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sábado, 2 de maio de 2020

COVID 19 - VIGÉSIMA TERCEIRA REFLEXÃO


por Frei Aloísio Fragoso

AS LIÇÕES DA HISTÓRIA EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

   A História é mestra da vida, dizem os entendidos, e nós os apoiamos. Quantas lições os acontecimentos de épocas passadas nos proporcionam para entender e avaliar os fatos presentes!  Isso vale também no caso do COVID 19.

    Relembremos  algumas catástrofes semelhantes a esta, em seus efeitos letais, e observemos como certas reações que hoje pensamos serem novas e exclusivas, já se repetiam há séculos.

    Relembremos, por ex., O terremoto que arrasou a cidade de Lisboa no ano de 1755. Era a manhã do dia 1.de novembro, festa de Todos os Santos, as igrejas estavam repletas. De repente a terra começa a se abrir, com gigantescos tremores, que, em poucos minutos, destroem aquela que era a quarta maior cidade da Europa. Para agravar o terror da população, ao terremoto sucede-se um tsunami, quando as águas do Tejo chocam-se com as do mar e inundam a cidade baixa, e, ao tsunami, um grande incêndio, devastando o que o terremoto poupara.

    Tombaram 55 palácios, 35 igrejas e 50.000 vidas foram ceifadas.

    Os mortos tiveram de ser divididos, uns enterrados em valas comuns e outros jogados ao mar com pedras presas ao corpo, a fim de não voltarem à superfície.

    Logo a catástrofe repercutiu para além das fronteiras de Portugal e começaram as inevitáveis tentativas de explicação. Para a massa aterrorizada, a conjugação de terremoto, tsunami e fogo era a imagem do Juízo  Final, castigo de Deus pelos seus grandes pecados. Vivia-se então o domínio do Iluminismo. O confronto das interpretações fica bem explicitado pelos dois mais famosos pensadores da época, os franceses Voltaire e Rousseau. O primeiro viu nessa tragédia o colapso de todas as concepções do mundo vigente, onde jamais se podia admitir um tal acontecimento, pois a terra era acreditada como uma criação divina garantida por princípios de ordem e harmonia.

    "Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes", ironizou o filósofo ateu, e acrescentou "Que crime? Que falta cometeram estas crianças esmagadas e sangrando sob o seio materno? Lisboa, que já não existe, tinha mais vícios do que Paris, mergulhada em delícias? Do autor do bem terá decorrido o mal?"

    Voltaire também estava se revelando contra a filosofia do otimismo de Leibnitz, para quem "vivemos no melhor dos mundos" e "tudo vai bem".

    Rebatendo Voltaire, Rousseau escreveu "Carta Sobre a Providência", uma tentativa de "inocentar" a Deus e a gentil mãe terra: "Acaso foi Deus que reuniu numa área exígua 20.000 casas de 6 e 7 andares? "Quantos morreram porque voltaram para salvar suas roupas, seus documentos e seu dinheiro?"

    Foi ficando claro, desde então, que as avaliações das grandes tragédias não podem ser separadas do tipo de sociedade onde elas ocorrem.

    O terremoto de Lisboa nem de longe se compara à catástrofe da "peste negra", assim chamada porque marcava de manchas pretas o corpo de suas vítimas. Ela espalhou-se a partir do ano de 1347, causada por pulgas infiltradas em ratos e trazidas por navios vindos do Mar Negro para a cidade de Gênova, na Itália.

    As mortes amontoavam cadáveres numa aceleração de minutos, aldeias inteiras foram  riscadas do mapa porque nenhum de seus habitantes escapou.

    Na inexistência de recursos naturais, as pessoas apelavam irracionalmente para a Fé, auto-flagelando-se em longas procissões de penitência, e com isso acumulando novas vítimas, cujos cadáveres eram abandonados pelo caminho.

    A peste negra durou 4 anos e matou 1/3 da população da Europa, mais de 20 milhões de habitantes.

    O que hoje se afirma como vaticínio, naquela ocasião, ficou comprovado pelos fatos: nunca mais o mundo voltou a ser o mesmo. Jorraram os sinais de uma mudança radical de mentalidade e costumes, sobretudo no despertar de uma nova consciência sobre a Liberdade.

    (Pausa para uma observação: me lembrei de certas pessoas que possuem o "carisma" de narrar tragédias, doenças, mortes, enterros, sofrimentos. Elas encontram gosto em prolongar suas narrativas por horas a fio, até que todos os ouvintes cedem ao sono, vencidos pelo cansaço. Não quero imitá-las. Prefiro recordar os seriados da minha adolescência. Quando o filme chegava ao máximo de suspense, acendiam-se as luzes e aparecia um grande letreiro: CONTINUA NA PRÓXIMA SESSÃO. Esperávamos uma semana.

    Em nossa próxima reflexão voltaremos a este assunto, esclarecedor para os conflitos de valores que estamos enfrentando.

    Enquanto isso, o Espírito Santo nos conduza até o coração de Pentecostes, que iremos celebrar nas próximas semanas. Amém.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

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