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quinta-feira, 13 de junho de 2019

SEXO & AFETO




Por Frei Betto

       Na pesquisa da Unesco sobre a sexualidade da juventude brasileira há aspectos positivos, como o repúdio à promiscuidade e busca de conhecimento sobre o tema. Os jovens brasileiros tendem a iniciar a vida sexual mais cedo (entre 11 e 14 anos) e consideram desimportante a virgindade. Mas nem sempre se protegem contra as DST (doenças sexualmente transmissíveis) e a Aids, e tendem a discriminar os homossexuais.

Pesquisa no Ceará indica aumento da gravidez precoce e diminuição dos casos de aborto. As meninas, com certeza induzidas por exemplos televisivos, preferem assumir a "produção independente", ainda que haja riscos de abandono da escola, ingresso na prostituição e mais criança na rua. Na pesquisa da Unesco, 14,7% das entrevistadas admitiram ter engravidado pela primeira vez entre 10 e 14 anos.

O Unicef constata que a educação escolar de uma menina equivale, na América Latina, em termos de efeitos sociais, à educação de cinco meninos. Quanto mais escolaridade da mãe, menor o índice de natalidade e maior o período de vida do filho. São as mães que assumem, sempre mais, a chefia da família, e transmitem valores aos filhos.

Os jovens se queixam de ter poucas fontes de conhecimento sobre a sexualidade. Só nas últimas décadas as escolas começaram a introduzir o tema em salas de aulas, assim mesmo com ênfase na higiene corporal, tendo em vista as DST.

O melhor seria a TV, com o seu poder de irradiação, entrar em detalhes a respeito deste assunto. Mas nem sempre interessa tratar sexo e afeto às claras. O tabu reforça o mistério, que excita a imaginação, alimenta o voyeurismo, atrai milhares de telespectadores à exibição de produtos que imprimem à sexualidade o sabor libidinoso da pornografia. E dá-lhe delegacias de mulheres e, paralelamente, a proliferação de assédios, estupros, feminicídios, e o preconceito aos homossexuais.

Certo dia vi, num hospital público, com uma menina de 13 anos, bastante machucada. Havia sido espancada pela mãe, inconformada por vê-la grávida. E ficou revoltada quando a menina declarou não saber quem é o pai. Havia participado da dança do "trenzinho" em baile funk: rapazes sentados, a braguilha aberta, as garotas sem calcinha pulando de colo em colo…

O que me chocou não foi tanto o ritual orgíaco. Mas a carência, o vazio, a busca desenfreada de afeto reduzida àquela espécie de "roleta russa". Não se trata de imoralidade, e sim de amoralidade, como entre os répteis. Pela vergonha de assumir valores, cultivar o espírito e fazer projetos. Nos escombros da modernidade, tudo é aqui-e-agora. E quando o desemprego, o baixo nível da educação, a violência, a desagregação familiar, nos fecham as cortinas do horizonte da felicidade, o jeito é apelar para o prazer imediato, epidérmico, já que a vida parece se reduzir a um jogo de sobrevivência e a morte pode estar nos espreitando na próxima esquina.

Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto - Autobiografia Escolar" (Ática), entre outros livros.
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quarta-feira, 12 de junho de 2019

O PAPA FRANCISCO E A LUTA PELA PALAVRA (1)




Por Eduardo Hoornaert

De que modo o Papa Francisco faz uso da palavra? Ela indica, designa, afirma/nega, ou, pelo contrário, não designa nem indica, mas questiona, suscita dúvidas? É uma palavra ‘fácil’ ou ‘difícil’? Mal se avalia a importância dessa questão. O que acontece nestes dias entre o Papa Francisco e alguns dos Cardeais ‘dissidentes’ configura uma luta que, afinal, ultrapassa as contingências do papado católico e mesmo do cristianismo, para alcançar a questão global do tipo de convivência que estamos construindo nas sociedades em que vivemos.

A palavra fácil.

Os primeiros anos do Papa Francisco foram relativamente tranquilos. Ele pronunciava palavras que agradavam a muitos, dentro de fora da igreja. Até brincava com palavras. Virou um papa ‘pop’. Mas com os dois Sínodos sobre a Família (2014 e 2015), a maré começou a virar e se ouviu dizer que ele é um Papa ‘de palavras difíceis’. O mesmo aconteceu com o texto Amoris Laetitia de 2016. Palavras inusitadas para um papa, que suscitaram dúvidas e inseguranças.

A frente anti-Francisco, que se revela com crescente desenvoltura, costuma usar palavras designativas, como demonstro em seguida por meio de alguns exemplos de declarações recentes, pronunciadas por cardeais ou outras autoridades políticas, e que realço aqui usando letras em negrito.

- Num encontro na Plaza del Duomo em Milão, no dia 20 de maio pp., Matteo Salvini, que acaba de ganhar as eleições presidenciais na Itália com mais de 34 % dos votos, discordou abertamente da palavra do Papa, que disse, num encontro no dia 18 do mesmo mês com jornalistas: O Mediterrâneo está se tornando um cemitério. Na presença de Marine Le Pen da França (a extrema direita que acaba de crescer na França nas eleições de 26/05), e Geert Wilders da Holanda, Salvini beijou um rosário e contestou diretamente o Papa declarando: ‘À Sua Santidade eu digo que a política deste governo está eliminando os mortos no Mediterrâneo com eficiência e caridade cristã’. Numa outra oportunidade, ele mostrou uma camiseta na qual figuram as palavras: ‘meu papa é Bento (XVI)’.

- O Sr. Steve Bannon, ex-assessor de Trump nas eleições de 2017, dá mostras de querer dirigir seus holofotes para a Itália de Salvini Tem um plano ambicioso na cabeça: fundar uma ‘Escola de novos gladiadores em defesa do Ocidente’, para formar líderes católicos nacionalistas e populistas, intitulado ‘Instituto Dignitatis Humanae’. Para tanto, ele tentou estabelecer tal Escola num antigo Mosteiro de cartuxos (fundado em 1204) nas montanhas de Trisulti, a uma hora de carro de Roma. A assistência eclesiástica seria dado pelo Cardeal americano Raymond Burke. Pelo momento, ele está com problemas com o fisco, mas não parece que ele pensa em abdicar do plano. De qualquer modo, em relação Papa Francisco ele é direto: ‘O papa é o inimigo’.

- O Cardeal Burke, que acabei de mencionar, pronunciou, no dia 18 de maio pp., uma palestra na Universidade Angelicum de Roma, que foi transmitida pela TV CNS (Community Network Services), um canal abrangência mundial, em que voltou ao tema da imigração. Afirmou que essa imigração deve ser entendida dentro do quadro geral de um movimento que ‘constitui uma invasão muçulmana no mundo ocidental’. E explica: ‘O Islãse vê destinado a governar o mundo’. ‘Isso ameaça a cultura verdadeira que consiste no respeito pela vida, respeito pela moral sexual e culto devido a Deus’. Por isso, ‘limitar a imigração massiva muçulmana é um exercício responsável de patriotismo’. E, na mesma linha: ‘desobedecer ao papa é um dever, caso ele exercer seu poder de modo pecaminoso’.

- O Cardeal alemão Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, entra no coro com palavras não menos contundentes: ‘as palavras do Papa não sãopalavras de um estadista. O papa não resolve nada, não decide nada’. Nisso, ele comenta a famosa frase do Papa Francisco quem sou eu para impedir a um homossexual de se aproximar de Deus?, para insinuar que o papa seria adepto de permissividade sexual. Ora, insiste Müller, quem sente atração por uma pessoa do mesmo sexo tem de guardar a castidade. Senão, afirma ele, ele adere, sabendo ou não, ao movimento gay, que é de caráter totalitário e intenta desconstruir a família. O discurso do Cardeal Müller estabelece, pois, uma ligação entre permissividade homossexual e totalitarismo.

Aqui, o Cardeal tenta arrastar o Papa para a arena de uma contenda com a opinião pública que, sempre mais, considera o casamento gay como algo normal. Segundo investigações da Organização das Nações Unidas (ONU), os menores de quarenta anos (os chamados ‘millenians’) consideram a orientação sexual como um dos traços variáveis do ser humano, sem maiores considerações de ordem moral. Assim como a cor da pele, a nacionalidade, etc.

Os cardeais que citei acima deixam entender que se sentem irritados com determinados gestos do Papa Francisco. Eles o consideram um ‘populista’, que manda parar o papamóvel para abraçar um doente em seu carrinho, visita padres casados, oferece carona a refugiados em Roma, conversa com ortodoxos, judeus, islamitas, e até ateus, beija a face de um cego, lava os pés de criminosos presos, figura em fotos ao lado de camponeses peruanos e indígenas colombianos. Decididamente, Francisco nem sempre demonstra a moderação que convém ao cargo. Parece se deixar levar por ‘extremos’. Não se revela um líder sensato, de discursos razoáveis e ponderados.

Coisa mais insidiosa aparece em abril 2019. O Papa resignatário Bento XVI estaria segurando a bandeira de uma oposição não confessa ao Papa Francisco. O estopim foi um texto, intitulado ‘Reflexões’, que Bento XVI mandou entregar, em final de fevereiro de 2019, ao Papa Francisco e ao Secretário do Estado Cardeal Pietro Parolin. Nesse texto, Bento XVI atribui a pedofilia no clero à ‘frouxidão doutrinal e a atitudes laxistas frente a homossexuais’. Como nem o Papa, nem o Cardeal Secretário reagiram diante de tais ‘Reflexões’, elas foram entregues aos grandes meios de comunicação no mês de abril. Como escrevi acima, Salvini aproveitou da confusão para exibir uma camiseta com os dizeres: ‘Meu papa é Bento’.

Por que tanto redemoinho? Em que sentido a palavra do Papa Francisco incomoda?

A palavra difícil.

O Papa Francisco incomoda por pronunciar palavras difíceis. Cito aqui algumas.

1. Quem sou eu para julgar?

A frase foi pronunciada no avião de volta da Jornada da Juventude no Rio de Janeiro em 2013, poucos meses depois da eleição. Continua sendo, até hoje, a mais famosa frase do Papa Francisco: Quem sou eu para impedir um homossexual de se aproximar de Deus?Uma frase que implica que seus ouvintes tenham a capacidade de fazer uma leitura contextualizada dos trechos do Antigo Testamento que tratam da assim chamada ‘sodomia’, como Gn 19, 15 (Ihwh faz cair uma chuva de súlfur sobre Sodoma); Lv 18, 22 e 20, 13 (que contém uma condenação formal da ‘sodomia’) e 2Sm 1, 26 (onde se comenta o amor homossexual entre Davi e Jônatas). O discurso do papa pressupõe, pois, gente disposta a refletir, estudar, se aprofundar.

2. Não se deve dar preferência a espaços de poder frente aos tempos, por vezes largos, dos processos. Nosso poder consiste em colocar em marcha processos, mais que ocupar espaços.

Outra frase nada fácil, pois ela sugere a capacidade de se operar uma mudança radical na pastoral da igreja católica, tal qual foi concebida e realizada desde a Idade Média. Uma pastoral que consiste basicamente em ‘ocupar espaços’, tanto territoriais (a paróquia) quanto institucionais (capelanias, assistências eclesiásticas, diretorias, assessorias), tanto imaginários quanto políticos. Vejamos em detalhes como isso foi concebido na Idade Média e vigora até hoje:

- O controle dos tempos da vida. Do berço à morte, o homem vive sob o controle da religião católica. A hora, o dia, a semana, o ano, a vida, tudo é ‘eclesiástico’.

- O controle do espaço físico. Não chega a ser total, pois sempre existiram grupos que conseguiam escapar e viver em espaços próprios, como, na Idade Média, os boêmios, os goliardos (sacerdotes vagantes) e, de certa forma, os devotos nas confrarias, e hoje muitos leigos. Esses espaços livres, contudo, nunca rivalizaram nem de longe com a rede de instituições controladas pelo clero: cristandade, diocese, paróquia, santuários.

- Um terceiro espaço ocupado pelo estado eclesiástico é o do ensino. Na Idade Média, a única formação intelectual era eclesiástica. Nas escolas episcopais e monásticas não se estudavam ciências humanas como antropologia, sociologia, psicologia, história, muito menos ciências positivas como física, química, biologia etc. Mas, em contrapartida, a teologia nas Universidades era extremamente racional e fomentava o espírito científico, o que criou um espaço para o posterior cultivo das ciências modernas. Mas, de qualquer modo, o clero manteve ao longo de muitos séculos o monopólio da escrita. Ser letrado significou, antes da Revolução Francesa, ser clérigo.

- Um quarto espaço controlado pelo estado eclesiástico é o da comunicação de massa. Na Idade Média, quem diz mídia, diz igreja. A Igreja Catedral domina a cidade, a Igreja Paroquial domina a aldeia. Catedral episcopal e igreja paroquial constituem os instrumentos midiáticos mais ostensivos da sociedade. A população mora em torno da igreja. Em certos casos, a catedral é tão espaçosa que a população inteira nela cabe (como em Paris). Todos contemplam o bispo e sua corte litúrgica, ficam impressionados com tanta exibição de poder e majestade. É através desses instrumentos midiáticos que o estado eclesiástico controla a moral dos habitantes, concretamente através da catequese, do sermão e da confissão auricular. Chega a controlar laços de parentesco, valorizando o padrinho de batismo diante do pai biológico.

- Um quinto setor público ocupado pelo estado eclesiástico é o da saúde pública. Sucesso garantido: hospícios monásticos nos inícios e em seguida hospitais nas cidades. Nesse setor operaram, com notável competência, as ordens femininas. Elas compunham a imagem pública da sociedade, não só nas cidades maiores, mas também nas aldeias, principalmente nas terras controladas por ordens monásticas.

- Finalmente, o clero exerceu, durante séculos, controle sobre a morte das pessoas. A onipresença do espectro do inferno, sendo que só o clero tem condições de salvar as almas do inferno, abrir as portas do céu, ou pelo menos do purgatório. O clero providencia o enterro no cemitério em torno da igreja paroquial, sendo que a freguesia toda sabe que um dia vai ‘repousar’ em torno dela.

Diante de tão impressionante painel histórico, o Papa Francisco tem a coragem para dizer: Não se deve dar preferência a espaços de poder. Trata-se de incentivar processos, dinamizar a ação, colocar a igreja em marchaNosso poder consiste em colocar em marcha processos, mais que ocupar espaços. Para avançar na construção de um povo, o tempo é superior ao espaço.

Abandonar a ideia da centralidade da igreja na construção da sociedade, dar a César o que é de César, não querer ocupar todos os espaços, colocar em marcha processos? Militar na construção da justiça e da misericórdia, do encontro e do diálogo? Eis um programa para valer. Nisso, todos são convocados: crentes e descrentes, católicos e ateus, cristãos e islamitas, comunistas e liberais.

3. A igreja em saída.

Abandonar a pastoral sedentária, andar pelos caminhos do mundo, deixar de lado a pastoral sedentária. Francisco não estará sugerindo que se abandone uma pastoral quase unicamente centrada na ‘administração (paroquial) dos sacramentos, que ela seja gradativamente abandonada, em benefício de uma pastoral em saída, missionária? Ora, a pastoral sacramental tem o peso de séculos. O trabalho sacramental na paróquia constitui a própria razão de ser dos vigários. Sendo habilitados a administrar sacramentos e tendo em mãos os meios de salvação dos paroquianos, os sacerdotes detêm um poder considerável. Pois, embora a teologia ensine que os sacramentos são sinais do amor de Deus, eles são vividos, durante séculos, num enquadramento de intimidação, de medo do inferno, da rejeição social, da discriminação. Durante séculos, ao guardar o monopólio dos sacramentos, considerados indispensáveis à salvação, o estado eclesiástico suscita na população o terror diante das penas do inferno, como comprovam sermonários antigos, revelados pela pesquisa histórica. Os pregadores empurram os recalcitrantes aos sacramentos.

Mas, com o tempo, o medo do inferno vai cedendo. Pessoas mais formadas se declaram independentes e abrem um novo espaço. Antes da Revolução Francesa, por exemplo, mais de 90% dos franceses iam à missa todos os domingos. Vinte anos depois, o número era de 20%. Antes da Revolução, os que não recebiam os sacramentos eram fichados na polícia e tratados como suspeitos. Tudo mudou em poucos anos, o que mostra que estava em marcha um processo amadurecido.

Ao falar em igreja em saída, o Papa constata implicitamente que hoje já não se frequentam os sacramentos como antes. É de se lamentar, sem dúvida, pois – afinal - os sacramentos são gestos de Deus bondoso e misericordioso. Mas eles foram manipulados pelo estado eclesiástico durante séculos, o que faz compreender a atual reação contra sentimentos de dependência e obediência, a favor da liberdade.

O Papa sabe que, na mente de grande parte do clero, a diminuição da prática sacramental é interpretada como uma decadência. Alguns clérigos perdem a necessária motivação para continuar em trabalhos paroquiais. Para outros, os sacramentos continuam sendo o caminho de seu relacionamento com o povo, a motivação principal de seu trabalho. Muitos ainda entendem que o sacerdote está na paróquia para celebrar os sacramentos. Para eles, a perda de frequência aos sacramentos, por parte dos leigos, chega a ser algo dramático. Mesmo assim, Papa Francisco bate duro: paróquia não é cartório.

4. Não podemos continuar insistindo só em questões referentes ao aborto, ao casamento homossexual e ao uso de contraceptivos

Uma das artimanhas de um sistema político consiste na articulação do ‘discurso de desvio’. Questões laterais são insistentemente abordadas, enquanto se deixa a passagem livre para operações políticas nada favoráveis à maioria da população. Sem desmerecer a importância das discussões sobre aborto, casamento homossexual, uso de contraceptivos, imigração, há de se dizer que elas podem ocultar o que está realmente acontecendo nas atuais sociedades: a transferência da ‘riqueza das nações’ para as contas bancárias de poucos indivíduos extremamente ricos. Enquanto a TV enche os noticiários com assuntos de moral, a depredação da riqueza de grande maioria da população, em benefício de poucos, prossegue seu livre curso. A crescente desigualdade social não aparece no discurso hegemônico. Não se fala em controle fiscal das riquezas de grandes consórcios financeiros, não se fala em imposto progressivo. Fala-se em ‘imposto fixo’ (flat tax), igual para todos, com isenções que não aparecem na tela.

O Papa, embora não fuja de temas como migração, pedofilia, etc., detecta um movimento de desvio no modo em que esses temas costumam ser abordados nos noticiários. No tocante à pedofilia no clero, ele tem a lucidez e a coragem de afirmar que não basta elaborar regulamentos punitivos, mas que precisa encarar o encobrimento de crimes clericais, uma prática generalizada, como comprovam os noticiários. Esse encobrimento não é algo casual, expressa o funcionamento real do estado eclesiástico. Aqui, Francisco encara, com certo temor, um sistema que se formou ao longo de séculos, o paradigma do ‘bem da igreja’, um poder que praticamente se identifica com a igreja. Nos documentos oficiais de autoridades eclesiásticas, pode-se substituir o termo ‘igreja’ por ‘estado eclesiástico’. O sentido permanece o mesmo. Alguns milhares de pessoas representam 1,3 bilhão de pessoas, ou seja, aos católicos espalhados pelo mundo. Ao tomar resolutamente partido por essa maioria, Francisco não tem por onde fugir: ele tem de encarar o sistema eclesiástico. Ele tem de saber resistir à maioria do clero, ao stablishment da Cúria Romana.

Com passos calculados, ele afirma, no recente Decreto ‘Praedicate Evangelium’, editado em maio 2019, que a Cúria Romana não é um órgão a ‘auxiliar o papa na administração da igreja’, mas um órgão missionário, a serviço da igreja em saída. Não é pouca coisa, pois com isso o Papa enfrenta regulamentos que remontam ao ano 1588, logo depois do Concílio de Trento, quando se estruturou a Cúria como organizadora do poder central católico frente ao luteranismo e outros movimentos centrífugas. Regulamentos não revogados na reforma da Cúria empreendida em 1988 pelo Papa João Paulo II (‘Pastor Bonus’). No momento em que Francisco declara que a Cúria Romana deve estar ‘ a serviço do colégio episcopal’ no tocante à evangelização e à missão, ele provoca uma turbulência de resultados imprevisíveis.

5. Lutero não se equivocou, o Islã pode ser considerado uma ‘verdadeira religião’, o divorciado pode participar da eucaristia, o celibato pode ser questionado, a mulher merece um lugar mais importante na igreja, há aborto e aborto, a união entre homossexuais não é, em si, pecaminosa.

Quem sou eu para julgar o posicionamento de Lutero? Quem sou eu para me pronunciar sobre o Islã? Quem sou eu para mexer com a vida de um divorciado? Quem sou eu para dizer à mulher quantos filhos ela deve ter e como ela tem de se comportar na igreja? Quem sou seu para dizer que o sacerdote deve ser necessariamente um celibatário? (Quem sou eu para dizer que o candomblé não é uma ‘verdadeira religião’?).

Palavras diametralmente opostas a um discurso hoje hegemônico nos grandes meios de comunicação e que o escritor americano Samuel Huntington resume na expressão ‘conflito de civilizações’. Enquanto assessores de líderes mundiais confidenciam que um enfrentamento global entre superpotências está na agenda e enquanto se realizam articulações em vista a uma ‘terceira guerra mundial’, o Papa sinaliza que é possível apagar os focos da terceira guerra mundial por meio de uma política de ‘encontro entre as civilizações’. Esse seu posicionamento é importante, pois sua voz é potencialmente ouvida por não menos de 1,3 bilhão de pessoas (os católicos), o que não é pouca coisa, para não contar os que não são católicos e ouvem o papa.

6. O Lawfare, além de colocar a democracia dos países em sério risco, é utilizado para minar os processos políticos emergentes e incentivar a violação sistemática dos direitos sociais.

Pronunciada numa Conferência de Imprensa no dia 4 de junho de 2019, essas palavras do Papa Francisco demonstram que ele está em ‘plena luta pela palavra’. O termo ‘lawfare’, que provém dos anos 1970, significa ‘guerra jurídica’. A lei vira arma política, manobras juridico-legais substituem força armada. Eis o modo pelo qual o poder do estado frequentemente opera em nossos dias, incentivado por vitórias políticas de líderes como Trump, Bolsonaro, Salvini e outros.

Nos primeiros anos de seu pontificado, era principalmente em suas conversas no avião, de volta de uma viagem internacional, que Francisco costumava se ‘soltar’. Como na famosa frase de 2013: quem sou eu para julgar? Ou em 2015, quando ele brincou: os católicos não são obrigados a se reproduzir como coelhos. Ou ainda em 2016, quando ele disse que o então candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trumpnão é cristão (ao prometer construir um muro na fronteira com o México).

Ultimamente, porém, nas coletivas de imprensa a bordo, o Papa está se mostrando mais comedido. A respostas, nestes dias, nada mais são que reiterações de coisas já ditas. Isso parece denotar um crescente clima de tensão nos altos escalões da hierarquia católica. De reconhecidamente espontâneo e aberto, incentivador de debates e disposto a resolver questões difíceis em público, Francisco se mostra ultimamente mais contido. A impressão e que ele se sente acuado. É nesse sentido que o jornalista italiano Marco Politi, um dos melhores conhecedores do Vaticano, escreve que o Papa, atualmente, fica ‘isolado da igreja’ (‘La Solitudine di Francesco’, Editori Laterra, 2019).

A luta pela palavra.

Eis a luta pela palavra em pleno curso. Uma luta que se situa sempre mais num cenário de Lawfare, Fake News, Twitters, enfim, no cenário político criado pelos novos recursos da comunicação eletrônica.

Um exemplo? Na preparação das recentes eleições europeias de 26 de maio de 2019, máquinas produtoras e divulgadoras de Fake News (outro nome de ‘palavra fácil’, ‘palavra que se pretende designativa’) despejaram nada menos de 3 bilhões de falsas notícias nas telas dos eleitores (daria 20 doses para cada eleitor). 30.000 máquinas espalharam durante semanas seu veneno tóxico pela Europa inteira. Ainda bem que os responsáveis por Facebook, Google, You Tube, Instagram e Twitter tenham esboçado uma reação e tenham eliminado 1, 6 bilhão de visualizações (trolls) na Espanha, 100 milhões na França, 900 milhões na Itália, 100 milhões na Alemanha, 200 milhões na Polônia, 100 milhões no Reino Unido. Esse pequeno exemplo mostra que no futuro teremos de ‘lutar por palavras’, a favor do uso correto delas e contra seu abuso para fins interesseiros. Todos e todas sabemos que a Internet veio para ficar e a humanidade terá de lidar com palavras veiculadas por ‘máquinas’ sempre mais potentes e penetrantes na intimidade das mentes.
A sociedade, até hoje, parece meio atordoado com esse novo modo de combate. Daí a conveniência de cavar mais fundo numa questão filosófica: como se transmite (ou não se transmite) a verdade por meio da palavra? A transmissão da palavra e sua relação com a verdade.

Para que você entenda melhor onde quero chegar, realcei acima alguns verbos usados pela ala da hierarquia que se opõe ao Papa, citando-os em negrito: ‘a imigraçãoconstitui uma invasão’; ‘ o Islã se vê destinado a governar o mundo’; ‘o Islã ameaça a cultura verdadeira’; ‘as palavras do Papa Francisco não são palavras de um estadista’; ‘o movimento gay é de caráter totalitário, intenta destruir a família’; ‘a pedofilia provém de frouxidão doutrinal e atitude laxa diante da homossexualidade’. Palavras de ordem designativa.

As expressões usadas pelo Papa Francisco são manifestamente de outra ordem. Como relatei acima, Francisco se expressa por meio de frases como: quem sou eu para julgar?,não se deve dar preferência, a igreja em saídanão podemos continuar insistindo.., Lutero pode estar certo, o divorciado pode participar da eucaristia, etc. Essas duas últimas frases não hão se ser interpretadas num sentido designativo, mas num sentido questionador: ‘será que Lutero está certo? Será que um divorciado pode pensar em participar da eucaristia?’. O mesmo se diga a respeito de conhecidas palavras de Francisco acerca do celibato, da participação de mulheres na igreja, da validade do Islã, da contestação por parte de Lutero, etc.

Enfim, o papa não designa. Ele questiona, exorta, convida, faz refletir. Mas não define.

Qual o sentido dessa diferenciação? O que os filósofos têm a dizer sobre esse tema? Entremos por uns instantes em território filosófico.

Desde Aristóteles, os filósofos, ao tratar da cognição, recomendam cuidados com enunciações designativas. Nem falo de Sócrates que é mais que claro nesse ponto. Ao constatar que nós, humanos, conhecemos por meio da informação, seja direta, por meio dos cinco sentidos, seja indireta, por falas, escritas ou imagens, esses filósofos nos advertem diante dos possíveis engodos causados por enunciações designativas. Aristóteles, em sua ‘Ética’, ao afirmar que a verdade consiste em detectar, numa mensagem recebida, ‘aquilo que é’ (id quod est), não deixa de alertar para o imperativo ético: nem sempre ‘aquilo que é’ me agrada, está em conformidade com meus interesses. Como me comporto diante do que ameaça se contrapor aos meus interesses? Pois não faltam, na vida da gente, imperativos não éticos, interesses pessoais, vantagens financeiras, lutas pelo poder, exercícios do poder, obediência a ordens dadas, compromissos de vida já assumidos, opção por modelos autoritários, ou simplesmente acomodação com situações existentes.

Discursos designativos podem, na realidade, servir para emitir uma ordem, expressar um desejo, uma exortação, um sentimento, uma intuição, uma imaginação, um sonho, um projeto, um cálculo, etc. Revestidos de objetividade, esses discursos não raramente ocultam intencionalidades no sentido de exercer um domínio sobre as mentes, firmar consensos, enfim, exercer poder sobre pessoas.

Como se perpetuam esses consensos ao longo da história? Principalmente pela família. Ela forma um elo de transmissão de mensagens de geração em geração. Como realçou Freud em suas penetrantes análises, discursos emitidos por instâncias que parecem merecer respeito, penetram fundo no seio da família e assim moldam nosso modo de pensar desde a infância. O fator família marca as vidas humanas. Em não poucos casos, as molda definitivamente. Assim afloram dentro de nós sentimentos aparentemente espontâneos, na realidade transmitidos de geração em geração e por isso mesmo pouco controláveis. Quem não estranha ver um passageiro de chinelos entrar num avião? Quem não estranha ver um negro segurar um diploma de estudos universitários ou dirigir um carro de luxo? Reações emocionais difíceis de serem analisadas, mais difíceis ainda de serem superadas. Freud, em seu tempo, apelou para a psicanálise, a fim de penetrar nesse universo. Muitos discursos, emitidos por poderes políticos e econômicos, combinam com o que aprendemos em casa quando éramos crianças. Os imperativos nada éticos que subjazem a esses discursos não são fáceis de serem detectados. Isso torna a vida humana complexa, a busca da liberdade e da autonomia uma verdadeira aventura. Muitos sucumbem no caminho e, de tanto ver televisão, se metem num labirinto tão intricado de informações contraditórias que não encontram mais a saída. Confusos e desorientados, desacostumados a refletir, acabam se rendendo. Não querem mais pensar. Quem contempla o atual cenário cognitivo, verifica com espanto quão facilmente as pessoas se deixam prender nas redes de discursos enganosos. Uma situação que só se explica pela forte adesão emocional a palavras designativas.

Assim compreendemos o fato aparentemente contraditório de pobre votar em rico ou em candidato que defende os interesses dos ricos. Isso tem desnorteado mais de um observador, mas Maquiavel explica o fato dizendo que as pessoas se rendem facilmente a enunciados que lhes parecem confiáveis. Voltaire ainda acrescenta: ‘mentez, mentez toujours: il en restera toujours quelque chose’ (mintam, mintam sempre: algo há de ficar). E Goebbels, ministro da informação do governo nazista, completa: ‘uma mentira repetida mil vezes se torna verdade’. Ninguém passa ileso pela prova da veracidade.

Assim compreendemos que, para um católico comum, fica bem mais fácil entender o Cardeal Burke, o Cardeal Brandmüller ou o Cardeal Müller, que captar o sentido das palavras do Papa Francisco. Os primeiros dispensam um pensamento mais aprofundado, seguem a rotina de palavras sempre repetidas, dizem as coisas de sempre. Nada mais fácil, para um cardeal, que repetir palavras ouvidas pelos católicos desde a infância. Resulta bem mais difícil compreender as palavras de um papa que diz que Lutero não se equivocou, o Islã pode ser uma ‘verdadeira religião’, o divorciado pode participar da eucaristia, o celibato pode ser questionado, a mulher merece um lugar mais importante na igreja, há aborto e aborto, a união entre homossexuais não é, em si, pecaminosa, etc.

Hoje temos, para nos apoiar, os filósofos linguistas, os que, ao longo do século XX, provocaram a ‘reviravolta linguística’, em muitos casos como resposta ao uso da palavra por parte de ditadores europeus, tanto na Rússia como na Alemanha, Itália, Espanha e Portugal. Hoje temos Bakhtin, Ricoeur, Bourdieu, Wittgenstein, Zizek, Noam Chomsky.

Lembro que, em 1945, logo depois do desfecho da Segunda Guerra Mundial, Ludwig Wittgenstein reuniu nada menos de 693 aforismos para nos ajudar a superar a ingenuidade com que discursos designativos costumam ser acolhidos na sociedade. Posteriormente publicados sob o título ‘Investigações filosóficas’ (Vozes, Petrópolis, 2005, 4a ed.; ou ainda: Nova Cultural, São Paulo, 1994. Veja também seu ‘Sobre la Certeza’, Gedisa, Barcelona, 1995), esses aforismos permanecem um remédio eficiente contra a sedução da palavra.

Esses filósofos linguistas, de diversas matizes, nos propõem o exercício constante de limpeza da mente. Há de se tomar um antídoto contra ‘Lawfare’, ‘Fake News’, etc. Ninguém se engane, essas novas técnicas de comunicação vieram para ficar e se desenvolver sempre mais, já que repousam sobre um saber em pleno desenvolvimento, que ainda não revelou todas as suas potencialidades. Vivemos em sociedades cada vez mais ‘informáticas’, onde não só enormes conglomerados informativos derramam sobre nós diariamente um fluxo ininterrupto de informações, mas onde o Twitter também permite que cada um(a) de nós emita, por sua vez, informações e afirmações, a seu bel prazer.

Um exercício constante, uma meditação, momentos de reflexão diária, um exercício contínuo e diário de domínio inteligente sobre o pensamento, tão necessário – ou até mais – que o exercício físico que fazemos diariamente para ficar em forma.

Num texto próximo, sob o mesmo título, me proponho tratar da luta pela palavra nos inícios da história do cristianismo. Isso significa que o Papa Francisco está inserido numa longa história de luta pela palavra evangélica.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

terça-feira, 11 de junho de 2019

A VIDA É SUBVERSIVA E RESISTE




Por Marcelo Barros

Como ocorre a cada ano, na 4a feira passada, 05 de junho, a ONU celebrou o Dia mundial do Ambiente. Organismos internacionais, responsáveis pelo cuidado com o planeta e o ar que respiramos, repetiram declarações pouco otimistas sobre a realidade. Nem precisamos mais ler documentos para saber que a situação da Terra devastada, das águas contaminadas, do ar poluído e do aquecimento global tem crescido sempre mais. Não é segredo para ninguém que, nos Estados Unidos, o presidente considera tudo isso bobagem e retirou o país de todas as convenções sobre o clima. No Brasil, o atual governante, discípulo e fiel seguidor de Trump, nos poucos meses em que está no poder, já liberou 170 novos tipos diferentes de agrotóxicos para envenenar nossos campos. Por serem perigosos à vida humana, vários desses produtos estão proibidos em países nos quais os cidadãos ainda têm algum controle sobre as políticas públicas. No Brasil e em países vizinhos, não há mais nenhum rio ou lagoa que não apresentem índices preocupantes de contaminação por resíduos químicos. Além disso, as empresas mineradoras que dominam regiões inteiras do país revelam total despreocupação com a segurança da população. A imprensa fala de represas da Vale do Rio Doce em Minas Gerais que apresentam risco de rompimento. No entanto, existem várias na mesma situação na região amazônica, assim como em países vizinhos.  

Cada vez mais cresce o número de cientistas que afirmam: o planeta Terra chegou ao seu limite. O estilo de crescimento econômico dominante na maior parte do mundo destrói as florestas para aumentar o agronegócio e o lucro dos mais ricos. Polui os rios e acaba com a vida que ainda existe nas águas. Torna o ar atmosférico irrespirável e cria doenças respiratórias e alérgicas antes inexistentes. A essa crise ambiental, se soma o desequilíbrio social. Nos últimos dez anos, a riqueza se concentrou nas mãos de cada vez menos pessoas. E 5% da humanidade tem uma renda econômica superior a mais de cem países do mundo.

A responsabilidade maior pela crise ecológica  e civilizatória cabe aos mais ricos. Eles são os que mais poluem e destroem a natureza. No entanto, na hora de pagar a conta e sofrer as consequências dessa atitude irresponsável e criminosa, somos todos nós,  seres humanos que sofremos. Quem mais padece com as inundações cada vez mais frequentes e as secas sempre mais prolongadas são sempre as populações mais empobrecidas.

Apesar de toda essa realidade tão grave, a mãe Terra e a natureza resistem. Desde finais de março, o sertão nordestino recebe chuvas. Hoje, rios represados para projetos capitalistas perderam o seu rumo natural. Não se pode mais cantar como Luiz Gonzaga na volta da Asa Branca: “Rios correndo, as cachoeira tão zoando, terra moiada, mato verde, que riqueza. E a asa branca, tarde canta, que beleza...”. Seja como for, a vida é subversiva e transgride os projetos da morte, impostos pelo poder econômico que domina o mundo. Esse milagre da subversão da Vida deve nos alegrar e nos encher de esperança. No entanto, ele não será por muito tempo, se nós não colaborarmos. É urgente que a humanidade opte pela Vida e, no lugar de algoz, se torne aliada da Terra, das águas e da natureza. Graças a Deus, em todo o mundo já existe uma verdadeira rede de organizações sociais e de iniciativas que propõem esse novo caminho para a humanidade.

As comunidades de várias tradições espirituais acreditam: a natureza é dom divino. Revela a presença do Espírito de Amor no universo. A Terra, as águas e todo o universo têm  uma sacralidade que merece ser respeitada e cuidada. A terra não é apenas propriedade a ser vendida e comprada. As plantas e animais não valem apenas pelo preço que lhe dão. Não podem ser vistos apenas por quantos quilos têm. Embora seja legítimo que na seleção natural e na reciclagem do tempo, uns seres alimentem os outros,  nós, humanos, formamos com todos os seres vivos uma Comunidade de Vida. E recebemos do Espírito do Amor que fecunda o universo a tarefa de zelar por todos com carinho e cuidado.

O remédio para a crise ecológica é resgatar o coração e incorporar a sensibilidade afetiva  e amorosa à racionalidade com a qual tomamos nossas decisões e planejamos o futuro. Sem essa sensibilidade, a tecnociência continuará sendo utilitarista, fria e funcionalista.

Em qualquer religião que seja, Espiritualidade é o caminho no qual nossa atividade e comportamento encontram sua centralidade no cuidado com a Vida. Trilhamos esse caminho de amor porque o vivemos na intimidade do Espírito que se revela como amor e se encontra conosco nesse percurso. Nesse domingo, os cristãos do Oriente e do Ocidente celebraram a festa de Pentecostes. Desde antigamente, a liturgia latina começa com um verso adaptado do livro da Sabedoria: “O Espírito de Deus enche todo o universo. Abraça toda a criatura e contém em si todo o saber, aleluia” (Sb 1, 7).



MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

segunda-feira, 10 de junho de 2019

EU TE AMO HOMEM



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Nada melhor do que a poesia de Adelia Prado para dizer hoje o que quero a este homem, ao meu homem: Ekke, na ocasião de nossos 50 anos de casados. Bodas de ouro, dizem.  Bodas da carne e do espírito, digo. Casados fomos, somos e seremos, unidos no gozo da carne assim como em seu declínio; na ebriedade do espírito assim como em sua aridez. Hoje como há 50 anos te amo, homem. 

            Eu te amo homem como no primeiro dia, no primeiro olhar e no primeiro beijo.  Na primeira palavra e na primeira conversa.  E quantas, quantas, e tantas conversas houve e ainda haverá entre nós dois, homem e mulher de palavra. Em nossa união, a palavra cria, elabora, expressa, liberta, reconcilia.  Eu te amo homem como na primeira palavra que ouvi de tua boca e que ainda ressoa em meus ouvidos. 

            Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia, diz a poeta.  E eu, que poeta não sou, digo. Não sabia mas pressentia.  E reconheci teu passo ao chegar, teu cheiro e tua voz.  E meu querer encontrou seu porto e seu lugar.  Quis e não sabia.  Agora ainda não sei tudo Mas pressinto e descubro a cada dia.  E me surpreendo e me excito com essa caixa perpétua de surpresas que é te conhecer e aprender a te amar na ausência perpétua de monotonia.

            Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno.

Te amo com a memória imperecível
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  Contigo aprendo desde e para sempre que amor é aprendizagem.  E neste meio século aprendi muita coisa, muito mais do que em estudos diplomas, títulos e doutorados.  Sigo aprendendo.  O que a memória ama fica eterno. Acrescento e é fecundo.  Fica eterno porque não morre.  É fecundo porque gerou e gera vida. Aprendemos juntos a criar. Criamos e continuamos imprimindo no mundo essa memória imperecível que ficou eterna. 

            Nessa vida jutos muito fizemos. Construímos, plantamos, geramos viajamos.  Mas nossa principal viagem tem sido ao interior e ao redor de nós mesmos.  Peregrinar todo dia ao encontro do coração da humanidade é bom bastante e lindo.  E, para nós, a humanidade tem múltiplos rostos e nomes.  Mas todos sintetizados concentrados em um só: você, homem e eu, mulher. Por isso te amo homem por me ensinares a diferença e a comunhão, a tolerância e o perdão, o maravilhar-me e o horrorizar-me, o riso e o pranto.

            Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor. Isso que foi dito desde o princípio e mesmo antes de todos os princípios, pois o Verbo era no princípio, me tem sido dito por tua boca e sobretudo por tua pessoa, homem, ao longo de todos esses anos. No teu amor, na tarefa de amar-nos todo dia, às vezes leve, às vezes pesada, às vezes fácil, outras tão difícil, às vezes prazer, às vezes esforço, às vezes evidente bênção, às vezes tentação de mágoa e rancor, às vezes silêncio de morte, às vezes explosão de vida, tenho aprendido o que quer dizer essa definição que o Novo Testamento faz de Deus.  Deus é amor. 

            Todas as coisas disso falam, mas tu falas disso tudo com mais eloquência.  E mais pertinência.  E mais verdade.  Por isso, te amo homem, agora como ontem, ontem como hoje, hoje como daqui a muitos anos em nossa carne imortalizada na prole genética e espiritual, em obras que só Deus conhece, razão pela qual existem grande e maravilhosamente. 

            Te amo homem, amante, companheiro e amigo, sonhador de sonhos comuns. Te amo pelas aventuras excitantes e pelo ritmo diuturno das pequenas coisas. Pelas corridas mundo afora e pelos passos palmilhados pelo chão da casa. Pelas noites e pelos dias. Pelo pôr do sol de beleza estonteante empalidecido pela beleza de teu corpo descansando na rede, enquanto as crianças corriam no jardim. Pela paixão e pelo afeto repousado. Pelos corpos entrelaçados e pelo afeto e pelo afago meigo.

            Te amo homem pelo respeito e pelo carinho, na saúde e na doença.  Pela paciência e pelo estímulo no sucesso e no fracasso. Pela história escrita a quatro mãos que junto a muitas outras vão transformando o mundo.  Pela fidelidade a toda prova que tece e borda a nossa vida, protegendo-a de desvios e des-fios, de distrações e traições. 

            Te amo homem por esse sorriso e esse olhar.  Sorriso capaz de ordenar meu caos primitivo.  Olhar capaz de embelezar-me e enfeitar-me como noiva adornada para esposo. Te amo neste momento como em todos.  Tem sido tão bom viver juntos, ser jovens juntos, maduros juntos.  E agora envelhecer juntos.  Graça dada e recebida hoje com imensa gratidão. 

            Te amo homem, porque tens sido meu e eu, tua. E isso é belo de se ver e melhor ainda de se viver.   

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco).

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