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terça-feira, 14 de junho de 2022

A mística libertadora da Mãe-Terra


Marcelo Barros


 

Nestes dias, o sul do Brasil vive fortes ondas de frio. No Nordeste, o volume das chuvas foi excepcional. Nesta sociedade, marcada pelo descuido com os mais empobrecidos, provocou muitas mortes, inúmeras pessoas desabrigadas e grandes sofrimentos. Notícias internacionais revelam: “A revista Planet Lancet Planetary, publicação científica, revela o resultado da pesquisa de 30 pesquisadores internacionais: Em todo o mundo, a cada ano, a poluição mata nove milhões de pessoas. De 2021 para o final de março de 2022, em cada seis mortes, uma foi provocada pela destruição da natureza e pela contaminação do ar, da água ou do solo. Morrem três vezes mais pessoas, vítimas da poluição, do que de todas as outras doenças que afetam a humanidade. Em todos os continentes, esses fatores têm sido provocados pela industrialização forçada, pela explosão demográfica e urbanização descontrolada” (Le Monde, 5ª feira, 19/ 05/ 2022 p. 9).

É nesta realidade que, neste domingo, 05 de junho, a ONU celebra o Dia mundial do ambiente e cuidado com a Mãe Terra. Há 50 anos, nesta mesma data, em 1972, se inaugurava em Estocolmo, na Suécia, a 1ª Conferência Global sobre o Clima e Mudanças Climáticas.  Agora, 50 anos depois, novamente cientistas e ativistas da Ecologia se reunirão para tentar deter a marcha da destruição da vida. Os dados apontam que esta forma de organizar a sociedade e a economia já provocou a extinção de mais de 90% das espécies vivas no planeta Terra e ainda há algumas ameaçadas de extinção.  

É compreensível que muitas pessoas se perguntem o que podemos nós, cidadãos e cidadãs comuns fazer por esta causa. Antes de mais nada tomar consciência de que as mudanças climáticas e fenômenos como secas, inundações, terremotos e ondas de extremo calor ou de frio intenso têm sido provocados pela ação da sociedade. As centenas de pessoas que, na semana passada, morreram nas inundações da Zona da Mata de Pernambuco e Alagoas não foram em si vítimas da chuva e sim da sociedade que relega os pobres às áreas de risco, constrói bairros inteiros sem se preocupar com a rede de escoamento de água e dejetos líquidos e visando apenas o lucro da elite que, em geral, não se expõe nestas horas. Em anos de eleições, as pessoas comuns podem sim votarem em candidatos/as que se comprometam com uma agenda ecológica séria. No Brasil, todas as pessoas que votaram no atual governo e nos atuais congressistas são corresponsáveis da destruição da Amazônia, do Pantanal e de todos os biomas do nosso país.

Neste ano, coincidentemente, neste domingo 05 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente,  as comunidades cristãs de Igrejas históricas celebram a festa de Pentecostes que recorda que o Espírito Santo, ventania do amor divino, se espalha sobre todo o universo. O livro dos Atos dos Apóstolos conta que, no primeiro Pentecostes cristão, pessoas das mais diferentes nações  puderam escutar o que os apóstolos diziam, cada um em sua língua e cultura própria (Atos 2). Isso significa que o Espírito Divino se manifesta nas mais diversas formas, conforme as espiritualidades próprias de cada grupo e cada cultura. Pode ser descoberto no culto dos Encantados indígenas, dos Orixás afro-brasileiros e em todo cuidado com a Ecologia Integral. Onde há cuidado com a Vida e responsabilidade uns com os outros e com a natureza, aí se manifesta o sopro divino do Amor.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

COVID 19 - QUADRAGÉSIMA TERCEIRA REFLEXÃO MÍSTICA E POESIA (5) EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


Por  FREI ALOÍSIO FRAGOSO 

     Cumpre-se, nesta REFLEXÃO, o acordo estabelecido anteriormente, volta à cena o poeta místico Pe. Daniel Lima. Uma figura polêmica para nossa curiosidade de penetrar o mistério da natureza humana. Como conciliar sua fuga física da realidade (4 décadas de reclusão) com sua plena inserção poético-mística na mesma  realidade?

     Ao longo da História, grandes místicos foram também grandes combatentes. Um exemplo clássico é o de Sta. Teresa D'Ávila. Ao ler suas cartas autobiográficos, tem-se a impressão de duas mulheres em uma só: a que era elevada aos mais altos êxtases, a fenômenos transcendentais que até hoje os estudiosos procuram explicar, e a outra, dedicada por inteiro a renovar sua Ordem Religiosa, se exaurindo dia a dia em tarefas sem fim de construir novas casas para suas Irmãs, de garantir-lhes a subsistência, de obter os recursos financeiros indispensáveis, de enfrentar mil oposições. Nela o tempo da ação superava de muito o da contemplação.  No entanto, era tamanha a intensidade mística de que estava impregnada, que o tempo cronológico não contava. Ela vivia misticamente.

     No caso do Pe. Daniel, o enigma está na ausência deste equilíbrio. Ele mesmo se reconhece preguiçoso ("tenho doze guarda-chuvas, vinte pares de chinelos, cinco mil e oitenta livros, medo e preguiça demais") e culpado ("eu pecador, me confesso aos homens do meu tempo...fiz versos fúteis... não quis sujar as mãos ....fingi não ver o rosto dos que sofrem...).

     Os que se derem ao trabalho de ler o conjunto  de seus poemas talvez encontrem a resposta para este enigma, para esta paralisia do corpo em contraste  com os vôos da mente. Isso não elimina a dimensão mística  de seus poemas.  De onde se encontra, ele vê, lê e interpreta a realidade com a visão de quem penetra na essência e revela o código secreto das coisas.

     Há um outro poeta, maior do que ele, que decerto lhe foi uma fonte de inspiração, Fernando Pessoa: "para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo ou do meu destino... " Na verdade, ele sentia-se imobilizado frente à necessidade de viajar e expressava o desejo de "adiar esta viagem", de "adiar todas as viagens". Contudo, ele transmite a beleza essencial das coisas, que quase ninguém enxerga quando está viajando. Como, por ex. nestes versos: "O Tejo  é mais belo do que o rio que corre na minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo do que o rio que corre na minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre na minha aldeia". Isso é também mística.

    Agora ouçamos o Pe. Daniel:

 

Sinto saudade hoje

sinto saudade sempre

da fantástica viagem

que pelo mundo fiz

faz muito tempo.

Ontem.

 

A maravilhosa viagem

que continuo fazendo

em sonho, não dormindo,

mas em sonho real

de figuras e formas consistentes.

Viagem mais real que a própria vida

banal e cotidiana,

a falsa vida real do dia a dia.

E no exercício feliz dessa saudade

nada invento. Apenas reencontro.

(....)

Sinto saudades ontem, agora,

sinto saudade sempre

do mar Jônico, do Egeu,

do Adriático e do Tirreno.

Saudades do mar Báltico,

do Cáspio e do mar Negro.

Nunca os vi a esses mares

e por isso os vi sempre

e bem melhores,

que a saudade maior,

a saudade mais pura e verdadeira,

é a que nasce e rebenta dos desejos,

dos impulsos jamais efetivados.

(....)

E, pois, sinto mediterrâneas saudades

do Mediterrâneo

e latinas saudades da margem esquerda do Sena

e da margem direita

também:

vivi, sofri, amei, odiei as duas.

(.....)

Saudades de um mar não sei de onde,

um mar de catálogo de propaganda de agências de viagem.

Mas um mar que é meu

e onde navego em meu sonho;

e ancoro em plena praça de Florença

o meu navio,

o navio de minha fantástica viagem.

(....)

E a saudade que sinto de Atenas que sempre revisito.

Sinto na boca um sabor esquisito

de suas azeitonas e das melancias.

(Sócrates passa por mim e diz em grego: "bom dia").

Eu não sou um turista

que passeia curioso

e logo vai embora

e logo esquece

(e do que viu nas suas viagens

só lhe restam as anedotas banais

e as fotografias)

Sou um caminhante

que me torno o mundo

por onde caminho.

Integro-me à paisagem.

Sou os homens, as mulheres,

as praças e os jardins,

os museus, as montanhas,

as artes, a beleza,

a estranheza, a diferença

que em tudo vejo e vivo.

Sou o país que se esconde e o povo que se mostra.

Sou Florença e Viena,

sou Atenas.

Eu sou a Itália inteira.

 

E é por isto

que a saudade que sinto

eternamente

não é a da viagem em si,

é de mim mesmo.


FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


domingo, 14 de junho de 2020

COVID 19 + 14/06/2020 - QUADRAGÉSIMA REFLEXÃO MÍSTICA E POESIA (4) EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


Por Frei Aloísio Fragoso

 

     Neste jogo de alternância entre mim e o Pe. Daniel (este, postumamente), agora é a vez dele. Sinto-me irmanado com as emoções que a sua poesia transmite. Não digo a mesma coisa quanto ao seu estilo de vida. Quarenta anos de auto-enclausuramento seriam algo inconcebível para mim. Só por conta deste isolamento compulsório da quarentena, já estou sentindo comichão na planta dos pés e na alma.  Contudo, não vejo na sua decisão um processo de alienação e fuga; vejo, antes, uma misteriosa experiência de ascetismo. Não sei como  prová-la, apenas sinto-a. Do que ele escreve emerge uma mística que nos proíbe de qualquer pré-julgamento. Só vim a compreender isso (ainda em parte), após me convencer de que seus poemas são autobiográficos. Eles são como gritos de um "prisioneiro" que perdeu a chave da porta de saída.

     Sinto isso quando ele pede perdão a Deus pelos pecados que "gostaria de ter cometido" e só não o fez por medo. Ou quando confessa sentir saudade do tempo em que "quis ser um São Francisco de Assis". E agora, ao contemplar a figura do santo, esculpida em barro, sobre sua escrivaninha, vê seu sonho reduzido a esta imagem, a esta inércia. Ou ainda quando celebra seu sexagésimo oitavo aniversário. Compara-o a um sonho que o transporta a 68 anos atrás, criança, e vê pássaros cantando na árvore em frente da casa. A seguir, devolve-o a 68 depois, agora, e ele vê novamente pássaros cantando na mesma árvore. E conclui com uma belíssima profundeza mística: "a vida passa e o canto continua". Porém,  não permanece só nele o tempo todo. Em outro poema, adverte-nos para não confundirmos as cores da rosa, o perfume da rosa, com a própria e verdadeira rosa, e assim, corrermos o risco de nos sacrificar por ela, inutilmente.

     Quem não se sente um pouco biografado nestes poemas? Esta é a arte do bom poeta, "sentir o que todos sentem e dizer o que ninguém diz".

     Desta vez, vamos escutá-lo cumprindo um grande Ato Penitencial, colocando-se entre a humilde confissão dos pecados e a misericórdia de Deus. A consciência doída de viver em contradição é a sua penitência.

         ______

 

Pedi perdão a Deus

dos pecados possíveis,

daqueles bons pecados

que só o medo e a vergonha

Me impediram de torná-los reais.

E Deus, lá do infinito abismo

de sua compreensão do mistério do homem,

Sorriu.

        _____

 

Eu, pecador, me confesso

aos homens de meu tempo.

Fiz versos fúteis,

olhei a vida de esguelha,

fiz que não vi,

não quis sujar as mãos,

então fiz versos sociais

e protestei na sala-de- jantar, entre amigos, baixinho.

retoquei-me no espelho,

fingi não ver os rostos

dos que sofrem,

fiz altas filosofias sobre

a dor do mundo,

fui cisne ornamental de

lago parnasiano e azul.

Resta-me agora o consolo, a vergonha de pedir perdão aos homens de meu tempo.

Eu, pecador confesso

e descarado.

        ______'

 

Não O traí,

não O vendi.

não O entreguei à irrisão.

Minhas mãos não lavei,

estou livre de omissão.

Sou o santo do não.

E assim, ao ver Jesus,

Sei que estive presente à crucifixão.

Sinto que sou a Via-Sacra  inteira,

a coroa de espinhos,

o manto de irrisão.

A verdade neguei,

neguei a luz.

Não me enforquei por medo.

Sou os cravos e a cruz.

        ______

 

Sufocarei se não gritar agora.

Deixa, Senhor, que eu blasfeme,

na danação desta hora.

Preciso ser maldito

para sentir-me salvo.

Se permitires que eu blasfeme agora,

verás, Senhor, que esta blasfêmia é apenas

um jeito de oração

de  um amor magoado.

        ______

 

Quando abrires as tuas mãos

(faze-o antes que a tarde finde)

verás que há sangue nelas,

sangue que as mancha e te mancha,

homem que te julgas pacífico e inocente.

Quando abrires as mãos no fim da tarde,

verás que há sangue nelas

e te espantarás porque nada fizeste,

mas há sangue em tuas mãos

porque nada fizeste.

E em vão te esconderás

da voz que irá te interpelar

em teu silêncio.


FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


terça-feira, 9 de junho de 2020

COVID 19 - TRIGÉSIMA OITAVA REFLEXÃO - MÍSTICA E POESIA (3) EM TEMPOS DE CORONAVIRUS



Por Frei Aloísio Fragoso

     Nesta REFLEXÃO voltamos a partilhar idéias do Pe. Daniel Lima.  Talvez eu escandalize algumas pessoas, ao revelar os nomes de três poetas-gurus meus: Carlos Drumond de Andrade, Fernando Pessoa e o Pe. Daniel Lima. Os dois primeiros, ateus, e o terceiro, um religioso que se conflitava com Deus ("Quando Deus acordar, O que vai ser de mim, Sonho de Deus dormindo. Dorme, Deus, não acordes. Que teu sono é o meu ser E Tu, o meu sonho"). Os três me estimulam a procurar Deus pelos caminhos da Fé. Drumond e Pessoa, negando falsas imagens de Deus, me ajudam a derrubar os ídolos infiltrados em minha alma, querendo passar por deuses. Já o Pe. Daniel me adverte: não te enganes!  a Via do Divino é pedregosa!

     Por outra parte, cada pessoa tem o direito de escolher seus caminhos próprios, que são múltiplos, diferentes e até conflitantes. Só gostaria de lembrar uma coisa: pode iludir-se quem prefere uma estrada larga, atapetada de flores, sem conflitos, sem desconforto, sem contestações. Todos os grandes místicos aprenderam e ensinaram esta lição: Deus é simples, mas não é fácil ("sem o tempero da loucura, todo amor é insípido" Sta. Teresa D'Ávila).

     Onde podemos encontrar um ponto de unidade? Em Jesus, certamente! Ele disse de si mesmo: "aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". E disse também: "Eu não vim ao mundo trazer a paz e sim a espada". "Vim trazer fogo e quero que este fogo acenda".

     Fora do campo da Fé, a História comprova esta mesma dialética. Conhecemos uns versos suaves de Gonçalves Dias, recitados por gerações e gerações de alunos das escolas brasileiras e que se tornou uma espécie de elo emocional da unidade nacional: "Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá. As aves que aqui gorgeiam Não gorgeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores. Nossos bosques tem mais vida, Nossas vidas mais amores" (....). Enquanto isso, o poeta Castro Alves compôs os incômodos versos de "Navio Negreiro", que poucos conhecem e pouquíssimos lêem: "Senhor Deus dos desgraçados, Dizei-me Vós, Senhor Deus,  Se é loucura ou se é verdade Tanto horror perante os céus!" (....)

     O poema de Gonçalves Dias não contribuiu em nada para mudar a estrutura social escravizante em 500 anos de história do Brasil. Já o poema de Castro Alves teve influência decisiva no movimento que forçou a Abolição da Escravatura. 

     Pois bem, de espírito aberto, mergulhemos nestes textos do Pe. Daniel e descubramos como o seu sentimento de impotência, por vezes aflitivo, esconde a utopia da esperança, que ele entrega aos que virão depois, a nós:

Deitei-me, dormi
sessenta e oito anos atrás,
criança quase ainda.
Os pássaros cantavam na árvore em frente.
Acordei-me,
sessenta e oito anos depois.
Eu era outro.
Mas os pássaros ainda cantavam na árvore em frente.
A vida passa
e o canto continua.
       _____

A rosa nem sempre é rosa
tem cuidado!
Às vezes, são as cores da rosa,
às vezes, seu perfume,
sua forma, seu jeito,
sua recordação
num velho álbum de lembranças.
Mas nada disto é a rosa verdadeira
a rosa que procuras.
Tem cuidado!
Poderás morrer,
não pela rosa total, única e pura,
mas por seu desenho
e os restos de sua forma
e seu esvaído perfume.
E morrerás em vão.
       _______

Tive inveja dos santos.
Menino, desejei muito
ser Francisco de Assis com pássaros nos ombros
e a pobreza na alma como noiva.
Hoje,
ao olhar a imagem de Francisco,
sinto uma enorme tristeza, 
sinto saudades de mim,
do menino de outrora.
Perdi-me nos caminhos.
Não mais sinto desejo 
de ser um São Francisco,
assim santo, assim pobre.
Sinto somente o vaidoso desejo 
de ser a sua imagem.

sábado, 6 de junho de 2020

COVID - 19 - TRIGÉSIMA SEXTA REFLEXÃO MÍSTICA E POESIA (2) EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


Por Frei Aloísio Fragoso

     Volto ao propósito de alternar REFLEXÕES de minha autoria com as do Pe. Daniel Lima, poeta místico que conheci tardiamente e logo coloquei na lista dos meus preferidos. Volto a lembrar o que narrei antes, que ele vivenciou uma situação paradoxal, comum a muita gente, no entanto ele o fez de maneira tão intensa que a transformou num jogo de incompatibilidades. Era um bom filósofo, mas, vez por outra, mostrava sua raiva de filósofos e filosofia. Voluntariamente trancou-se em seu apartamento, durante mais de quarenta anos, não se dando licença de sair nem, aos outros, de entrar. Enquanto isso, culpava-se, chamando-se de preguiçoso. Vamos conhecer alguns de seus poemas, que revelam justamente esta tensão de alguém que, tendo aprisionado seu ser exterior, ansiava pela liberdade de voar como os pássaros. Aliás, pássaros eram uma de suas imagens literárias prediletas, bem como voar, um dos verbos mais conjugados em seus poemas.

    Pe. Daniel enfrentou o drama de quem possui excesso de clarividência, olha a realidade com as lentes do futuro, muito além do seu tempo, e vislumbra as suas sequelas. Por isso sofre mais. Na monotonia do seu retiro, ele ficava a remover as cinzas, na esperança de que, por baixo, houvesse um vulcão. Se vivesse ainda, veria como, de fato, havia um vulcão embaixo daquelas cinzas, e que ele, sem o saber, ajudou-nos a enfrentar suas larvas. Eu mesmo tenho me alimentado e fortalecido com as  idéias dele:

 

"QUIS ser um santo

sábio ou vagabundo.

Ir até os confins das estradas

de dentro ou de fora.

Só cheguei a ser isto:

um pássaro que enlouqueceu

com o próprio canto.

          ______

 

SINTO-ME improvável,

um pássaro submarino.

Essa alegria madura

que voa nos ares do meu céu pessoal

faz-me sentir que dorme em minhas vigílias

um anjo impossível

primo de satanás

e do arcanjo Gabriel.

        ______

 

O CÉU de todos não basta.

A terra só de alguns

impede o céu de todos.

Pássaros do mundo inteiro, uni-vos.

O espaço é vosso e sem limites.

Voai, que o céu surgirá de vossas asas

e o vôo é livre e a asa é livre.

E o vôo cria a asa e a liberdade.

        _____

 

ANTES, vivia na certeza,

como uma águia aprisionada na gaiola.

A dúvida me libertou,

deixando-me voar no espaço livre,

não mais certo de nada,

senão da importância do vôo.

           ______

 

OS PÁSSAROS são sábios.

Não discutem: cantam.

Cantar é a maneira mais pura de entender a vida.

A coruja doutorou-se em filosofia.

Por isso

a coruja não canta.

        ______

 

SENHOR, livra-me

dessa bondade tímida e vacilante

por sob a qual se esconde

a minha insuportável estupidez.

 

E de vez apaga com teu sopro

essa trêmula luz

que arde e não ilumina

e apenas me perturba a nitidez da visão.

 

Sopra-me tempestades que me agitem

e arrebatem de vez

esta parda e morna serenidade

atrás da qual se oculta

a cansativa mediocridade

do meu amofinado coração.

 

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

POESIA E MÍSTICA EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

por Frei Aloísio Fragoso

      Quero apresentar-lhe o Pe. Daniel Lima. Depois de conhecê-lo melhor, através de seus poemas, compreendi o sentido real da expressão "ilustre desconhecido". Viveu até 2012, 95 anos, dos quais a metade, enclausurado voluntariamente, em sua residência, nesta cidade de Recife. Fez poemas a vida inteira e nunca permitiu qualquer divulgação. Passados os 90 de idade, por artimanha de alguns amigos, sua obra finalmente foi publicada em livro. Logo na primeira edição, ganhou o prêmio nacional Alphonsus Guimarães, o melhor livro de poesias publicado no Brasil, aquele ano. Nestes tantos anos, consegui visitá-lo três vezes e, de cada visita, saí com a mesma impressão: ele era um mistério em forma humana.

     Quem lê seus poemas começa a desvendar este mistério.

     Segundo um de seus amigos mais próximos, Zeferino Rocha, "a obra poética de Daniel Lima aborda temas existenciais cuja atualidade é perene. Entre estes temas tem lugar de destaque: a dialética da vida e da morte, a fugacidade do tempo, o valor único dos instantes, o homem como ser em viagem, esperança e desespero, presença e ausência, a dialética da luz e das sombras, o problema da liberdade e da escolha, o misterioso mundo do silêncio".

     A simples menção dos assuntos, que ele aborda dialeticamente, nos indica a sua atualidade para o momento pandêmico que estamos enfrentando.

     Por isso gostaria de alternar com ele algumas das nossas próximas REFLEXÕES. Comecemos por um poema que expressa o conflito maior que ele viveu, a decisão de viver enclausurado por mais de 40 anos enquanto  versificava  a utopia de correr mundo em busca do sentido da vida.

 

SÚPLICA AOS SANTOS ANDEJOS

 

Abraão, que andaste terras,

Sem cansaço, sem

queixumes,

Patrono dos vagabundos,

Da fé tão pura, tão limpa,

Que nunca se questiona

Nem se faz filosofia.

          (.....)

Pela fé sempre levado

Pra diante para cima,

Céu bem claro ou noite escura,

Abraão, meu santo andejo,

Que, se por fora eu não ande,

Por dentro eu não pare nunca.

          (....)

E tu, José Carpinteiro,

Que eu chamo de S. José,

Tantas viagens fizeste

Com o Deus-Menino e Maria,

Eles, tu, mais um jumento,

E a fé que te sustentava.

          (....)

José, carpinteiro santo,

Que nessa comprida fuga

Por anjo em sonho assoprada,

Salvando a Virgem e o Menino

Salvastes a salvação,

Te beijo o sapato e os pés.

 

E tu, Francisco de Assis,

Árvore, peixe, passarinho,

Luz do fogo, água do mar,

Tu, Chico dos meus amores,

Que mendigo te fizeste,

Santo e malandro de Deus;

           (....)

Roga por mim, viajeiro,

Que não sei largar bagagem:

Tenho doze guarda-chuvas,

Vinte pares de chinelos,

Cinco mil e oitenta livros,

Medo e preguiça demais!

 

Vós, ó santos peregrinos,

Andejos  que em vida fostes,

Por livre escolha ou destino,

Mas fiéis à vocação

(Que andar é coisa divina

Parar é que é perdição);

 

Andejas  fazei-me as pernas,

O coração e os sapatos!

Tirai-me esta sonolência!

Sacudi-me esta preguiça!

Calçai-me vossas sandálias

De peregrinos fiéis!

 

Pés dos santos vagabundos,

Vagabundai os meus pés!

     Pé. Daniel Lima


FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


quinta-feira, 14 de maio de 2020

A MÍSTICA DE JESUS


por Frei Betto

        Por mais que as escolas espirituais do Ocidente antigo tenham a ensinar, bem como as obras dos místicos cristãos, é no Evangelho que se encontram os fundamentos da mística cristã. A vida de Jesus não busca a reclusão dos monges essênios e nem se pauta pela prática penitencial de João Batista (Mateus 9, 14‑15). Ela se engaja na conflitividade da Palestina de seu tempo, onde não havia distinção entre religião e política. O Filho revela o Pai andando pelos caminhos; seguido por após­tolos, discípulos e mulheres; acolhendo pobres, famintos, doen­tes e pecadores; desmascarando escribas e fariseus; cercado por multidões; fazendo‑se presença incômoda nas grandes festas em Jerusalém; perseguido e assassinado na cruz como prisioneiro político.

Dentro dessa atividade pastoral, com fortes reper­cussões políticas, Jesus revela‑se místico, ou seja, como alguém que vive apaixonadamente a intimidade amorosa com o Pai, a quem ele trata por Abba ‑ termo aramaico que exprime muita familiaridade, como o nosso "papai" (Marcos 14, 36). Seu encontro com o Pai não exige o afastamento da polis, mas sim abertura de coração à vontade divina.

 Fazer a vontade de Deus é a primeira disposição espiritual do místico. Essa von­tade não se descobre pela correta moralidade ou pela aceitação racional das verdades de fé. Antes de ser uma conquista ética, a santidade é dom divino. Portanto, nas pegadas de Jesus, o místico centra sua vida na experiência teologal; sua conduta e crença derivam dessa relação de amor com Deus. Teresa de Ávila dirá isso com outras palavras: "A supre­ma perfeição não consiste, obviamente, em alegrias interiores, nem em grandes arroubos, visões ou espírito de profecia, mas sim em adequar nossa vontade à de Deus" (Fundações, 5, 10).
        A oração é o hábito que nutre a mística. Jesus reservava momentos exclusivos de acolhi­mento do Pai em seu espírito. "Permanecia retirado em lugares desertos e orava" (Lucas 5, 16). "Ele foi à montanha para orar e passou a noite inteira em oração a Deus" (Lucas 6, 12). Para aprofundar a fé, a oração é tão importante quanto o alimento para nutrir o corpo ou o sono para recuperar energias. No entanto, até no ativismo das grandes cidades os cristãos encontram tempo para comer e dormir ‑ se o mesmo não ocorre com a oração não é apenas por culpa deles. No Ocidente, perderam-se os vínculos que nos ligavam às grandes tradições espirituais e somos herdeiros de um cristianismo racio­nalista, fundado no aprendizado de fórmulas ortodoxas, bem como pragmático, voltado à promoção de obras ou ao desem­penho imediato de tarefas. A dimensão de gratuidade ‑ essen­cial em qualquer relação de amor ‑ fica relegada a momentos formais, rituais, de celebrações, sem dúvida importantes, mas insuficientes para fazer da disciplina da oração um hábito que permita penetrar os sucessivos estágios da experiência mística.

Ao contrário de certas escolas pagãs, a mística cristã não visa a oferecer uma técnica que leve o crente às núpcias espi­rituais com a divindade ‑ embora isso possa ocorrer como dom misericordioso de Deus. Antes, ela busca ensinar‑nos a amar ‑ assim como Deus ama ‑ as pessoas com as quais convivemos, nossos parentes, a comunidade com a qual estamos comprome­tidos em nossa pastoral, o povo a que pertencemos e, especial­mente, os pobres, imagens vivas de Cristo. "Ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus per­manece em nós e o seu amor em nós é perfeito" (1 João 4, 12).
        O amor de Jesus a seu povo é proporcional à sua fidelidade a Deus. Por isso, ele aceita o cálice: não retém para si a sua vida, porque entende que o Pai a exige por seu povo (Marcos 14, 36). É aqui que a experiência mística encontra seu ponto de contato com a atividade política.

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Companhia das Letras), entre outros livros.

Copyright 2020 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Fé: Mística e Ação



Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER


       O desafio de crer nessa contemporaneidade complexa e plural que é a nossa tem sido tema de muitas obras de renomados teólogos da atualidade. E continua representando um desafio mais do que atual para a Igreja.
      A secularização e o desencantamento do mundo continuam seu caminho, apesar da crise da modernidade e da razão potente.            
       A pós-modernidade resgatou o sagrado, mas é um sagrado sem absolutos e sem rosto, não pode  absolutamente ser posto em posição de paridade com o conteúdo da experiência de fé tal como a entende o cristianismo. A pergunta que fica após essas reflexões introdutórias é não apenas se podemos identificar fé e religião.  E se a resposta é não, qual dessas denominações corresponderia mais à proposta da revelação cristã.

       Se a religião é definida e compreendida como “um conjunto de crenças relacionadas com aquilo que a humanidade considera sobrenatural, divino e sagrado, bem como o conjunto de rituais e códigos morais que derivam dessas crenças”, da fé não se pode dizer o mesmo. A fé é fundamentalmente uma resposta a uma proposta feita à liberdade do ser humano, que é a ela chamado a responder com todas as dimensões de seu ser.  A fé é, portanto, um momento segundo, posterior, que vem depois, assentimento a algo proposto por outro.  Crer não é uma iniciativa humana que busca um lugar onde desaguar suas inquietudes e frustrações, mas, pelo contrário, uma atitude fundamental de recepção, aceitação, que gera então entrega, compromisso e empenho radical da vida.
           Todo o sentido, toda a importância e a relevância da fé se apoiam sobre algo místico, espiritual. Vêm do fato de secundarem uma proposta que emana de Alguém que não é igual a todos: Deus.  O mais importante na dinâmica de fé é de quem é a proposta à qual se responde.  Ela é divina e gera uma experiência mística.
           A Revelação chega ao ser humano como graça que surpreende e convoca sua liberdade.   A proposta é graça, é gratuita e a resposta igualmente só pode ser gratuita por ser igualmente fruto da graça. É graça de Deus não só o fato de ele fazer essa proposta ao ser humano, mas também o fato de poder ouvi-la, aceitá-la e a ela responder na fé.  O próprio querer crer já é dado por Deus, cuja graça e misericórdia a tudo se antecipa.  Consentir ou rejeitar essa oferta gratuita, no entanto, é próprio da liberdade humana, que aí é envolvida e interpelada de maneira definitiva.  A decisão de dizer SIM ou NÃO é do ser humano e de mais ninguém, embora sempre sustentado e ajudado pela graça de Deus.
            Sendo primordialmente dom, a fé também é tarefa.  Se for verdade que recebemos de Deus, sem mérito algum de nossa parte, esse dom que é a fé, também é verdade que esse dom implica responsabilidade, empenho concreto.  Aí estará o critério de verificação que demonstrará que a fé é algo verdadeiro e não produto da nossa imaginação e experiência que aliena em vez de comprometer, e é busca frenética e ilusória de si mesmo e não entrega e resposta a algo que veio até nós por parte de Outro.
           Crer tem muitos significados.  Mas em se falando em termos da fé cristã, crer tem a ver com encontro, com confiança.  É um ato pessoal que só pode ser praticado e vivido pelo ser humano.  No Antigo Testamento, a palavra mais próxima do que hoje entendemos por fé é  Amém, que quer dizer afiançar, afirmar, segurar-se em.  Esta palavra também é usada no Novo Testamento, sobretudo quando o autor bíblico quer se referir a Jesus Cristo.  Ali é dito que ele é o Amém do Pai, o Amém de Deus para nós.  Jesus Cristo seria a demonstração mais completa de que Deus ainda crê na humanidade.
            Por isso, disse o Papa Francisco com muita razão ao chegar no Rio de Janeiro para as JMJ: “Cristo bota fé nos jovens”.

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do departamento de teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco.

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