas inundações da Zona da Mata de Pernambuco e Alagoas não foram em si vítimas da chuva e sim da sociedade que relega os pobres às áreas de risco, constrói bairros inteiros sem se preocupar com a rede de escoamento de água e dejetos líquidos e visando apenas o lucro da elite que, em geral, não se expõe nestas horas. Em anos de eleições, as pessoas comuns podem sim votarem em candidatos/as que se comprometam com uma agenda ecológica séria. No Brasil, todas as pessoas que votaram no atual governo e nos atuais congressistas são corresponsáveis da destruição da Amazônia, do Pantanal e de todos os biomas do nosso país.

Neste ano, coincidentemente, neste domingo 05 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente,  as comunidades cristãs de Igrejas históricas celebram a festa de Pentecostes que recorda que o Espírito Santo, ventania do amor divino, se espalha sobre todo o universo. O livro dos Atos dos Apóstolos conta que, no primeiro Pentecostes cristão, pessoas das mais diferentes nações  puderam escutar o que os apóstolos diziam, cada um em sua língua e cultura própria (Atos 2). Isso significa que o Espírito Divino se manifesta nas mais diversas formas, conforme as espiritualidades próprias de cada grupo e cada cultura. Pode ser descoberto no culto dos Encantados indígenas, dos Orixás afro-brasileiros e em todo cuidado com a Ecologia Integral. Onde há cuidado com a Vida e responsabilidade uns com os outros e com a natureza, aí se manifesta o sopro divino do Amor.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

A FAMÍLIA E A ALEGRIA DO AMOR

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            Volto de Roma, onde participei de um seminário na Universidade Gregoriana, pensado a propósito dos cinco anos da Exortação “Amoris Laetitia” e que aconteceu apenas este ano devido à pandemia. Organização impecável, alto nível de conferencistas e debatedores, frutíferas discussões. E o consenso de que bons tempos vão sendo vividos pelas famílias cristãs com a abertura que esse grande documento pontifício traz. 

            A perspectiva não é a casuística estreita e legalista que fez muitos casais e famílias sofrerem, dilacerados entre a fidelidade à sua fé e sua pertença eclesial e os apelos novos e surpreendentes que a vida lhes trazia. É, ao contrário, a porta aberta e luminosa da alegria.  A alegria do amor, única verdadeira. Assim quer o Papa Francisco que seja vista e concebida a família: lugar de vivência da alegria do amor. 

            A família é inicialmente lugar de formação a uma consciência crítica.  Trata-se do primeiro fórum onde as pessoas aprendem a ler e avaliar o mundo que é sua casa.  Esse fórum pedagógico é formado de pessoas que se ajudam umas às outras a tomar consciência dos desafios do mundo em que habitam para discerni-los e enfrentá-los com alegria.  Isso é verdade no que diz respeito aos esposos, mas também de maneira especial quando se trata da formação das crianças.  No número 261 da Amoris Laetitia, o Papa Francisco afirma que para formar moralmente uma criança é preciso ajudar a criar em seu interior, com amor, processos de maturação da liberdade de formação na cultura de uma autêntica autonomia. 

            Essa liberdade e autonomia levam forçosamente a que a criança possa ser e situar-se não apenas protegido e ao abrigo de todo percalço no seio da família, mas exposto aos problemas de seu meio, alguns muito duros, conflitivos e dolorosos.  Porém, aí em meio a esses desafios estará sempre acompanhada, sem ser dominada ou que lhe seja imposta a leitura feita por outros.  Ao revés, será instada e acompanhada para avaliar e discernir o que se lhe apresenta da realidade, a fim de poder tomar atitudes e decisões. 

            A tomada de consciência sobre todas as questões que a realidade lhe traz ao encontro proporciona aos jovens e adultos que formam a comunidade familiar a perplexidade diante da velocidade com a qual as coisas mudam, caracterizando uma mudança de época.  E essa constatação, que aflora à consciência, leva ao espírito que atravessa do começo ao fim o documento papal: não se pode, no que diz respeito às questões de moral, simplesmente repetir fórmulas antigas que não repercutem mais nas pessoas e não fazem nem mesmo sentido para as mesmas. 

            A exortação Amoris Laetitia concebe – em profunda sintonia com o que diz constantemente o Papa Francisco – a vida moral baseada essencialmente nos exemplos e  testemunhos.  Assim, a teologia moral seria como uma pedagogia, tecida de numerosos exemplos, nos quais os casais e as famílias possam reler sua própria experiência e dela aprender.  E assim crescer como comunidade.  Se damos crédito ao que diz Paulo VI no documento Evangelii Nuntiandi – que as pessoas hoje em dia escutam mais as testemunhas que os mestres – estes exemplos são cruciais para a credibilidade da família enquanto instituição. 

            Na beleza desse desafio, a sexualidade deve ser vivida enquanto dinamismo constitutivo e essencial da vida e ser assumida na dinâmica familiar e na vida de fé em um sentido mais largo.  Um verdadeiro crescimento integrado das e nas famílias não pode perder de vista que a sexualidade hoje apresenta aspectos muito diversos aos do passado, com consequências vitais igualmente diversas.  Os distintos modelos de família revelam essa comunidade humana como multicêntrica e configurada em modelos muito diversos, que não podem ser ignorados.  

            Segundo a lógica do Evangelho, a família não existe para si mesma nem pode existir autocentrada e voltada para a consecução de sua própria virtude e excelência. Isso estabeleceria uma dicotomia malsã entre a vida privada do lar e a dimensão pública do mundo e da sociedade. A família existe no mundo e para o mundo.  E é pela escuta das necessidades e prioridades deste mundo e desta sociedade que deve desenvolver sua identidade e prioridades pedagógicas e ativas.  A proposta e o apelo do Evangelho dirigem-se aos que formam uma família no sentido de que ela não se autocompreenda como fim em si mesma, mas sim como uma comunidade que existe para que o mundo seja mais justo e mais humano. 

            A mensagem cristã não é feita para seres perfeitos, mas para seres humanos com imperfeições, ambiguidades e pecados.  A Amoris Laetitia relembra à Igreja que ela deve ser capaz de dialogar com todas as pessoas, mesmo as que estariam em situação irregular perante a Igreja que amam e à qual querem continuar a pertencer. É enquanto seres criados com um corpo sexuado que a salvação nos é proposta.  A Igreja não quer ser juíza implacável do modo pelo qual as pessoas administram e vivem sua sexualidade, mas apresentar-lhes a alegria do amor.  Assim, a sexualidade será fonte de alegria e não de repressão, tristeza, violência, opressão. A humanização da sexualidade seria um objetivo a perseguir com a ajuda da graça. 

            Ao término do seminário, em encontro com o Papa Francisco, pudemos ouvir de sua boca a confirmação do vivido e refletido naqueles dias: é preciso saber buscar as fontes e a primeira raiz sem andar para trás.  Anda-se para a frente, não para trás.  Andar para trás não é cristão.  Conciliar a fidelidade às fontes mais profundas e originárias do amor e vivê-lo caminhando para a frente é o desafio posto às famílias que hoje desejam viver a alegria desse amor. 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Teologia Latino-Americana: raízes e ramos” (Editora Vozes).

 

domingo, 12 de junho de 2022

A DOR QUE MINA

 

Marcelo Mário de Melo



Águas de desigualdade 

dó 

     minam

                 dor

nas barreiras 

que soterram corpos 

nos invernos da periferia

$ob o olhar 

do $enhor $apien$.

sábado, 11 de junho de 2022

Civilização x Barbárie

 Prof. Martinho Condini


 

Caras amigas e amigos estamos há quatro meses das eleições mais importante da história da nossa república, porque, não vamos escolher apenas o próximo presidente da república, mas se queremos garantir a manutenção da democracia reconquistada com tanta luta há trinta e oito anos, bem como o Estado de Direito ou a continuidade de desgoverno necropolítico e abjeto.

Sem dúvida avançamos positivamente a partir da promulgação da constituição de 1988 até hoje, em aspectos sociais e no âmbito das políticas públicas e conquistas de direitos. Esse avanço ocorreu em alguns governos a partir da redemocratização, entre os anos de 1994 a 2016. Mas também é verdade que há muita coisa a fazer e atualmente refazer em nosso país.

Nos últimos seis anos entramos numa espiral de retrocesso e ignorância, de causar inveja ao período medieval, onde uma  gentalha desqualificada  muito se orgulha do pensamento e das práticas desse ogro, nojento e indigesto presidente.

Ele simboliza e representa o que há de pior no ser humano. É inconcebível alguém ainda apoiar e defender esse desgoverno, sem compromisso algum com a população brasileira. Este desgoverno nos envergonha pelo auto grau de incapacidade e canalhice. E ainda conta com a “Trupe dos horrores”, composta pelos pastores neopentecostais inescrupulosos, da bancada da bíblia, com os milicianos da pior espécie (se é que há de boa espécie), da bancada da bala e os representantes do agronegócio do mal (se é que há o do bem), da bancada do boi.

E para completar, esse desgoverno tem o apoio dos “vagabundos mor” da nação brasileira, os militares das forças armadas, que diante de todos os absurdos falados e cometidos por esse “capetão da reserva”, que ainda está presidente, se calam em troca de vultuosos soldos para lá de generosos.

E agora, em pleno 2022 estamos diante desse desgoverno neofascista,  que a quatro anos aterroriza o cotidiano brasileiro. Em sete de setembro de 2021 o inominável presidente tentou dar um golpe com o apoio do seu gado acéfalo, o resultado foi um fiasco como todos nós sabemos. Mas de lá para cá as asneiras continuaram a ser cometidas por esse desgoverno.

Diante desse caótico quadro que nos aflige, penso que é chegada a hora de todas as pessoas, sensatas, lúcidas, civilizadas e que gostam do seu país, se unirem em prol da decência, do respeito, da dignidade, da democracia e do esperançar de que podemos novamente retomar a soberania do nosso país, por meio de um projeto de governo que priorize o emprego, a saúde, a educação, a ciência, a cultura e a vida.

Para isso é necessário que elejamos Lula Presidente no primeiro turno, porque a luta é da civilização contra a barbárie.       

Enfim, para que isso ocorra sigamos as palavras do educador Paulo Freire:  É preciso unir os divergentes, para melhor enfrentar os antagônicos. ”

Boa sorte e até breve, amigas e amigos.