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quinta-feira, 14 de maio de 2020

A MÍSTICA DE JESUS


por Frei Betto

        Por mais que as escolas espirituais do Ocidente antigo tenham a ensinar, bem como as obras dos místicos cristãos, é no Evangelho que se encontram os fundamentos da mística cristã. A vida de Jesus não busca a reclusão dos monges essênios e nem se pauta pela prática penitencial de João Batista (Mateus 9, 14‑15). Ela se engaja na conflitividade da Palestina de seu tempo, onde não havia distinção entre religião e política. O Filho revela o Pai andando pelos caminhos; seguido por após­tolos, discípulos e mulheres; acolhendo pobres, famintos, doen­tes e pecadores; desmascarando escribas e fariseus; cercado por multidões; fazendo‑se presença incômoda nas grandes festas em Jerusalém; perseguido e assassinado na cruz como prisioneiro político.

Dentro dessa atividade pastoral, com fortes reper­cussões políticas, Jesus revela‑se místico, ou seja, como alguém que vive apaixonadamente a intimidade amorosa com o Pai, a quem ele trata por Abba ‑ termo aramaico que exprime muita familiaridade, como o nosso "papai" (Marcos 14, 36). Seu encontro com o Pai não exige o afastamento da polis, mas sim abertura de coração à vontade divina.

 Fazer a vontade de Deus é a primeira disposição espiritual do místico. Essa von­tade não se descobre pela correta moralidade ou pela aceitação racional das verdades de fé. Antes de ser uma conquista ética, a santidade é dom divino. Portanto, nas pegadas de Jesus, o místico centra sua vida na experiência teologal; sua conduta e crença derivam dessa relação de amor com Deus. Teresa de Ávila dirá isso com outras palavras: "A supre­ma perfeição não consiste, obviamente, em alegrias interiores, nem em grandes arroubos, visões ou espírito de profecia, mas sim em adequar nossa vontade à de Deus" (Fundações, 5, 10).
        A oração é o hábito que nutre a mística. Jesus reservava momentos exclusivos de acolhi­mento do Pai em seu espírito. "Permanecia retirado em lugares desertos e orava" (Lucas 5, 16). "Ele foi à montanha para orar e passou a noite inteira em oração a Deus" (Lucas 6, 12). Para aprofundar a fé, a oração é tão importante quanto o alimento para nutrir o corpo ou o sono para recuperar energias. No entanto, até no ativismo das grandes cidades os cristãos encontram tempo para comer e dormir ‑ se o mesmo não ocorre com a oração não é apenas por culpa deles. No Ocidente, perderam-se os vínculos que nos ligavam às grandes tradições espirituais e somos herdeiros de um cristianismo racio­nalista, fundado no aprendizado de fórmulas ortodoxas, bem como pragmático, voltado à promoção de obras ou ao desem­penho imediato de tarefas. A dimensão de gratuidade ‑ essen­cial em qualquer relação de amor ‑ fica relegada a momentos formais, rituais, de celebrações, sem dúvida importantes, mas insuficientes para fazer da disciplina da oração um hábito que permita penetrar os sucessivos estágios da experiência mística.

Ao contrário de certas escolas pagãs, a mística cristã não visa a oferecer uma técnica que leve o crente às núpcias espi­rituais com a divindade ‑ embora isso possa ocorrer como dom misericordioso de Deus. Antes, ela busca ensinar‑nos a amar ‑ assim como Deus ama ‑ as pessoas com as quais convivemos, nossos parentes, a comunidade com a qual estamos comprome­tidos em nossa pastoral, o povo a que pertencemos e, especial­mente, os pobres, imagens vivas de Cristo. "Ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus per­manece em nós e o seu amor em nós é perfeito" (1 João 4, 12).
        O amor de Jesus a seu povo é proporcional à sua fidelidade a Deus. Por isso, ele aceita o cálice: não retém para si a sua vida, porque entende que o Pai a exige por seu povo (Marcos 14, 36). É aqui que a experiência mística encontra seu ponto de contato com a atividade política.

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Companhia das Letras), entre outros livros.

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